A rubra escrita do corpo em São Bernardo,
de Graciliano Ramos
Iza Quelhas (UERJ)
A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus.
(São Bernardo, 1990, p. 39)
I
Entre os romancistas na década de 30, Graciliano Ramos (1892-1953) destaca-se por privilegiar, na constituição de suas personagens e enredos, a atividade do pensar sobre a ação fabular. A importância do predomínio da forma do pensar evidencia-se num tratamento eficaz da narração como monólogo interior (forma de diálogo indireto, pois toda linguagem pressupõe um eu e um tu), em detrimento do diálogo direto, o que é feito com apuro formal em São Bernardo (1934). Graciliano Ramos surge no momento em que os romances publicados, predominantemente por autores nordestinos, colocavam em primeiro plano uma região quase desconhecida do grande público leitor. Tal região, veiculada nos discursos políticos por um fatalismo ancestral, propiciaria terreno fértil para enredos de certo cunho maniqueísta, o que fez de Graciliano Ramos um autor à margem das visões reducionistas. Graciliano elabora um elenco de personagens, a partir dos tortuosos caminhos da reflexão íntima, capazes de estremecer as pretensões de uma produção literária centrada na construção de tipos característicos do pitoresco regional. Ao privilegiar uma narração em primeira pessoa, que problematiza os elos entre a loucura e a razão, entre o particular e o universal, assim como produzir uma interessante reflexão sobre os elos entre o belo e o feio, o belo e o sublime, por exemplo, o autor nos leva, como leitores e intérpretes, a vislumbrar uma via fora das categorizações binárias, a partir da trajetória de uma personagem moldada pelo pensar como processo de discernimento. O sujeito da linguagem e da narrativa, no romance, pensa a partir de memórias e fluxos, integrando à forma narrativa corpo e pensamento a partir da linguagem. A rubra escrita do corpo aponta o processo de narração como um desejo, o que pode ser entendido como intencionalidade que deve ser lida com cuidado para não apontar o óbvio. Paulo Honório, narrador-autor em São Bernardo, escreve um livro para fazer um retrato moral da mulher amada, Madalena, e percorre com sinuosidades os contornos entre o fictício e o não-fictício, ao apresentar-se a si mesmo. O que se pode denominar como a representação de um real, num primeiro momento, compreendido como mundo extratextual, passa, gradualmente, a ser determinado como “o múltiplo dos discursos, a que se refere o acesso ao mundo do autor” (ISER, 1996, p. 30). Ao assumir a escrita do livro, Paulo Honório passa a questionar também a potencialidade semântica da palavra falada e escrita, produzindo uma atmosfera delirante a partir de suas reflexões. Em termos fabulares, se inicialmente sua luta dar-se-á no campo da propriedade - a conquista da fazenda São Bernardo -, aos poucos, a luta focaliza o campo mesmo da linguagem e dos limites da representação.
Paulo Honório apresenta-se como um nome, um corpo e sua escrita. O destaque é dado às “sobrancelhas cerradas e grisalhas”, num “rosto vermelho e cabeludo” (SB, p. 12), imagem reiterada e ampliada, ao longo da narrativa:
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas. (SB, p. 187)
São Bernardo
, de Graciliano Ramos, é um dos romances mais lidos do autor, narrado a partir da visão da personagem principal - Paulo Honório -, cujo discurso será, de forma gradual, contagiado por uma outra ordem, a do inconsciente. Esse aflorar de uma outra ordem dá ao romance uma forma dissonante de beleza, o que pode apontar uma das razões para sucesso de público e de crítica, no segundo momento modernista. A questão do belo é tratada por Theodor Adorno, em sua Teoria Estética, da qual selecionei a seguinte passagem:É um lugar-comum afirmar que a arte não se deixa absorver no conceito de belo, mas que, para o realizar, precisa do feio como sua negação. (ADORNO, 1982 p. 67)
A interdição do feio “tornou-se a do que não é constituído hic et nunc, do não totalmente organizado - do bruto” (Idem, p. 63). Sem perder de vista o aspecto social da questão, Adorno assinala que o motivo da “admissão do feio foi antifeudal: os camponeses tornaram-se capazes da arte” (Idem, p. 69). A dinamicidade do feio é uma das propostas da estética moderna, que virou de ponta-cabeça a concepção de uma estética fundada na harmonia e no equilíbrio de formas, e presentifica-se na obra de Graciliano Ramos desde os seus primeiros romances.
