Propostas de Edição Crítica de Celso Cunha[1]

José Pereira da Silva (UERJ e ABF)

 

RESUMO

Tomando por base apenas as propostas apresentadas pelo próprio editor crítico Celso Cunha, pela primeira vez apresentadas a público em conjunto, sob o título de Cancioneiros dos Trovadores do Mar, por Elza Gonçalves, com a edição das tão citadas edições de O Cancioneiro de Paay Gómez Charinho, O Cancioneiro de Joan Zorro e O Cancioneiro de Martin Codax, o que se pretende é sintetizar suas propostas de edição crítica de textos medievais portugueses.

Trata-se de trabalhos realizados por Celso Cunha entre 1945 e 1956 e nunca mais reeditados, dois dos quais se conhecem os exemplares que serviram de fonte para a edição de 1999.

Reapresenta-se, aqui, o Professor de Crítica Textual, Celso Cunha, ensinando e demonstrando a ciência, a técnica e a arte da edição crítica, buscando as suas palavras no lugar em que foram colocadas para esclarecer a sua metodologia nas principais edições que elaborou do português medieval.

 

Palavras-chaves: 1. Edição; 2. Ecdótica; 3. Crítica Textual; 4. Textos; 5. Idade Média

 

 

INTRODUÇÃO

Tratar-se-á, no tempo exíguo destinado a esta exposição, de reapresentar de forma sintética as propostas de edição feitas pelo Caro e Inesquecível Mestre, Celso Ferreira da Cunha, que faleceu durante o período que me orientava numa pesquisa de edição crítica destinada à tese de doutoramento em Filologia Românica, que foi concluída sob a orientação de seu colega e parceiro de departamento na UFRJ, Edwaldo Machado Cafezeiro.

Nos tópicos seguintes, será mostrado o quadro sintético de cada uma das edições dadas como exemplo e, por fim, as normas gerais que orientaram o estabelecimento do texto.

O Cancioneiro de Paay Gômez Charinho: Trovador do século XIII, de LIX + 46 p. é o texto da tese apresentada em concurso para provimento da cadeira de Literatura Portuguesa da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil em 1945, constituído de três capítulos: Capítulo I: Esbôço Biográfico do Almirante e Poeta PAAY GOMEZ CHARINHO (8 páginas); Capítulo II: Elementos de Poética Trovadoresca aplicados à obra de Paay Gômez Charinho (46 páginas) e Capítulo III: As Cantigas do Paay Gômez Charinho (Texto crítico, acompanhado de indicação das edições diplomáticas e críticas existentes e das suas principais variantes.) (47 páginas).

O Cancioneiro de Joan Zorro: Aspectos lingüísticos, texto crítico, glossário. Rio de Janeiro, 1949, XXIII + 103 p., é constituído de quatro capítulos: Bibliografia (13 páginas), Aspectos lingüísticos (34 páginas), Texto crítico das Cantigas (30 páginas) e Glossário (33 páginas).

O Cancioneiro de Martin Codax. Rio de Janeiro, 1956, 198 p. tem a seguinte estrutura: Martin Codax (9 páginas), Texto crítico das cantigas (61 páginas) subdividido em História dos textos: I. Os códices, II. As edições e II. Princípios críticos desta edição (19 páginas) e Elenco das cantigas (50 páginas), Glossário etimológico (90 páginas) e Bibliografia (20 páginas).

Essas três edições foram feitas em apenas uma década, período em que o autor reformulou seus critérios de edição e estabelecimento de textos em diversos pontos, sempre progressivamente, dos quais destacaremos alguns, aguardando a oportunidade de ouvirmos outras reflexões sobre o assunto, deste ou de outro ponto de vista.

Para demonstrar isto, daremos uma particular formatação ao tópicoIntrodução aos textos”, do Cancioneiro de Paay Gômez Charinho, onde a sua descrição do estabelecimento dos textos vai anotadas com as indicações de progresso inseridos nas duas outras edições.

