CAJUNS: AMERICANOS A CONTRAGOSTO
Afrânio Garcia
(UERJ)
INTRODUÇÃO
Há alguns anos, assistindo a um filme na Globo, cujo título original em inglês é “Southern Comfort”, um excelente filme de ação (e também de reflexão), causou-nos muito espanto descobrir que havia índios americanos que falavam francês. Esse fato, até então desconhecido, como deve ser para a maioria de vocês, despertou-nos uma imensa curiosidade por saber um pouco mais sobre esses índios. Com o tempo, descobrimos que não havia apenas índios americanos que falavam francês, mas que eles eram apenas parte de uma cultura francófona paralela rica e vigorosa, ainda hoje existente nos Estados Unidos: a cultura “cajun”.
Por considerar que um fato lingüístico e cultural deste vulto e importância não poderia deixar de vir a público, resolvemos apresentar esta comunicação, como uma forma de contribuir para a evolução dos estudos de lingüística e de língua francesa, ressaltando, porém, que nosso trabalho não chega a abordar o assunto com a profundidade que ele comporta, visto não sermos professores de francês nem especialistas em língua francesa ou nas culturas francesa e americana. Limitamo-nos a apontar o caminho para futuras investigações!
HISTÓRIA DA CULTURA CAJUN
No começo do século XVII, colonos da França ocidental, em sua maioria fazendeiros e pescadores, chegaram à região do Canadá conhecida hoje como Nova Escócia e fundaram uma colônia batizada de Acádia. Devido à rivalidade entre a França e a Inglaterra pelo domínio da América do Norte, os ingleses ganham o controle da região em 1713. Os acadianos declaram sua neutralidade, mas os ingleses exigem lealdade e invadem o Forte Beauséjour em 1755, capturando 300 conscritos acadianos. A partir daí, sua sorte foi selada. Considerados traidores pelos ingleses, os acadianos passam a ser perseguidos. Até o ano de 1763, quando a guerra entre a França e a Inglaterra terminou, dos cerca de quinze mil acadianos existentes, dez mil foram capturados, ou deportados, ou tiveram que fugir para escapar de destino semelhante.
Muitos vieram para a Louisiana, então parte do território francês chamado Nova França; outros, que haviam sido embarcados pelos ingleses para as 13 Colônias, foram hostilizados por seus habitantes e tiveram que fugir para a França ou para as possessões francesas na América, sendo que alguns, menos afortunados, foram embarcados como prisioneiros de guerra para a Inglaterra.
Em 1762, a Espanha ganhou a posse da Louisiana e, desejosa de aumentar sua população com colonizadores que se opusessem aos seus vizinhos que falavam inglês, não só suportou a presença de cerca de dois mil acadianos no território, como enviou sete navios para a França, buscar mais cerca de mil e seiscentos acadianos para se estabelecer na Louisiana.
Numa tentativa de reconstruir seu primitivo modo de vida, os acadianos retiraram-se para o isolamento em áreas inóspitas, como os pântanos e planícies despovoadas da Bacia de Atchafalaya, onde mantiveram sua cultura francófona virtualmente intacta, resistindo a qualquer assimilação pela cultura americana. Essa cultura francesa que eles exibiam fez com que seus vizinhos passassem a chamá-los de “cadien”, forma simplificada do francês “acadien”, mais tarde adaptada para o inglês “cajun”.
Somente a partir de 1950, a cultura cajun passa a sofrer um processo de aculturação, incorporando-se um pouco mais à cultura americana. Os três fatores mais decisivos para essa mudança foram: a demanda por óleo e gás, a qual trouxe inúmeros empregos em companhias americanas para os cajuns; novas estradas cortando a nação, que praticamente acabaram com o isolamento em que os cajuns viviam; e a Segunda Guerra Mundial, que jogou milhares de jovens cajuns no mundo exterior. Mesmo assim, até hoje, existem jovens e velhos cajuns que só se comunicam em seu francês arcaico, ignorando totalmente o idioma inglês e a cultura americana.
