ATITUDES E POSTURAS EPISTEMOLÓGICAS
NO PROCESSO HISTÓRICO
DOS ESTUDOS DA LINGUAGEM

Cidmar Teodoro Pais (USP)

RÉSUMÉ

Ce travail se propose d’examiner selon une perspective épistémologique quelques aspects du processus historique des sciences du langage et de la signification. On examine ici brièvement les fondéments, l’objet formel, les conceptions de langue, de langage, du signe, de la signification, de système, structure et fonction, ainsi que les approcches diachronique, synchronique et panchronique, cherchant à mettre en relief les ruptures épistémologiques.

Mots-Clés: Discours, Épistémologie, Histoire.

0. Introdução

Este trabalho propôs-se a examinar, numa perspectiva epistemológica, alguns aspectos do processo histórico das ciências da linguagem e da significação. Analisaram-se as grandes idéias, os fundamentos, o objeto formal, as concepções de língua, linguagem, signo, significação, sistema, estrutura, função, as abordagens diacrônica, sincrônica e pancrônica, as metateorias. Distinguiram-se as correntes historicistas, formalistas, funcionalistas e formal-funcionalistas. Buscou-se, ainda, detectar os momentos de rupturas epistemológicas. Foram consideradas algumas grandes etapas dos estudos pré-científicos da linguagem, dos estudos da filosofia da linguagem e das ciências da linguagem, propriamente ditas, assim como as correntes mais importantes que as representam: a gramática e a filologia, criadas na Academia de Alexandria e sua retomada, a partir do humanismo e do racionalismo renascentistas, nos séculos XVI, XVII e XVIII; a gramática racional de Port-Royal e suas relações com a filosofia e a política; a lingüística positivista ou lingüística histórico-comparativa, a geografia lingüística e a dialetologia, seu surgimento e expansão no século XIX, suas relações com as ciências naturais e as ciências humanas; no século XX, a transição Saussureana, o pré-estruturalismo, nas primeiras décadas; a fonologia estrutural dos anos trinta; o apogeu estruturalista, a semiologia e a gramática gativo-transformacional, nos anos cinqüenta e sessenta; o período dito pós-estruturalista, a pragmática, a lingüística da enunciação e a (re)introdução do sujeito do discurso, a semiótica e a análise do discurso, a partir dos anos setenta, as relações inter e transdisciplinares. Levantaram-se características epistemológicas e metodológicas, os avanços de cada época, os impasses e a sua superação em etapas sucessivas.

 

1. Descrição e historicidade

Se examinarmos o desenvolvimento das reflexões e das pesquisas sobre os fenômenos da linguagem, desde a Antigüidade Clássica até os nossos dias, observando as concepções de língua, discurso e linguagem, os recortes epistemológicos quanto aos objetos de estudo, as abordagens e os métodos, as mudanças que se sucederam, como também as articulações e rupturas entre as grandes etapas, verificaremos que se delineia um processo histórico, com seus respectivos ciclos. Evidentemente, a limitação de espaço do presente trabalho impede-nos de fazer um exame minucioso - que seria muito rico e complexo, conduzido por uma numerosa equipe de pesquisadores e, ainda assim, provavelmente seria lacunoso - e nos obriga a considerar apenas as grandes tendências dominantes em cada época.

