DE CORPO E ALMA
A POESIA MÍSTICA DE ADÉLIA PRADO
Eliana Yunes (PUC-RIO)
Louvai ao Senhor, livro meu irmão, com
Vossas letras e palavras, com
Vosso verso e sentido, com
Vossa capa e forma, com
as mãos de todos que vos fizeram existir,
louvai ao Senhor
.
Imagino, que o lugar do qual posso falar do tema proposto estivesse efetivamente tão óbvio para os organizadores, que não pareceu necessário aclarar, como eu o faço agora, acrescentando ao título dado o campo em que me movo.
Por outro lado, com o plural Leituras sugerindo uma cartografia dos escritos da tradição ao longo de 500 anos da Evangelização, fiquei intimidada face ao fato de que o tempo de que disponho perde uma casa decimal e se transmuta para minutos.
Ainda uma questão precisaria ser anotada: a tradição católica nem sempre produziu na literatura brasileira adesões de louvor e fidelidade. Entre Anchieta _ recém chegado ao altar das letras pela mudança de parâmetros do que seja ou não literatura _ e Santa Rita Durão, há um Gregório de Matos, causticando os costumes pouco exemplares da Igreja colonial; às imagens modelares da Virgem que aparecem entre os românticos correspondem sem embaraço louvores a prostitutas; se Jorge de Lima e Murilo Mendes expressaram sem pudor sua fé cristã em altos níveis de poeticidade, não faltaram ao modernismo vozes críticas acerbas com relação à tradição católica como a de escritores do porte de Oswald de Andrade ou de Monteiro Lobato, acusado de perverter a infância pelo jesuíta Salles Brasil, por suas idéias pouco ortodoxas com relação, por exemplo, ao sacramento do matrimônio. Lobato, todos lembramos , casa Emília com o porco Rabicó e diante do insucesso da união realiza o divórcio; não importou se na vida real, Lobato mantivesse todo respeito e desvelo com Purezinha, como o mais fiel dos maridos.
Para não seguir numa linha duplamente arriscada, teológica e literariamente falando, e não enveredar sobre discussões delicadas e complexas sobre as interferências entre vida e obra _ de que sujeito estamos falando, da persona ou da pessoa, do narrador ou do autor ? _ apresso-me a fazer opção por uma linha que não me leve a divagações e questionamentos teóricos - embora fundamentais - , mas que privariam o público de uma outra leitura que, suponho, corresponda ao quadro deste seminário.
Quando pensamos em literatura religiosa é impossível não vir imediatamente à memória, a imagem de Tereza de Ávila imortalizada por Velásquez e seus manuscritos preservados no Escorial. Não sigo adiante para relembrar a Juan de la Cruz e outros mais, pois à sugestão da carmelita doutora da Igreja, assalta-me o desejo de eleger uma mulher de perfil místico para refletir sobre seus escritos no tempo de que dispomos. Não há muita dificuldade nesta procura uma vez que a voz feminina foi silenciada em três séculos e meio deste meio milênio de história brasileira. Se não mencionarmos, é claro, a contribuição decisiva da oralidade não-autoral na formação da literatura brasileira, embora o mestre Cândido não se tivesse detido no assunto, e mesmo ela sendo marcante em obras expressivas como as de José Lins do Rego e Graciliano Ramos .
Reconhecemos já partir do século XIX mulheres destemidas na tradição das armas e das letras mas só no apagar das luzes do século XX a politicamente prestigiosa Academia brasileira de Letras pode contar com meia dezena de nomes de mulher nos exclusivíssimos assentos. Embora o modernismo tivesse solicitado mais a presença feminina no círculo de debates, nem sempre se poderia dizer de suas inserções na cultura como exemplo dos efeitos da tradição católica. Outros até diriam que sim, mas não seria o tipo de leitura esperada aqui.
Assim, delibero por mim mesma eleger como personagem deste ensaio a uma autora mineira que despontou na década de 70 e crescentemente vem construindo uma obra originalmente mística para os olhos da arte: Adélia Prado, é seu nome. Corrijo de novo o título: A poética mística de Adélia Prado.
Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo
aparece dourada. Dentro dela agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
Entre enxada e sono: Louvado seja Deus!
(Bagagem, l976: 50)
Desde este primeiro livro, Adélia aproxima seu cotidiano - de dona de casa, habituada às concretudes do dia-a-dia - do transcendente que, de modo inapelável, a requisita em cada verso. É neste jogo de aparente contradição, tanto na prosa como na poesia, que escolho realizar uma leitura, sabendo-se da cumplicidade do leitor com as obras que elege.
Do poético ao erótico: a aparente distância.
Ao ler o primeiro livro de poemas de Adélia, ainda nos originais, Affonso Romano de Sant’Anna não os devolveu e enviou-os direto a uma editora: estava diante de uma autora singular. A atriz Bruna Lombardi despencou para Divinópolis - não é mera coincidência que seja lá que ela tenha nascido e viva? - e não pediu autógrafos, pois a dona não os dá: pediu para ouvir os poemas em voz alta, como se estivesse em divãs medievais. Frei Beto considera que seus livros estão a meio do caminho entre arte e religião: vê neles o caráter erótico da relação entre pessoas e o de ágape da relação entre a pessoa e Deus. O reitor da Católica de Minas Gerais, Pe. Geraldo Magela Teixeira, acha em sua poesia mais que arte, “uma religiosidade telúrica”. O leigo Renato Russo afirmou certa vez que, através de seus poemas, ele fazia uma revisão da imagem que se tem de Deus.
A unanimidade nos índices de leitura não lhe poupa ressalvas dos mais vanguarda, que já viam Cecília Meireles de soslaio. Mas não se expõem. Por outro lado, Adélia não serviu à vertente do feminismo e as polêmicas usuais, com sua imagem de dona-de-casa fiel ao marido, cinco filhos, igreja dominical. Não aceitando provocações da crítica, decidiu fazer silêncio sobre sua teoria poética, com uma única exceção: admite que tanto a arte como a religião é para ela o exagero, o êxtase - “ou é Deus ou é nada”, verseja em Artefato Nipônico (FP, 1988)
A crítica mais aguda registrou que no terceiro livro de poemas Terra de Santa Cruz “sua religiosidade adensou-se, assim como sua eroticidade, o que permitiu o surgimento de tensões que revelavam os aspectos mais inusitados de seu misticismo, quase sempre associado a essa mistura entre o sagrado e o profano, entre a esterilidade e a procriação, num jogo de ambigüidades”, anotou Felipe Fortuna (Idéias, 25.04.87) Mas o crítico estava pensando em vacilos, indecisões, como poderiam senti-lo também os ortodoxos, quando o que há é uma surpreendente coerência. No místico, não só o espírito mas a carne também goza.
Nos séculos XI e XII tanto a filosofia quanto a expressão mística, anunciada no evangelho de S. João e alcançada por Agostinho na baixa idade média, retomam vigor em meio a teólogos que a entendiam numa perspectiva intelectual e contemplativa, como São Bernardo de Clervaux e seus sucessores, confinada à produção masculina de saber, eivada mais em termos racionais que emocionais. Será, no entanto com a nova literatura conventual de lavra feminina , desencadeada por Tereza de Ávila ou de Jesus, no séc. XVI, que a mística, fruto não apenas de reflexões, proposições e argumentos, ganha lugar “carismático” pelas vidas e experiências de mulheres que nutrem ardente veneração pessoal por Cristo. Por meio da mística , da comunicação direta com Deus (visões, estigmas, levitações e milagres) as mulheres religiosas, ainda que sob suspeitas, ganham espaço na Igreja. Melhor ainda porque acompanhadas por um varão, S. Juan de la Cruz que também as experiência e as narra em El cântico espiritual.
