A INFÂNCIA DO VISCONDE DE TAUNAY
NO TEMPO DO IMPÉRIO
ACASO OS HERÓIS SÃO FEITOS PARA SEREM TÍMIDOS?
Iza Quelhas (UERJ)
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As Memórias do Visconde de Taunay foram escritas após 1889, num momento em que o escritor se afasta da cena pública, após décadas de intensa participação política e literária. As Memórias apresentam uma infância descrita como um tempo de felicidade, e, ao mesmo tempo, de formação cultural daquele que cresce e se identifica com os valores do Império. Os privilégios concedidos pelo convívio com a família imperial são decisivos para a sua formação, num tempo em que os sinais de mudança assinalavam uma nova ordem que, nas Memórias, se insinua principalmente pelo olhar e pela palavra do outro. Este artigo integra a pesquisa que venho desenvolvendo e procura investigar, nos textos autobiográficos e literários, (...) o modo como o autor foi individualizado na moderna cultura ocidental, enquanto portador de uma biografia onde se entrecruzam os fios da vida e da obra.
Após a instauração da República, em 15 de novembro de 1889, com a queda das instituições monárquicas e a perda do prestígio político e social de senador do Império, Alfredo Maria Adriano Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, autor de Inocência, um dos clássicos do Romantismo na Literatura Brasileira, inicia uma tarefa emblemática: escrever suas memórias. Tal empreendimento irá substituir, pelo menos em parte, as inúmeras atividades que, até então, vinha exercendo na cena pública do país. As Memórias são organizadas em cinco partes, cada uma correspondendo a um período ou fase importante de sua vida. Focalizo o objeto deste artigo na primeira parte, compreendida entre o período de 1843 a 1858, dessa obra intrigante e irregular, marcada por uma visão melancólica e imobilizadora das questões existenciais. Tanto a infância relembrada quanto o Império já se encontram perdidos na linha do tempo e das transformações sociais, só podendo ser elaborados pela linguagem. Em suas Memórias, o autor apresenta um impressionante quadro social e seus pontos de fuga: a perspectiva de um adulto que se relembra menino, que cresce com seus pais e irmãos num lugar idílico (grande parte de sua infância é vivida em Jurujuba, bairro que se desenvolveu em torno de uma colônia de pescadores, em Niterói). O convívio com o poder, nessa fase, concentra-se na figura do Imperador, descrito pela sua bondosa influência nos círculos públicos e privados, por sua discrição, o que o torna quase uma sombra divina, bastante poderosa afinal, capaz de proteger a todos aqueles que com ele se identificavam.
Assim Taunay nos descreve o cenário de seu nascimento e apresenta sua linhagem familiar:
Nasci na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, a rua do Rezende nº. 87, às 3 horas do dia 22 de fevereiro de 1843. Foram meus pais Félix Emílio Taunay, naquela época diretor da Academia das Belas Artes, filho do célebre pintor da Escola Francesa, e membro do Instituto de França, Nicolau Antonio Taunay, e de D. Gabriela d’Escragnolle Taunay, filha do conde e da condessa d’Escragnolle, esta da família de Beaurepaire, Adelaide de Beaurepaire. Impossível fora gozar e merecer mais dedicação e amor filial, do que experimentei em toda a minha existência, cabendo-me a excepcional felicidade de conservar a minha estremecida e santa Mãe até hoje em que começo a escrever estes apontamentos autobiográficos (6 de novembro de 1890) e meu pai até 10 de abril de 1881, tendo eu, portanto, naquela ocasião 38 anos feitos. (M, p. 3)
Os qualificativos “célebre” e “santa” são exemplares. É decisiva a compreensão do papel do homem e da mulher, nessa sociedade brasileira de meados do século passado, cenário de lugares marcados e restritos à vontade daqueles que representavam o centro do poder. O projeto de construção de um indivíduo, com uma história pessoal, vincula-se à idéia de um sujeito uno e racional. A mulher é engendrada nesse processo como função, a de mãe e/ou esposa, por exemplo. A mobilidade do pai ‘naturaliza’, de uma certa forma, a imobilidade de uma mãe que não é ausente, mas inexpressiva, em contraste com as figuras masculinas que dominam a fase da infância.
