A LITERATURA DE VIAGEM E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O CONHECIMENTO DA LÍNGUA TUPI
Jean de Léry, Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux

Eduardo de Almeida Navarro (USP)

 

Nos decênios que medeiam entre a chegada de Pedro Álvares Cabral ao litoral da Bahia e a publicação anônima, em Coimbra, do De Gestis Mendi de Saa, em 1563, obra atribuída à pena de Anchieta, e considerada por alguns a primeira obra literária do Brasil, não se gestara ainda uma literatura brasileira propriamente dita, mas tão somente uma literatura de viagem, obra de cronistas que percorreram as terras virginais que então se descortinavam aos europeus que, insertos no sistema espoliativo representado pelo Mercantilismo ou no sistema missionário, onde avultava a obra dos jesuítas, dos franciscanos, dos agostinianos e dos dominicanos, as grandes ordens religiosas da Igreja, transferiam para a América uma cultura alógena de matrizes européias. Tal foi o processo civilizatório de maiores conseqüências para a atual configuração econômica, política e social do orbe, o que produziu a mais assombrosa transformação da face da terra desde o Neolítico, quando começou o processo de urbanização da humanidade.

Tal literatura produzida por cronistas e viajantes apresenta imensa importância do ponto de vista histórico, etnográfico e sociológico. É através dela que os primeiros decênios da Conquista podem ser conhecidos na sua inteireza, é por ela que a natureza prístina das novas terras descobertas se revela e é também por seu intermédio que as sociedades primitivas paleolíticas e neolíticas aqui existentes antes da chegada dos europeus podem ser conhecidas sem as deformações produzidas pelo contato com a civilização européia.

Nos séculos XVI e XVII, os primeiros da Conquista, o Brasil foi revelado nas obras de Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Souza, Fernão Cardim, os de origem portuguesa; nos textos de Jean de Léry, Yves D’Evreux, Claude D’Abbeville e André Thevet, os franceses; e na obra de Hans Staden, de origem alemã, sem mencionarmos os valiosos textos da lavra dos holandeses, notadamente Marcgrave, Piso e Laet, que acompanharam Maurício de Nassau quando da invasão holandesa no Nordeste brasileiro.

Sem nenhuma dúvida, é à obra dos franceses, notadamente a de Jean de Léry, Claude D’Abbeville e Yves D’Evreux, que devemos importantes conhecimentos sobre a língua brasílica, falada em quase toda a costa brasileira, segundo a abalizada palavra de Gândavo:

A língua que usam toda pela costa é uma, ainda que em certos vocábulos difere em algumas partes, mas não de maneira que se deixam uns aos outros de entenderem.

É o próprio Gândavo quem nos informa que a língua brasílica (ou o tupi antigo) era falada na costa brasileira até o paralelo de 27 0, aproximadamente, ao sul, por milhares de quilômetros em nosso litoral.

Os cronistas portugueses mencionados anteriormente e o cronista Hans Staden, de origem germânica, legaram-nos importantes conhecimentos sobre o léxico da língua brasílica, notadamente nos campos semânticos da flora e da fauna. Sem embargo, foram os três cronistas franceses supracitados os que recolheram importantes textos e diálogos, facultando-nos o conhecimento pleno da sintaxe e da morfologia da língua brasílica. Ademais, é mister salientar que dois deles, Yves D’Evreux e Claude D’Abbeville, foram os cronistas da gesta francesa no Maranhão, ao passo que Jean de Léry foi o cronista da França Antártica, a revelar situações lingüísticas de áreas muito distanciadas entre si.

 

Jean de Léry

No século XVI, com o advento da Reforma Protestante, a Europa assiste à emergência de conflitos religiosos de grande virulência. Na França, os conflitos entre católicos e protestantes (os huguenotes) escondiam os mais diferentes interesses econômicos e políticos, traduzindo-se em violência aberta e morticínios freqüentes. Em Genebra, na Suíça, Calvino instalava uma verdadeira teocracia, regendo a velha cidade segundo os novos princípios que vinha instaurar. Muitos franceses huguenotes, acossados pela sanha dos potentados e dos plebeus, refugiavam-se naquela cidade, onde estariam sob a tutela de Calvino e de seus sequazes.

Enquanto isso, na França, um soldado aventureiro, homem de muitas luzes e de notório saber clássico, Nicolau Durand de Villegaignon, organiza um empreendimento de grande envergadura. Buscava ele criar uma colônia francesa em terras brasileiras. Com apoio de Coligny, rico calvinista francês, Villegaignon desembarca na baía da Guanabara, no Brasil, no ano de 1555, na que seria chamada França Antártica.