Em Caetés, primeiro romance do autor, e São Bernardo os enredos são marcados pela focalização interna das personagens principais, obstinadas pela idéia de escrever um livro. Tais romances representam a configuração de um confronto não apenas entre um eu e um tu, mas um confronto de "mim para mim mesmo", como bem observa Iúri Lotman a respeito das possíveis formas do diálogo no romance (MACHADO, 1994, p. 12). A forma romance, portanto, na produção literária de Graciliano Ramos, coloca em relevo a imagem da fala do homem do Nordeste e assume a forma cambiante da atividade do pensar, com intensidade no romance em foco neste artigo. A história da personagem Paulo Honório nos remete, na contemporaneidade, a uma das questões fulcrais para a vida social: a da liberdade do indivíduo, nas sociedades democráticas, o que coloca em evidência a faculdade de pensar e discernir, atribuir valores às ações, palavras e gestos em sociedade.
Os textos de Graciliano, desde a publicação de seu primeiro livro, despertaram o interesse da crítica e do público, predominando, até a década de 70, uma leitura de fundamentação teórica marxista. Tal enfoque parece ser explicado, em São Bernardo, pela trajetória de Paulo Honório, que enriquece, torna-se um homem cruel, mas solitário, graças a sua ambição desmedida. Mais tarde, Paulo Honório ficará enclausurado em sua própria propriedade, já decadente, não lhe restando nenhuma forma de consolo a não ser as palavras que o podem aproximar de Madalena, já morta, mas também de sua própria história de vida. No entanto, neste artigo, pretendo refletir sobre esse enredo, brevemente resumido, inserindo a personagem no amplo espectro de compreensão da própria errância da existência, projetada na narrativa, o que revela na escrita a gênese da atividade do pensar. Pode-se ler, então, o surgimento do homo aestheticus, a partir da atividade do narrar. Entre o início e o fim da narrativa, a figura da mulher amada, Madalena, a perda e o luto pela sua morte, pontuam momentos cruciais da narrativa, tais como a abertura do livro, a divisão de capítulos e as passagens entre episódios. O sentimento de perda gera uma reflexão inaugural sobre a finitude, instaurando-se os elos entre o sujeito e o outro, compreendido não apenas no corpo de uma outra personagem, mas no corpo de uma comunidade da qual ele começa a fazer parte: a comunidade dos leitores, instaurada a partir da leitura.