Com efeito, configura-se claramente em todo esse processo, ao longo da História, uma alternância constante. Deixando de lado alguns poucos autores que, em cada etapa, atuariam de maneira diversa, parece-nos legítimo destacar, no que concerne aos autores e às escolas ou correntes dominantes, que há etapas dos estudos da linguagem que se caracterizam por uma postura eminentemente descritiva, enquanto outras etapas se notabilizam por uma postura eminentemente marcada pela historicidade.. Assim, por exemplo, a retórica e a eloqüência dos gregos voltavam-se para fins práticos, como téchnai, ou seja, como técnicas que capacitariam os cidadãos particularmente para sua atuação política, na pólis, com uma postura eminentemente descritiva. A Gramática e a Filologia, criadas em Alexandria, preocupavam-se com a língua e os autores e textos do período do apogeu, segundo a concepção clássica de língua, adotando, portanto, uma postura de historicidade. A Filosofia da Linguagem, na Idade Média, dedica-se, sobretudo, ao logos, ao discurso, às regras do raciocínio e da argumentação. A partir do Renascimento, retomam-se intensamente a Gramática e a Filologia, caracterizadas pela historicidade. A Gramática de Port-Royal é eminentemente descritiva. A Lingüística Histórico-Comparativa ocupa-se da evolução das línguas, assim como, um pouco depois, a Dialetologia. Saussure sustenta a sincronia, postura eminentemente descritiva, também assumida pela maioria dos autores do ‘estruturalismo clássico’ e pela gramática gerativo-transformacional. No período pós-moderno, a pancronia e a pancronia ampla buscam articular descrição e historicidade.

 

Descrição Descrição Descrição

Historicidade Historicidade Historicidade

 

Retórica Gramática Filosofia da Gramática Grammaire Lingüística

Eloqüência Filologia Linguagem Filologia Raisonnée de Histórico-

Port-Royal Comparativa

Sec. V, IV a. C. Sec. II, I a. C. Idade Média Renascimento Séc. XVI-XVIII Séc. XIX

Séc. XVI-XVII

Descrição Descrição Descrição

Historicidade Historicidade

 

Saussure Benveniste Estruturalismo Modelos

Clássico Pancrônicos

Gramática Pós-Estruturalismo

Gerativa Lingüística Pós-Moderna

Semiologia Semiótica

Pragmática Análise(s) do Discurso

Figura 1

2. Apontamento

a propósito das políticas do idioma

Quando mencionada a globalização, por exemplo, pessoas, homens públicos e governos entendem, em nossa época, que se trata de um fenômeno novo. Contudo, confrontando as características do processo atual com a de outros, ocorridos desde a Antigüidade, verifica-se que são homologáveis em muitos aspectos. Basta examinar a implantação, consolidação, administração dos impérios persa, grego helenístico, romano, impérios criados a partir do Renascimento, como o português, o espanhol, o britânico, o francês, o belga, o holandês, num exame cuidadoso, para constatar que revelam traços comparáveis ao processo atual de globalização.

Quanto à questão lingüística, todos impuseram uma língua comum, como, por exemplo, o grego koiné, o sermo uulgaris do latim, as línguas das metrópoles dos impérios renascentistas, português, espanhol, inglês, francês, flamengo, holandês, utilizando, em graus diversos, duas instituições básicas, a educação e o controle das atividades, do comércio e do trânsito das pessoas, por uma burocracia altamente centralizada, que garantiam a dominação. A política do idioma, imposição da língua, enquanto instrumento de pensar o mundo, correspondeu sempre a conduzir o dominado a assumir a ‘visão de mundo’ e o sistema de valores do império. No processo de globalização atual, mutatis mutandis, a língua koiné é o inglês, o controle se faz, principalmente, no ‘espaço virtual’ da mídia e da comunicação eletrônica. Permanecem, em todos os casos, o sufocamento das especificidades, da diversidade cultural, o esmagamento da identidade cultural das comunidades dominadas, em benefício da ‘visão de mundo’ hegemônica.

 

3. Os estudos ditos ‘pré-científicos’

Como se sabe, a linguagem, a língua, o discurso, suas relações com o pensamento e com práticas políticas e socioculturais desde cedo despertaram grande interesse e curiosidade em todas as civilizações conhecidas. Ao mesmo tempo, o Estado, em diferentes épocas, sempre teve a convicção ou a intuição de que, através da língua, era possível impor um sistema de valores e uma cosmovisão aos membros da sociedade e às comunidades dominadas. Por essa razão, as noções e concepções a respeito da linguagem e dos signos sempre tiveram, ao longo da História, uma motivação política, ligada às razões de Estado.

