CONSIDERAÇÕES SOBRE O NOVO/VELHO NA LÍNGUA ASURINÍ

Jociney Rodrigues dos Santos (UFRJ)
Nataniel dos Santos Gomes
(UFRJ/UNAM)

 

1. INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho deseja refletir, numa abordagem funcionalista, a colocação de algumas funções semânticas, no que concerne o que sem vem denominando, dentro do estudo da estrutura discursiva, como "Informação Nova e Informação Velha", dentro da organização da sentença do discurso da língua indígena Asuriní. Para isso, utilizaremos dados secundários, que foram coletados por Velda Nicholson, Carl Harrison e Robin Solly nas décadas de 60 e 70.

O Asuriní é uma língua da família Tupi-Guarani, falada por umas 100 pessoas. Sendo que o dialeto, que, aqui, descreveremos, pertence a uma parte do grupo Asuriní que é bilíngüe, do Posto Indígena Trocará.

De acordo com Harrison (1975: 13):

A língua asuriní é usada em circunstâncias diversas, e a estrutura da fala varia estatisticamente na função de fatores como o ambiente, tipos de participantes, propósitos, ênfase, temas, grau de intimidade ou formalidade e grau de tensão do evento.

Parece que o índio asuriní aprende não somente a gramática da sua língua, que lhe possibilita a formulação de discursos corretos e fáceis de interpretar, como também uma gramática que o ajuda a gerar um comportamento conversacional à base dos valores que ele percebe em determinados momentos nos fatores variáveis acima mencionados. Isto é, ele sabe o que dizer e como dizer.

A língua contém várias palavras emprestadas da língua portuguesa, tais como sabonete, café e máquina, mesmo que haja um termo equivalente no Asuriní, mas pronunciadas como uma entoação tipicamente Asuriní.

O povo Asuriní tive contato com o branco nos anos 1940-50. E como era de se esperar os primeiros encontros não foram nem um pouco pacíficos. Mas o Serviço de Proteção aos Índios conseguiu acalmar a situação aos poucos e estabelecer o Posto Indígena do Trocará.

De acordo com Harrison (1975:12) existem dois grupos Asuriní: um com umas 35 pessoas que moram no Posto Indígena Trocará e outro chefiado por Amoatacö’rohoa, que visitou o Posto em 1962, mas fugiu por causa da pneumonia que matou diversos índios. Boa parte do segundo grupo está desaparecida, mas alguns dos seus membros estabeleceram uma aldeia perto da cidade de Portel no Rio Pacajá (Pará), sendo monolíngües.

O grupo Asuriní se autodenomina de áqawa, expressão que pode se referir também a outros povos indígenas que o grupo encontra ou ouviu falar. O mesmo termo tem sido utilizado pelo grupo bilíngüe para designar o grupo que prefere se manter isolado. O nome Asuriní foi dado originalmente a um grupo encontrado no rio Xingu, no século passado, mas nunca pacificado.

Os grupos indígenas Asuriní habitam o Pará, a 3,5 graus ao sul do Equador, no Posto Indígena de Trocará, na margem esquerda do Rio Tocantins e também a uns 15 quilômetros abaixo do município de Tucuruí (antiga Alcobaça), no Estado do Pará.

 

 

2. O TEXTO

O material utilizado é por demais extenso. Por isso, apresentamos como exemplos dos fatores apontados durante a análise apenas os textos coligidos pesquisadora Velda Nicholson, reservando os demais autores como fonte de confirmação dos pontos abordados em nossa análise.

O texto, aqui apresentado, é apenas um elemento escolhido para representar toda a coletânea recolhida sobre o discurso na língua Asuriní. Com isso, queremos deixar claro, que os exemplos utilizados não são unicamente retirados do presente texto, mas este aparece apenas com um valor "ilustrativo" da organização do discurso na língua.

Para facilitar a leitura dos dados reproduzimos, agora, o sistema fonológico[1] Asuriní: p, t, k, kw, ¹, s, m, n, g, w, h[2], r, i, e, a, o, ö.

