UT PICTURA POESIS
CONSIDERAÇÕES
ACERCA
DO
PARADIGMA
PICTURAL
EM
ARISTÓTELES
Ana Lúcia M. de
Oliveira (UERJ)
RESUMO
Esta
comunicação
é
parte
de uma
investigação
mais
ampla
acerca
do
paralelo
entre
a
pintura
e as
artes
discursivas
em
sua
configuração
grega,
anterior
ao
ato
de
batismo
horaciano,
que
cunhou o
símile
ut pictura poesis. O
ponto
central
será o
exame de
tal
paralelo
na
Retórica
e na
Poética
aristotélicas
para
destacar a
nova
orientação
que
aí
se dá à
problemática
da
imagem,
permitindo
resgatar as
artes
miméticas da
condenação
platônica.
Reconhecendo o
papel
capital
do
sentido
da
visão,
Aristóteles admite a
eficácia
de se
tirar
partido
do
prazer advindo
das
sensações
visuais,
explorando a
força
pictórica
da
linguagem.
Se,
para
ele,
a
maior
qualidade
do
gênio
poético é a de
ser
metaphorikon –
ou
seja,
saber
olhar
para
perceber as
semelhanças
entre
as
coisas
–, a
metáfora
pictural (prò ommáton metaphora) pode
ser considerada
a
mais
apta
para
nomear a
atividade
poética
em
geral,
isto
é,
para “colocá-la
diante
dos
olhos”
Em
sentido
figurado,
portanto,
a
palavra
“pintura”
pode
servir de
metáfora
para todas as
metáforas,
definidas
em
referência
à
visibilidade;
em
sentido
próprio, pode
servir de
paradigma
para
toda
arte mimética,
por
tornar
visível
a
própria
natureza
da
atividade
representativa. No
curso
da
análise,
destacaremos as
facetas
antiplatônicas da
teoria
aristotélica
da mimesis,
especialmente
a valorização das
características
próprias de uma
representação
cujo
valor
não
se
pauta
mais
exclusivamente
pela
fidelidade
ao
modelo e na
qual
a
imagem
é considerada
em
função
de
suas
qualidades
específicas,
quer
sejam
poéticas
ou
pictóricas.
Palavras-chave:
pintura;
metáfora;
mimesis
Esta
comunicação,
que se insere
em uma
pesquisa
mais
ampla
acerca do
tema do ut pictura poesis (cf.
OLIVEIRA, 1992), tem
por
objetivo
central
verificar a
maneira
pela
qual Aristóteles redistribui as
questões
referentes à mimesis levantadas
por Platão. Tendo
em
vista o
escopo deste
trabalho,
não se fará uma
exposição
geral da
obra do referido filósofo,
mas
apenas a
análise de
certas
partes da
Retórica e da
Poética
em
que se desenvolve o
paralelo
com a
pintura, destacando os
pontos
relevantes da
sua
nova
concepção da
representação mimética.
Para
examinar
como opera o
paradigma pictural
em Aristóteles, recorrerei ao interessantíssimo
livro A
cor
eloqüente (1989), no
qual Jacqueline Lichtenstein aborda
em
primeiro
plano a
querela
entre os coloristas e os
partidários do
desenho, ocorrida na
Academia de Belas
Artes francesa, no
século XVII.
Para
melhor
rastrear
tal
problemática, retrocede
até a
filosofia
grega, tendo
em
vista a
análise da
importância do
aristotelismo
para a
maior
parte das
teorias da
pintura constituídas a
partir do
Renascimento e
que possibilitaram uma redefinição
positiva dessa
arte. Reconhecendo
que o estagirita
não explicita as
conseqüências da
sua
teoria
geral da mimesis no
campo
específico da
pintura,
apesar de esta
ser abundantemente citada na
Poética, a autora se propõe a
reconstituir uma
teoria
aristotélica da
representação
visual
que é
quase uma “ficção
teórica”. E justifica
sua
pretensão
com o
argumento de
que os
textos do filósofo fornecem as
condições
que permitem
elaborar
tal
teoria, “nas
margens da
retórica e da
poética,
em
um
espaço
intermediário
em
que se reúnem a
metáfora e o
visível” (Lichtenstein,
1989: 68).
O
caminho
assim traçado
nos permite
destacar a centralidade concedida
por Aristóteles ao
sentido da
visão.
Com
efeito, as primeiras
linhas da
Metafísica
nos dizem: “Todos os
homens têm,
por
natureza,
desejo de
conhecer: uma
prova disso é o
prazer
que se tem
com as
sensações.
Elas agradam
por
si
só,
independentemente da
necessidade, e,
sobretudo, as
que
nos vêm dos
olhos” (I, 1).
Quando se
passa ao
plano das
artes discursivas,
tal
aceitação do
prazer advindo das
sensações
visuais acarreta uma
significativa
diferença
em
relação ao
autor dos
Diálogos. Ao
invés de
condenar
tal
prazer, trata-se,
agora, de
tirar
partido dele, explorando a
força
pictórica
através da enérgeia,
que consiste na
evidência, na concretude dos
exemplos.
Em
termos
aristotélicos,
isso significa o
poder
gráfico de “colocar as
coisas
diante dos
olhos”, implicando o
uso de
expressões
que representam
objetos
como se
eles estivessem
em
atividade (Retórica
1411 b). Os
exemplos
clássicos
são extraídos de Homero,
que descreve
em
pleno
ato
não
somente os
seres
animados,
mas
chega a
animar o
inanimado, tendo
por
finalidade
sensibilizar o
sentido
geral da
ação, tornando-a
pictórica
para a
recepção,
como se observa no
seguinte
trecho da
Retórica (1412 a): “‘as
vagas abauladas, galeadas de
espuma, umas acompanhando as outras’ –
aqui
ele representa
tudo
como movente e
vivo; e a
atividade é o
movimento”.