Estudos mais bem formalizados, no entanto, surgem na antiga Índia, ligados ao sânscrito védico, ou arcaico, e ao sânscrito clássico, como a gramática de Pânini. Contudo, essas proposições só se tornaram conhecidas no Ocidente, através dos estudos feitos por gramáticos e lingüistas ingleses e alemães, sobretudo no século XIX. Desse modo, convém limitar as reflexões deste trabalho, no limitado espaço disponível, ao que se fez na chamada civilização greco-romana, aquela que deu origem à concepção moderna de ciência.

Na Antigüidade clássica, as preocupações voltavam-se para aspectos práticos do uso da língua, ou mais exatamente, para o discurso, enquanto instrumento de presuasão e convencimento, na assembléia dos cidadãos, eklesía, e no conselho, boulé, das cidades-Estado gregas. Daí a importância da retórica, hé téchne réthoriké. Não há uma concepção de língua, uma episteme, com a exceção de Aristóteles que já defendia a oposição entre língua e discurso, a primeira como enérgeia, o segundo, como érgon, traduzidos esses termos, em latim, respectivamente, como potentia e actum.

Assim, a primeira episteme sobre a língua, que teve amplo sucesso, é aquela proposta pelos sábios da Academia de Alexandria, a concepção clássica de língua, que, mais exatamente, se deveria chamar de concepção imperial de língua: a língua surge rude, de soldados e camponeses, chega ao apogeu e depois decai. Para sua formulação convergiram a nostalgia da glória perdida dos impérios ateniense e helenístico e a dominação romana, assim como a ‘confusão’ entre um dito apogeu lingüístico e o apogeu político, econômico, estratégico e territorial de um império. Dela decorreram duas disciplinas: hé téchne grammatiké, ou ars grammatica, que deveria encarregar-se de estabelecer as regras, para “escrever com correção e elegência”; e hé téchne philologiké, ou ars philologica, que se encarregava de estudar os manuscritos dos textos dos autores do apogeu, em suas múltiplas variantes e versões, para tentar explicar o seu sentido, o significado das palavras que não mais eram usadas ou que haviam sofrido grande modificação semântica, para tentar reconstruir um texto que fosse o mais próximo possível do texto original. Tais textos se diziam ‘clássicos’, porque deveriam ensinar-se em classe, segundo o princípio da mýmesis, imitação, de acordo com o qual se aprenderia a língua coma leitura dos autores do período considerado como o do ‘apogeu’ da língua. Essas concepções fundamentaram a política de idioma do Império Romano, sobretudo com o seu ‘exército’ de burocratas e mestres-escola.

A filosofia da linguagem, durante a Idade Média, preocupou-se, sobretudo, com o discurso, o lógos, ou seja, com os procedimentos que asseguravam a eficácia da argumentação, da persuasão, da veridicção, tomando como modelo supremo do raciocínio e/ou da razão humana, a lógica formal de Aristóteles, hé logiké, aperfeiçoada por Abelardo e Tomás de Aquino.

As grandes navegações, o comércio internacional e a criação, consolidação, administração e manutenção dos grandes impérios renascentistas destruíram a economia e a sociedade feudais e tornaram necessário um modelo de prática imperial. O melhor disponível era, obviamente, o do Império Romano. Assim, por razões de Estado, foram retomados o humanismo, o racionalismo, os valores greco-romanos, a concepção antropocêntrica de mundo. Todo o planeta foi conquistado pelos impérios europeus. Como era grande mas não infinito, alguns impérios provocaram o refluxo de outros (Camões, em 1580, já lamentava, a perda de poder e espaço do Império português). Dessa maneira, por razões muito semelhantes às de Alexandria, como a nostalgia da glória e do poder perdidos, os estudos gramaticais e filológicos, antes dirigidos apenas para o grego e o latim, voltaram-se para as línguas - agora também consideradas ‘de civilização’ das metrópoles imperiais e seus textos, determinando o enorme trabalho da gramaática e filologia clássicas nos séculos XVI, XVII e XVIII, em relação as línguas modernas e seus respectivos períodos arcaicos. Não por coincidência, o interesse por tais estudos está intimamente ligado ao refluxo desses impérios, como o português, o espanhol, o francês, por exemplo, nessa ordem.

