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EPISÓDIO E EVENTO
NA ORGANIZAÇÃO TÓPICA DA CONVERSA INFORMAL

Sandra Bernardo (UERJ/PUC-RJ)

 

1 INTRODUÇÃO

 

Apresento, neste artigo, de natureza teórico-metodológica, uma proposta de organização tópica para conversa informal, objeto de estudo da minha tese de doutoramento, com base nos conceitos de episódio e de evento refinados por Gorski (1993, 1994). A segmentação em partes maiores que o turno (Sacks, Schegloff & Jefferson, 1974 e Schegloff, 1972), revela um princípio organizador subjacente à argumentação conversacional.

A conversa, com duração de meia hora, foi gravada durante um jantar em 1988, no Rio de Janeiro, com a participação de cinco pessoas: Wilton (27 anos; carioca), Bebete (31 anos; piauiense), Luana (7 anos; carioca), Isalmir (30 anos; carioca) e Célia (23 anos; carioca), responsável pela gravação.

 

 

2 TÓPICO, EPISÓDIO E EVENTO

 

O termo tópico é usado na literatura lingüística para conceituar fenômenos sintáticos e discursivos. Em nível sintático, dentro dos limites da oração, trata-se de estruturas com topicalização e deslocamento. No âmbito discursivo, tem sido tratado ora em nível textual/discursivo, em que este, identificado como assunto, é depreendido a partir de uma estrutura hierarquizada; ora em nível sintático, sendo considerado ponto de partida de um enunciado. Ambos os tratamentos contextualizam o tópico lingüística e situacionalmente.

Gorski (1993) vincula as manifestações oracional e textual/discursiva do tópico, propondo-lhe uma abordagem única. Segundo a autora, no âmbito da frase,

 

...tópico corresponde ao participante de um evento ou situação codificado morfossintaticamente, no plano seqüencial, como elemento sobre o qual se fala, ou como ponto de referência do enunciado. Esse tópico é visto numa estrutura linearizada, sendo explicitamente mencionado e podendo ser codificado com diferentes graus de proeminência... (Gorski, 1993: 32). [Conferir também Naro & Votre, 1991].

 

Nesse sentido, pode-se falar em tópico primário e secundário (cf. Givón, 1991). O fato de estar limitado à frase não descarta o componente lingüístico-situacional (relação de referência a partir de uma palavra).

No âmbito do texto/discurso, Gorski trata o tópico em uma estrutura hierarquizada, ordenado por graus de abrangência, “de modo que tópicos mais gerais dominam e recobrem tópicos que sejam especificações do tópico global” (op. cit.: 32), seguindo, portanto, a linha de Mentis (1988), para quem estes não costumam ser codificados explicitamente no discurso.

Nas perspectivas do falante e do ouvinte, os tópicos e subtópicos, organizados em camadas, “precisam ser depreendidos e controlados para que a comunicação se efetive” (Gorski: 33). Na perspectiva do analista, são explicitados através de um rótulo que capte o que está sendo tratado sob seus domínios. É tarefa do analista apreender a abrangência de cada tópico e subtópico para que a segmentação do texto se processe.

Assim, na proposta de Gorski (1994), tópico “é uma categoria discursiva que se manifesta simultaneamente nos planos hierárquico (vertical) e linear (horizontal) do discurso” (p. 34). No nível semântico-discursivo, tópicos e subtópicos “sintetizam fragmentos de discurso”; no nível sintático-semântico-discursivo fornecem “pistas lingüísticas” para “(re)constituição dos tópicos semântico-discursivos”. As construções de tópico, “juntamente com outras estratégias de construção frasal, estão, como mecanismos de codificação, à serviço do tópico discursivo”. Logo, o tratamento dado por Gorski ao conceito de tópico coloca as duas abordagens básicas - sintática e discursiva - como as duas faces de uma mesma moeda, que se “imbricam numa inter-relação entre função e forma, já que o que é dito se projeta necessariamente no como é dito” (p. 34-5).