Com efeito, os franceses permaneceriam na Baía da Guanabara até 1567, quando seriam de lá expulsos definitivamente pelas hostes de Estácio de Sá, sobrinho do terceiro governador-geral do Brasil, da ilustrada família dos Sá de Miranda de Portugal.

Ganhando o apoio dos índios tamoios, nome local dado aos tupinambás, Villegaignon ameaçava a própria continuidade da colonização portuguesa na porção meridional do Brasil.

É nesse contexto que avulta a figura de Jean de Léry, calvinista que acompanhou os homens de Villegaignon em seu grande empreendimento. Em 1578 ele haveria de publicar em Paris a primeira edição da Historie (traduzida para o português com o título Viagem à Terra do Brasil).

A obra de Jean de Léry logo conheceria imensa nomeada, sendo traduzida para diferentes línguas, inclusive para o latim, para o uso dos homens ilustrados e cultos que se recusavam a lê-la em línguas vernáculas. Em sucessivas edições, a obra de Léry ia-se difundindo pela Europa e o próprio Léry, até sua morte, incumbiu-se da revisão das sobreditas edições.

Em sua Historie, vemos a apresentação magnífica e soberba da natureza brasileira, de sua fauna e flora, de suas sociedades indígenas, de seus usos e costumes. Foi a primeira vez na história do Brasil que se registraram canções executadas pelos próprios índios, em notações musicais singelas.

Além de todas essas virtudes da obra de Léry, cumpre ressaltar que, no seu final, o autor incluiu um texto intitulado “Colóquio de Entrada ou Chegada ao Brasil”, em tupi antigo, onde vemos a língua indígena revelar-se em toda sua plenitude, reprodução que era de um diálogo travado entre um tupinambá e o próprio Léry. Foi também nesse texto onde, pela primeira vez, fizeram-se as primeiras observações gramaticais sobre a língua brasílica, exatamente dezessete anos antes da publicação da Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta, a primeira gramática do tupi antigo, publicada em Coimbra em 1595.

Dessarte, a obra de Léry reveste-se de imenso significado no que tange ao desvelamento das estruturas lingüísticas do tupi antigo. Não fora a pequenez de suas notas gramaticais, ele certamente seria conhecido como o primeiro gramático da língua brasílica.

Assim, enquanto Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim e Pero de Magalhães Gândavo revelam-nos quase que exclusivamente os nomes das plantas e dos animais do Brasil, de seus grupos indígenas e de seus instrumentos de pesca, caça, de culinária e de guerra, a obra de Léry desdobra de tal procedimento.

Lemos, a seguir, o intróito de seu precioso texto, recolhido de sua edição de 1578 e adaptado ortograficamente segundo as determinações de Lemos Barbosa (1956):

 

 

COLÓQUIO DE ENTRADA OU CHEGADA AO BRASIL

ENTRE A GENTE DO PAÍS CHAMADA TUPINAMBÁ E TUPINIQUIM

EM LINGUAGEM BRASÍLICA E FRANCESA

 

Ere-îu-pe?

Vieste?

Pá, a-îu.

Sim, vim.

Té, aûîé n’ipó. Marã-pe nde r-era?

Ah, muito bem! Qual é teu nome?

Reri-ûasu.

Ostra Grande.

Ere-îakasó-p’i’ang?

Imigrante, por acaso?

Pá.

Sim.

E-îori nde r-etam-ûama r-epîaka.

Vem para ver tua futura terra.

Aûîebé!

Perfeitamente!

Îandé r-epîaka o-ur, îandé r-epîaka our-é, xe r-a’yr. Té, o-ur-eté kybõ Reri-ûasu ymûã.

Vem para nos ver! Vem para nos ver, meu filho! Ah, veio já mesmo para cá o Ostra Grande!

Ere-ru-pe nde karamemûã?

Trouxeste tua caixa?

Pá, a-rur.

Sim, trouxe-a.

Mboby-pe? Mba’e-pe ere-ru nde karamemûã pupé?

Quantas? Que trazes dentro de tua caixa?

Aoba.

Roupas.

Marã-ba’e?

De que espécie?

Soby-eté, pyrang, îub, s-un, s-oby-manisob, pirian, pykasu-aba, ting.

Elas são azuis, vermelhas, amarelas, elas são pretas, elas são verde-maniçoba, listradas, de cor de pena de pomba, elas são brancas.

Mba’ e-pe amõ?

Que mais?

Akang-aob-urupé.

Chapéus-cogumelos.

S-etá-pe?

Eles são muitos?

I katupabe ) .

Eles são muitíssimos.

Aîpó nhõ?

