DO ESTATUTO MÓRFICO DA VOGAL TEMÁTICA E DO MORFEMA DE GÊNERO EM PORTUGUÊS

Paulo Mosânio Teixeira Duarte (UFCE)

 

RESUMO

Este artigo examina criticamente a vogal temática e o morfema de gênero em português. Tenta identificar bases gramaticais e distribucionais para a existência da primeira nos verbos e nos nomes. Conclui que apenas a vogal temática verbal tem sustentação lingüística, uma vez que distribui os verbos em conjugações, não importando se é pré-desinencial ou pré-sufixal. A vogal temática nominal, pelo menos considerando o plano superficial, não tem razão de ser. No que respeita ao morfema de gênero, ora dado pelos autores como independente do índice temático nominal, ora como incluso neste, examinamos a proposta de Herculano de Carvalho e Valter Khedi, comparando-a com  a de Camara Jr. Em ambos os casos, incluímos a proposta de Sandmann, segundo a qual o gênero dos nomes pode ser encarado derivacionalmente, por oposição ao dos adjetivos e outros determinantes, que pode ser visto como fenômeno flexional. Chegamos à conclusão de que, adotando a proposta de Carvalho e Khedi, conjugada à de Sandmann, nomes como aluno/aluna não têm direção derivacional. Assumindo a proposta de Camara Jr associada à de Sandmann, nomes como aqueles têm direção derivacional: o feminino deriva do masculino.

PALAVRAS-CHAVE: vogal temática verbal, vogal temática nominal, morfema de gênero

Introdução

 

O estatuto mórfico da vogal temática e do morfema de gênero não se acha bem assentado na nossa tradição gramatical. Cunha (1983:58), por exemplo, menciona apenas a vogal temática verbal. O elemento vocálico -o é considerado desinência de gênero, se o nome se opõe a -a (ex.: gato/gata). As outras vogais terminais,   -a e -o (não opositivas) e -e não recebem classificação. Em Cunha e Cintra (1985), há uma só observação quanto à vogal temática, no que se refere à aceitação da mesma entre os morfemas, mas em nada altera o conteúdo de Cunha (1983).

Não há acordo entre os lingüistas quanto à inclusão das vogais temáticas entre os morfemas. Parece-nos que, assim como as desinências, elas fazem parte dos morfemas gramaticais categóricos, pois também distribuem os radicais em classes. Por si mesmas, nada significam, mas poder-se-ia, talvez, dizer que, no caso, a função é a significação.(1985:81)

Melo (1978) também reconhece, pelo menos a princípio, as vogais temáticas verbais. Destaca contudo a vogal final dos nomes: tronc-o, rat-o, livr-o, págin-a. Em se tratando de vogais de palavras opositivas, como aluno/aluna, haveria, segundo o autor, desinências: noutros casos, as vogais não teriam caráter mórfico. À guisa de ilustração, reproduzimos a passagem abaixo.

Aproveitamos estes exemplos para acrescentar que se chama terminação o último fonema do vocábulo, quando destacável da raiz. Em certos casos, tal fonema valeria como desinência de masculino: gat-o, rat-o, prim-o; noutros casos, nada sugere: mont-e, cort-e, map-a, telefonem-a, trib-o, tigr-e. (1978:49)

Melo ressuscita o nome nada sugestivo de terminação, tão vivamente condenado por Chediak, Jucá Filho e pelos membros da Academia Brasileira de Filologia, no Anteprojeto. O autor não assume uma posição firme, ao classificar vogais átonas finais não opositivas, pertencentes a nomes. Deixa-nos confuso, quando afirma, em nota de rodapé:

Na realidade, a coisa é mais complicada porque há também vogais temáticas nominais e há modificações da vogal temática [alomorfias]. Mas, numa gramática como esta, é suficiente dar idéia de tema e vogal temática nos verbos. (1978:50)

Luft (1974:92), por seu turno, acolhe as vogais temáticas verbais e nominais e admite somente como desinência de gênero masculino Æ e de feminino -a. Lima (1976) assume posição idêntica à de Luft. Explicita-se nestes termos:

O masculino se caracteriza por ausência de marca de gênero, ou seja, por uma desinência zero. Em palavras como gato, ou lobo, ou magro, o o não é índice do masculino (e sim vogal temática), do mesmo modo que o e é vogal temática em palavras como mestre ou parente.