Caberia ao pai o papel de celebridade na esfera pública do Império, enquanto à mãe, como se exigia de uma mulher “santa”, em pleno século XIX, caberia o espaço privado da casa.
Direi agora que meu pai, embora sem posição oficial, além da de professor e diretor jubilado da Academia das Belas Artes, gozava, nos vários círculos da sociedade brasileira, de tal ou qual influência e algum prestígio. De um lado por causa da seriedade que sempre o distinguira em todos os negócios e da pontualidade e ordem dos pagamentos, de outro pela extrema polidez e amabilidade até exagerada, de outro ainda e principalmente pela circunstância de ter entradas constantes e privadas em S. Cristóvão e ser tido em conta de amigo particular do Imperador. (M., p. 21)
Os pais são importantes e decisivos em função de um objetivo: a formação de um filho para a cena política. É significativo o fato de que as Memórias do Visconde de Taunay mantiveram-se sob a guarda da Instituição que mais se empenhou (...) em difundir o conhecimento do país, ao mesmo tempo em que buscava transmitir uma identidade particular: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838. Como é citado em “À guisa de intróito”, Taunay confia (...) seus manuscritos à guarda da Arca do Sigilo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro” (M., p. X).
Ao escrever sobre a sua experiência escolar, Taunay irá detalhar esse período de sua vida em outra instituição importante para a monarquia: o Colégio de Pedro II. O primeiro dia na instituição é marcante:
Segunda série dos estudos do Colégio de Pedro II.(...) O primeiro dia foi de enorme atravancamento - coisa estupenda! Primeiro que tudo julguei de necessidade e até obrigação levar comigo todos os livros já de freqüência das aulas, já de consultas. Assim, meti o grande Magnum lexicon e o grosso Alexander no cesto de pão, que o Gregório, o boleeiro de casa, vinha gravemente carregando, atrás de mim. (M., p.22)
O entusiasmo do menino sugere a leveza daqueles que são levados por um cavalo alado, talvez Pégaso, mas a figura de Gregório a carregar um cesto de pão - “gravemente”, “atrás de mim” - sinaliza o peso da exploração do trabalho numa hierarquia social secular.
O escritor relata poucos conflitos durante essa fase, quase sempre resolvidos pelo pai e/ou o Imperador. Considera-se, na maioria desses episódios de conflito ou tensão, superior aos seus opositores. Os pais, além de manterem a harmonia doméstica, são responsáveis por uma educação rígida centrada nos estudos e no adestramento do corpo, moldando-o para o trabalho intelectual. A educação será um dos tópicos mais importantes dessa parte das Memórias, e é decisiva para que se possa compreender a dimensão de um certo tipo de violência paterna, que o obrigaria a estudar horas e horas, até alcançar o máximo de rendimento.
Nesse tempo de Jurujuba, já estava eu às voltas com os estudos, começando o do latim na História Sagrada de Lhommd. O tal Epítome, apesar de toda a simplicidade mais que elementar, dava-me trabalho enorme, provocando da parte de meu pai contínuas recriminações, no meio de exclamações de cólera e indignação - “Tu n’es qu’un imbécile!” era afirmação que voltava a cada instante. Às vezes a lição interrompia-se com as minhas lágrimas, e minha Mãe vinha, com toda a solicitude, procurar ajudar-me. (M., p. 12)
A infância, desse modo, apresenta-se como um tempo de aprendizagem, sendo descrita a ênfase na formação de um certo tipo de sujeito e suas práticas sociais. A disciplina do corpo e da mente está presente em cada uma das páginas dedicadas a esse período. O pai é o responsável direto por essa disciplina, mas a figura do monarca, ao longe, parece acompanhar cada passo desse menino escolhido para ser um autor no tempo do Império.