Só isso?

Erimã.

Absolutamente.

E-s-enõî-mbá.

Nomeia tudo.

Koromõ.

Em breve.

Mokaba, mororokaba, moká-ku’i uru.

Armas de fogo, de estouro, recipientes de pólvora.

Marã-ba’é?

De que espécie?

Tapi’ir-usu ‘aka.

Chifres de boi.

Aûîé-katu tenhe ) !

Excelente!

Mba’e-pe s-epy-rama?

Qual é o preço deles?

A-rur-i ) ...

Trouxe-os por trazer...

He ) !

Ah...

A-rur itá-ingapema.

Trouxe espadas.

N’a-s-epîak-i xo’e-pe-ne?

Não as verei?

Mbegûé irã...

Devagar...

N’ere-ru-pe îyapara?

Não trouxeste foices?

A-rur.

Trouxe-as.

I katu-pe?

Elas são boas?

Îy-apar-eté.

Foices muito boas.

Abá-pe o-monhang?

Quem as fez?

Paîé-gûasu r-emimonhanga.

São obra de um grande pajé (i.é., de um artesão).

Aûîé-tirûã!

Ah! Muito bem!

A-s-epîak-y-mo mã!

Ah, que eu as veja!

Karamosé.

Futuramente.

T’a-s-epîak taûîé!

Que eu as veja logo.

E-ambé ranhe ) .

Espera primeiro.

Ere-ru-pe itá kysé amõ?

Trouxeste algumas facas de ferro?

A-rur-etá.

Trouxe muitas.

(...)

 

O texto acima reproduzido revela importantes fatos sobre a língua brasílica. Em primeiro lugar, desmente o fato de que a língua brasílica fosse o mesmo que o tupinambá, tese sustentada por Rodrigues (1986), que se fundou, por sua vez, nas seguintes palavras de Anchieta (Arte, 1v):

Desde os petiguares do Paraíba até os tamoios do Rio de Janeiro pronunciam inteiros os verbos acabados em consoante, como a-pab, a-sem, a-pen, a-îur.

Em outro passo, Anchieta completa:

Os tupis de São Vicente que são além dos tamoios do Rio de Janeiro, nunca pronunciam a última consoante do verbo afirmativo. Em lugar de a-pab, dizem a-pá, em lugar de a-sem e a-pen, a-se ) e a-pe ) , pronunciando o til somente; em lugar de a-îur, a-îu.

Ora, Jean de Léry estava em pleno domínio do tupinambá, quando registrava seu diálogo. Ele deveria, assim, ter apresentado as formas tupinambás em seu “Colóquio”. Contudo, nem sempre o faz:

Ere-îu-pe? - Vieste?

- Pá, a-îu. - Sim, vim.

Jean de Léry, em pleno domínio do tupinambá, mostra a variante dialetal tupi, de São Vicente, se nos fundamos na citação da Arte de Anchieta. Os tupinambás diriam, segundo Rodrigues:

- Pá, a-îur, com a consoante final do verbo afirmativo.

O texto de Léry contradiz a própria afirmação de Anchieta e desmente afirmação de que a língua brasílica fosse o tupinambá. O tupinambá é, na verdade, uma variante dialetal da língua brasílica na qual também se incluem as variantes tupi, tupiniquim, temiminó e, possivelmente, ainda outras. Com efeito, Rodrigues emprega o designativo tupinambá com uma extensão que ele absolutamente não tinha. Seu erro advém de se ter fundado na obra do antropólogo Alfred Métraux, que utiliza o termo tupinambá como um genérico haja vista, o fato de eles estarem na porção meridional (Guanabara), central (Pernambuco e Bahia) e setentrional (Maranhão) do país. Contudo ainda que estivessem bem mais disseminados na costa brasileira que outros grupos, os tupinambás não falavam a língua brasílica de forma absolutamente igual, o que o texto de Léry evidencia e o que torna o designativo tupinambá impróprio para se referir à língua brasílica como um todo.

O texto de Léry, no seguinte passo, mais uma vez desmente a hipótese de Rodrigues (op. cit.):

Abá-pe o-monhang?

Quem as fez?

Paîé-gûasu r-emi-monhanga.

São obra de um grande pajé.

Ora, em pleno domínio tupinambá, Léry usa aquilo que Anchieta chamaria de tupi de São Vicente. Strictu sensu, no domínio tupinambá dir-se-ia:

Abá-pe o-î-monhang , com o pronome objetivo incorporado.

Se Léry empregou formas do tupi de São Vicente no domínio do tupinambá era porque este último também apresentava diferenças ao longo da costa brasileira e Léry deixou-as evidenciadas em sua importante obra.