Esperamos, com esta atitude, propiciar uma melhor descrição do assunto abordado (informação nova e informação velha). Observe-se o texto abaixo:

IPIRA-ROKASA

Peixe-curral (O Pari)

Por Nazaré Asuriní, 10 de fevereiro de 1975.

 

1. ipira-rokasa sa-esa sere-ha
peixe-curral 1pi-ver 1pi (A)-ir
P
¹nós fomos ver o pari¹

2. yhara-pype sa-ha hesak-a ipira-rokasa
canoa-dentro 1pi-ir 3o-ver-G peixe-curral
V                                            P
'fomos na canoa para ver o pari'

3. ore-¹oga yhara-pype
nossa-imagem 2s-tirar canoa-dentro
P                                 Am
¹você tirou nosso retrato na canoa¹

4. Calbia ¹oga we ere-sira yhara-pype
Calbi imagem também 2s-tirar canoa-dentro
    P                                             Am
¹você tirou também o retrato de Calbi na canoa¹

5. sere-ha sere-pia yhara-pype h-esak-a ipira-ryroa, ipira-rokasa
    Am                        V                        P                        P
1pi-ir 1pi-em=outro=caminho canoa-dentro 3o-ver-G peixe-pano peixe-curral/recipiente
'fomos num outro caminho para ver o pari'

6. Iogawete o-pe marasa¹ywa i-masarak-a ipira-ryro-ramo
Iogawete 3s-amarrar pau 3o-rachar-G peixe-pano-tornar-se/recipiente
        A                     P                     Al
'Iogawete tinha rachado o amarrado paus para fazer o pari'

7. o-kairon Iogawete ipira y-pe
3s-cercar/fazer curral Iogawete peixe água-na
        A                     P                     Am
'Iogawete tinha feito curral (para pegar) peixes na água'

8. a¹e-pype ipira i-ke-ke-iaquele-dentro peixe 3p-entrar-entrar-Ind.II
Al
'os peixes entravam naquele'

9. arawasa-pype Iogawete h-eroe-i a-ka ipira, ipira, ipira-rokasa-hi
paneiro-dentro Iogawete 3o-tirar-Ind.II 3s(A)-estar peixe, peixe-curral-de
        A                         P                         O
'Iogawete estava tirando peixes do pari e (botando) no paneiro'

10. ipira ¹oga ere-sira, ipira-rokasa-pype
peixe imagem 2s-tirar, peixe-curral-dentro
        P                                 Am
'você tirou retrato dos peixes no pari'

11. kwe sere-ha-o ipira-rokasa-hi, hesaka
lá/depois 1pi-ir-G peixe-curral-de, 3o-ver-G
                        O
'depois saímos do pari, que tínhamos visto'

12. Nakawa¹e-raga ere-sa e-ha, hopisa we
Nakawa¹e-casa 2s-ver 2s (A)-ir, roça também
        P                             P
'você foi ver a casa de Nakawa’e, e a roça'

13. ara-ha neohi yewegohoa-pype
1pe-ir você-de lago-dentro
        O             Am

'deixamos você, e fomos no lago'

14. ywe h-erot-a
fruta 3o.trazer-G
        P

'trouxemos o bacuri'

15. ipyton-imo oro-n
noite-de ipe-vir
        T

'Viemos de noite'

16. h-erot-a ywa
3o.trazer-G fruta
        P

'trouxemos bacuri'

17. kosoetoa-pe a-mana-mana ywa
mulherada-à 1s-dar-dar fruta.
Al P
'dei à mulherada'

18. asorohoa oro-esa
papagaio(s) 1pe-ver
 P
'vimos uns papagaios'

19. pe heta asorohoa, ywa o¹o
perto muitos papagaios, fruta 3p-comer
        Am                     A                     P

'perto de nós houve muitos papagaios que comiam bacuri'

20. o-ro-t-a oro-sewyt-a
3pe-vir-G 3pe-voltar-G
'voltamos'

