A TRA(D)IÇÃO DOS NOMES NA LAVOURA
ARCAICA,
DE RADUAN NASSAR
Regina Céli Alves da Silva
RESUMO
Este estudo é parte integrante de uma pesquisa sobre o romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. Ao realizá-lo, consideramos, especialmente, o diálogo entre a tradição cultural e as vozes que a questionam sob o comando da memória do narrador em primeira pessoa que, ao contar sua história, monta a cena textual a partir do registro histórico-mítico que lhe compõe a face existencial.
Palavras-chave:etimologia, simbolismo e tradição.
Nesse romance, André, o narrador e também personagem, retoma a parábola do filho pródigo para contar, ele próprio, sua versão, pessoal e diferenciada de uma história que, tradicionalmente, fora sempre contada por outros.
Antes de iniciarmos a leitura dos nomes das personagens do romance, devemos apresentá-los e, para isso, escolhemos a mesa das refeições, pois a disposição topográfica dos assentos revela a estrutura da família de André, evocando profundos e antigos traços culturais. As pessoas ali sentadas, sentavam-se na raiz cultural e organizavam-se na “lei e na ordem”:
Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou nahora dos sermões: o pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda, vinha a mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, em um enxerto junto ao tronco talvez funesto, pela carga de afeto; podia-se quem sabe dizer que a distribuição dos lugares na mesa (eram caprichos do tempo)definia as duas linhas da família. (NASSAR, 1982: 137-8)
Essa distribuição dos lugares à mesa retratava, no dizer do narrador, “caprichos do tempo” e definia a organização da casa, dividida em duas linhas: a da direita e a da esquerda.
A divisão DIREITA/ESQUERDA guarda em si um simbolismo que vem marcando, há muito, a civilização ocidental, sendo a DIREITA o lado masculino e a ESQUERDA o lado feminino.
Assim exposto, passamos à observação dos nomes dos membros da família, iniciando pelo de André.
“André, m. [...]. O fr. André provém do gr. Andréas, “viril, varonil”, pelo lat. Andreas.” (MACHADO, 1984: v.1, p. 133.)
André é também o nome do primeiro apóstolo, irmão de Simão Pedro, cujo pai chamava-se João, sendo o nome da mãe, tradicionalmente, Joana. (HASTINGS, 1905:
92.)Como o texto repousa também sobre uma base religiosa, isso faz com que essa escolha de nomes referentes ao contexto religioso seja extremamente significativa. Na Bíblia, André é o irmão de Pedro e ambos filhos de João. No texto, o mesmo acontece, sendo que a correspondência nomes bíblicos/nomes de Lavoura arcaica se verifica de forma bastante clara no tocante aos nomes dos irmãos, Pedro e André.
Vejamos o nome de Pedro:
Pedro, m. Do lat. Petru-, este do gr. Pétros (S. Mateus, IV, 18), tradução aproximada de voc. Aramaico, Cep(h)as, que significa “rochedo”; em gr. Petros significa igualmente “rochedo”, petra em lat. O cit. Cephas (Quefas?) foi o nome dado por Jesua a Simão Barjona (“filho de João”), o que provocou o célebre trocadilho registrado por S. Mateus: “et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram aedificado ecclesiam meam” (XVI, 18). (MACHADO, Op. cit.:1148.)
Enquanto André é o viril, forte, vigoroso e potente, carregando no nome qualidades relativas ao homem e, mais ainda, ao herói, Pedro é a pedra, símbolo da força. E os dois são filhos de João, nome que consta no texto bíblico, mas que, em Lavoura arcaica recebe o tratamento Iohana, que parece ser a forma hebraica para João.
João, m., muito freqüente. Do hebr. Iohanan, com várias interpretações (“que Deus favorece”, “agraciado por Deus”, “O senhor deu graciosamente”, “a quem Deus mostra a graça’), pelo gr. Ioanes ou Ioannes e depois pelo lat. Jo(h)anne-, de Jo(h)annes. (Idem. v.2, p.829)
Embora o nome da mãe não apareça textualmente - o que nos leva a pensar numa falta de identidade -, podemos aceitar que o fato de o pai chamar-se João faz com que, tradicionalmente, a mãe seja Joana, reconhecendo, neste procedimento, a identificação da mãe embutida na do pai ou, por ser apenas designada como mãe, sem nome, cumpre o trajeto simbólico da grande MÃE.
Os nomes dos outros cinco irmãos reafirmam, também, a posição ocupada por cada um dentro da casa.
Na linha do pai, constatamos:
“Rosa, 1º) lat. rosa; 2º) abrev. de n. como Rosamunda.” (GUÉRIOS, 1981: 214)
Acerca do nome Rosa, quando pesquisamos em diversas fontes, encontramos sempre esta referência à flor da roseira e sua simbologia. Recorremos, então, ao dicionário de símbolos para, primeiramente, saber o que, genericamente, simboliza a flor e encontramos:
Embora cada flor possua, pelo menos secundariamente, um símbolo próprio, nem por isso a flor deixa de ser, de maneira geral, símbolo do princípio passivo. O cálice da flor, tal como a taça*, é receptáculo da atividade celeste... (CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, 1989: 437)
Zuleika, de origem árabe, tem os seguintes significados:
Zuleica, ar. Zuleikha: “gordinha, roliça”,...( GUÉRIOS, op.cit. p. 259.)
