INFORMÁTICA, INTERNET E LÉXICO NOTAS SOBRE A CASA DOS BUDAS DITOSOS,
DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

Luís Cláudio Dallier Saldanha (UFSCar/FADISC)

 

Entre as mudanças e novidades verificadas recentemente no campo da escrita e, mais especificamente, da literatura, não se pode negar que a informática e o surgimento da Internet assumem um papel significativo nessa atividade até pouco tempo ligada a suportes materiais mecânicos. Aliada às tecnologias da informação e às máquinas que fazem proliferar os textos, as imagens e os sons, a Internet é hoje uma referência cada vez mais presente na criação e linguagem literárias. Embora muitos escritores ainda permaneçam fora desse universo de informações digitais e virtualizadas, um crescente número de autores já revela em suas obras e na linguagem que utiliza as influências e marcas desse contexto informático.

A quase total superação do manuscrito e a substituição da máquina de escrever pelo computador no trabalho do escritor condicionam uma nova técnica da escrita e, mais do que isso, abrem um mundo de possibilidades que vai desde as facilidades de se escrever a partir de um editor de texto eletrônico até o uso de ferramentas e recursos da WEB enquanto se confecciona uma determinada obra.

Recorrendo aos conteúdos jornalísticos, históricos, biográficos, literários, científicos ou de qualquer outra natureza disponibilizados na rede mundial, o trabalho de pesquisa para a confecção e estabelecimento de um texto pode ser realizado simultaneamente ao de escrever-digitar esse mesmo texto. Consultas a dicionários e enciclopédias, pesquisas em arquivos de jornais, contatos com pessoas pertinentes à composição do texto e outras atividades que antes demandavam mais tempo e solicitavam um deslocamento físico do autor agora são possíveis usando-se o mesmo veículo e suporte material.

Estas inovações e transformações no trabalho de confecção de um texto contribuem para uma feição inovadora do ato de escrever e, também, trazem novas implicações à linguagem trabalhada por essa escrita. Considerando-se, por exemplo, o aspecto lexical de alguns textos produzidos nessa era da informática, é possível verificar algumas alterações semânticas, neologismos e figuras de linguagem decorrentes dos recursos, terminologias, programas e artefatos tecnológicos do mundo da informática.

Cada vez mais são incorporados aos textos literários não só referências aos novos hábitos e produtos tecnológicos dos últimos anos, como o uso do computador e a navegação na Internet, mas também termos e expressões provenientes de um vocabulário específico da informática; gírias da Internet, como aquelas utilizadas nas salas de bate-papo; estrangeirismos e, ainda, novos empréstimos lingüísticos facilitados pelo contato com a Internet e a terminologia tecnológica na área da informática.

Para exemplificar as implicações e contribuições da informática encontradas no texto literário dessa última década do século XX no Brasil, toma-se aqui o romance A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro,[1] para uma breve análise de sua referência ao contexto tecnológico atual a partir do levantamento de expressões e palavras que são tributárias, de alguma forma, do mundo da informática.

A Casa dos Budas Ditosos oferece uma narrativa marcada por um forte conteúdo erótico. O erotismo, presente também na própria linguagem e estilo adotados na narrativa, prende-se ao tema da luxúria, um dos chamados "sete pecados capitais". As aventuras sexuais, amorosas e sentimentais de uma mulher, ao longo de sua vida, são rememoradas num tom confessional e quase panfletário.

As idéias e práticas libertárias na área da sexualidade e relacionamentos pessoais extremamente flexíveis contrapõem-se a uma sociedade portadora de valores conservadores e de conduta moralista. A defesa de um comportamento sexual livre de amarras, sejam elas quais forem, sobressai nesse conflito. Pecado, nesse cenário, seria não desfrutar de todas as possibilidades e experiências sexuais apresentadas pela vida e, na concepção da protagonista, proporcionadas pela figura divina.

O comportamento rebelde, livre e ousado da mulher que relembra suas experiências e relacionamentos pessoais localiza-se na narrativa tanto em um momento passado, quando as aventuras sexuais se realizam, como, também , no tempo presente de suas confissões, reminiscências e reflexão. Situando as lembranças e relatos pessoais da personagem principal no momento presente, a narrativa se vale, em parte, de termos pertencentes ao contexto tecnológico e informático atual. Descrições de eventos e de emoções são efetuadas por meio de figuras e analogias que incorporam dimensões do ciberespaço e da cibercultura.