21. ise sowe a-san yhara-pype
eu só 1s-vir canoa-dentro
        P             V

'só eu vim na canoa'

22. Iogawete o-pyta, ipira h-enoe-o, ipira-rokasa-pype
Iogawete 3s-ficar, peixe 3o-tirar-G, peixe-curral-dentro
        A                     P                     Am

'Iogawete ficou para tirar peixes centro do pari'

 

 

3. A TEORIA

 

Não é de nosso interesse a apresentação de uma seção exaustiva sobre o que diz respeito a parte teórica já elaborada sobre "informação nova e velha", mas só desejamos situar em que plano de estudos estará situado o presente trabalho. Para isso, cita-se uma pequena explanação do que será abordado no corpus do trabalho.

Segundo Chafe, o assunto denominado "informações novas e velhas" é de extrema importância para que se tenha a compreensão de como a língua funciona. Logicamente, que a capacidade de explanação de muitos fatos significativos, ainda obscuros, por este tipo de estudo, depende do seu bom entendimento. É importante notarmos, que até o início da década de 70, este era um campo de estudo negligenciado pela Lingüística em geral, devido a recusa em admitir e investigar o papel básico desempenhado pela estrutura semântica na estrutura da língua. Tal afirmação é muito forte, já que o Círculo Lingüístico de Praga dedicou uma atenção especial, principalmente, com os estudiosos Vilém Mathesius, Jan Firbas e outros checos. Além de ter sido este assunto abordado por Halliday (1967/8) e Kirkwood (1969).

Com base nos conceito de novo/velho, não é obstante recordar que a língua permite a transmissão de informação da mente de um falante para a mente de um ouvinte. Observamos que tal informação, em um ponto de vista, pode ser considerada como organizada em orações, que apresentam, cada uma delas, um número de unidades semânticas em uma tessitura, formando, assim uma configuração complexa.

Tais fatos, descritos acima, levam, geralmente, o falante a considerar nova alguma parte da informação que ele está comunicando, isto porque ele está introduzindo na mente do ouvinte pela primeira vez. Todavia, geralmente, também, ocorre que alguma parte da informação transmitida pela oração não é nova, ou seja, uma parte é informação que o falante e o ouvinte já compartilham no momento em que a oração é enunciada. Essa informação comum ao falante e ao ouvinte faz parte de uma espécie de ponto de partida baseado em conceitos que já foram expostos, com os quais a informação nova pode compartilhar.

A distinção entre informação nova e velha é o fenômeno central do que esta subjacente às discussões sobre o que foi/é chamado de tópico e comentário ou tema e rema.

 

 

4. A ORDEM FRASAL NA LÍNGUA ASURINÍ

 

Na língua Asuriní parece não existir uma ordem fixa nas cláusulas independentes. Com isso, aceita-se, igualmente, qualquer ordem nas cláusulas, caracterizando uma língua não-configuracional. Observe-se os exemplos:

 

[01]     S     V     O
akoma¹e o-nono sawara
homem 3s-bater cachorro

[02]     S     V     O
akoma¹e sawara o-nono
homem cachorro 3s-bater

[03]     S     V     O
sawara akoma¹e o-nono
cachorro homem 3s-bater

[04]     V     O     S
o-nopo sawara akoma¹e
3s-bater cachorro homem

[05]     O     V     S
sawara o-nopo akoma¹e
cachorro 3s-bater homem

[06]     V     S     O
o-nono akoma¹e sawara
3s-bater homem cachorro
'o homem bateu o cachorro'

 

Todavia, quando o estudo é direcionado paro o discurso inteiro, destaca-se uma ordem bem definida dentro da estrutura frasal. Isto pode ser caracterizado da seguinte maneira: 1º) uma importante informação não-verbal assume uma posição inicial na sentença; 2º) uma informação de importância secundária ocorre em posição final de c sentença; 3º) uma informação de menor importância ocuparia uma posição medial na cláusula. Para isso, corroboram vários fatores para a formação de tal sistema.

