AS EDIÇÕES EM PORTUGUÊS DE O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA, DE C.S. LEWIS

Nataniel dos Santos Gomes (UFRJ / SUAM)

 

Algumas vezes perguntamos o significado da vida, o porquê de nossa existência. Será que vale a pena viver, se um dia vamos morrer mesmo? É óbvio que estas perguntas martelam a cabeça de muita gente e é preciso de uma resposta realmente esclarecedora para diminuir um pouco este dilema existencial.

No dia-a-dia do homem ocidental estas questões acabam tornando-se verdadeiras obsessões, pelo menos para algumas pessoas.

Como filhos do Iluminismo, nos tornamos amantes do Racionalismo, como se tudo pudesse ser desvendado pela lógica. O principal malefício de nos agarrarmos com todas as nossas forças nessa idéia é que descobrimos que é impossível desvendar o mistério da nossa existência desta maneira.

O famoso professor de Literatura Medieval e Renascentista da Universidade de Oxford C.S. Lewis (Clive Staples Lewis - 1898-1963) escreveu mais de 40 livros, alguns de crítica literária, de apologética, de filosofia, de poesia, de ficção científica e infanto-juvenis.

Várias vezes em sua obra ele tenta resolver este dilema do homem moderno através do Cristianismo.

Lendo e lecionando sobre a literatura da Idade Média e da Renascença ele teve contato com pensadores e escritores que contribuíram em muito para sua formação. Na sua juventude, ele se tornou ateu, mas acabou convertendo-se ao Cristianismo, muito influenciado pela leitura das obras de George MacDonald.

Boa parte de sua fama veio por causa de seus livros infantis, que são cheios de sua visão de mundo cristã. O nosso material de estudo é o primeiro volume da série Crônicas de Nárnia. A série é composta de sete livros: (1) O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, (2) Príncipe Caspian, (3) A Viagem no Peregrino da Alvorada, (4) Cadeira de Prata, (5) O Sobrinho do Mago, (6) O Cavalo e seu Menino, e (7) A Última Batalha. Este último recebeu a Medalha de Carnegie, como melhor livro infantil, como uma homenagem a toda coleção.

A tradução da série para a língua portuguesa foi feita pelo cronista Paulo Mendes Campos, exceto do último volume.

A ordem que demos acima é feita a partir das publicações, Lewis propôs uma outra ordem depois - cronológica da história, sugerida por um de seus leitores mirins - com o Sobrinho do Mago iniciando a obra, seguido de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa; O cavalo e seu menino; O príncipe Caspian; A viagem do Peregrino da Alvorada; Cadeira de Prata e a Última batalha.

A ABU, quando publicou a série, criou uma ordem alternativa, começando com O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (que é o livro principal, caleidoscópico, onde todos giram em torno), seguido de O sobrinho do Mago (que conta a gênese de Nárnia), O cavalo e o menino (a aventura se passa dentro de um espaço sugerido em umas poucas linhas de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa); O príncipe na Ilha Mágica; O navio da Alvorada; Cadeira de Prata; Última batalha.

No Brasil, a obra já esteve nas mãos de três editoras: Edições de Ouro (Ediouro), ABU (Aliança Bíblica Universitária do Brasil) e agora pela Martins Fontes.

Alguns títulos variaram de uma editora para outra. O Príncipe Caspian saiu pela Ediouro e pela ABU com o título O príncipe na Ilha Mágica; O cavalo e seu menino foi lançado pela ABU como O cavalo e o menino; A viagem do Peregrino da Alvorada foi publicado pela Ediouro e pela ABU como O navio da Alvorada; O sobrinho do mago, pela ABU saiu como Anéis Mágicos.

O sucesso tem sido tanto que alguns volumes já foram adaptados para a TV, em forma de filmes ou de desenhos animados. Isso sem contar um fragmento de sua vida ter sido adaptado numa peça teatral na Inglaterra com o título Shadowlands (Terra das Sombras), que acabou sendo adaptada para a TV e depois para o cinema. A última versão teve um elenco de primeiro escalão, com o Anthony Hopkins no papel de C.S. Lewis, e Debra Winger interpretando a sua esposa, a poetisa americana Joy Gresham, além de uma direção primorosa de Richard Attenborough.