A inadequação aos valores e práticas vigentes na sociedade e, ainda, um certo sentido de vanguarda, novidade e experimentação nas ações e pensamentos da protagonista parecem identificar-se com os elementos e termos utilizados na narrativa. O vocabulário composto por expressões geralmente rotuladas de "chulas"; as descrições e detalhes do corpo e das experiências sexuais; a liberdade e informalidade da narrativa e, finalmente, o uso de termos ligados às inovações presentes na informática e na Internet oferecem um quadro que se coaduna com a personalidade da própria personagem central do livro. E, nesse particular, a familiaridade da protagonista com as novas tecnologias e sua imersão no mundo da Internet conferem não só atualidade a sua linguagem e relato como apontam para sua abertura ao novo e diferente.

Deve-se pontificar que o texto em questão é apresentado e explicado pelo autor como transcrição de fitas que lhe foram encaminhadas misteriosamente por uma pessoa desconhecida. Junto com as fitas, um bilhete explicava que todo o relato era verídico e pertencia a uma senhora de 68 anos que, além de ser responsável pelo material, é também a protagonista da narrativa. A transcrição dessa fita teria resultado na versão final do livro. Optando pela fidelidade à suposta reprodução da fita, o escritor escolhe também preservar as características e estilo de uma narrativa oral, mantendo assim "erros de português" e a informalidade da língua falada.

Essa informação, que o autor do livro faz questão de apresentar logo no seu início, interessa aqui não pelo debate entre aqueles que acreditam ser esta explicação um artifício engenhoso do escritor para conferir um toque de realidade e de relato confessional ao seu romance e os que, por outro lado, tomam essa narrativa misteriosa contida na fita como um verdadeiro testemunho pessoal da tal senhora que o escritor apenas registra. A explicação dos originais da narrativa e a alusão à fita enigmática são destacadas aqui na perspectiva da linguagem que o texto apresenta, uma vez que justifica seu estilo, erros e informalidade em face da fidelidade e preservação do conteúdo da tal fita.

O primeiro trecho a ser destacado traz um número considerável de termos utilizados na acepção original que recebem atualmente no campo da informática, juntamente com as alterações semânticas que os acompanham no texto em questão. Os aspectos semânticos e morfológicos dos vocábulos que selecionamos, tanto nesse primeiro trecho como nos demais, serão tratados brevemente dentro do interesse que eles despertam na relação que procuramos estabelecer entre o léxico e o contexto da informática e da Internet.

Passemos, então, ao primeiro trecho:

 

Hoje eu estou altamente informática. A superstição perniciosa generalizada é que é preciso deletar o anterior, para aceitar o novo. Que pobreza, que pobreza, que pobreza, que atraso! Se a memória aceita, se o perfil confere, se a senha foi dada, roda os dois programas ao mesmo tempo, roda os três, roda os vinte, porra! Minimiza um, roda embaixo o outro, exporta um arquivo pra lá, outro pra cá, a informática é muito educativa, para que os débeis mentais que tanto pontificam e nos abalam com suas besteiras compreendam que os processos mentais que consideram sublimes e prova da existência de Deus são meras linhazinhas de comando de rotina no DOS do cérebro, o buraco é abissalmentissimamente mais embaixo. Claro que a paixão nova, no primeiro momento, mobiliza muito o apaixonado, que tende a ficar cego para os outros arquivos e aí, na maior parte das vezes, o entulho burro começa a aporrinhar, o camarada foi treinado para não achar aquilo certo, tem que deletar o arquivo em uso, não sei o quê. A analogia informática continua certeira, é como um programa novo, um brinquedo novo. Mas depois a gente abre o arquivo mais antigo, é bom, reaviva, estimula, meu Deus, por que erigimos empecilhos absurdos e destrutivos da beleza da Criação, os arquivos podem conviver na maior paz; clica, ele abre, tudo pronto para o deleite de todos e o cumprimento cioso quão alegre da sina! O limite é a memória! E quantos gugóis de bytes não temos na memória? Nunca vamos usar nem um zilionésimo, por mais que vivamos e abertos sejamos.[2]

 

Os termos selecionados nesse primeiro trecho, acompanhados de suas respectivas considerações semânticas e morfológicas, são os seguintes:

