ANÁLISE ESTILÍSTICA DE ALGUNS POEMAS DE CECÍLIA MEIRELES (I)

Alessandra Almeida da Rocha (CiFEFiL)

 

1- INTRODUÇÃO

1.1 - OBJETIVO

Neste trabalho, procurei mergulhar fundo na obra de Cecília Meireles para compreender detalhadamente o lirismo em seus poemas. A obra de Cecília Meireles, desde a sua primeira leitura, deixou-me pensativa, pois abordam temas tão comuns ao meu íntimo e, creio, de toda a humanidade, tais como a morte, o amor, a fugacidade da vida, a efemeridade dos tempos.

A genialidade da poetisa em abordá-los, reflexivamente, sem aterrorizar-nos, tenta-nos, pelo contrário, acordar para uma realidade, suavemente, como é o ritmo de suas poesias, comprovado pelas palavras de Walmir Ayala: “(...) sente-se que o aprendizado da morte começou muito cedo para ela (...), uma visão muito dura e precoce em direção ao grande enigma(...)” (CM, PC, p. 13)

E nas palavras da própria Cecília Meireles, que alcançou seu objetivo ao ver sua obra reconhecida: “Acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tanto se deixam arrastar, mostrar-lhes a vida em profundidade, sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante” (CM, LC, p. 6)

Dedico-me a investigar a sua expressividade, seu simbolismo, seus ritmos, através da análise estilística, profunda e carinhosa, assim como são os poemas da autora, compreendendo o fascínio de sua obra durante o tempo e as surpresas que aparecem a cada estudo feito.

Aos que lerem o trabalho, entendam o que foi feito e entendam a razão de ser ela um dos grandes destaques do Modernismo Brasileiro até os dias atuais.

 

- CECÍLIA MEIRELES, A PASSAGEM DE UMA BORBOLETA VERSÁTIL

Cecília nasceu no Rio de Janeiro, em sete de novembro de 1901. Órfã de pai (morreu três meses antes do nascimento da filha), antes dos três anos de idade, perde também a sua mãe.

Resta-lhe a avó materna, moçambicana, que educa a menina, aprendendo desde então, sobre a morte, a vida, sua efemeridade e solidão, características que surgirão mais tarde em seus textos.

Toma gosto pela leitura e pela música desde criança.

Cecília segue o caminho de sua mãe, professora primária, em 1917, pelo Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Esse amor pelas crianças é traduzido nos livros Olhinhos de Gato, Ou isto ou aquilo e outras obras, assim como pelo seu empenho e dedicação para a implantação da primeira biblioteca infantil, em 1934.

Em 1919, publica sua primeira obra, Espectros, ainda com características simbolistas.

Já casada com Fernando Correia, que se suicida posteriormente, e mãe de três filhas, sua intensa produção não pára, produzindo crônicas sobre o ensino.

Sempre ativa, atuou inclusive no magistério, participando do movimento de 32 ao lado de Fernando Azevedo, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Hermes Lima e outros que propunham mudanças no sistema educacional.

Possui poemas publicados nas revistas “Árvore Nova” (1922), “Terra do Sol” (1924) e “Festa” (1ª fase: 27 -28; 2ª fase: 34 -35).

A autora era ligada ao grupo espiritualista que defendia a Literatura Brasileira “na base do equilíbrio e do pensamento filosófico”, nas palavras de Darcy Damasceno, o que não implicava compromisso de ordem doutrinária, mas apenas “delineava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo”, ainda segundo o estudioso.

Na primeira fase da poesia de Cecília Meireles, nota-se a influência da idéia Kantiana sobre a elevação dos valores individuais a categoria universal e percebe-se o isolamento do mundo, romanticamente, afastando-se a autora das “coisas mundanas”.

Entre 1930 e 1934, tempo que passou sem publicar poesias, dedicou-se à “Página da educação”, no “Diário de Notícias”, participando intensamente no processo de modernização da educação.

Em 1935, fica viúva e torna-se professora de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literárias da Universidade do Distrito Federal.

Seu livro Viagem, em 1938, recebe o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Publicado no ano seguinte, sendo reconhecida como grande escritora nacional. Internacionalmente, apenas posteriormente.

Casa-se em 1940 com o professor Heitor Grillo. Neste ano, leciona cultura e Literatura Brasileira na Universidade do Texas. Sucedem-se viagens a países da Europa e América Latina divulgando a nossa cultura.

Em 1942, publica Vaga Música, que trata de temas como o mar associado aos sons musicais, que são os veículos da viagem e dos sonhos da poetisa.

Em Mar Absoluto é reiterada a importância do mar para a compreensão da obra da autora, pois o mar simboliza natureza e a sua fusão com o ser humano, tendo sido publicado em 1945. Em 1949, publicação de Retrato Natural, no qual a autora se descreve suavemente. Doze Noturnos da Holanda e O Aeronauta foram escritos na Holanda em 1952. Romanceiro da Inconfidência, conta o fato histórico da Inconfidência Mineira. A poetisa conceituou como “uma narrativa rimada”, sendo publicado em 1953. As outras obras da autora foram : Canções e Girofê Giroflá, em 1956; Metal Rosicler, em 1960; Poemas escritos na Índia, 1962; Solombra, 1963 e Ou Isto ou Aquilo em 1964.

No dia 9 de novembro de 1964 falece no Rio de Janeiro, tendo em 1965, a Academia Brasileira de Letras conferido à poetisa o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.

 

- ESCOLHA DA AUTORA E DOS POEMAS

A escolha de Cecília Meireles veio por afinidade. Há dois anos, quando tive que elaborar um ensaio estilístico para o curso de especialização, estava perdida e ansiosa com o tempo que passava e com o trabalho que deveria ser feito.

Li poesias de vários autores, mas ao ler Motivo, senti que era este poema, essa poetisa, que deveria estudar. Ele envolveu-me e tocou-me profundamente. Entretanto, angustiava-me a monografia. Resolvi continuar com a mesma autora, Cecília Meireles, tendo sido sugerido pela professora e orientadora Iza Quelhas a escolha de outras poesias para a ampliação do estudo.

O critério para escolha dos poemas foi o mesmo de Motivo, o qual se encontra no trabalho: que me envolvesse e pudesse propiciar uma leitura da obra direcionada pelos estudos estilísticos.

Após uma leitura exaustiva da obra, foram escolhidos os poemas: Retrato, Epigrama n.2, Criança, Noções, Acontecimento, Herança e Assovio, que pertencem ao premiado livro Viagem, publicado em 1939, mostrando o seu amadurecimento e reconhecimento natural.

Neles vemos algumas características de Cecília: o lirismo; a consciência da efemeridade; o tempo das pessoas, das coisas; a solidão, a morte, a melancolia, a tristeza, preocupação com temas universais, reflexão filosófica e musicalidade.

Veremos a ligação entre cada um deles, que parece ter sido “costurado” pacientemente pela autora, ao final.

 

- ESTUDO DA OBRA NA ATUALIDADE

Ao pesquisar sobre a poetisa, li pesquisadores consagrados ao estudo da autora, tais como Leodegário A. de Azevedo Filho e, principalmente, Darcy Damasceno, apaixonado pela obra e profundo analista da poesia da autora.

