OS PASSADOS NO ENSINO DE PORTUGUÊS PARA ESTRANGEIROS
Vanise Gomes de Medeiros (PUC-Rio/ UERJ)
Várias são as dificuldades que o ensino de português pode apresentar ao aluno estrangeiro. Algumas específicas a um determinado tipo de falante, como, por exemplo, o emprego do artigo para o falante de japonês; outras comuns a quase todos os aprendizes, como é o caso, para citar um, do uso do subjuntivo. Neste trabalho vai se tratar de uma dificuldade também comum a qualquer estrangeiro aprendiz de português: o emprego dos passados. Aqui vai se refletir sobre alguns dos problemas que esse tipo de aluno enfrenta com o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito e vai se propor algumas estratégias para o ensino desses tempos. Mais especificamente vai se focalizar neste artigo alguns dos empregos do perfeito.
O emprego dos pretéritos -- perfeito e imperfeito -- constitui um problema tanto para o aluno iniciante em português quanto para aquele que já possui um bom domínio da língua. Para este segundo, os problemas podem ser de duas ordens: primeira, a utilização de uma forma do passado inapropriadamente; segunda, a não exploração de oposições aspectuais que dariam ao texto um outro matiz.
O exemplo (1) permite observar a inadequação do uso de uma forma do pretérito:
(1) Na adolescência eu sempre esperava que tivesse uma família ‘normal’ e que minha mãe pudesse ser como todas as outras mães. Quando ela me dirigiu para a escola na sua camioneta laranja pintada com árvores, flores e arco-ireses eu me escondia debaixo da cadeira ou pedia para que ela me deixasse bem longe da entrada da escola. Ela sempre tinha um jeito extranho de vestir e sempre me dava vergonha quando encontrávamos com minhas colegas.
Trata-se de um fragmento de redação de uma aluna, no caso falante de língua inglesa, já com um bom trânsito na língua portuguesa. Um parêntese para situar seu texto: após a leitura do conto O Alienista de Machado de Assis e após a exploração deste conto de diferentes maneiras (outras leituras, vídeo, trabalhos orais e escritos), havia uma proposta de debate a partir de uma frase de Caetano Veloso ‘De perto ninguém é normal’. Este trecho é, pois, produto de uma redação feita a partir de tal frase. E o que se pode observar em tal fragmento no que se refere ao emprego do passado? O uso inadequado do perfeito (se dirigiu) no lugar do imperfeito; no caso, ela teria duas opções com o imperfeito em função do vocábulo que escolhesse:
(a) Quando ela dirigia a caminhonete ....
(b) Quando ela me levava....
Uma ressalva: está sendo considerado aqui o imperfeito como a forma adequada uma vez que a proposta de narração da aluna apresenta tal forma como base de seu texto. Repare-se no início -- Na adolescência eu sempre esperava ...-- e nos outros verbos presentes no período em questão --... eu me escondia debaixo da cadeira e pedia....
Já o exemplo (2) permite uma outra observação:
(2) Três meses após o curso ela se apresentava como um brasileira.
Neste caso, não há inadequação no emprego de uma forma do passado, apenas se pretende destacar que com o perfeito o enunciado deixaria de apresentar um determinado matiz: o narrativo. Observe-se:
(2.1) Três meses após o curso ela se apresentou como um brasileira.
A questão que está se propondo com este caso é: até que ponto o aluno sabe explorar o perfeito em suas várias possibilidades? Por exemplo, no fragmento (1), a aluna também poderia ter usado, após o advérbio sempre, o perfeito do indicativo, o que também daria ao seu texto um outro tom:
(1.1) Na adolescência eu sempre esperei ter uma família ‘normal’ e sempre desejei que minha mãe pudesse ser como todas as outras mães. Quando ela me levava para a escola na sua camioneta laranja pintada com árvores, flores e arco-ireses eu me escondia debaixo da cadeira ou pedia para que ela me deixasse bem longe da entrada da escola. Ela sempre teve um jeito extranho de vestir e sempre me deu vergonha quando encontrávamos com minhas colegas.
Conforme foi dito, a proposta deste trabalho é refletir sobre alguns dos empregos do perfeito buscando com isso poder indicar para o aluno a adequação do emprego de uma ou outra forma (no caso, do perfeito ou do imperfeito) e também poder possibilitar a ele a exploração das potencialidades que estas formas apresentam. Observem-se, então, alguns outros exemplos retirados de redações de alunos estrangeiros:
(3) Eu morava lá por um ano.
(4) Eu tentava durante um ano ter ratinhos.
(5) Ele sempre amava ela como louco e ficou sofrendo a vida inteira dele.
Tem-se aqui o imperfeito sendo usado de maneira inaceitável. A que se deve tal emprego? Talvez a resposta esteja nas características veiculadas sobre o perfeito e o imperfeito.
O imperfeito é comumente apresentado nas gramáticas como aquele que “encerra uma idéia de continuidade, de duração do processo verbal” (Cunha e Cintra) em oposição ao perfeito, que é apresentado como aquele cuja “ação que se produziu em certo momento no passado” (Cunha e Cintra). Além do aspecto durativo (da idéia de continuidade), as gramáticas, em geral, atribuem ao imperfeito o aspecto inconcluso (a idéia de ser inacabado) -- “designa fundamentalmente um fato passado, mas não concluído” (Cunha e Cintra) -- em oposição, mais uma vez, ao perfeito que funciona então como “detonador de uma ação completamente concluída”. Tem-se, portanto, de um lado, o imperfeito, tomado como durativo e inconcluso, e, de outro, o perfeito, considerado como não durativo e concluso. É com tal oposição que, grosso modo, os livros de português para estrangeiros operam e é também através de tal oposição que se apresentam, em geral, estas duas formas do passado para o aluno estrangeiro e com que se trabalham também os passados.