Segundo estes relatos, não há experiência espiritual desta ordem sem a cumplicidade do corpo. No transe, corpo e espírito se fundem como se diante da revelação de Deus o corpo se sentisse ressuscitado, transfigurado, como na experiência mosaica no monte Sinai:
Eu amo a Deus em espírito é com meu corpo, porque quem levita é ele,
É ele quem fica extático na montanha sagrada e recebe os estigmas
e as tábuas da lei
“ (Solte os Cachorros, 1979: 86)
diz a versão adeliana da experiência. Não admira que a expressão deste abolir da dualidade corpo-espírito impactasse e assustasse a ortodoxia católica com seus calores intensos, de Magdalena de Pazzi (1566-1607) e o despojamento das vestes para aproximar-se da cruz, de Angela de Foligno (l669): “o místico não sofre o terror do corpo; ao contrário caminha para ele”, diz a pesquisadora Gisela Campos, a propósito de Adélia. É através do corpo humilde, disciplinado e amado, resgatado pela ascética penitencial que se estará aberto à comunicação de Deus:
Deus não me faz até a cintura para o diabo fazer o resto. Ou tudo
é bento ou nada é bento.( Os Componentes da Banda , 1983:26)
Das culpas e dúvidas sobre o pecado as personagens de Adélia buscam alcançar a inocência da carne: os prazeres do corpo são fundamentais se conduzirem ao sublime encontro das almas. E é o corpo que sustenta vivo a experiência do divino, pois se é Ele o Senhor quem nos busca , busca o inteiro de nós:
Um corpo quer outro corpo
uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde
.(A faca no peito, in PR, 1991:391)
A freira María de la Antigua, na coletânea Tras el espejo la musa escribe:lírica feminina de los siglos de oro (1993:67) confirma : “é alma que deve estar morta para a terra / e para as honras desta vida”, pois sem esvaziar-se do eu, não há como Deus preencher vontade do ser e trazê-lo a Si.
Dado este passo, o próximo é o contato com Deus, descrito por S. Juan de la Cruz como encontros amorosos, na metáfora do Amado ou do Esposo inaugurada pelo Cântico dos Cânticos. São como que revelações que se dão não pela vontade do homem mas pelo desejo de Deus e pela força do arrebatamento, a experiência mística se torna erótica, impulso vital, pulsão de vida.
Está lá a coisa, o ser, o Deus, fora de mim, completamente Outro, mas em intensa comunhão comigo
( CB :99)
A trajetória à iluminação é feita de sombra e luz; ausência e presença do Amado se alternam até o convívio permanente , quando diz-se , instala-se a poesia eucarística, em que corpo e alma se confundem em uma união mais intensa. Marcela de San Felix deixou estes versos eróticos, sem dúvida:
Que puedo yo imprimir en tu costado abierto
Mis labios tantas veces que a recibirte llego?
Que tus hermosas llagas deposite en mi pecho,
Y las pueda tocar y darlas dulces besos?
Pela voz de Adélia poeta, ouvimos já em Terra de Santa Cruz, terceiro livro;
Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro,
O corpo humano de Deus(...)
E teu corpo na cruz sem panos: olha para mim.
Eu te adoro, ó Salvador meu, que apaixonadamente me revelas
A inocência da carne.
(in Poesia Reunida, 1991: 279)
Após a agonia, o êxtase: a experiência interior se completa e alma e corpo juntos, se rendem ao desconhecido conhecido, o que para Geoge Bataille (Ática, 1992) é o que escapa a todo entendimento, não cabe no discurso e nem procura pelo sentido. A própria experiência é seu objeto e destino.
Do cotidiano concreto à comunhão mística
Com Adélia a experiência abstrata parece ceder lugar a percepções mais concretas da vida onde sua participação sensível se torna inteligível, escapando no entanto das explicações razoáveis. Por ela se processa uma identificação com as coisas por fruição, sem lógicas previsíveis:
Eu gosto de metafísica, só pra depois
Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
Falar as falas certas :a de Lurdes casou,
A das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
As santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve
(Clareira, in Bagagem:43)
A poeta se sente atraída pela realidade manifesta do mundo, sem contudo, discriminar hierarquizar, ajuizar:
Me tentam a beleza física, forma concreta dos lábios,
Sexo, telefone, cartas, o desenho amargo da boca do “Ecce homo
”(Ausência de poesia, in Coração Disparado:65)
E reconhece a insuficiência da palavra poética para penetrar a coisa, a força viva da matéria sobre a volátil inscrição do poema. Ela quer as coisas em seu estado primeiro, quase bruto, “Antes do Nome” (Bagagem, 30), espécie de comunhão com as coisas existentes, sem luxos de hierarquias, franciscanamente, pois quem alcança “os sítios obscuros”, entende o mundo, entende o Criador, entende o Verbo, O que é, sem palavras.
“Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda
Foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.”
Conhecendo que a experiência será sempre maior que o discurso poético e antevendo os riscos da vanglória para a alma, ao entrar no circuito literário, invoca:
Valha-me, Pai
Num mar de vaidades não me deixe morrer
Pela vida, entrego todos os meus versos
.(Bitolas, in CD: 82)
Mas a sedução do verbo não se estanca pelo perigo ou pela impotência de dizer e a poeta não cala como seria de esperar; ela é subjugada por uma força inapelável que gera por sua vez, um desejo de revelação e se sobrepõe à consciência de suas limitações:
Escrever me subjuga e não entendo
(...)
Ó anelo de comunhão estrangulado,
mistério que me abate e me corrói
(Canga in TSC:63)
Mas o que sinto, escrevo.
(Com licença poética in B:19),
e confessa então, no primeiro poema do primeiro livro, que a poesia é dom de Deus.
Porque , mercê de Deus, o poder que eu tenho
É de fazer poesia, quando ela insiste
feito água no fundo da mina.
(Tabaréu, in B:84)
Como o significado autêntico lhe escapa, debruça-se sobre a materialidade sonora e escava suas ressonâncias, buscando no verso de ritmo encantatório, o resgate de um rito sagrado. Ouçamos:
Eu fico nervosa com a questão das palavras: Aloés plantados pelo Senhor
E não aroeiras plantadas pelo Senhor
Abraão, nome terrível!
“Terra que mana leite e mel “
Palavra linda: o batismo
(...)
Quem achou tais formas de dizer buliu em coisas mais sérias
(CB:88)
Já é o bastante para perceber sua interlocução permanente com o discurso bíblico, a intertextualidade explícita, mesmo que o poema perpasse o cotidiano:
Desminto a quem disser: ah os quintais de Minas, tão pacíficos!
Porque neles vivi coisas que com o auxílio de Deus
Nunca direi.
(corpo humano, in TSC:87)
Resulta que a linguagem poética, ao viabilizar o diálogo íntimo entre homem e mundo, afasta - se do cotidiano para tornar-se opaca pela retórica; contudo a modernidade, de Beaudelaire para cá, nos fez experimentar a busca da transparência, a que justamente esteve perdida pelos automatismos que cegam o coloquial, este que agora Adélia recupera pelo deslocamento do olhar do poeta:
Igreja é o melhor lugar
Lá o gado de Deus pára pra beber água
Rela um no outro os chifres
E espevita seus cheiros
Que eu reconheço e gosto
A modo de um cachorro.
(Sítio, in Bagagem:83)
Desmistificada a linguagem poética, o verso se torna dessacralizado, afastando-se do estatuto nobre frente à transcendência inacessível, já que o real “choca”. Com Adélia, o salto se dá em outra direção, uma queda para o alto, em que o real concreto é reavaliado, redimensionado pela certeza religiosa, e anuncia Deus no cerne do mundo:
Se a mãe tiver razão, estou perdida
Sempre disse: a poesia é o rastro de Deus nas coisas
.( Despautério in Pelicano:58)
Assim, o mundo real que admira e ama, o corpo com que geme e goza são dádivas porque se justificam na ultrapassagem do olhar que nada exclui ou nega, mas revela o divino sem melancolia ou pieguice. Afirma:
Tudo o que sinto esbarra em Deus.
(CD,83)
A concepção poética de Adélia sobre a vida comum, ordinária é religiosa em suas raízes e teologicamente corresponde a leituras que só a contemporaneidade pode acatar e compreender:
Minha mãe cozinhava exatamente; arroz, feijão-roxinho,
molho de batatinhas. Mas cantava.