Note-se que, sem embargo da identidade de oposições (gato/gata e mestre/mestra), a ninguém ocorreria interpretar o e de mestre como desinência de masculino. (1976:168)

Bechara (s/d), na trilha de Lima, subdivide os temas em verbais e nominais[1]. Diferentemente deste último, porém, admite a possibilidade de cumulação em nomes que têm a oposição masculino/feminino: a vogal amalgamaria as funções de vogal temática e desinência. Exemplificando: em aluno, o -o seria vogal temática e desinência de gênero, dada a parelha aluno/aluna. Em livro, a vogal final é apenas temática.

Toda essa confusão doutrinária traz repercussões negativas ao ensino da língua. O aluno se porta como um aprendiz perplexo, a quem cabe tão somente constatar as discrepâncias doutrinárias entre os autores. Deve haver, pensa ele, alguma razão secreta para as divergências, inacessível a ele, acessível somente ao professor de português, que sabe dos “mistérios” da língua.

Ora, sabemos  que as entidades da língua, apesar de terem seus fundamentos no entendimento humano, necessitam de algum critério coerente para existirem, de modo a salvaguardar a descrição do arbítrio e do argumento de autoridade. Por isto, propusemo-nos estudar as vogais temáticas nos verbos e nomes e o morfema de gênero.

Começamos pelas vogais temáticas verbais para, em seguida, nos determos mais demoradamente nas vogais temáticas nominais, pois, se é relativamente pacífica a postulação das primeiras, já não se pode afirmar o mesmo destas últimas. Entre os que as admitem, há dissensão, pois:

a) em uns, a vogal final é descrita como índice temático, distinto da desinência de gênero;

b)  em outros, a vogal final ora é analisada tão somente como índice temático, ora como morfema que acumula as funções de vogal temática e de morfema de gênero.

 

Incluem-se no grupo (a) autores como Camara Jr. (1981) e Macambira (1978). No grupo (b), distingue-se Carvalho (1974).

Há um último grupo (c), constante dos não as admitem. Além dos gramáticos citados nesta introdução, podemos citar Laroca (1994), que não justifica a exclusão do tema nominal. Apenas discute o tema verbal nestes termos.

A função classificatória é a que exerce o morfe tradicionalmente denominado ‘vogal temática’. Este segmento vocálico funciona como índice seletor de alomorfes modo-temporais, classificando os verbos em três conjugações. Ocorrendo na posição de sufixo, isto é, após o morfe raiz, esse morfe temático forma uma estrutura morfológica complexa denominada TEMA, apta a sofrer as flexões modo-temporais e número-pessoais: descongela, descongelavam. (1994: 37)

 

Por conta da ausência de qualquer argumento de Laroca e outros autores contra a existência da vogal temática nominal, não abriremos espaço para este terceiro grupo.

1. Da vogal temática verbal

Autores ilustres, como Camara Jr. (1981), admitem a vogal temática verbal tanto em ambiente pré-desinencial como em ambiente pré-sufixal, como se pode deduzir da passagem abaixo.

O tema vem a ser um radical ampliado por uma vogal determinada. Em vez de cant- , fal-, grit-, por exemplo, temos os temas em -a: cantá, falá, gritá, que recebem o sufixo flexional verbal (cantar, cantávamos, cantamos, etc., como falar, falávamos, etc., ou gritar, gritávamos etc.) ou o sufixo nominal -ção  como em falação, consolação, mas não em canção (com o alomorfe radical can-).(Camara Jr., 1981: 51-52)

Macambira (1978) segue o essencial do que postula Camara Jr. no que concerne ao tema, subdividindo-o em verbal e em nominal. Para o autor, tema equivale ao stem formative, de Gleason (s/d)[2]. É também sinônimo de base, esta enquanto constituinte que se opõe aos elementos de flexão. Por conseguinte, não pode haver vogal temática pré-sufixo derivacional. Em amável, segmentado am-á-vel, e tratamento, analisado trat-a-mento, o -a- antes de vel e o -a- antes de mento são vogais de ligação. Em caça-niquéis, a vogal temática do verbo também passaria a vogal de ligação[3].

A doutrina de Macambira, a este respeito, é eivada de contradições. Perguntamo-nos como é possível uma vogal temática, que é morfema, passar por força de contexto pré-sufixo lexical (ou mesmo pré-radical, como se verá), converter-se em simples vogal de ligação cujo estatuto morfemático é discutível. Como interpretar morfemicamente  a vogal de ligação[4]?

Outro autor, Monteiro (1986), inspirado em Macambira, também se refere à correspondência entre vogal temática e vogal de ligação. A vogal temática passaria a vogal de ligação em ambiente pré-sufixal e pré-radical, como em casamento e caça-níqueis. Mas o autor deixa claro que nem toda vogal de ligação é oriunda de vogal temática. Não expenderemos mais argumentos, porque isto já foi suficientemente tratado.

