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REFLEXÕES SOBRE A EVASÃO ÀS SEXTAS FEIRAS
NO CONTEXTO DA ESCOLA PÚBLICA

Neide Batista da Silva (PUC-SP e SE-SP)

 

INTRODUÇÃO

Este artigo visa abordar e refletir sobre a evasão às sextas-feiras no contexto da Escola Pública, e as implicações éticas e morais que envolvem essa atitude. As questões que norteiam este artigo são: De que forma esta atitude faz parte da cultura (valores sociais) dos alunos? Quais são as ações capazes de minimizar esta atitude?

Inúmeras são as implicações decorrentes dessa atitude de evasão no contexto da escola pública e o desencanto mencionado por Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 41) vem ao encontro:

O desencanto é, por assim dizer, um subproduto do pragmatismo que, por sua vez, costuma ser o eufemismo usado para definir o conformismo, o ceticismo, a aceitação anestesiante das circunstâncias que temos a sorte (ou a desgraça) de enfrentar.

Nesse desencanto que se instaura, é preciso que o professor tenha em mente o seu papel que é o de propiciar aos alunos oportunidades para que possam refletir sobre essa situação e para que os mesmos juntamente com seus professores a superem. Citando Spinoza (apud Scruton, 2000: 30) eu diria que o conatus que é o esforço positivo estaria em um nível abaixo do desejado, levando o professor às idéias inadequadas e, portanto, uma mente passiva.

Um outro fato crucial de desencanto é a falta de investimentos na área escolar que na verdade reduz as possibilidades de uma melhoria no ensino. Uma questão que é de conhecimento de todos e citada por Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 46) é que:

Os pobres têm que se conformar com escolas pobres, enquanto os ricos mantêm o privilégio de escolas ricas, simplesmente pelo fato de poderem pagar por elas, nos remete ao estado desolador que se encontra o ensino público.

Os fatos acima mencionados demonstram a situação atual na qual o professor vive e, que aos poucos se desencanta e deixa esse sentimento apoderar-se da sua ação Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 47). Esta posição do professor de não ter as condições mínimas o remete a um novo tipo de síndrome citada também por Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 47) como síndrome de abandono, situação essa claramente notada em inúmeros profissionais, que desejam realizar um bom trabalho, porém o constante encontro de barreiras tolhe-os, e com o tempo torna-os sem esperança de atingir as metas por eles propostas.

Dessa forma, a evasão às sextas-feiras vem ao encontro desse profissional que está desencantado, fazendo com que a evasão passe a ser considerada parte do cotidiano escolar. Pode-se observar que de acordo com Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 50) a anormalidade torna os acontecimentos visíveis, ao mesmo tempo em que a normalidade costuma ter a faculdade de ocultá-los; a evasão às sextas-feiras tornou-se uma normalidade! Baseados nessa cultura os alunos agem desta maneira. Segundo definição encontrada no Dicionário Aurélio cultura é:

1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2. Cultivo. 3. O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais, transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade; civilização. 4. O desenvolvimento de um grupo social, uma nação etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores; civilização, progresso.

As quatro definições me remetem a padrões de comportamento, de crenças que o grupo desenvolveu e os têm como certos e normais, sem perceberem o imenso gap que estão construindo em suas carreiras.

É evidente a necessidade de ações sobre esta situação caótica que se configura a partir da evasão e questões extremamente relevantes surgem: De que forma esta atitude faz parte da cultura dos alunos? Quais são as ações capazes de minimizar esta atitude?

O contexto em pauta é de uma escola publica estadual localizada na Zona Norte de São Paulo – Capital. Os participantes da pesquisa foram: 26 Alunos do 1º. Ano do ensino médio faixa etária entre 16 e 42 anos e a professora-pesquisadora autora deste artigo.

Para se obter dados foi utilizado o questionário como instrumento de coleta. “O questionário que tem por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas” (GIL, 1987: 128). O questionário visou levantar questões relativas à cultura que os alunos têm do contexto escolar envolvido.

