CATEGORIAS DE GENERO NOS SUBSANTIVOS DA LÍNGUA PORTUGUESA: UMA ABORDAGEM MORFOSSINTÁTICA

Jayme Célio Furtado dos Santos. (UERJ/CiFEFiL)

Dedicado aos meus amigos José Pereira da Silva e Nataniel dos Santos Gomes, pelo apoio, estímulo e dedicação.

 

1. Introdução

Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.

Willian Shakespeare

Neste sucinto trabalho, não teríamos a pretensão de uma discussão mais exaustiva dos temas abordados (pela proposta da monografia em si), mas tão somente tecer algumas considerações sobre o gênero nos substantivos da L.P., culminando na afirmativa da inexistência de flexão nos mesmos, tema este que, não obstante numerosas discussões, só recentemente foi sistematizado, na Moderna Gramática Portuguesa do ilustre acadêmico, Prof. Evanildo Bechara.

2. Categorias de Representação

Tudo se passa como se...

Newton

A língua é um guia de acessibilidade ou um portador de sentidos? Qual a relação da língua com o mundo? Temos acesso ao mundo de forma objetiva? Se não, como dizê-lo de forma objetiva? Compreendemos ou imaginamos que compreendemos? Afinal, como construímos categorias?

Que a filosofia sempre se deparou com tais questões, a maneira como recortamos o mundo, sabemos. Mas haveria alguma relevância de caráter epistemológico ao refletirmos sobre a concepção de gênero em Língua Portuguesa?

Creio que sim! O que é o gênero? É um conceito! O que é um conceito? É uma representação! O que é representar? É construir! E quem constrói? Indivíduos em interação! Nos entendemos? Evidentemente (temos uma mente humana). Mas como interagimos? Em suma:

Como passo da idéia de gênero para a língua, e da língua para o mundo?

Como a experiência e a cultura entram na língua?

A língua é um fenômeno complexo, humano, como a agravante de não haverem apenas uma explicação para as coisas. Poderíamos exemplificar tal afirmação com a relação de nomes que os Akwe-Xerente (grupo indígena com o qual convivemos ao longo de quatro anos) têm para “abelha”:

Kupkã / Kupkã Zâ pre / Skrê Zdapi / Askerê / Piku / Nrãrê / Pato / Rem Zdawa / Kê twa we/ Kukã praktõ ne / Abturê / Abtu wawe / Apsta Kwarê / Apsda / Waikba Krã ne / Wrãbã / Sipri Zdawa du / Sipri / Kê Zê Kuhu pre / Kê Zá pre.

Gênero – Cultura Ideológica

Em cada espécie animal a femea contem e produz o macho, como na linguagem o feminino comprehende o masculino. De seu lado o macho distingue-se por sua individualidade; os caracteres da especie brilham só nelle ou nelle o fazem com maior intensidade. (1)

A cultura, incluindo todas as relações, costumes e instituições, forma um sistema coerente que “funciona” num meio ambiente específico. Todos os elementos compõem um sistema integrado e implícito: a cosmovisão. A cognição de um povo representa o seu conhecimento e é consciente, enquanto a cosmovisão é inconsciente. Ela representa todas as pressuposições de como é o universo e a natureza da “realidade” mas o povo não percebe o sistema e não consegue falar dele.

Gênero – Cosmovisão e Arbitrariedade

A cosmovisão oferece aos membros de uma sociedade um mapa da “realidade” e uma “descrição” do mundo. Oferece uma razão porque as coisas são assim. O conceito de gênero dentro de nossa cosmovisão faz sentido pois compartilhamos da mesma idéia. Mas bastaria a constatação de que as pressuposições em relação a realidade (e de forma especifica o gênero) variam de povo para povo, para que (como observadores de fora) a concepção de gênero nos parecesse completamente arbitrária.

A categoria de gênero ilustra bem o que há de variável, complexo e convencionalmente arbitrário nas categorias gramaticais e como elas se distanciam das categorias lógicas. (2)

O que é lógico? Realidade? Verdade? Habermas diz que verdade é correspondência , consenso, interação.