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Mas de que forma Taunay representa, nas Memórias, a formação de sua identidade de intelectual? É significativo o episódio que destaco a seguir, na íntegra, no qual o autor, ao concluir a descrição da primeira fase de sua vida, menciona uma ponta da trama que envolveu o seu nome:
¾ Mas estás louco, respondia-me, absolutamente louco! Ousar estragar um belo nome! Propus-lhe então escrever o nome com um n só ou dois nn, Tonay ou Tonnay, para evitar a dificuldade dos dois ditongos au e ay que não têm correspondentes em português. Tanto mais aceitável era a transação, quanto primitivamente o nome da família se escrevia daquele modo, e disto temos prova nas duas cidades do Saintonge: Tonnay - Charente e Tonnay - Boutonne.Naquele dia, 24 de dezembro de 1858, foi que usei pela primeira vez e oficialmente do nome de Alfredo d’Escragnolle Taunay, suprimindo os dois apelidos complementares Maria e Adriano, que davam sempre motivos a reparos. Para tanto pedi licença a meu pai, procurando também convencê-lo da conveniência de aportuguesarmos os nomes franceses escrevendo Escranhóle (com um h em vez do gn e um l só) e Toné (T..o, to; n..é, né).
Aleguei a adaptação idêntica que se dera com os nomes Sodré e Luné, derivados de Saudray e Launay, este então absolutamente como o meu, apenas com a diferença da letra inicial.
¾ Não, não de todo, replicou-me ele, trata de impor o teu nome ao país tal qual é!
Ignoro se cheguei ao objetivo que me foi apontado; o que afirmo é que se tornou bem longa, penosa e difícil a iniciação do jornalismo e do público às agruras do meu nome, áspero às primeiras audições, mas depois agradável aos ouvidos que a ele se tenham habituado. (M., p. 77-78)
A audição, portanto, é também uma via de construção do “hábito”, que sanciona certo tipo de comportamento numa sociedade colonialista que legitima suas práticas na repetição de modelos importados de disciplina e controle. Luiz Costa Lima, em seu ensaio “Dependência cultural e estudos literários”, ao esclarecer o papel da auditividade e sua relação com a dependência cultural, constata que em (...) “uma sociedade permeada pelos hábitos próprios ao auditivo, as chances de difusão de uma idéia se relacionam à sua prévia legitimação por um centro reconhecido.” A aspereza do nome, mencionada por Taunay, pela força da repetição, já considerada como legitimadora, aponta as tramas da construção da figura do autor na sociedade brasileira do século XIX.
É indisfarçável o orgulho de Taunay pelo seu nome e pela sua linhagem francesa, o que se pode associar a um comportamento social comum entre famílias de origem estrangeira pertencentes às classes favorecidas, num país marcado pelas contradições, sem uma identidade nacional, construído sobre a escravidão e o silêncio imposto às classes dominadas. Ao mencionar o ano de 1851, quando o pai ficara enfermo gravemente, após “(...) jubilação como professor e diretor da Academia das Belas Artes” (M., p.8). Taunay esclarece:
[A jubilação] Dera-se em conseqüência da luta encabeçada, nos jornais, pelo Porto Alegre, que clamava contra o fato de ser ele estrangeiro não naturalizado. Apesar das verdadeiras instâncias do Imperador, não quis ele dar o braço a torcer, declarando que só deixaria de ser francês, quando o Brasil decretasse a lei da grande naturalização.
Pois eu lá vou pedir folha corrida ao inspetor do meu quarteirão para instruir o meu humilde requerimento?” E continuava com indignação: “Demais, para quê? Para não poder alcançar o que qualquer estúpido, nascido por acaso aqui, pode ser? Não! Ao estrangeiro os brasileiros têm verdadeira aversão. E por muito tempo assim há de ser!... (M., p. 8)
Mais adiante, curiosamente, Taunay fará menção a um grande relógio:
(...) metido em comprida caixa envernizada, o qual repetia as horas, com som claro e alegre, além de dar as meias horas. Pertence hoje a minha Mãe. Muito me prendia também outro de mesa debaixo de redoma de vidro e representando a Fama montada em Pégaso, cavalo dourado e com asas prateadas, que se me afigurava riquíssima peça. (M., p.8-9)
A sucessão de episódios narrados revela uma faceta da personalidade do pai entrelaçada aos signos de ostentação da vida mundana. A representação da Fama, montada no cavalo nascido do sangue do corpo decepado da Medusa, pode sugerir alguns tópicos interessantes como indícios metafóricos de identidade e formação cultural do sujeito-autor. O objeto, na descrição de Taunay, deixa de ser concreto para assumir-se como signo do tempo e da arte, numa alusão ao cavalo de Perseu que venceu o desafio da Medusa. O relógio também sugere a ilusão de uma identidade fixa, imutável no tempo que corre, o que é uma estratégia autobiográfica recorrente na obra em questão.