Com o objetivo de analisar as ações da professora-pesquisadora (trabalho na rede pública cerca de 5 anos como professora de Inglês para o ensino fundamental e médio) utilizei como metodologia a “pesquisa-ação que é uma reflexão crítica do professor sobre a sua ação com o objetivo de resolver problemas, aprimorar a sua prática e aumentar compreensão do que nela ocorra” (Nunan, 1992: 17);

A Linha de Pesquisa utilizada para o artigo foi a Linguagem e Educação. Os procedimentos de coleta utilizados foi um questionário (anexo I p. 18) no qual, não foi necessário que os alunos se identificassem para que pudessem ficar mais a vontade e dizer a verdade. Os alunos pesquisados tinham liberdade de mencionar diversos motivos, assim como as sugestões.

 

A cultura implícita na atitude de evasão

Se partirmos de valores, crenças, técnicas que são partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada chegamos ao paradigma, definição de Kuhn (1962) citado por Marcondes (1999: 15), esse conceito nos direciona ao contexto da escola pública, local onde há necessidades de mudanças de paradigmas, para que ocorram mudanças significativas no perfil da mesma.

A cultura da evasão às sextas-feiras que se instaurou, tornando-se uma problemática, e, nos remete a seguinte afirmação feita por Marx & Engels (1977a: 11-14, 21 e ss.) citado por Plastino (1999: 38), a natureza humana é o conjunto das relações sociais que os homens estabelecem entre si, e a idéia de que a história é o produto da ação dos homens.

Desta maneira, a ação que os membros de certos grupos realizam tem as suas implicações. Em outras palavras as ações dos indivíduos produzem implicações com outras pessoas e o mundo. Deste modo, essas ações nos remeterão a um contexto globalizado e observando as palavras de Plastino (1999: 43), que expressa com muita objetividade:

Contexto global caracteriza-se, no atual momento histórico, pelo fracasso das diversas modalidades recentes de organização social, entendo por fracasso sua incapacidade de organizar a sociedade em torno dos objetivos de solidariedade, igualdade e liberdade.

Retomo a evasão, lembrando que tudo que ocorre são produtos da ação histórica do próprio homem. Em outras palavras tudo que está acontecendo advém do resultado de valores e motivações do próprio homem como ser histórico e não apenas algo natural. Desta maneira, cabe aos homens tornarem-se ativos para transformar a sociedade que os cercam.

Esse indivíduo que atua conscientemente será capaz de interagir mudando a sua posição diante do mundo. Nessa linha de pensamento vale a pena também mencionar as idéias de Marx e Engels (1979: 72), citado por Marcondes (1999: 26/27) no qual:

Para Marx a liberação do homem só será possível na medida em que se transformar a própria sociedade, eliminando-se o domínio de uma classe sobre as demais, não apenas pela educação, pela ciência, que permanecem no campo do pensamento, sem atingir a base material da sociedade que gera o trabalho alienado e, em conseqüência, a consciência alienada.

Na verdade, esta crítica de Marx é relevante, pois na situação de evasão às sextas-feiras dos 26 alunos que responderam o questionário de pesquisa 74% costumam faltar, ou seja, é um número bastante elevado. Desta maneira há necessidade de se criar ações para que grande parte da população não se torne excluída de usufruir bens necessários e básicos para concretizar suas vocações, e possam ter condições mínimas de exercer as suas funções de cidadão como um indivíduo que entenda o mundo em que vive e, portanto, os processos sociais, políticos, econômicos, tecnológicos e culturais que estamos vivenciando.

 

O papel da moral
na determinação da cultura da evasão

Quando nos referimos sobre interesses de certos grupos, juntamente com os atos humanos, normas, ideologias, juízos de valor, estamos nos referindo à moral, que:

Segundo Vazquez (1997: 66):

Conjunto dos princípios, normas, imperativos ou idéias morais de uma época ou de sociedades determinadas e moralidade como um conjunto de relações efetivas ou atos concretos que adquirem um significado moral com respeito à moral vigente.

O que é pesquisado neste estudo é o papel da moral na determinação da cultura da evasão. Segundo Vazquez (1997: 76) o ato moral é a consciência do fim visado, toda ação especificamente humana exige certa consciência de um fim, ou antecipação ideal do resultado que se pretende alcançar.

