FÁBULAS DE FEDRO COM COMENTÁRIOS LINGÜÍSTICOS, LITERÁRIOS, FILOSÓFICOS E ESTILÍSTICOS

Márcio Luiz Moitinha Ribeiro (UERJ)

 

Pretendemos não só tecer comentários lingüísticos, literários e estilísticos acerca de algumas fábulas de Fedro, mas também refletir sua proposta de vida que deseja ensinar a virtude e os bons costumes à sociedade de sua época. Articularemos, sobretudo, este trabalho com a nossa vida agitada deste final de milênio, visto que as suas fábulas são perenes.

Selecionamos 3 (três) fábulas para analisar e concretizar tal objetivo acima proposto, a saber: Vulpes ad Personam Tragicam, Vulpes et Vua; e Vipera et Lima[1]. Então, comecemos com

 

Vulpis Ad Personam Tragicam[2]

Personam tragicam forte uulpes uiderat:

“O quanta species”, inquit “cerebrum non habet!”

Hoc illis dictum est quibus honorem et gloriam

Fortuna tribuit, sensum communem abstulit.

(I, 7)

Tradução:

A raposa e a máscara de tragédia

 

“A raposa vira, por acaso, uma máscara de tragédia

“Ó quanta beleza”, disse, “não tem cérebro!”

Isto foi dito para aqueles aos quais a sorte (a fortuna) atribuiu honra e glória, (entretanto) tirou o senso (a razão) comum.”

 

Comentários:

A raposa caminhando, em certo momento de seu percurso, encontra uma máscara de tragédia e fica admirada de tanta beleza nela contida, pega-a e observa que não tem cérebro, pois, só há a face.

Esta magnífica fábula nos propõe pelo menos dois aspectos da nossa realidade. O primeiro está relacionado à beleza. Geralmente, os homens querem uma namorada ou esposa, porém, esta tem de ser bela, de olhos azuis ou verdes de preferência. Entrementes, quando a conhecemos melhor, descobrimos alguns defeitos que prejudicam o relacionamento. Assistimos, assim, a muitos namoros ou casamentos se dissiparem com graves conseqüências para a vida dos dois. Por que, então, valorizamos a beleza exterior, enquanto deixamos de lado a interior? Quantas vezes não amamos uma mulher porque é feia de aparência ou pobre? No entanto, devemos, sobretudo, valorizar a pessoa no mais profundo do seu ser, bastando para isto ver com os olhos da alma, do coração e, não, com os da razão. Na verdade, o que importa é a essência, enquanto a aparência deve ser desprezada.

A raposa, que simboliza o ser humano, se depara com a máscara e sua beleza virtual e diz: O quanta species (“Ó quanta graça”), porém, observamos que somente existia o rosto deste objeto sem vida, o restante estava vazio, já que não havia cérebro: cerebrum non habet!. Poderíamos cotejar a máscara como se fosse aquela mulher belíssima de semblante que, no seu interior, só possui podridão.

O segundo momento de nossa reflexão se refere à lição de moral:

“Hoc illis dictum est, quibus honorem et gloriam

Fortuna tribuit, sensum communem abstulit.”

(“Isto foi dito para aqueles aos quais a sorte atribuiu honra e glória, (porém) tirou a razão comum”.)

O fabulista critica os homens de seu tempo que possuem bens materiais e, por isto, adquiriram “honra” e “glória”, porém perderam a razão e vivem de aparências, mentiras e falcatruas, sendo que todos estes vícios são representados pela máscara à qual nos referimos. Estes homens são elementos que só pensam no poder e se esquecem dos outros como muitos políticos que conhecemos, atualmente. Para eles “a fortuna” tirou o “senso comum” (= sensum communem) que é a virtude; e transformou-os em exímios demagogos.

Sabemos que Fedro, poeta latino, viveu na época de Augusto de 29a.C. a 14 d. C, sendo que a sua fábula é uma narração alegórica, cujas personagens são geralmente animais e seres inanimados que simbolizam os seres humanos com seus erros e defeitos. Por isso, o nosso fabulista retrata os seus ensinamentos, através de lições morais que servem para nós, até nos dias de hoje, como filosofia de vida. Também, vale ressaltar que Fedro se inspirou em muitas fábulas de Esopo, famoso poeta grego do séc. VI a.C., no entanto, Fedro soube adaptar algumas de suas fábulas ao gosto e à vida romanos, sem plágio.