Duas obras recentes chamaram a minha atenção. A primeira foi a dissertação de mestrado da professora Ruth Villela Cavalieri, que aborda o Ser e o Tempo em Cecília . O outro, o livro A Farpa na lira: Cecília Meireles na revolução de 30 , mostrando outra face de Cecília, aquela que criticava e lutava ferozmente pelo ensino brasileiro e sua modificação. Deparei-me, então, com seu lado político não suficientemente conhecido, o que foi interessante e auxiliou-me na compreensão de outros aspectos de sua obra.

Creio que existem outras, além destas, obras atuais sobre a autora, pois por mais que se fale, sempre se acham fatos novos sobre a poetisa.

 

2 - ESTABELECIMENTO DO CORPUS

Após leitura dos principais livros de Cecília Meireles, resolvi selecionar um conjunto de poemas que pudesse ser significativo para a compreensão de sua obra. Desse modo, os poemas escolhidos foram publicados no livro Viagem : Vaga Música. (Coleção Poesis, editora Nova Fronteira, 1982). Este esclarecimento é feito para se conhecer de qual obra foram tirados os poemas em estudo, sem fazer-lhes nenhuma alteração.

Os poemas escolhidos remetem,cada um com sua especificidade ao tema da viagem, apesar de construções e abordagens diferentes, sugerindo uma trajetória espiritual repleta de diferentes matizes.

 

- ANÁLISE ESTILÍSTICA E RECURSOS USADOS

Este estudo procura focalizar um determinado corpus da obra de Cecília, mesmo assim, esse estudo também pretende ampliar algumas questões. Então, faz - se necessário um pequeno esclarecimento sobre o campo estilístico utilizado.

Como a poesia ceciliana explora muito os recursos da musicalidade, fez-se necessário compreender alguns aspectos da fonologia, destacando o uso das assonâncias, aliterações, rimas, cavalgamentos, cesuras e a sua significação em relação ao poema e à obra. Em alguns momentos nos detivemos no emprego de algumas classes de palavras, significativas na poesia ou em alguns aspectos da sintaxe, procurando estudar a significação de palavras ligadas aos seus aspectos expressivos, isto é, o seu léxico-semântico.

Notar-se-á que aspectos da estilística fônica, léxica, semântica foram privilegiadas por destacarem as construções características da obra ceciliana.

Figuras como a antítese, a metáfora, o hipérbato, a gradação, a anáfora, a epanadiplose e outras serão vistas e comentadas o seu aparecimento, mostrando os significados que nos podem sugerir. A pontuação também, em alguns momentos, será estudada.

 

3 - ANÁLISE DOS POEMAS

3.1- “Motivo”

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta

 

Irmão das coisas fugidias;

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou se passo

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada

E um dia sei que estarei mudo:

- Mais nada

 

Logo que iniciamos a leitura do poema, notamos que é todo elaborado em primeira pessoa, trata-se do “eu” lírico, que se refere à subjetividade, ao íntimo, à descrição dos sentimentos. Observemos este exemplo.

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa

 

Notamos também a presença de vários predicativos do sujeito, referindo-se à subjetividade do “eu” lírico. Exemplificando:

 

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.

 

No poema, como um todo, percebemos logo de início algumas das principais características da poesia de Cecília Meireles, tais como leveza e a delicadeza com que tematiza a passagem do tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade dos objetos, que parecem intocáveis em seus poemas, com uma linguagem altamente feminina, intuitiva e sensorial, decorrendo assim, um certo tom melancólico dos mesmos.

Exemplo:

Irmão de coisas fugidias

Atravesso noites e dias no vento

 

Alfredo Bossi, em seu livro História Concisa da Literatura Brasileira, define: “Com Cecília Meireles a vertente intimista, (...), afina-se ao extremo e toca os limites da música abstrata”. (AB, p. 515)

É importante ressaltar que, por ter estudado música, seus poemas tematizam a musicalidade como uma importante característica. Exemplos:

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada

 

No último terceto do soneto, primeiro verso, há aliteração da oclusiva /k/, o que sugere o ritmo da batida do coração, quando eterniza a música, a canção, enquanto a assonância da vogal /a/ sugere um sentimento de alegria do “eu” lírico.

Na primeira estrofe, o “eu” lírico dá importância ao tempo presente, à criação do seu poema. Afirma que o poeta declara os sentimentos para as pessoas, mas o poeta é imparcial.

No terceiro verso desta estrofe há uma antítese entre “alegre” X “triste”. Entretanto, ao colocar as palavras “não” e “nem”, o “eu” lírico dá um tom de indiferença, mas a melancolia persiste com o uso das consoantes semi-abertas /o/, /e/ e as vogais fechadas /u/ e /i/.

O “eu” lírico se contenta em ser apenas poeta, como afirma no quarto verso deste quarteto, apesar de a sua existência ser triste.

Outra ocorrência importante e recorrente na obra de Cecília é o uso dos verbos “existir” e “ser”, que sugerindo o tom existencialista de Cecília Meireles.

Na segunda estrofe, chama a atenção ao valor que se dá às coisas passageiras, para que não nos prendamos a elas, pois passam como o vento. Deve -se agir como o poeta, que é livre, como o vento. Logo, não sente “gozo” nem “tormento”.

Em seu primeiro verso há assonância dos fonemas /a/, /i/, /o/ e a presença do fonema /s/, ocorrendo uma aliteração, que lembra a passagem do tempo, de forma rápida, com um vento, como diz o “eu” lírico.

Na terceira estrofe, percebemos um conflito interior, uma dúvida do “eu” lírico, que não sabe qual decisão tomar: a de parar ou a de continuar. A dúvida com relação a sua existência permanece na repetição da expressão “Não sei”. Ocorre uma antítese entre as formas verbais “fico” (terceiro verso) e “passo” (quarto verso), pois a transitoriedade da vida mais uma vez é questionada. As formas “fico” (terceiro verso) e “edifico” (primeiro verso) estão rimando e nós podemos pensar que, enquanto vivemos, edificamos algo na terra, de ordem espiritual ou material, mas quando “passamos”, tudo se desfaz, como observamos na rima que acontece no segundo e no quarto versos.

Na quarta estrofe, o “eu” lírico reafirma a importância dada ao presente, ao tempo do “agora”, inicia- do na primeira estrofe, pois o poeta continua a cantar e diz que a canção é tudo, assim como o poema, porque são eternizados com o passar do tempo, assim como o vôo ritmado das asas dos pássaros, enquanto que ele e nós somos finitos - um dia, ficaremos mudos e não seremos mais nada. A música, que muitos consideram desnecessária, será e é eterna, como o espírito.

Esse poema é todo elaborado em antíteses, o que se pode observar em: “alegre” # “triste”; “noite” # “dia”; “desmorono” # “edifico”; “permaneço” # “defaço”; “fico” # “passo”.

Percebemos, então, que o poema é uma metáfora que representa a fugacidade da vida e como as pessoas a deixam passar, sem dar o real valor ao que realmente importa, também notamos a existência de um eufemismo nos terceiro e quarto versos da última estrofe, pois se evita a palavra morte, substituindo-a por uma expressão menos desagradável.

Vejamos:

E um dia sei que estarei mudo:

- Mais nada.