Tal conceito é operacionalizado por Gorski (1994) nos conceitos de episódio e de evento, refinados a partir de van Dijk (1992), Chafe (1980) e Tomlin (1987), entre outros, para o estudo de narrativas orais e escritas em língua portuguesa. A autora define episódio como uma “unidade semântico-discursiva, constitutiva do texto narrativo, que consiste em um conjunto de eventos relacionados e governados por um tópico central”; e evento como uma “unidade semântico-discursiva, constitutiva do episódio, que corresponde a um centro de interesse [nos termos de Chafe, 1980] que contém ações/estados com graus variáveis de integração, governados por um subtópico global” (p. 69-70).

Embora os conceitos de episódio e de evento tenham sido postulados como unidades discursivas de textos narrativos, foi possível aplicá-los a um texto conversacional praticamente sem alterações. O próprio van Dijk (1992) utiliza a noção de episódio na análise de um texto jornalístico, em que são expressas as opiniões de vários políticos e do entrevistador. O mapeamento dos episódios e seus eventos propicia uma organização para o discurso informal, conferindo-lhe coerência, na qual atuam também elementos cognitivos, sócio-culturais e interacionais, que têm sua contraparte nos enunciados lingüísticos, pois a conversa só ocorre quando os falantes processam e compartilham conhecimentos.

Em termos cognitivos, a segmentação em episódios e em eventos, permite que falante, ouvinte e analista compreendam, recuperem e recordem melhor e mais rapidamente o texto, possibilitando uma representação estruturada deste na memória, na medida em que pequenas seqüências textuais são agrupadas por vez. Nesse sentido, há uma contribuição para o estabelecimento da coerência local, porque propicia aos usuários da língua a identificação dos referentes, das indicações de tempo e das informações relevantes do episódio em curso. Logo, os episódios e os eventos podem desempenhar uma função organizacional na conversa, para qual postulo um gênero essencialmente argumentativo, pois durante tal interação busca-se a adesão dos interlocutores para as opiniões expressas.

A conversa também foi analisada com base na estrutura argumentativa. Tomei inicialmente o modelo de Schiffrin (1987), segundo qual a argumentação pode ser dividida em três partes: (i) posição - nesta etapa, além de expor uma idéia, o falante também se compromete com tal asserção, reivindicando a verdade de sua proposição; (ii) disputa (de uma posição) - fase em que os participantes podem colocar suas posições; (iii) sustentação - estágio em que o falante induz um ouvinte a desenhar uma conclusão sobre a credibilidade da posição.

Contudo, foi necessário articular tal modelo ao de Aristóteles, devido ao fato de, por exemplo, nem sempre haver disputa de posições na etapa de formulação dos argumentos, pois os falantes freqüentemente constroem cooperativa e complementarmente suas teses. O mesmo ocorre em relação à conclusão, na qual, muitas vezes, não há sustentação. O estágio da conclusão pode, inclusive, ser facultativo ou estar implícito em alguma moral. Portanto, o modelo adotado compreende as etapas de posição, formulação dos argumentos e conclusão, com presença ou não de disputa e de sustentação nessas duas últimas fases.

Após o levantamento dos tópicos, segmentei a conversa em três partes maiores, denominadas macroepisódios, rotulando-os conforme o tema abordado: Família comilona, Riqueza da língua portuguesa e Uso da língua, que, por sua vez, foram divididos em episódios e em eventos. Nas próximas seções, apresento a segmentação em episódios e eventos de um trecho dos macroepisódios Família comilona e Uso da língua.

 

 

3 MACROEPISÓDIO FAMÍLIA COMILONA

 

O discurso do macroepisódio Família comilona pode ser caracterizado como o discurso das provas, da demonstração, em que os comentários acerca do apetite exagerado de alguns familiares são comprovados através de pequenas narrativas e ilustrações, que funcionam como evidências em favor da posição dos falantes.