(CD, In: PR, 151)
No momento em que periga a vida e o planeta como nunca, o dia-a-dia se reconhece pleno de sacramentais. Leonardo Boff nos lembra? em Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos que
“ na arqueologia do cotidiano medram sacramentais vivos, vividos e verdadeiros. É a caneca de minha família, a polenta da mamãe, o último toco de cigarro de palha deixado por meu pai e guardado com todo carinho, a velha mesa de trabalho, a vela grossa de Natal, aquele pedaço de montanha, o velho caminho pedregoso, (...) deixaram de ser coisas. Elas ficaram gente, podemos ouvir sua voz e por suas memórias louvar o Senhor.
É justo este, o exercício da poética de Adélia, mulher mística de Divinópolis.
Na medida em que abrem nossa sensibilidade ao Criador e nos fazem aderir ao seu sinal de vida, as miudezas do cotidiano, na linguagem pseudo-coloquial, como a que desdobra a poesia de Adélia, encontram o caminho do místico, que em tudo vê primeiro o amor de Deus. Mas, “de vez em quando , Deus me tira a poesia. Olho pedra , vejo pedra mesmo.”
Da paixão à epifania
O percurso de Adélia de algum modo se assemelha ao de Clarice, pela via-crucis da paixão, vividas diferentemente pelas duas, já que o coração selvagem de uma lentamente faz sua ascese por intricados sentimentos e súbitas revelações até sua hora da estrela enquanto pelicano, a outra se deixa apanhar desde o princípio, peito aberto para servir como oráculo (de maio).
Adélia em Poesia Reunida, coletou seus versos de Bagagem, Coração Disparado, Pelicano, Terra de Santa Cruz e A Faca no Peito, escritos entre 1976 e 1988. No mesmo período exercitou-se em uma prosa quase poética, dada a fragmentação do discurso sobre o mesmo cotidiano e a mesma espiritualidade, envolvendo quatro mulheres que buscam nas “miudezas, quiriquiquis e ossos de borboleta” o caminho da perfeição , “tão sublime e deslumbrante claridade”: são praticamente quatro evangelhos que narram o processo de ascese desde a narradora de Solte os Cachorros (l979). A seguir, .Maria da Glória, de Cacos para um Vitral (1980), Violeta, de Os componentes da Banda (1984) e Antonia, de O Homem da Mão Seca (l994), em linha de purgação chegam à revelação, mais que ao conhecimento, já que no hay camino, el camino se hace al andar, como diria Antonio Machado; por composição minuciosa de cacos e componentes, como observa a pesquisadora Valéria R. Guerra.
Em 1999 volta a publicar 2 livros: Oráculos de Maio, poemas e a prosa confessional de O manuscrito de Felipa.
Os, digamos, romances de Adélia traçam versões de uma mesma trajetória, por personagens distintas, que buscam a fusão com o todo; elas precisam abdicar, sim, mas não das alegrias e prazeres que Deus concede, mas à existência infeliz, às angústias e queixas que distraem o coração do sentimento de paz.
A rotina é metódica para nela alcançarem o deslumbramento do não-visto - a aceitação do cotidiano é a primeira resposta de susto e louvor: daí, parte “sem enfeite nenhum” ao encontro da iluminação, e vem da matéria mesma para a leveza de sua transcendência, palavra que recusa em favor de Claridade, quando na verdade confidenciam alucinações, delírios e sonhos, tal qual as místicas sob censura e vigilância dos primeiros séculos do milênio que se fecha. Primeiro , o despojamento, depois a plenitude:
“eu detesto as artes. Mais de um artista é demais, me aflige. É como ir nos supermercados, montanhas de repolho, pirâmides de tomates, de lingüiça, enfaro. Que saudade, uma panela com arroz, uma com feijão, outra com mistura, carne só aos domingos. Não tinha sobra, não tinha excesso, só fome, muita fome de tudo”
(CB,80)
Sua atitude contudo não se torna reverente, “enobrecida” pelo vislumbre da alta mística. Em coisas banais, é que Antonia experimenta uma alegria funda:
“à revelia de mim, maravilha, à revelia de mim, sem que eu interfira, sem que eu mande, sem que eu seja responsável, os astros giram e vão e vão e vão
”(CV,95)
Neste processo não há o que jogar fora e tudo conduz ao caminho da perfeição. Por isso Ismália, a melhor amiga de Violeta lhe recomenda viver o inferno para alcançar o céu:
“Você está no inferno Violeta, mas é tão boba, não sabe aproveitar um acontecimento extraordinário desses.”