 

INFORMÁTICA : O termo informática é utilizado como adjetivo e não como substantivo, indicando assim uma derivação imprópria ou conversão. A conversão de uma classe gramatical para outra, no caso a transposição de substantivo para adjetivo, reforça aqui a qualificação que se atribui a uma personagem que se apresenta como "altamente" contextualizada, atualizada e sofisticada. O adjetivo informática é tomado como indicador de atualização constante com o mundo das novidades e sintonia com os avanços tecnológicos. Essa caracterização da personagem que aponta para uma sofisticação e atualização constantes, presentes no qualificativo "informática", é ainda enfatizada pelo termo anterior. O advérbio "altamente" estabelece um elevado padrão na imersão e envolvimento no mundo e recursos da informática.

DELETAR : Temos aqui um neologismo que atualmente é dicionarizado e cada vez mais considerado um empréstimo lingüístico do inglês, sendo usado com o sentido de apagar, desfazer ou jogar fora. O termo inglês delete, presente na terminologia da informática e no teclado dos computadores, onde dá nome a uma tecla, tem entrado para o português na forma verbal tomando como paradigma a primeira conjugação, o que é uma marca nos empréstimos lingüísticos.[3] Deletar, deletado, deletando e o imperativo delete se apresentam como uma família lexical ou família etimológica, por terem uma raiz comum. Assim, considerando deletar não mais um estrangeirismo mas um empréstimo por seu uso já bem assentado, temos uma adaptação do termo inglês ao português, usando-se o processo de derivação por sufixação.[4] Sobre o aspecto semântico do termo, é importante destacar que ele faz referência a uma atitude negativa, a saber, o gesto de se apagar com certa facilidade e de modo temerário tudo que não corresponde ao novo ou atual. O uso desse empréstimo lingüístico sugere, assim, uma ação fácil, mecânica e rápida: o ato de apagar experiências, memórias pessoais, emoções e sentimentos indesejáveis.

MEMÓRIA : Verifica-se aqui uma alteração semântica em memória, que designa mais comumente a faculdade de preservar ou retomar idéias, imagens e dados. Com a informática, o termo passa a designar também os componentes, os circuitos ou as partes mecânicas de um computador que retêm dados ou informações.[5] Esse espaço de armazenamento de dados num sistema de computador é um âmbito de significação para memória que, no entanto, dá lugar a um outro sentido. Memória pode ser considerada uma metáfora que se refere à capacidade ou possibilidade de se identificar, processar e elaborar novas experiências pessoais e novos conceitos ou valores.

PERFIL : O sentido mais usual de perfil, ou seja, delineamento ou contorno de um rosto ou objeto vistos de lado e, ainda, os traços ou descrição de uma pessoa ou objeto, é "pano de fundo" para um sentido que se circunscreve ao mundo da informática. Perfil parece ser usado como sinônimo para característica ou descrição, no caso, em referência a programas de computadores. Também pode se identificar nessa ocorrência uma transferência de sentido que resulta numa metáfora, uma vez que perfil é no texto de João Ubaldo Ribeiro uma alusão a características ou traços pessoais.

SENHA : Empregado numa referência ao mundo da cibernética, onde significa "um conjunto determinado de caracteres que devem ser introduzidos corretamente para se ter acesso à memória do computador",[6] o termo senha recebe um tratamento estilístico que resulta numa metáfora. O sentido do termo também se liga a experiências pessoais, podendo indicar atitudes, comportamentos ou fatos da vida de alguém que são reconhecidos ou recebem o assentimento do outro.

RODAR ("roda os dois programas"): O termo tem na informática o sentido de executar ou fazer funcionar; "se um software roda em determinada máquina, quer dizer que o disquete onde estão contidos seus dados literalmente gira dentro do drive (como em um toca-discos) e transmite informações".[7] No texto, o imperativo roda é uma metáfora para viver ou experimentar, referindo-se a um forte incentivo para se vivenciar dimensões e situações diversas e ousadas no contexto da sexualidade.

PROGRAMAS : Guardando uma relação com o âmbito de significação da informática, programa aparece no texto também com um sentido figurado, constituindo-se desse modo numa metáfora. No trecho "roda os dois programas ao mesmo tempo, roda os três, roda os vinte," o termo programa parece de fato aludir às experiências, conceitos e situações variadas e não convencionais no campo da sexualidade.