 

 

3.1 Episódio O relato da vovó

 

O episódio em questão foi dividido em quatro eventos, que consistem em subtópicos ligados ao relato da vovó, mais uma demonstração do apetite exagerado de alguns familiares, tema central do macroepisódio ora em análise.

 

 

3.1.1 Evento 1 - Contextualização

 

(C= 22 é... aquele cuscuz amarelo da Bahia...)

[I= 23 ôh Célia// e Vovó Célia//

24 Vovó quando foi... passar... uma

[W= 25 ave maria/]

temporada lá né//...

26 foi exilada lá... né/

27 houve uma dependência...

28 aí mandaram minha avó... pra morar lá com tia Neném:.. né//

29 ela foi:: ((risos))

30 o RELATO dela no: no retorno da viagem é o seguinte/ ((risos))

[L= 31 assim né// ((ao fundo))]

 

Em 23, inicia-se um episódio, pois um novo participante, Wilton (W), introduz um novo fato (Prince, 1981). De 24 a 30, o falante contextualiza os fatos que antecederam o “relato da vovó” a respeito dos moradores da casa de tia Neném. Após a tomada do turno, em 23, I antecipa em 24 e 26 os fatos, deixando lacunas em relação ao referente expresso pelo advérbio (24).

O referente vovó (24) aparece deslocado de sua posição de sujeito para a esquerda, conferindo a tal oração um caráter contrastivo, que enfatiza o tópico da ilustração e serve como estratégia para manter a posse de turno. As construções com deslocamentos para esquerda são freqüentemente utilizadas, segundo Duranti & Ochs (1979), como uma estratégia de manutenção e controle do turno. Os tópicos deslocados tendem a persistir na cadeia tópica, além de estarem relacionados ao discurso precedente (Vasconcelos, 1993: 63).

Pode-se postular que nesse tipo de codificação há atuação de dois princípios discursivos: 1) o princípio da negligência (Berrendonner, 1990), na medida em que o autor não introduz o tópico amarrando os fatos detalhadamente, mantendo seus interlocutores em suspense e deixando que estes comecem a inferir os liames da narrativa; e 2) o subprincípio da ordenação linear do princípio da iconicidade (Givón, 1990b), segundo o qual a informação pouco previsível, nova, que desempenha função de contraste, tende a ser colocada em primeiro lugar, ou seja, é antecipada, devido à sua importância na cadeia tópica.

Por outro lado, tal codificação contraria inicialmente o subprincípio (da quantidade) de que a informação mais nova e mais importante requer maior material lingüístico, embora, em um segundo momento, depois de introduzir o novo tópico, o falante preencha as lacunas e se torne mais cooperativo.

Assim, de 27 a 30, já com a posse do turno, I circunstancia os fatos, preenchendo as lacunas deixadas ao dar sua contribuição com um novo episódio para a conversa. Em 30, I introduz o novo referente relato na posição de sujeito, sobre o qual se concentrará e que constitui o tópico discursivo central desse episódio, finalizando a contextualização.

 

 

3.1.2 Evento 2 - Cadeado na geladeira

 

I= 32 Xará:.. o meu tio... ele amarrava a geladeira com corrente e botava cadeado... rapaz...

[W= 33 que que é isso//]

((risos))

I= 34 é verdade...

 

O segundo evento apresenta as seguintes características estruturais: vocativo - “Xará” -; topicalização de meu tio com pronome cópia ele e uso do imperfeito. A topicalização estabelece um contraste não-opositivo entre esse tópico e qualquer pessoa, conferindo certo suspense em relação ao que vai ser dito, e garantindo, portanto, a manutenção do turno.

 

 

3.1.3 Evento 3 - Pão debaixo do travesseiro

 

(I= 34 é verdade...)

[[

C= 35 con- conta a história do pão/

I= 36 é... minha avó dormia com o pão deba:xo do travesseiro...

W= 37 senão nego surrupiava o pão...