Por outro lado, é em sua Historie que se encontram as primeiras observações e análises gramaticais da língua brasílica (ou tupi antigo).

No exemplo abaixo, Léry apresenta o quadro dos pronomes pessoais do tupi antigo:

Xe akanga - Minha cabeça

Nde akanga - Tua cabeça

I akanga - cabeça dele

Oré akanga - Nossa cabeça

Pe akanga - Vossa cabeça

(...)

Também apresenta em seu “Colóquio”, a flexão do verbo tupi, dando importantes explicações:

A-ikó , ere-ikó, o-ikó, oro-ikó, pe-ikó, o-ikó.

Estou, estás, está, estamos, estais, estão.

 

A-ikó akûeî-me. Estava

Ere-ikó akûeî-me. Estavas

O-ikó akûeî-me. Estava

Pe-ikó akûeî-me. Estáveis

A'e o-ikó akûeî-me. Estavam

Quanto ao tempo perfeitamente passado e totalmente transato, toma-se o verbo ikó, como antes e se lhe acrescenta o advérbio akûeî-me, que lembra o tempo de outrora, inteiramente passado. (In: “Colóquio”, Historie, 157)

 

E-ikó , t'o-ikó, t'oro-ikó, ta pe-ikó, a’e t’o-ikó.

Sê tu, seja ele, sejamos nós, sede vós, sejam eles.

 

É o determinativo que se chama imperativo. Para o futuro basta acrescentar irã, como já se disse. O sentido de ordem se dá empregando taûîé, isto é, “agora, atualmente” (sic). Para exprimir desejo e afeição a alguma coisa, usamos o chamado optativo: A-ikó-mo mã: “Oxalá estivesse eu!” Seguindo-se como acima. (Ibidem)

A-îu , ere-îu, o-ú, oro-îu, pe-îu, o-ú.

Venho ou vim, vens ou vieste, vem ou veio, vimos, vindes ou viestes, vem ou vieram. (Conjugação do verbo a-îu)”

Exemplo do indicativo ou demonstrativo no tempo presente. Para os outros tempos devem-se tomar unicamente os advérbios acima citados, pois nenhum verbo se conjuga por outra forma a não ser por meio de advérbios, tanto no pretérito, presente imperfeito, mais-que-perfeito, indefinido, quanto no futuro ou tempo vindouro.

Léry, como um autêntico gramático ou lingüista, observa a ausência de expressão temporal no verbo tupi, revelando que são as partículas, na verdade, que expressam o tempo naquela língua. Foi ele que, pela primeira vez, empregou o termo artigo (article) para designar a flexão à esquerda que o verbo tupi apresenta, o que tornaria impróprio o uso do termo desinentia, que significa, propriamente, terminação. Léry até mesmo cria terminologia gramatical na própria língua brasílica:

A palavra que em nossa língua brasílica corresponde a nhe'eng-aba, locução ou maneira de dizer.

Assim, a obra de Léry foi de suma importância para o conhecimento do tupi antigo, mormente se considerarmos que ele não se inseria no sistema missionário jesuítico em cujo âmbito deu-se grande parte da produção de textos naquela língua indígena clássica do Brasil.

 

Claude D'abbeville e Yves D'Evreux

Expulsos do Brasil; os franceses não se dariam por vencidos. Quase cinqüenta anos depois, em 1613, sob o comando de Daniel de La Touche, Sieur de la Ravardière, os franceses invadem o Maranhão, fundando São Luís, em homenagem ao Rei Luís XIII. Esse empreendimento seria conhecido como França Equinocial e duraria muito pouco tempo. A tal episódio histórico vinculam-se os nomes dos missionários capuchinhos franceses Claude D'Abbeville e Yves D'Évreux, o primeiro, autor de História da Missão dos Padres Capuchinhos à Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas e o segundo, autor de Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614.

Mais uma vez, os franceses descreveram a variante dialetal tupinambá, pois foi com os tupinambás que eles entretiveram contatos naqueles anos.

Na obra de Yves D'Évreux, chama a atenção um quadro que ele insere em seu capítulo XXIII, em que mostra formas de saudação usadas pelos índios:

Quando se levantam pela manhã, dizem:

T’i’ã nde ko'em . - Bom dia!

Ne’i ), t’i’ã nde ko'em . - Para ti também.

À tarde, ao regressar do trabalho, quando se despedem: T’i’ã nde karuk. - Boa tarde. Ne’i ), t’i’ã nde pytuna. - Boa noite. Ne’i ), t’i’ã nde pytuna. - Para ti também. (Viagem, cap. XXIII).