O formato irregular dos capítulos, a falta de ordenação lógica entre os episódios narrados, a linguagem delirante com a qual Paulo Honório narra uma história que parece não ter fim, desenham um perturbador território de subjetividades delineado a partir do corpo da linguagem, tal como se pode verificar na passagem do capítulo 13 para o 14:
E não tenho o intuito de escrever em conformidade com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que é um erro. Vou dividir um capítulo em dois. Realmente o que se segue podia encaixar-se no que procurei expor antes desta digressão. Mas não tem dúvida, faço um capítulo especial por causa de Madalena. (SB, p. 78)
Pensamento e narração interpenetram-se, indissociáveis nesse romance avassalador. Nessa trajetória, avulta, aos poucos, uma categoria importante para os estudos da crítica literária e da filosofia: a faculdade do juízo, fundamental para a elaboração de todo e qualquer pensamento crítico, de acordo com o que propõe Immanuel Kant (1724-1804), em sua terceira crítica - a Crítica da faculdade do juízo (KANT, 1993). Kant define essa faculdade como a "(...) de pensar o particular como contido no universal" (CFJ, p. 23). A partir da obra literária unem-se a faculdade do juízo e a faculdade da imaginação. A Crítica da faculdade do juízo, de Kant, inicialmente intitulada "Crítica do gosto", foi publicada pela primeira vez em 1790, quando o filósofo ainda estava vivo. No final de sua vida, Kant preocupara-se em estudar o político pela via da reflexão estética, indagando-se sobre quais seriam os critérios diferenciadores da moralidade e da boa cidadania, para que mesmo uma "raça de demônios" pudesse conviver entre si, conforme registra Hannah Arendt, em suas Lições sobre a filosofia política de Kant (ARENDT, 1993, p. 25-26). Ao investigar o gosto, Kant estaria investigando o político, reafirmando seus interesses antropológicos, como interpreta Arendt, colocando em destaque essa leitura inovadora na recepção da obra kantiana. Poderíamos perguntar, com Kant, a partir da leitura efetuada do romance São Bernardo, como tornar possível a convivência entre homens e mulheres que pensam, sentem e agem de formas diferentes, num mundo que se pretende globalizado, apesar dos conflitos de ordem étnica, religiosa e racial, para citar apenas alguns? A “raça de demônios”, com seu poder desagregador, capaz de instaurar o caos social, parece configurar a metáfora da passagem da metafísica à moral, lida de uma forma inaugural no romance São Bernardo, de Graciliano Ramos.
O estranho, afinal, encontra-se em nós, dispersos em uma multidão de iguais. O espectro luciferiano projeta-se não como sombra, mas potencialidade de sentidos, como se pode interpretar a partir da etimologia do nome Lúcifer, nome latino, que significa ‘aquele que porta, pro-fere a luz’.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afasta-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue. (SB, p. 184)
Publicado após os principais episódios políticos que marcaram o início da década de 30, no Brasil, o romance São Bernardo sinaliza algumas questões relativas ao individual e ao coletivo, ao político e ao estético. Tais questões sugerem uma descoberta no fazer literário de Graciliano Ramos, aproximando-o da leitura política dos escritos de Kant efetuada por Hannah Arendt: o pensar uma comunidade política a partir de um texto simuladamente autobiográfico, que coloca em primeiro plano o olhar de uma personagem que representa, numa primeira leitura, os valores de uma certa classe social - a dos proprietários de terras num cenário agreste alagoano. Tal focalização narrativa não foi compreendida, na época, por alguns representantes de partidos políticos de esquerda, que reivindicaram uma nítida definição das questões sociais (oprimidos versus opressores, por exemplo) tratadas no romance.
No decorrer da narrativa, o leitor é levado a compreender as motivações do narrador, a partir de um exercício de suspensão de juízo: a reflexão sobre o ato de julgar. A concepção de distanciamento, dessa forma, assume uma dimensão decisiva, pois a palavra narrada e a palavra lida formam um corpo de linguagem em atividade no ato da leitura. Apesar de Paulo Honório desfiar um longo caminho de crimes, roubos e crueldades, ele narra e expõe sua visão de um lugar inaugural: a do sujeito que fala de um lugar metafórico, entre o particular e o universal, entre o sensível e o inteligível.
Destacamos, no romance, alguns momentos decisivos para a compreensão da trajetória dessa personagem. São eles:
a) um primeiro momento que privilegia a necessidade: o tacho manipulado pela figura materna, descrita como um cadáver iminente;
b) um segundo momento que privilegia o gosto, a partir da imagem dos paud-d'arco floridos, imagem que Paulo Honório considera bela na natureza, antes vista por ele apenas por sua dimensão utilitária, jamais estética.
II
A figura da mãe adotiva de Paulo Honório é descrita a partir de uma característica psicológica importante para a compreensão da dinamicidade da atividade do pensar: a ausência de diálogo e de verbalização dos sentimentos na economia das relações sociais.