Em Andrade & Viana (1990), numa perspectiva gerativista, a vogal temática verbal é muito mais bem caracterizada e motivada, não só pela distribuição dos verbos em conjugações mas também pelas alterações que sofre acarretando diversidade nas formas do português. Estabelece a autora:

Para compreendermos como se chega às diferentes formas de superfície, e como actuam as regras fonológicas na derivação dessas formas, necessitamos de propor formas subjacentes em que estarão sempre presentes o radical, a VT e os morfemas. A partir das formas, subjacentes é possível verificar quais as regras que actuaram e captar as generalizações da morfologia verbal. (1990:381)

No plano da flexão, há que se destacar fenômenos:

a)     assimilatórios: fala + j ® fale + j; fal + a + w ® fal + o + w;

b)    dissimilátórios em certos dialetos de Portugal: fal + e + j ® fal [Œj ]

c)     fusionais: bati + j ® bati

d)    supressivos: fala + o ® falo, fala + e ® fale

 

As vogais temáticas verbais precedem também sufixos lexicais: jog-a-dor, vend-e-dor, fing-i-dor. Aliás, as autoras não mencionam vogal de ligação, oriunda de índice temático.

Como vimos, é ponto pacífico, entre os autores, que existe a vogal temática verbal. Para nós, também o é: ela apresenta um significado funcional, gramatical ou distribucional, semelhante ao da preposição de em português, na frase gosto de você, em que não há presença de significado referencial (cf. Gleason, s/d:59). É ilícito classificá-la como morfe vazio, conforme postulava Hockett (1947:238), ao tratar das vogais temáticas do espanhol. Ora, se “o morfe vazio não é atribuído a morfema algum, não tem razão de ser.” (Basílio, 1974:83). Se aceitamos a existência de um morfe vazio, a definição de morfema perde sua razão de ser e a diferença entre tal morfe e fonema é praticamente nula.

Assumimos igualmente que a vogal temática não é apenas pré-desinencial nos verbos, como em amar, vender, partir, mas também em ambiente pré-sufixal, a exemplo de receb-i-mento e cas-a-mento[5]. Neste particular, seguimos a lição de Carvalho (1974:538), que denomina a vogal temática verbal de atualizador temático. Esta concepção é compatível com a dos gramáticos em geral, que admitem, explicitamente ou não, vogal temática antes de desinências ou sufixos lexicais e não apenas antes das primeiras, o que nos parece justificável. Assumir que os segmentos vocálicos constituem vogal de ligação, como explicitamente assumem Monteiro (1986) e Macambira (1978), é indefensável, porque a vogal temática tem significado gramatical, pois determina a conjugação dos verbos, enquanto a vogal de ligação é, a nosso ver, nomenclatura vazia[6]. Esta denominação nada revela sobre significado gramatical, contrariando, assim, a noção de signo adotada pelo estruturalismo.

 

 

2. Da vogal temática nominal

 

2.1.         A vogal final como índice temático distinto da desinência de gênero.

 

Para os nomes, Camara Jr. (1981) estabelece sumariamente o seguinte:

Desta sorte, na base do tema, caracterizado por uma dada vogal dita <temática>, nomes e verbos se agrupam em classes morfológicas, como são para os verbos portugueses as tradicionais três conjugações. Nos nomes, deve-se igualmente considerar classes temáticas que são em -a (rosa, poeta), em -o (lobo, livro), em -e (ponte, dente ou triste). (1981: 52)

 

A motivação para classes temáticas verbais é a conjugação, mas a dos nomes não é estabelecida. Constata-se tautologia nas vogais temáticas nominais: para sabermos o tema, precisamos saber qual é a vogal temática e, para identificarmos a vogal temática, precisamos identificar o tema.

No trecho abaixo, ensaia justificar, sem convencer, a existência de temas nominais, opondo nomes substantivos a nomes adjetivos.

(...) Estes [os adjetivos], mais que aqueles, estão quase exclusivamente distribuídos nos dois temas em -o e em -e, e os de tema em -e (concretamente em  -e como grande, ou teoricamente em -e, como feliz, a rigor *felize, como indica o plural felizes), não apresentam flexão de feminino, em face de um feminino em  -a para os de tema em -o; ex.: homem corajoso, mulher corajosa; homem grande, mulher grande. Já os nomes, que são essencialmente substantivos, podem às vezes possuir um feminino em -a, mesmo quando são de tema em -e (ex.: mestre - mestra, autor - autora) ou atemáticos (ex.: peru - perua). Essa diferença fica bem nítida no sufixo derivacional -ês teoricamente *ese, que, quando só são a rigor empregados como adjetivos, não têm flexão de gênero (homem cortês, mulher cortês), mas apresentam essa flexão, quando tanto servem como substantivos e como adjetivos (português, portuguesa, substantivo <habitante de Portugal>; ou - livro português, comida portuguesa, em que português é adjetivo como determinante, respectivamente, de livro e comida).(1982: 87-88)

 

Persiste, como é fácil perceber, a falta de uma motivação palpável, de ordem gramatical e distribucional, para a existência do índice temático nominal.  