Se,
para Aristóteles, a
maior
qualidade do
gênio poético é a de
ser metaphorikon –
ou seja, a de
saber
olhar
bem
para
perceber as
semelhanças
entre as
coisas –,
pois é “o
único
elemento
que
não pode
ser tomado de
outrem e é
sinal de uma
natureza
bem dotada” (Poética
1459 a), a
metáfora pictural pode
ser considerada a
mais
apta
para
nomear a
atividade
poética
em
geral,
isto é,
em
termos
aristotélicos,
para “colocá-la
diante dos
olhos”.
Em
seu
sentido
figurado, a
palavra “pintura”
pode,
então,
servir de
metáfora
para todas as
metáforas,
que
são definidas necessariamente
em
referência à
visibilidade;
já
em
sentido
próprio, pode
servir de
paradigma
para
toda
arte mimética,
por
tornar
visível a
própria
natureza da
atividade representativa.
Para
concluir
tal
raciocínio, a autora
que
aqui sigo de
perto – contagiando-se
talvez
pela
agudeza,
tão
em
voga no
século ao
qual dedica
grande
parte de
sua
pesquisa – arremata,
lapidar: “a
arte de
pintar
imagens é
realmente a
melhor
imagem
que se pode
criar
para
pintar a
imagem da
arte” (Lichtenstein,
1989: 71-72;
grifos
nossos).
A
partir de uma
leitura
atenta dos
dois
tratados
aristotélicos, podem-se
perceber as
facetas nitidamente antiplatônicas da
sua
teoria da mimesis.
Em
primeiro
lugar, destaca-se a
importância atribuída às
características próprias de uma
representação
cujo
valor
não se
pauta
mais
exclusivamente
pela
fidelidade ao
modelo.
Como exemplificação, retomemos
um
fragmento da
Poética,
em
que Aristóteles recorre ao
paralelo
com a
pintura:
Como a
tragédia é uma
imitação de
personagens
melhores do
que os
homens
comuns,
deveríamos
seguir o
exemplo dos
bons
pintores
retratistas,
que reproduzem
as
características
distintivas de
um
homem e, ao
mesmo
tempo,
sem
perder a
semelhança, fazem-no
mais
bonito do
que é. (Poética
1454 b)
Torna-se
patente
aí a
diferença
entre os
dois filósofos
gregos: no Sofista,
diálogo
platônico, o
fato de as
imagens pictóricas,
mesmo as
que se pretendem icônicas, introduzirem
sempre o
seu
grau de
diferença
em
relação ao
original está na
raiz da desqualificação de
que
são
objeto;
em
contrapartida,
para Aristóteles, as
artes miméticas
não
são regidas
por
esse
critério de
reprodução
servil, sugerindo-se
inclusive
que o
artista
deva
aprimorar o
modelo,
segundo o
propósito
básico de
criar uma
imitação
ideal da
ação
humana. Acrescente-se
ainda
que,
embora mantendo uma
exigência
ética e cognitiva, o
autor da
Poética faz
intervir uma
nova
ordem de avaliação, na
qual a
imagem é considerada
em
função das
suas
qualidades especificas,
quer sejam
poéticas
ou pictóricas.
Em outras
palavras,
segundo
Costa
Lima, a
preferência
aristotélica
pela
pintura é “motivada
pelo
propósito de
tratar a mimesis
em
liberdade,
conquanto
relativa,
face à
esfera do
ético”, uma
vez
que a
arte
pictórica “se
funda
em
elementos [...]
cuja transcodificação
ética
não estava de
antemão estabelecida” (1995: 69). A
partir desse
novo
ponto de
vista, o estagirita
chega
inclusive a
afirmar, na
Poética (1460 b),
que “é
um
erro
menor
para o
artista
ignorar,
por
exemplo,
que a
corça
não tem
chifres, do
que representá-la de
modo
não
artístico”.
A
que
distância de Platão
nos encontramos!
Para
este,
tal “corça
sem
chifres” seria uma
imagem
sem
semelhança,
cópia
sem
modelo,
portanto
um
erro gravíssimo: pseudos
inaceitável.
Já Aristóteles se
mostra
bem
mais
tolerante
com os
simulacros
pictóricos
ou
verbais,
segundo se confirma no
exemplo
seguinte, da
Retórica (1460 b): “O
poeta representou
impossíveis. É
um
erro – desculpável,
contudo, se atingiu a
finalidade
própria da
poesia [...] e se, de
tal
maneira, resultou
mais
impressionante essa
parte do
poema,
ou
outra
qualquer”.
O
fato de Aristóteles, dando à tematização da
imagem uma
orientação
radicalmente
nova,
ter
permitido
resgatar as
artes miméticas –
principalmente as discursivas,
retórica e
poética – da
condenação
platônica é uma
evidência reconhecida
por
diversos
analistas de
sua
obra.
Mas significa
dizer
que
ele tenha concedido uma
autonomia
plena ao
estético?
Em
absoluto,
conforme
bem o provou Luiz
Costa
Lima (1980: 45-58 e 1995: 63-76).
Como
pré-requisito
para
compreender a
argumentação
desenvolvida
por
esse
crítico, sobrevoemos rapidamente os
dois
tratados
aristotélicos, fazendo-os
dialogar
quanto às
questões
que
aqui
nos interessam.