Ismália quer que eu veja o demônio: “senão você não verá a Deus, como você é estúpida, Violeta”
(CB,54)
A caminhada, em verdade, não se apresenta com fáceis bifurcações à direita ou à esquerda: “ a coisitica tinha asas” e ela procura “o caminho do meio, a terceira via,” que lhe permita uma vida menos dividida, inteira e maciça:
Olha que eu vivo dilacerada (corto dilacerada, palavra bonita), olha que eu vivo esbodegada de tanto bater a cabeça. De um lado o que eu quero me tornar ALTER FRANCISCUS
(...) De outro: sonhei com uma cobra escondida numa moitinha de trevo, qu
e me picou dois dedos com muita dor(SC,62)
As personagens de Adélia sabem que precisam aceitar a condição medíocre do ser humano e amá-la com toda a sujeira, pecado, excremento e com a preocupação escatológica, “palavra escalafobética”, para alcançar o fim último:
Uma vez rotularam-me: escatológica. Inflei de orgulho até que me apresentaram aos vários sentidos desta palavra esquipática ( que não sei o que é, mas cai onomatopaicamente bem neste contexto). Tinham todos razão: Me interessa o fim, o que é igual ao princípio. O meio é divertimento, lacrimoso teatro, intervalo, interregno, ensaio geral, piquenique dificultoso, onde fatos memoráveis acontecem
.(CV,103)
Perder o orgulho, colocar-se diante de Deus na nudez absoluta, na inapelável condição de “comer e descomer”, até que sujo não se veja pois que estavam no coração e na mente. Atravessa o asco das coisas que, humilham, a condição anal, metáfora da miséria humana:
O dia que não me importar com a minha condição anal, nem tiver mais necessidade deste eufemismo estúpido para designar aquela parte do corpo, aí sim, os zombadores verão o que é atravessar enxame de marimbondos, caminhar sobre as brasas e outros milagrezinhos
.(CB,117)
Diante da rememoração de que Jesus é um homem que, como S. Francisco, ele também come e elimina, compreende que Ele a redimiu por inteiro e não pela metade, que diante dele é toda a condição humana que encontra redenção:
Que seria de mim sem Jesus Cristo? Que seria de mim se Deus não fosse um homem que se pode tocar, crucificar, beijar, comer?
(CB,132)
A sedução pelo mistério cresce a ponto de tornar-se insuportável estar dele separada, e, como infante, sem perguntar como e por quê, deixa-se confiada a Deus como os meninos, segundo Ele mesmo disse. Entrega descontrolada, sem a razão que já não subsiste, desnecessária. Ela procura a “paz que excede todo entendimento”:
Ganhei uma vela que acendi no presépio, fico olhando o mistério, o medo some porque o mistério recompõe as coisas, dá-lhes naturalidade e mansidão. Anseio ficar assim na mão de Deus, completamente esquecida de mim.
(CB, 53)
Como a entrega não é fácil apesar de desejada: “Deus me cansa pois me pede incessantemente o que não sou capaz de oferecer-lhe” (HMS,8) , há um exercício espiritual que a impele a amar sem medida, sem discurso, ouvinte, expectante :
“Só estou querendo viver desprogramada, atenta à voz que sussurra com nitidez quando me deseja: “escuta, ó Antonia.”