Neste momento, gostaríamos de ressaltar dois aspectos lingüístico-filológicos; e um estilístico. No primeiro, destacamos o substantivo persona (= máscara) tomado do prevérbio per (= através de) + sona, proveniente do verbo sono,-as,-are (...) = soar. Etimologicamente, este vocábulo significa soar, fazer ouvir um som, através da boca. O seu sentido próprio é máscara de teatro, originando, em português pela raiz, vários vocábulos entre os quais temos personagem, pessoa, personalidade. Em latim, em seu sentido figurado, persona pode ser traduzido também por ator. Vale lembrar que os atores do teatro antigo usavam máscaras, cada uma das quais correspondia a determinado papel ou caráter.

O vocábulo tragicam, que especifica o tipo de personam (= máscara), está no acusativo singular feminino, visto que é um adjetivo de 1a. classe. Destarte, em latim, este concorda em gênero, número e caso com o substantivo ao qual se refere, por outro lado no vernáculo, o adjetivo concorda, apenas, em gênero e número, pois o caso já não o possuímos.

Um último dado, que nos chama a atenção nestes dois últimos versos, é a repetição de tantas nasais –m e –n, dando-nos a sensação de um tempo de prolação prolongado destas consoantes com as vogais a que estão ligadas, podemos perceber, neste momento, o tom moralizante de Fedro, que vem à luz, sobretudo, pela leitura em voz alta e pelas quantidades das vogais nos vocábulos, além disso, o nosso poeta conclui veementemente com um verbo de carga semântica negativa abstulit que significa “levou, tirou, furtou, destruiu”, etc..

Passemos para a segunda fábula:

 

De Vulpe Et Vua

 

Fame coacta uulpes alta in uinea

Uuam adpetebat summis saliens uiribus;

quam tangere ut non potuit, discedens ait:

“nondum matura est; nolo acerbam sumere”.

Qui, facere quae non possunt, uerbis eleuant,

adscribere hoc debebunt exemplum sibi.

(IV, 3)

Tradução:

A raposa e a uva

Coagida (impelida) pela fome, a raposa cobiçava o cacho de uva

na alta parreira, pulando com todas as forças;

como não pôde tocá-la, disse, afastando-se:

“Ainda não está madura: não quero apanhá(-la) verde (azeda)”

(Os) que diminuem com palavras, (as coisas) que não podem fazer, deverão aplicar para si este exemplo.

 

Comentários:

 

Fedro é, deveras, mavioso, extraordinário, admirável! Ele urde aspectos inerentes ao ser vivo, em suas fábulas, sobretudo, narrando as fraquezas humanas e suas questões mais vis.

Temos em Vulpes et uua uma raposa, metáfora da pessoa maliciosa e astuta, enquanto a uua seria o escopo a ser alcançado por ela. Como podemos observar na tradução, este animal quando percebe que não conseguirá pegar aos saltos as uvas daquela alta parreira, automaticamente, retira-se com suas desculpas: “nondum matura est; nolo acerbam sumere”. (= “Ainda não está madura; não quero apanhá(-la) verde”). Perguntamos aos nossos leitores: Quantas pessoas, quando não atingem os seus objetivos, usam o mesmo artifício da raposa a fim de justificar a si próprio e aos outros um fato ocorrido? O nosso “querido” animal astuto se persuade com as suas palavras maliciosas e vai embora. Até hoje, depois de quase 20 séculos, Fedro continua atualíssimo, pois trata dos aspectos do ser humano que são perenes, fazendo-nos filosofar, discutir e questionar sobre assuntos do nosso cotidiano brasileiro e universal.

Vejamos o que Fedro nos fala em seus dois últimos versos:

“Qui, facere quae non possunt, uerbis eleuant,

Adscribere hoc debebunt exemplum sibi.”