Fredric Jameson afirma que a autobiografia constrói a ilusão de uma identidade pessoal, subjetiva e privada, mediante duas operações ilícitas: a primeira é a de encontrar um sentido alegórico no passado da infância, que é visto agora como o lugar em que meu ego atual se formou e se desenvolveu. Tal operação torna-se ilícita ao presumir que
o presente (nesse momento ainda um futuro) já estava aí quando ocorreram os acontecimentos desse passado. A segunda operação ilícita diz respeito ao tema da memória e da temporalidade profunda, seu pathos obrigatório e o tom elegíaco com que é sempre evocado e desdobrado nos alertam para um componente e um impulso ideológico, e para a vontade de construir uma visão específica da natureza humana que carrega uma certa melancolia e os efeitos contemplativos correspondentes. Jameson relaciona tais operações a uma das formas de romance denominada romance de formação, afirmando que tais romances são máquinas de produzir subjetividade, máquinas desenhadas para construir ‘sujeitos centrados'
Essa conclusão merece ser desdobrada ao lado de outras reflexões sobre as autobiografias, problematizadas em outras áreas de conhecimento, como a Psicanálise, por exemplo.
Acrescento que As Memórias de Taunay apresentam essas operações numa linha de continuidade: a das autobiografias de indivíduos exemplares, que se formulam como exemplo a partir de uma visão testemunhal, e não como problematização da própria existência.
Em artigo intitulado “A psicanálise no contexto das autobiografias românticas”, de Luiz Augusto M. Celes, o autor evidencia dois tipos básicos de autobiografias: aquelas que teriam por sujeito o indivíduo
seguro, ou quase, de sua formação, e que se apresentam como testemunhas ou exemplares e aquelas cujo sujeito não está certo de si mesmo e que a empreende não só em busca de autocompreensão, mas também como uma tarefa terapêutica, quer dizer, de formação de si diante de um outro,
citando como exemplo para o primeiro tipo o caso de Goethe, e, para o segundo, Rousseau.
Taunay, desde o início de suas Memórias revela-se cartesianamente seguro, mas melancólico em relação, principalmente, às mudanças ocorridas no espaço e no âmbito das relações pessoais. Numa leitura inicial, a lembrança da infância não sugere nenhum desgosto, sendo (...) uma das mais risonhas quadras de minha meninice, período de vida sem nenhuma sombra sequer de desgosto. Creio que hoje assim se afigura a lembrança de toda a minha gente. (M, p. 19)
No entanto, no decorrer da narração, em vários momentos, a imagem de felicidade será atravessada pelo corte imposto por uma nova ordem - a República -, inserindo o acontecimento histórico no campo da escrita, o que, para Taunay, é o exercício de uma subjetividade centrada na imagem do Império. Um pouco antes de terminar a descrição da fase feliz de sua vida, Taunay insere, no capítulo XVIII, um trecho bastante amargurado, no qual cita a vergonha que sente pelo afastamento do soberano.
Sim, vergonha intensa, candente, pela revoltante iniqüidade praticada para com o mais ilustre e bem intencionado soberano que jamais houve.
Dissipou-se a límpida atmosfera de honestidade que cercava os primeiros funcionários do Império, a exemplo dos incessantes rasgos de desinteresse do Senhor D. Pedro II. E multiplicaram-se os exemplos de concussão e desbarato dos dinheiros públicos que em poucos meses enriqueceram uma nuvem de agiotas e especuladores, que, a todo o transe, queria por em leilão este pobre Brasil!
Acusavam por último o Imperador de não governar mais e deixar tudo ao cuidado dos ministros do Estado. Queixume de quem a cada instante precisava sentir o domínio do potentado, do senhor! Então para quê essa discussão perene sobre poder pessoal, essa censura incessante, essa batalha diária ferida pela soi-disante dignidade dos políticos? (M., p. 74)
Mais adiante menciona a “apática indiferença do povo e o adesismo dos políticos (alguns senadores e conselheiros do Estado até, que vergonha!)” (Idem), o que aponta uma das três imagens de nação construídas pelas elites políticas e intelectuais. Nas palavras do historiador José Murilo de Carvalho,
desde 1822, data da independência, até 1945, ponto final da grande transformação iniciada em 1930, pelo menos três imagens da nação foram construídas (...) A primeira poderia ser caracterizada pela ausência de povo, a segunda pela visão negativa do povo, a terceira pela visão paternalista do povo.
