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VOCABULÁRIO CRISTÃO
ESTUDO DA ONOMASIOLOGIA
EM TRÊS TRATADOS MEDIEVAIS

Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz (UEFS)

 

INTRODUÇÃO

A obra “Castelo Perigoso” é uma tradução de uma longa epístola francesa, escrita por Frère Robert, monge cartuxo, para sua prima, Soeur Rose, freira da Ordem Fontevrault. Em Portugal foi traduzida no Mosteiro de Alcobaça, existindo atualmente dois manuscritos de posse da Biblioteca Nacional de Lisboa, sob as cotas ALC 199 e ALC 214. A versão portuguesa constitui, na realidade, uma adaptação livre do original francês, pois não há uma correspondência precisa que possa ter originado a tradução. Compõem o texto sete tratados, assim designados: 1 Castelo Perigoso; 2 Dos benefícios de Deus; 3 Livro da consciência e do conhecimento próprio; 4 Da amizade e das qualidades do amigo; 5 Das penas do inferno; 6 Das alegrias do paraíso; 7 Livro dos três caminhos e dos sete sinais do amor embebedado.

A partir da edição de três tratados: Dos benefícios de Deus, Livro da consciência e do conhecimento próprio e Da amizade e das qualidades do amigo, realizada durante estudos de doutoramento (QUEIROZ, 2002), foi feito o estudo do vocabulário, baseado na onomasiologia, de acordo com a teoria de Hallig e Wartburg (1963), idealizadores do Sistema Racional de Conceitos.

 

O CONTEÚDO DOS TRATADOS

O segundo tratado, Dos Benefícios de Deus, assim como o primeiro, Castelo Perigoso, foi traduzido do francês. Contudo, as Horas da Cruz, em verso francês, foram suprimidas da tradução portuguesa. Segundo Martins (1956), este mesmo texto encontra-se em Laudes e Cantigas Espirituais, da primeira metade do século XV, de Mestre André Dias, em verso português, e que são parecidas com as que figuram no Livro das Horas, em latim. Esse tratado desdobra, amplamente, um trecho do primeiro acerca da comunhão (cap. 47). O próprio autor, a partir de uma nota no cap. 69 acentua o fato, levando-se a supor ser ele o autor do primeiro tratado. Nos capítulos 70 a 81 são apresentados os doze frutos espirituais do Santíssimo Sacramento, voltados para a Paixão.

O terceiro tratado, Livro da Consciência e do Conhecimento Próprio, traz conselhos do autoconhecimento. São abordados os seguintes temas: alma enamorada de Deus (cap. 83), vaidade do mundo (caps. 84 - 85) e conselhos espirituais (caps. 86 - 88). A partir do cap. 89 passa-se a tratar do autoconhecimento. No cap. 91, há uma passagem referente aos sofrimentos de Jesus. Esse trecho remete ao primeiro tratado, no qual, o autor, em sete capítulos (40 - 46), refere-se à Paixão de Cristo.

O quarto tratado, Da Amizade e das Qualidades do Amigo, é o mais breve de todos. Apresenta-se em oito capítulos, sendo cinco dedicados às qualidades que se deseja num amigo: discrição, bondade, boa consciência, modéstia, fidelidade e que “nom seja sanhudo nem bravo”. Sem isso, a amizade não será preservada.

 

CONCEPÇÃO DE MUNDO NO PERÍODO MEDIEVAL

Qual é a visão global que se tem deste período da História? Que ideologia marcou esta época? Esta é uma época de contrastes, de conquistas e reconquistas, de afirmações, de buscas – buscas por riquezas, poder, terras e, principalmente, Deus. O homem medieval buscou a Deus intensamente, adotando todo tipo de atitude para alcançar o seu objetivo. Sendo uma época de contrastes, essa busca por coisas tão opostas como riqueza e pobreza, prazer e martírio, por exemplo, deixam marcas profundas na humanidade que, apesar de já estar vivendo a séculos de distância da Idade Média possui, ainda, um espírito bastante medieval.