Mas notamos que a obra possui figuras mitológicas que são incompatíveis com o pensamento cristão, na realidade, extraídas do paganismo. É claro, que C.S. Lewis não era um herege, mas um cristão influente em pensamento, e um homem muito a frente de seu tempo.

Seu objetivo era de olhar para a fantasia sem tirar os pés da realidade, criando um mundo imaginário, Nárnia. Criam-se seres bem distintos dos reais, usando figuras extraídas de vários mitos. São centauros, ninfas, bruxas, sereias, magos, faunos e tantos outros seres maravilhosos.

Como professor de Literatura, ele não era ingênuo em seu trabalho, sua intenção era obviamente de atrair a atenção do público para o Cristianismo, tendo as obras clássicas como “isca”.

Sabemos que Camões teve muitos problemas para a publicação de Os Lusíadas, sendo ameaçado de herege, por usar tantas figuras pagãs, mas não acontece nada parecido com Lewis.

Nesta multidão de lendas brotam seres perversos, como as bruxas, e os bondosos, como as fadas e os faunos. É neste período em que ninguém mais acredita nestas fantasias que ele utiliza desse material para o reelaborar e colocar à disposição dos leitores enfadados com o cotidiano. Sua atitude parece com a de Cervantes, lançando mão do sonho e da fala de seres mitológicos para expressar suas reflexões acerca da vida.

Tudo isso tem a intenção de pintar o ser humano o menos parecido possível com sua natureza física, mas ao mesmo tempo igual no sonhos, dilemas e necessidades. Desta forma, constrói uma fábula, como forma de dizer o que se pensa sem correr grandes riscos, e ainda atingindo o público de forma bem ampla.

Os problemas humanos são transportados para o plano antropomórfico, onde certos predicados são respeitados em seus seres: a maldade da bruxa, a falta de inteligência do burro, a coragem do leão etc. São seres mitológicos revestidos de forma humana, um pouco como nas lendas gregas.

É quando algumas crianças de nosso mundo entram em Nárnia, passam por várias aventuras e voltam, é que percebemos profundas modificações em seus comportamentos. A explicação para o transporte das crianças para outro universo não é nem um pouco científica, a experiência simplesmente acontece. As explicações são mágicas, e frustrantes para os que desejam uma especulação científica acurada. E a apologética, defesa da fé, vai fechando o seu cerco contra o racionalismo exagerado, mostrando que a razão sozinha não tem condições de prover uma resposta satisfatória para a existência.

Estes livros além de narrarem um mundo de fantasia, atraem vários leitores devido às suas abordagens de conceitos e valores universais, como a ética. A história começa quando uma criança, Lúcia, entra num guarda-roupas que a leva ao um mundo mágico, donde vem uma figura cristã sensacional: algo comum aos olhos humanos que se torna extraordinário quando experimentado, que contém um mundo.

Lewis convida o leitor a considerar e explorar o que parece óbvio, o guarda-roupas. Para tal é preciso crer no que não se pode ver, desafiando os seus leitores a considerem suas vidas como algo mais do que o existir e experimentarem novas oportunidades.

Mas, acabamos mostrando algumas mudanças nas edições da série no transcorrer do artigo. Agora gostaríamos de mostrar umas poucas mudanças, já que nosso espaço é curto, que ocorrem nO Leão, a Feiteiceira e o Guarda-Roupa, nesta nova edição da Martins Fontes .

Nas primeiras edições, que são da década de oitenta, a palavra lamppost foi traduzida como candeeiro, pouco utilizado hoje, mas agora saiu como lampião. A professora Gabriele Greggersen, sugere num anexo de sua tese de doutorado que se use poste de luz.

Quando as crianças entram em Nárnia, a nova edição diz que fazem de conta que são exploradores, na antiga registrava fingiam, para o verbo inglês pretend. Na época do “politicamente correto” parece-nos uma substituição interessante.

A professora Gabriele Greggersen ainda observa a redução do imperativo e do subjuntivo, a retirada do pronome de segunda pessoa do singular “tu”, além da substituição de vários estrangeirismos e bairrismos.

Nas duas primeiras editoras o nome do leão foi grafado como no original, Aslan, agora sendo substituído por Aslam.

