UMA LOUCA CRIAÇÃO: SUZE – SALOMÉ
Letícia Pereira de Andrade (UEMS e UFMS)
Precisamos apenas acostumar-nos a levar a sério o que é dito em poesia e deixar uma palavra lírica servir igualmente de testemunho do homem como uma sentença dramática. (Staiger)
Introdução
O texto ora apresentado analisará o conto Suze, do escritor português António Patrício, sob a influência da estética decadentista no final do século XIX, mostrando que a loucura funciona como princípio e não como ponto final de uma investigação. De posse dos pressupostos teóricos decadentistas, pode-se reestudar obras que ficaram na obscuridade da estética vigente da época, talvez porque o grande público as considere estranhas e perturbadoras.
A reflexão que ora se faz é da inscrição de obras no plano decadentista, que são tidas como um simbolismo negro, profano, etc. Para tanto, faz-se necessário lembrar do pensamento finissecular, especificamente da literatura portuguesa, na qual se insere o objeto desta análise: o conto Suze, de António Patrício, autor que merece, segundo Moisés (1973: 283),
Abandonar a obscuridade em que o laçaram o preconceito e a estreiteza crítica para ascender a um plano que, se não é aquele em que se colocam Camilo Pessanha, Antônio Nobre e Eugênio de Castro, sem dúvida ultrapassa os dos demais poetas do Simbolismo.
Aliás, dizer que determinado artista é louco ou obscuro não afeta de modo algum a qualidade da obra, pois ele pode ser genial por causa disso como vice-versa.
Elege-se como corpus desta análise o citado conto patriciano, porque o leitor se sente confuso diante dele... enxerga a louca criação!
É que decorre de uma visão ‘que é verdadeira expressão simbólica – isto é, a expressão de algo realmente existente, mas imperfeitamente conhecido. Esta visão ultrapassa a experiência humana e pode ser indicada por intuições desconhecidas e escondidas (Gallo, 1981: 75-76).
Essa criação decadentista será analisada pisando as pisadas dos elementos finisseculares, sem perder de vista as influências decadentistas e levando a sério o que é dito, a fim de encontrar o Tesouro Escondido.
Suze
de António Patrício:
uma Criação Decadentista
A criação de António Patrício, escritor português desconhecido para um número razoável de pessoas, muito se aproxima da estética finissecular ou decadentista. Segundo Moretto (1989: 42),
O estilo de decadência não é outra coisa senão a arte em seu ponto de extrema maturidade a que as civilizações, ao envelhecerem, conduzem seus sóis oblíquos: estilo engenhoso, complicado, erudito, cheio de nuanças e rebuscado, recuando sempre os limites da língua, tomando suas palavras a todos os vocábulos técnicos, tomando cores a todas as paletas, notas a todos os teclados, esforçando-se por exprimir o pensamento no que ele tem de mais inefável e a forma em seus mais vagos e mais fugidios contornos, ouvindo, para as traduzir, as confidências subtis da neurose, as confissões da paixão que envelhece e se deprava e as alucinações estranhas da idéia fixa ao tornar-se loucura.
A estética decadentista rasga e costura a palavra, intimando-a a tudo exprimir e levando-a ao extremo exagero. Assim, o texto decadentista é uma verdadeira colcha de retalhos, de caráter libro-libresco, fazendo uso de experiências, como a construção e a desconstrução, num processo híbrido por meio da bricolage e da montagem textual, resultando, portanto, um texto labiríntico sem compromisso com a realidade empírica, elegendo a arte pela arte, “criando uma supra-realidade capaz de satisfazer, ainda que pelo tempo do contato entre a obra e seu receptor, a busca pela grande Verdade, que palpita dentro de cada ser humano” (SANTOS, 1999: 19).
Nesse jogo estético, percebe-se a preferência pelo artifício e pelo gosto à esterilidade, representada pela figura do andrógino e Salomé – a mulher diáfana, a mulher-sibila, a mulher-cadáver, a mulher símbolo do Decadentismo, que encanta e desconcerta/destrói os homens.
Assim, Suze é a criação de uma Feminae Fatale, a mulher decadentista que sugere o violento, o intenso, o exagero, o agudo até a estridência, o adultério, a depravação, a beleza e o cinismo. Dessa forma, essa mulher é subversiva, vampiresca, satânica, relembrando o mito de Salomé, a mulher de dança sinuosa e Medusa de beleza estonteante; conseqüentemente, observa-se que essa mulher é sedutora, fatal e excita na alma do leitor a sensação do belo, na qual, como diz Moretto (1989: 46), “acrescenta-se um certo efeito de surpresa, de espanto e de raridade”.