(= “(Aqueles) que diminuem com palavras, (as coisas) que não podem fazer, deverão aplicar para si este exemplo”.)

Fedro quer nos ensinar que a verdade deve estar acima de todas as coisas, pois ela engrandece o homem. Por outro lado, não devemos ser como a raposa, símbolo do animal astuto, que fala muito bem como um sofista, mas não pratica verdadeiramente as suas ações. Para viver basta ter um bom discurso retórico, ser esperto e malicioso? Quantos não são assim, infelizmente? Enfim, cabe a nós identificar as raposas que nos cercam e levá-las ao bom caminho, transformando-as em dóceis cordeirinhos.

Uipera et Lima

1 Mordaciorem[3] qui inprobo dente adpetit,

hoc argumento se describi sentiat.

In officinam fabri uenit uipera.

Haec cum temtaret ecqua res esset cibi[4],

5 limam momordit. Illa contra contumax:

“Quid me” inquit “stulta, dente captas laedere,

omne adsueui ferrum quae conrodere

..................................................................................... ?

(IV, 8)

Tradução:

 

A Víbora e a Lima

 

1 (Aquele) que cobiça com dente ímprobo (perverso) um mais mordaz do que ele,

compreenda (sinta) que ele é descrito por este argumento.

A víbora chega à oficina do ferreiro.

Esta, quando procurava[5] (se) existia algum alimento,

5 mordeu a lima. Esta orgulhosa, em resposta, disse:

– “Por que procuras ferir-me com o dente”, “ó estúpida,

(eu) que me habituei a corroer todo o ferro

.......................................................................................?

 

Comentários:

 

Na fábula Vipera et Lima, Fedro inicia os dois primeiros versos senários jâmbicos com a sua lição de moral por meio das seguintes palavras:

“Mordaciorem qui improbo dente appetit,

Hoc argumento se describi sentiat”.

= “(Aquele) que cobiça com dente ímprobo (perverso) um mais mordaz do que ele, compreenda (sinta) que ele é descrito por este argumento”.

Temos, como podemos perceber, um animal malicioso, a cobra; e um objeto inanimado, a lima, que, na fábula, é mais ímproba por destruir objetos metálicos com os seus dentes afiados. Portanto, há duas imagens, simbolizando o mal. A víbora muito empertigada, além de faminta, chega à oficina e, perscrutando algum alimento, se depara com a lima e a morde. A lima que já se acostumou a ferir, carpar, polir e a debastar com os seus dentes os metais, sentiu na pele o que estava acostumada a fazer e repreende a víbora com estas enérgicas palavras:

 

 

“Illa contra contumax:

– “Quid me” inquit “stulta, dente captas laedere,

omne assueui ferrum quae corrodere

.......................................................................... ?”

 

“Esta orgulhosa, em resposta, disse:

– “Por que procuras ferir-me com o dente”, “ó estúpida,

(eu) que me habituei a corroer todo o ferro

..................................................................................? “

 

Notem um ponto em comum entre a víbora e a lima. As duas têm dentes que corroem os seus alimentos. Porém qual é a mais mordaz na sua opinião? A mais mordaz, sem dúvida, como já afirmamos, é a lima a qual se encontrava na oficina, enquanto a víbora, debalde, consegue morder a lima e certamente deve ter quebrado os seus dentes acostumados a degustar os seus alimentos viventes! Agora, nos perguntamos: O que Fedro queria ensinar com esta fábula? Certamente, onde se encontram dois perversos com o mesmo interesse, o mais fraco será, geralmente, o menos beneficiado no seu objetivo. Traçando um paralelo com os nossos dias, imaginemos a seguinte situação, presente em nossas favelas: a lima é o traficante antigo em seu território e, de repente, chega ao local um outro menos perigoso(que seria a víbora na fábula), mas que quisesse disputar os melhores pontos de venda da droga, enquanto a dentada representaria a disputa do território. O que aconteceria? Fácil de responder. Certamente, existiria a guerra pelo local, onde o primeiro seria o vencedor por conhecer melhor o lugar no qual mora, além de o mesmo repreender efusivamente o seu adversário, não importando que ambos tivessem algo em comum: a venda da droga no morro, já que não se pode dividir o mesmo espaço com outro. É neste contexto que nos recordamos da seguinte sentença onde o mal está presente: “Abyssus abyssum inuocat.” (= “O abismo chama o abismo”), isto é, uma desgraça chama a outra. Se você fizer o mal, cuidado! Pois, ninguém está isento, neste mundo, de receber com a mesma moeda as ações vis que praticamos.