Enquanto o povo estaria ausente na proclamação da República, durante a infância de Taunay, o Imperador é descrito como uma presença dominante e carismática, mesmo entre aqueles que estão sujeitos ao seu domínio, impondo sua presença até quando age sem querer ser visto.
Em meados de 1852, fomos passar boa temporada na Jurujuba, para lá da baía do Rio de Janeiro, por detrás do maciço rochoso da fortaleza de Santa Cruz, um dos mais pitorescos locais da baía, que os tem tantos e tão variados. Habitávamos vasta casa abarracada e em parte ladrilhada, pertencente ao governo e que meu pai ou alugou ou ocupou, gratuitamente, por algum tempo - não sei bem. (M., p. 9)
O quadro é vívido e poético, a cena alegre seduz e conduz a vida daquele que se representa como ‘eleito’.
Tenho bem vivas as amenas perspectivas que se desfrutavam de diversos pontos da casa da Jurujuba, edificada no alto de suave outeiro, já sobre o grosso da povoaçãozinha à esquerda, já sobre a praia da frente, no nosso porto de desembarque, já sobre a praia da Igreja, por onde se ia a praia de Fora, isto é, à orla do mar alto, fora da barra.
Ali costumávamos ir pescar com o Tomás e os filhos da Benedita, mulher do pescador Fortunato, que, aos sábados habitualmente levava meu pai de manhã cedo à praia das Flexas, em S. Domingos, tomando ele daí, a pé, rumo das barcas.
Por detrás da cena quase árcade, bastaria trocar o mar pelo campo e o pescador por um pastor, sobressai a figura do Imperador e a do pai. Em comum os hábitos aristocráticos:
Ia a S. Cristóvão ter com o Imperador e juntos faziam leituras, quer de jornais da Europa, quer dos grandes clássicos.
Estas conferências, em outras épocas, que não de férias, davam-se às terças-feiras e aos sábados, e o Monarca com elas imensamente lucrou na esfera literária, e na científica e artística, pois meu pai tudo levava preparado, os jornais anotados para dispensar pesquisas inúteis, páginas inteiras de leitura condensada e imediatamente proveitosa. (M., p. 10)
É significativa a eficiência servil desse pai que faz de suas relações com o monarca uma atividade intelectual, bastante influente aos olhos do filho que via, nesse ambiente de convívio e culto à inteligência e ao indivíduo, a projeção da importância dada à figura do autor, nos limites do privado e do público. A diluição ou o apagamento de limites entre a convivência cordial e o exercício de atividades profissionais é uma estratégia utilizada por Taunay em vários episódios, permanecendo o pai e o monarca como figuras de um centro em torno do qual se esbatem as diferenças. Essa fase na vida do escritor assemelha-se a um sucessivo desdobrar de relações espelhares - o próprio Taunay projeta-se nas figuras do pai e do Imperador -, enquanto os demais atores assumem apenas funções secundárias, sem importância na construção de uma vida e seu destino, como parece entender Taunay.
Em outro trecho, Taunay refere-se, mais uma vez, aos serviços prestados pelo pai ao Imperador:
Isto durante anos e anos, na prática do maior desinteresse por parte de quem gastava, e não pouco, do bolsinho, só em conduções para ser útil ao imperial amigo.
Em compensação, força é confessar, o Senhor D. Pedro II lhe deu provas de inexcedível estima e consideração, sempre e sempre, e não pouca paciência exercitou para com ele, quando, em avançada idade, meu Pai se achou sob a obsessão de idéias fixas e teimosas. (M., p. 11)
Os favores aproximam-se dos deveres, amizade e trabalho misturam-se no exercício de papéis, e para Taunay é o reconhecimento e não o privilégio apenas uma conseqüência, apagando-se, mais uma vez, os frágeis contornos entre o público e o privado.