AS VARIANTES LINGÜÍSTICAS DO CAJUN
Embora muitos lingüistas insistam em distinguir o crioulo cajun do que eles chamam de “crioulo francês da Louisiana” ou “broken French”, assim como do “francês napoleônico” (um crioulo que sofreu muito pouca evolução, parecendo um francês muito antigo), o certo é que todas essas variantes ocorrem no território sul da Louisiana, na área de maior ou menor influência cajun, o que nos leva a considerá-los não como crioulos independentes, mas como diferentes evoluções do crioulo cajun. Na verdade, a língua cajun terá três vertentes distintas, de acordo com a situação por que passaram os descendentes dos colonizadores franceses através dos tempos.
Conforme a cultura cajun francófona se isolava, cada vez mais, da cultura americana anglófona circundante, ela ia se tornando cada vez mais conservadora e imóvel, visto que qualquer evolução ou mudança levaria forçosamente à adoção ou da língua inglesa ou de padrões típicos da língua inglesa. Assim sendo, o crioulo cajun passa a ser uma koiné no sentido mais estrito da palavra, uma língua padrão que não só era aceita por todos, como tornava todos os que não a falavam não só inaceitáveis, como excluídos da sociedade cajun, visto não ostentarem este emblema maior de sua opção político-cultural. Mas a população cajun era muito pouco numerosa para poder sobreviver em completo isolamento. Desse modo, os cajuns do sudoeste da Louisiana são forçados a procurar contato com outras populações para relações comerciais e pessoais. Como sua exclusão da sociedade anglófona os empobrecera, os cajuns procuraram estabelecer contato com outras populações francófonas e, como não tinham posses, suas relações eram, em sua maioria, com populações igualmente pobres, como os escravos, os índios, os camponeses.
Em primeiro lugar, os cajuns passaram a se relacionar com as outras culturas francesas da América, estabelecendo contatos com os franceses das Antilhas, da Martinica e do Haiti, bem como com os escravos que falavam francês (ou um crioulo francês), oriundos dessas regiões, muitos dos quais vinham dar no sudeste da Louisiana. São os creoles, que irão dar um sabor especial à vida e a cultura da cidade de Nova Orleans. Embora essa cultura creole possua alguns traços próprios, distintos dos traços da cultura cajun, será a existência da cultura cajun que lhe servirá de amparo e contraponto, com as duas culturas exercendo influências recíprocas. Com a adoção da língua inglesa pela população de Nova Orleans, os focos de resistência dessa cultura creole só se mantêm porque já se incorporaram a uma cultura francófona maior, a cultura cajun.
Em segundo lugar, temos a situação dos índios. Como é de conhecimento geral, os europeus que tratavam melhor os indígenas da América do Norte, que estavam menos interessados em explorá-los e mais respeitavam seu modo de ser e viver, o que os tornava mais estimados pelos silvícolas, eram os franceses. Quando os ingleses tomaram os territórios dos índios americanos, expulsando os franceses, era natural que os indígenas resistissem a aprender a língua desse novo dominador, tão pior do que os antigos, e optassem por manter bilingüismo entre o francês e a língua de sua tribo. Esse bilingüismo, no entanto, só se sustentará pela possibilidade de os índios se comunicarem em francês (ou num crioulo francês) com seus vizinhos cajuns, incorporando-se, de forma cada vez mais acentuada, à cultura de seus vizinhos.
Como resultado dessas vertentes, temos, agora, na Louisiana, a seguinte situação lingüística:
a) uma população anglófona no norte, com pouco ou nenhum vestígio do passado francês na sua língua ou na sua cultura;
b) uma população anglófona afrancesada e um tanto africanizada na região de Nova Orleans, falando um inglês entremeado, em maior ou menor grau, de vocábulos franceses (por exemplo, praticamente todos os habitantes dessa região empregam ou são capazes de entender o francês “Bonne chance!” no lugar do inglês “Good luck!”);
c) uma população monolíngüe, predominantemente branca, que só fala o crioulo cajun, nos pântanos, florestas e planícies do sudoeste da Louisiana;
d) uma população indígena bilíngüe, que fala idiomas nativos e o crioulo cajun, nos pântanos e florestas do sudoeste da Louisiana.
