A TRADIÇÃO DA CRÍTICA LIBERTÁRIA
E AS CONCEPÇÕES IDEOLÓGICAS HEGEMÔNICAS
Silvia Miranda Boaventura (UERJ)
A análise ideológica tem sido o objetivo da crítica desenvolvida pela tradição marxista, desvelando as idéias materializadas, hegemônicamente, que informam o sistema de dominação vigente nos diversos estágios históricos.
A ideologia é alienação, para Marx, enquanto manifesta uma situação histórica que propicia desvirtuamentos, a leitura desta situação permite uma construção teórica também desvirtuada da realidade. A ilusão ideológica confunde o universal com o particular distorcendo a compreensão da realidade, em uma sociedade em que o homem ainda não promoveu a sua libertação como indivíduo - o que significa a junção das suas singularidades com as características comuns à totalidade do gênero humano -, os homens não atuam juntos nem reconhecem a interdependência entre eles e culminam por se pensar fora da história.
A dissociação entre os homens através da divisão social do trabalho e da propriedade privada faz com que em cada época as idéias da classe dominante tornem-se gerais, 'a classe que dispõe dos meios da produção material também dispõe dos meios da produção espiritual.
O exercício do poder espiritual necessita da arregimentação dos pensadores ‘dentro da classe dominante para construírem como "ideólogos ativos" representações coniventes e convenientes com a classe, contudo passíveis de universalização’. Esses ideólogos apresentam o interesse de sua classe como se fosse comum a todos os integrantes da sociedade.
Os produtos culturais, elaborados por esses ideólogos, embora sejam plasmados pela distorção ideológica na visão conjuntural, trazem ao mesmo tempo elementos de conhecimento. Os representantes culturais também podem produzir expressões originais que revitalizam a cena do mundo, mesmo com os traços ideológicos da classe dominante caracterizados em suas obras.
A criação de uma nova cultura, para Gramsci, ultrapassa a originalidade de descobertas individuais para privilegiar a difusão crítica do conhecimento já adquirido, transformando-o em ação renovadora, intelelectual e moralmente, da sociedade. O pensamento coerente e unitário da realidade presente, socializado, sobrepõe-se em importância e originalidade à restrita circulação de uma nova verdade entre pequenos grupos de intelectuais.
Segundo Gramsci, os pensadores e os cientistas lideram toda concepção de mundo, mantendo permanente e organizadamente as convicções sobre a validade de determinada concepção para o povo. Mas, a superação do senso comum e das concepções de mundo anacrônicas têm que emergir das camadas populares. O movimento cultural, que venha substituir os projetos hegemônicos da classe dominante, terá que promover intelectualmente a massa, formando elites populares qualificadas para sustentar o processo de mudança, “para tal a repetição de argumentos instrumentaliza, pedagogicamente, a ação sobre a mentalidade popular.”
A desalienação e a superação do senso comum evidenciadas, respectivamente, por Marx e Gramsci como movimentos libertadores de concepções ideológicas historicamente hegemônicas, relacionam-se com a dialética do "esclarecimento" proposta por Adorno e Horkheimer e com a "iluminação profana" pensada por Benjamin na visão emancipadora das cristalizações ideológicas vigentes na contemporaneidade.
Contudo, Horkheimer e Adorno desacreditavam de quaisquer revoluções coletivas, duvidando do propósito libertário dos movimentos de massa na transformação da sociedade, a práxis revolucionária, para eles, é o próprio pensamento em constante e interminável esforço de esclarecimento. Já Benjamin acautelava-se quanto à categoria da totalidade no método dialético para que não se constituísse em uma ilusão arbitrária, desconsiderando as possibilidades emergentes e não contidas na totalização, que segundo a perspectiva benjaminiana afigurava-se como instantâneos iluminadores mas fugazes, “sempre passíveis de outras retotalizações”, e não como um saber científico estabelecido, completo e inamovível ao qual a sociedade emancipada chegaria.
A indústria cultural, que expressa o domínio do capitalismo tardio sobre a sociedade atual, é avaliada de maneira divergente por Adorno e Horkheimer de um lado e Benjamin de outro. Os dois primeiros radicalizam a negação total a essa cultura de massas, enquanto Benjamin, ao criticá-la, garimpa, dialeticamente, achados novos na seriação cultural generalizada.Todavia, Horkheimer, Adorno e Benjamin flagram na cultura não só a representação e a consolidação da ordem estabelecida, mas também a função de criticar e a de denunciar a imperfeição e a contradição desta mesma ordem.
Adorno e Horkheimer partem do princípio de que "a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor" , mas ao mesmo tempo constatam a regressão inerente a este conceito. Ao não refletir sobre esse elemento regressivo, o pensamento não se supera e afasta-se da verdade.
Na trilha dessa compreensão percebe-se a anulação do indivíduo, face à sociedade massificada, articulada à reificação das criações do espírito, concretizadas em bens culturais e distribuídas para fins de consumo. "A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo". O sistema constitui-se sobre a identidade, excluindo o que não se adapte, e forja a democratização do usufruto cultural, massificando-o.