 

INTRODUÇÃO AOS TEXTOS

Em nossa edição das cantigas de Paay Gômez Charinho procuramos nos ater o mais possível às lições dos códices, salvo, é óbvio, quando, evidentemente viciadas, não satisfazem de forma alguma à métrica ou ao sentido. Desde, porém, que se prestem a interpretações razoáveis, preferimos sempre ficar com os apógrafos a aventar leituras ideais, mas não autorizadas pelas variantes que dêsses poemas chegaram até nós.

Não é esta uma edição definitiva e não o podia ser. Faltou-nos à colação o texto do Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, infelizmente publicado por Nolteni na parte em que completa o da Vaticana. Ainda assim fomos mais felizes do que alguns que nos antecederam: Além dos trabalhos antigos e do progresso da ciência, podemos dispor do texto diplomático da Ajuda, benemeritamente dado à estampa por Henry Hare Carter, e das variantes do CBN, concernentes às cantigas de amigo, e às de amor não comuns ao CA., publicadas pelo falecido professor José Joaquim Nunes em suas coletâneas dêsses cantares.

Esperamos que, em tempo não remoto, se possam, à luz de facsímiles dos três cancioneiros, organizar perfeitas edições críticas das obras dos trovadores e jograis e dissipar assim, em parte pelo menos, as trevas que cobrem a gênese do lirismo galego-português.

A falta de conhecimento exato da ortografia vigente no século XIII e em vista da diversidade que apresenta a do copista do códice da Ajuda em relação a dos italianos do CV. e CBN., adotamos um sistema, conciliatório e uniforme, muito semelhante ao de que fez uso Nobiling em sua edição das cantigas de D. Joam Garcia de Guilhade. (CUNHA, 1999: 99-101)

Assim:

1º) Eliminamos todas as letras mudas, como, v. g., o h inicial e o medial.

2º) Simplificamos, pela razão acima, as geminadas, que, excetuando-se o caso do ff, eram aliás raras,– escrevendo apenas rr e ss, por representarem, quando intervocálicos, fonemas distintos das formas singelas.[2]

3º) Usamos, de acôrdo com a praxe portuguêsa, o nh e o lh do CV. e CBN. ao invés do nn e ll do CA.[3]

4º) Resolvemos as grafias mh, lh, uh, substituindo, como Nobiling, o h por y, pois nada mais representa nesses grupos do que o i semiconsoante.

5º) Demos ao i sòmente o valor de vogal.[4]

6º) Empregamos as letras ramistas j e v onde se encontram i e u representando aquelas consoantes.

7º Grafamos extensamente as abreviaturas e siglas dos códices.[5]

8º) Separamos as palavras grafadas juntas.[6]

9º) Ligamos por hífen certas formas proclíticas, como mi (my), que formam sílaba com a vogal da palavra seguinte. Ex. my-avém.[7]

10º) Indicamos com apóstrofo a elisão, ainda mesmo em casos em que as palavras hoje se escreveriam ligadas.[8]

11º) Empregamos acentos apenas onde poderia ocorrer alguma dúvida.[9]

12º) Regularizamos a confusão de emprêgo de j e g e de ç e z.[10]

13º) Resolvemos sempre em vos e nos o pronome átono que, às vêzes, aparece grafado uus e nus.

14º) Não havendo distinção quanto à nasalidade final, que ora é expressa por m, ora por n, ora por til, adotamos, como Lang em sua edição do Cancioneiro de D. Dinis, o m por ser grafia mais condizente com a atualidade.[11]

15º) A nasalidade medial, indicamo-la por til, quando à vogal nasal se segue uma outra vogal, e por m ou n, quando uma consoante.[12]

16º) Pesando as ponderações de lang e de Nobiling, aceitas por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, posteriormente à sua edição do CA., e por Rodrigues Lapa, resolvemos as grafias nono, queno, etc., respectivamente, em -no, quẽ-no, etc.

