A RELAÇÃO DE BILINGÜISMO
ENTRE AS LÍNGUAS GALEGA E CASTELHANA
Valéria Gil Condé (USP)
0. Introdução:
Por trás da idéia de um país monolingüe, esconde-se um purismo lingüístico, muitas vezes, associado a polidez e refinamento, e que só encontra eco no aprimoramento das raças. Se uma sociedade, após lutas ou não, aceita seu caráter multiracial, a soberania do monocentrismo lingüístico perde sua voz; e, com o novo modelo social, instaura-se a pluralidade lingüística. Com o término da ditadura do general Franco, após sua morte, em 1975, instaurou-se a democracia no estado espanhol.
1. Monolingüismo espanhol:
“El dialecto es causa grave que se opone grandemente al aprendizaje del armonioso, rico, inimitable y melodioso idioma de nuestra España”.[1]
O galego, falado na Espanha, de língua de cultura com imenso prestígio social (séculos XIII e XIV), perdeu sua hegemonia para o castelhano. Desde então, de língua escrita, restringiu-se a dialeto com manifestação oral. Os séculos subseqüentes caracterizaram-se por algumas manifestações culturais isoladas, preciosas, porém, com poucas repercussões. Contudo, delineava-se um novo modelo político, estamos falando do século XX, sete séculos de hiato na cultura da Galiza, mais precisamente em 1978, quando o estado espanhol reestruturou seu território em Comunidades Autônomas.
2. Bilingüismo Social:
“Galicia do si, do non e do quen sabe,
dúbida inmensa
a falar sempre o que lle mandan
sen deci-lo que pensa.
Cando ,Galicia verdadeira?”
Atualmente, a Comunidade Autônoma da Galiza congrega em seu território duas línguas: o castelhano que, associado à idéia de purismo lingúístico, foi modelo de refinamento e ascensão social, e o galego, língua autóctone, que, falado por uma minoria social, mas que corresponde a 76% de sua população.
Amusategi[2], ao divulgar as idéias de Stewart e Fishman sobre variedades lingüísticas, sugere que, para que uma língua garanta sua sobrevivência, há que se obedecer a algumas condições, tais como, autonomia, normatividade, historicidade, vitalidade.
a) Autonomia: em território galego, o castelhano, devido a seu prestígio econômico e social, reinou soberano e único por mais de sete séculos; restando à língua galega somente o sonho da autonomia. Atualmente, em situação bilingüe, e, em relação ao castelhano, o galego goza de uma autonomia relativa.
| (...)“Galicia da door | chora á forza |
| Galicia da tristura | triste á forza |
| Galicia do silencio | calada á forza |
| Galicia da fame | emigrante á forza |
| Galicia vendada | cega á forza |
| Galicia tapeada | xorda á forza |
| Galicia atrelada | queda á forza(...)”[3] |
b) Normalização: Seria oportuno estabelecer a diferença entre dois conceitos: normalização e normativização. Segundo Coseriu normalização é a “realização normal do sistema”[4], ou seja, “a norma que seguimos necessariamente por sermos membros de uma comunidade lingüística.”[5]
Seguindo esse conceito, a comunidade lingüística da Galiza, nesses sete séculos de convivência bilingüe, necessita depurar sua língua de incursões estrangeiras, no caso castelhanas, e que são alheias a seu sistema. Importações castelhanas, no léxico são inúmeras. Poucas são as influências na morfologia e na sintaxe, pois, “mudar as locuções é tocar nas obras vivas: é atacar um patrimônio que representa séculos de pesquisas e esforços.”[6]
Normatividade: diz respeito à eleição de um modelo, um paradigma aceito e seguido pelos usuários de uma mesma língua. Esse modelo pode ser artificial, criado por lingüistas, filólogos ou ser o resultado de prestígio social e político de uma das variantes lingüísticas. Uma normativização foi proposta recentemente, em 1983, e vem gerando muitas controvérsias; a título de exemplo, o sufixo –ble, codificado pela norma padrão, encontra variantes, tais como –ábel, ável, documentadas em escritores e meios de comunicação(jornais, revistas, etc). Observando-se essas diferenças, pode-se inferir que, a norma proposta aproxima-se do paradigma castelhano.