Suze é um conto extraído da obra Serão Inquieto, uma coletânea de cinco contos publicada em 1910. São contos poéticos, narrados em primeira pessoa, que não se assemelham ao que comumente chamamos de tradicional, pois, como o próprio nome do livro sugere, foram escritos num Serão Inquieto, num período noturno, inquieto, após o expediente normal, no qual se tenta trazer à tona um sentido ao real por via da imaginação. Segundo Gallo (1981: 16), a obra de António Patrício “emerge das profundidades do ‘eu profundo’, aonde ele desceu, no afã de conhecer-se e conhecer a Humanidade”.
Serão Inquieto passeia sobre/sob as várias representações decadentistas, privilegiando sempre: o gosto pelo requinte, numa profanação de personagens a ilustrar o caminho que o narrador deve seguir; a idéia dominante da morte, como sendo a valorização insubstituível de cada momento da vida tensa e como o elemento mais melancólico e, conseqüentemente, o mais poético (Cf. POE, 1997: 915), o que nos leva a crer que ela seja o núcleo dramático; o artificialismo, numa encenação narcísica como a própria alma humana; a neurose, símbolo maior da causticante concentração psicológica de António Patrício, porém sem traçar perfis psicológicos martirizantes das suas criações-personagens. Mas é na bricolage que se pode perceber o total domínio da sua escrita, que recria com maestria o eterno jogo da construção e desconstrução (Cf. PIRES, 2003: 5).
Os cinco contos, em um equilibrado quebra-cabeça, portam-se como um labirinto. Cada conto é um tecido espesso, porém penetrável, desde que se tenha conhecimento das metáforas polivalentes que dão a flexibilidade para achar/perder os fios deste novelo labiríntico, que poderão nos levar ao Tesouro Escondido.
De olho na louca criação: Suze
Em um serão inquieto, em um espaço fechado, no quarto, inicia-se essa criação... fruto de um solilóquio, a narrativa se constrói através de um fio condutor tecido pelo narrador que remonta a sua relação com Suze, a partir de uma noite no teatro, quando ele a conhece. Num processo rememorativo, o amante-narrador trás à tona o seu convívio de dois meses com a prostituta Suze (símbolo do prazer e infertilidade, um dos vértices do triângulo do desperdício), a partir da lembrança do último encontro - a despedida:
Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente, que ia entrar pro hospital pra ser operada. Anunciava-me isso entre um projeto de vestido gri-taupe, que iria bem à sua tinta de viciosa pálida (PATRÍCIO, 1979: 84).
Por se mostrar de maneira distinta das demais prostitutas, no vestir-se e no portar-se de forma elegante e sofisticada, Suze agrada ao gosto requintado do amante, que a corteja e passa a dividir com ela suas noites, até o momento em que ela anuncia a necessidade de operar-se, não mais voltando, daí a suposição de sua morte, como um anúncio da terminalidade (Cf. RUTE, 2003: 9). Dias depois, sem receber notícias de Suze, o amante começa o seu processo rememorativo. O narrador sensivelmente adivinha a morte de Suze; às vezes, apresenta-se amargo e desencantado nas suas considerações acerca da vida dos homens, e evoca a vida conjunta, explicitamente saudoso. Mas essa saudade não é apenas uma lembrança de um bem ausente, é, segundo Gallo (1981: 67):
A saudade de alguém que partiu, todavia é, principalmente, a nosso ver, tomando emprestada a expressão de Fernando Pessoa, ‘espiritualização da matéria’, na mesma linha de Teixeira de Pascoaes: Pela saudade, o homem reage, responde à sua situação concreta no mundo. Sofre a dor de ser imperfeito, a nostalgia da pura vida anímica, a divina saudade ou saudade de Deus (...). Realiza o ausente por obra e graça da imaginação: inventa Deus. O homem, em virtude de seu poder saudosista, de lembrança e de esperança, eleva-se da própria miséria e contingência à contemplação do reino espiritual, onde as coisas e os seres divagam em perfeita imagem divina.
Dessa forma, Suze é criada por obra e graça da imaginação. Percebe-se que este fio narrativo é calcado nas próprias reminiscências do amante-narrador, ao evocar a mulher amada que cuida estar morta:
Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta de Suze e a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucura a um cadáver (PATRÍCIO, 1979: 83).