 

Notamos também no interior de alguns versos, uma pausa interna, denominada cesura, na qual o “eu” lírico faz uma reflexão sobre o que vai tratar poeticamente.

Exemplos:

 

Eu canto / porque o instante existe

Não sou alegre / nem sou triste

Não sei, / Não sei./Não sei se fico.

Ou passo.

Sei que canto / E a canção é tudo.

Tem sangue eterno / a asa ritmada.

 

No segundo verso da quarta estrofe, aparece o hipérbato, que resulta da inversão na ordem natural das palavras relacionadas entre si, realçando a eternidade do espírito.

Analisemos:

 

Tem sangue eterno a asa ritmada

 

Nas últimas estrofes podemos dizer que ocorre a gradação, ou seja, o encadeamento gradual dos termos relativos a uma idéia, que intensifica a dúvida do “eu” lírico sobre uma decisão a ser tomada.

Vejamos:

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

No poema de Cecília Meireles notamos a presença de uma certa feição do clássico no Modernismo, principalmente no que se refere às rimas, no caso do poema todo composto de rimas alternadas.

Na primeira estrofe, há a rima do primeiro e terceiro versos e do segundo e do quarto versos. Na segunda estrofe ocorre o mesmo esquema: primeiro e terceiro versos e segundo e quarto versos. Na terceira estrofe: primeiro e terceiro versos. Na quarta estrofe: primeiro e terceiro versos e do segundo e quarto versos.

Observamos, também, a existência da rima rica, ou seja, rimas entre palavras de classes gramaticais diferentes, na primeira estrofe, o primeiro e terceiro versos e segundo e quarto versos. Também, na segunda estrofe, o primeiro e terceiro versos. No restante do poema, constata-se a presença da rima pobre, isto é, rimas com palavras de classes gramaticais semelhantes. A herança simbolista da poeta é reconhecida por essas métricas.

Notamos a existência do encavalgamento em duas partes do poema, ou seja, o sentido de um verso é interrompido no final do mesmo e vai completar-se no próximo:

 

Não sou poeta nem sou triste:

Sou poeta.

 

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se permaneço ou me desfaço

- Não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

 

Ocorre a crase, ou seja, a fusão de sons semelhantes em:

 

Eu canto porque o instante existe

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço

 

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E uma dia sei que estarei mudo:

 

Existe a presença da sinalefa e do hiato, que é denominado “o encontro de dois elementos vocálicos semelhantes cuja pronúncia obriga a manutenção da abertura da boca, podendo ocorrer entre duas palavras, enunciados sem pausa ou no interior da mesma palavra”, nestes versos: (GC, PDAP)

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia estarei mudo:

- mais nada.

 

O uso dessas figuras denominadas cavalgamento, sinalefa, hiato e crase contribuem para a prorrogação da reflexão na primeira figura citada e a efemeridade da vida, nas duas posteriores.

Ocorre a sinérese, fusão, numa só, de duas vogais próximas pertencentes a sílabas distintas na primeira estrofe do quarto verso, ou seja, a passagem de um hiato a ditongo e também na quarta estrofe, no terceiro verso.

O poema Motivo é riquíssimo de significações e através da detecção dos fatos estilísticos vemos como a poetisa os utiliza com tanta propriedade, criando o seu estilo, que o torna único.

O título Motivo pode significar uma esperança que o “eu” lírico sente para poder continuar vivendo, apesar de conscientemente saber que ela, a vida, é uma passagem para um outro plano desconhecido.

 

3.2 - “Retrato”

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

No início da leitura do poema “Retrato”, notamos também a presença da primeira pessoa, o “eu” lírico descrevendo o seu próprio rosto, esse rosto que ele não mais reconhece como sendo o seu, como nesse primeiro verso: Eu não tinha esse rosto de hoje, a idéia é intensificada pelo advérbio de negação e pelo pronome demonstrativo, que sugere a passagem de tempo, a transitoriedade da vida; e a melancolia do “eu” lírico ao fazer esta constatação, continuando no segundo verso, no qual há a repetição da palavra “assim”, que indica uma mudança ocorrida tanto no íntimo, na personalidade, como em assim calmo, assim triste, quanto fisicamente, “assim magro”.

O uso seguido da palavra “assim” dá um ritmo lento a esse verso, como se a sugerida passagem fosse tranqüila e quase imperceptível para o “eu” lírico.

Na terceira estrofe a constatação continua na percepção dos olhos tão vazios, devido aos sofrimentos e experiências vividos e o lábio amargo, no quarto verso dá continuidade a essa idéia. Ocorre uma anáfora, nome dado à figura que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no começo de vários versos, da palavra “nem” no início do terceiro e quarto versos desta primeira estrofe, na qual o “eu” lírico continua reiterando a sua negação da percepção de suas mudanças.

No primeiro verso da segunda estrofe, o “eu” lírico observa a mudança ocorrida, nas suas mãos, partes significativas e simbólicas do corpo e que simbolizam força e luta pela vida, no poema, esse hoje é sem força e já não se luta mais como nos tempos remotos, passados. O “eu” lírico continua descrevendo-as no segundo verso como tão paradas e frias e mortas, destacando-se o tom melancólico. Novamente, nesse verso a repetição da conjunção “e” imprime lentidão ao ritmo do verso e sugere a passagem da vida para morte.

Ainda nesta estrofe, no terceiro verso, o eu lírico descreve seu coração, metáfora para os seus sentimentos, que, antes, eram mostrados, expostos e atualmente estão retraídos, escondidos, como é dito no quarto verso.

Ocorre na segunda estrofe uma anáfora, com a expressão “eu não tinha” que introduz o poema. É o “eu” lírico reafirmando a não percepção dessa passagem de tempo, o que provoca um sentimento de perplexidade.

Na terceira estrofe, no primeiro verso, o “eu” lírico percebe e assume que mudou fisicamente e interiormente e que isto foi tão simples, tão certa, tão fácil, como se lê no segundo verso. Mais uma vez, o poeta fala-nos da transitoriedade da vida, dessa “passagem” para outro lugar, passagem esta que é universal, pois acontecerá com todos nós, sem saber quando, nem onde, e, mesmo assim, ficamos surpresos com isto. Há a repetição da palavra “tão” mostrando a certeza da evolução e o ritmo torna-se acelerado como a passagem da vida.

No penúltimo e último versos da última estrofe há um questionamento “eu” lírico, que fica desejoso em saber em que momento ele perdeu a sua vitalidade. O poeta fala isso no poema metaforicamente: “espelho” seria o lugar, o momento; “face” seria a vida, a juventude.

Cecília Meireles, magnífica e liricamente, aborda o tema da passagem da vida e da sua transitoriedade de maneira filosófica, universal e simples, influências estas recebidas do grupo espiritualista ao qual pertenceu, o que aparece em toda a sua obra.

Sobre essa transitoriedade e fugacidade do tempo, Darcy Damasceno, em Poesia do Sensível e do Imaginário, afirma: “Contínuo latejar, a consciência da fugacidade não apenas se torna a mola mestra do lirismo, como, por ansioso esforço de apreensão do fugidio, busca no concreto as amarras dos fios imaginativos”. (p. 37)

Observamos neste poema a gradação que ocorre nestes versos:

 

assim calmo, assim triste, assim magro

tão paradas e frias e mortas

tão simples, tão certa, tão fácil

 

Essas gradações sugerem a evolução, a passagem de tempo do poema.