Se tentasse contar-lhes a minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por aí à toa. Lembro-me de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida que vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um século, e qualquer dia destes compro-lhe mortalha e mando enterrá-la perto do altar-mor da capela. (SB, p. 12/13)
Algumas linhas e o assunto está encerrado
, pois não há nada a dizer sobre essa infância e as personagens que a povoaram. Ao contrário de Madalena, que mesmo morta funciona como um centro irradiador de inquietações e perguntas, a mãe Margarida aparece como doceira, uma mãe adotiva e um cadáver iminente. Numa outra visão da infância, o filósofo e teórico da literatura Walter Benjamin, afirma que a infância - promesse de bonheur - é tempo de construção de mitos e fábulas, “de reconciliação do homem consigo mesmo, e da natureza com a história”, como observa Olgária Matos (MATOS, 1989, p. 86-87).Longe de configurar um tempo de reconciliações, a lembrança da infância narrada por Paulo Honório assinala a infelicidade, o abandono e a ausência de diálogo. O pai adotivo e cego que desaparece, portanto, além de não poder ver, deixa de ser visto; a mãe negra, doceira, que sobrevivia ao redor de um tacho compõem o resumo dos episódios de uma infância singular e ao mesmo tempo plural, caso estabeleçamos a relação entre texto e contexto, na sociedade brasileira. Apenas a aparição de Madalena, na fase adulta de sua vida, irá introduzir na vida de Paulo Honório o que lhe era completamente estranho e até mesmo desprezível: a beleza, a conversação e a escrita.
Nas palavras de Paulo Honório,
Lembrei-me do tacho velho, que era o centro da pequenina casa onde vivíamos. Mexi-me em redor dele vários anos, lavei-o, tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre - e dele recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quase toda a vida. Ou foi ele que a utilizou. Agora, decrépita, não podia ser doceira, e aquele traste se tornava inteiramente desnecessário.
- Está bem, mãe Margarida, terá um tacho igual ao outro. (SB, p. 58)
No capítulo 20, outro episódio significativo:
- Falta alguma coisa lá no rancho?
- Falta nada! Tem tudo, a Sinhá manda tudo. Um despotismo de luxo: lençóis, sapatos, tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu pé não vai. E não me cubro. Só preciso uma esteira. Uma esteira e um fogo. (SB, p. 118)
O símbolo da necessidade - o tacho - transforma Mãe Margarida num objeto, pois Paulo Honório afirma que a mãe o utilizara para dele tirar o sustento, tanto quanto por ele fora utilizada. Tudo o que Madalena oferece torna-se desnecessário, pois ela parece disseminar a idéia de que se pode instaurar uma certa felicidade pela irrupção do imprevisto, do agradável, do belo, sob a óptica do desinteresse de compensação material. É a reflexão, realizada a partir do momento em que Paulo Honório assume o lugar de sujeito da linguagem e inicia a elaboração do livro, que irá permitir o distanciamento indispensável para a compreensão de si mesmo e do outro. No entanto, tal distanciamento é apresentado também como forma de conhecimento do próprio corpo que sente, lembra e escreve, não se dissociando a linguagem do corpo daquele que fala/escreve no romance.
Em São Bernardo, identificamos, principalmente, o desdobramento da personagem principal num eu do eu pelo labor narrativo. O caráter simuladamente autobiográfico da narrativa constrói um interessante cenário de crime e confissão, a partir do qual, nós, leitores, somos levados a refletir e a compreender a compreensão que as atividades da leitura e do pensamento nos proporcionam. Distante do contexto erudito da cultura européia, o romance de Graciliano destaca, no agreste alagoano, a emergência da necessidade do pensar e não apenas da necessidade de sobreviver, pela negatividade e pelos sentimentos de finitude: a morte, a perda e o luto. Na arte, Paulo Honório esgota os momentos de imediatez numa fase marcada pelo desejo de poder, portanto, de infinitude, o que irá adquirir uma outra feição a partir da morte de Madalena. A morte, dessa forma, impulsiona a reflexão e a compreensão de si e do outro, constituindo um dos principais tópicos da ética.