O
proêmio do
livro
segundo da
Retórica traz
um
elemento
significativo
para o encaminhamento desta
pesquisa: trata-se do
estudo das
paixões
como
argumento
determinante da
técnica
retórica.
Com essa
introdução das
paixões, Aristóteles vai ao
encontro das primeiras
escolas de
retórica
grega, sofísticas e pitagóricas,
que haviam
previsto na
persuasão psicagógica uma
tarefa
não
menos
importante
para o retor do
que a
demonstração
lógica. A
partir do
momento
em
que o
discurso é abordado do
ponto de
vista de
sua
finalidade
persuasiva e considerando-se a
já reconhecida
importância das
sensações
visuais
como
meio de
desencadear o
prazer do
auditório, torna-se
difícil
preservar a
primazia dos
elementos
lingüísticos.
Significativo
para o encaminhamento do
meu
raciocínio é
articular o
ato de
persuadir
com a
análise
aristotélica das
provas,
que ocupa
grande
parte desse
tratado. De
um
modo
bastante
sintético, pode-se
dizer
que estas se incluem
entre as
premissas
retóricas, as
que têm
em
si uma
força
demonstrativa
suficiente
para
construir
um entimema (isto é,
um
silogismo
retórico).
Em
primeiro
lugar, há a
distinção
entre
provas
lógicas –
puramente demonstrativas, no
âmbito do
próprio
discurso – e
provas
morais –
referentes ao ethos, se concernem à
disposição do
orador, e ao pathos, se concernem à do
auditório. Uma
outra
linha
divisória é demarcada
entre
provas
técnicas – aquelas obtidas
através do
uso do
método e dos
meios
pessoais do
orador – e não-técnicas –
sempre
morais,
exteriores ao
tema do
discurso, mostradas e
não demonstradas. O
uso destas últimas,
atinente a uma
pragmática da
eloqüência, remete à
indagação
fundamental
aqui
já
enunciada: uma
vez
que se reconhece o
grande
apelo da
visão,
como
manter o
privilégio do
discurso;
isto é, tendo
em
vista a
eficácia do
resultado,
como
privilegiar a
demonstração
em
face da
bem
mais
convincente “mostração”?
Segundo Jacqueline Lichtenstein,
tal
questão constitui o
ponto
crítico da
própria
arte
retórica, o
lugar
onde se cruzam
todos os
elementos
que podem
pôr
em
risco a
primazia do
discurso (1989: 77).
Eis
porque o
propósito
central do estagirita será o de
assegurar
tal
primazia, estabelecendo uma
hierarquia
entre os
diferentes
meios
empregados na
persuasão,
para
traçar uma
linha
divisória
entre a boa
retórica filosófica
e a “pragmática”, aquela
que
emprega
provas
não pertencentes à
arte
retórica propriamente
dita.
Reconhecendo o
perigo da
grande
força
persuasiva de todas as
provas
morais,
que escapam à
ordem discursiva e,
portanto, ao
controle da
razão, Aristóteles
desvia a
análise do
campo da
ação
oratória –
que
não concerne às
regras
retóricas,
mas ao
talento do
orador –, deslocando-a
para o
campo do poético.
Para
isso,
lança
mão de
um
elemento discursivo
que possa
rivalizar
com
tais
provas: é
aí
que
passa a
considerar a
força
expressiva da
metáfora, “da
maior
eficácia na
poesia e
nos
discursos” (Retórica
III, 1405 a). Registre-se, a
esse
respeito, a
seguinte
observação de Jacqueline Lichtenstein:
Para a
Retórica
como
para a
Poética,
o
único
modo de
representação
que
pertence à
arte é o
que se exprime
na
forma metafórica do
discurso, uma
representação
cujas
figuras
funcionam
como “imagens”,
quer
dizer,
cujos
caracteres
expressivos e
miméticos referem-se à figurabilidade e
não à
visibilidade.
(1989: 80)
É
curioso
notar,
ainda
que efetuando
um
desvio ao
propósito
central deste
estudo, as
similitudes
entre as
dificuldades suscitadas
para a
retórica
devido à
sua
eloqüência
corporal e as
críticas dirigidas à
pintura
em
razão do
seu colorido. Ambas sofrem o
mesmo
enxerto de
ética,
sendo forçadas a adaptar-se ao
projeto traçado
pelo
logos filosófico. À autora citada
acima cabe o
mérito de
haver mostrado
que Aristóteles,
mesmo retirando a
condenação
que pesava
sobre as
artes miméticas,
não eliminou a
linha
divisória
que,
anteriormente, justificava a
sua
exclusão; deslocou-a
para o
interior da
própria
pintura, fazendo a
triagem dos
seus
elementos constitutivos:
assim, “condenada
por Platão
em
nome de
suas
cores, a
pintura é
salva
por Aristóteles
graças ao
seu
desenho” (idem,
p. 72;
grifos
nossos).
De
fato,
tal
partição reflete os
preconceitos filosóficos
quanto à
materialidade pictural, a
dificuldade de
considerar teoricamente os
aspectos
diretamente
sensíveis da
representação,
que escapam
tanto à
ordem
racional
quanto à
ordenação discursiva. A
pintura,
então, se
salva filosoficamente, tornando-se
incolor,
como se pode
depreender do
seguinte
fragmento da
Poética (1450 b): “Algo
semelhante se verifica na
pintura: se
alguém aplicasse desordenadamente as
mais belas
cores, a
sua
obra
não
nos agradaria
tanto,
como se
apenas houvesse esboçado uma
pintura
em
preto e
branco”.
