AINDA EM TORNO DA DICOTOMIA EMPRÉSTIMO/ESTRANGEIRISMO
Vito Manzolillo (UFRJ)
RESUMO
O presente artigo aborda, mediante comparação entre autores relevantes, aspectos da dicotomia empréstimo / estrangeirismo, questão antiga e, até certo ponto, polêmica do âmbito dos estudos lexicológicos. Sobre o uso estilístico-expressivo de palavras pertencentes a outros idiomas e sobre os possíveis critérios reguladores do percurso trilhado pelas unidades lexicais estrangeiras no sentido estrangeirismo
à empréstimo algumas palavras também são ditas.
PALAVRAS-CHAVE
léxico, empréstimo, estrangeirismo, xenismo, peregrinismo
Palavras iniciais
Segundo o neogramático Hermann Paul (1983:412), “a palavra de origem estrangeira só gradualmente se torna habitual”. Essa idéia, já antiga, ainda hoje é bastante difundida, razão pela qual grande parte dos autores dedicados ao estudo do empréstimo lingüístico propõem uma diferenciação entre empréstimo propriamente dito e estrangeirismo. (As designações xenismo e peregrinismo também são usadas.)
Em linhas gerais, o primeiro conceito refere-se às unidades lexicais, de alguma forma, já integradas ao novo ambiente, enquanto o segundo diz respeito àquelas francamente alienígenas, ainda não incorporadas ao léxico da língua recebedora. Na prática, tal divisão revela-se problemática em algumas situações, pois variados e subjetivos são os critérios passíveis de utilização no seu estabelecimento.
Como se sabe, durante muito tempo, a tradição filológico-gramatical luso-brasileira identificou o termo estrangeirismo com um vício de linguagem. Tratava-se de fator de empobrecimento lingüístico. Essa noção, de certa maneira, resiste até hoje, como o trecho abaixo é capaz de comprovar. Nele, estrangeirismo é assim definido: “Palavra ou expressão de origem estrangeira cujo uso é um dos erros contra a vernaculidade da nossa língua, e só poderá ser aceite se não existir na língua portuguesa um vocábulo que traduza essa mesma ideia” - Rocha (1997: estrangeirismo). O desenvolvimento dos estudos lingüísticos, no entanto, colocou o estrangeirismo em outro patamar, freqüentemente em confronto com o empréstimo.
Nesse sentido, discutir aspectos relevantes da dicotomia empréstimo / estrangeirismo, especialmente no que se relaciona ao Português do Brasil, é o objetivo central deste texto, realizado a partir da comparação de autores relevantes ligados ao tema.
O estrangeirismo como recurso estilístico
A busca de exotismo, de “cor local”, de originalidade ou de expressividade pode, algumas vezes, ensejar a utilização de material léxico estrangeiro, configurando, segundo Guilbert (1975:92), um caso de xenismo, “sinônimo erudito de estrangeirismo” - Assumpção Jr. (1986:106).
Por xenismo deve-se entender, além dos nomes próprios de pessoas, de lugares, de rios e de cidades, todos os itens lexicais de cunho marcadamente estrangeiro ou, de algum modo, citados, designativos de algo próprio e característico de outra cultura ou ainda aqueles utilizados em sua forma alógena intencionalmente pelo falante.
Não raro, nesse emprego de elementos estranhos existe um desejo consciente de remissão a outra realidade, motivo pelo qual os xenismos costumam conservar a grafia do idioma de origem, o que pode deixar de ocorrer quando as línguas em questão apresentam estruturas muito diferentes. No caso da língua escrita, é comum o uso de caracteres especiais como negrito e itálico, até para que o máximo de expressividade seja alcançado.
Crystal (1997:350) salienta ainda a questão do prestígio como fator motivador para o uso de palavras estrangeiras, característica presente em várias sociedades ao redor do planeta .
O emprego de unidades lexicais alienígenas de maneira apelativa constitui recurso utilizado tanto pela literatura quanto pela imprensa, “a fim de que o leitor tenha uma idéia não somente das coisas evocadas, mas também das palavras que as designam” - Guilbert (1975:92-3) -, sendo comum também na língua geral. Essa propriedade do estrangeirismo é igualmente assinalada por outros autores, como Alves (1990:72-3) e Martins (1997:81), que justifica o uso desses elementos também nos casos em que “a palavra estrangeira, pela sua constituição sonora, parece mais motivada que a vernácula”.