Longe das periodizações literárias, a trajetória de Paulo Honório, em São Bernardo, pela atividade do pensar, estabelece um curioso elo entre a vida e a obra, entre a literatura e a filosofia, sintonizada com uma teoria do conhecimento elaborada desde a produção reflexiva dos artistas românticos, ainda pouco desdobrada nas investigações contemporâneas. O "pensar do pensar" como esquema originário de toda reflexão está na "(...) base da concepção crítica de Schlegel" (Idem, p. 48), e, para a idéia nuclear desta comunicação esse pensar do pensar está também na base da concepção do leitor como um "autor ampliado". Tal concepção dá forma ao que, mais adiante, será estudado e desenvolvido, em variadas perspectivas, pelas teorias da recepção.
No romance São Bernardo, os elos entre acontecimentos e personagens, o modo como estão dispostas as recordações, apresentadas pela ordem aleatória do devaneio no pensar, são marcas importantes para a compreensão de um texto que convida o leitor a engendrar-se nos delírios da razão. Na narrativa, pouco a pouco, Paulo Honório é tomado pelas visões delirantes do ciúme, como ocorre em:
A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os caboclos, sim senhor (...). Realmente uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos e pituim. Os meus olhos me enganavam. Mas se os olhos me enganavam, em que me havia de fiar então? (SB, p. 150-151)
A tradição da ciência ocidental dominada pela máxima do ver para crer, a preocupação com os instrumentos ópticos e com a metodologia do tornar visível tudo aquilo que, ideologicamente, determina o que deve assumir o estatuto do verdadeiro, fornecem o rastro de uma cultura científica e de um senso comum que a legitima socialmente. Ver além do visível parece ser a única saída para Paulo Honório, mas é preciso superar o terreno das aparências fincadas em identidades instituídas e pretensamente unívocas. É preciso penetrar na esfera do prazer para compreender o que nos leva a escolher e a julgar, sem levar em consideração apenas a imediatez de interesses, no terreno das subjetividades dos indivíduos, num mundo em movimento.
III
Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar de S. Pedro. Estávamos em fim de janeiro. Os paus-d' arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhã a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando o rio, e a cascata que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitava-se de espuma. (SB, p.94)
- Hoje, pela manhã, já havia na mata alguns paus-d'arco com flores. Contei uns quatro. Daqui a uma semana estão lindos. É pena
que as flores caiam tão depressa. (SB, p. 162)As citações anteriores fazem referência à beleza da natureza, realçando o fato de que a primeira citação marca a lembrança de Paulo Honório, no dia de seu casamento, assinalando que a beleza não está no exterior ou no fora, numa natureza, mas sim no sujeito que a percebe. Todo o trecho apresenta-nos um quadro idílico entre o homem e a natureza, entre o interior e o exterior, e compõe um dos raros momentos em que Paulo Honório não faz menção ao aspecto utilitário das coisas ao seu redor. No segundo trecho, Madalena assinala não apenas a beleza e a diferença das flores em meio à mata uniforme - a figura e o fundo no olhar daquela que é vista por Paulo Honório como aquela que compreende -, como também assinala a sua fugacidade no reino do sensível, das aparências. O tempo, portanto, interfere na possibilidade de apreciação da beleza para o sujeito que se sabe finito, instaurando uma dimensão de necessidade e urgência de sociabilidade pela linguagem.
Paulo Honório, tão pouco habituado ao reconhecimento e à valorização da beleza, compôs um cenário no qual a beleza aflora como forma de resistência à sua própria rudeza. De modo sutil, percebe-se no texto construído por Paulo Honório, após a morte de Madalena, uma curiosa aproximação ao sentido dado às palavras da mulher amada.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. (SB, p. 102)
As palavras de Paulo Honório, ao referir-se às conversações mantidas entre ele e Madalena remetem a uma das categorias mais importantes da terceira crítica de Kant: a do "pensamento ampliado" ou a da "mentalidade alargada". Tal concepção baseia-se na faculdade do "pensar pondo-se no lugar de todos os outros", o que confirma a inserção do pensamento kantiano no âmbito do idealismo, mas também indica a sua preocupação com o que se convencionou denominar universais, no âmbito mesmo da cultura e não das culturas na terceira crítica do filósofo.