Eis o tema mais melancólico dessa escritura: a Morte. Segundo Poe (1997: 915),
A morte, pois, de uma bela mulher é, inquestionavelmente, o mais poético tema do mundo e, igualmente, a boca mais capaz de desenvolver tal tema é a de um amante despojado de seu amor.
O narrador passa a recordar minuciosamente os encontros passados, numa verdadeira neurose mental, e vai construindo Suze, sua louca criação. Na sua visão estetizante de colecionador, constrói, cria e satisfaz o seu espírito ególatra permitindo que Suze exista a partir dele, como sua própria criação (Cf. RUTE, 2003: 9). Como diz Mário de Sá-Carneiro (1997: 21), “a literatura faz almas e almas imortais”... Assim, Suze vai sendo construída através das perversões histéricas, das neuroses febris e das vertigens enlouquecedoras do amante-narrador, num frenesi de múltiplas sensações e desequilíbrios diante da degenerescência humana:
Horas e horas com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória, recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cor toda a Comédia Humana; tinha um vício pessoal, erudito, arquisutil; cinicamente ingênua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que caminha pro seu leito de cocotte com o ar redolente de Desdêmona na canção do salgueiro... (PATRÍCIO, 1979: 86).
Ao compô-la, ele faz um passeio pelo interior da personagem, desnudando-a de forma ambígua, composta pela candura associada à personagem de Desdêmona e à perversão de prostituta, revelando-lhe nas mais íntimas peculiaridades de sua personalidade, e vasculhando-lhe o interior numa forma de afirmação pessoal. A revelação de Suze ao leitor é precisa e minuciosamente detalhada, neste momento de incansável histeria do amante em dar conta de cada detalhe:
Preciso calmar a minha febre e começar pelo começo. Vi-a a primeira vez este verão, no teatro, e logo a destaquei. Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e seda palha em que havia reflexos quase brancos, tufava na testa sob o chapéu preto, descaiam a esquerda, subiam a direita recortando a têmpora em ogiva, inverossímeis como raios de um sol de vício, químicos, absurdos... Só depois me convenci de que eram autênticos (PATRÍCIO, 1979: 85).
Ele passa a recordar o início da sua relação com a prostituta, num apelo a épocas remotas, bem ao gosto decadentista. Ao olhar pelo binóculo, assumindo-se nitidamente como um voyeur, faz um quadro de Suze espionando a sua vida interior. A partir do binóculo do não convencional, Suze é criada, e por isso, considerada uma louca criação... Detalhando cada aspecto da figura feminina, o narrador a compara a uma criança escandinava, dada a sua pouca idade, vinte e três anos, e cabelos louros; só depois ele se assegura de que são verdadeiros, já que, em sua mente delirante, era mais fácil acreditar que os cabelos de Suze eram artificiais. Artificiais? Quem é, então, essa Suze? Srª. Franquestein?
Essa loucura, esse estranhamento, via no grotesco, no diferente – “todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia” (Patrício, 1979: 87) –, é a excitação necessária para levar adiante seu refinado gosto de esteta e colecionador, no seu isolamento costumeiro (estufa): “aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus livros” (PATRÍCIO, 1979: 86).
A construção de Suze, perversa e profana, vai se transportando para o signo da serpente, a mulher sedutora que o atrai para sua atmosfera de desejo e lascívia com desenvoltura e magia: “aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me colheu, polarizando o meu desejo pro seu corpo elástico e felino” (PATRÍCIO, 1979: 87).
A beleza diferente de Suze, que se refere à “intensa e pura elevação da alma” (POE, 1997: 913), é o retrato do exótico gosto decadentista pelo bizarro, pelo estranho. O estranho está presente em todos os elementos pelo excesso, na caracterização da personagem: prostituta, porém superior, conforme o texto afirma: “nobre e cocotte, flexível de corpo e de espírito, amoral e heróica” (PATRÍCIO, 1979: 83-84); além disso, tem ainda duas facetas, uma luminosa, outra sombria: uma figura boa, pura, nobre como uma deusa, por um lado e, por outro, a meretriz, a sedutora, a bruxa. Como é paradoxal essa Suze!
As suas imperfeições não são descritas como pontos desconsideráveis, mas como algo que a diferencia do gosto comum, do normal, repudiado pelos decadentistas. Assim o amante de Suze dá capital importância aos seus cabelos em desalinho: “os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caiam-lhe nos ombros” (PATRÍCIO, 1979: 90), aproximando-a da beleza meduséia, da mulher viril, vampiresca, que tanto encanta quanto mata. Esta mulher-vampira, Suze-Salomé, representa a inversão de códigos, por isso é a loucura que lhe oferece forma.