Adicionalmente, Camara Jr. postula a existência de temas teóricos em nome como canal, sol, gás e cartaz: *canale, *sole, *gase, *cartaze, (cf. Camara Jr., 1982:86). Todavia, isto não concorre para justificar adequadamente a vogal temática nominal. A postulação destes temas, discutível, visa à simplificação do plural, pela simples adjunção de -s a nomes atemáticos, ou temáticos, “reais” ou teóricos.

Argumenta-se que o estabelecimento do tema teórico tem base diacrônica, o que não é verdade, pois Camara Jr. a admite não só para formas derivadas do latim, que tinham -e, como mar (< mar(e)), sol (<sole), como também para palavras que têm o -e apenas em sincronia, por exemplo, cartaz, que é formação vernácula. Até formas que constituem herança são admitidas com -e teórico, embora historicamente não o ostentem: lençol (lat. linteolu), azul (árabe: azur), funil (bordolês: fonilh)[7]. O problema das vogais temáticas teóricas é o ser um artifício, que complica muito a descrição em nome da simplificação da formação do plural. Não só complica, como também não convence. O melhor é admitir alomorfias.

Camara Jr. não acolhe o o de nomes masculinos, com correspondentes femininos, como desinência, mas como vogal temática. Para o autor, só o feminino é forma marcada, o que pode ser constatado em sua morfologia: caracteriza-se pela presença do a, enquanto o masculino termina ora em o (aluno), ora em e (mestre). Trata-se, portanto, de oposição privativa, uma vez apenas um dos membros é marcado.

Como vemos, Camara Jr. distingue, de um lado, índices temáticos nominais e, de outro, desinências nominais, Ø para o masculino e -a para o feminino.

Macambira (1978) admite também a vogal temática nominal, à semelhança de Camara Jr.. Tece maiores detalhes sobre ela com base em compostos eruditos, apoiando-se na relação entre vogal temática e vogal de ligação. À página 10, faz afirmações como estas:

a)     nos compostos gregos como astronomia, ideologia e psicologia, as vogais temáticas de astro, idéia, e psique transformaram-se em vogais de ligação;

b)    nos compostos latinos como em ovíparo, flamívomo e carnívoro, as vogais temáticas de ovo, flama e carne também se convertem em vogal de ligação.

Explica-se o autor:

Seria estranho dizer que há vogal temática em astrônomo, porém vogal de ligação em gasômetro, cujo primeiro componente é gás sem vogal temática, salvo sob forma teórica, que não seria gaso, mas sim gase, com tema em -e. Em carnívoro e calorífero, a situação seria idêntica: vogal temática no primeiro, e de ligação no segundo composto, cuja forma teórica é calore, com tema em -e. Claro é que esta distinção seria insustentável  e só traria complicações à descrição do português. (1978:10)

O raciocínio do autor não nos convence, pois:

a)     como explicar que vogais temáticas distintas em astro, idéia e psique se convertam na mesma vogal de ligação –o e que as vogais finais de ovo, flama e carne passem a uma única vogal de ligação -i?

b)    como justificar vogais de ligação em formas presas com formas livres, como hidro, termo, e eletro em hidromassagem, termômetro e eletrodoméstico, e em formações só de bases presas, a exemplo de multíparo, ignívomo, herbívoro?

 

Macambira, na busca de explicações fáceis, só fornece exemplos em que o primeiro elemento é associado a formas livres e mesmo assim deixa lacunas a respeito da conversão da vogal temática em vogal de ligação[8]. Macambira encerra a exposição, referindo-se ao caráter morfêmico da vogal temática:

Não há negar que a vogal, temática ou não, é um tipo de morfema: seria complicar a descrição gramatical o enquadrá-lo noutra categoria que não fosse o morfema. Certamente que se deveria criá-la, ou dizer com Hockett (...) que o   ‘-i- de agr-í-cola é um elemento conectivo automático’: agrcola destoaria da estrutura morfológica portuguesa.