MINIMIZA : Formação de verbo a partir do adjetivo, com o verbo apresentando um significado causativo já que minimizar significaria "causar" uma mudança, ou seja, algo passa a ter a propriedade de "mínimo".[8] O termo minimiza ganha um sentido que passa pela informática, adquirindo também uma conotação que configura uma metáfora. A possibilidade de diminuir uma página, quadro ou janela e abrir outra sobrepondo ambas é referida como um equivalente da flexibilidade e maleabilidade que devem caracterizar a postura das pessoas liberadas ou liberais.

EXPORTA : Temos nesse caso um tipo de empréstimo semântico, uma vez que o verbo exportar, na acepção dicionarizada de "vender para fora do país" ou "mandar algo ou alguém para fora de uma região", aparece no texto e na terminologia da informática com o sentido de "salvar os dados em um formato de arquivo diferente do pré-selecionado".[9] Mas, o sentido do termo ultrapassa a significação que recebe em sua ocorrência na informática para conotar novamente a liberdade irrestrita e a flexibilidade nos comportamentos e experiências pessoais ligadas à sexualidade.

ARQUIVO : O termo é bem dicionarizado inclusive nas acepções que recebe no campo da informática. "É um conjunto de dados agrupados em uma unidade. Podem ser números, textos, imagens ou programas. Cada arquivo representa um documento próprio que precisa estar relacionado ao sistema de alguma forma para poder ser aberto e funcionar."[10] Arquivo ocorre na narrativa em questão como referência a experiências pessoais, sentimentos ou conceitos.

COMANDO : O sentido que na terminologia da informática este termo recebe, "pulso ou sinal elétrico que inicia ou interrompe um processo" ou "palavra ou frase reconhecida por um sistema de computação que inicia ou termina uma ação",[11] é associado aos processos mentais ou ação humana na dimensão das idéias, conceitos e valores. No texto, a expressão "linhazinhas de comando" traz uma conotação pejorativa e aponta para a fragilidade ou pouca expressividade de um determinado processo mental.

DOS DO CÉREBRO : DOS é sigla para Disk Operating System, primeiro sistema operacional usado nos computadores pessoais que, ao contrário do sistema operacional gráfico Windows, não tem interface gráfica. A expressão "DOS do cérebro" sugere processos mentais e, mais especificamente, a fragilidade ou limitação de um determinado raciocínio ou linha de pensamento.

ABRIR ARQUIVO : Expressão que designa a ação de "tornar o arquivo ou programa visível na tela".[12] É usada no texto junto ao qualificativo "antigo", aludindo provavelmente às experiências acumuladas ou guardadas ao longo da vida, ou ainda, a pessoas interessantes do ponto de vista das aventuras e relações amorosas e íntimas.

CLICAR : Forma verbal que advém do vocábulo onomatopéico clique, que sugere uma espécie de estalido seco. O ato de clicar com o mouse sobre algum ícone, gesto corriqueiro no uso do computador, é apresentado para além de seu significado técnico e recebe uma conotação que sugere ou insinua o toque capaz de abrir o outro, de suscitar sentimentos, emoções e atitudes. Há uma sugestão de um conteúdo erótico nesta metáfora, uma insinuação do toque sensual e sedutor capaz de vencer as resistências do outro ou facilitar a entrega ao jogo erótico.

BYTES : Pertencente à terminologia da informática, este estrangeirismo é na língua inglesa uma sigla para Binary Term, correspondendo a uma unidade básica de informação ou a oito bits (BIT - acrônimo de Binary digIT). É interessante notar que do termo byte originaram-se termos que apresentam hibridismo na sua formação. É o caso de megabyte e gigabyte, onde se tem radicais gregos ( mega e giga) e ingleses (byte). No trecho analisado aqui, o termo bytes está relacionado às experiências e dados guardados na memória pessoal de cada um.