(HMS,153)
Há uma metamorfose em marcha silenciosa, dentro dela e Violeta sabe que os outros recolhem percepções indizíveis à sua volta:
“a intervalos Deus me dá grandes tréguas, todo mundo nota a diferença” ( CB,117) mas sabia: “Santa ainda não sou (...) porque para mim seu primeiro sinal é o rosto sereno” (CB, 100)
Desde o primeiro livro em prosa que contém embrionariamente os seguintes, a personagem narradora deseja mudar de vida e o quer com radicalidade:
“Quero o que se deve querer, já que conforme o mandamento, somos todos chamados à perfeição: é por isso, é por estrito senso de dever que eu quero o mais custoso
.(SC,55)
A súbita iluminação já não distingue dever e querer, vontade própria ou vontade de Deus. Como Santa Tereza de Ávila relata “é como se um raio num instante atravessasse o que ache de terreno em nossa natureza e o deixa feito em pó, pois que enquanto dura é impossível ter presente seja o que for de nosso ser” (Moradas, 6, xi). Violeta ecoa dizendo : “Só tenho alívio quando me prostro: Espírito de Deus, manda-me do céu um raio de Vossa Luz”
Aos poucos cada uma das mulheres de Adélia vai adentrando a luz e as alucinações emergem , de fato como cacos para um vitral que só de longe e depois, como nos sonhos, podem perder a desconexão e responder por outra forma, uma epifania:
“É para isso só que se nasce, pra ver seu Rosto Terrível nos trespassando de facas. Moisés desceu do monte com dois chifres em brasa, Santa Tereza com olheiras, São João da Cruz não tendo mais controle sobre seu pênis estático. Eu também quero os inefáveis gozos.
(CB,80)
À beira do êxtase, Glória sonha com anéis e argolas de ouro, símbolos da aliança, aro vazio por onde Deus fecunda o mundo com seu Verbo que rompe com a lógica das aparências e instiga a viver para além da lei. A compaixão pelo mundo faz com que nada lhe seja tirado e experimente o gozo da unidade: “o que seja é do céu que vem. Não pode vir de outro sítio o que me deixa assim picando de felicidade (SC,107)
A antiga acepção de poeta/profeta cria volume e a poesia em prosa parece soprada ao ouvido como mensagem de Deus , não vinda de alhures, mas integrada profundamente no corpo e no espírito que contempla o mundo e vê o único todo de onde ele emerge:
“o inconsciente coletivo quer um país com rebanhos e lavouras de milho, viola, namoro, casamento, dor de parto, panelas fumegantes e o que mais urge para todo ser humano, em qualquer canto do mundo, suspirar e dizer: GRACIAS A LA VIDA
”(CV,87)
A posse do sublime é a resposta do abandono e da entrega, em total confiança, sem pestanejar e então se conhece Deus. A fragilidade humana , sua pequenez se preenchem da força divina quando se abre a esta, a faca no peito:
O homem não inventa o sublime, a claridade que o circunda. Estou felicíssima. Ismália sofrendo ou gozando diz: “eu sou tocada pela graça de Deus.”
(CB,90)
No dizer de Bataille, é preciso que nos falte discurso, razão, entendimento, mas também coração para nos rendermos ao mistério, afundarmos na perplexidade sem temor , deixando-nos arrebatar de forma permanente e minuciosa, sem tempo e lugar próprio para adorar:
Acabava a adoração, aí sim, na rua, em casa, eu pensava em Deus, no céu, porque enfim, é só nisto mesmo que eu penso a vida toda, um pensar sem pensamento, uma alegria de existir caminhando para um futuro terrível e maravilhoso, caminhando para minha linda morte.
(CB,97)
O caminho da paixão não é menos revelador que a hora sublime do êxtase, da epifania _ “tive certeza naquela hora: o Senhor nos ouve, nem um só gemido nosso Lhe escapa” (CB,138) _ e tudo que antes parecia insignificante, imaginação oca, faz sentido:
“Só agora vendo no céu uma cavidade entre nuvens, em forma de coração de intenso e luminoso amarelo(...) o Criador dizia à criatura: Amo-te. Não tive medo da morte e respondi: eis-me.