A Sociedade Medieval concebia o mundo através de seus três estados: a Nobreza, o Clero e a Burguesia. Todos eles desprezando o camponês. A Educação se mantinha através dos mesmos métodos de ensino, ou seja, dominava a Escolástica, aos quais se opunha de forma crescente a escola monástica.

Contudo, há algo novo no ar, que vai pouco a pouco sendo misturado ao já existente. O séc. XV é marcado pela herança gótica. Tem-se nesse momento a riqueza do barroco, presente nas mais diversas expressões artísticas, tais como: na arquitetura, na joalheria – com a confecção das mais ornamentadas, brilhantes e ricas jóias. A vida espiritual é também fortemente influenciada por esses novos ares. Os pregadores apelam veementemente para as mais físicas manifestações de devoção.

Porém, uma grande revolução separa profundamente o mundo medieval do moderno: o advento da imprensa. A partir daí os livros são reproduzidos mais rapidamente e em quantidades superiores à dos livros manuscritos. Isto enriqueceu a ideologia da época, cujos livros de devoção, em primeira instância a Bíblia, foram reproduzidos, atendendo assim aos anseios do público letrado.

Com isso, pode-se definir a Idade Média como sendo uma época de esplendor religioso, basicamente do Cristianismo. No entanto, essa religiosidade latente, ou seja, a espiritualidade medieval, é marcada pelo desprezo do mundo. Homens e mulheres fogem, deixam aquela vida regida pelos três estados ou ordens, para buscarem desenfreadamente a Deus. Tem-se, nesse momento, a presença de figuras que se tornaram pilares da espiritualidade medieval. Dentre elas destaca-se o nome de Bernardo de Claraval, cujo exemplo de total desprezo do mundo e fuga com o intuito de alcançar outros bens, influenciou homens e mulheres a seguirem-no em seu feito. São Bernardo, filho de família com posses, deixa tudo para seguir a vida religiosa e, aos 22 anos, bate à porta do Mosteiro de Citeaux – França, cujo abade era Robert de Molesme, que fundou esta ordem com o intuito de seguir à risca a Regra de São Bento, cujos monges relaxavam cada vez mais, não a observando rigorosamente. Bernardo não vai sozinho, leva consigo o próprio pai, irmãos, um tio, alguns primos e amigos, deixando para trás toda uma vida de riquezas materiais. Bernardo torna-se muito rapidamente em maravilhoso “treinador de homens”, transmitindo-lhes a base de sua espiritualidade: pobreza absoluta, desconfiança de si mesmo e confiança total em Deus. Com isso, a abadia de Citeaux fica plena de novas almas em busca de Deus, havendo filas à porta, sendo necessário a fundação de novas casas para atender a esta demanda. Em 1115 São Bernardo funda a Abadia de Clairvaux. De Clairvaux São Bernardo sairá para fundar uma quantidade impressionante de mosteiros cistercienses, não só na França, seu país de origem, mas em toda a Europa ocidental.

Mas, com tudo isso, o homem medieval não deixa de conceber as suas relações baseadas nos três estados, levando-a para o mundo espiritual. Ele relaciona-se com o Criador da mesma maneira que um rei relaciona-se com os seus vassalos. No entanto, a história da espiritualidade medieval apresenta uma tendência que se deve destacar como sendo uma das mais importantes: a personalização da fé religiosa, ou seja, os fiéis percebem que, para entrar em contato com o sobrenatural, é preciso que seja através de gestos. Neste momento a liturgia desempenha um papel de importância capital, não só para os monges como para os leigos. Deviam-se seguir rigorosamente os ritos para que estes tivessem eficácia. Assim, a liberdade é limitada. Não depende exclusivamente do homem salvar-se ou perder-se e, neste caso, a presença do Demônio se manifesta por meio dos seus vícios. A alma do homem é disputada por Deus e pelo Demônio. A reação do homem a isso se manifesta através do espiritualismo radical, proposto pelas ordens que seguiam a Regra de São Bento rigorosamente: a busca da pureza e salvação na recusa da carne e da matéria.