 

 

5. O NOVO/VELHO E AS FUNÇÕES SEMÂNTICAS

 

Inicialmente, é necessário saber se já foi mencionado no discurso: o agente, o paciente, o tempo, o âmbito, ou outra função semântica qualquer; ou se está se introduzindo tal função pela primeira vez.

As novas informações tendem a se apresentarem em posição inicial na sentença. Se há mais de uma função semântica com informação nova, uma destas ocorre em posição inicial e a outra em posição final. Contudo, estas funções semânticas não ocorrem aleatoriamente dentro das frases, elas obedecem a uma hierarquia quando as suas colocações dentro das sentenças, ou seja, há uma ordem bem definida para a ocorrência.

Após a observação minuciosa dos vários textos utilizados na construção deste trabalho, constata-se que as observações de Nicholson (1977) são concernentes quanto a existência de funções semânticas no discurso Asuriní. Acrescentamos ao dizer que o conteúdo de informação nova/velha vem atribuída a uma forma não-verbal, como postulado por Chafe (1979) que tanto uma raiz verbal tanto uma expressão não-verbal podem caracterizar a dicotomia novo/velho (ver item 6.4).

Ao retomarmos as funções semânticas, observamos que existem nove importantes funções em Asuriní, o que confere com Nicholson (1977), são elas: tempo (T), agente (A), paciente (P), âmbito (Am), alvo (Al), origem (O), beneficiário (B), veículo (V) e instrumento (I). Entretanto, não trabalharemos com todas estas funções e nem com todas as posições ocupadas por elas dentro da estrutura frasal do discurso em Asuriní, pois, isto causaria um alongamento não proveitoso para o presente trabalho.

Logicamente que cada função possui características próprias quanto suas posições estabelecidas diante das outras. Porém, como já citado anteriormente, serão apenas desenvolvidos assuntos concernentes a algumas funções e a ocupação destas da posição inicial dentro da sentença. As referidas funções são: Tempo, Agente e Paciente.

A escolha de tais funções se deve a ocuparem uma posição hierárquica mais importante que as demais, e por se tratarem de elementos que possuem uma maior força semântica no discurso Asuriní. Destes três elementos é possível destacar a ordem básica presente no discurso Asuriní.

As Funções Semânticas, destacadas abaixo, são baseadas no estudo de Grimes (1975), observe-se que são as mesmas utilizadas por Nicholson(1977):

Ø A > Agente - identifica o responsável por uma ação. Costuma ser animado mas pode ser inanimado. Ocorre com estado, movimento ou posição (função do processo ou orientação).

Ø P > Paciente - identifica a coisa que sofre um processo gradativo ou abrupto. Identifica também a coisa que muda de estado, ou que conserva estado estável.

Ø Am > Âmbito - identifica o caminho ou área atravessado, numa locução de movimento. Com posição indica localização estática.

Ø O > Origem > ponto inicial de movimento ou processo. Identifica o limite original de um evento.

Ø Al > Alvo - ponto de chegada de movimento ou processo. Identifica o limite final de um evento.

Ø V > Veículo - refere-se a alguma coisa que carrega o objeto e se movimenta junto com ele.

Ø I > Instrumento - refere-se a alguma coisa usada inanimadamente na realização de uma ação.

Ø B > Beneficiário - refere-se a alguém ou a alguma coisa sobre que a ação tem efeito secundário, seja este benefício ou malefício.

Os sintagmas responsáveis pela função de T (tempo) é trabalhada separadamente da de âmbito, devido ser relevante esta separação para o presente estudo.

 

 

6. O NOVO/VELHO E AS CATEGORIAS FUNCIONAIS OCORRENDO EM POSIÇÃO INICIAL NO DISCURSO

 

6.1. GENERALIZAÇÃO

 

Serão identificados, primeiramente, os elementos que podem ocorrer na posição inicial da sentença. Uma unidade funcional de nova informação, que se apresenta isolada, aparecerá em tal posição. Ao existir mais de uma informação nova, entrarão em ação as regras de hierarquização dentro do discurso na língua. Com esta ocorrência, algumas das funções (informação nova) serão obrigadas a ocupar outras posições.