((risos))

I= 38 é:... o reino da solitária... aquilo lá (vou te contar)

C= 39 o reino da solitária... essa foi boa...

((risos))

 

Em 35, a falante C introduz uma nova ilustração (“história do pão”), oferecendo a palavra a I, que expressa outro costume da família, em 36. O comentário de W, na UI 37, conclui a ilustração, inferindo a causa da atitude da avó. Em seguida, os falantes I e C emitem comentários opinativos - 38 e 39.

 

 

3.1.4 Evento 4 - Os olhos do lobo mau

 

I= 40 você chegava lá pra fazer uma visita..

41 aquelesOLHOS... né// ((risos)) os olhos do lobo mau...

42 eles olhavam as partes mais carNUdas.. né//

((risos))

 

Das unidades 40 a 42, o falante tece comentários humorísticos, sobre o apetite dos familiares da casa do tio, fechando o episódio. Quanto à estrutura argumentativa do episódio, considerei as ilustrações e os relatos como uma etapa de formulação dos argumentos que comprovam a posição, implícita, dos falantes sobre o apetite exagerado da família.

 

 

3.2 Episódio A dengue e o pão de Lucinha

 

Neste episódio, os falantes acrescentam novos “casos”, segmentados em três eventos, relacionados à personagem Lucinha, tomada exemplo representativo do apetite da família.

 

 

3.2.1 Evento 1 - Introdução

 

W= 43 mas vem cá... o pessoal todo da tua tia é assim Célia//

I= 44 até hoje rapaz...

C= 45 todo mundo...

I= 46 o pior é que eles não engordam não cara...

47 quanto mais eles comem mais eles emagrecem... ((risos))

W= 48 (muita vontade)

 

De 43 a 48, os falantes tecem comentários, a partir do pedido de confirmação de W sobre as características da família (43), iniciando um novo episódio, em que serão apresentados novos “casos” como comprovação dos comentários expressos. Embora tais unidades também sumarizem a posição que ficou implícita nos episódios anteriores, as considerei uma introdução deste episódio. Trata-se de um trecho em que os falantes parecem, através da ênfase/reiteração do que foi colocado, estar “recarregando” sua memória com novos tópicos para dar continuidade à conversa.

 

 

3.2.2 Evento 2 - A dengue de Lucinha

 

C= 49 teve uma vez que: que ela pegou a:: dengue... né//

50 a minha prima pegou a dengue...

51 aí minha mãe falou assim

I= 52 [caramba! que suprício!]

W= (inint)

C= 53 aí falou pra ela...

54 “poxa quando pega dengue a pessoa fica sem apetite.. né//” ((risos))

C= 55 aí ela...

56 “ah! COMIGO NÃO!.. eu como ainda ma:is”... ((risos))

W= 57 ela come a dengue (e come ainda mais) ((risos))

I= 58 ela come muito mesmo...

59 a Lucinha

[W= 60 ave maria/]

come muito... come muito...

 

Tecidos os comentários que confirmam o caráter comilão da família, a falante fornece nova comprovação através de uma pequena narrativa presumida (textos que se constroem em referência a fatos, mas não os relatam - Louzada, 1992), de 49 a 55. Considerei tal trecho uma narrativa porque, além de as unidades terem sido codificadas predominantemente no perfectum (Hopper,1979), há certa seqüencialidade no diálogo reproduzido pela falante e porque contrair dengue não pode ser considerado um hábito. Assim, embora Lucinha se comporte da mesma forma em relação à comida, há um elemento inusitado no seu apetite devido ao acometimento pela dengue.

Estruturalmente, esse trecho apresenta certa semelhança em relação à pequena narrativa que contextualiza o relato da vovó, como pode ser observado ao se comparar as unidades 24/26 e 49, respectivamente: “Vovó quando foi... passar... uma temporada lá né//... foi exilada lá... né//”; “teve uma vez que: que ela pegou a:: dengue.. né//”. Nos dois casos, o falante introduz a narrativa com certa negligência: no primeiro, há uma lacuna em relação ao referente do advérbio de lugar ; no segundo, em relação ao do pronome ela, protagonista da pequena narrativa, explicitado em 59. De 57 a 60, há novos comentários que reiteram o apetite de Lucinha e que arrematam este evento, funcionando como “gancho” para o próximo evento sobre um novo “caso”.