Destarte, o encontro com Deus se dava, para os religiosos da época em que surge o texto “Castelo Perigoso”, com a fuga do mundo, ou seja, com o isolamento do homem em um claustro ou no deserto. Era preciso rejeitar a sociedade temporal e a vida profana. E isto está muito bem atestado nos três tratados por ora analisados:

“[...] Sant’Ambrósio diz: «Como o diabo vir teu coraçom abastado de claridade da çelistrial presença, ele fugirá» [...]” (Dos benefícios de Deus, f. 58v, l. 17)

“[...] que homem passe dos prazeres do mundo às alegrias do çeo.” (Dos benefícios de Deus, f. 60v, l. 19)

 “[...] a si mesmo castiguo e deçiplina [...]” (Livro da consciência e do conhecimento próprio, f. 66r, l. 13)

“[...] e aforteleza a alma que possa resestir às tentações [...]” (Dos benefícios de Deus, f. 59v, l. 2)

“O mundo pouco val e muito custa e nada dura, e Deus muito val e pouco custa e sempre dura [...]” (Dos benefícios de Deus, f. 62r, l. 10 e 11)”

 

O mosteiro de alcobaça

A Abadia de Santa Maria de Alcobaça, local onde foi realizada a adaptação portuguesa do texto francês do “Castelo Perigoso”, foi fundada em 1153 por D. Afonso Henriques. O mosteiro, cuja fundação representou tanto um ato de fé quanto um ato político, esteve sempre ligado ao desenvolvimento de Portugal como nação independente. Santa Maria de Alcobaça representa, hoje, o melhor e mais expressivo documento da arquitetura e da filosofia da Ordem de Cister, não só em Portugal bem como em toda a Europa cristã.

A chegada dos cistercienses a Portugal está situada entre os anos de 1143 e 1144, quando, com a ajuda da Abadia de Claraval, funda-se a Abadia de São João Tarouca. Portanto, a Abadia de Santa Maria de Alcobaça é o segundo mosteiro cisterciense português.

Aos finais do séc. XVI os monges instalam em Alcobaça uma tipografia. Porém, muito antes da instalação da tipografia, os monges já se dedicavam ao labor de copiar e/ou traduzir muitas obras, basicamente religiosas. Esta atividade era desenvolvida pelos monges copistas que, apesar das catástrofes naturais e das destruições realizadas pelo próprio homem, ainda se pode admirar.

 

O ESTUDO DO VOCABULÁRIO DOS TRATADOS

A elaboração de um vocabulário requer uma prática lexicográfica que tome por base dois princípios distintos: o semasiológico ou o onomasiológico. Estes dois princípios se contrapõem. A semasiologia parte da forma (significante) para chegar ao significado (conceito). Trabalhos lexicográficos elaborados segundo este princípio privilegiam a polissemia, pois se organizam, apresentando para cada entrada, suas diferentes acepções. A onomasiologia, ao contrário, evidencia a sinonímia. Ela parte do conceito para examinar todas as formas ou significantes que o realizam. Todavia, os dois pontos de vista se complementam.

Nos vocabulários semasiológicos as lexias são classificadas segundo a ordem alfabética, estando ordenadas de modo formal e prático. Nos vocabulários onomasiológicos, por outro lado, o princípio a ser seguido é o de que o léxico não é formado apenas por uma lista de palavras, este está estruturado como os outros níveis da língua. Sendo assim, um vocabulário onomasiológico é conceitual e não formal, refletindo, desta forma, a ordenação dos conceitos da língua.

Com vistas a oferecer um modelo de ordenação dos conceitos para servir de base a uma investigação lexicográfica de caráter onomasiológico, Hallig e Wartburg (1963) criaram o Sistema Racional de Conceitos.

Hallig e Wartburg, ao criarem o Sistema Racional de Conceitos, visavam a oferecer um método que pudesse ser utilizado ao estudo sistemático do vocabulário de um autor ou de uma época, ordenando-o por conceitos. Tinham por objetivo criar um sistema empírico de referências extralexicais, contendo os conceitos gerais da linguagem.