Não negamos a existência da realidade extra-mente, nem estabelecemos a subjetividade como parâmetro do real, nem damos à linguagem um poder criador de realidades. Nosso cérebro não opera como um sistema fotográfico do mundo nem como um sistema de espelhamento, ou seja, nossa maneira de ver e dizer o real não coincide com o real. Nosso cérebro não é uma polaroid semântica. O cérebro é um aparato que reelabora os dados sensoriais para fins de apreensão e compreensão. Nossa tese é a de que essa reelaboração se dá essencialmente no discurso. Não postulamos uma reelaboração subjetiva, individual, em que cada qual pode fazer o que quiser. A reelaboração deve obedecer a restrições impostas pelas condições culturais, sociais, históricas e, finalmente, pelas condições de processamente decorrentes do uso da língua. (3)

3 Gênero – Uma Visão Diacrônica

Neste tópico, teceremos algumas considerações quanto a história do gênero, tendo como fundamentação principal estudo da Profa. Maria Tereza Biderman. (4)

 

3.1 O Gênero em Indo-Europeu

Segundo a hipótese conhecida como Sapir-Whorf, a linguagem interpenetra a experiência, de tal forma, que as categorias mais profundas do pensamento são diferentes nas diferentes culturas. A Professora Biderman baseada na teoria do relativismo linguístico, tenta delinear a origem do gênero, atrelando-o ao contexto cultural. Desta forma, as categorias da língua e a cultura formam uma unidade, resultando desse fato diferentes formas de expressão entre falantes de línguas distantes.

Baseando-se em Antoine Meillet, a Professora Biderman sugere que a origem do gênero em língua indo-européia pode ser explicada pela “presença ou ausência da marca (±) animado. (5)

Desta dicotomia, proviria em proto-indo-europeu a tríade: [masculino, feminino] x [neutro].

Assim, decorre da intenção de proximidade da realidade a criação e a propagação da categoria de gênero em indo-europeu.

Ainda segundo Biderman, todos os grupos culturais vivenciam as consequências da oposição sexual e social entre o homem e a mulher; originando-se, então, destes dados da realidade, a categoria de gênero. Inclusive, ressalta a filóloga que o domínio exercido pelo homem na sociedade indo-européia acarretou a utilização generalizante do termo masculino.

No que tange a interpretação da realidade, segundo a autora em quem temos nos embasado, o homem indo-europeu a concebia de modo mítico.

Logo, os princípios masculino e feminino presentes nas formas sagradas e misteriosas da vida, foram vistos na cosmovisão indo-européia como fatos culturais básicos, e expressos na categoria de gênero.

Portanto, os fenômenos naturais com finalidades masculinas ou femininas eram categorizados, consequentemente, como nomes masculinos ou femininos; daí, provavelmente, ter sido a fertilidade da terra uma causa para a sua caracterização do feminino.

Acrescenta ainda a eminente filóloga que, nas línguas caracterizadas pelo gênero masculino e feminino, as “figuras simbólicas” terão uma categorização masculina ou feminina; ou seja, funcionarão como representações antropomórficas, míticas, literárias.

3.2– O Gênero em Latim

Segundo o Prof. Mattoso Câmara , a expressão de gênero em latim era demonstrada por meio de um adjetivo. (6)

O eminente linguísta acrescenta que, em latim clássico, o gênero neutro não se caracterizava por marcas nítidas, tanto no aspecto formal como no semântico (cf. desinência plural – a, para o nominativo e o acusativo). Consequentemente, este gênero desapareceu.

Quanto aos gêneros masculino e feminino, o autor enfatiza que esta oposição era demarcada através dos adjetivos masculinos (2a declinação) e femininos (1a declinação). Tal classificação genérica não era tão patente nos substantivos, que podiam funcionar, com certa predominância, como masculinos na 2a declinação, ou como femininos na 1a declinação. Na 3a declinação, não havia terminação específica de masculino e feminino.