 

 

3.2.3 Evento 3 - O pão de Lucinha

 

I= 61 eu me lembro rapaz...

62 ela chegava de manhã lá...

63 a minha mãe... é o seguinte...

64 ela se desesperava...

65 “compra mais pão” ((risos)) ((fala mais alto))

66 a bisnaga dela era isso...

67 ela abria de de de ponta a ponta... pelo amor de Deus/

C= 68 passava manteiga... maior prejuízo...

W= 69 mas vem cá filha/ e aquela vez aquela história ((risos)) que (inint.) chegou lá (inint.)

70 comeu raspou a comida... ((risos))

71 não deixou nada pra ninguém/

W= 72 não foi o que aconteceu//

[I= 73 mas não é só ela não:.. são

74 todas... a:: a Cristina também...

[C= 75 não me lembro]

W= 76 ela re- repetiu o macarrão (sabe) três vezes... u: u: prato de macarrão... não foi//

[I= 77 a Cristina... a Regina.. são todas assim (rapaz)...

C= 78 é/

I= 79 é... come muito mesmo... o hábito de bac bac bac...

 

Das unidades 61 a 68, os falantes relatam uma situação que se repetia sempre que Lucinha visitava a residência da mãe dos falantes I e C. De 69 a 71, o falante tenta acrescentar um novo “caso” buscando a ajuda da participante C, que também não se lembra dos fatos. O diálogo entre C e W está superposto à fala de I sobre outros membros da família que, como Lucinha, também são comilões. No trecho de 69 a 79, falantes reiteram suas posições, já que fracassa a tentativa de ilustração, pois o discurso não é organizado. Pode-se dizer que se trata de um momento de reestruturação do discurso, no qual os falantes estariam ativando novos tópicos ou subtópicos a serem desenvolvidos.

Além da mudança de tempo verbal, há unidades introdutórias - marcadores prefaciais - e advérbios de tempo que evidenciam as mudanças de episódio e de evento: “ah:... uma vez... uma vez ela foi lá em casa/.../” (1); “/.../Vovó quando foi... passar... uma temporada lá né// /.../” (24); “/.../ eu me lembro rapaz/.../” (61); “/.../con- conta a história do pão/.../” (35).

A estrutura argumentativa desse episódio pode ser dividida em duas etapas: posição, expressa no evento 1, e formulação dos argumentos, nos eventos 2 e 3. O fato de praticamente não haver formulação de argumentos com disputa, deve-se à sustentação da mesma posição sobre os familiares por parte da maioria dos falantes que participam da conversa, e à natureza factual do tópico discursivo abordado neste macroepisódio.

Quanto à sustentação, além de enunciados em que um falante adere às posições dos demais (“ave maria... é meio chato uma situação assim na família assim... né//”), pode-se postular que esta se manifesta nos trechos em que há reafirmação de uma posição intra-episódica, durante uma mudança de evento, ou quando se dá uma mudança de episódio, devido à entrada de um novo tópico discursivo. Isto porque o delineamento de uma conclusão parcial pode ocorrer não só através da indução de um falante sobre outro, mas também em relação ao discurso de um mesmo falante, que sintetiza o que foi demonstrado em etapa(s) anterior(es) a partir de um pedido de confirmação: “é verdade...”; “mas vem cá... o pessoal todo da tua tia é assim Célia//”.

No macroepisódio Uso da língua, do qual exponho um trecho a seguir, os eventos tornam-se mais extensos, devido, segundo minha avaliação, à natureza do assunto abordado.