A imprensa brasileira é pródiga em empregos estilísticos de estrangeirismos. Seguem-se alguns exemplos ilustrativos, extraídos da imprensa escrita: “winter sale - até 50% de desconto” (O Globo, 17/07/99, p.17), campanha publicitária de loja de roupas; “O ‘enfant terrible’ chamado Alain Delon” (Jornal do Brasil, Caderno B, 09/07/99, p.2), título de artigo acerca de mostra cinematográfica com os principais filmes do ator francês; “O padre contou detalhes da love story dos noivos e explicou o ritual do sacramento” (O Globo, Segundo Caderno, 06/07/99, p.3), trecho de coluna social assinada pela jornalista Hildegard Angel; “Sabor da Paixão traz no elenco a espanhola Penélope Cruz e o brasileiro Murilo Benício, ambos estreantes em Hollywood. Mostra lindas paisagens de Salvador e tem enredo caliente” (Época, 23/10/00, p.110), pedaço de crítica cinematográfica e “A TV estatal alemã ZDF divulgou fotos inéditas de um álbum da amante de Hitler, Eva Braun. (...) Em algumas cenas, Eva é vista ao lado do Führer, mas, na maioria das fotos, está sozinha - cozinhando ou descansando perto de um lago” (Época, 11/12/00, p.32).
Estrangeirismo, xenismo e peregrinismo
Se, por um lado, existem autores que aproximam os conceitos de estrangeirismo, xenismo e peregrinismo - cf., nesse sentido, Deroy (1956:224) -, por outro, há estudiosos que apontam diferenças entre os termos.
Carvalho (2000:196) define peregrinismo como a “primeira fase de aceitação” da unidade lexical alógena e xenismo como “o termo importado [que] permanece na grafia original (mesmo muito usado)”.
Em outra ocasião, a mesma autora (1989:43-4), lembrando a dicotomia saussureana langue / parole afirma ser o estrangeirismo um elemento pertencente à parole, isto é, de emprego individualizado, ainda não socializado. Já os xenismos seriam aquelas “palavras que permanecem na forma original, apesar da grande freqüência de uso”. Inclui nesse grupo os nomes próprios de pessoas, países etc, além daqueles designativos de “realidades locais sem correspondência nas demais culturas”.
Bechara (1999:599), embora também faça menção às duas categorias, afirma que
de modo geral, os estrangeirismos léxicos se repartem em dois grupos: os que se assimilam de tal maneira à língua que os recebe, que só são identificados como empréstimos pelas pessoas que lhes conhecem a história (...); mas há os que facilmente mostram não ser prata da casa, e se apresentam na vestimenta estrangeira (...) ou se mascaram de vernáculos (...). O termo empréstimo abarca essas duas noções.
Em Azeredo (2000:72-3), aparecem os termos estrangeirismo, empréstimo e xenismo. Pelas palavras do autor, intui-se que o fato de estes últimos conservarem a grafia original é o que os diferencia dos dois primeiros: “muitos estrangeirismos foram aportuguesados, mediante adaptações mórficas, fonéticas e - claro - ortográficas (...); outros, no entanto, empregam-se na ortografia original, os xenismos” . Mais adiante,
O conjunto das palavras do português - isto é, seu léxico - consiste, portanto, na união de três grandes grupos de formas: a) as palavras herdadas do latim, b) as palavras provenientes de outras línguas antigas e modernas - os empréstimos, entre os quais se incluem os xenismos -, e c) as palavras formadas com os recursos morfológicos produtivos da língua em cada fase de sua existência.
De estrangeirismo a empréstimo
O fato de se poder incluir as palavras estrangeiras adotadas por um idioma em dois grupos distintos (grosso modo, empréstimos e estrangeirismos) é, de certa forma, consenso entre os estudiosos. As divergências começam, como se viu anteriormente, no momento em que se tenta distribuir os itens lexicais externos nas duas categorias.
Tal dificuldade foi salientada por Deroy (1956:224), ao explicitar que “a rigor e teoricamente, os peregrinismos poderiam ser excluídos de um estudo dos empréstimos. Na prática, isso seria irrealizável, pois não é possível traçar um limite entre as duas categorias”.