Perto do final do livro, para ser exato no capítulo XIV, Aslam é tratado carinhosamente como Aslanzinho, sendo adaptado para Aslam, querido.

Algumas mudanças foram consideráveis, conforme observou a referida professora, para citar algumas entre as páginas 152 e 157, Não posso com esta horrível mordaça, é substituído por, Não suporto vê-lo com esta horrível mordaça. Outra mudança curiosa é E se conseguíssemos também desamarrá-lo é transformado em Será que conseguimos também desamarrá-lo; a ordem de algumas orações também foi modificada Também eu virou Eu também; e uma das mudanças mais curiosas ocorre em brincadeira da pesada, que passa a confusão de braços, pernas e pelos. Foi uma algazarra .

Na página 175, a nova versão traz E deram força para as pessoas comuns, que só querem viver e deixar que os outros também vivam, substituíndo Fizeram com que as pessoas vulgares, que só querem viver, deixassem então que os outros também vivessem.

A palavra original no inglês é ordinary, que traz o sentido de simples, que em momento algum desrespeita o homem. A frase original era and encouraged ordinary people who wanted to live and let live.

Estas são algumas breves observações sobre a obra infantil de C.S. Lewis e algumas comparações entre as traduções de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, com base nas observações da professora Gabriele, com o objetivo de estimular a leitura desse famoso escritor.

Mas, se este artigo despertou o seu interesse na obra de C.S. Lewis, você pode consultar a tese de doutorado da Profa. Gabriele Greggensen, defendida na Faculdade de Educação da USP, intitulada A antropologia filosófica de ‘O leão, a feiticeira e o guarda-roupa’ e a pedagogia de C.S. Lewis, consultar o site www.geocities.com/SoHo/Gallery/8496, (entre outros) ou buscar inúmeras informações de sua obra, que tem sido publicada no Brasil, (por exemplo, na livraria virtual Amazon, encontramos quase 500 referências ao seu nome).

Eis o levantamento bibliográfico da obra de C. S. Lewis:

 

Spirits in Bondage (pseudônimo Clive Hamilton). London: Heinemann, 1919.

Dymer (pseudônimo Clive Hamilton). London: Dent, 1926.

The Pilgrim´s Regress. London: Dent, 1933.

The Allegory of Love . Oxford: Clarendon Press, 1936.

Out of the Silent Planet . London: John lane, 1938 .

E. M. W. Tillyard. The Personal Heresy. London: Oxford UP, 1939.

Rehabilitations and Other Essays. London: Oxford University Press, 1939. The Problem of Pain. New York: Macmillan, 1940.

The Screwtape Letters . London: Geoffrey Bles, 1942.

A Preface to Paradise Lost . London: Oxford University Press, 1942.

Perelandra. London: John Lane, 1943.

Christian Behaviour. London: Geoffrey Bles, 1943.

Broadcast Talks . London: Geoffrey Bles, 1944.

Beyond Personality . London: Geoffrey Bles, 1944.

That Hideous Strength . London: John Lane, 1945.

The Great Divorce. London: Geoffrey Bles, Centenary Press, 1945.

Miracles: A Preliminary Study . London: Geoffrey Bles, 1947.

Arthurian Torso. London: Oxford University Press, 1948.

The Lion, the Witch, and the Wardrobe. New York: Macmillan, 1950.

Prince Caspian. New York: Macmillan, 1951.

Mere Christianity. Rev. ed. New York: Macmillan, 1952.

The Voyage of the Dawn Treader. New York: Macmillan, 1952.

The Silver Chair. New York: Macmillan, 1953.

Surprised by Joy . New York: Harcourt Brace, 1954.

English Literature in the Sixteenth Century Excluding Drama. Vol. III of he Oxford History of English Literature. Oxford: Oxford UP, 1954.

The Horse and His Boy. New York: Macmillan, 1954.

The Magician’s Nephew. New York: Macmillan, 1955.

The Last Battle. New York: Macmillan, 1956.

Till we have Faces . London: Geoffrey Bles, 1956.

Reflections on the Psalms. New York: Harcourt Brace, 1958.

The Four Loves. London: Geoffrey Bles, 1960.

Studies in Words . Cambridge: Cambridge University Press, 1960

The World´s Last Night and Other Essays . New York: Harcourt Brace, 1960.