O autor explicita que a desinência de feminino – a tem correspondência com a vogal temática – a, breve da 1a declinação, composta, em sua maioria, de nomes femininos. (7)

4– Categoria do Gênero – Enfoques Linguísticos

Teorias são amantes, objetos do amor, visões beatíficas do mundo, filhas da paixão intelectual. (8).

Teorias que levam em consideração a relação da linguagem com o pensamento, a sociedade e a exterioridade (análise do discurso), têm tido cada vez maior importância nos estudos da linguagem.

Ilustrando a afirmativa acima, em flagrante (porém consciente) parentesis, julgamos oportuno transcrever parte de um estudo denominado “aspectos da progressão referencial na fala e na escrita do português brasileiro” de autoria do Professor Luiz Antônio Marcurshi. Diz-nos o ilustre estudioso:

Três são os pressupostos dos quais partimos:

1-pressuposto da indeterminação linguistica;

2-pressuposto de uma ontologia não-atomista;

3-pressuposto da referenciação como atividade discursiva;

Quanto a (1), trata-se de um pressuposto forte que supõe uma noção de língua, da qual faz parte pelo menos o seguinte: a língua caracteriza-se como atividade, não é um sistema autônomo que se esgota no código, é heterogênea, opaca, histórica, variável e socialmente constituída, não servindo como mero instrumento de espelhamento da realidade. Em consequência, o princípio de indeterminação em todos os níveis de funcionamento da língua é construtivo e a determinação se dá no uso efetivo. A língua não é o limite da realidade, nem o inverso. Língua é trabalho cognitivo e atividade social. Para os processos referenciais, isto significa que os itens lexicais só obtêm significação plena em sua realização textual, o que exclui aqui uma visão autônoma e essencialista da língua.

O pressuposto (2) postula, em termos gerais, que: do ponto de vista ontológico, o mundo (a realidade extra mental) não se acha se uma vez por todas discretizado, identificavelmente demarcado e precisamente delimitado na forma como designamos. A discretização do mundo empírico (extra mental) não é um dado apriórico, mas uma elaboração cognitiva. Isto equivale a dizer que a referência de itens lexicais a entidades do mundo fenomênico não está pronta, mas é construída no processo de designação na relação co(n)textual.

O pressuposto (3)... Referir não é uma atividade de “etiquetar” uma mundo pré-existente extensionalmente designado, mas sim uma atividade discursiva de tal modo que os referentes passam a ser objetos do discurso. Isto não quer dizer que se nega a existência do mundo extra-mental, pois este continua sendo a base para a designação. Afinal, não postulamos uma teoria subjetivista nem idealista na qual o mundo seria uma criação de nossos discursos. A rigor, a realidade empírica extra-mental existe, mas mais do que uma experiência estritamente sensorial e especularmente refletida pela linguagem discretizada no processo de designação discursiva e dependente de um trabalho cognitivo realizado no discurso.(9)

Nas questões relativas ao problema de referenciação, observamos salutar enfrentamento! Analogamente ao estudo de gênero, resta a expectativa de que, de igual modo, tenhamos programas de investigação que se estendam a temas como o proposto neste trabalho, de complexidade não menos importante.

Ex: “A equipe médica continua analisando o câncer do governador Mário Covas. Segundo eles, o paciente não corre risco de vida”. (10)

Encontramos em muitas gramáticas de Língua Portuguesa distintas conceituações quanto ao gênero. Via de regra, tal fato se dá como reflexo da “cópia” que se faz da gramática latina. Diante de tal quadro, uma pergunta se nos apresenta: como repensar a visão predominante de tais estudos? Como reexaminar tais axiomas? Talvez... Uma tentativa de desmistificação em nossa cosmovisão (de questões como a flexão do gênero) consista no oportunizar idéias marcadamente diferentes em nossa atual percepção...