Refletir sobre o motivo pelo qual acontece a evasão às sextas-feiras reporta-me à Vazquez (1997: 76):

A consciência dos meios para realizar o fim escolhido e o seu emprego para obter assim, finalmente o resultado desejado”. “O ato moral, no que diz respeito ao agente, consuma-se no resultado, ou seja, na realização ou concretização do fim desejado”. “Código moral o ato moral responde de modo efetivo à necessidade social de regulamentos, de certa maneira, as relações entre os membros de uma comunidade, o que significa que deve levar em consideração as conseqüências objetivas do resultado obtido, isto é, o modo como este resultado afeta aos demais.

O que preocupa neste momento é a conscientização dos membros que participam desta cultura de evasão para o código moral instaurado, será que eles têm consciência e levam em consideração o resultado desta atitude, e como isto afeta aos demais, em termos pessoais ou profissionais.

As condições de possibilidades da moral são analisadas através da ética, e a ética irá se transformar e terá valores diferentes de acordo com o período histórico. Nesse quadro instaurado a relação dialética se forma entre eu e o outro, caracterizando o ser humano como um ser sócio-histórico e cultural, desse modo, nos direciona as questões de escolhas e nos faz pensar sobre questões de responsabilidade refletida e comprometida, discutidas por Bauman (2000: 13) apud (Bittar, 2004: 1), o qual cita com bastante clareza as nossas ações são sempre comprometidas e que as mesmas terão implicações no mundo. Essas ações no caso da cultura da evasão estão envolvidas pela ética, e em construção com a idéia de vir a ser agência (que é poder perceber e tomar atitudes a respeito), e somada aparece à linguagem que permite esta reflexão e nos faz agir usando as palavras de Habermas (2000: 33, apud Bittar, 2004), o ser humano age pela e para a linguagem.


 

A ética implícita nesta atitude de evasão

O código de Ética e Moral implícito nesta atitude de evasão nos remete à reflexão crítica e à autonomia, pois poder perceber e tomar decisões no sentido de agência que é poder perceber e tomar as devidas atitudes nos leva a práxis que é uma ação refletida na minha história, na concepção de como sou constituída. O princípio que norteia a reflexão crítica é a desconstrução, que é uma crítica de dentro, é uma crítica me colocando na situação, é uma crítica que tem um norte.

Nas palavras de Freire (1996: 57):

A invenção da existência envolve, repita-se, necessariamente, a linguagem, a cultura, a comunicação em níveis mais profundos e complexos do que o que ocorria e ocorre no domínio da vida, a espiritualização do mundo, a possibilidade de embelezar como de enfear o mundo e tudo isso inscreveria mulheres e homens como seres éticos. Capazes de intervir no mundo, de comparar, de ajuizar, de decidir, de romper, de escolher, capazes de grandes ações, de dignificantes testemunhos, mas capazes também de impensáveis exemplos de baixeza e de indignidade. Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética.

A capacidade do ser humano em intervir no mundo nos transforma em seres críticos, em seres comprometidos e capazes de interferir nos fatos. Essa competência nos direciona a práxis que é uma ação refletida na história.

Diante disto a Ética Universal do ser humano discute:

A ética de que falo é a que se sabe traída e negada nos comportamentos grosseiramente imorais como a perversão hipócrita da pureza em puritanismo. A Ética de que falo é a que se sabe afrontada na manifestação discriminatória de raça, de gênero, de classe. É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar. E a melhor maneira de por ela lutar é vivê-la em nossa prática. (Freire, 1996: 17).

Viver a ética universal do ser humano em nossa prática escolar é na verdade não nos omitirmos das nossas responsabilidades no sentido de conduzir os nossos alunos a perceberem a gravidade da situação, criando condições para que esse quadro seja revertido.

Nessa situação de evasão, percebo a necessidade dos alunos em pautar seus comportamentos por normas que julgam apropriados, sendo que estas normas são aceitas e reconhecidas pelo grupo a que eles pertencem, desta maneira eles compreendem que têm o dever de agir faltando às sextas-feiras.

Nesse caso a ética contribuirá para fundamentar ou justificar certa forma de comportamento, e caberá ao educador oferecer oportunidades para que os alunos tornem-se capazes de intervir no mundo, comparar, decidir e escolher se virão às sextas-feiras.