Nessa reciprocidade, feito o balanço eqüitativo, um nada ficou a dever ao outro, tendo havido por ocasião dos apuros de meu tio Teodoro Taunay na liquidação das contas do Consulado francês, não pequena dádiva feita pelo Imperador, com a maior discrição e gentileza. (M., p. 11)
Mas não é apenas o pai que recebe as graças do monarca, Taunay irá citar o frei Camilo de Montserrate,
(...) monge beneditino, nomeado naquele ano diretor da Biblioteca Nacional.
Esta nomeação se fizera por influência direta do Imperador, já para aproveitar a profundeza de conhecimentos daquele sábio, já para libertá-lo de formidáveis intrigas de convento, já enfim, por ser ele filho natural do duque de Berry, filho de Carlos X.
(M., p. 34)
O monarca, mais uma vez, aparece como aquele que promove um certo tipo de justiça a um certo tipo de sujeito, uma vez que o próprio Taunay enumera as relações de parentesco entre o frei e a nobreza européia. As contradições e os desequilíbrios são resolvidos pela ação eficaz do Imperador, cabendo a Taunay o registro desse exercício incansável de dar ao movimento do mundo uma direção fundada na visão de justiça do Imperador.
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Em recente e interessante artigo - “Infância e poesia” - publicado pela Folha de São Paulo, no Caderno Mais (9/08/98), o poeta José Paulo Paes escreveu sobre a infância e a poesia, lembrando o papel de Rousseau para a compreensão e difusão da “idéia da infância como felicidade”, considerada uma novidade na Europa, em fins do século XVIII. Taunay, de uma forma bastante peculiar, vale-se de operações e estratégias para que a infância, recordada como felicidade plena, esteja vinculada à construção de um sujeito centrado, conforme denomina Jameson. A perspectiva desse sujeito centrado, no Brasil, aparece estreitamente ligada a certos privilégios bastante comuns para aqueles que eram favorecidos pelo convívio com o poder. Também é importante vincular tal perspectiva ao culto de uma imagem e sua identidade: um sujeito seguro de sua formação, sem crises ou dúvidas quanto a seus valores e aos seus atos, a não ser aquelas que vislumbra no outro e no contexto que o rodeia e muda a cada instante.
Para José Murilo de Carvalho, “Portugal e monarquia lembravam o domínio colonial, a força ainda atuante da presença portuguesa na economia, a tradição absolutista, a cultura retrógada da antiga metrópole”, o que está denunciado pelo olhar e pela palavra do outro nesse trecho das Memórias, no qual Taunay menciona a sua entrada no colégio, considerada ridícula para os outros e triunfal apenas para ele:
A minha entrada na portaria do Colégio não deixou, pois, de ser notada; houve até um aluno que gritou: Ó padeiro! E por uns dias assim me chamaram, mas como jamais pegaram as diversas alcunhas que na carreira colegial quiseram dar-me, cedo se esqueceram os rapazes dessa que, aliás, não tinha nenhuma razão de ser. (M., p. 22)
A preocupação é com a imagem que nomeia e assegura um lugar, sendo constantes os auto-elogios, mesmo quando colocados numa cena onde os outros parecem arranhar essa imagem de si mesmo:
Por ocasião destes exames, que duraram muitas semanas, comecei a me sentir mais seguro de mim e a desfrutar o gozo dos elogios e do aplauso. Possuindo-me de súbita confiança , em mim mesmo e desenvolvendo os muitos elementos que a convivência do meu pai, os seus conselhos e admoestações me haviam a pouco e pouco incutido, prestei em geral bons exames, alguns até brilhantes, suscitando nos companheiros admiração e estranheza, pois de mim formavam juízo abaixo do que eu merecia.
Dessas provas recebia excelente impressão o Imperador, que logo a transmitia, simpática e amavelmente, a meu pai.
Sua Majestade, dizia este todo ufano em casa, mostra-se sobretudo surpreso com o aprumo de Alfredo. Parece que realmente chega a ser inaudito.
- Ora, esta, exclamava meu tio Carlos, acaso são os heróis feitos para serem tímidos? (M., p. 69)
Em um outro momento, ao hesitar entre contar ou calar-se sobre um episódio que envolvia um professor e seu comportamento em sala de aula, Taunay compara-se a Rousseau, justificando sua “sinceridade”:
Que singular pedagogo!