Os gramáticos do século passado, como, por exemplo, Fénelon, em relação à língua francesa, afirma: “As pessoas mais polidas custam a corrigir certos modos de falar que adquiriram durante sua infância na Gascunha, na Normândia ou mesmo Paris, pela influência dos criados... (...) A própria corte não está isenta de falhas. Ela se ressente um pouco, continua Fenélon, da linguagem de Paris, onde as crianças da mais alta condição são geralmente educadas.” [7]
Pelos critérios de normatização do século passado, e que, ainda hoje, encontra seguidores em alguns territórios políticos, os dialetos não teriam seu modelo paradigmático e alguns, não se encontrariam na condição de língua. Percebe-se que esse critério encontra-se preso a condições sócio-políticas. Aceitar e codificar os dialetos e línguas autóctones, quer dizer respeitar e acolher a cultura de uma comunidade.
c) Historicidade: todo registro escrito em fontes literárias, não se restringe a um trabalho solitário e individual de um autor, na verdade, é o testemunho contemporâneo de inquietações e pensamentos de uma coletividade. Se uma cultura registrou suas situações cotidianas através de um sistema escrito, esta é uma maneira assaz rica de nos aproximarmos da história e cultura de nossos antepassados, e que, de certa maneira, é nossa também. Negar a escrita dos antepassados é negar nossa origem, daí a importância de estarmos em constante comunicação com o passado. Uma língua deve privilegiar seu caráter sincrônico, mas sempre com olhos voltados para a diacronia. Os trovadores galego-portugueses, por exemplo, são a memória do século XIII.
d)Vitalidade: algumas considerações políticas e culturais devem ser levadas em conta para que se compreenda o estágio atual da língua. Historicamente, o povo galego não considerou sua língua como apta a ser veiculada em todos os segmentos da sociedade. Havia uma diferença funcional entre o galego e o castelhano: o galego restringia-se ao domínio familiar, entre os falantes que não freqüentavam a escola. Em situações de comunicação , cujas exigências demandavam formalidade, tais como, administração, escola, igreja, meios de comunicação, liderava o castelhano. Com a promulgação da Lei de Normalização Língüística, em 1983, iniciou-se um processo de planificação lingüística, mas o que se nota é que sua influência é muito pequena.
Pode-se afirmar, que a escola, como promotora de ascensão social, como também de conhecimento, é um meio muito importante de veiculação de uma língua; a conclusão a que se chega, é de que a situação ainda é desfavorável para a língua galega:
Lingua que emprega o profesorado na docencia por hábitat de emprazamento do centro:[8]
|
Emprazamento do centro |
Só galego | Máis galego que castelán | Máis castelán que galego | Só castelán |
|
Aldea |
23,7 | 32,9 | 26,3 | 17.1 |
|
Vila |
6,7 | 14,6 | 51,1 | 24,7 |
|
Cidade |
3,3 | 10,5 | 56,6 | 27,6 |
Fonte: Rubal Rodríguez/Rodríguez Neira (1987,táboa 6/p.62).
Relação conflitante se nos apresenta a rádio e tv galegas: nos anos 90, a profa Camino Noia[9] realizou uma pesquisa de campo, e concluiu que a população galego-falante não decodifica a língua padrão galega, pois, seus locutores reproduzem um modelo acastelhanizado, distante do seu idioma oral.
Em geral, a política de equiparação lingüística do galego com o castelhano, esbarra numa condição social vertical: ambientes rurais, língua galega; ambientes urbanos, língua castelhana. Para atestar o exposto acima, realizou-se uma pesquisa, em regiões urbanas, em cidades com mais de 50.000 habitantes:
| Coñecemento: | A Coruña | Santiago | Ferrol | Lugo | Ourense | Pontevedra | Vigo |
| Enténdeo | 94,0 | 96,5 | 95,1 | 96,5 | 96,7 | 93,8 | 94,6 |
| Fálao | 80,7 | 90,7 | 80,8 | 90,5 | 89,4 | 84,0 | 81,8 |
| Leo | 53,9 | 63,1 | 50,5 | 60,9 | 56,3 | 49,4 | 49,2 |
| Escríbeo | 35,1 | 44,8 | 31,1 | 45,1 | 40,2 | 34,4 | 33,4 |
| Non Consta | 6,0 | 3,5 | 4,9 | 3,5 | 3,3 | 6,2 | 5,4 |
| Uso : | A Coruña | Santiago | Ferrol | Lugo | Ourense | Ponte vedra | Vigo |
| Úsao sempre | 15,9 | 38,1 | 13,3 | 37,4 | 35,7 | 23,4 | 18,8 |
| Úsao ás veces | 59,3 | 48,8 | 64,1 | 49,0 | 49,6 | 56,5 | 58,0 |
| Nunca o usa | 14,9 | 7,1 | 15,1 | 8,3 | 8,4 | 10,0 | 13,6 |
| Non consta | 9,9 | 6,0 | 7,5 | 5,3 | 6,3 | 10,2 | 9,7 |
Fonte: IGE: Censos de Poboación e Vivendas 1991. Poboación en vivendas familiares. Coñecemento e uso do idioma galego.