A Grammaire raisonnée de Port-Royal constitui uma brilhante exceção nesse período. Fundamentada na lógica formal e no racionalismo cartesiano, propõe, com clareza, pela primeira vez, a distinção entre língua - esta, lógica, racional, perfeita - e discurso - em que se observam “defeitos”, de onde Chomsky reconhece a fonte para uma oposição fundadora de sua teoria, competence/performance. Além disso, os pensadores de Port-Royal, humanistas, deram importante contribuição ao ideário da Revolução francesa - liberté, égalité, fraternité -. Defensores do Estado de Direito e da democracia, contrários à monarquia, aos ‘déspotas esclarecidos’, à escravidão, consideravam que o ensino da gramática tradicional, normativa, servia aos interesses do Estado e à manutenção da dominação, na medida em que era um dos instumentos, para controlar a linguagem dos dominados e impor a visão do dominante. Sustentavam a tese de que, em termos atuais, se a sociedade fosse mais livre, justa e igualitária, todos teriam acesso aos bens culturais e, conseqüentemente, à língua lógica, racional e perfeita, patrimônio dos homens.

 

4. A lingüística e as ciências da linguagem

A Revolução industrial e a acentuada especialização do saber, a partir dos fins do século XVIII e, sobretudo, no século XIX, levaram a abandonar as ‘grandes áreas’ do saber do século XVIII, a ‘história natural’ e as ‘humanidades”, e conduziram ao surgimento de numerosas ciências autônomas, com objeto, campo e métodos específicos. Assim, o século XIX é o do apogeu da ciência e da tecnologia e, ao mesmo tempo o de sua mitificação.

A lingüística, como ciência autônoma, surge a final do século XVIII, ao lado da antropologia, da sociologia, das ciências humanas de modo geral, e tem no século XIX o seu mais intenso desenvolvimento.

Por essa razão - e também por limitações de espaço -, é preciso restringir este trabalho a questões gerais, sem entrar em minúcias. Não obstante o grande número de correntes e teorias, é legítimo e perfeitamente possível dividir a história da lingüística, enquanto ciência autônoma, em dois grandes períodos: a lingüística histórico-comparativa, hegemônica no século XIX, e a lingüística moderna, estrutural-funcional, depois de Saussure, nos inícios do século XX, considerando-se Ferdinand de Saussure, como o autor mais importante da transição entre as duas etapas.

A elaboração da teoria da lingüística histórico-comparativa e sua impressionante produção - com o estudo e a classificação de três mil e quinhentas línguas -, decorreram da combinação de duas posições fundamentais. De um lado, o positivismo de Auguste Comte, que defendia uma ciência neutra, apolítica e objetiva (ciência do objeto, independente do pesquisador) e, de outro lado, a teoria Darwiniana, que tornou a biologia a metateoria da lingüística positivista. A metáfora biológica, segundo a qual, “as línguas são como os seres vivos, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem” levou ao estudo comparativo da evolução das línguas, à detecção de seu ‘parentesco genético’, à classificação de línguas em ‘árvores genealógicas’. A lingüística histórico-comparativa demonstrou que as línguas evoluem mas nunca conseguiu explicar como ou porque as línguas evoluem. Ela é causalista, historicista e atomizadora da história.