A Grief Observed. London: Faber & Faber, 1961.

An Experiment in Criticism. Cambridge: Cambridge University Press, 1961.

They Asked for a Paper . London: Geoffrey Bles, 1962.

Letters to Malcolm. New York: Harcourt Brace, 1963.

The Discarded Image. Cambridge: Cambridge University Press, 1964.

Poems. London: Geoffrey Bles, 1964.

Screwtape Proposes a Toast and Other Pieces. London: Collins Fontana, 1965.

Of other Worlds. London: Geoffrey Bles, 1966.

Christian Reflections. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1967.

A Mind Awake. London: Geoffrey Bles, 1968.

Narrative Poems. London: Geoffrey Bles, 1969.

Selected Literary Essays. Cambridge: Cambridge University Press, 1969.

Studies in Medieval and Renaissance Literature. Ed. Walter Hooper. Cambridge: Cambridge UP, 1966.

Letters to an American Lady. Ed. Clyde S. Kilby. Grand Rapids: Eerdmans, 1971.

Fern-Seed And Elephants and Other Essays on Christianity . London: Collins-Fontana, 1975 .

The Dark Tower and Other Stories. London: Collins, 1977.

The Joyful Christian . New York: Macmillan, 1977.

The Weight of Glory and other addresses . New York: Macmillan, 1980.

On Stories. London: Collins, 1982.

On Stories. Ed. Walter Hooper. New York: Harcourt Brace, 1982.

Letters to Children. Ed. Lyle W. Dorsett and Marjorie Lamp Mead. New York: Macmillan, 1985.

Boxen. London: Collins 1985.

Letters Macmillan of C. S. Lewis. Ed. Walter Hooper. Rev. ed. New York: Harcourt Brace, 1988.

The Essential C. S. Lewis. Ed. Lyle W. Dorsett. New York:, 1988.

The Quotable Lewis. Ed. Wayne Martindale and Jerry Root. Wheaton, IL: Tyndale House, 1989.

All My Road Before Me . San Diego: Harcourt Brace Jovanovich, 1991.

Readings for meditation & reflection . New York: Harper Collins Publishers, 1992.

God in the Dock: Essays on Theology and Ethics. E d. Walter Hooper. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970. Reedição de Undesceptions, que reúne God in the Dock, First and Second Things & Timeless at Heart

C.S. Lewis: First and Second Things. London: Geoffrey Bles, 1944.

C.S. Lewis: Timeless at Heart . London:Geoffrey Bles, 1987.

Present Concerns , edited by Walter Hooper. London: Harcourt Publishers, 1986.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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---. Cristianismo e as Fábulas de C.S. Lewis [mss.], 1999.

---. Figuras mitológicas em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S. Lewis. [mss.], 1999.

---. História da redenção em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S. Lewis, a. [mss.], 1999 .

---. Literatura apologética de C.S. Lewis. In.: ABU. A.B.U.grafia. Rio de Janeiro: ABU, 1999.

GREGGERSEN, Gabriele. A antropologia filosófica de “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa” e a pedagogia de C.S. Lewis. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Educação da USP. São Paulo: FFLCHUSP, 1998.

---. Através do guarda-roupas: educação cristã pelo conto-de-fadas. [mss.], 1999.

---. C.S. Lewis: o humor na medida certa. In.: GREGGERSEN, Gabriele. Nem vice nem versa - contos e ensaios. Coleção Videtur - Libro 6. São Paulo: CEAr/DLO/FFLCHUSP; Mandruvá, 1999.

---. Estudos lewisianos nos Estados Unidos. In.: GREGGERSEN, Gabriele. Nem vice nem versa - contos e ensaios. Coleção Videtur - Libro 6. São Paulo: CEAr/DLO/FFLCHUSP; Mandruvá, 1999.

---. Um encontro e tanto. In. Ultimato. Ano XXXI. Viçosa, 1998.

GREGGERSEN, Gabriele; GOMES, Nataniel dos Santos. Mais além das sombras com C.S. Lewis: roteiro de leitura de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas. [mss.], 1999.

LEWIS, C.S. O leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Tradução de Paulo Mendes Campos. Rio de Janeiro: Ediouro, [1980].

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---. The lion, the witch and the wardrobe. New York: Collier Books, 1973.