Em Spinoza (2003: 34-35):

O homem perfeito é ético porque o seu agir se harmoniza com o seu ser. O homem que atingiu as luminosas alturas da ética racional ou cósmica é uma personalidade individual perfeitamente integrada no todo universal – individualizada pela inteligência, integrada pela razão.

Quando a ação do homem é compatível com o seu ser o ser humano perceberá o que está ao seu redor e se envolverá comprometidamente com o meio no sentido de transformá-lo e conduzi-lo a uma harmonia. Somados a essas condições o desenvolvimento do mundo assim como a globalização remetem-nos às questões de natureza ética, como a exclusão social e econômica ante as novas formas de trabalho definidas pela tecnologia, em que diversas pessoas perderam os seus postos de trabalho e a destruição do bem-estar do Estado.

Esses problemas associados às destruições biológicas e ambientais provocam transformações culturais da pós-modernidade que segundo Zajdsznajder (2002: 23) a ética vista como um discurso e uma prática.

No cenário escolar o educador deverá conduzir o discurso reconhecendo a ação desconstrutiva sobre a atitude de evasão, elaborando questões relativas à identidade, liberdade e comunicação, levar em conta as experiências contemporâneas da abertura dos modelos de conduta, da valorização das diferenças, do esvanecimento de fronteiras e da ampliação de horizontes.

Segundo Singer (2002: 25) a igualdade como um princípio ético básico, significa refletirmos sobre os interesses de todos envolvidos no processo.

Como se reflete essa idéia no contexto escolar: Na verdade atribuímos o mesmo peso aos interesses semelhantes de todos os que são atingidos por nossos atos. Tudo que o educador fizer em sala de aula afetará a todos indiscriminadamente, portanto as ações devem ser refletidas para atingir os interesses de todos.

Para Bittar (2004: 4):

A ética deve ser uma atitude reflexiva de vida, algo empregado à dimensão da razão deliberativa, em constante confronto com as inquisições, dificuldades, os desafios e problemas inerentes a existência em si.

E se considerarmos a citação de Rajagopalan (2003: 15):

Questão ética é o que de que só se pode falar em ética quando estão em discussão ações intencionais praticadas por agentes humanos no exercício de sua livre e espontânea vontade.

O que noto é a falta de compromisso e de ações para minimizar uma situação tão grave como esta.

 

O papel da Escola diante do exposto

Diante do exposto, o papel da Escola em minha opinião é de criar ou construir ações que mobilizem os alunos no sentido de refletir sobre esta atitude. Na citação de Stalin (1957) apud (OZMAN & CRAVER, 2004: 320) a educação é uma arma cujo efeito depende de quem a tem nas mãos e de quem é atingido por ela. Se partirmos desta citação notamos a importância e as implicações desta atitude no cenário da educação.

Umas das tarefas do educador ou educadora progressista, através da análise política, séria e correta, é desvelar as possibilidades, não importam os obstáculos, para a esperança, sem a qual pouco podemos fazer porque dificilmente lutamos e quando lutamos, enquanto desesperançados ou desesperados, a nossa é uma luta suicida, é um corpo-a-corpo puramente vingativo. O que há, porém, de castigo, de pena, de correção, de punição na luta que fazemos movidos pela esperança, pelo fundamento ético-histórico de seu acerto, faz parte da natureza pedagógica do processo político de que a luta é expressão (Freire, 1992: 11).

A citação de Freire muito presente em nosso contexto escolar, ao longo do nosso percurso como educadores, que estupefatos deparam em diversos percalços que muitas vezes acabam por “tolher” nossos colegas de profissão e até nos mesmos, porém é necessário que não desistamos nunca. Insisto na importância das tarefas do educador e que nunca percamos a esperança.


 

Discussão da análise de dados

A principio foi questionado se o aluno costumava faltar às sextas-feiras:

Gráfico 1: Número de alunos que faltam às Sextas-Feiras

De acordo com o gráfico, de um total de 26 alunos pesquisados 15 (74%) costumam faltar e 11 (26%) não costumam faltar às sextas-feiras.

Na discussão de dados foram gerados dois grandes blocos: os motivos que movem os alunos a faltarem às sextas-feiras e as sugestões que os alunos mencionaram para a normalização das aulas às sextas-feiras.