 

[07] A viagem Tucuruí, por Nazaré, linha 1
Tucuruí-pe raka sa-ha, toria-ropi, somiapapyga-pype
            Al             Am             V

Tucuruí-a passado=recente=presenciado 1pi-ir, civilizado-com, barco motor-dentro
'fomos a Tucuruí num barco-motor com civilizados'

 

Na ausência de uma informação nova na sentença, o predicado ocupa, geralmente, a posição inicial. Verifique-se que a única informação velha, que pode assumir tal posição, é um agente reintroduzido.

 

6.2. UMA CATEGORIA FUNCIONAL OCORRENDO ANTES DO PREDICADO

 

6.2.1. O TEMPO

 

A função temporal ocupa a posição inicial da sentença em relação com as demais categorias semânticas, ou seja, possui a posição mais alta na hierarquia das categorias semânticas que representam as informações nova/velha no discurso Asuriní.

 

[08] Peixe-Curral, por Nazaré, linha 15:
ipyton-imo oro-n
T
noite-de 1pe-vir
'viemos de noite'

[09] O dia 7 de setembro, por Nazaré, linha 1:
ma¹e-apo-taw-y¹ym-a-re sa-ha Tucuruí-pe
T                 Al

coisa-fazer-nom-neg-nom-no 1pi-ir Tucuruí-a
'no fim de semana fomos a Tucuruí'

[10] A Viagem, por Petyrawa, linha 7:
ose¹iwe oro-t-a ywyo, pee-ropi
 T             Am             Am

o=dia=seguinte 1pe-vir à=pé caminho-po
'no dia seguinte viemos á pé, pela estrada'

 

 

6.2.2. O AGENTE

 

Quando não existe uma função temporal, o agente, como uma informação nova, preenche a posição inicial da sentença.

[11] Peixe-Curral, por Nazaré, linha 6
Iogawete o-pe marasa¹ywa i-masarak-a ipira-ryro-ramo
A                 P                 Al

Iogawete 3s-amarrar pau 3o-rachar-G peixe-pano-tornar-se=recipiente
'Iogawete tinha rachado e amarrado paus para fazer o pari'

[12] A Masaranduba, por Nazaré, linha 1
akoma¹e raka a-ha soa-re ore-renone kwe-Masaranduba-pe
A                 Am                     Al

homens passado=recente=presenciado 3p-ir castanha-referente=a nós-em=frente lá-Masaranduba-a
'os foram em frente de nós a Masaranduba em busca de castanha'

[13] Urubu, por Iogawete, linha 18
Serevia o-saka sawara
A                     P

Serevia 3s-matar cachorro
'Serevia matou o cachorro'

 

Não há somente na posição inicial um novo agente, mas também com uma relativa freqüência um agente reintroduzido no discurso. O agente reintroduzido é resgatado após uma ausência mais ou menos prolongada, ou após permanecer esquecido atrás de um grupos de agentes novos em primeiro plano, caracterizando em uma informação velha.

 

[14] Peixe-Curral, por Nazaré, linha 22:
Iogawete o-pyta, ipira h-enoe-o, ipira-rokasa-pype
A(reintroduzido)             P             Am

Iogawete 3s-ficar, peixe 3o-tirar-G, peixe-curral-dentro
'Iogawete ficou para tirar peixes dentro do pari'

[15] Urubu, por Cajaugawa, linha 31:
João raka ¾ sawewyra mo... ¾ i¹i raka, João
A(reintroduzido) (citação)                         A

João passado=recente=presenciado ¾ arraia talvez... ¾ 3s-dizer passado=recente=presenciado João
'João falou ¾ Arraia... ¾ João disse'

[16] Na mesma narrativa, linha 59:
João raka i-soka-o inomoa sowe no
A(reintroduzido)                         P

João passado=recente=presenciado 3o-matar-G pássaro só de=novo
'João só matou um pássaro'

6.2.3. O PACIENTE

 

Na ausência de um elemento temporal ou agente novo, um novo paciente ocupa a posição inicial na sentença. Há apenas um problema quando ocorre a função semântica Âmbito, que por vezes se ocupa do lugar.