O Sistema Racional de Conceitos foi elaborado de acordo com alguns princípios: 1) deve ser o mais geral possível, não se restringindo ao vocabulário de uma dada língua ou de um dialeto, tampouco a um determinado momento de uso do sistema; 2) os conceitos devem ser pré-científicos, ou seja, os existentes na língua antes da ciência; 3) a escolha e classificação dos conceitos devem partir de um princípio em que o todo se constitua em um conjunto organizado.

Tentando correlacionar o eu e o mundo, os autores apresentam uma pirâmide de conceitos dividida tripartidamente: A - O Universo; B - O Homem; C - O Homem e o Universo.

Na primeira parte da pirâmide - O Universo, tem-se os conceitos referentes à natureza orgânica e inorgânica. Esta está subdividida em quatro subpartes: I - O céu e a atmosfera; II - A terra; III - As plantas; IV - Os animais. Cada uma dessas subpartes engloba outras subdivisões.

Na segunda parte - O Homem, figuram os conceitos referentes ao homem enquanto ser constituído de corpo e alma. Também está subdividida em quatro subpartes: I - O homem, ser físico; II - A alma e o intelecto; III - O Homem, ser social; IV - A organização social. Estas também se apresentam subdivididas.

Na terceira e última parte - O Homem e o Universo, encontra-se o homem em face de si mesmo e do mundo. Está subdividida em duas subpartes: I - O a priori; II - A ciência e técnica.


 

O vocabulário dos tratados

O texto Castelo Perigoso se destinou, a princípio, a uma monja, ou seja, a um público religioso. Nas várias versões francesas houve uma preocupação em adaptá-lo para um público laico. Em português, contudo, teve o mesmo destino, deixou de ser designado a um mosteiro para se estender a todo o povo cristão.

A estrutura do texto português apresenta algumas diferenças do original francês: é menos sentimental e mais sóbrio. Seu conteúdo doutrinal é diferente em certos pontos, mas a grande metáfora se mantém: a verdadeira vida interior é sempre um “castelo”, pois se deve obedecer aos preceitos divinos. A partir dessa construção se desenvolve todo o texto, integrando-se em uma linha de concepções da alma e da vida interior como um “castelo” ou como “um conjunto de moradas”.

O conteúdo do texto é complexo. Nele está evidenciada uma das fases do período medieval: a Escolástica, em que se dá o encontro do cristianismo com o mundo. Busca-se um modo de vida contemplativo para se chegar ao divino. Assim, este mundo está repleto de significados e remissões a Deus. O vocabulário representa a presença de Deus em três aspectos: nas coisas simples, nos seres espirituais e na alma humana.

 

A elaboração do vocabulário

Na elaboração do vocabulário dos tratados Dos Benefícios de Deus, Livro da consciência e do conhecimento próprio e Da amizade e das qualidades do amigo foram respeitadas as três grandes divisões: O Universo, O Homem, O Homem e o Universo, assim como as subdivisões que tratam das esferas conceptuais presentes nos tratados. Nas entradas foram adotados os seguintes critérios:

·         Os lemas são apresentados em letras maiúsculas, seguidos pela classificação genérica da categoria gramatical a que pertencem;

·         Os lemas compostos são classificados como locução;

·         As entradas dos nomes são feitas pelo masculino e feminino singular;

·         As entradas dos verbos são feitas pelo infinitivo;

·         Após a entrada e a classificação se apresenta a significação do lema no contexto específico, seguida de um exemplo do texto e todas as demais indicações nos tratados e as respectivas linhas;

·         Os exemplos são apresentados em itálico e entre aspas, com a indicação de que tratado pertencem e em que fólio e linha se encontram.

 

O vocabulário cristão

O homem, ser social

As crenças

aa) a expressão da fé

LOUVAR A DEUS (loc.): ‘exaltar, enaltecer, glorificar.’

    “[...] afastar-se das ocupações terreaes e esqueçer todo, por melhor alevantar a louvar a Deus devotamente [...]” (LCCP: f. 65v – l. 15 ; f. 68r – l. 5 ; f. 69r – l. 2 ; f. 70v – l. 8)

PEDIR A DEUS (loc.): ‘suplicar.’