 

Segue-se o segundo trecho:

 

Paulo Henrique. Ignorantíssimo, mas inteligentíssimo (...) ...todo como se tivesse sido projetado por um designer milanês como obra aberta, de leitura dependente de quem a encontrasse. E igual a um programa de computador, desses que você configura para sempre, porque armazena tudo em arquivos arcanos, que nunca ninguém abre e são obra obscura de algum programador que chega de bermuda a sua toca na Microsoft e aí passa o tempo todo feliz porque foi o autor do subprograma responsável pelo desabrochar de um iconezinho no canto da status line , esta é a obra dele, ele não pode ver aquele iconezinho sem dizer Parla! Era pedra-sabão, era a minha matéria-prima, tão bem moldável. E eu configurei ele, um programazinho de cada vez. E, de súbito, ao abrir os meus arquivos executáveis um belo dia, lá está Paulo Henrique, Deus seja louvado. Ele também leva a sério o seu dom, me adora porque eu o ajudei a compreender como esse tipo de coisa funciona. Assumiu, virou meu executivo sexual, de uma forma antes insuspeitável.[13]

 

Em menor número, os termos contidos nesse segundo trecho que consideraremos são os seguintes:

COMPUTADOR : Empréstimo semântico no qual o "termo que designava o agente humano que computa, passou, por influência do inglês, a designar o agente eletrônico, a máquina".[14] A expressão "programa de computador" liga-se no trecho supracitado às características e qualidades do personagem Paulo Henrique.

CONFIGURA : O verbo configurar vem do latim configurare e aparece nos dicionários na acepção de dar algum tipo de forma, figura ou aspecto. Na informática, configurar um computador ou as partes a ele conectadas "significa estabelecer características comuns, para que funcione em harmonia. Configurar um programa é ajustá-lo às características da sua máquina e de sua própria pessoa (personalização)".[15]

ICONEZINHO : Verifica-se nesse vocábulo, formado por derivação com o acréscimo do sufixo que marca o diminutivo, uma referência ao tamanho dos ícones ou figuras que povoam as telas de um computador ou páginas de algum site na Internet. Também pode-se identificar nesse diminutivo uma carga semântica que aponta para a linguagem afetiva, uma vez que o termo ocorre associado à criação de um programador que percebe satisfeito o valor de sua descoberta ou criação. Esse sentido do termo iconezinho é, por sua vez, associado às virtudes e vantagens pertencentes ao personagem Paulo Henrique.

ARQUIVOS EXECUTÁVEIS : Essa expressão refere-se na informática aos "arquivos binários que executam alguma ação específica e produzem algum resultado"[16], contendo dessa forma programa e não dados. No trecho onde essa expressão ocorre, o sentido do termo assume uma conotação que se vincula a uma dimensão pessoal ou individual. É usado como uma referência a própria vida ou repertório de experiências e possibilidades da personagem que faz alusão a Paulo Henrique.

PROGRAMAZINHO : O aspecto morfológico desse vocábulo, relacionado ao sufixo que estabelece o diminutivo, aponta para um aspecto semântico que se liga a linguagem afetiva e cheia de conotação sexual presente no trecho acima citado. Trata-se de um termo que expressa qualidades ou atributos de uma personagem que interessa pela sua capacidade de agradar, oferecer prazer e amoldar-se às exigências ou caprichos de sua parceira.

STATUS LINE : É um estrangeirismo sem uso na língua comum, ficando restrito à terminologia da informática e do contexto tecnológico específico. No entanto, cabe ressalvar que termos como status line e on-line estão cada vez mais integrados ao vocabulário não só dos técnicos da área da informática mas também dos próprios usuários. Desta forma, já não é tão válida a observação que até pouco tempo dava conta da limitada ocorrência destes termos na língua. Tanto nos textos jornalísticos, como nas peças publicitárias ou no uso cotidiano da língua por aqueles que estão familiarizados com a informática se torna cada vez mais presente e recorrente o uso desses estrangeirismos.

No terceiro e último trecho selecionado, apenas um termo é analisado. Sua importância se verifica na explícita relação estabelecida entre a terminologia da informática e o contexto erótico da narrativa.

 

A paixão é simplesmente a tesão formatada, será que jamais isto será compreendido, será que ficaremos sempre algemados com a chave na mão?[17]

 

FORMATADA : Acontece aqui um empréstimo semântico, já que inicialmente formato era usado na acepção de feitio ou figura e grandeza que tomam as páginas impressas do livro, vindo do latim formatu. Formatar é considerado por Nelly Carvalho[18] como termo integrante de um jargão profissional introduzido pela informática e que tem sua origem no radical inglês que foi acrescido de sufixo português. O termo se refere na informática ao processo de configuração e preparação do HD (Disco Rígido) de computador.[19] A expressão "tesão formatada" evidencia que o qualificativo formatada refere-se a experiências, impulsos e emoções ligadas à sexualidade.