No bloco dos Motivos que os alunos alegaram para faltar foram os seguintes: 16 alunos disseram que faltavam porque a maioria dos alunos também costumava faltar; 07 alunos alegaram estarem cansados porque trabalhava muito durante a semana e às sextas-feiras era muito cansativo comparecer a aula; 07 alunos apontaram motivos diversos como: problemas particulares com os filhos, a sala costumava combinar para faltar às sextas-feiras, alguns alunos participam de jogos às sextas-feiras e porque os professores costumavam também faltar às sextas-feiras; 04 alunos alegaram sair para baladas com amigos; 02 alunos faltavam, pois tinham que cumprir horas extras no trabalho; e, finalmente 02 optavam por namorar ao invés de assistir aula às sextas-feiras.

No bloco das Sugestões dos alunos para a normalização das aulas às sextas-feiras foram as seguintes: 07 alunos sugeriram adiantar aulas na falta de professor; 05 alunos disseram que seria melhor não haver aulas às sextas-feiras; 05 alunos sugeriram a necessidade de aplicação de provas às sextas-feiras; 03 alunos que ocorresse apenas duas aulas às sextas-feiras; 03 alunos sugeriram que a escola promovesse no lugar das aulas outras atividades; 01 aluno sugeriu que as aulas fossem repostas nas férias para os alunos que faltavam às sextas-feiras; 01 aluno também sugeriu que só fossem ministradas dobradinhas às sextas-feiras; e, finalmente 01 aluno não sugeriu nenhuma ação para minimizar essa situação.

Diante deste quadro cabe ao Educador descobrir as razões que movem os alunos a manter esta cultura da evasão, o que realmente está por traz desta atitude, perceber e compreender quais fatores que geraram esta cultura.

Pertinente à situação de evasão menciono a seguinte citação (Freire, 1992: 18):

Nunca um acontecimento, um fato, um feito, um gesto de raiva ou de amor, um poema, uma tela, uma canção, um livro têm por trás de si uma única razão. Um acontecimento, um fato, um feito, uma canção, um gesto, um poema, um livro se acham sempre envolvidos em densas tramas, tocados por múltiplas razões de ser que de algumas estão mais próximas do ocorrido ou do criado, de que outras são mais visíveis enquanto razão de ser. Por isso é que a mim me interessou sempre muito mais a compreensão do processo em que e como as coisas se dão do que o produto em si.

Procurar compreender o processo em que se originou essa cultura da evasão é o grande desafio do Educador.

Gráfico 2: Os Motivos das Faltas às Sextas-Feiras

Ao término da pesquisa verifiquei que o principal motivo que impulsiona os alunos a faltarem é: Porque a maioria dos alunos faltam. Essa atitude demonstra que eles não assumem a falta e jogam a responsabilidade para os colegas.

Pode-se perceber a construção da consciência ingênua do ato, os alunos não pensam nas implicações e ou/conseqüências futuras desta atitude, que afetam eles, assim como implicações em relação ao mundo. Em outras palavras se eu faço algo impulsionado pela vontade alheia eu não estou mediando às conseqüências do ato que estou praticando.

A relação da falta de responsabilidade, com a falsa liberdade que eles acreditam possuir, remete-nos a Spinoza (2003), o qual sugere que quanto mais liberdade à pessoa possui, mais responsabilidade isto acarretará à pessoa.

A liberdade sem limite é tão negada quanto à liberdade asfixiada ou castrada. (Freire, 1996: 118).

A liberdade amadurece no confronto com outras liberdades, na defesa de seus direitos em face da autoridade dos pais, do professor, do Estado. (Freire, 1996: 119).

Nas palavras de Bakhtin (2003: 102):

O enredo da minha vida pessoal é construído por outros indivíduos, seus heróis (só em minha vida exposta para o outro, aos olhos dele e em seus tons volitivo-emocionais em me torno o herói dela), também a visão estética do mundo, a imagem do mundo é construída apenas pela vida concluída ou concluível dos outros, que são seus heróis.

A liberdade sem limite mencionada acima por Freire é uma falsa liberdade, e ela apenas amadurece quando se confronta com outras liberdades que é na realidade a minha verdadeira liberdade, somente construída quando em contato com o outro indivíduo.