Zuleica, f. [...]. O nome tem aspecto de dimin. Arábico. Poderá sê-lo de Zulaigâ, “pêssego”. (MACHADO, op.cit., v.3, p.1502)
Rosa é a flor, ZuleiKa é o fruto, cuja correspondência simbólica é a seguinte: “Símbolo de abundância, que transborda da cornucópia da deusa da fecundidade ou das taças nos banquetes dos deuses”. (CHEVALIER, J. & GHEERBRANT. op. cit., p. 453)
Se, por um lado, os adjetivos “roliça” e “gordinha” imprimem no nome de Zuleika uma significação inexpressiva, confirmando seu papel secundário na estrutura da casa - assim como Rosa que, ligada à flor, é um princípio passivo -, por outro, por sua referência ao fruto, significando abundância, contextualiza-a no meio rural onde vive. Ambos os significados se completam, dando à Zuleika, também pelo nome, uma posição de conformação e submissão dentro da ordem familiar.
O nome de Huda é o de mais difícil compreensão, por não o encontrarmos grafado desta forma e, sim, como Hulda.
Hulda, 1º) hebr. Talvez: “constante, estável, firme”; 2º) al. Hulda, Holda: “benigna, benévola, afável”; cf. huld: “graça, favor, mercê”. (GUÉRIOS, op.cit. p. 144.)
Hulda, f. [...]. Whithycombe registra Huldah (que tira do voc. Hebr., com a significação de “doninha”). Ou será o ingl. Hulda de origem nórdica (Huldr, “coberto, tapado”)? (MACHADO, op.cit., v.2, p.787.)
Parece que, ao contrário do pai, que, de João passou a Iohana, recebendo um tratamento árabe, Huda sofreu uma simplificação, talvez por corresponder a uma tentativa de adaptação do vocábulo árabe, Huldah, para a língua portuguesa. E, pelos adjetivos (constante, estável, firme, benigna, benévola, afável) ou, pelos substantivos (graça, favor), completa, com suas irmãs, Rosa e Zuleika, o registro feminino de total aceitação das ordens do pai.
Ana, como as outras três irmãs, ocupa na casa um espaço secundário, com a diferença de ser ela, na análise de André, “um enxerto junto ao tronco” (Lavoura arcaica, p. 137), pertencendo, assim como ele e Lula, à linha da mãe.
Ana, hebr. Hanah, Hannah: “graa, clemência, mercê”.( GUÉRIOS, op.cit. p. 57)
Ana, f. Do hebr. Hanah, “graça”, isto é, “graciosa”, pelo gr. Anna e depois pelo lat. Anna [...] “Ele (= Deus) favoreceu-me” (MACHADO, op.cit., v.1, p.128)
Lula, por sua vez, nos pareceu, a princípio, um apelido para Luís, mas como não podíamos afirmá-lo, preferimos considerá-lo como um nome próprio em si e encontramos: Lula, do ar.: “pérola”.(GUÉRIOS, op.cit. p.165)
Com essa alusão à pérola, o irmão mais novo encerra em seu nome um feixe de significados amplo e perfeitamente compatível tanto com sua posição de filho caçula (a pérola designa a criança (CHEVALIER, J. & GHEERBRANT. op.cit., p. 713) quanto com sua posição dentro da ordem da casa. Formado na interioridade da casa (concha), tem valor próprio. Ele vive dentro da cas(c)a, mas quer dela sair.
A partir dessa pesquisa onomástica, compreendemos que, entre os membros da família, apenas quatro deles (André, Ana, Lula e Iohána, o pai) fizeram a leitura integral de seus nomes, com uma ótica própria e individualizada, assumindo suas identidades. Os demais lavradores (Pedro, Rosa, Zuleika e Huda), a nosso ver, aceitaram passivamente as identidades que lhes foram dadas, sem, contudo, perceberem em seus nomes as outras referências neles contidas.
Comecemos pela linha da direita, verificando o nome de Pedro, que é a pedra:
A pedra e o homem apresentam um movimento duplo de subida e de descida. O homem nasce de Deus e retorna a Deus. A pedra bruta desce do céu; transmutada, ela se ergue em sua direção. [...]. A pedra talhada não é, com efeito, senão obra humana; ela dessacraliza a obra de Deus, ela simboliza a ação humana que se substitui à energia criadora. A pedra bruta era também símbolo de liberdade; a talhada, de servidão e trevas. (Idem, p. 696.)
Talhado pelas mãos do pai, Pedro, o primogênito, reveste-se de energia humana, tornando-se servo das vontades paternas e mero repetidor de suas atitudes. Ele perde a energia sagrada da criação que lhe é conferida pelo nome, ficando incapaz de erguer o próprio templo (casa/abrigo daquilo que ele é).