 

Cabe ainda destacar o trecho "Outro dia, numa dessas salas de bate-papo de sacanagem na Internet que eu frequento, um rapaz estava procurando um cachorro grande e manso, que pudesse enrabá-lo".[20] Valendo-se de um expediente comum em toda a narrativa, o narrador apresenta um aspecto do comportamento sexual, tido como desviante, relacionado a um recurso que pode ser encontrado na área dos produtos e resultados da tecnologia. No caso, o expediente usado é a referência às salas de bate-papo na Internet. A presença dessa referência parece ser muito pertinente e harmonizar-se com toda a narrativa e linguagem utilizada, uma vez que o sexo virtual e o "flerte" nas salas de bate-papo, sendo a tônica dos "chats", representam uma versão hodierna e contextualizada das experiências e comportamentos sexuais.

É interessante notar que aparecem lado a lado na narrativa termos que habitam o contexto da informática e expressões chulas com forte apelo pornográfico. O casamento entre uma terminologia considerada própria da literatura erótica ou dos textos pornográficos e um vocabulário sofisticado que incorpora os mais recentes termos da cultura informática é relevante e significativo. Essa união evidencia um recurso estilístico que confere ao texto, por um lado, traços de uma língua informal, vulgar e popular, por outro lado, marcas de uma terminologia que reflete a mais alta tecnologia. Assim, as palavras em A Casa dos Budas Ditosos recebe um tratamento literário pouco convencional, o que tem levado alguns críticos a considerarem essa obra como não literária ou uma obra pornográfica travestida de literatura.

Como a preocupação aqui não é exatamente com a crítica literária nem mesmo com análise literária, limitamo-nos ao levantamento dos termos e expressões que nos pareceram pertinentes na exemplificação da relação entre o léxico e o contexto da informática e da Internet.

Finalmente, cabe observar que o texto de João Ubaldo Ribeiro oferece oportunidade valiosa para uma análise estilística que dê conta desse tipo de tendência, a saber, o uso de uma língua literária que incorpora elementos do registro oral, da cultura pornográfica e da terminologia da informática.


[1] RIBEIRO, J. Ubaldo. A Casa dos Budas Ditosos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. Col. Plenos Pecados.

[2] RIBEIRO, J. Ubaldo. Op. cit. p. 151-152.

[3] Cf. CARVALHO, Nelly. Empréstimos Lingüísticos. São Paulo: 1989. p. 22.

[4] Idem. p. 32.

[5] Para um tratamento do vocábulo memória nas suas diversas acepções, recomenda-se o uso não só dos bons dicionários convencionais, mas também o recurso aos dicionários on-line. Um utilíssimo endereço para consulta desses dicionários na Web é: www.portugues.mct.pt/lex_esp.html . Esta recomendação é válida principalmente para os termos com acepções oriundas da informática, uma vez que, diante da transitoriedade e velocidade verificadas nesse campo, os glossários on-line podem mais facilmente manterem-se atualizados.

[6] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. p. 1918.

[7] http://www.mindmap.com.br/DICIONARIO_INFORMATICA.HTML .

[8] Cf. BASILIO, Margarida. Teoria Lexical. 4 ed. São Paulo: Ática, 1995. p. 69 - 70.

[9] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. p. 924.

[10] http://www.mindmap.com.br/DICIONARIO_INFORMATICA.HTML

[11] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. p. 540.

[12] http://www.mindmap.com.br/DICIONARIO_INFORMATICA.HTML .

[13] RIBEIRO, J. Ubaldo. Op. cit. p. 148-149.

[14] CARVALHO, Nelly. Op. cit. p. 50

[15] http://www.mindmap.com.br/DICIONARIO_INFORMATICA.HTML .

[16] http://pessoal.mandic.com.br/~iprado/ntoz.htm

[17] RIBEIRO, J. Ubaldo. Op. cit. p. 153.

[18] Cf. CARVALHO, Nelly. Op. cit. p. 63.

[19] http://pessoal.mandic.com.br/~iprado/ntoz.htm .

[20] RIBEIRO, J. Ubaldo. Op. cit. p. 128.