Rejeitando,
pelo
perigo representado
para a
análise, a
espessura multicolorida do
sensível – sabe-se o
quanto a
cor é
estrangeira à
ordem do
discurso,
irredutível às
palavras –, o filósofo privilegia o
desenho
como
inscrição do
inteligível, o
meio
mais adequado
para
introduzir o
controle da
razão na
pintura.
Isso
posto, retomemos a
via
principal desta
investigação,
que se dedicava à
reavaliação do
patético operacionalizada
pelo estagirita. A
paixão
também constitui a
ponte
que aproxima a
retórica e a
poética: na
primeira,
como vimos, Aristóteles “recupera” a
estratégia
patética,
por
ser
fundamental
para a
persuasão psicagógica, integrando-a à
argumentação:
conseqüentemente, a
paixão é universalizada, assumindo
aí a
dignidade de uma tékhne.
Já na
segunda,
como veremos, enfatiza o
aspecto
terapêutico do
prazer provocado
pela
poesia,
através do
qual se atinge a
purificação das
paixões.
No
sexto
capítulo da
Poética, a
tragédia é
definida
como “imitação de uma
ação de
caráter
elevado [...]
que, suscitando o
terror e a
piedade, tem
por
efeito a
purificação dessas
emoções” (1449 b).
Através de
tal
definição –
sem
dúvida, modelada
como uma
resposta à
acusação
platônica de
que o
drama poético,
por
alimentar as
paixões, encoraja a
anarquia na
alma –, Aristóteles postula
que
tal
anarquia pode
ser evitada de
modo
mais
eficiente,
não
por
meio de uma
repressão das
emoções,
mas fazendo
com
que estas se expressem de
maneira regrada. Tendo
em
vista
tal
finalidade, a
tragédia é considerada
um
instrumento de
grande
valia,
por
realizar uma
dupla
operação:
primeiro excita as
emoções de
terror e de
piedade,
para,
em
seguida, acalmá-las, efetuando uma
cura
emocional do
espectador,
que, ao
fim do
espetáculo, se
encontra
mais
sereno e num
estágio
mais
avançado de autocontrole.
As
observações
anteriores deixam
entrever
que,
em uma
radical
diferença
quanto a Platão, a avaliação
aristotélica da mimesis
não gravita
mais
em
torno da
adequação desta ao
mundo das
idéias, considerando,
antes, a
sua
finalidade
persuasiva, o
efeito produzido no
receptor. Nas
palavras de Manfred Fuhrmann, “o
tratado
aristotélico
ainda se distingue da
obra
platônica
pela centralidade concedida ao
efeito da
obra,
através do
segundo conceito-chave da
Poética, o
conceito de
catarse” (apud
Costa
Lima, 1980: 50).
Visto
que a
catarse funciona
como uma
ocasião
para o
escoamento do
excesso de
emoções,
sempre ameaçadoras, os
cantos
que purificam a
alma causam
um
encanto
sem
perigo.
Facilmente se verifica
que,
tanto ao
poeta
quanto ao
orador, concede-se
licença
para
lidar
com o
perigoso
campo das
paixões,
desde
que conheçam a
profilaxia
para
todos os
riscos
que
elas apresentam.
Eis,
em
síntese,
como funciona essa “ortopedia
filosófica” (Lichtenstein,
1989: 74):
em
vez de
censurar as
paixões, permite
que se expressem,
sob a
condição de
que sejam canalizadas
para a
purificação
final.
Já possuímos as
ferramentas
suficientes
para
retomar a
questão
referente à mimesis
que foi deixada
em suspenso.
Mesmo
com a
abordagem
quase
telegráfica de
um
assunto
que se prestaria a
desenvolvimentos
extremamente
complexos, torna-se
possível
perceber
que,
apesar dos
avanços configurados
por Aristóteles ao
reconhecer a
validade das
artes miméticas,
em
sua
obra estas
ainda
não obtiveram
autonomia.
Em outras
palavras, as
artes imitativas, ao saírem da
estrita
jurisdição da
verdade, acedem a uma
dignidade
teórica
nova,
não escapando,
todavia, a uma
outra
forma de
controle: passam a
ser vigiadas e contidas nas camisas-de-força da
ética e da
política.
Para
concluir, deixemos
com Luiz
Costa
Lima a
síntese do
momento
aristotélico,
em
seu
duplo
aspecto:
[...] de
um
lado, libera o
mimético da
rígida
legislação do
discurso da
verdade, e,
por
outro
lado, o mantém
subordinado,
pelo
princípio do
efeito
catártico, ao
prazer aliviador, i.é., o
prazer
que aceita o
jogo da
imaginação
desde
que conduza a
uma
descarga
tranqüilizadora. (1980: 60)
Antes de
fechar a
discussão, importa
apontar rapidamente as
conseqüências dessa valorização do
papel do
espectador na
elaboração da
própria
arte, no
tocante a uma
problemática
já
presente
em Platão e
que recebe,
com Aristóteles, uma
nova
configuração
que conhecerá
grande
fortuna
crítica. Trata-se do
tema da
distância adequada da
representação,
que
passa a
ser considerada
não
mais
em
relação ao
mundo das
idéias,
mas
como
adequação ao
público a
que se
destina.
Tal
adequação será
objeto de
um
maior desdobramento
por
parte de Horácio, elaborador do
famoso
símile ut pictura poesis,
cuja
análise da
distância
conveniente da apreciação
em
cada
gênero poético deixará
um
rastro
marcante na
crítica de
arte
até,
pelo
menos, o
século XVIII.