No cenário escolar os alunos têm os colegas (o outro) como heróis e sua vontade é imitá-lo para que tenham mais sucesso diante do contexto, além disso, para que realmente entendam a situação há a necessidade de se afastar de si próprio para libertar esse herói (que é o outro e que ele segue sem medir as conseqüências) para o livre desenvolvimento do enredo do mundo.

Na seqüência dos motivos para a ausência é assinalado: Falto porque estou muito cansado. Que demonstra que os alunos entraram na fase do desencanto mencionada por Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 41), em que as condições de desemprego que o jovem se encontra atualmente somadas à falta de perspectivas leva-os ao desencanto.

Os outros motivos destacados são: Sair para baladas com amigos; Porque existem pressões de alguns alunos que costumam faltar; trabalho no horário das aulas; sair para namorar; problemas de saúde de filhos e pais; a sala combina em faltar; participar de jogos; andar de skate e finalmente professores costumam faltar.

Nesse ambiente de insatisfação os atores principais no caso os alunos geram esta atitude da cultura da evasão que me remete a pensar na idéia da liberdade ética do ato mencionado por Bakhtin (2003: 129):

O próprio ato nada diz do atuante, diz apenas de sua ambiência que gera o ato. O ato é determinado pelo ainda-não-ser, pelo antedado dos objetos, dos fins; suas fontes estão no porvir e não no passado, não estão no que existe, mas no que ainda não existe.

Na realidade o que determina a falta dos alunos nesse caso é o ambiente que é o grande gerador, provocando uma determinidade de fins, e de meios.

Gráfico 3:
Sugestões para Normalização das Aulas às Sextas-Feiras

Os alunos questionados apontam como principal sugestão: Adiantar aulas na falta dos professores. Na realidade a falta constante do professor envolve uma série de fatores e dentre esses há algo notadamente evidente que é a fase de desencanto em que é inserido o professor, e a longo ou curto prazo provocam a síndrome do abandono discutida por Gentili (apud Silva e Vizim, 2001: 41).

Evidencia-se que os alunos querem que a escola tome uma posição no sentido de haver punição para os alunos faltosos quando é sugerido que ocorram provas às sextas-feiras: Parece-me que está sugestão leva-nos a pensar nos tempos da ditadura onde as leis eram sumariamente impostas. No cenário escolar nos remete a concepção bancária de educação Freire (1970: 59) em que os educandos são como vasilhas a serem cheias; o educador deposita comunicados que estes recebem, memorizam e repetem, numa relação vertical; o saber é dado, fornecido de cima para baixo é autoritária, pois manda quem sabe. Dessa forma, nesse tipo de concepção o educando se torna sujeito único de todo o processo, enfim um objeto para receber paternalisticamente a doação do saber do educador.

No entanto alguns alunos não se conscientizaram do problema sugerindo não haver aulas às sextas-feiras: Considerando todos os problemas que envolvem a escola pública, considero essa sugestão um modo pelo qual o educador estaria excluindo ainda mais o aluno da escola pública. O aluno tornando-se alienado do mundo que o cerca. Direciona-nos às questões de escolhas e nos faz pensar sobre questões da responsabilidade refletida e comprometida mencionada por Bauman (2000: 13, apud Bittar, 2004).

Na verdade agindo sem responsabilidade refletida e comprometida eles estão ignorando a gravidade da situação. Não compreendendo a amplitude do problema, portanto, ficam em posição de inferioridade. Nas palavras de Spinoza (2003: 37):

Compreender o universo é estar libertado dele, compreender tudo é estar livre de tudo – somos escravos de tudo o que ignoramos-somos livres de tudo que sabemos. O ignorar mantém-nos em uma posição de um inferior a um superior – o saber dá-nos atitude de superioridade, porque o compreendido é necessariamente inferior ao compreensor.

Na seqüência de sugestões nota-se que o aluno acredita que através de punições o individuo compreenderá melhor as suas obrigações.

Ocorre que as sugestões: alunos que faltam às sextas-feiras repor aulas nas férias e Ter Dobradinhas às sextas-feiras: a meu ver não é uma ação minimizadora, o que provavelmente acontecerá é que não haverá professores suficientes para ministrar aulas nas férias e, portanto sem efeito. E quanto ter dobradinhas às sextas-feiras o horário do professor nem sempre é flexível.