    “Mes porque vida d'homem e molher sobre a terra nom é sem batalhas, deve cada um pedir a Deus força e esperança [...]” (LCCP: f. 65v – l. 21)

REQUERER DEUS (loc.): ‘solicitar.’

    “Nenhum se escuse que nom pode amar, e como assi seja que nom há i cousa porque homem isto mais asinha percalçe, que por amar Deus trabalhemos deuotamente e com viveza requerer Deus [...]” (LCCP: f. 68v – l. 20)

 

A religião

aa) Generalidades

EMBEVEDAR (v.t.): ‘embriagar o espírito.’

    “[...] e faz haver à devota pessoa lágrimas de devaçom doçes e prazívees e que embevedom.” (DBD: f. 58r – l. 8 e 11 ; f. 59r – l. 8)

GUARECER (v.t.): ‘curar, sarar.’

    “[...] este sacramento faz é que alimpa e guareçe a alma do pecado [...]” (DBD: f. 58r – l. 20; f. 58v – l. 15)

MEZINHA (s.f.): ‘remédio.’

    “[...] Santantonho diz: “Eu quero sempre filhar esta mezinha [...]” (DBD: f. 58r – l. 21 ; f. 58v – l. 1 ; DADQA: f. 84r – l. 2)

 

A religião

bb) O judaismo: o Velho Testamento

DAVID (s.m.): ‘rei hebreu, compôs a maior parte de um dos livros sapienciais do Antigo Testamento – Salmos, conhecido como Saltério.’

    “O quarto fruito é que ele purifica a alma dos maos e sem proveito pensamentos e desonestos e das çujas afeições de que David diz no Salteiro [...]” (DBD: f. 59r – l. 6 ; f. 59v – l. 7 ; f. 60r – l. 11 ; f. 60v – l. 1 ; LCCP: f. 66r – l. 6 ; f. 74r – l. 10)

SALTEIRO (s.m.): ‘saltério; conjunto dos 150 salmos bíblicos atribuídos a Davi.’

    “O quarto fruito é que ele purifica a alma dos maos e sem proveito pensamentos e desonestos e das çujas afeições de que David diz no Salteiro [...]” (DBD: f. 59r – l. 6 ; f. 59v – l. 7 ; f. 60r – l. 11 ; LCCP: f. 70v – l. 17 ; f. 74r – l. 11)

LIVRO DA SABEDORIA (loc.): ‘livro do Antigo Testamento, de autor desconhecido, e que integra o conjunto dos livros sapienciais.’

    “O onzeno fruito é que aquele sacramento dá esprituaes viços ao coraçom limpo e devoto, de que é escripto no Livro da Sabedoria [...]” (DBD: f. 60v – l. 8)

TABERNÁCULO (s.m.): ‘santuário do deus dos hebreus.’

    “E segundo diz Sam Gregório, é assi como vaso sem cobretura, que era havido na lei por çujo e sem proveito, ca no uso do tabernáculo pouco valia quem nom guardava sua língua ainda é como cavalo sem freo [...]” (LCCP: f. 67r – l. 1)

 

A religião

cc) O Cristianismo: o catolicismo, o Novo Testamento

JESU CRISTO (s.m.): ‘filho de Deus.’

    “De tôdolos benefíçios de Nosso Senhor Jesu Cristo que nos movem ao amar, o de sua paixom é o mais piadoso [...]” (DBD: f. 57v – l. 4 e 7 ; f. f. 58v – l. 8 ; f. 59v – l. 4, 13 e 14 ; f. 60r – l. 5 ; f. 61r – l. 2 ; f. 62v – l. 5 ; LCCP: f. 68r – l. 10 e 19 ; f. 68v – l. 10 ; f. 69v – l. 5 ; f. 73r – l. 5 ; f. 76v – l. 19)

PAIXOM (s.f.): ‘martírio de Cristo’.