Guilbert (1975:96-8) apresenta alguns critérios capazes de comprovar a instalação de itens lexicais estrangeiros no sistema lingüístico receptor, procurando oferecer parâmetros para a definição de quando um lexema externo deixa de ser estrangeirismo e passa a ser empréstimo. Os principais situam-se nos níveis morfossintático e semântico, uma vez que palavras já naturalizadas também podem, em algumas circunstâncias, ser proferidas de acordo com a pronúncia da língua de origem, invalidando, assim, o critério fonológico.
Basear-se simplesmente na ortografia igualmente não é muito seguro. Muitos itens lexicais, cujo caráter alógeno não é mais atestado nem mesmo pelos dicionários da língua receptora, são escritos, vez por outra, com a grafia do idioma de onde provêm, inclusive em função de fatores estilísticos .
No que respeita à morfossintaxe, boa evidência de integração encontra-se nos casos em que a palavra estranha funciona como matéria-prima para novas formações vocabulares, realizadas por meio de processos como a derivação, a composição e a palavra-valise. Isso pode ocorrer ainda que a adaptação ortográfica não se tenha dado (cf. funkeiro, jazzístico, voyerismo, bluesista, skatista, kartista e showmício). Às vezes, a adaptação incipiente ou mesmo ausente na forma que serve de base aparece nas unidades lexicais forjadas a partir dela (cf. lobista < lobby, estandardização < standard e roqueiro < rock) .
Do ponto de vista semântico, sinal de incorporação ao novo ambiente pode ser percebido quando a expressão estrangeira perde o caráter monossêmico e referencial do momento de entrada e adquire novas possibilidades de emprego. Assim, o termo round, inicialmente ligado ao universo do boxe, já aparece em construções como estas: “Indústria do fumo perde o 1o round” (Jornal do Brasil, Ciência, 09/07/99, p.10) e “Marítima vence novo ‘round’ contra Petrobras” (O Globo, Economia, 19/02/00, p.33). Do mesmo modo, show expandiu seu sentido original, isto é, “espetáculo”, “apresentação artística” e hoje já é usado como sinônimo de “escândalo”, por exemplo, na frase, “ela deu o maior show diante de todos”. Upgrade, expressão da área da informática, também já alcançou outros domínios, como em: “Os amigos de Nelsinho Motta a-do-ram ouvir do próprio a seguinte história: Quando chove em Nova Iorque, ele compra um guarda-chuva bem baratinho, entra num restaurante e, na hora de ir embora, faz um upgrade: escolhe o mais charmoso e leva para casa” (Jornal do Brasil, Caderno B, 07/07/99, p.3). Mencione-se ainda o caso de pitbull, palavra designativa de feroz raça canina, a qual já pode ser vista em construções como a seguinte: “A nova desordem metálica de uma banda ‘pitbull’ ” (tít.) (O Globo, Segundo Caderno, 06/07/99, p.2) .
Alves (1990:79) lembra ainda o fato de que “o emprego freqüente de um estrangeirismo constitui também um critério para que essa forma estrangeira seja considerada parte componente do acervo lexical português”. A esse respeito, cita o substantivo jeans, “unidade lexical tão usada contemporaneamente, parece-nos já adaptada à língua portuguesa e manifesta-se, por isso, como um empréstimo ao nosso idioma”.
Palavras finais
Como sói acontecer no âmbito dos estudos lingüísticos, também os termos ligados ao empréstimo aqui analisados não apresentaram as mesmas características em todos os autores consultados.
O caminho estrangeirismo
à empréstimo, nem sempre, é percorrido de maneira previsível. Não se pode exigir que um item lexical estrangeiro apague, de um momento para o outro, todo e qualquer vestígio de sua proveniência alógena. Em muitos casos, bem antes disso, esse elemento já estará interagindo com o restante do léxico, colocando-se à disposição dos falantes para novas criações vocabulares ou semânticas. Na verdade, em certas situações, a naturalização completa poderá nem vir a ocorrer.O termo estrangeirismo, também foi observado, ainda apresenta identificação com vício de linguagem e, na fase atual dos estudos lingüísticos, seria mais bem empregado se fizesse referência aos itens léxicos usados expressivamente ou àqueles designativos de elementos característicos de outras realidades lingüístico-culturais, que, na maior parte das vezes, não têm a pretensão de alojar-se no léxico da língua receptora.
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