 

[17] Peixe-Curral, por Nazaré, linha 1:
ipira-rokasa as-esa sere-ha

P
peixe-curral 1pi-ver 1pi(A)-ir
'nós fomos ver o pari'

[18] A viagem de Pucuruí, por Poraké, linha 1:
soa raka oro-manahag ara-ha Pucuruí-pe

 P                         Al
castanha passado=recente=presenciado 1pe-cortar 1pe-(A)-ir Pucuruí-a
'fomos a Pucuruí cortar castanha'

[19] Acontecimentos..., por Nazaré, linha 3:
karowara raka o-apo a-ka ne-raga-rehe

P                     Am
veneno passado=recente=presenciado 3s-fazer 3s-estar sua-casa-na
'ela botou veneno na sua casa'

 

 

6.3. DUAS CATEGORIAS FUNCIONAIS OCORRENDO ANTES DO PREDICADO

 

6.3.1. TEMPO E AGENTE

 

No capítulo anterior foi mencionado que a função semântica temporal ocupa a posição inicial da sentença. Todavia, quando as funções de tempo e agente co-ocorrem na mesma sentença, podem acontecer as seguintes combinações: a) tempo-agente —; b) agente-tempo — A posição inicial é preenchida pela função julgada mais temática. Note-se que raramente ocorre um agente novo ou reintroduzido após o evento.

A estrutura formada por estas combinações parece manter enfocadas as duas funções.

 

[20] O Dia de Natal, por Poraké, linha 1:
Velda raka dia-de-natal-rehe i-amonam Manuel pyri, kwe ka¹a-pe

A                         T

Velda passado=recente=presenciado dia=de=nata-no 3s-passear Manuel-ao lá mato-no
'Velda foi passeando no Dia de Natal para (visitar) Manuel, lá no mato'

[21] ose¹iwe Domingo i-mana-mana-i
no=dia=seguinte o Sr. Domingo 3s-dar-dar-Ind. II

T                         A

'o Sr. Domingo o vendeu no dia seguinte'

 

 

6.3.2. AGENTE E PACIENTE

 

Na ocorrência de um agente novo ou reintroduzido com um novo paciente, sendo este temático, são empregadas as seguintes estruturas: agente-paciente—— e paciente-agente —— Isto ocorre para a preservação das funções diante do predicado devido ao novo paciente constituir um tema discursivo e ser introduzido na mesma sentença que um novo agente. Normalmente, me tal situação, um novo paciente ocupa a posição final da estrutura frasal.

 

[22] A Viagem de Pucuruí..., por Petyrawa, linha 1:
ore raka soa oro-manahag ara-ha kwe Pucuruíohoa-rowai

A                     P                     Al

nós passado=recente=presenciado castanha 1pecortar 1pe(A)-ir lá Pucuruí-do=lado=de=lá
'nós fomos além de Pucuruí para cortar castanha'

[23] Arroz, por Nazaré, linha 1:
komanaisi¹ia wyge o-manahag a-ka Urubu-pe aoseoho

P             A             Am             A

arroz pessoal 3s-cortar 3s-estar Urubu-em todos
'todo mundo estava cortando arroz em Urubu'

 

Observe-se quando o novo paciente não pode assumir posição inicial por não se tratar de um tema discursivo.

[24] Dia 7 de setembro, por Nazaré, linha 11:
amynahoa o-mo-akyn komana¹ia

A                         P

chuva-muita(sic) 3s-causativo-molhar feijão
'muita chuva molhou o feijão'

 

 

6.4. ANÁLISE DA OCORRÊNCIA DAS CATEGORIAS FUNCIONAIS COMO INFORMAÇÃO NOVA NO INÍCIO DA SENTENÇA

 

Segundo Chafe, a raiz verbal pode fornecer a informação nova, entretanto essa informação, também, pode ser dada por uma expressão não-verbal. Não obstante, observou-se que, em Asuriní, a informação nova é representada por tal expressão não-verbal, que ocorre imediatamente antes do predicado.