Por outro lado, a transposição da “teoria da evolução e seleção natural das espécies” para as ciências humanas teve alguns resultados particularmente desastrosos, como, por exemplo, a aceitação da idéia, segundo Schleicher, de que “é natural que línguas, culturas e sociedades mais evoluídas dominem e, mesmo, levem à extinção, línguas, culturas e sociedades menos evoluídas”. Conhecem-se bem as conseqüências de tais concepções na história trágica da Humanidade, como a ‘fundamentação científica’ que justificaria a supremacia lingüística, cultural e racial, bem como todo tipo de genocídio.

Felizmente, a lingüística moderna, a partir de Saussure, rompeu com essas concepções e foi paulatinamente libertando-se do positivismo. A metáfora biológica foi abondonada completamente. Mais modesta, a lingüística moderna não busca saber “de onde viemos e para onde vamos”, mas contenta-se com a tarefa, já de si complexíssima, de estudar a estrutura e o funcionamento da linguagem, das línguas e dos discursos. Considera a língua como uma instituição social, cultural e histórica e, ainda, como uma atividade cognitiva.

A sincronia rígida de Saussure e seus seguidores imediatos no assim chamado ‘estruturalismo clássico” (anos 40-60) foi duramente criticada. Desenvolveu-se uma nova concepção, a da pancronia ampla. Nessa perspectiva, não se discute mais se as línguas ‘evoluem’ (com todas as suas conotações de progressio, de Sêneca) ou ‘funcionam’ no seio da vida social, enquanto meros instrumentos de comunicação.

Elaborou-se no período dito ‘pós-estruturalista’ uma concepção dialética ou dinâmica de sistema e estrutura. Considera-se que funcionamento no seio da vida social e mudança no eixo da História constituem um único processo.

Abandonou-se aos poucos a dicotomia língua/discurso, segundo a qual os estruturalistas propunham-se a estudar a língua mas não discurso, o enunciado mas não a enunciação. Criticou-se, igualmente, o estudo do discurso, com exclusão do da língua, que vicejou nos anos sessenta. Correlatamente à concepção dialética de sistema e estrutura, as posições mais atuais defendem que é preciso considerar a língua e o discurso, dialeticamente articulados (conseqüentemente, também as relações itersubjetivas e espaço-temporais de enunciação e enunciado), como dois termos constitutivos de um processo semiótico.

 

5. À guisa de conclusão

Evidentemente, não seria possível apresentar, nos limites deste trabalho, uma visão mais completa e exaustiva dos estudos pré-científicos e científicos a respeito da linguagem, das línguas, do discurso, da significação e de suas relações com os processos políticos e socioculturais.

Optamos, então, por apresentar um quadro-síntese de caracterização epistemológica e metodológica das correntes e etapas mais importantes, da Antigüidade clássica ao ‘pós-estruturalismo”.

A passagem de uma etapa para outra configura uma ruptura epistemológica, no que concerne às posições dominantes. Como é evidente, isso não determina tempos e atitudes estanques, já que diferentes posições apresentam intersecções, no tempo da prática científica.

Nessas condições. entende-se por ruptura epistemológica uma mudança de metateoria.

Esquematicamente, temos:

 

ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS

DAS CIÊNCIASDA LINGUAGEM E SUAS APLICAÇÕES

 

Etapa/Corrente

Natureza Epistemológica

Objeto

Método

Concepção de língua

1.Gramática e Filologia

techné/ars techné/ars (disciplinas)

língua (variantes/ /versões)