É patente que o morfema temático não exprime representação mental alguma, como o tinteiro e o xiquexique e a saúde. A sua função é distribuir os nomes em temáticos e atemáticos, e os verbos em três conjugações. (1978: 11)

Insistimos em que vogal temática e vogal de ligação não têm paralelos mórficos. A vogal temática, especialmente a verbal, que é bem caracterizada, distribui uma dada classe de palavras em grupos: no caso três conjugações. A vogal de ligação não parece ter estatuto bem definido em português. O evitar estruturas fonológicas anômalas é válido para alguns casos, mas não para todos. Veja-se, a título de ilustração, esta dupla possibilidade: termoelétrica/termelétrica.

Observe-se mais uma vez, no arrazoar de Macambira, a ausência de uma defesa mais sólida das vogais temáticas nominais. Para os verbos, a razão de ser do índice temático é a conjugação e, posteriormente a distribuição dos verbos em temáticos e atemáticos. Para os nomes, a justificativa é só a distribuição dos mesmos em dois tipos, sem nenhum embasamento motivado como o é a conjugação para os verbos. Isto sem falar em certa tautologia já referida por nós.

Macambira oferece uma descrição mais minuciosa da vogal temática nominal, que a oferecida por Camara Jr.. Faz uma tipologia dos nomes temáticos conforme a presença da vogal ou da semivogal. Atribui à citada vogal a condição de vogal caduca  uma vez que cai ao receber sufixo começado por vogal:

livro + eiro ® livreiro
casa + inha   ®  casinha
dente + ista  ®  dentista

 

Ora, outras vogais que não as temáticas podem padecer de caducidade, pelo fato de serem átonas:

perto + inho   ®     pertinho
agora + inha    ®     agorinha
longe + íssimo  ®     longíssimo
longe + ão        ®     lonjão

 

Pode-se advogar o principio da pré-desinencialidade da vogal temática, mas nos nomes atemáticos, há desinências sem vogal temática prévia: cajás, mocotós, urubus. Também há nomes não susceptíveis de receber desinências, mesmo com as condições estipuladas para a vogal temática, a exemplo de sangue. Isto feita a ressalva de empregos estilísticos.

Monteiro (1986) arrola argumentos idênticos ao de Macambira (1978). Por isto, não vemos vantagem em comentá-los.

À guisa de conclusão parcial, podemos afirmar que a postulação de uma vogal temática nominal não tem bons fundamentos entre os autores citados.

 

2.2. A vogal final ora como mero índice temático, ora como morfema cumulativo

 

Carvalho (1974:537-539) coloca o que chamamos vogal temática entre os afixos atualizadores, denominação um tanto precária quanto aos fundamentos, pois, segundo o próprio autor,   “todos os afixos são, no fundo, actualizadores, porque todos eles transformam de virtuais em actuais as entidades significativas por excelência, que são os semantemas (e os morfemas básicos dos categoremas), determinando o seu valor significativo e conferindo-lhes a forma de palavra, de modo a permitir que sejam, de novo, actualizadores funcionando no discurso” (1974:537)[9]. As desinências, por exemplo, são actualizadoras, porque conferem ao radical verbal as propriedades gramaticais ligadas, em português, às noções de modo-tempo ou de número-pessoa, de modo que a forma verbal participe no discurso.

Tema, para Carvalho, é próximo do que se entende por radical e não exatamente do que se compreende como radical acrescido de vogal temática. O lingüista considera a vogal temática como acrescentada ao tema e não como parte integrante dele, pois ‘se o fosse, seriam mais difíceis de explicar (funcional, não historicamente) anomalias como a de desprezível com -i- a par de desprezar, desprezador, desprezativo e também desprezável; e, por outro lado, a de vendável com a contraposto a vendemos, vendesses, vendido etc.’(1974:538).

Para o lingüista português, há afixos cuja função é primariamente atualizadora. Dentre eles, são de especial importância para nós:

a)     os atualizadores temáticos, que se adjungem diretamente a um radical, permitindo a este funcionar como o que chamamos tema;

b)    os atualizadores léxicos, que se acrescentam diretamente a um radical, permitindo a este funcionar como palavra[10].

 

Cabe-nos considerar os atualizadores léxicos, que correspondem grosso modo ao que se denomina mais comumente vogal temática nominal. A este respeito, se pronuncia Carvalho (1974):

A função própria destes sufixos é a de, unindo-se a um tema, constituírem com este imediatamente uma palavra, pronta a ser utilizada como tal no discurso, funcionando os dois primeiros [-o, -a] cumulativamente como morfemas categoriais de gênero, com a função que primariamente desempenham nos adjetivos (belo e bela) e nos substantivos do tipo de gato/gata (1974:539).