Em dois momentos ocorre o cavalgamento:

 

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

Ocorre a sugestão ou a impressão de que o “eu” lírico fez uma pausa no seu pensamento ao constatar todas as mudanças ocorridas.

Ocorrem cesuras nos seguintes exemplos:

 

Eu não tinha / este rosto de hoje

Eu não tinha / estas mãos sem força

eu não tinha / este coração

Eu não dei / por esta mudança

 

Este recurso nos sugere a conscientização do “eu” lírico, da sua mudança lenta e gradual.

É interessante ressaltar que o poeta faz um jogo com as palavras “magro” (o segundo verso, primeira estrofe) e “amargo” (quarto verso, primeira estrofe). As letras da primeira aparecem inseridas e na segunda, como se o final da existência estivesse por pouco tempo e isso o deixa amargurado. Isto ocorre novamente em “mortas” (segundo verso, segunda estrofe) e “mostra” (quarto verso, segunda estrofe), significando que a morte sempre se mostra em nossa vida.

O poeta segue a estrutura de três estrofes e cada uma delas é composta por quatro versos, resquícios da influência simbolista e sua forma tradicional, nunca abandonadas por Cecília.

Ela utiliza principalmente de assonâncias de /e/ e /o/:

 

Eu não tinha este rosto de hoje

nem estes olhos tão vazios

 

Dando-nos um sentimento e uma idéia de melancolia permanente. Usa também de aliteração de /r/ em:

 

tão paradas e frias e mortas

 

Nesses versos indica-se o grande obstáculo que é a morte. Nota-se a musicalidade presente, fato característico no poema.

Também notamos as impressões sensoriais sugeridas no poema., principalmente a imagem visual que surge com o uso das palavras “rosto”, “calmo”, “triste”, “magro”, “olhos”, “lábio”, “mãos”, “espelho”, “face” e a imagem do paladar e do tato em “amargo”, “força”, “parada”, “fria”, “morta”, sugerindo que o corpo demonstra toda sua tristeza, toda a sua “passagem” desta vida para o desconhecido.

O título Retrato se encaixa perfeitamente ao poema porque a palavra simboliza algo estático, parado, eternizado e o “eu” lírico ansiava se eternizar, porém o tempo não permitiu e, por isso, ao final do poema se indaga em que momento de sua vida a sua juventude foi eternizada pela imobilidade, como acontece nos álbuns de família.

 

3.3 - “Epigrama Nº 2”

 

 

És precária e veloz, Felicidade.

Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.

Foste tu que ensinastes aos homens que havia tempo,

e, para te medir, se inventaram as horas.

 

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:

porque um dia se vê que as horas todas passam,

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

 

O poema é iniciado por um predicativo do sujeito que vem antecedendo a palavra “felicidade”, ao fazer uma afirmação sobre a mesma. É narrado em segunda pessoa:

 

És precária e veloz, Felicidade.

 

A palavra “felicidade”, neste verso funciona como um vocativo, pois é personificada. Assim, ela passa a ter vida e a ser tratada como uma pessoa que convive entre nós. O predicativo, citado , já nos sugere a transitoriedade e a fugacidade da felicidade, como vemos em:

 

És precária e veloz, Felicidade.

 

No segundo verso desta primeira estrofe, o “eu” lírico parece conversar com a “Felicidade”, mostrando que é difícil prendê-la, pois a sua passagem é rápida, quase não se percebe a sua existência.

No terceiro verso, há uma inversão “Foste tu”, sugerindo que o “eu" lírico culpe a “Felicidade” por fazer com que os homens acreditem na existência do tempo, que viviam melhor antes desta noção.

A atribuição da culpa continua na quarta estrofe, pois se afirma que a Felicidade ensinara aos homens a invenção das horas para medir o tempo, para marcar o momento de felicidade que eles têm em suas vidas, visto que ela (a felicidade) é extremamente passageira. A respeito disto, a própria Cecília Meireles define a felicidade: “Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros” (CM, LC, p. 15)

Para ela, esse sentimento é mutante, fugaz, como foi observado no poema, até então.

A personificação da “felicidade” continua a ser usada, pois esse vocativo surge novamente nesse primeiro verso, da segunda estrofe, seguido do predicativo do sujeito “és coisa estranha e dolorosa”. Notamos uma percepção do “eu” lírico sobre a “felicidade”, ou seja, quanta dor ela é capaz de deixar. Há uma antítese entra as palavras “felicidade” X “dor”, indicando o contraste que existe. Achamos que quem é feliz não sofre e essa idéia é desconstruída, pois é através da dor, do sofrimento, que alcançamos a felicidade.

No segundo verso da segunda estrofe, o “eu” lírico categoricamente afirma que a vida sempre será triste porque os homens buscam uma coisa que dura pouquíssimo tempo, que existe em apenas alguns momentos, como é observado no terceiro verso, que diz:

 

porque um dia se vê que as horas passam

 

A palavra “horas” é uma metáfora e significa tudo, ou seja, felicidade, vida, objetos e que acabarão sem deixar marcas de sua presença.

No último verso desta última estrofe, há continuidade do verso anterior, como se fosse finalizada a sua conversa, pois apenas o tempo continuará a existir, porém sem ninguém, acima de nações e povos, persistirá e existirá durante as gerações e os milênios.

O tema abordado é do da fugacidade da felicidade, de sua meteórica passagem na vida de cada ser humano, que também é muito breve. Existe uma ligação entre a fragilidade da vida e da felicidade, pois nós vivemos buscando a felicidade, deixamos que passe em pequenos momentos do nosso dia-a-dia, enquanto o tempo, imperdoável, age silenciosamente.

Ocorrem rimas alternadas entre as palavras “demoras” (segundo verso, primeira estrofe) e “horas” (quarto verso, primeira estrofe), sugerindo a passagem rápida das horas . Também, entre “triste” (segundo verso, segunda estrofe) e “persiste” (quarto verso, segunda estrofe), pois a tristeza por essa existência da felicidade persiste, percebendo-se a melancolia que existe nessa árdua procura.

O recurso do cavalgamento é usado em:

 

Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,

e, para te medir, se inventaram as horas.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:

porque um dia se vê que as horas todas passam,

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Tais versos nos sugerem que o diálogo entre a “felicidade” e o “eu” lírico é tranqüilo, sem perturbações.

Para demonstrar a passagem veloz “dessa tal felicidade”, o poeta usa palavras que imprimem um ritmo acelerado, tais como: “veloz”, “horas”, ”passam”, “tempo”.

Existe a presença de sinalefa e hiato nestes versos:

 

És precária e veloz, Felicidade

Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo

e, para te medir se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:

porque um dia se vê que as horas todas passam,

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

 

Esses versos mostram-nos a fluidez do discurso do “eu” lírico. A presença da cesura indica-nos uma pequena pausa do “eu” lírico em seu pensar. Observemos estes versos:

 

Foste tu / que ensinaste aos homens que havia tempo,

porque junto um dia se vê / que as horas todas passam.