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ACERCA
DO
PARADIGMA
PICTURAL
EM
ARISTÓTELES
Ana Lúcia M. de
Oliveira (UERJ)
RESUMO
Esta
comunicação
é
parte
de uma
investigação
mais
ampla
acerca
do
paralelo
entre
a
pintura
e as
artes
discursivas
em
sua
configuração
grega,
anterior
ao
ato
de
batismo
horaciano,
que
cunhou o
símile
ut pictura poesis. O
ponto
central
será o
exame de
tal
paralelo
na
Retórica
e na
Poética
aristotélicas
para
destacar a
nova
orientação
que
aí
se dá à
problemática
da
imagem,
permitindo
resgatar as
artes
miméticas da
condenação
platônica.
Reconhecendo o
papel
capital
do
sentido
da
visão,
Aristóteles admite a
eficácia
de se
tirar
partido
do
prazer advindo
das
sensações
visuais,
explorando a
força
pictórica
da
linguagem.
Se,
para
ele,
a
maior
qualidade
do
gênio
poético é a de
ser
metaphorikon –
ou
seja,
saber
olhar
para
perceber as
semelhanças
entre
as
coisas
–, a
metáfora
pictural (prò ommáton metaphora) pode
ser considerada
a
mais
apta
para
nomear a
atividade
poética
em
geral,
isto
é,
para “colocá-la
diante
dos
olhos”
Em
sentido
figurado,
portanto,
a
palavra
“pintura”
pode
servir de
metáfora
para todas as
metáforas,
definidas
em
referência
à
visibilidade;
em
sentido
próprio, pode
servir de
paradigma
para
toda
arte mimética,
por
tornar
visível
a
própria
natureza
da
atividade
representativa. No
curso
da
análise,
destacaremos as
facetas
antiplatônicas da
teoria
aristotélica
da mimesis,
especialmente
a valorização das
características
próprias de uma
representação
cujo
valor
não
se
pauta
mais
exclusivamente
pela
fidelidade
ao
modelo e na
qual
a
imagem
é considerada
em
função
de
suas
qualidades
específicas,
quer
sejam
poéticas
ou
pictóricas.
Palavras-chave:
pintura;
metáfora;
mimesis
Esta
comunicação,
que se insere
em uma
pesquisa
mais
ampla
acerca do
tema do ut pictura poesis (cf.
OLIVEIRA, 1992), tem
por
objetivo
central
verificar a
maneira
pela
qual Aristóteles redistribui as
questões
referentes à mimesis levantadas
por Platão. Tendo
em
vista o
escopo deste
trabalho,
não se fará uma
exposição
geral da
obra do referido filósofo,
mas
apenas a
análise de
certas
partes da
Retórica e da
Poética
em
que se desenvolve o
paralelo
com a
pintura, destacando os
pontos
relevantes da
sua
nova
concepção da
representação mimética.
Para
examinar
como opera o
paradigma pictural
em Aristóteles, recorrerei ao interessantíssimo
livro A
cor
eloqüente (1989), no
qual Jacqueline Lichtenstein aborda
em
primeiro
plano a
querela
entre os coloristas e os
partidários do
desenho, ocorrida na
Academia de Belas
Artes francesa, no
século XVII.
Para
melhor
rastrear
tal
problemática, retrocede
até a
filosofia
grega, tendo
em
vista a
análise da
importância do
aristotelismo
para a
maior
parte das
teorias da
pintura constituídas a
partir do
Renascimento e
que possibilitaram uma redefinição
positiva dessa
arte. Reconhecendo
que o estagirita
não explicita as
conseqüências da
sua
teoria
geral da mimesis no
campo
específico da
pintura,
apesar de esta
ser abundantemente citada na
Poética, a autora se propõe a
reconstituir uma
teoria
aristotélica da
representação
visual
que é
quase uma “ficção
teórica”. E justifica
sua
pretensão
com o
argumento de
que os
textos do filósofo fornecem as
condições
que permitem
elaborar
tal
teoria, “nas
margens da
retórica e da
poética,
em
um
espaço
intermediário
em
que se reúnem a
metáfora e o
visível” (Lichtenstein,
1989: 68).
O
caminho
assim traçado
nos permite
destacar a centralidade concedida
por Aristóteles ao
sentido da
visão.
Com
efeito, as primeiras
linhas da
Metafísica
nos dizem: “Todos os
homens têm,
por
natureza,
desejo de
conhecer: uma
prova disso é o
prazer
que se tem
com as
sensações.
Elas agradam
por
si
só,
independentemente da
necessidade, e,
sobretudo, as
que
nos vêm dos
olhos” (I, 1).
Quando se
passa ao
plano das
artes discursivas,
tal
aceitação do
prazer advindo das
sensações
visuais acarreta uma
significativa
diferença
em
relação ao
autor dos
Diálogos. Ao
invés de
condenar
tal
prazer, trata-se,
agora, de
tirar
partido dele, explorando a
força
pictórica
através da enérgeia,
que consiste na
evidência, na concretude dos
exemplos.
Em
termos
aristotélicos,
isso significa o
poder
gráfico de “colocar as
coisas
diante dos
olhos”, implicando o
uso de
expressões
que representam
objetos
como se
eles estivessem
em
atividade (Retórica
1411 b). Os
exemplos
clássicos
são extraídos de Homero,
que descreve
em
pleno
ato
não
somente os
seres
animados,
mas
chega a
animar o
inanimado, tendo
por
finalidade
sensibilizar o
sentido
geral da
ação, tornando-a
pictórica
para a
recepção,
como se observa no
seguinte
trecho da
Retórica (1412 a): “‘as
vagas abauladas, galeadas de
espuma, umas acompanhando as outras’ –
aqui
ele representa
tudo
como movente e
vivo; e a
atividade é o
movimento”.