    “De tôdolos benefíçios de Nosso Senhor Jesu Cristo que nos movem ao amar, o de sua paixom é o mais piadoso, e o de que os pelejadores de Deus se deviam armar contra seus imigos.” (DBD: f. 57v – l. 5, 11 e 21 ; LCCP: f. 68r – l. 11 ; f. 69v – l. 7)

SACRAMENTO (s.m.): ‘ação de Cristo e da Igreja, se constitui como sinal e meio pelo qual se exprime se robustece a fé, se presta culto a Deus e se realiza a santificação dos homens.’

    “[..] Do excelentíssimo sacramento do altar e de como os que o reçebem devem ser aparelhados.” (DBD: f. 58r – l. 4, 5, 9, 11, 14, 18 e 19 ; f. 58v – l. 3, 12, 14 e 20 ; f. 59r – l. 12, 15 e 17 ; f. 59v – l. 7 e 20 ; f. 60r – l. 3, 9 e 13 ; f. 60v – l. 3, 6 e 13 ; f. 61r – l. 1, 5 e 12)

 

A igreja

aa) O clero

PAPA (s.m.): ‘o que detém o poder ordinário supremo, pleno, imediato e universal da Igreja.’

    “E sam assi como u)as horas pera as devotas pessoas que nom entendem latim, demover a devaçom e compaixom, e sam tiradas das horas do latim que fez o Papa Joam.” (DBD: f. 57v – l. 14)

CRELIGO (s.m.): ‘clérigo; sacerdote cristão.’

    “Amor a todo bem, desamor ao contrairo, siso e sabedoria pera se salvar, disto senom pode escusar créligo nem léiguo [...]” (LCCP: f. 68r – l. 17 ; f. 68v – l. 2)

ABADE (s.m.): ‘superior de ordem religiosa cristã.’

    “[...] e u)a compensaçom cotidiana, em dizendo as sete horas canônicas os créligos e abades, aqueles que soubessem e podessem [...]” (LCCP: f. 68v – l. 17 ; f. 68v – l. 2)

 

A igreja

bb) Os ritos, os cultos e as orações

HORAS DA CRUZ (loc.): ‘orações contidas no Livro de Horas extraídas dos Evangelhos e que se referem à Paixão de Cristo.’

    “Aqui faleçem as horas da cruz que nom forom tornadas em purtugês porque eram em rimanço em françês e nom pareceriom bem sem rimo.” (DBD: f. 57v – l. 15)

MISSA (s.f.): ‘celebração em memória da morte e ressureição de Cristo; súmula e fonte de todo o culto e vida cristã.’

    “Se nós os honrarmos em suas missas e orações louvando Deus que os taes fez e guardar-nos de pecado.” (LCCP: f. 68r – l. 5 ; f. 68v – l. 20)

HORAS CANÔNICAS (loc.): ‘na liturgia católica, cada uma das partes que se divide a recitação do ofício divino ou breviário : matinas=3h00, prima=6h00, terça=9h00, sexta=12h00, noa=15h00, véspera=18h00, completas=21h00, laudes=24h00.’

    “[...]e u)a compensaçom cotidiana em dizendo as sete Horas Canônicas os créligos e abades aqueles que soubessem e podessem [...]” (LCCP: f. 68v – l. 1)

PATER NOSTER (loc.): ‘Pai Nosso; oração que Jesus ensinou a seus discípulos.’

    “[...] os outros as horas da Paixom assi como é já escripto, os lavradores as horas do Pater Noster e Ave Maria, uns mais e outros menos [...]” (LCCP: f. f. 68v – l. 5 e 8)

AVE MARIA (loc.): ‘oração em honra da Virgem Maria.’

    “[...] os outros as horas da Paixom assi como é já escripto, os lavradores as horas do Pater Noster e Ave Maria, uns mais e outros menos [...]” (LCCP: f. f. 68v – l. 6 e 8)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sabe-se que a elaboração deste vocabulário não esgotou todas as possibilidades de análise lexical de um texto e nem mesmo as estabelecidas por Hallig e Wartburg (1963). Porém, a apresentação deste vocabulário onomasiológico foi uma tentativa de trazer à tona um modelo de estudo de vocabulário que permita interpretações do texto que vão um pouco além das que são apresentadas nos glossários de textos medievais existentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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