Devemos notar que as expressões não-verbais, que ocorrem como informação nova/velha, trazem consigo uma carga semântica muito expressiva (ver item 5). O que nos faz concluir que estas categorias semânticas não são apenas elementos funcionais acessórios, mas constituem verdadeiros temas dentro do discurso Asuriní.

A posição de ocorrência das categorias funcionais vai representar se elas possuem a característica de uma informação nova ou de uma informação velha. Como já dito anteriormente, os únicos elementos funcionais, que podem aparecer em posição inicial, são aqueles que descrevem uma informação nova, podendo ocorrer a exceção de uma informação velha ocorrer em início de sentença no discurso, o que é o caso do agente reintroduzido.

Ao voltarmos a falar da aparição de categorias funcionais ante o predicado, é necessário lembrar que não pode haver nenhum elemento atrapalhando este relacionamento, assim como acontece em português, quando o sujeito é separado do predicado por vírgula. Observe-se o exemplo a seguir:

Maria visitou seus avós.

* Maria, visitou seu avós.

Não é demais acrescentar uma observação ao parágrafo anterior: na ocorrência dos marcadores temporais "raka" (passado recente presenciado) e "sehe" (passado recente não-presenciado) não podemos considerar que o contato entre o elemento funcional e o predicado está sendo quebrado, pois o marcador é apenas um coadjuvante na estruturação do discurso em Asuriní, e serve para indicar a posição do narrador em relação ao acontecimento expresso pelo verbo da oração.

 

 

7. A INFORMAÇÃO VELHA OCUPANDO A POSIÇÃO INICIAL NA SENTENÇA

 

Há na língua Asuriní, poucos casos, além o de agente reintroduzido, em que uma função semântica já conhecida no texto (informação velha) assume uma posição inicial.

Os elementos que representam estes poucos casos são "dêiticos", que atuam como uma referência anáforica de algo já dito no discurso. Sendo esta referência representada pelas expressões: a¹e 'aquele/aquela', a¹e-hi 'daquele/daquela, a¹e-ropi 'ao longo daquele/daquela, etc.. Estes elementos constituem uma informação velha por se referirem a um agente ou paciente previamente identificado no discurso.

 

[25] A estrada, por Nazaré, linha 40:

39. Tokará-re o-apo h-ereka yaragawa-rape, h-opit-a
Trocará-no 3s-fazer 3o-ter carro- 3o-carregar-G.
'eles estavam construindo uma ponte sobre o Rio Trocará'

40. a'e raka as-enom
aquele passado=recente=presenciado 1pi-ouvir
'ouvimos aquele'

Há casos em que a informação velha precede a um novo agente.

 

[26] A estrada, por Nazaré, linha 36:
a'e raka Naterona o-eraha toria-hi ywyri i-moi-na

P                     A                     B             Am

aquela passado=recente=presenciado Naterona 3s-levar civilizado-de beira 3o-deixar-G
'Naterona levou aquela dos civilizados e deixou na beira'

 

O exemplo citado, acima, além de vários outros casos de ocorrência dos elementos dêiticos já citados, é analisável como a interrupção do fio normal dos eventos para a referência de algum acontecimento passado (tempo mais-que-perfeito). Observe-se a seguir outro exemplo:

 

[27] A estrada, por Nazaré, linhas 1 - 5:

1. peagawahoa-ropi raka as-ha, Iogawete-pyri
estrada-por passado=recente=presenciado 1pi-ir Iogawete-ao
'fomos ao Iogawete, (que estava) na estrada'

2. toria-pyri h-eka-i Iogawete
civilizados-com 3s-estar-Ind.II Iogawete
'Iogawete estava com os civilizados'

3. ma'ea'aa o-soka a-ka isope, h-erot-a toria-pe
carne 3s-matar 3s-estar para eles, 3o-trazer-G civilizados-aos
'ele estava caçando por eles, e trazendo carne para eles'