Se,
para Aristóteles, a
maior
qualidade do
gênio poético é a de
ser metaphorikon –
ou seja, a de
saber
olhar
bem
para
perceber as
semelhanças
entre as
coisas –,
pois é “o
único
elemento
que
não pode
ser tomado de
outrem e é
sinal de uma
natureza
bem dotada” (Poética
1459 a), a
metáfora pictural pode
ser considerada a
mais
apta
para
nomear a
atividade
poética
em
geral,
isto é,
em
termos
aristotélicos,
para “colocá-la
diante dos
olhos”.
Em
seu
sentido
figurado, a
palavra “pintura”
pode,
então,
servir de
metáfora
para todas as
metáforas,
que
são definidas necessariamente
em
referência à
visibilidade;
já
em
sentido
próprio, pode
servir de
paradigma
para
toda
arte mimética,
por
tornar
visível a
própria
natureza da
atividade representativa.
Para
concluir
tal
raciocínio, a autora
que
aqui sigo de
perto – contagiando-se
talvez
pela
agudeza,
tão
em
voga no
século ao
qual dedica
grande
parte de
sua
pesquisa – arremata,
lapidar: “a
arte de
pintar
imagens é
realmente a
melhor
imagem
que se pode
criar
para
pintar a
imagem da
arte” (Lichtenstein,
1989: 71-72;
grifos
nossos).
A
partir de uma
leitura
atenta dos
dois
tratados
aristotélicos, podem-se
perceber as
facetas nitidamente antiplatônicas da
sua
teoria da mimesis.
Em
primeiro
lugar, destaca-se a
importância atribuída às
características próprias de uma
representação
cujo
valor
não se
pauta
mais
exclusivamente
pela
fidelidade ao
modelo.
Como exemplificação, retomemos
um
fragmento da
Poética,
em
que Aristóteles recorre ao
paralelo
com a
pintura:
Como a
tragédia é uma
imitação de
personagens
melhores do
que os
homens
comuns,
deveríamos
seguir o
exemplo dos
bons
pintores
retratistas,
que reproduzem
as
características
distintivas de
um
homem e, ao
mesmo
tempo,
sem
perder a
semelhança, fazem-no
mais
bonito do
que é. (Poética
1454 b)
Torna-se
patente
aí a
diferença
entre os
dois filósofos
gregos: no Sofista,
diálogo
platônico, o
fato de as
imagens pictóricas,
mesmo as
que se pretendem icônicas, introduzirem
sempre o
seu
grau de
diferença
em
relação ao
original está na
raiz da desqualificação de
que
são
objeto;
em
contrapartida,
para Aristóteles, as
artes miméticas
não
são regidas
por
esse
critério de
reprodução
servil, sugerindo-se
inclusive
que o
artista
deva
aprimorar o
modelo,
segundo o
propósito
básico de
criar uma
imitação
ideal da
ação
humana. Acrescente-se
ainda
que,
embora mantendo uma
exigência
ética e cognitiva, o
autor da
Poética faz
intervir uma
nova
ordem de avaliação, na
qual a
imagem é considerada
em
função das
suas
qualidades especificas,
quer sejam
poéticas
ou pictóricas.
Em outras
palavras,
segundo
Costa
Lima, a
preferência
aristotélica
pela
pintura é “motivada
pelo
propósito de
tratar a mimesis
em
liberdade,
conquanto
relativa,
face à
esfera do
ético”, uma
vez
que a
arte
pictórica “se
funda
em
elementos [...]
cuja transcodificação
ética
não estava de
antemão estabelecida” (1995: 69). A
partir desse
novo
ponto de
vista, o estagirita
chega
inclusive a
afirmar, na
Poética (1460 b),
que “é
um
erro
menor
para o
artista
ignorar,
por
exemplo,
que a
corça
não tem
chifres, do
que representá-la de
modo
não
artístico”.
A
que
distância de Platão
nos encontramos!
Para
este,
tal “corça
sem
chifres” seria uma
imagem
sem
semelhança,
cópia
sem
modelo,
portanto
um
erro gravíssimo: pseudos
inaceitável.
Já Aristóteles se
mostra
bem
mais
tolerante
com os
simulacros
pictóricos
ou
verbais,
segundo se confirma no
exemplo
seguinte, da
Retórica (1460 b): “O
poeta representou
impossíveis. É
um
erro – desculpável,
contudo, se atingiu a
finalidade
própria da
poesia [...] e se, de
tal
maneira, resultou
mais
impressionante essa
parte do
poema,
ou
outra
qualquer”.
O
fato de Aristóteles, dando à tematização da
imagem uma
orientação
radicalmente
nova,
ter
permitido
resgatar as
artes miméticas –
principalmente as discursivas,
retórica e
poética – da
condenação
platônica é uma
evidência reconhecida
por
diversos
analistas de
sua
obra.
Mas significa
dizer
que
ele tenha concedido uma
autonomia
plena ao
estético?
Em
absoluto,
conforme
bem o provou Luiz
Costa
Lima (1980: 45-58 e 1995: 63-76).
Como
pré-requisito
para
compreender a
argumentação
desenvolvida
por
esse
crítico, sobrevoemos rapidamente os
dois
tratados
aristotélicos, fazendo-os
dialogar
quanto às
questões
que
aqui
nos interessam.