No que diz respeito ao comentário lingüístico, achamos relevante selecionar três itens: o primeiro trata da preposição latina, o segundo diz respeito ao gênero neutro; e por fim analisaremos o substantivo limam para comentar o caso lexicogênico, presente no verso 5, e posteriormente o articularemos com o verbo momordit a fim de mostrar uma belíssima passagem estilística.

Sabemos que em latim as preposições têm um uso mais restrito do que no vernáculo, sendo que os únicos casos que aceitam a regência de preposições latinas são o ablativo e o acusativo. Ora as preposições são seguidas de acusativo quando existe idéia de movimento, ora são seguidas de ablativo e neste caso não há dinamismo na ação, mas um sentido estático. No entanto, não podemos nos esquecer de que existem algumas preposições que podem reger acusativo e ablativo, entre as quais citamos as preposições in, sub e super que, dependendo da regência, podem ter a tradução alterada. Observemos os seguintes exemplos: Eo ad scholam = Vou para a escola; Eo in scholam = Vou para a escola. A priori, não notamos nenhuma diferença na tradução. No entanto, há! Como o latim é sutil e sintético! Em poucas palavras esta língua consegue dizer muito. No primeiro exemplo, Eo ad scholam = traduz-se por vou para (= até à escola), porém não entrarei nela, (mas) ficarei nos arredores, em contrapartida, no segundo, temos Eo in scholam = que significa semanticamente que vou para dentro da escola e provavelmente estudarei nela.

Os leitores já devem ter notado que os exemplos que citamos dão idéia de movimento, por isto que eles estão no acusativo regido pela preposição ad ou in. Já em Sum in schola = Estou na escola, não existe esta idéia de movimento[6].

Portanto, a preposição está regendo ablativo singular. Todos os exemplos com preposição, sintaticamente, corresponderão a um adjunto adverbial em português: Temos um de lugar em “estou na escola”; e de lugar para onde em “vou à escola". No vernáculo, a preposição introduz nomes em muitas outras funções além das de adjuntos adverbiais, visto que a nossa língua,assim como as línguas românicas em geral, eliminou a flexão casual e a marca da subordinação ao verbo que recaiu exclusivamente na preposição. Dois fatos são dignos de leitura atenta em História e Estrutura da Língua Portuguesa, do professor Mattoso Câmara Júnior. O primeiro diz respeito ao que ”mais caracteriza, porém a estrutura românica é a utilização da preposição para a relação nominal, isto, a subordinação de um substantivo a outro.” E o segundo fato está relacionado à explicação da função das preposições latinas e sua correspondência no português. (6)

No verso 7 da fábula Uipera et Lima, temos o vocábulo ferrum, que está no caso acusativo singular do gênero neutro. O latim, da mesma maneira que o grego, costumava atribuir aos nomes de coisas o gênero neutro (ne = não + uter = um e outro) que, como a própria palavra está a indicar, não especifica nem um nem outro gênero gramatical, pela mesma razão por que as coisas não têm nenhum dos dois sexos. Assim, flumen, -inis = rio; bellum,-i = guerra, caput,-itis = cabeça, mare,-is = mar, cornu,-us = chifre,etc., são em latim palavras neutras, com terminações especiais, diferentes das terminações do masculino e do feminino, porque os objetos designados por esses nomes não possuem sexo.