Ponto de Vista Estruturalista

Em primeiro lugar, enquanto a gramática tradicional (G.T.) estuda a língua, subdividindo-a em fonologia, morfologia e sintaxe; a gramática estrutural (G.E.) considera o estudo da língua como global, embasando-se na Teoria dos Planos: o plano dos sons (G.T. – Fonologia), plano de forma (G.T. – Morfologia) e plano da combinação (G.T. Sintaxe). Tais planos funcionam como níveis operatórios, pois um plano está em relação de interdependência com o outro.

Em segundo lugar, observa-se três aspectos da Língua: a forma (conjunto audível); a função (papel sintático da forma na expressão); a substância semântica (o conceito).Entre esses elementos não há correspondência.(11)

Geralmente, a G.T. mistura o plano da forma com o plano da substância. Por exemplo: a G.T. menciona que homem é masculino de mulher; porém, só no plano da significação poderíamos constatar tal correspondência. O mais coerente seria, então, analisar por exemplo o vocábulo gato sob o plano da forma como /g/a/t/u ou gat-o (+Æ) e neste caso, gat- teria uma substância lexical (animal doméstico, de quatro patas...) acrescida de -o (?) (+Æ) substância de masculino singular.

O aspecto da forma está presente no plano dos sons (cf. /g/a/t/u/) da forma (cf. gat-o (+Æ) e da combinação (cf. concordância); o aspecto da função, nos planos da forma e da combinação e o aspecto da substancia semântica, no plano da combinação.

Assim, o estudo gramatical torna-se unitário, estrutural. Portanto, quando a G.T. encaixa na morfologia o item das flexões, equivoca-se, pois a realização flexional só é possível na sintaxe (G.T.) ou no plano das combinações (G.E.). (12)

Princípio Funcional

O estudo da estrutura linguística, que implica funções, cabe à gramática funcional. (ou seja, o valor de um signo está relacionado a outros elementos de um sistema linguístico; havendo então, uma relação de integração ou interdependência).

Baseados no princípio funcional, como podemos conceituar a categoria de gênero?

Segundo o Professor Walmírio Macedo, o gênero é uma categoria de estrutura lingüistica. A G.T. confunde gênero e sexo, misturando tais noções. Esclarece o autor: “O gênero é um problema de estrutura da língua e que pode relacionar-se com o sexo, quando se refere a sexuados”. E acrescenta que a correspondência sexual não “cria o fato gramatical”.(13)

Explicita o Prof. Mattoso Câmara:

O gênero abrange todos os nomes substantivos portugueses, quer se refiram a seres animais, providos de sexo, quer designem apenas “coisas” [coisas inanimadas], como casa, ponte, femininos ou palácio, pente sofá masculinos. [...] Depois, mesmo em substantivos referente a animais ou pessoas há discrepância entre gênero e sexo, não poucas vezes. Assim, testemunha é sempre feminino, quer se trate de homem ou mulher, e cônjuge, sempre masculino, aplica-se ao esposo e à esposa. Para os animais, temos os chamados substantivos epicenos, como cobra, sempre feminino, e tigre, sempre masculino.(14)

Quanto aos termos ditos epicenos, Mattoso Câmara menciona que a G.T. caracteriza o masculino ou o feminino, anexando “as palavras macho e fêmea”. Porém, o autor enfatiza que seria mais coerente designar os termos epicenos ou promíscuos como termos de gênero único, delimitando o sexo, de forma indireta, “quando necessário e não sistematicamente como um fato da língua), pelas palavras macho e fêmea, opostas.” (15)

Para o mestre Mattoso Câmara “O gênero é uma distribuição em classes mórficas para os nomes”, ou seja, há uma classificação morfológica dos nomes em forma de paradigma.(16)

E o autor acrescenta que, através da categoria de gênero se processa uma classificação dos substantivos (palavras opostas semântica, morfológica e sintaticamente aos verbos), segundo uma divisão do mundo ou um recorte arbitrário, pois a categoria é peculiar a cada grupo linguístico, embora os critérios para tal categorização sejam complexos, variados e incertos. (17)

Como explicar a escolha de uma categoria de gênero pela sintaxe?