Indutivo- -dedutivo

Concepção Clássica, Concepção Imperial

2. Filosofia da linguagem

epistème

língua/ discurso

Teórico - -dedutivo

Língua como lógica/ Discurso como prática

3. Gramática Racional de Port-Royal

Filosofia da linguagem epistème

língua/ discurso

Teórico - Dedutivo

Língua como lógica/ Discurso como prática

4. Lingüística Histórico- Comparativa

Ciência da Linguagem epistème

línguas naturais evolução

Indutivo- -dedutivo Histórico- Compara- tivo

Metáfora biológica

5. Saussure (transição)

Ciência da Linguagem

Línguagem/ Línguas naturais

Indutivo- Dedutivo

Língua como Instituição Social

6. Lingüística Estrutural- Funcional Hjelmslev Martinet Coseriu etc.

Ciência da Linguagem Epistème

Línguas naturais Como sistemas lingüísticos

Teór.ico-dedutivo Indutivo-dedutivo Indutivo-dedutivo

Língua como instituição social e cultural

7. Gramática gerativa e transforma- cional

Ciência da Linguagem Epistème

Linguagem verbal línguas naturais

Teórico- -dedutivo

Língua como conjunto de regras gramaticais

8. Lingüística pós-moderna

Ciência da Linguagem Verbal Epistème x Techné

Processos Semióticos Verbais

Indutivo- -dedutivo

Língua como instituição cultural, social, histórica e atividade cognitiva

Figura 2

 

ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS DAS CIÊNCIAS

DA LINGUAGEM E SUAS APLICAÇÕES (CONTINUAÇÃO)

Etapa/ Corrente

Aborda-gem

Concepção de sistema e estrutura

Metateoria

Concepção de função

1.Gramática e Filologia

Acronia

--------------

Racionalidade, Humanismo, Verossimilhança

funcionamento

2. Filosofia da linguagem

‘Sincro-nia’

Raciocínio Argumentação

Teologia Lógica formal

funcionamento

3. Gramática Racional de Port-Royal

‘Sincro-nia’

relações lógicas ‘sintaxe’

Teologia Lógica formal

funcionamento

4. Lingüística Histórico- comparativa

Diacronia

Correlações Evolutivas ‘parentesco’

Biologia Evolução/causa-efeito

correlação

5. Saussure (transição)

Sincronia

sistema = estrutura concepção estática

Sociologia

funcionamento

6. Lingüística Estrutural Funcional Hjelmslev Martinet Coseriu etc.

Sincronia Sincronia Pancronia

sistema contém estrutura concepção estática sistema/processo código/mensagem língua/norma/fala

Conjunto das Ciências Humanas e Sociais

relação de dependência funcionamento funcionamento

7. Gramática gerativa e transformacional

Sincronia rígida

competência/desempenho concepção estática

Biologia e Lógica Matemática

relação de dependência

8. Lingüística pós-moderna

Pancronia ampla

concepção dinâmica processo = sistema x discurso

Conjunto das Ciências Humanas e Sociais

funcionamento x relação de dependência

Figura 2 (continuação)

 

Dessa maneira, de acordo com as concepções atuais, língua e discurso articulam-se, funcionam e mudam, não só como instrumento de comunicação, mas como processo semiótico que elabora e constantemente reelabora a ‘visão do mundo’ de uma comunidade, assegura a sua identidade cultural e a memória social, processo intimamente articulado, por sua vez, ao saber e às práticas sociais e culturais compartilhados pelos membros do grupo. Determinado sistema, enquanto instância de competência, autoriza um discurso, em dado momento; este, por sua vez, produz significações novas e informação nova - recortes culturais -; essa produção discursiva realimenta o sistema em questão e provoca sua auto-regulagem. Na medida em que essa realimentação e auto-regulagem passa necessariamente pelo metassistema conceptual, as novas concepções/cognições tornam-se disponíveis para todas as semióticas-objeto pertencentes à mesma cultura e à mesma sociedade e modificam ipso facto as correspondentes competências. Numa perspectiva Lacaniana, os sujeitos enunciadores-enunciatários dos discursos são os produtores dos seus discursos e o resultado dos seus discursos.

Dessa forma, as ciências da linguagem encontram sua metateoria no conjunto das ciências humanas e sociais, relacionam-se com a semântica cognitiva, para explicar o processo concomitante de produção do saber sobre o mundo - episteme - e de produção da significação - semiose -. Pela mesma razão, os estudos lingüísticos tornaram-se indissociáveis dos estudos das semióticas não-verbais e sincréticas, eis que o mundo semioticamente construído de uma comunidade sociocultural é sustentado e permanentemente reelaborado pelo conjunto das semióticas em operação no seu tempo e no seu espaço.