Mas, nem todas as palavras se estendem a essa orientação e os nomes de coisas inanimadas passaram, à semelhança das que designam seres vivos, a ter uns, o gênero masculino, outros, o feminino. Podemos afirmar que no próprio latim clássico já começava a operar-se a heterogeneidade vocabular, passando certos nomes neutros para o masculino e alguns para o feminino. No latim vulgar, acentuou-se ainda mais essa mudança de gênero, acabando o neutro por desaparecer, já por falta de significação especial, devido a motivos de ordem fonética tais como:

a) Confusão de declinação, na 2ª, 3ª e 4ª, de formas neutras com masculinas. Exs.: Coelus por coelum, uinus por uinum, lactem por lac, etc.;

b) Existência de terminações iguais com gêneros diferentes: Arma (N. pl. Neutro da 2ª), arma (N. sg. Fem. da 1ª), etc.

c) O enfraquecimento ou queda, na língua vulgar, do –s e –m finais das palavras.

Devemos saber que a orientação no atribuir o gênero gramatical aos nomes de seres inanimados varia de língua para língua; se mulher, ente animado, é substantivo feminino em todas as línguas, lua, que designa ser inanimado, pode ser feminino numa língua, como no português, e masculino noutra, como o é no alemão.

Como o gênero neutro não se aplicava a todos os nomes de coisas, conseqüência natural foi o desaparecimento deste nas línguas neolatinas. Não obstante, no vernáculo, temos alguns resquícios do mesmo nos vocábulos sublinhados. Exs.: Aquele, aquela, aquilo; este, esta, isto, esse, essa, isso, todo, toda, tudo, algo (= alguma coisa), nada (= nenhuma coisa).

Quanto ao substantivo limam podemos afirmar que está no caso acusativo singular do gênero feminino, caso este denominado lexicogênico para o português. Que nome lindo, não? Sabemos que o tema latino da 1ª declinação é em –a, da 2ª, em –o/-e e da 3ª,em –i; e que o acusativo singular destas declinações é respectivamente –am, -um e -em e no plural –as, -os e –es.

O acusativo é o caso[7] criador do nosso léxico, mediante a queda final da consoante –m. Exemplos:

Singular Plural
Latim Português Latim Português
Dentem = dente Dentes = dentes
Limam = lima Limas = limas
Lupum = lobo Lupos = lobos

No entanto, como bem afirma o professor Ismael de Lima Coutinho, em Gramática Histórica, “apesar de ser o acusativo considerado o caso lexicogênico das palavras portuguesas, há vestígios da contribuição dos outros casos. Como, por exemplo, proveniente do caso nominativo temos os nomes próprios: Enéias, Apolo, Lucas, etc.”

Enfim, para corroborar a nossa última proposta, no verso 5, temos o verbo na 3a.pessoa do singular momordit que, por estar no perfeito do indicativo, com o redobro nos passa um belíssimo efeito estilístico, motivo pelo qual provocou o nervosismo na fala da lima. Vale lembrar que o perfeito do ponto de vista do aspecto verbal é o tempo da ação inteiramente acabada e que perdura em seus efeitos. Nele o processo verbal é muitas vezes considerado como um estado resultante de um processo terminado anteriormente (aspecto resultativo do perfeito) e esta idéia de acabamento do processo é reforçada pelo redobro –mo, de momordit e conjugada com a palavra limam dando-nos a sensação de que a mordida perdurou durante muito tempo, imagem esta reforçada pela consoante –m.

Concretizamos a primeira parte do nosso trabalho certo de que estamos contribuindo para a formação intelectual e acadêmica, não só de nosso corpo discente, mas também de todos os que se interessam pelos estudos clássicos. Pois, os patriarcas da literatura universal são os gregos e romanos. E estes souberam adaptar o pensamento helênico aos seus costumes e estilos de vida pragmáticos. Fedro não plagiou Esopo, como muitos afirmam, mas assimilou as suas mensagens que até hoje nos ensina, levando-nos à reflexão e propondo-nos uma filosofia de vida digna de um verdadeiro cidadão, como vimos e analisamos.

Quanto à língua, preocupamo-nos, sobretudo, com os comentários filológico-gramaticais, cotejando o latim com o português, estudo árduo, porém, muito cativante, visto que trata da origem da nossa querida língua pátria.

No que tange aos aspectos literários e estilísticos, também tentamos elaborar algo de original, pois não conhecemos nenhum tipo de análise exarada por outros autores conhecedores da língua do Lácio.