 

O poema é composto por dois quartetos, uma das formas tradicionais, herança dos simbolistas, bastante utilizada na obra de Cecília.

Neste poema há o uso das assonâncias em /a/, /i/,/o/,/e/, indicando a tristeza, dor e melancolia do “eu" lírico, vejamos estes exemplos:

 

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

 

As aliterações em /s/ e /r/ nos lembram tanto a velocidade, quanto os obstáculos, como nos versos abaixo:

 

porque um dia o se vê que as horas todas passam

e, para te medir, se inventaram as horas.

 

A imagem visual é sugerida no poema pelas palavras “horas”, “tempo”, “passam”, dizendo-nos que vemos a vida correr.

O título Epigrama, que significa poesia breve e satírica, representa esse diálogo que gostaríamos de travar com a felicidade e que Cecília consegue, em um tom irônico bem suave, na qual ela satiriza a felicidade e nossa insana procura, deixando-a escapar em quase todos os momentos de nossa existência.

 

ANÁLISE ESTILÍSTICA DE ALGUNS POEMAS DE CECÍLIA MEIRELES (2ª parte)

3.4 - “Criança”

 

Cabecinha boa de menino triste,

de menino triste que sofre sozinho,

que sozinho sofre, - e resiste.

 

Cabecinha boa de menino ausente,

que de sofrer tanto, se fez pensativo,

e não sabe mais o que sente...

 

Cabecinha boa de menino mudo,

que não teve nada, que não pediu nada,

pelo medo de perder tudo.

 

Cabecinha boa de menino santo,

que do alto se inclina sobre a água do mundo

para mirar seu desencanto

 

Para ver passar numa onda lenta e fria

a estrela perdida da felicidade

que soube que não possuiria.

 

No primeiro verso da primeira estrofe, o “eu” lírico inicia a descrição de um menino de maneira afetiva,quando coloca o substantivo “cabeça” no diminutivo “cabecinha”, reforçado, logo em seguida, pelo adjetivo “boa”. A palavra “cabecinha” é uma metáfora para a personalidade, ou seja, um menino de boas atitudes. Apesar disso, o menino é um ser triste.

No primeiro e segundo versos ocorre uma epanadiplose, pois este é iniciado com a expressão que finaliza o anterior, observemos:

 

Cabecinha boa de menino triste,

de menino triste que sofre sozinho,

 

Neste verso o pronome “que” dá uma idéia de continuidade das qualidades desse menino.

Novamente, no terceiro verso, existe uma epanadiplose, com uma pequena inversão sintática não existente no verso anterior, para reforçar a vida sofrida e solitária desta criança. O uso do travessão dá uma pausa e uma intensidade ao verso para mostrar a resistência da criança, como vemos:

 

que sozinho sofre, - e resiste.

 

No primeiro verso desta segunda estrofe é ressaltado, mais uma vez, a atitude da criança pelo uso da anáfora, com a alteração de adjetivo, que passou para “ausente”, sugerindo mudança de estado, como se vê:

 

Cabecinha boa de menino ausente

 

A característica do sofrimento é retomada no segundo verso da segunda estrofe e, por isso, fez com que o menino se tornasse um ser reflexivo sobre a sua vida, a sua existência. Neste momento, lembra-nos a própria Cecília que, desde criança, aprendeu a conviver com a morte (seus pais, seu primeiro marido), a dor, a solidão, o silêncio, o significado da existência, sem traumas, mas de maneira realista, como é dito pela própria poetisa: “...Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenininha, uma tal intimidade com a mote que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno (...)” (CM, LC, pág.1)

Podemos pensar que o menino do poema é uma metáfora da própria vida de Cecília quando criança.

No terceiro verso da mesma estrofe, o “eu” lírico descreve o menino como perdido em seus sentimentos, pois por refletir sobre si mesmo, não sabe o que sente. Isto é reforçado pelo uso das reticências:

 

e não sabe mais o que sente...

 

Na terceira estrofe, primeiro verso, se usa a anáfora e o adjetivo utilizado, neste instante é “mudo”, dizendo-nos que ele, o menino, está sem palavras, sem ação, diante do que vive e sofre:

 

Cabecinha boa de menino mudo

 

O “eu” lírico/narrador completa, no segundo verso, a carência emotiva e material do menino, acentuado pelo uso das palavras “não” e “nada”, mostrando que ele tinha receio de perder as poucas coisas boas que a vida lhe deu (último verso da terceira estrofe).

Nesta estrofe aparecem as antíteses entre as palavras “ter” x “perder”; “tudo” x “nada”, retratando a oscilação que ocorre em nossa vida,mais voltada para o lado material, enquanto o espiritual é deixado de lado. Mas, na verdade, tudo é passageiro e efêmero e deixamos de aproveitar os verdadeiros sentimentos.

Na quarta estrofe, o menino transformou-se em santo, em anjo, indicando que ele está morto e o seu espírito vai analisar sua vida e passagem terrestre. O recurso da anáfora é utilizado.

O “eu” lírico/narrador nos diz que o menino/anjo, do alto, podemos pensar, então, em inocência e céu, se põe a observar a correria do mundo, representada pela “água” e a sua tristeza, angústia, enquanto pertencia a esse mundo carnal (segundo e terceiro versos da quarta estrofe).

O símbolo da “onda” é usado no primeiro verso da última estrofe, sugerindo um ritmo lento ao verso e também ao poema, e assim como a conscientização que, durante a vida, ele nunca fora feliz e que a felicidade é efêmera, encerrando o poema melancolicamente.

O tema do poema é a infelicidade da vida, a sua transitoriedade, anunciada a todo instante pela morte, encarada como fato natural e verdadeiro. O poema é construído com cinco estrofes, cada uma com três versos, podendo sugerir as cinco fases do ciclo humano.

Ocorrem rimas alternadas entre “triste” (primeiro verso, primeira estrofe) e “resiste” (terceiro verso, primeira estrofe), indicando a resistência do menino triste em viver; “ausente” (primeiro verso, segunda estrofe) e “sente” (terceiro verso, segunda estrofe), mostrando que, apesar da sua ausência, ele não deixa de sentir as coisas; “mudo” (primeiro verso, terceira estrofe) e “tudo” (terceiro verso, terceira estrofe), dizendo que, na sua mudez, tem tudo o que conquistou; “santo” (primeiro verso, quarta estrofe) e “desencanto” (terceiro verso, quarta estrofe), no qual santificou-se pela sua vida desencantada; “fria” (primeiro verso, quinta estrofe) e “possuiria” (terceiro verso, quinta estrofe), na qual a possessão da fria felicidade,é inútil.

Analisando as rimas vemos o trabalho de construção do poema, pela autora, nos detalhes fonéticos.

Para reforçar, utiliza assonâncias de /e/, /i/, /o/, como nesse verso:

 

de menino triste que sofre sozinho

 

E aliterações de /q/, /n/, /d/, em:

 

que não teve nada, que não pediu nada

 

Nos dois recursos utilizados faz-se perceptível a força de sua tristeza nas assonâncias e uma forte afirmação sobre a sua falta com as aliterações.

Podemos afirmar que todo o poema é construído de cavalgamentos, no qual o “eu” lírico narra / declara suavemente a passagem do menino pela terra e sua passagem ascensional para outro plano, verso por verso, estrofe por estrofe.