O Prof. M. Câmara deixa claro que os critérios de “distinção entre animado e inanimado, ou entre macho e fêmea, ou entre pessoa e coisa, ou entre individualização contável e imensurabilidade são secundários”. E pondera que o gênero pode sofrer, ou não, interferências semânticas nítidas, contudo complexas e variadas.

Assim, afirma que o primeiro passo na descrição do gênero em L.P., em termos gramaticais, é atentar para a flexão nominal que “cria nos substantivos portugueses uma oposição do gênero”. (18)

Passemos então, para o item seguinte:

5. – A Inexistência da Flexão de Gênero Nos Substantivos da Língua Portuguesa

Não poderemos observar com mais vagar quanto à inexistência da flexão de gênero nos substantivos da L.P. Objetivamos, tão somente, registrar algumas noções que julgamos elucidativas, noções estas em exposição na obra do Prof. Bechara (19) que ora seguimos como roteiro.

A nossa língua conhece dois gêneros: o masculino e o feminino.

São masculinos os nomes a que se pode antepor o artigo o: o linho, o sol, o raio, o prazer, o beijo.

São femininos os nomes a que se pode antepor o artigo a: a flor, a casa, a mosca, a nuvem, a mãe.

Todo substantivo está dotado de gênero, que, no português, se distribui entre o grupo do masculino e o grupo feminino.

Rocha Lima, citando a Gramática Castellana, de Alonso e Urena, lembra que:

Os substantivos é que se chamam propriamente masculinos ou femininos, porque cada substantivo é classificado num ou noutro grupo; ao contrário, os adjetivos, com sua dupla terminação, são classificadores. Quando se diz a terminação masculina, ou a terminação feminina do adjetivo, indica-se por esse meio a terminação que o adjetivo adota para referir-se aos substantivos masculinos, ou aos femininos.(20)

Ou seja: os adjetivos é que se modificam para concordarem com eles, porque gênero é uma classificação puramente gramatical dos substantivos, segundo a terminação do adjetivo (ou outro determinante).

São masculinos os nomes a que pode antepor o artigo o ou outro determinante masculino (algum inconveniente, aquele cientista, aquele tempo, décimo sobrinho, esse automóvel, este fonema, o astro, o tecido, outro morfema, pequeno alfinete, quinto lugar, rápido telefonema, segundo lazer, terceiro trovão, um abraço) e são femininos os nomes a que se pode antepor o artigo a ou outro determinante feminino (a agulha, a estrela, aquela estrada, aquela fama, bela aluna, essa alegria, linda repórter, maldita dor, muita saudade, terceira condessa).

Entretanto, esta determinação genérica não se manifesta no substantivo pela flexão, como no adjetivo ou no pronome. Apesar de haver substantivos em que aparentemente se explicite a distinção genérica pela flexão (menino/menina, moço/moça, professor/professora, mestre/mestra, gato/gata, macaco/macaca, pato/pata), verdade é que a inclusão num ou noutro gênero depende direta e essencialmente da classe léxica dos substantivos e não dessa aparente e enganosa flexão de gênero, como diz Herculano de Carvalho.

Não é o fato de em português existirem duas palavras diferentes – homem/mulher, pai/mãe, boi/vaca, e ainda filho/filha, lobo/loba (das quais estas não são formas de uma flexão, mas palavras diferentes, tanto como aquelas) – para significar o indivíduo macho e o indivíduo fêmea (duas espécies do mesmo “gênero”, em sentido lógico) que permite afirmar a existência das classes do masculino e do feminino, mas, sim, o fato de o adjetivo, o artigo, o pronome etc., se apresentarem sob duas formas diversas exigidas respectivamente por cada um dos termos daqueles pares opositivos – , “este homem velho”/ ‘esta mulher velha”, “o filho mais novo”/ “a filha mais nova” - , formas que de fato constituem uma flexão.