Ora, tais formas de cumprimento são absolutamente desconhecidas em outras regiões do Brasil. O Vocabulário na Língua Brasílica omitiu-as, assim como as gramáticas, os catecismos e os autos teatrais em língua tupi. Yves D'Évreux revela-nos uma língua que apresentava diferenças com relação à que Léry nos apresentou, embora falada pelo mesmo grupo étnico. Seu caráter de variante dialetal é palpável.

Por outro lado, o grande feito da França Equinocial foi ter levado para a França índios tupinambás do Brasil. Em 1613, diante do rei da França e de toda a corte francesa, o morubixaba Itapuku fez o seguinte discurso, registrado por Claude D'Abbeville:

Yby îar, nde angaturam-eté, apyaba, morubixaba kyreymbaba mondó-bo xe r-etama pupé. Pa’i, oré s-epîak-îanondé, oré mbo’e-potar Tupã nhe'enga ri, oré pysyrõ-mo apy'á-menuiã suí.

Senhor da Terra, tu és muito bondoso, enviando homens, chefes valentes para a minha terra. Os padres, antes de nós os vermos, quiseram ensinar-nos na palavra de Deus, para nos livrar dos homens maus.

Oré oro-îkó-eté-ramo. Kêesenhe'y ) -me oro-îkó Îurupari r-a’yr-amo, oro-îo-‘u raka'e.

Nós estamos muito bem. Antigamente éramos filhos do diabo, comíamos uns aos outros.

Xe putupab ne r-eburusu r-esé, nde r-epîaka, apyaba opakatu ne r-emimbo’e s-ekó-reme.(...)

Eu estou admirado por tua grandeza, vendo-te, por estarem todos os homens como tens sido.

Kûesenhe'ym Îurupari r-a’yra oro-îkó. Nde angaturam-eté erimba'e apyaba mondó-bo xe r-etama pupé, Pá'i Tupã r-a'yr-eté oré s-epîak’ îanondé. Aûîé-katu, erimba'e i xó-û oré r-etama pupé.

Antigamente éramos filhos do diabo. Tu foste muito bondoso enviando homens para minha terra, verdadeiros filhos do Senhor Deus, antes de os vermos. Muito bem, eles foram para nossa terra.

N'o-só-î tenhe ) ebapó

Não foram em vão para lá.

(...)

Opakatu xe yby-pora nde r-emimbûaî-amo s-ekó-û. Apyaba karaíba atûasaba kori o-ikó.”

Todos os habitantes de minha terra estão às tuas ordens. Os índios e os brancos hoje são companheiros.

O texto de Claude D'Abbeville, que reproduzimos acima, tem uma importância vital para o conhecimento do tupi antigo e, principalmente, por desmentir a tese de Mattoso Câmara (1965), segundo o qual teria existido um "tupi jesuítico" no Brasil. Ora, o texto apresentado por D'Abbeville é exatamente o tupi que Anchieta nos revela em sua Arte e em seus autos teatrais, a mesma sintaxe, a mesma morfologia, o mesmo vocabulário. Considerando-se o fato de que os tupinambás do Maranhão tinham poucos meses de contato com europeus e se a língua por eles falada era a mesma que os jesuítas nos mostraram em seus textos, logo, fica desmentida, pela obra de D'Abbeville, a idéia de um "tupi jesuítico", que Câmara sustentou em seu projeto de desmoralizar a Tupinologia e as iniciativas de criação das cadeiras de tupi antigo nas universidades brasileiras.

 

Conclusão

Assim, postos à margem do sistema jesuítico, alheios à cultura ibérica, os cronistas franceses trouxeram uma significativa contribuição para o conhecimento da língua tupi antiga. Elaborando textos não religiosos, trazem-nos a cultura indígena de forma mais direta.

Registrando diálogos e discursos, os textos de Léry, D'Abbeville e D'Évreux anteciparam modernos procedimentos da Lingüística no século XX para a compreensão de estruturas lingüísticas. Estando presentes no Brasil em eras muito recuadas, os cronistas franceses referendaram as informações legadas pelos autores de origem ibérica, certamente os mais prolíficos, tornando o tupi antigo, a língua brasílica, a mais bem conhecida de todas as línguas indígenas brasileiras até os dias de hoje.

 

Bibliografia

ABBEVILLE, Claude d’. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas. Tradução de Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1975.

ANCHIETA, José de. Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1990.

CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Introdução às Línguas Indígenas Brasileiras. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1965.

GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Tradução e notas de Sérgio Milliet. Notas Tupinológias de Plínio Airosa. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas Brasileiras - Para o Conhecimento das Línguas Indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 1986.