A poetisa usa formas verbais que reforçam as imagens visuais como, por exemplo, em “vermos”. As palavras são “triste”, “sofre”, “pensativo”, “mudo”, “água”, “onda” e as imagens tácteis nas palavras “água”, “onda”, “fria” são sugestivas para que possamos sentir as mesmas sensações do menino. Cecília constrói um poema marcado pela sinestesia com “onda” e “água”, que nos sugere a mútua troca de sensações entre o ser humano e o mundo. Nota-se a gradação na figura do menino que se tornasse um santo: “triste”; “ausente”; “mudo”; “santo”. Ou seja, passa da carne para o espírito.

O título escolhido para esse poema Criança simboliza a imaturidade do ser humano para a vida pós - morte, para qual ninguém nunca está preparado, pois somos inocentes para o que virá, visto que a vida e a felicidade são efêmeras, não se pode voltar atrás. Para isso, devemos conservar a pureza, como a de uma criança.

 

3.5 - “Noções”

 

Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.

 

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

 

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,

só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

 

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,

e este abandono para além da felicidade e da beleza.

 

Oh! meu Deus, isto é a minha alma:

qualquer coisa que flutua este corpo efêmero e precário,

como passiva e inúmera...o vento largo do oceano sobre a areia

 

Desde o primeiro verso, quando iniciamos a leitura do poema, notamos que é todo construído em primeira pessoa, referindo-se à subjetividade, ao íntimo, à descrição dos sentimentos, como vemos:

 

Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos desejos afligidos

 

Nesta primeira estrofe ocorre um hipérbato, que nos dá a idéia de vastidão, da amplidão que existe na alma do “eu” lírico. A construção repetida do pronome “mim” é usado para acentuar essa distância interior, citada anteriormente, e nela os desejos, as angústias passeiam, habitam este ser reflexivo.

Do primeiro para o segundo verso há o encavalgamento, que sugere uma pausa para a complementação do pensamento do “eu” lírico.

Na segunda estrofe, o “eu” lírico diz que a água, com o seu movimento, levará suas esperanças, metáfora de naves, e que elas são cobertas por suas dores, angústias, tristezas, representadas por espelhos, mas essas esperanças continuarão a existir, apesar dos momentos e problemas, é preciso tirar boas experiências e ensinamentos, o que é representado pela palavra “lâmina”.

Na terceira estrofe, o “eu” lírico usa a palavra “sonho” significando vida, pois é breve, como a primeira e fica à mercê dos acontecimentos, representada pela palavra “correnteza”, que nos lembra um movimento, um ritmo rápido, no qual podemos pensar na rápida passagem da vida e sua brevidade.

Darcy Damasceno sobre a brevidade da vida em Cecília Meireles diz: “Vemos assim avivarem-se os rastros da alma alertada contra os desenganos do mundo, desenganos que se enfeixam num tópico principal: o da brevidade da vida”. (CM, PC, DD, pág.42)

E sobre o símbolo do sonho, revela-nos: “A insegurança do ser humano, a fragilidade das coisas, a inconstância da sorte, a idéia de que tudo é sonho são temas que, direta ou indiretamente, daquele (brevidade da vida) decorem”. (CM, PC, pág.42)

Dessa vida que é um sonho passageiro, o poeta busca apenas, ou tenta, respostas para os questionamentos infinitos, mas que são sem respostas, como a morte.

Na quarta estrofe, o “eu” lírico volta-se para si mesmo, seus pensamentos, suas atitudes, refletindo sobre elas. Neste verso, se usa o tempo passado, em oposição ao presente, como que a alma do “eu” lírico estivesse olhando para algo estático, sem vida, o corpo morto, que foi útil e deixou de sê-lo para essa alma, que saiu do seu casulo.

O segundo verso continua no passado para que as lembranças do “eu” lírico surjam, constatando que a sua virtude, que era a de errar pelos caminhos contraditórios de sua existência, o fazia forte. A sua solidão valia mais que a felicidade e a beleza que são desgastáveis pelo tempo como se vê neste terceiro verso.

A solidão é um traço característico na poesia de Cecília Meireles, como foi dito pela própria: “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão(...)” (CM,LC, pág.3)

A última estrofe é iniciada por uma exclamação, indicando uma surpresa do “eu” lírico por notar que a sua alma é atemporal, perante o corpo precário, passageiro, transitório, comparando este corpo com o vento, passageiro, e a alma, comparada à areia, representando a eternidade.

Como vemos esta poesia toca no tema da transitoriedade da vida, dando melancolia a esta.

A transitoriedade foi definida da seguinte forma por Darcy Damasceno, nas obras de Cecília Meireles:

 

A consideração das coisas resulta na consciência de que a vida é um fluxo constante e o tempo tudo corrói; a constatação da transitoriedade emerge como o verme antecipado do podre que um dia há de ser o apetecível fruto da vida .Daí que às descargas dos sentidos se sobreponha a indagação, a análise, a atitude inteligente.(CM, PC, DD, pág.40)

 

O poema não segue as construções tradicionais de outros poemas da autora. Desta vez, a poetisa adota o verso livre, característico do Modernismo e que a autora utiliza em alguns momentos na sua obra. Vê-se também que não há rima no poema, composto de cinco estrofes (as três primeiras com dois versos e as duas últimas com três versos), talvez para simbolizar a liberdade que tem a nossa alma, que não se enquadra em regras, depois de livre.

Há a presença da natureza ao usar as palavras “água”, “correnteza”, “mares”, “vento”, “oceano”, representando a vida humana.

Os recursos da assonância de /a/, /e/, /o/, como nesse verso:

 

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos

 

E das aliterações de /s/, /r/, em:

 

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios

 

Tais recursos sugerem o som do vento e o som do mar, velozes com a vida.

Noções , título do poema, pode significar, ter idéia, ter consciência. Durante o poema o “eu” lírico vai tendo a noção de sua vida que é efêmera e de sua alma que é eterna. Isto é universal, acontecerá com todas as pessoas, em todas as épocas.

 

3.6 - “Acontecimento”

 

Aqui estou, junto à tempestade,

chorando como uma criança

que viu que não era verdade

o seu sonho e a sua esperança.

 

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

Vão-se desfazendo em desgosto

as formas do meu pensamento.

 

Chorarei toda a noite, enquanto

perpassa o tumulto nos ares,

para não me veres em pranto,

nem saberes, nem perguntares:

 

“Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito ?”

E o meu pobre olhar indeciso

não te repetir: “Que foi feito...?”

 

A primeira estrofe inicia-se em seu primeiro verso com o advérbio de lugar “aqui”, no qual o “eu” lírico afirma a sua presença neste mundo, com a “tempestade” que simboliza as atribulações fortes e passageiras vividas. Desde já, vê-se que o poema é em primeira pessoa.

Há a ocorrência de um hipérbato “Aqui estou (...)” para acentuar este lugar que o “eu” lírico / poeta vive. Ele, no segundo verso, nos diz que passa por aqui sofrendo, o que é representado pelo verbo chorar, como se fosse uma criança, ou seja, inocentemente. Para nos transmitir tal significado usa uma comparação.