É pacífica, mesmo entre os que admitem o processo de flexão em barco – barca e lobo – loba, a informação de que a oposição masculino – feminino faz alusão a outros aspectos da realidade, diferentes da diversidade de sexo, e serve para distinguir os objetos substantivos por certas qualidades semânticas, pelas quais o masculino é uma forma geral, não-marcada semanticamente, enquanto o feminino expressa uma especialização qualquer: barco/barca (= barco grande), jarro/jarra (um tipo especial de jarro),etc... Esta aplicação semântica faz dos pares barco/barca e restantes da série acima não serem consideradas primariamente formas de flexão, mas palavras diferentes marcadas pelo processo de derivação. Esta função semântica está fora do domínio da flexão. A analogia material da flexão de gênero do adjetivo é que levou os gramáticos a porem no mesmo plano pares de adjetivos estudioso/estudiosa etc. e os pares de substantivos aluno/aluna etc.

Sem ser função essencial da morfologia do substantivo, a diferença do sexo nos seres animados pode manifestar-se ou não com diferenças formais neles. Esta manifestação se realiza ou pela mudança de sufixo (como em menino/menina, gato/gata) – que Bechara denomina moção -, ou pela heteronímia, recorrendo-se a palavras diferentes que apontam para cada um dos sexos (bode/cabra, boi/vaca, frei/sóror, homem/mulher, etc). Na primeira série de pares, como já vimos na lição de Herculano de Carvalho, não há formas de uma flexão, mas, como na segunda série de pares, estamos diante de palavras diferentes.

Quando não ocorre nenhum destes dois tipos de manifestação formal, ou o substantivo, com seu gênero gramatical, se mostra indiferente à designação do sexo (a águia, a criança a vítima, o apóstolo, o cônjuge, o tigre etc) ou ainda indiferentemente pela forma, se acompanha de adjuntos (artigos, adjetivos, pronomes, numerais) com flexão de gênero para indicar o sexo (o agente / a agente, o artista / a artista, o estudante / a estudante, o indígena / a indígena, etc.

5. 1. Inconsistência do Gênero Gramatical

Em L.P., os argumentos a favor de uma distinção de gênero são absolutamente axiomáticos. Nos exemplos a seguir, o que, além da tradição imposta pelo uso e pela norma, sustenta serem masculinos: branco, caderno, depoimento, evangelho, giz, lápis, livro, papel, testemunho, texto e tinteiro, e femininos: bíblia, cadeira, caderneta, caneta, carteira, epístola, folha, mesa, parábola, porta e tinta?

Como bem nos lembra Evanildo Bechara, na obra que estamos seguindo como roteiro:

A inconsistência do gênero gramatical fica patente quando se compara a distribuição de gênero em duas ou mais línguas, e até no âmbito de uma mesma língua histórica na sua diversidade temporal , regional, social e estilística. Assim é que para nós o sol é masculino e para os alemães é feminino die Sonne, a lua é feminino e para eles masculino der Mond; enquanto o português mulher é feminino, em alemão é neutro das Weib. Sal e leite são masculino sem português e femininos em espanhol: la sal e la leche. Sangue é masculino em português e francês e feminino em espanhol: le sang (fr.) e la sangre (esp.).

Mesmo nos seres animados, as formas de masculino ou do feminino podem não determinar a diversidade do sexo, como ocorre com os substantivos chamados epicenos (aplicados a animais irracionais), cuja função semântica é só apontar para a espécie: a cobra, a lebre, a formiga, ou o tatu, o colibri, o jacaré, ou os substantivos aplicados a pessoas, denominados comuns de dois, distinguidos pela concordância: o/a estudante, este/esta consorte, reconhecido/reconhecida mártir, ou ainda os substantivos de um só gênero denominados sobrecomuns, aplicados a pessoas, cuja referência a homem ou a mulher só se depende pela referência anafórica do contexto: o algoz, o carrasco, o cônjuge.

5.2. A mudança do gênero

Fatores semânticos, psicológicos, lexicais, sócio-linguísticos, dentre outros, diacronicamente determinam a mudança no gênero gramatical dos substantivos. Já foram femininos fim, planeta, cometa, mapa, tigre, fantasma; entre muitos outros; já foram usados como masculinos: árvore, tribo, catástrofe, hipérbole, linguagem, linhagem.