Atualmente, houve um ligeiro acréscimo na influência francesa na região de Nova Orleans, devido ao aumento da popularidade da música e da cultura cajun; por outro lado, aumentou muito o número de cajuns que falam inglês, quer como primeira, quer como segunda língua (mais de 50%), mas a cultura cajun persiste, vigorosa como nunca, com um número expressivo de crianças cajuns falando ativamente no crioulo cajun com outras crianças e com a família.
CARACTERÍSTICAS CULTURAIS DOS CAJUNS
As principais características culturais dos cajuns que os diferenciam do restante da população americana, além da língua, são a música, a culinária e a postura festiva diante da vida. Há pouco tempo, a cultura cajun esteve ameaçada de ser absorvida pela cultura country, mas a recente popularidade alcançada por chefs de cuisine cajuns, como Paul Prudhomme e John Folse, e por músicos cajuns, como o cantor D. L. Menard, o acordeonista Iry Lejeune e o saxofonista Richard Landry, criou um orgulho de ser cajun que revitalizou enormemente a cultura cajun.
A música cajun é chamada zydeco, tendo por base um violino e um acordeão. É uma música alegre, dançante, que faz lembrar, por um lado, as canções mais ritmadas dos chansonniers franceses, como Maurice Chevalier; por outro lado, a música western das danças de quadrilha americanas.
A culinária cajun tem como pratos típicos o gumbo (um tipo de ensopado de quiabo), a jambalaya (camarão com molho picante), a carne de jacaré, o peixe enegrecido (peixe frito a ponto de ficar enegrecido por fora) e vários tipos de lingüiça, sendo que o camarão é usado como símbolo tanto do estado de Louisiana quanto da cultura cajun.
A postura festiva diante da vida pode ser demonstrada pelo fato de que praticamente não se vê nenhuma reunião dos cajuns em que não haja comida, bebida e dança. A cultura cajun tem algo de carnavalesco, sendo muito apegada a fantasias, enfeites e folguedos. Não é de se admirar, portanto, que o mais típico e mais importante carnaval dos Estados Unidos seja o Mardi Gras (reparem no nome francês) de Nova Orleans, uma mistura da tradição cajun com a tradição creole.
Uma quarta característica cultural cajun, em grande parte devida ao seu contato com a cultura creole, é o misticismo, a feitiçaria, a medicina alternativa, oriunda das crendices dos negros africanos (do Haiti, das Antilhas, da costa sudeste) em contato com a superstição própria dos habitantes da zona rural.
FONTES DE PESQUISA DOS CAJUNS
Para quem quiser aprofundar seus conhecimentos da língua e da cultura cajuns, existem mais de 400.000 páginas na Internet sobre o assunto. Existem também inúmeras gravações de música cajun disponíveis no mercado internacional e alguns livros de culinária cajun (Jeff Smith, o apresentador do Frugal Gourmet, dedicou recentemente um programa à culinária cajun, inclusive ensinando como preparar o peixe enegrecido).
Existem ainda vários filmes que procuram retratar os cajuns e seu estilo de vida. Além do filme “Southern Comfort”, já mencionado, podemos citar os seguintes: “Coração Satânico”, que mostra especialmente a parte do misticismo da cultura cajun; “Sem Destino”, que mostra o Mardi Gras de Nova Orleans; e “Tudo pela Vida”, um retrato soberbo das terras e do modo de vida dos cajuns.
Por último, a revista National Geographic, vol. 178, nº 4, de outubro de 1990, apresenta um excelente artigo intitulado “The Cajuns: still loving life” (p. 40-65), que serviu de base para grande parte deste artigo.