A seguir sugestões que demonstram a falta de interesse e compromisso com a sua aprendizagem. Ter apenas 02 aulas às sextas-feiras: O que os alunos pretendem nessa sugestão é ter uma atitude paliativa (atenuar ou aliviar momentaneamente uma crise), com apenas 2 aulas o aluno obterá um número menor de faltas, porem isto ainda não é solução.

E, finalmente para os alunos que não sugeriram. Nesse caso o aluno está implícito na Ética volitiva que é baseada em atos explícitos da vontade, sendo que a mesma é um estado precário e imperfeito do consciente. Há necessidade de sugestões, para se tenha idéias do que o aluno acredite ou não, para propiciar ações para minimizar essa atitude de evasão.

Diante do exposto o papel do Educador é construir ações que possam minimizar esta cultura da evasão, a meu ver estão na organização de um Projeto Político Pedagógico que Segundo Pastor e Duny apud (Georges, 2002), é a conscientização de todos em uma comunidade, elaborando ações coletivas, baseando-se no que a escola dispõe e levando-se em conta seus limites, materiais e humanos.

 

Considerações Finais

As questões que nortearam este artigo: 1) De que forma esta atitude faz parte da cultura dos alunos? Esta atitude foi construída nos pilares de valores sociais impostos pela comunidade que cerca a unidade escolar. Na realidade, estão agindo sem pensar nas implicações que envolvem esta atitude, apenas pensando no presente e não no futuro. 2) Quais são as ações capazes de minimizar esta atitude? A realização de um Projeto Político e Pedagógico no sentido de conscientizar a comunidade escolar de que a elaboração do mesmo deve ser coletiva e basear-se naquilo que a escola possui de particular, levando em conta seus limites, recursos materiais e humanos. Uma proposta dessa natureza exige profunda reflexão sobre sua missão e explicação de seu papel social, a definição de estratégias e ações a serem compartilhadas por todos da comunidade escolar, tendo como principio norteador a aprendizagem dos seus alunos e o desafio de construir uma sociedade mais igualitária, enfim, esta é a minha proposta para minimizar essa cultura de evasão às sextas-feiras.

E quanto às sugestões dos alunos elas sinalizam para uma mudança que deve acorrer o mais breve possível, para que as sextas-feiras voltem a ser um dia de produtividade.

Entendo que é o momento de refletir-mos para que possamos humanizar o progresso e construir uma verdadeira ética do desenvolvimento, pautadas nas nossas essências culturais para transcendê-las em um horizonte universal no qual surgirá um futuro promissor. Em minha opinião as idéias do Marxismo incorporadas por Paulo Freire são de grande relevância no contexto da educação. Freire propõe que o aluno torne-se um ser ativo e que os Professores partam do cotidiano de seus Alunos, e trabalham juntos em um relacionamento dialógico, levando o aluno a refletir sobre suas implicações no Mundo.

Concluindo, acredito que o meu papel como professora-pesquisadora é incentivar os alunos no sentido de despertar sentimentos e pensamentos relacionados a uma participação ativa nos assuntos comunitários, dentro de princípios éticos de cooperação e justiça social. Para encerrar faço uso das palavras de Spinoza (2003: 34) o homem perfeito é ético porque o seu agir se harmoniza com o seu ser.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

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ZAJDSZNAJDER, Luciano. Ética, estratégia e comunicação na passagem da modernidade à pós-modernidade. Rio de Janeiro: FGV, 2002.

ANEXO I

PESQUISA

O PORQUÊ DA EVASÃO DE ALUNOS ÀS SEXTAS-FEIRAS

1)Você trabalha?

        - Sim        - Horário:  ______ às ______

                - Não

2) Você costuma faltar às sextas-feiras?

                - Sim

                - Não

3) Assinale abaixo quais os motivos que você ou um colega que você conheça falte às sextas-feiras:

                - Trabalho no horário das aulas;

                - Estou muito cansado;

                - Fico em casa assistindo TV;

                - Saio para namorar;

                - Saio para “baladas” com amigos;

                - Porque a maioria dos alunos faltam;

- Porque existem pressões de alguns alunos que costumam faltar;

                - Outros motivos cite-os: _____________________________________________________

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4) Quais as suas sugestões para que possamos normalizar as aulas às sextas-feiras?

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