Podemos resumir assim a proposta de Carvalho:

a) há as vogais temáticas verbais e nominais, a exemplo do –a em morar e de –o em livro;

b)  em alguns contextos opositivos, do tipo gato/gata, há morfema cumulativo: vogal temática e desinência de gênero.

Carvalho não logra nos convencer quanto à existência do atualizador léxico, 7por conseguinte quanto à existência do morfema cumulativo, mas faz-nos refletir sobre o morfema de gênero. Para isto, valemo-nos de Khedi (1990), que repensa a posição de Camara Jr.(1981), consoante a qual o masculino seria marcado por Æ em oposição ao feminino, marcado por -a.

Khedi argumenta que o -o tem algumas características peculiares, que permitem associá-lo com a noção de gênero. Quando se acrescenta a uma palavra feminina um sufixo que contenha -o, essa palavra passa a masculina: mulher/mulheraço cabeça/cabeçalho. O povo, em sua linguagem espontânea, cria formas masculinas em –o; faz corresponder, por exemplo, ao lexema coisa um masculino coiso. Dignas de nota para o autor são formas como crianço, corujo, a que acrescentamos femininos analógicos, como monstro/monstra.

O elemento -o seria, então, uma desinência de masculino em oposição a -a. Apresentaria como variante o -u semivocálico (europeu/européia; mau/má) e Æ (peru/perua; autor/autora) [11]. O elemento -o justifica, para nós, o caráter nominal do particípio, a exemplo de amado em sou amado, segmentado: am-a-d-o, sendo -a- vogal temática verbal e -o desinência de gênero, própria de nome[12].

O argumento em favor da oposição o/a encontra base diacrônica. Desde remotas eras, ainda em latim, o masculino de tema em -o caminhava, de certo modo, paralelamente com femininos de tema em -a: lupu/lupa, filiu/filia, asinu/asina[13]. Observem-se os adjetivos de primeira classe: bonu/bona, doctu/docta, malu/mala, dignu/digna, vanu/vana, maturu/matura, nudu/nuda, crudu/cruda.

No redimensionamento diacrônico, o -u átono final passa a -o (dignu ® digno), a zero, por força de fatores fonéticos (nudu > nuu > nu) ou a semivogal (malu > mau). O feminino,  historicamente em -a continua (digna ® digna) ou sofre crase (mala ® maa > má).

A posição de Khedi, no tocante à desinência de gênero, coincide com a de Carvalho e diverge da de Camara Jr. em alguns pontos. A tabela abaixo mostra as convergências e divergências entre Camara Jr. e Khedi.

 

Tabela 1:desinências nominais em Camara Jr. e Khedi

Tipos mórficos de nomes

Nomes em –e opostos a nomes em -a

Nomes em –o

opostos a nomes em -a

Autores

Camara Jr.

Khedi

Camara Jr.

Khedi

Desinência de gênero

do masculino

Æ

Æ

Æ

-o

 

Do ponto de vista da mera elegância teórica, a posição de Camara Jr. é mais uniforme e mais simples, uma vez que se baseia em oposições privativas: o masculino é a forma não-marcada e o feminino, forma marcada. O masculino comportaria apenas vogal temática.

O ponto de vista de Khedi pode não ter uma elegância estrutural, porque se baseia em oposições eqüipolentes e oposições privativas, mas, a nosso ver, atende melhor à realidade da língua.

Uma ressalva e uma digressão se fazem necessárias no curso de toda essa discussão. Dizem respeito ao redimensionamento do gênero do nome por oposição ao gênero do adjetivo, assunto que só tocaremos nas linhas essenciais, porque os pormenores nos levariam demasiado longe.

Foi Sandmann (1991) quem tocou no gênero sob outro prisma, diverso do da tradição gramatical e estruturalista.

O morfema que indica o gênero nos substantivos, como já vimos, é imanente ou inferente ao substantivo, tem força semântica, sendo inserido, portanto, na linguagem da gramática gerativa, juntamente com o substantivo de que é parte, na estrutura profunda da sentença. Em outras palavras, ele é um traço lexical, é um sufixo. Já nos adjetivos o morfema de gênero é uma flexão, depende do gênero do substantivo com que concorda, sendo, portanto, dependente. É um traço gramatical, não tem força semântica e é inserido na frase em sua estrutura de superfície. (1991:41)   

 

De fato, o nome pode ser usado sem a presença do adjetivo ou de qualquer outro determinante, como em menina gosta de boneca. Portanto, não é o substantivo que estabelece as relações de concordância. Semanticamente, engendra uma nova referência: menino é semanticamente diferente de menina, devido ao traço semântico sexo.