O pensar em processo, numa determinada cultura, é compreendido, neste artigo, como uma possibilidade de se pensar a ética sem excluir o outro, e, portanto, sem excluir as diferenças na relação dialógica entre os sujeitos. A faculdade de julgar, conforme Kant, ao levar em consideração o modo de representação do outro, dá um enfoque especial, no trecho destacado do romance, ao verbo "sentir" e ao gesto de apagar as luzes para que a sombra envolvesse a ambos, até se tornarem vultos "indistintos na escuridão". O mundo sensível, comunicável pelas palavras e compartilhado pelo prazer, é próprio do ser, e essa é uma descoberta que leva o narrador personagem a ultrapassar a visão de si mesmo como um sujeito assujeitado e revelar a existência de um mundo interno, complexo e vário, ao qual se tem acesso pela via das experiências e emoções num estado limite, daí a representação de uma linguagem pelo que aparentemente desorganiza e desconecta. Paulo Honório parece dá corpo à idéia de que uma "(...) vida destituída de exame não vale a pena ser vivida" (ARENDT, 1993, p. 50), e expõe uma forma de pensar capaz de levá-lo ao uso público da razão, daí o desejo de escrever um livro destinado a uma comunidade de leitores tanto quanto a si mesmo.
O termo gosto é utilizado pela primeira vez, em 1750, por Gottlieb Baumgarten (1714-1762), em sua obra A esthetica (BAYER, 1989). Nessa obra, trata-se, ainda, de investigar o gosto pela via do didatismo nas artes e de sua utilidade para a formação do intelectual, mantidos os laços com a teoria platônica. Kant, por sua vez, considera o gosto uma forma pura de reflexão, procurando estudar os princípios que possam constituir uma estética não prescritiva, fundamentada no juízo estético. É perceptível, portanto, as afinidades entre Kant e os autores românticos estudados por Walter Benjamin, em sua tese de doutorado, mais tarde publicada sob o título O conceito de crítica de arte no romantismo alemão.
Na Crítica da faculdade do juízo, ao tratar no parágrafo 30, "Do método da dedução dos juízos de gosto", Kant afirma que:
A incumbência de uma dedução, isto é, da garantia da legitimidade de uma espécie de juízo, somente se apresenta quando o juízo reivindica uma necessidade; o que é também o caso quando ele exige universalidade subjetiva, isto é, o assentimento de qualquer um. Apesar disso, ele não é nenhum juízo de conhecimento, mas somente de prazer e de desprazer em um objeto dado, isto é, a presunção de uma conformidade a fins válida para qualquer um sem exceção e
que não deve fundar-se sobre nenhum conceito de coisa, porque ele é um juízo de gosto. (CFJ, p. 127)A terceira crítica kantiana insere-se na fronteira onde as obras começam, não interessa ao filósofo desenvolvê-la a partir dos parâmetros de uma crítica fundada em critérios previamente estabelecidos, o que insere o pensamento estético do filósofo na modernidade. Ao contrário, Kant, assim como Nietzsche o fará mais tarde, preocupa-se com a autonomia estética e defende a idéia de que a razão se diz de três maneiras distintas, ao contrário de Hegel. No entanto, Kant mostrava-se cético em relação ao indivíduo, como assinala Hannah Arendt ao retomar as palavras do filósofo:
O fim do homem como espécie... será levado pela providência a