Essa “criança” inocente, o “eu” lírico, percebe que a sua vida, representada metaforicamente pela palavra “sonho” e a sua “esperança”, seus anseios e desejos eram irreais, como se pode observar nos dois últimos versos. O poeta passa do narrador de primeira pessoa para a terceira sugerindo que a figura de sua imagem na infância tivesse voltado e nota-se este adulto angustiado, como vemos nessa estrofe.

A segunda estrofe é iniciada por uma personificação da chuva e do vento. Devido a sua angústia de crise existencial, a natureza ganha vida e, também, parece tocar ou até mesmo agredir o “eu” lírico:

 

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

 

No segundo verso existe um hipérbato para suavizar a atitude da natureza com relação ao “eu” lírico, dando um ritmo tranqüilo ao poema.

O “eu” lírico fala-nos que seus conceitos, presentes em seu pensamento, são destruídos pela sua tristeza, pelas suas derrotas na vida. Usa, nestes versos, outro hipérbato, para intensificar a dor.

A continuação da dor persiste na terceira estrofe e é simbolizada, no primeiro verso, pela palavra “noite”, enquanto o “eu” lírico não entender o seu conflito existencial, não permitindo que as outras pessoas o ajudem, como é dito nos dois últimos versos.

O “eu” lírico não se sentiria bem, se as pessoas o indagassem sobre a sua antiga alegria, contida na palavra “sorriso”, que transmitia “luz” e bem-estar ao próximo e ele mostra através de seu olhar, sua pobreza e indecisão espiritual, desconhecendo o seu paradeiro e retomando a indagação.

Percebemos que a fugacidade das coisas, a transitoriedade da vida está presente no poema, ao contar-nos a perda da alegria e esperança.

É interessante observar que o poema está sintetizado em rimas alternadas, que estão encaixadas nos quatro versos, como a sugerir que, até nos pequenos detalhes da nossa vida, o tempo passa, vejamos: “tempestade” (primeiro verso, primeira estrofe) e “verdade” (terceiro verso, primeira estrofe); “criança” (segundo verso, primeira estrofe) e “esperança” (quarto verso, primeira estrofe); “posto” (primeiro verso, segunda estrofe) e “desgosto” (terceiro verso, segunda estrofe); “vento” (segundo verso, segunda estrofe) e “pensamento” (quarto verso, segunda estrofe); “enquanto” (primeiro verso, terceira estrofe) e “pranto” (terceiro verso, terceira estrofe); “ares” (segundo verso, terceira estrofe) e “perguntares” (quarto verso, terceira estrofe); “sorriso” (primeiro verso, quarta estrofe) e “indeciso” (terceiro verso, quarta estrofe); “perfeito” (segundo verso, quarta estrofe) e “feito” (quarto verso, quarta estrofe).

O poema apresenta o recurso do cavalgamento que sugere a lentidão do eu lírico ao perceber as mudanças que sofreu sua vida, como nesses exemplos:

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

“Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito?”

 

A natureza transmite-nos imagens sensoriais para que sintamos o mesmo que o “eu” lírico. Para isto, o poeta usou as palavras “tempestade”, “criança”, “chuva”, “vento”, “noite”, “ares”. A natureza, em Cecília Meireles, segundo Darcy Damasceno, é panorâmica e solidária com os sentimentos do ser humano, pois engloba, simbolicamente, os aspectos físicos e psíquicos de ambos, como no verso:

 

perpassa o tumulto nos ares

 

Utiliza-se de aliterações /p/, /t/ e /s/, sugerindo a violência e rapidez de seus pensamentos e assonâncias de /e/, /o/ e /i/, acentuando a sua tristeza e dor, como por exemplo:

 

Que foi feito do teu sorriso (...)

 

O título colocado Acontecimento é a conscientização do “eu” lírico sobre a perda das melhores coisas de sua vida, que o marcaram definitivamente.

 

3.7 - “Herança”

 

Eu vim de infinitos caminhos,

e os meus sonhos choveram lúcido pranto

pelo chão.

 

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,

essa vida,que era tão viva, tão fecunda,

porque vinha de um coração ?

 

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,

do pranto que caiu dos meus olhos passados,

que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão ?

 

O poema é iniciado em primeira pessoa, o “eu” lírico diz que percorreu longas jornadas, ou seja, que viveu longas experiências. Usa a metáfora “infinitos caminhos” para filosofar sobre si mesmo. Os sonhos tidos durante a vida foram se acabando, conscientemente. É importante vermos a bonita personificação feita em “sonhos choveram” e “lúcido pranto” para a construção do sentido global do poema, como ocorre na primeira estrofe.

Na segunda estrofe o “eu” lírico indaga-se em que momento de suas experiências vividas, houve viva- cidade e criação, inspiradas por um grande amor, que passou e o fez sofrer.

Na terceira estrofe, há uma nova indagação, desta vez, sobre o futuro da humanidade, que virá através das novas gerações, durante o tempo, representado pela metáfora “caminhos infinitos”. O “eu” lírico questiona-se, se a sua vida servirá de exemplo e preocupa-se com o futuro dos que virão, se estes serão mais felizes, mais experientes do que ele. No último verso desta estrofe existe uma gradação, na qual há um desejo de alcanço da felicidade para essa geração futura, por parte do “eu” lírico.

Nas três estrofes ocorre o cavalgamento sugerindo uma reflexão do poeta, que inicia o poema fazendo uma afirmação e, depois, pergunta-se sobre o passado e o futuro. Darcy Damasceno observa o seguinte sobre as interrogações do passado: “A melancolia face à impossibilidade de ser reter o fruto dos instantes leva à nostálgica e desalentada interrogação ante o passado, à visão retrospectiva de fatos, coisas, acontecimentos, e à dor de sua essência (...)” (CMPC, p. 22)

Na primeira estrofe a expressão “infinitos caminhos”, que é invertida na segunda estrofe para enfatizar a lembrança de seu passado e na terceira, retoma a forma do início.

O poema é composto por três estrofes, com três versos cada uma. Ocorre rima nos últimos versos de cada estrofe, o que pode significar que a próxima geração poderá encontrar um grande amor ou lutar por tê-lo, com o uso das palavras “chão”, “coração” e “alcançarão”.

O poema possui um ritmo lento, triste e angustiante para tratar sobre o passado, sobre o vivido.

A natureza está representada nos verbos “chover” e “fecundar”, sugestivas do cuidado com a qual as gerações vindouras são preparadas, com carinho, pelas anteriores.

Como nos outros poemas, nota-se a presença de aliterações e assonâncias, reforçando o espírito reflexivo do “eu” lírico.

Herança , o título escolhido pela autora reflete a pergunta deixada na última estrofe do poema. Há a preocupação de deixar bons exemplos para a próxima geração preocupada com ela.

Constata-se o lirismo da autora no título e inclusive o seu casamento perfeito com o corpus do poema.

 

3.8 - “Assovio”

 

Ninguém abra a sua porta

para ver que aconteceu:

saímos de braço dado,

a noite escura mais eu.

 

E ela não sabe o meu rumo,

eu não lhe pergunto o seu:

não posso perder mais nada,

se o que houve já se perdeu.

 

Vou pelo braço da noite,

levando tudo o que é meu:

- a dor que os homens me deram,

e a canção que Deus me deu.