O adjetivo e outros determinantes, por outro lado, quando flexionáveis, é que manifestam as relações de concordância na frase. O adjetivo nova, por exemplo, concorda com um nome feminino, mesmo que ele não seja opositivo, como casa nova, tribo nova.

É defensável afirmar que o morfema de gênero nos nomes, seja –o/-a (como deseja Carvalho e Khedi), -esa, -isa e outros são todos de natureza lexical. Por outro lado, o morfema de gênero nos adjetivos e outros determinantes é de natureza gramatical. Em suma, -o/-a nos nomes são sincronicamente formas homônimas das formas opositivas –o/-a nos adjetivos.

Admitindo Khedi e Sandmann, há que se considerar uma conseqüência teórica que não se impõe na doutrina de Camara Jr.. Devem-se registrar as formas opositivas em –o/-a dos nomes como entradas  relacionadas sem nenhuma especificação de direção derivacional.

Já conjugando as contribuições de Camara Jr. e Sandmann, isto é, a noção de oposição privativa e derivação, temos uma descrição mais simples: o nome masculino deriva o nome feminino.

Analisar uma e outra conseqüência teórica é assunto complexo para os limites deste trabalho.

Considerações finais

 

Por tudo quanto foi exposto, podemos chegar às seguintes conclusões. No que tange às vogais temáticas verbais, elas são muito mais bem caracterizadas que as nominais. Daí a saliência das mesmas. Elas distribuem verbos em conjugações e participam ativamente de processos marcantes na flexão: assimilação, dissimilação, crase etc. Vogais temáticas verbais podem ser átonas ou tônicas (ex.: am-a, am-a-va), orais ou nasais, isto se não se adota o arquifonema nasal (am-a-do, am-an-do). Todavia, não se sabe ao certo que fenômeno paralelo à conjugação as vogais temáticas nominais caracterizam.

A caducidade não é própria somente delas. Outras vogais átonas também a apresentam, a exemplo das vogais finais presentes em perto e agora.

A riqueza flexional do verbo permite inferir a vogal temática, mesmo que não esteja fisicamente presente. Nos nomes, a motivação é pequena, dado o paradigma flexional ser mais restrito. Ademais, não se podem arriscar generalidades como se faz com os verbos. Admitindo a pré-desinencialidade, diríamos que uma palavra como sangue apresenta vogal temática?

Nas línguas clássicas, a motivação é mais palpável porque os nomes têm declinação, fenômeno que ocorre paralelo com a conjugação nos verbos. Segundo Faria (1958:67), cada uma das cinco declinações corresponde respectivamente aos temas em -a, em –o/-e, em –i/Æ, em -u e em -e. As declinações estão para os nomes assim como as conjugações estão para o verbo. Estas, mutatis mutandis, perduraram em português e as declinações não. Portanto, as vogais temáticas nominais são carentes, pelo menos em termos de esquemas superficiais, de motivação gramatical.

 Parece ser motivada a vogal -o do masculino, bem como a semivogal -u, quando se opõem a -a. Mesmo assim, a vogal e a semivogal do masculino são susceptíveis de serem interpretadas como marcas de gênero. Neste caso, a considerar-se a proposta de Khedi, concernente à oposição eqüipolente, e a de Sandmann, que trata o gênero do nome como derivacional, devemos tratar de entradas sem direção derivacional especificada, o que não acontece se relacionarmos Camara Jr. e Sandmann: o feminino seria a forma derivada.