Entremeava as preleções com palavras e anedotas inconvenientes.
E não ficava só nisso, mas... dí-lo-ei? Não imprimirá a minha falta de reserva feição pornográfica ou, melhor, pouco asseada, a estas páginas?
Vacilo, embora o valor de memórias, escritas na absoluta sinceridade de recordações, esteja exatamente na lealdade com que são redigidas e na confissão minuciosa de todos os fatos que compõem uma existência, de todas as observações e pensamentos que os sucessos provocaram.
Não é Jean Jacques Rousseau, que queria apresentar a Deus as suas Memórias para lhe ser dispensado qualquer interrogatório, tão verdadeiro e individuado havia sido em contar tudo quanto lhe sucedera em vida? (M., p. 25)
Mas o sentimento que Taunay identifica como sinceridade irá repetir-se mais tarde, quando lamenta, na idade adulta, ter proibido sua mãe de comparecer à formatura, evidenciando, mais uma vez, um comportamento anacrônico e narcisista:
Grandes desejos mostrou minha boa Mãe de ir assistir ao ato, levando consigo a Adelaide. E ainda hoje me punge o remorso de haver contrariado, de frente, projeto tão natural e simples, pretextando que não era costume assistirem senhoras àquela cerimônia, o que era em parte exato.
Depois foi que se generalizou a presença do belo sexo em festas acadêmicas. Ao passar por diante das senhoras ouvi uma que disse bem alto: “É o mais bonito de todos!” e tal elogio ainda mais me entumeceu o peito. (M., p. 71-72)
Para concluir, seleciono uma imagem que parece configurar o desejo de movimento de Taunay, em pleno gozo dessa infância idílica e seu desaparecimento:
Para robustecer-me,[meu pai] levava-me, diariamente, meu pai, a tomar banhos de mar na praia de Chichorra e, enquanto eu estava n’água, lia ele Homero num livrinho de edição estereotipada, em que assentou a data da primeira vez que comecei a nadar, acompanhado do indefectível Tomás, meu companheiro de meninice, depois excelente auxiliar da casa até o último dia de vida, a 6 de dezembro de 1886. (M., p. 14-15)
A leitura e as anotações do pai, nas páginas de um livro cujo autor é Homero, podem remeter ao que afirma Foucault sobre o papel da escrita como sendo o de “(...) constituir, com tudo o que a leitura constitui, um ‘corpo’”. No entanto, esse corpo não se revela como um corpo de doutrina, mas sim “(...) transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’ (...)”. Nas Memórias, esse corpo constituído por essa recoleção de coisas ditas, lidas e ouvidas é a própria identidade do escritor que nelas aponta uma “genealogia espiritual inteira”, assim como o esforço e a disciplina necessários à constituição desse corpo disciplinado para acreditar, principalmente, na força do Império.
O “companheiro” de meninice, Tomás, é um auxiliar da casa e partilha, como Gregório, apenas do percurso de um menino formado para ser um autor, inserido - a letra do pai - como um herói nas páginas de Homero. A distância temporal e as diferenças sociais são atenuadas, como se, no tempo do imperador, todos fossem iguais, apesar de... As datas sinalizam a importância da perda, mas não alteram o quadro da história. O futuro estava ali, em pleno movimento, mas para o Visconde de Taunay, esse futuro como força movia-se apenas para ele.
Os espelhos foram partidos e a República inaugurou, também, outros problemas, mas iniciou um processo de mudanças, ainda hoje em forma de promessas para grande parte da sociedade brasileira. A literatura autobiográfica permite entrever essas e outras contradições. Pode-se, também, vislumbrar formas de aprendizagem, entre elas não a “(...) perda do nome, mas a multiplicação dos nomes próprios”. A leitura das memórias pode propiciar uma prática de cidadania fundada na leitura de um passado entendido também como imaginação e desejo, ao buscar, nos entrecruzamentos entre literatura, história e psicanálise, as práticas sociais que nos podem revelar as várias formas de pensar, agir, sentir e escrever um tempo e um espaço, assim como os atores que o atravessam. A reflexão decorrente desses estudos pode apontar e ajudar a construir novas formas de pensar, agir e sentir na cena contemporânea que não pode abrir mão de um passado ainda tão vivo entre nós.