17º) Finalmente, eliminamos tôdas as particularidades gráficas dos códices que não afetam a pronúncia.[13]

Ao editar o Cancioneiro de Joan Zorro, em 1949, Celso cunha acrescentou algumas providências não tomadas na edição do Cancioneiro de Paay Gômez Charinho, além das pequenas alterações que vimos nas observações que acrescentamos nas notas anteriores. Entre essas providências, destacamos (Cf. CUNHA, 1999: 228-9):

9º) Pontuamos à moderna, mas sòbriamente.[14]

12º) Resolvemos em o a vogal velar reduzida em sílaba final, que também se representava por u.[15] Mencionamos porém nas Variantes a grafia dos manuscritos.

15º) Por constarem do aparato crítico das cantigas as variantes dos apógrafos e a justificação de nossa leitura, julgamos desnecessário indicar por colchêtes os elementos introduzidos no texto e por parênteses os que dêle foram eliminados.[16]

Ao editar O Cancioneiro de Martin Codax, em 1956, Celso Cunha ainda inovou em algumas observações técnicas tomadas, como, por exemplo, as que se seguem:

9º) Usamos maiúsculas não nos casos em que a pontuação anterior exige, mas também no topônimo Vigo e no nome Deus.

 

CONCLUSÃO

À garupa de Dona Elza Gonçalves, faremos nossa conclusão com algumas considerações, que são dela:

A edição de Celso Cunha poderá, a partir de agora, fazer parte das referências a ter em conta numa nova edição crítica das cantigas de Pay Gomez Charinho.  Em primeiro lugar, para discutir a ordem pela qual os textos devem ser editados. (p. 28)

Além de escolher um dos trovadores portugueses mais originais e estabelecer o seu texto críticoacompanhado de indicação das edições diplomáticas e críticas existentes e das suas principais variantes”, fez um brilhante estudo de sua versificação e dos principais artifícios formais que distinguem a sua poesia da dos demais trovadores. (Cf. p. 32)

A reedição da poesia de Joan Zorro, acompanhada de estudo lingüístico, estava sendo preparada e foi aproveitada na edição conjunta que agora nos serve de motivo para o estudo do medievalista e brilhante editor crítico, Celso Cunha, com o aproveitamento de sugestões de diversos admiradores que resenharam o seu trabalho. (Cf. p. 151-9)

Concluindo suas observações sobre a edição do cancioneiro de Martin Codax, afirma Elza Gonçalves ainda:

Cremos que os presentes e futuros editores da poesia trovadoresca galego-portuguesa, não os brasileiros, mas também os portugueses e de outras nacionalidades, poderão encontrar nesta velha edição um modelo a seguir nos seus fundamentos metodológicos. (p. 310)

A respeito do brilhante trabalho filológico de Celso Cunha, destacamos ainda a citação do que disse Henrique Monteagudo (1998: 18):

Finalmente, tratando-se do cancioneiro de Codax, é impossível esquecer, na hora das homenagens, o finado Celso Ferreira da Cunha: um dos mais argutos e brilhantes estudiosos da lírica galego-portuguesa, foi cabal personificação de uma longa, paciente e esforçada tradição de labor filológico sobre os Cancioneiros. [Tradução nossa].

Como seu orientando numa tese de crítica textual nos seus últimos dias de vida, teríamos muito mais a falar pessoalmente de suas qualidades de mestre. Mas, neste momento, não nos parece oportuno ir além das normas para o estabelecimento do texto, dada a exigüidade do tempo de que se dispõe.

 

BIBLIOGRAFIA

CUNHA, Celso [Ferreira da]. Cancioneiros dos trovadores do mar. Edição preparada por Elsa Gonçalves. Lisboa: Impresa Nacional Casa da Moeda, 1999.

CUNHA, Celso Ferreira da. O cancioneiro de Paay Gômez Charinho: Trovador do século XIII. Tese apresentada em concurso para provimento da cadeira de Literatura Portuguêsa da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Rio de Janeiro, 1945.

––––––. O cancioneiro de Joan Zorro. Aspectos lingüísticos, texto crítico, glossário. Rio de Janeiro, 1949.

––––––. O cancioneiro de Martin Codax. Rio de Janeiro, 1956.