Ao focalizar a arte neste contexto manipulado, Adorno e Horkheimer discernem sobre a arte "séria " e a "leve ", as obras eruditas e as de vanguarda manifestam a primeira, enquanto as populares representam a segunda.
A arte séria traz em si a beleza singular e ao mesmo tempo as desigualdades sociais na sua inacessibilidade aos despossuídos. A arte leve figura a diversão que descontrai os trabalhadores das suas ocupações diárias. Se uma sempre existiu junto a outra de maneira excludente, a divisão mostra a verdade: a falácia da reconciliação antitética; esta esvazia as contradições sociais contidas naquela negatividade cultural.
Nesta conjuntura paradoxal, a arte é uma resistência, porque traz à consciência da humanidade as suas próprias possibilidades de desenvolvimento para além do que é dominado e aviltado pela comunicação corrente, a arte precisa ser anti-social para poder ser social, “ sua autonomia é um momento de utopia e liberdade contra a subjugação que a imitação significa no plano social”.
A compreensão da sociedade industrial no século XX, mais precisamente na década de 40, que Adorno e Horkheimer demonstram: a repetição mecânica da vida diária anulando a imaginação e a espontaneidade do indivíduo, transformado em consumidor de necessidades produzidas para assegurar o ritmo da produção, movimento contínuo e ilusório pelo qual o novo é sempre o mesmo, associa-se com a percepção que Marx teve da sociedade burguesa no século XIX. Sociedade esta, em que as possibilidades de realização humana se reduzem a acumular bens, cuja produção empobrece física e espiritualmente seus confeccionadores. Tanto os burgueses quanto os proletários estão cindidos de sua natureza humana.
A classe que se liberta traz nesse movimento a consciência de que só se manterá em liberdade se os demais tiverem a mesma condição, o que conduz à dissolução das classes e ao apaziguamento do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
A utopia socialista não se concretizou, o tempo e o lugar dos quais falam Adorno e Horkheimer forjou a sociedade de massas onde "o sujeito individual é livre do ponto de vista do mercado, mas não na perspectiva do estado, que violentamente ou manipuladoramente preserva a existência desse mercado."
Benjamin, ao relacionar a percepção humana com a obra de arte, afirma seu condicionamento natural e histórico e propõe duas categorias de análise: o valor de culto e o valor de exposição da obra. Na Idade Média, em um mundo tomado pela religiosidade, o valor de culto prepondera sobre o valor de exposição, quase inexistente. Quando o mundo começa a se dessacralizar, a obra de arte vai sendo liberada para a contemplação em que o culto do belo seculariza-se. A passagem do período burguês para a sociedade de massa conduz ao máximo o valor de exposição da obra de arte e à perda de sua aura.
Mas, abrindo-se para a apreensão das contradições de sua época, o pensamento dialético de Benjamin capta na perda da aura também alguma vantagem, a obra de arte torna-se acessível a boa parte da sociedade. “Na medida em que a reprodutibidade técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as suas situações, ela atualiza o objeto reproduzido”.
O que Benjamin contesta é a mitificação do desenvolvimento técnico como promotor, por si mesmo, da melhoria da condição social e da liberdade dos homens. Embora, reconheça o progresso dos "conhecimentos e aptidões "da humanidade, constata que o progresso capitalista produziu também, um considerável regresso social.
A comunicação predominante na atualidade prescinde da experiência, pois a explicação pronta e a novidade contínua das notícias constituem seu eixo, o que expulsa de uma só vez a imaginação e o passado, acentuando o caráter descartável e a alta rotatividade da informação.
Mas, Benjamin observa que o domínio desta forma comunicacional, a par de evidenciar o progresso técnico da transmissão de acontecimentos, permite a fulguração da forma em declínio, a narrativa, naquilo que a constitui, a experiência, a do próprio narrador e a alheia ouvida e assimilada, formando um repertório de conhecimento possível de ser partilhado a cada narração. A arte de narrar que desaparece leva consigo nossa faculdade de trocar experiências. A compreensão benjaminiana do papel do historiador adequa-se aqui:" O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador”.
Benjamin adverte para que não se perca a verdade que a tradição encarna e para que este legado não se desvie de seus herdeiros, na apropriação daquela e destes pelas classes dominantes.
Marx, ocupado da cultura do século XIX, não pôde imaginar o impacto que causariam, à sensibilidade e à percepção dos homens do século XX, sob o signo do progresso, as produções culturais e a sua propagação. As visões dilaceradas, hodiernas, promovem, contudo, a abertura para "o esclarecimento" e para a "iluminação profana" na dialética da arte com a sociedade.
A modificação das circunstâncias históricas une-se à modificação da atividade humana, em um processo mútuo de mudança. O homem desenvolve seu poder sobre o mundo e aprende a se dar conta do poder do mundo. O sujeito capaz de perceber as alternativas que surgem, abre-se para o irrompimento do novo.