4. tamotare toria o-mon a-ka isope, ma'ea'aa-re
dinheiro civilizados 3p-dar 3p(A)-estar para ele, carne-por
'eles davam dinheiro a ele pela carne'

5. a'e raka sa-esa sere-ha
aquele passado=recente=presenciado 1pi-ver 1pi(A)-ir.
'foi aquele que vimos, indo lá'

 

 

8. CONCLUSÃO

 

Como já dito anteriormente, desejamos, com este trabalho, apresentar a colocação das informações novas e das informações velhas dentro do discurso da língua Asuriní dentro de uma visão funcionalista. Para isso, foram utilizados discursos coligidos pelos pesquisadores Velda Nicholson, C. Harrison e Robin Solly.

Os dados analisados nos deram uma posição sobre a força que desempenham as funções semânticas para a organização da estrutura frasal no discurso. Observamos que existe uma hierarquia de funções que determinam a colocação da informação nova e da informação velha em relação ao predicado.

Uma notificação que merece atenção é que não existe uma ordem marcada na configuracionalidade da sentença em frases livres, ou seja, parece ser aceita qualquer ordem dos termos: S, V e O. Contudo, na estrutura sentencial discursiva há a preocupação em se destacar alguns elementos através de sua posição na oração. Para tal processo, existe uma hierarquia entre as funções semânticas, que aparenta ser, até certa consideração, inviolável.

Esperamos ter dado a partida quanto a preocupação do relacionamento dos elementos do discurso em relação as suas funções semânticas, que denotam informações novas/velhas, e por possuírem tais funções o poder de modificarem a ordem sentencial do discurso.

 

 

9. ABREVIAÇÕES

 

As abreviaturas são reproduzidas de acordo com as de Nicholson(1977: 25), e se caracterizam em:

1pe > primeira pessoa do plural exclusiva sujeito
1pi > primeira pessoa do plural inclusiva sujeito
1s > primeira pessoa do singular sujeito
2p > segunda pessoa do plural sujeito
2s > segunda pessoa do plural sujeito
nom. > nominalizador
3p > terceira pessoa do plural sujeito
neg. > negativo
3s > terceira pessoa do singular sujeito
(A) > prefixo de auxiliar
G > prefixo de gerúndio
O > informação nova
3o > prefixo de terceira pessoa objeto
Ind. II > sufixo de Indicativo II

 

 

10. BIBLIOGRAFIA

 

BROWN, G. & YULE, G. Discourse analysis. Cambridge : Cambridge University Press, 1993.

CHAFE, Wallace. Significado e estrutura lingüística. Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos, 1979.

———. Cognitive constraints on information flow. In: TOMLIN, R. Coherence and Grouding in Discourse, p. 21-53. John Benjamin, 1987.

COULTHARD, M. An introduction to discourse analysis. London and New York : Longman, 1995.

GRIMES, J. E. Thread of discourse. Haia : The Hague/Mouton, 1975.

HARRISON, Carl H. 20 textos Asuriní. Ms Arquivos do Museu Nacional, 1963.

———. Gramática asuriní. Brasília : Summer Institute of Linguistics, 1975. (Série Lingüística n. 4.)

NICHOLSON, Velda. Textos Asuriní - 25 histórias, 7 mitos. Brasília : Summer Institute of Linguistics, 1976.

———. Ordem frasal de cláusulas na Língua Asuriní. Brasília : SIL, 1977. (Arquivo Lingüístico nº 13.)

———. Aspectos da língua Asuriní. Brasília : Summer Institute of Linguistics, 1978.

SOLLY, Robin. 40 textos coletados do Asuruni. Rio de Janeiro : Arquivos do Museu Nacional, 1963.

 
[1] Os símbolos fonêmicos usados refletem geralmente as características do fonema representado, de acordo com o IPA (International Phonetic Alphabet), com as seguintes exceções: y por /ö/; e por /E/; g por /N/; ¹ por /?/; r por /R/ e s por /tS/.
[2] h representa uma fricativa glotal sonora.