O
proêmio do
livro
segundo da
Retórica traz
um
elemento
significativo
para o encaminhamento desta
pesquisa: trata-se do
estudo das
paixões
como
argumento
determinante da
técnica
retórica.
Com essa
introdução das
paixões, Aristóteles vai ao
encontro das primeiras
escolas de
retórica
grega, sofísticas e pitagóricas,
que haviam
previsto na
persuasão psicagógica uma
tarefa
não
menos
importante
para o retor do
que a
demonstração
lógica. A
partir do
momento
em
que o
discurso é abordado do
ponto de
vista de
sua
finalidade
persuasiva e considerando-se a
já reconhecida
importância das
sensações
visuais
como
meio de
desencadear o
prazer do
auditório, torna-se
difícil
preservar a
primazia dos
elementos
lingüísticos.
Significativo
para o encaminhamento do
meu
raciocínio é
articular o
ato de
persuadir
com a
análise
aristotélica das
provas,
que ocupa
grande
parte desse
tratado. De
um
modo
bastante
sintético, pode-se
dizer
que estas se incluem
entre as
premissas
retóricas, as
que têm
em
si uma
força
demonstrativa
suficiente
para
construir
um entimema (isto é,
um
silogismo
retórico).
Em
primeiro
lugar, há a
distinção
entre
provas
lógicas –
puramente demonstrativas, no
âmbito do
próprio
discurso – e
provas
morais –
referentes ao ethos, se concernem à
disposição do
orador, e ao pathos, se concernem à do
auditório. Uma
outra
linha
divisória é demarcada
entre
provas
técnicas – aquelas obtidas
através do
uso do
método e dos
meios
pessoais do
orador – e não-técnicas –
sempre
morais,
exteriores ao
tema do
discurso, mostradas e
não demonstradas. O
uso destas últimas,
atinente a uma
pragmática da
eloqüência, remete à
indagação
fundamental
aqui
já
enunciada: uma
vez
que se reconhece o
grande
apelo da
visão,
como
manter o
privilégio do
discurso;
isto é, tendo
em
vista a
eficácia do
resultado,
como
privilegiar a
demonstração
em
face da
bem
mais
convincente “mostração”?
Segundo Jacqueline Lichtenstein,
tal
questão constitui o
ponto
crítico da
própria
arte
retórica, o
lugar
onde se cruzam
todos os
elementos
que podem
pôr
em
risco a
primazia do
discurso (1989: 77).
Eis
porque o
propósito
central do estagirita será o de
assegurar
tal
primazia, estabelecendo uma
hierarquia
entre os
diferentes
meios
empregados na
persuasão,
para
traçar uma
linha
divisória
entre a boa
retórica filosófica
e a “pragmática”, aquela
que
emprega
provas
não pertencentes à
arte
retórica propriamente
dita.
Reconhecendo o
perigo da
grande
força
persuasiva de todas as
provas
morais,
que escapam à
ordem discursiva e,
portanto, ao
controle da
razão, Aristóteles
desvia a
análise do
campo da
ação
oratória –
que
não concerne às
regras
retóricas,
mas ao
talento do
orador –, deslocando-a
para o
campo do poético.
Para
isso,
lança
mão de
um
elemento discursivo
que possa
rivalizar
com
tais
provas: é
aí
que
passa a
considerar a
força
expressiva da
metáfora, “da
maior
eficácia na
poesia e
nos
discursos” (Retórica
III, 1405 a). Registre-se, a
esse
respeito, a
seguinte
observação de Jacqueline Lichtenstein:
Para a
Retórica
como
para a
Poética,
o
único
modo de
representação
que
pertence à
arte é o
que se exprime
na
forma metafórica do
discurso, uma
representação
cujas
figuras
funcionam
como “imagens”,
quer
dizer,
cujos
caracteres
expressivos e
miméticos referem-se à figurabilidade e
não à
visibilidade.
(1989: 80)
É
curioso
notar,
ainda
que efetuando
um
desvio ao
propósito
central deste
estudo, as
similitudes
entre as
dificuldades suscitadas
para a
retórica
devido à
sua
eloqüência
corporal e as
críticas dirigidas à
pintura
em
razão do
seu colorido. Ambas sofrem o
mesmo
enxerto de
ética,
sendo forçadas a adaptar-se ao
projeto traçado
pelo
logos filosófico. À autora citada
acima cabe o
mérito de
haver mostrado
que Aristóteles,
mesmo retirando a
condenação
que pesava
sobre as
artes miméticas,
não eliminou a
linha
divisória
que,
anteriormente, justificava a
sua
exclusão; deslocou-a
para o
interior da
própria
pintura, fazendo a
triagem dos
seus
elementos constitutivos:
assim, “condenada
por Platão
em
nome de
suas
cores, a
pintura é
salva
por Aristóteles
graças ao
seu
desenho” (idem,
p. 72;
grifos
nossos).
De
fato,
tal
partição reflete os
preconceitos filosóficos
quanto à
materialidade pictural, a
dificuldade de
considerar teoricamente os
aspectos
diretamente
sensíveis da
representação,
que escapam
tanto à
ordem
racional
quanto à
ordenação discursiva. A
pintura,
então, se
salva filosoficamente, tornando-se
incolor,
como se pode
depreender do
seguinte
fragmento da
Poética (1450 b): “Algo
semelhante se verifica na
pintura: se
alguém aplicasse desordenadamente as
mais belas
cores, a
sua
obra
não
nos agradaria
tanto,
como se
apenas houvesse esboçado uma
pintura
em
preto e
branco”.