Sem terminar sua louca-criação, o amante tinha dúvida do seu amor e queria acreditar que Suze era verdadeira:
De começo podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e confidência e todo o meu trabalho desta noite me parece de um doido que quisesse reconstruir uma obra prima... (Patrício, 1979: 92).
Era assim que ele a via, como uma obra de arte, aumentando sua galeria de refinado colecionador, através do dandismo sóbrio de Suze; pois só assim ele podia amá-la, enquadrando-a nos seus modelos refinados. Nesse estado de loucura, em meio às suas memórias, ele se questiona, tentando se dar conta do que ele realmente é: “Se ela me visse como eu sou, se eu não fosse com ela sempre ator, se eu não fosse o ser falso, o clown cético mascarando com riso o sentimento” (PATRÍCIO, 1979: 99). Neste momento, o amante deixa cair a máscara e se despe do artifício da encenação. Ele está só em seu quarto e não mais verá a amante.
Já no crepúsculo da madrugada, mergulhado em suas recordações, o amante-narrador pensa mais uma vez naquela mulher e no estado doentio que antecipa o fim. A constatação da terminalidade através da morte de Suze: “É pois forçoso convencer-me de que a minha pobre Suze - ‘era uma vez’...” (PATRÍCIO, 1979: 83), faz com que o amante novamente recorra aos seus refinamentos de esteta, preocupando-se com a aparência da amante morta, rejeitando assim o sentimento de perda: “Não te souberam pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei por quê, está mais claro, de uma seda mais pura, mais de infância” (PATRÍCIO, 1979: 101). O ápice da tensão neurótica leva-o ao delírio e declara a perfeição de Suze num verdadeiro culto à sua memória.
Nesse sortilégio de mascaramentos sociais, o narrador sente-se incapaz de amar uma prostituta, porém declara este amor, abalando o que é convencional nas relações sociais, abalando o sentido do mundo, como diz Roland Barthes.
A arte, fruto deste serão inquieto, produz a estética do crepúsculo que anuncia a terminalidade e se deleita na falsa impressão dos fatos, visionando um paraíso artificial, que sugere algo mais além do mundo orgânico, material, palpável. Dessa forma, nessa escritura decadentista, as personagens têm também qualquer coisa de imaterial, de oculto, de misterioso, por fim, de louco.
Considerações Finais
Escrever é abalar o sentido do mundo
(Roland Barthes).
O texto decadentista projetou uma visão desconcertante da realidade, que abala o sentido do mundo, por meio do fingimento, do truque, da aparência, do artificial, contrapondo-se à idéia mimética realista. O simulacro através do culto do artificial vai contradizer toda noção de arte até então, explicitado por um narrador condutor dos fingimentos e adepto do culto da arte pela arte.
A crise da representação que hoje, na chamada pós-moderni-dade, é vivida, tem sua gênese no texto decadentista, que passa pela crise da verdade, do sentido, e principalmente da linguagem, vendo tudo através das ruínas dos novecentos.
Assim, por meio desta análise, percebe-se em Suze, de António Patrício, a contribuição da literatura portuguesa para o Decadentismo, que se enquadra nos parâmetros finisseculares estabelecidos por meio da loucura, do seu caráter desconcertante. Percebe-se que a loucura poderia, de fato, ser tomada como um modelo do próprio processo de simbolização, de atribuição de significado. Dessa forma, neste conto, a criação delirante de sentido apresenta-se em descompasso em relação ao julgamento dito “normal”: ele brota senão sobre o solo de um estranhamento radical; e esse estranhamento é a perda da realidade e a construção de uma nova.
Nessa perspectiva, nada é estático, tudo muda, e a obra de arte e seus conceitos deslizam por concepções ora reformuladoras, ora desconstrutoras, ainda em sentido espiralado, tentando não se enquadrar, mas aproximar o público da sua arte, por meio da arte pela arte, como se observa na construção de Suze, a louca criação de um narrador que almeja revelar sua obra prima ao leitor, a fim de demonstrar uma grande VERDADE... a Arte esconde esse grande TESOURO... e os que vão a busca desse TESOURO... devem fazê-lo por sua conta e risco. Eis tudo!
Referências Bibliográficas
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MORETTO, Flúvia M. L. Caminhos do decadentismo francês. São Paulo: Perspectiva; Edusp, 1989.
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SANTOS, Rosana Cristina Zanelatto. A representação da mulher em António Patrício. Tese de Doutorado defendida na FFLCH/USP. São Paulo, 1999.