Outra conseqüência importante de acolher aspectos derivacionais no gênero, referidos neste artigo, é que só os determinantes passíveis de variação genérica são casos de flexão.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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[1] Bechara (1999:337) continua a adotar a mesma posição, o que é atestado pela afirmação: “nos nomes as vogais temáticas estão representadas na escrita pelos grafemas –a, -o, e  -e e nos verbos por –a, -e e –i.”. Admite também o valor cumulativo das vogais temáticas nominais.
[2] Gleason (s/d:64) admite o tema como qualquer morfema ou combinação de morfemas aos quais se acrescenta um sufixo. Em friends, há um tema friend, que é também um radical (raiz). Em friendships, há um afixo -s e um tema, friendship, o qual contudo não é radical porque é formado de dois morfemas. O autor menciona os formativos de tema a propósito de certos afixos que ‘funcionam primordialmente na formação de temas e, como tal, não têm outro significado que não seja esta função lingüística’. O exemplo dado é thermometer, em que –o- é o formativo de tema, que corresponde à vogal de ligação. Não está suficientemente claro se corresponde satisfatoriamente à vogal temática.  
[3] A concepção de vogal temática conversa  em vogal de ligação antes de radicais já se encontra em Camara Jr. (1968, verbete Tema): ‘os nomes que entram num composto por aglutinação como primeiro semantema apresentam a sua vogal temática reduzida a -i como vogal de ligação entre os dois radicais (ex.: frutífero).’ A posição de Camara Jr. não permite maiores comentários porque o autor se restringe a compostos eruditos (ou supostas formações por composição) em que há aglutinação. Para confirmações, examine-se o verbete Aglutinação, no qual o autor exemplifica a vogal de ligação em formas herdadas ou em padrões  latinos de composição. Admitiria Camara Jr. o -a de caça-níqueis e o de porta-jóias como vogais de ligação?
[4] É de observar-se que Macambira coloca sob a mesma rubrica vogal de ligação, por força do contexto, pré-sufixo lexical ou pré-radical, entidades heterogêneas:

a) o que constituía vogal temática: amá-vel, trata-mento, perdi-ção, celebriza-ção, porta-jóias, guarda-chuva, quebra-luz;

b) o que constituía desinência de gênero: jeitosa-mente;

c) o que só constitui vogal de ligação: gas-ô-metro, term-ô-metro, mobil-i-dade, calor-í-fero.

 

[5] É diferente o caso da vogal –a em ambiente pré-sufixal nos advérbios terminados em –mente, como esplendidamente e maravilhosamente. Não pode ser desinência de gênero, porque não estabelece concordância. Tampouco vogal de ligação, que é nomenclatura vazia. O estatuto desta vogal pré-sufixal continua indefinido no âmbito de uma lingüística sincrônica (cf. Rosa, 2000:64).
[6] A vogal de ligação constitui um problema muito sério em morfologia. Sequer pode generalizar-se uma função fonológica, ligada á estrutura da sílaba. Se há, por exemplo, hidroelétrica, há também hidrelétrica, sem a presença da vogal –o-. Afirmar, como muitos gramáticos do passado, que ela cumpre o papel de vogal eufônica é  indefensável, porque o argumento é de natureza estética e subjetiva. Em suma, o assunto merece um tratamento aprofundado e à parte.
[7] As etimologias citadas entre parênteses são extraídas de Cunha (1987).
[8] Isto mormente nos compostos ou no que chama compostos, como formações em fero e cola que são na verdade derivadas. Os sufixos são ífero e ícola. Não há justificativa para a existência de vogais de ligação.
[9] É confusa a doutrina do atualizador  temático em Carvalho principalmente no que tange aos atualizadores nominais de desprezível e vendável. Não esclarece como aparecem os atualizadores temáticos -i- e -a-. Aliás, é este o problema com alguns nomes: o sufixo ora se deixa acompanhar por determinada  vogal (freqüentemente –u) ora não. É o caso de dengo/dengoso em oposição luto/lutuoso; caso/casual em oposição a abismo/abismal; sério/seriedade em oposição a bom/bondade. Talvez seja econômico sincronicamente falar de alomorfia nesses casos. Quanto a desprezível e vendável, o sufixo é –ível e ável, diferentemente do que se pode postular para nomes deverbais como amável e sofrível, em que  -a e –i são vogais temáticas.
[10] Além dos dois acima, há os atualizadores monemáticos, que se acrescentam a um monema, permitindo-lhe funcionar como tal. Correspondem à vogal de ligação, que merece um tratamento à parte.

 

[11] Andrade & Viana (1990:370), face aos exemplos  porco/porca, professor/ professora, menciona o -o como morfema de gênero, cujo alomorfe é zero, adotando postura semelhante à de Khedi. Ante outros exemplos, mestre/ mestra, governante/governanta, europeu/ européia deixa claro somente o estatuto do a final, mas não trata da semivogal de um nome como europeu.

No que diz respeito às vogais finais dos nomes, as colocações são imprecisas. Por exemplo, na página 353, elenca os seguintes exemplos: cas-a, revist-a, respeit-o, sai-a, pesso-a, tratando os segmentos vocálicos finais como morfemas de gênero, separados do radical, por fronteiras de morfemas. Na página 354, trata a vogal pré-sufixal dos plurais sabor-e-s, anima-i-s, feliz-e-s como morfemas de gênero.

[12] Diversa é a análise de amado em tenho amado, em que a forma é verbo: am+a+do.
[13] Os exemplos são registrados sem o –m final do acusativo, que é o caso lexicogênico do português.