Com base na terminologia sobre a linguagem, criada por Chomsky, “competência”, refere-se ao conhecimento, e “desempenho”, ao uso, pode-se inferir que, o conhecimento(competência) que o falante galego possui de sua língua é satisfatório; o mesmo não se pode dizer, em relação ao uso(desempenho).
Francisco Fernandez Rei, filólogo e realizador do Atlas Lingüístico da Galiza relata o que pensa o galego sobre sua língua: “Para o galego comum persiste a crença que não falam um galego autêntico, porém um galego “chapurrado”( que é um adj. castelhano, significa falar um idioma c/ dificuldades) e que o idioma bem pronunciado se fala em determinado lugar; lugar esse associado a pouco desenvolvimento urbano e bastante rústico”.[10]
3. Conclusão:
Porém, foi outro jornalista, aliás galego e de passagem, como a galegos acontece tantas vezes, quem lançou a pergunta que ainda faltava fazer, Para onde vai esta água.[...] Sendo a voz galega, portanto discreta e medida, abafaram-na o rapto gaulês e o rompante castelhano, mas depois outros vieram repetir o dito arrogando-se vaidades de primeiro descobridor, aos povos pequenos ninguém dá ouvidos, não é mania da perseguição, mas histórica evidência.[11]
Perante o estudo acima, e, apesar do longo período de desgaleguização, o galego ainda não desapareceu. O castelhano continua sendo a língua de promoção social, numa relação bilingüe denominada “diglossia de adscrição”. A política de equiparação do galego com o castelhano, como prevê a Constituição Espanhola, deve ser muito estimulada por parte do governo galego. Por enquanto, há um bilingüísmo desequilibrado para o lado castelhano, consagrando seu prestígio social e antiga condição de língua oficial do estado. Apesar dos avanços políticos e culturais das minorias lingüísticas, ainda é grande o preconceito ideológico.
Um grande passo deve ser dado para assegurar a sobrevivência da língua: disseminá-la em diversos segmentos da sociedade: escola, trabalho, religião, veículos de massa, devolvendo à comunidade auto-estima lingüística, demonstrando que marginalização lingüística é coisa do passado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AMUSATEGI, K. R. Sociolingüística. Madrid : Sintesis, 1990.
BÉDARD, E & MAURAIS, J. La norme Linguistique. Col. L’ordre des mots, Le Robert. Paris, 1985.
BRÉAL, M. O que chamamos Pureza da Língua? In: Ensaio de Semântica: ciência das significações. Trad. de Aída Ferrás.et alii. São Paulo : EDUC,1992.
COSERIU, E. Teoria da Linguagem e Lingüística geral: cinco estudos. Trad. de Agostinho Dias Carneiro. Rio de Janeiro.: Presença; São Paulo.: Edusp.1979.
FERNÁNDEZ REI, M. Dialectoloxía da língua galega. Vigo : Edicións Xerais de Galicia, 1990.
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1986.
HOLTUS, G. MELTZELTIN, M. SCHMITT.(editor). Lexikon der Romanistchen Linguistik(LRL). Band/volume VI, 2. Gallego/Portugués, 1994.
REAL ACADEMIA[12] ESPAÑOLA. Diccionario De La Lengua Española. Madrid : Espasa Calpe, 21ª ed, 1997.
REAL ACADEMIA GALEGA. Pequeno Diccionario da lingua galega. A Coruña, 1993.
REAL ACADEMIA GALEGA. Normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego. 15ª ed. Vigo: Real Academia Galega e Instituto da Lingua Galega.1996.
VIEIRA, Yara Frateschi. Antologia de Poesia Galega. Campinas : Unicamp, 1996.