Assim, a ciência, equivalente ao universo de discurso científico, é um processo de produção, uma prática social e cultural. Nessas condições, o saber científico nunca pode ser dado como pronto, acabado, definitivo; é dinâmico, renova-se sempre, ao longo do processo histórico da cultura: o saber precedentemente construído e os resultados das pesquisas realizadas tornam-se pontos de partida, para a formulação de novas hipóteses e para investigações subseqüentes, que conduzirão à conquista de um novo saber. Essa é, por certo, uma das facetas mais atraentes e estimulantes do trabalho científico.

De fato, a vocação científica não deixa lugar para a acomodação nem para a auto-satisfação. Se o contentamento pela conclusão de uma pesquisa é legítimo, para os pesquisadores que a fizeram, suas conclusões oferecem simultaneamente novas dúvidas, interrogações e desafios que levam a comunidade científica a lançar-se a renovadas investigações.

Enfim, epistemologicamente, considera-se que a ciência é política embora não partidária. Constitui ela um instrumento, dentre outros, de busca da verdade e construção do saber, para a melhoria das condições de vida do homem. Por isso mesmo, a prática da ciência só se justifica quando exercida com responsabilidade social. Ciência e tecnologia são meios para a construção de uma sociedade mais justa, livre e democrática.

 

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

ARISTOTE. Rhétorique, Livres I et II. Paris: Les Belles Lettres, 1973.

BOURCIEZ, Emile. Éléments de linguistique romane. 4.è. ed. Paris: Klincksieck, 1956.

CHOMSKY, Noam. Lingüística cartesiana. Madrid: Gredos, 1960.

COSERIU, Eugenio. Teoría del lenguaje y lingüística general. Madrid: Gredos, 1967.

-------------- Lecciones de lingüística general. Madrid: Gredos, 1971.

DONZÉ, R. La grammaire générale et raisonnée de Port-Royal. Contribution à l’étude des idées grammaticales en France. 2è. éd. Berne: Éditions Francke, 1971.

DUBOIS, Jean et al. - Retórica da poesia. São Paulo: EDUSP, s/d.

MEILLET, Antoine. Introduction à l’étude comparative des langues indo-européennes. Alabama: University of Alabama Press, 1964.

PAIS, Cidmar Teodoro. Algumas reflexões sobre os modelos em lingüística. Língua e Literatura. São Paulo, V. 9, p. 89-117, 1980.

----------------------- Introduction: le processus de production des sciences du langage et de la signification. PAIS, Cidmar Teodoro Conditions sémantico-syntaxiques et sémiotiques de la productivité systémique, lexicale et discursive. Thèse de Doctorat d’État ès-Lettres et Sciences Humaines. Directeur de Recherche: Bernard Pottier. Paris/Lille: Université de Paris-Sorbonne (Paris-IV), Atélier National de Réproduction des Thèses, 1993, 761 p, (p. 07-80).

------------ Investigações em sociossemiótica e semiótica da cultura. Anais do VII Encontro Nacional da ANPOLL, V. 2. Goiânia: ANPOLL, p. 797-806, 1993b.

POTTIER, Bernard. Sémantique générale. Paris: PUF, 1992.

RASTIER, François. Sémantique et recherches cognitives. Paris: P.U.F, 1991.

-------------- Para uma poética generalizada. Acta semiotica et linguistica, São Paulo, V. 8, p. 443-470, 2000.

SCHLEICHER, August. Compendium der vergleichenden Grammatik der indogermanisches Ursprache. Weimar: 1861.

SCHMIDT, Johannes. Die Verwandschaftsverhältnisse der indogermanischen Sprachen. Weimar: 1872.

WARBURG, Walter Von. (1967) La fragmentation linguistique de la romania. Paris: Klicksieck, 1967.