um desfecho bem-sucedido, muito embora os fins dos homens enquanto indivíduos corram na direção diametralmente oposta. Pois o próprio conflito das inclinações individuais, que é a fonte de todos os males, dá à razão uma mão livre para dominá-las; dá-se assim predominância não ao mal, que se destrói a si mesmo, mas ao bem, que continua a manter-se uma vez estabelecido. (ARENDT, 1993, p.66)É notório nesse trecho o quanto Kant acreditava nos princípios iluministas, o que se pode, hoje, olhar com desconfiança, num momento em que as especificidades e diferenças sociais, étnicas, religiosas, sexuais etc. reacenderam as cinzas da intolerância, em todos os continentes. Kant, na terceira crítica, volta-se para a natureza do prazer desinteressado que sentimos a partir do belo. A "satisfação desinteressada" estaria, portanto, entre os principais interesses kantianos, pois, pensava o filósofo, isso poderia ajudá-lo a compreender tanto o indivíduo quanto a espécie. O "pensar consigo mesmo", através da letra, no romance São Bernardo, dá-se pela interação entre o corpo e os sentidos, pois para Kant o "(...) corpo e os sentidos 'não são a fonte principal do erro e do mal'" (grifo nosso) (ARENDT, 1993, p. 38), ao contrário do que afirmara Platão. Essa interação entre o corpo e os sentidos, por sua vez, não se dá fora do campo das ideologias, das crenças e dos valores arraigados nas culturas e nos sujeitos que nela convivem. Não há campo neutro, nem visões neutras, mas pode haver o corpo e seus interesses como produtores de sentido numa nova ordem.
A Crítica da faculdade do juízo, considerada por alguns estudiosos como o "apogeu do subjetivismo moderno" (FERRY, 1994, p. 25), anuncia tanto a pluralidade de mundos particulares, quanto o que afirma Nietzsche, em seu livro Vontade de potência: "(...) não existem estados de fato em si" mas sim "apenas interpretações" (Idem, p. 27), o que está na base das teorias pós-modernas.
São Bernardo, de Graciliano Ramos, antecipa questões contemporâneas ao problematizar as categorias inseridas no conceito aristotélico de verossímil, assim como o que se naturalizou culturalmente como o bem e o mal. Investigar, hoje, o gosto nas sociedades contemporâneas, principalmente nas sociedades latino-americanas, pode nos levar a compreender a compreensão a partir do que é para mim, o que não pode ser lido fora do campo ideológico. Mas tal como ocorre com Paulo Honório, a tarefa de olhar, narrar e compreender a si e ao outro não deve passar por uma forma de leitura tranqüilizadora, mas sim pelo que Kant denominou "tristeza interessante", um sentimento que nos pode levar ao necessário distanciamento enquanto usufruímos a possibilidade de olhar aquilo que nos afeta em processo. Tal procedimento nos leva a ultrapassar as dicotomias, presentes desde a mitologia ocidental nas figuras de Apolo e Dioniso, por exemplo. Essa ultrapassagem das dicotomias pode sugerir o que se resume nas seguintes palavras contidas no artigo “A desconstrução da metafísica e a reconciliação de poetas e filósofos”, no seguinte trecho:
Assim como o lume diurno é a fonte da visibilidade e da perceptibilidade das coisas sensíveis, o Bem é a origem da luciformidade e da cognoscibilidade das idéias inteligíveis. Conhecer é saber ver, não apenas com os olhos do corpo, que se limitam à observação do mundo visível mas, sobretudo, com o olho da alma, que se compraz na admirável visão do universo ideal. Formar verdadeiramente significa educar o olhar eidético, potencializa-lo e atualizá-lo num virar ou fazer girar toda a alma (periagogé holes tes psyches) (Pol. VII, 521c6), num volver a cabeça do mundo sensível para o universo inteligível a fim de se poder ver a idealidade luciforme do Bem. (MELO E SOUZA, 1999, p. 87)
A presente leitura do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, procurou destacar os aspectos do disforme, do inconcluso e do não-harmônico, a partir de uma das pontas do pensamento platônico que necessita ser ultrapassada. A narrativa em São Bernardo, nessa leitura, é uma rubra escrita do corpo, o que é uma outra forma de se falar em poesia.
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