MONTEAGUDO, Henrique. Martín Codax. Cantigas. Introducción, texto crítico, notas e aclaracións. Vigo : Galaxia, 1998.

 


 

[1] Trabalho apresentado no VI Congresso Nacional de Lingüística e Filologia, em homenagem a Celso Cunha, no mês de agosto de 2002.

[2] Na edição do Cancioneiro de Joan Zorro (CJZ), não se fez a referida exceção ao ff, uniformizando-se a regra da simplificação.

[3] No Cancioneiro de Martin Codax (CMC), Celso Cunha mantém a decisão, acrescentando:? “... pela evidente vantagem daquelas grafias (de origem occitânica), introduzidas em fins do século XII no ocidente peninsular, sôbre as últimas, não raro causadoras de ambigüidades” [segundo lições de Dona Carolina de Michaëlis em CA, I, p. XXVII e RFE, 11, p. 266].

[4] No CMC acrescenta: “... deixando ao y o de semivogal. Assim, escrevemos mia, irmana, etc., mas baylava, irey, etc.

[5] No Cancioneiro de Joan Zorro reduziu para “Desenvolvemos tôdas as abreviaturas dos códices”, forma que manteve no CMC.

[6] Acrescentou no CJZ: “e juntamos os elementos da mesma palavra quando separados”. No CMC, ampliou a redação na forma “De acôrdo com a gramática e o sentido, isolamos os vocábulos conglomerados e juntamos os elementos da mesma palavra quando desunidos”.

[7] No CJZ, amplia o critério de hifenização dos clíticos: “Ligamos por hífen não os elementos de palavras compostas e os pronomes enclíticos ou mesoclíticos às formas verbais de que dependem, mas também as combinações pronominais do tipo vo-lo e my-o” e ainda acrescentou no CMC: “... e também o artigo el à palavra rey”.

[8] No CJZ, acrescenta: “Conservamos apenas aglutinadas as combinações do, da, no, na, pelo, pela e polo, que no século XIII não se separavam”. No CMC acrescenta: “... bem como a perda do –s de formas verbais, assimilado ao l- do artigo lo”.

[9] No CJZ reconsidera: “Usamos um sistema de acentuação semelhante ao atual”, critério mantido na edição do CMC.

[10] Ao que nos parece, a referida “confusão entre j e g não existia na edição do CJZ, visto Celso Cunha não se referir à solução dada para o caso.

[11] No CJZ, Celso Cunha uniformizou a grafia em n, para evitar a grafia am que, hoje, simboliza o ditongo ão átono”, que sofreu mais uma alteração na edição de CMC, em que este acréscimo tomou a seguinte redação: “... para evitar as grafiasam e –em que, hoje, simbolizam respectivamente o ditongoãw átono e o ditongo -ẽy, em certas regiões de Portugal”.

[12] No CJZ, “indicamo-la de acordo com os hábitos modernos: por til, quando a vogal antecede outra vogal; por m, quando ela anteceda as consoantes p e b, e por n, quando precede outras consoantes”. Parece que não houve a situação de vogal nasal anteceder outra vogal ou semivogal no CMC, pois o autor não se refere à solução dada para tal caso.

[13] No CJZ, foram eliminadas todas as particularidades gráficas que não se “relacionam com a pronúncia das palavras”. No CMC ainda acrescenta: “pois, como diz muito bem Alberto Chiari, ‘[somente os pouco experientes podem acreditar em fazer uma edição crítica, deixando escrupulosamente as grafias antigas... não sabendo distinguir o que é fato puramente gráfico, que não é necessário respeitar, do que é fato propriamente fonético, que precisa ser respeitado] solo gli inesperti possono credere di fare una edizione critica, lasciando scrupulosamente grafie antiquate.... non sapendo distinguere ciò che è fatto puramente grafico, da non respettarsi, da ciò che è fatto propriamente fonetico e che va rispettato’”. (Cf. p. 147).

[14] Na CMC acrescentou: “mas sem prejuízo das características tonais do enunciado”.

[15] Providência mantida no CMC.

[16] Esta mesma providência foi adotada na edição do CMC.