 

 

4 MACROEPISÓDIO USO DA LÍNGUA

 

Este macroepisódio é iniciaado após uma discussão sobre a espessura dos dicionários “Aurélio” e sobre um dicionário de inglês. Tal discussão origina outra sobre a riqueza de uma língua estar ligada à quantidade de itens lexicais, que, por sua vez, dá origem ao macroepisódio sobre a maneira como a língua é utilizada, no tange ao seu caráter ideológico e ao seu poder transformador.

 

 

4.1 Episódio

Tipos de discurso: alienadores, conservadores e transformadores

 

Após a conclusão de I acerca da função ideológica do uso da língua em episódio anterior, o falante W tenta dar prosseguimento ao tópico sobre o Chacrinha, avaliado pelos participantes da conversa como dono de um discurso transformador, quando é interrompido por I, que introduz um novo assunto, dando início a uma conversa sobre os tipos de discurso, no que se refere aos objetivos e aos estilos dos mesmos. A argumentação do episódio é pautada em comprovações de como a língua é usada em vários discursos. Assim, a divisão em eventos foi feita a partir de cada prova discutida.

 

 

4.1.1 Evento 1 - Discurso acadêmico

 

W= 520 é nesse negócio de jogar bacalhau...

521 negócio de jogar abacaxi é mais... (importante isso)

[I= 522 eu pô... ôh Célia... você que senta nos bancos escolares...

523 você pega uma professora que entra na Letras...

524 eu acredito que elas devem... elas devem ser até muito conservadoras em relação à linguagem... entendeu// eu acho...

C= 525 em que sentido// conservadora...

I= 526 assim... conservadoras não permitindo ou não estudando ou ou eliminando o pensamento... de estudar essas palavras tabu...

527 quer dizer... é a linguagem o túmulo do homem... né//

W= 528 justamente... aquelas... palavras...chaves...

[I= 529 é...é...é a linguagem o túmulo do homem...

W= que tinha... que tinha (inint.)

I= 530 dizia o...o...o (Regno)... sei lá... um pensador... um filósofo alemão... né//

531 quer dizer a linguagem ela poderia ser usada com muita força em transformação social...

532 quantas vezes você (usar)-

[W= 533 é sempre foi...]

 

A estrutura argumentativa desse evento pode ser dividida em posição, de 522 a 524, formulação dos argumentos, de 525 a 530, e sustentação, em 531 e 533. A etapa de formulação dos argumentos dá-se sem disputa de posições, já que os interlocutores de I não emitem posições contrárias à sua. O falante I introduz um novo tópico nas unidades 522 e 524, colocando sua posição sobre o conservadorismo dos meios acadêmicos, que reproduziriam um discurso alienante. A UI 522 desempenha uma função típica de prefaciador, que freqüentemente sinaliza mudança de tópico. O falante inicia o novo tema de forma modalizada, preparando seus interlocutores e buscando a adesão de C para o que vai ser dito.

Em seguida, na UI 523, I codifica seu discurso utilizando a estrutura você + verbo no presente/imperativo, que inicia exemplos ou ilustrações, normalmente retirados do cotidiano, para dar sua opinião sobre o discurso acadêmico. As unidades 525 e 526 constituem um par adjacente - pedido de explicação/explicação -, através do qual I expõe sua opinião com mais clareza, pois os falantes checam o conteúdo do que está sendo abordado.

Em 527, novamente há a expansão de uma idéia a partir da introdução de um referente novo iniciado pelo marcador quer dizer com função explicativa, pois o falante expressa-se com alguma assertividade ao afirmar que a linguagem é o túmulo do homem. Tal asserção é retomada em 529 e 530, quando o falante tenta recordar quem é o autor da frase. A UI 528 encerra um comentário de W cujo conteúdo não é desenvolvido, devido à retomada de turno de I.

A conclusão do evento dá-se em 531, quando o falante retoma a posição defendida desde o episódio anterior acerca do poder transformador da linguagem, à que W adere em 533. Na UI 531, há um deslocamento para a esquerda - a linguagem ela - e o uso do condicional - poderia ser usada -, estrutura característica de um estágio de processamento ou reativação de um conteúdo discursivo.