Rosa é a flor e, segundo René Guénon, “há uma equivalência entre a flor e os outros símbolos, [...] em especial, o da roda” (GUÉNON, 1984: 63.) cujo simbolismo contém, entre outras, as seguintes significações:
A roda participa da perfeição sugerida pelo círculo, mas com uma certa valência de imperfeição, porque ela se refere ao mundo do vir a ser, da criação contínua, portanto da contingência e do perecível. Simboliza os ciclos, os reinícios, a s renovações... (CHEVALIER, J. & GHEERBRANT. op.cit., p. 783)
Por essa equivalência simbólica com a roda e por ser a rosa também um símbolo da “ressurreição”, (Idem, p. 788.) concluímos que o nome de Rosa não é apenas caracterizado pela passividade - único dado que ela incorpora à sua biografia -, mas contém, ainda, uma referência à renovação, e à criação, embora essas características não desabrochem na personagem.
O mesmo acontece com Zuleika que, enquanto ligada, de modo genérico, ao fruto, reafirma o contexto rural em que vive, pois simboliza a abundância mas, tomando a simbologia do pêssego, em especial, ela pode também estar revestida de um novo recomeçar.
Freqüentemente, o pessegueiro - e o pêssego - são símbolos de imortalidade. [...]...certas versões fazem dele um Jardim da imortalidade, uma espécie de Éden do novo nascimento, o que identifica o pessegueiro com a Árvore da vida do Paraíso terrestre, ponto de chegada aqui da viagem de iniciação. (Idem, p. 715)
Zuleika carrega consigo, no nome, a oportunidade de um novo recomeço, uma nova iniciação, capaz de lhe dar uma atuação diferente na conjuntura da casa.
Huda, por sua vez, é a benévola, a benigna, mas é, também, a doninha - referência que tanto lhe reafirma essas características quanto é capaz de se converter numa possibilidade de ela assumir um papel diferente na ordem familiar.
Em todas as narrativas irlandesas do ciclo de Ulster, a mãe do rei Conchobar tem o nome de Ness, doninha (mustelídeo europeu muito parecido com o furão brasileiro). Ela é, em primeiro lugar, uma virgem guerreira. Mas pode simbolizar, por outro lado (positivo), a afeição e a vigilância, e, por um lado negativo, a inconstância ou a astúcia... (Idem, p. 348)
Verificamos assim que, se assumisse a simbologia da doninha, Huda poderia também ser referida pelo afeto materno que impulsiona os irmãos da linha da esquerda e, ainda, pela astúcia ou inconstância, permitiria a si própria uma mutabilidade e variabilidade na postura que lhe é imposta pela lei paterna.
Os outros lavradores compõem, com os seus nomes, identidades próprias, reafirmando suas simbologias.
O pai, Iohána, é o favorecido por Deus, a quem Deus deu a graça, ele é o pai/Pai consagrado, que traz em si a responsabilidade de garantir a ordem da família; ele tem a tábua da lei.
André, por sua vez, é o viril, o varonil, aquele que tem a coragem de enfrentar os desígnios do pai e, assumindo a força contida na sua identidade, parte da casa paterna em busca daquilo que ele é.
Lula, o irmão mais novo, é a pérola e guarda a seguinte significação simbólica:
Nascida das águas ou nascida da Lua, encontrada em uma concha, a pérola representa o princípio Yin: ela é o símbolo essencial da feminilidade criativa. [...] A pérola é o atributo da perfeição angélica, de uma perfeição, entretanto, que não é dada, mas adquirida por uma transmutação (Idem, p. 711)
Enquanto Lula irá buscar um novo nascimento e, conseqüentemente, um novo registro, Ana - mesmo pertencendo à linha da mãe e compondo com ela um “enxerto junto ao tronco” - deixa-se aprisionar pelas significações de seu nome e, também, por estar referida no próprio nome do pai - IOH (ÁNA). Impotente para renascer, ela morre, imolada pelas mãos do pai.
Com essas observações, concluímos a leitura simbólica dos nomes das personagens de Lavoura arcaica, procurando mostrar como, mesmo em relação à escolha dos nomes, o romance é estruturado de forma que, aos valores tradicionais, cristalizados ao longo do tempo, na história da cultura ocidental, impõe o registro de vozes diferentes e dissonantes, que buscam romper com as amarras que teimam em limitar a experiência existencial dos seres humanos.
Bibliografia
CHEVALIER, J. & GHEERBRANT. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. vera da Costa e Silva, raul de Sá Barbosa, Angela Melim e Lúcia Melim. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
GUÉNON, R. Os símbolos da ciência sagrada. Trad. de J. Constantino Kairalla. São Paulo: Pensamento, 1984.
GUÉRIOS, R. F. M. Dicionário etimológico de nomes e sobrenomes. 3.ed. São Paulo: Ave Maria, 1981.
HASTINGS, J. A Dictionary of the Bible. New York: Charle´s scribner´s Sons, 1905. 5 V.
MACHADO, J. P. Dicionário onomástico e etimológico da língua portuguesa. Lisboa: Confluência, 1984. 3 V.
NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.