Rejeitando,
pelo
perigo representado
para a
análise, a
espessura multicolorida do
sensível – sabe-se o
quanto a
cor é
estrangeira à
ordem do
discurso,
irredutível às
palavras –, o filósofo privilegia o
desenho
como
inscrição do
inteligível, o
meio
mais adequado
para
introduzir o
controle da
razão na
pintura.
Isso
posto, retomemos a
via
principal desta
investigação,
que se dedicava à
reavaliação do
patético operacionalizada
pelo estagirita. A
paixão
também constitui a
ponte
que aproxima a
retórica e a
poética: na
primeira,
como vimos, Aristóteles “recupera” a
estratégia
patética,
por
ser
fundamental
para a
persuasão psicagógica, integrando-a à
argumentação:
conseqüentemente, a
paixão é universalizada, assumindo
aí a
dignidade de uma tékhne.
Já na
segunda,
como veremos, enfatiza o
aspecto
terapêutico do
prazer provocado
pela
poesia,
através do
qual se atinge a
purificação das
paixões.
No
sexto
capítulo da
Poética, a
tragédia é
definida
como “imitação de uma
ação de
caráter
elevado [...]
que, suscitando o
terror e a
piedade, tem
por
efeito a
purificação dessas
emoções” (1449 b).
Através de
tal
definição –
sem
dúvida, modelada
como uma
resposta à
acusação
platônica de
que o
drama poético,
por
alimentar as
paixões, encoraja a
anarquia na
alma –, Aristóteles postula
que
tal
anarquia pode
ser evitada de
modo
mais
eficiente,
não
por
meio de uma
repressão das
emoções,
mas fazendo
com
que estas se expressem de
maneira regrada. Tendo
em
vista
tal
finalidade, a
tragédia é considerada
um
instrumento de
grande
valia,
por
realizar uma
dupla
operação:
primeiro excita as
emoções de
terror e de
piedade,
para,
em
seguida, acalmá-las, efetuando uma
cura
emocional do
espectador,
que, ao
fim do
espetáculo, se
encontra
mais
sereno e num
estágio
mais
avançado de autocontrole.
As
observações
anteriores deixam
entrever
que,
em uma
radical
diferença
quanto a Platão, a avaliação
aristotélica da mimesis
não gravita
mais
em
torno da
adequação desta ao
mundo das
idéias, considerando,
antes, a
sua
finalidade
persuasiva, o
efeito produzido no
receptor. Nas
palavras de Manfred Fuhrmann, “o
tratado
aristotélico
ainda se distingue da
obra
platônica
pela centralidade concedida ao
efeito da
obra,
através do
segundo conceito-chave da
Poética, o
conceito de
catarse” (apud
Costa
Lima, 1980: 50).
Visto
que a
catarse funciona
como uma
ocasião
para o
escoamento do
excesso de
emoções,
sempre ameaçadoras, os
cantos
que purificam a
alma causam
um
encanto
sem
perigo.
Facilmente se verifica
que,
tanto ao
poeta
quanto ao
orador, concede-se
licença
para
lidar
com o
perigoso
campo das
paixões,
desde
que conheçam a
profilaxia
para
todos os
riscos
que
elas apresentam.
Eis,
em
síntese,
como funciona essa “ortopedia
filosófica” (Lichtenstein,
1989: 74):
em
vez de
censurar as
paixões, permite
que se expressem,
sob a
condição de
que sejam canalizadas
para a
purificação
final.
Já possuímos as
ferramentas
suficientes
para
retomar a
questão
referente à mimesis
que foi deixada
em suspenso.
Mesmo
com a
abordagem
quase
telegráfica de
um
assunto
que se prestaria a
desenvolvimentos
extremamente
complexos, torna-se
possível
perceber
que,
apesar dos
avanços configurados
por Aristóteles ao
reconhecer a
validade das
artes miméticas,
em
sua
obra estas
ainda
não obtiveram
autonomia.
Em outras
palavras, as
artes imitativas, ao saírem da
estrita
jurisdição da
verdade, acedem a uma
dignidade
teórica
nova,
não escapando,
todavia, a uma
outra
forma de
controle: passam a
ser vigiadas e contidas nas camisas-de-força da
ética e da
política.
Para
concluir, deixemos
com Luiz
Costa
Lima a
síntese do
momento
aristotélico,
em
seu
duplo
aspecto:
[...] de
um
lado, libera o
mimético da
rígida
legislação do
discurso da
verdade, e,
por
outro
lado, o mantém
subordinado,
pelo
princípio do
efeito
catártico, ao
prazer aliviador, i.é., o
prazer
que aceita o
jogo da
imaginação
desde
que conduza a
uma
descarga
tranqüilizadora. (1980: 60)
Antes de
fechar a
discussão, importa
apontar rapidamente as
conseqüências dessa valorização do
papel do
espectador na
elaboração da
própria
arte, no
tocante a uma
problemática
já
presente
em Platão e
que recebe,
com Aristóteles, uma
nova
configuração
que conhecerá
grande
fortuna
crítica. Trata-se do
tema da
distância adequada da
representação,
que
passa a
ser considerada
não
mais
em
relação ao
mundo das
idéias,
mas
como
adequação ao
público a
que se
destina.
Tal
adequação será
objeto de
um
maior desdobramento
por
parte de Horácio, elaborador do
famoso
símile ut pictura poesis,
cuja
análise da
distância
conveniente da apreciação
em
cada
gênero poético deixará
um
rastro
marcante na
crítica de
arte
até,
pelo
menos, o
século XVIII.
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