 

 

4.1.2 Evento 2 - Discurso dos pagodeiros

 

I= 534 você quer ver uma coisa Célia...

535 óh... você pega o fundo do quintal (+)

536 o fundo de quintal... é...é como que chama é//

537 roda de samba não... (aqui é chamado de)...

W= 538 pagode...

I= 539 é pagode... né//

W= 540 pagode\parI= 541 você vê a linguagem que eles usam não tem nada de luta de classe ali...

542 não tem nada... transformação social...

543 então é permitido... é permitido... né//

[W= 544 é...]

 

Em 534, o falante I inicia um novo evento sobre a ausência de censura ao discurso dos pagodeiros, mais uma evidência sobre os tipos de discurso. A estrutura argumentativa do evento em questão é composta de formulação dos argumentos - compreendida pelas unidades 534, 535, 540 e 541, etapa em que o falante coloca sua opinião através da evidência apresentada -; e conclusão, em 543, decorrente da avaliação do exemplo fornecido, introduzida pelo marcador então.

As unidades 534 e 535 configuram enunciados prefaciadores. De 536 a 540, após uma pausa mais longa, o falante I expressa dúvida em relação ao conteúdo do referente fundo de quintal, sendo socorrido por W, que coopera com I, fornecendo-lhe a informação precisa, baseado em seu conhecimento de mundo. Em 541 e 542, o falante apresenta sua opinião sobre os discurso dos pagodeiros e passa à conclusão, em 543, com a qual seu interlocutor concorda, em 544.

Novamente, observa-se uma estrutura característica para a etapa de formulação das provas: o pronome você seguido do verbo ver, na construção perifrástica quer ver, em 534, e do verbo pegar no presente/imperativo, em 541. O trecho de 536 a 540, em que os falantes estão checando as informações veiculadas, configura uma espécie de parêntese em relação à estrutura discursiva do evento.

Pode-se verificar uma semelhança na organização textual dos dois eventos, sendo que no primeiro há um cuidado maior por parte do falante em introduzir o assunto para a nova etapa da conversa, ao utilizar um prefaciador com modalização em 522, dirigindo-se à falante C - “ôh Célia” < ‘olha Célia=preste atenção’ -, antes do prefaciador que introduz a evidência propriamente dita.

 

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao comparar a construção dos macroepisódios Família comilona e Uso da língua, pode-se observar que neste a dimensão cognitiva do processamento do discurso torna-se mais evidente, pois o tópico geral é mais complexo, no sentido de requerer mais elaboração da posição defendida. Ao passo que, no primeiro macroepisódio, o discurso é menos tenso, exigindo menos reflexão e menos elaboração. Tais características apresentam uma contraparte na organização discursiva e, conseqüentemente, na configuração dos episódios e dos eventos.

No macroepisódio Família comilona, a estrutura comentário®demonstração e demonstração®comentário, de caráter linear, favorece uma integração semântica mais explícita entre o episódio e os eventos que lhe são subordinados, sobretudo porque há uma distinção explicitamente marcada entre os tempos verbais presente e pretérito. Assim, se estabelece uma relação direta entre o assunto abordado nos comentários e a ação relatada ou a característica ilustrada.

No segundo macroepisódio, os eventos possuem um conteúdo semântico ligeiramente individualizado em relação ao episódio a que estão subordinados. Acredito que esta configuração esteja ligada à utilização de um raciocínio analógico na organização do conteúdo, ou seja, as idéias são associadas na construção das evidências, gerando, às vezes, relações implícitas entre episódio e evento. Por essas razões, os eventos são mais extensos e menos lineares, com presença de reformulações e hesitações, características que me levaram a segmentá-los conforme a estrutura argumentativa proposta, pois a organização custosa dos mesmos propicia a necessidade de uma espécie de começo, de desenvolvimento e de síntese (parcial).

 

 

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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