 

O “eu” lírico pede as pessoas, ao mundo que não o incomodem e que não o questionem sobre as coisas passadas, passado este simbolizado pela palavra “porta”, no primeiro e segundo versos, da primeira estrofe. Complementando-a o “eu” lírico conta-nos que a sua única companheira é a noite, cheia de mistério, de tristeza, de melancolia, sugerida pelo uso do pleonasmo “noite escura” e o uso do advérbio de intensidade “mais”, que reforçam a idéia dessa amizade. Outro fator intensificador é o uso do hipérbato, que é sugestivo dessa fortaleza, dessa união entre a noite e o “eu” lírico, observada nos últimos versos.

Na segunda estrofe, o “eu” lírico se contenta com a companhia da “noite”, pois ambos não se questionam sobre o passado, o presente e menos ainda sobre o futuro, representado por “rumo”.

O “eu” lírico afirma que não pode perder tempo em viver, visto que sua vida foi marcada por perdas humanas, irreversíveis. É importante, na finalização do terceiro e quarto versos, a presença das palavras “nada” e “perdeu”, que reforça as perdas citadas anteriormente e o desejo de não permitir que elas continuem, quando diz, enfaticamente:

 

não posso perder mais nada

 

Vimos que o “eu” lírico continua caminhando sozinho, apenas junto com a “noite”, na terceira estrofe, carregando “tudo” o que está marcado em sua alma, que é a dor deixada pelos homens perdidos e passados em sua vida, mas que o sustentam de pé, de cabeça erguida e a sua vida dada por Deus. A vida é representada pela palavra “canção”, que sugere algo passageiro e suave, como é o ritmo da vida, associada à figura de Deus, o único que pode tirá-la.

Nesse poema nota-se a presença da forte influência espiritualista em sua arte, surgida em 1918, nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, e que iria reiterar-se em todos os seus poemas, como a sugerir que refletíssemos sobre a nossa condição efêmera.

Ressaltamos que a poetisa ao construir o terceiro verso utiliza o travessão para destacar a dor sofrida.

O poema é composto por três estrofes, cada uma delas com quatro versos. Ocorre a presença de rimas entre “aconteceu” e “eu” (primeira estrofe); “seu” e “perdeu” (segunda estrofe); “meu” e “deu” (terceira estrofe). O interessante é que, em todas as palavras no poema, está inserida a palavra “eu”, presente na primeira estrofe, sugerindo a intensificação da dor, da figura do “eu” lírico a cada momento do caminho percorrido por ele durante a vida.

O cavalgamento é observado em toda a poesia, indicando uma pausa reflexiva do “eu” lírico, e também para dar uma suavidade rítmica a mesma, acentuada pelas assonâncias de /e/, /o/, /u/ e /a/, como por exemplo:

 

Ninguém abra a sua porta

se o que houve já se perdeu

 

E aliterações de /d/ e /c/ em:

 

e a canção que Deus me deu

 

Apesar das palavras “nada” (terceiro verso, segunda estrofe) e “tudo” (segundo verso, terceira estrofe) estarem distantes uma da outra, entendemos que há uma antítese, para vermos o medo do “eu” lírico em perder o “tudo” que neste instante possui: a sua dor e a sua vida.

A “noite” é o único elemento da natureza que surge na poesia para simbolizar a sua real companheira, que é personificada neste verso:

 

Vou pelo braço da noite

 

O título Assovio nos indica algo passageiro, transitório e, ao mesmo tempo, musical, como a canção e a própria vida, apesar dos sofrimentos existenciais do ser humano.

 

 

4 - CONCLUSÃO

 

O estudo das poesias de Cecília Meireles permitiu o estudo de algumas particularidades expressivas de sua obra, ressaltando-se a presença marcante da subjetividade em seu estilo. Num momento decisivo para o Modernismo, a obra ceciliana parece sustentar as marcas do etéreo e do atemporal, do particular (o espiritualismo da autora, por exemplo) e do universal (a própria poesia).Esta subjetividade é universal, visto que os poemas parecem refletir no papel as dores e as angústias de toda a humanidade.

Além disso, Cecília Meireles nos faz refletir sobre existência, tão efêmera, traduzida por ela, que faz uso de imagens sensoriais para a visualidade poética de seus temas.

O vocabulário utilizado é simples, assim como a sintaxe, apesar de ser notória a vasta cultura da poetisa. Mas, mesmo simples, é repleto de simbolismo, no qual o leitor deve ater - se aos detalhes que compõem o grande fio que liga as palavras e os vários sentidos sugeridos no texto.

Geralmente, o ritmo dos poemas estudados é lento e suave, indicando também como a poetisa era delicada ao “criar” a representação do som de suas “letras”. Em algumas passagens o ritmo é acelerado, mas a suavidade não desaparece.

A natureza metaforiza a nossa condição de humanos, portanto efêmeros, mas eternos, devido a associação que se faz indiretamente com Deus.

A análise estilística, em todos os seus níveis (semântico, fônico, sintático, morfológico e lexical e mesmo rítmica), vem mostrar a sua importância para a compreensão do estilo de Cecília Meireles e a necessidade de ir além da gramática tradicional, que, às vezes, não consegue responder as nossas indagações sobre a inquietante imaginação poética.

A estilística também está presente não só em poesias, mas em todos os tipos de texto. É verdade que por não ter havido divulgação, há alguns anos atrás, alguns professores de Língua Portuguesa sentiram dificuldade em reconhecê-la. Porém, este quadro, atualmente, tem mudado devido a existência de obras diversas sobre o assunto.

Este trabalho teve a intenção de mostrar o estudo de alguns poemas dessa poetisa, política e professora versátil, que fascina qualquer pessoa, leitora de sua arte pela primeira vez, através dos temas abordados e tão ligados a sua vida pessoal, também o seu estilo, presente na organização poética, nas combinações de palavras e sons. A estilística foi utilizada para compreendermos os mecanismos usados pela autora para expressar o seu lirismo.

Para finalizar, esclareço que pretendi contribuir, de alguma forma, para os estudos de Língua Portuguesa.

 

BIBLIOGRAFIA:

a) Obras da autora:

MEIRELES, Cecília. Viagem;Vaga Música. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982. (Coleção Poesis).

______. Flor de poemas. Notícia biográfica, bibliografia e estudo crítico de Darcy Damasceno. 6a ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1984. (Coleção Poesis).

______. Poesia Completa. Introdução de Walmir Ayala, notícia biográfica e bibliografia de Darcy Damasceno. Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1994.

______. Literatura Comentada. São Paulo: Abril, 1980.

 

b) Obras sobre a poesia e a vida da autora:

AZEVEDO FILHO, Leodegário. Poesia e Estilo de Cecília Meireles. Rio de Janeiro : José Olympio, 1970.

BARBADINHO NETO, Raimundo. “Os escritores modernistas brasileiros diante do problema da língua”. In: Antologia de textos do Modernismo. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1982.

BOSI, Alfredo. História da Literatura Brasileira. 3a edição. São Paulo : Cultrix, 1994.

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LAMEGO, Valéria. A Farpa na Lira: Cecília Meireles na revolução de 30. Rio de Janeiro : Record, 1996.

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