(CB,138)
As tentações da perda e do pecado, da culpa e do medo desaparecem porque a segurança vem do seu criador:
“nem que eu deseje cairei de Deus, vem de sua mão a maldição e a benção, glória, mas eu posso escolher, escolho quero a benção, a vida o Dom da sabedoria, a graça de acreditar em Seu amor por mim, ainda que no deserto rodeada de feras.”
(HMS,117)
Dai-me somente, vosso amor, vossa graça.
Curiosamente os grandes místicos não foram homens e mulheres de recolhimento absoluto; antes alternaram ação e oração, meditação e pregação até que a revelação ou epifania já lhes trouxesse a plena comunhão, indistinção de estado, tempo ou lugar. Impossível maior despojamento que o do Senhor que se fez homem e era Deus e não deixou de sê-lo mas comungou do humano por ele criado. Comungamos com o que criamos? Violência, miséria, egoísmo, não queremos sequer admitir, embora sejamos violentos, miseráveis, egoístas. Maravilha das maravilhas reinventa a poeta, o paraíso:
Derrubarei o governo, o papado, / dizimarei casas paroquiais / e fundarei um sonho:/ num cerrado os frades com seus capuzes/ como aves marrons, pacificamente procuravam um lugar. /Eu os acompanhei até que viram uma casa grande./ Tinha um grande fogão, uma grande mesa/ e todos foram entrando e acomodavam-se/ espalhando-se pela casa / como verdadeiros irmãos.
(Falsete, in TSC/PR, 287)
Adélia funde seu quintal e o paraíso terrestre:
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
(Leitura, In Bagagem, 19)
funde o fazer doméstico ao fazer sagrado, trabalho e louvor:
Tudo que existe louvará./Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,/o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar./Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,/os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar/vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,/u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria./A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia,/o movimento pleno:/cantar e dançar TE-DEUM.
(Um Salmo, in Bagagem, 33)
funde contemplação e vida:
Uma formiga me detém o passo,
aonde vais, celerado, que não me ajudas?
Mas não é dela a voz,
é dele interceptando-me,
o deus carente.
Se não lhe disser Vos amo,
sua dor nos congela.
(Staccato, in Oráculos de Maio, 21)
Fazer poesia é o mesmo que orar. Ela sabe que empresta a boca a Deus ou a devolve a ele, cheia de louvor o único seu, o único sim, o que lhe pode dar que não tenha vindo dele antes.
Sei que Deus mora em mim
como sua melhor casa.
Sou sua paisagem,
sua retorta alquímica
e para sua alegria
seus dois olhos.
Mas esta letra é minha.
(Direitos Humanos, in Oráculos de Maio, 73)
A consciência de seu fazer poético, mergulhado na busca da experiência mística está nesta expressão em (HMS, 159): “São assim as poéticas, as místicas - têm as hipérboles e os êxtases, o brilho que a razão não devassa, gozo prometido aos simples de coração”.
A poética mística de Adélia Prado expõe, nestes 500 anos, a face feminina do verso cunhado no peito e no ventre de uma Sulamita leiga, casada, ousando outras virgindades nos colóquios com que seduz e é seduzida à comunhão com Aquele cujo nome é impronunciável. Muito poucas mulheres - personae - publicaram seu amor ao Altíssimo tão despudoradamente como as alterego de Adélia. Se umas assustaram a Igreja, nos idos medievais, outras agora assustam a Academia. O galardão que espera Adélia Prado não virá certamente de um ou de outro altar, mas do seu cotidiano, santificado pela poesia, reescrevendo a via-crucis como o caminho da revelação:
Na fila da comunhão percebo à minha frente uma mulher,
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços diante de mim:
“juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela vez só”.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecida do vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria - que chamei assim à falta de outro nome -
invadindo nossa casa com sofreguidão das coisas do diabo.
Rezei de modo horrível.
o perdão tinha espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
“Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento”.
“Por que, mãe, não dí-gui-na?
“quando você crescer, entenderá”.
Senhor eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher e eu.
(Canto Eucarístico, in Bagagem, 197 - 198)
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