5.3. O Gênero nas Profissões Femininas

A presença da mulher nas atividades profissionais que até bem pouco eram exclusivas ou quase exclusivas do homem tem exigido que as línguas adaptem o seu sistema gramatical a estas novas realidades. Femininos com advogada, delegada, deputada, engenheira, filóloga, juíza, médica, mestra, professora, psicóloga, senadora, entre tantos outros, já correm vitoriosos há muito tempo.

Note-se por fim, que algumas formas femininas podem não vingar por se revestirem de sentidos pejorativos, como chefa e caba, por exemplo.

6– Conclusão

Foi nosso objetivo reavaliar de forma breve algumas noções gramaticais referentes à categoria de gênero, sem nos esquecermos da relevância diacrônica.

Consciente da prática estéril no ensino de Língua Portuguesa (onde como professores ficamos na superfície de nós mesmos decorando o que está escrito) buscamos, ainda que minimamente, na antropologia filosófica e na análise do discurso subsídios que oportunizassem uma reflexão de caráter epistemológico sobre a idéia do gênero. Não desmerecemos as orientações de nossas gramáticas escolares, mas julgamos ser necessária a busca constante por caminhos para novos conhecimentos.

Por fim, considerando diferentes abordagens linguísticas, pareceu-nos evidente a impossibilidade de associação entre o caráter sexual e a configuração genérica de alguns vocábulos portugueses, bem como bastante esclarecedores os argumentos a favor da inexistência da flexão de gênero nos substantivos.

Concluímos? Fechou-se a cortina? Não! Na construção de um mundo melhor, mais espontâneo e criativo...

BIBLIOGRAFIA:

ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência. São Paulo: Brasiliense, 1986

BASÍLIO, Margarida. Teoria lexical 5 ed. São Paulo: Editora Ática, 1998

CUNHA & CINTRA. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1985

FARIA, Ernesto. Gramática Superior da Língua Latina. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1958.

LYONS, John. Linguagem e Linguística: uma introdução. Rio de Janeiro: Editora Guanabara 1982

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 RIBEIRO, Ernesto Carneiro. Serões Grammaticaes. 4 Ed, 1890, pág. 202

2 CÂMARA JR, J.M. Princípios de Linguística Geral, pág. 139

3 MARCUSHI, Luiz Antônio Aspectos da Progressão Referencial na Fala e na Escrita do Português Brasileiro. UFPE, 1999, no prelo.

4 BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. A Categoria do Gênero. Tese Livre Docência: USP, 1974

5 Id Ibid – pág. 9

6 CÂMARA JR, J.M. História e Estrutura da Língua Portuguesa. pág. 72.

7 CÂMARA JR, J.M. Dicionário de Filologia e Gramática, pág. 194

8 ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência, pág. 201

9 MARCUSHI, Luiz Antônio. Aspectos da Progressão Referencial na Fala e na Escrita do Português Brasileiro. UFPE, 1999, no prelo.

10 MARCUSHI, Luiz Antônio. Referenciação e Cognição. UFJF, 1998 . MIMEO

11 MACEDO, W. Elementos para uma Estrutura da Língua Portuguesa. pág. 28

12 Id Ibid – pág. 31, nota 2

13 Id Ibid – pág. 109

14 CÂMARA JR., J.M. Estrutura da Língua Portuguesa, pág. 88

15 CÂMARA JR. Jr., J.M. Princípios de Linguística Geral, pp. 130-1

16 CÂMARA JR, J.M. Estrutura da Língua Portuguesa, pág. 88

17 CÂMARA JR., J.M. Princípios de Línguística Geral, pág. 139

18 CÂMARA JR., J.M. Discursos. pp. 116-119

19 BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 1999 37a Ed.. pp. 131-140

20 LIMA, Rocha. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 1999 37a Ed. Pág. 71