Enfim, esperamos que todos os que leram tenham gostado e se identificado com este artigo e, de fato, tenham aprendido as lições desse grande fabulista, imitado por muitos na posteridade.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR., J. Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro : Padrão, 1975.

CART,A., GRIMAL.P., LAMAISON,J.e NOINVILLE, R. Gramática Latina. Trad. Maria E. Vila Nova Soeiro. São Paulo : Edusp/T. A. Queiroz, 1986.

COUTINHO, Ismael de Lima. Gramática Histórica. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1987.

FARIA, Ernesto. Gramática Superior da Língua Latina. Rio de Janeiro : Livraria Acadêmica, 1958.

–––––. Dicionário Escolar Latino-Português. Rio de Janeiro : Fename, 1982.

GARCIA, Janete Melasso. Introdução à Teoria e Prática do Latim. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993.

HORTA, Guida Nedda Barata Parreiras. Os Gregos e Seu Idioma. Rio de Janeiro : J. Di Giorgio, Tomo 1, 1991.

PHÈDRE. Fables. Texte établi et traduit par Alice Brenot. Paris : Les Belles Lettres, 1924.

TORRINHA, Francisco. Dicionário Latino-Português. Porto : Marânus, 1945.


[1] As fábulas foram retiradas do livro Fables, du Phèdre da Belles Lettres, presente na bibliografia. Também vale ressaltar que a pronúncia utilizada neste artigo é a reconstituída, onde não havia as letras v e j;

No título, não se deve traduzir ao pé da letra a preposição ad por junto a. Em Português, a idéia é muito bem representada pela conjunção coordenativa e;

Preferimos elaborar uma tradução ad literam, por outro lado sabemos que nem sempre podemos obedecer à estrutura do latim. Para ilustrar a nossa afirmação anterior temos no título o seguinte exemplo personam tragicam (=máscara trágica), porém achamos melhor traduzir o adjetivo por de tragédia, embora não esteja no genitivo. Eis a seguir a nossa explicação: sintaticamente, (máscara) trágica ou de tragédia tem a mesma função: adjunto adnominal.

Semanticamente, há muita diferença entre o emprego do adjetivo (trágica) e da locução (de tragédia). Assim exemplifica o professor Horácio Rolim de Freitas, brilhante mestre da Língua Portuguesa:

a máscara não é trágica, ela representa (é um símbolo) de tragédia (do gênero trágico);

Sob outro aspecto:

Sinfonia de Beethoven (é deste autor);

Sinfonia beethoviana (pode não ser deste autor).

[2] No verso 1 da fábula Uipera et Lima, temos a seguinte passagem: “Mordaciorem qui improbo dente appetit”. O adjetivo mordaciorem está no grau comparativo, por outro lado o 2º termo de comparação, que fica no ablativo como sabemos, está subentendido (=se) devendo ser traduzido por do que ele mesmo.

[3] “(...) ecqua res esset cibi”, traduzindo literalmente ficaria: “(se) existia alguma coisa de alimento.” O pronome adjetivo interrogativo ecqua, de ecquis (ecqui), ecquae (ecqua), ecquod (ecquid) está concordando com o substantivo feminino da quinta declinação res, cujo complemento se encontra em genitivo partitivo;

[4] Na fábula Uipera Et Lima, a oração cum temtaret dever ser traduzida como temporal, pois, pelo contexto, a víbora não mordeu a lima porque procurava alimento. No momento em que o fazia, ocorreu o fato. Por isto, não traduzimos por como procurasse.

Esta oração temporal, com a conjunção cum, no tempo imperfeito, exige o subjuntivo (temtaret), mas em Português, usa-se o indicativo.

[5] Assim afirma o professor Pierre Grimal em sua Gramática Latina: “O acusativo indica o lugar para onde se vai; o ablativo, o lugar em que se está (Ler página: 84).

[6] São comentários relevantes sobre o estudo diacrônico e sincrônico das preposições. (Ler páginas 179 e 180, de História e Estrutura da Língua Portuguesa).

[7] Caso é uma categoria gramatical representada no nome latino por desinências que desempenham diversas funções sintáticas. No decorrer de nossas lições, explicaremos minuciosamente cada caso existente na língua latina.