Ao se observarem os exemplos (3), (4) e (5) acima, nota-se a presença de adjuntos adverbiais que remetem o aspecto durativo (por um ano, durante um ano, sempre), e que, por conseguinte, implicam para o aluno estrangeiro o emprego do imperfeito. Por que, então, o uso do imperfeito nestes casos não é o adequado? E indo mais longe: por que ter de usar o perfeito nestes casos?
Ora, o que se pretende demonstrar aqui é que se a distinção apontada nas gramáticas entre imperfeito (durativo e inconcluso) e perfeito (não durativo e concluso) pode ajudar no ensino do português para estrangeiros em um primeiro momento; não recobre, no entanto, o uso destes tempos em língua portuguesa. Em outras palavras, o que se quer evidenciar com este trabalho é que:
(i) o fato de o imperfeito apresentar aspecto durativo (continuativo) não implica considerá-lo também ou sobretudo como inconcluso;
(ii) o fato de o perfeito funcionar como concluso e não durativo em diversos ambientes não significa que se deva tomá-lo como tendo somente tais características.
Observe-se agora o pequeno diálogo abaixo:
(6) - Eu ontem andei na praia de Ipanema até o Leblon.
- Eu sempre andei.
E confronte-se-o com um diálogo semelhante:
(7) - Eu ontem andei na praia de Ipanema até o Leblon.
- Eu sempre andava.
Em (7), com o verbo no imperfeito, a leitura que se pode fazer é: o interlocutor já fez tal percurso algumas (ou inúmeras) vezes, mas não o faz mais; ele andava, não anda mais. Em (6), com o perfeito, a leitura que se pode fazer é: o interlocutor não só já fez o percurso algumas (ou inúmeras) vezes como ainda o faz. Para que o perfeito pudesse neste caso ser lido como fato acabado, concluso, a sentença deveria continuar com, por exemplo, ‘mas hoje eu não ando mais’. Portanto, o que se tem com estes dois exemplos é:
(i) um imperfeito funcionando como durativo e concluso;
(ii) um perfeito funcionando como durativo e inconcluso.
Em outras palavras, o que se observa com tais exemplos é uma total inversão do que se aponta, em geral, nas gramáticas do português em relação aos passados. A título de ilustração, eis os quadros: (a) correspondente às características destas formais verbais tal como se encontram nas gramáticas tradicionais; (b) correspondente aos diálogos dos exemplos (6) e (7):
(a)
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Imperfeito |
Perfeito |
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durativo |
não durativo |
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inconcluso |
concluso |
(b)
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Imperfeito |
Perfeito |
|
durativo |
durativo |
|
concluso |
inconcluso |
Já que neste artigo o perfeito que está em foco, vale observar separadamente cada uma de suas ‘inversões’.
Quanto ao aspecto durativo do perfeito, algumas gramáticas fazem referência a esta possibilidade. Em Cunha e Cintra, por exemplo, é lembrado que o perfeito “para exprimir uma ação repetida ou contínua... exige sempre o acompanhamento de advérbios”, como, por exemplo, em:
(8) Aludi várias vezes ao revestimento exterior. (Cunha e Cintra)
Observe-se, então, que, com este exemplo de Cunha, tem-se um uso do perfeito com o aspecto durativo, tal como no exemplo (6), mas, por outro lado, diferentemente do exemplo (6), com o aspecto concluso. Isto possibilita um outro quadro para o perfeito:
(c)
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Perfeito |
|
durativo |
|
concluso |
Quanto ao aspecto inconcluso do perfeito, observado no exemplo (6), vale destacar que o perfeito aí se aproxima de uma outra forma do passado: o pretérito perfeito composto do indicativo. Tal como este projeta-se para o presente podendo, inclusive, remeter ao futuro: como equivalente a “eu sempre andei” pode-se ter “eu tenho andado sempre”, significando também que “vou continuar a andar”.
Tem-se, então, no que tange ao aspecto, ao menos três possibilidades para o perfeito:
(i) aspecto não durativo e concluso;
(ii) aspecto durativo e concluso;
(iii) aspecto durativo e inconcluso.
Evidenciados estes outros empregos do perfeito e observados os problemas do aluno estrangeiro -- uso do imperfeito com advérbios que conferem à frase um caráter durativo, como vimos nos exemplos (3), (4) e (5), é hora de voltar à proposta deste trabalho que é a de pensar em estratégias de ensino dos passados a partir das amplas possibilidades de emprego do perfeito. A interferência que vai se propor aqué fruto da observação dos problemas que a distinção usual entre perfeito e imperfeito -- a do quadro (a) -- normalmente traz ao aluno, sobretudo àquele menos iniciante.
Considera-se aqui que a distinção primeira tomando o imperfeito como durativo e o perfeito como fato “que se produziu em certo momento do passado” (Cunha e Cintra) é produtiva. Isto não significa, contudo, tomar o imperfeito como inconcluso, tampouco opor imperfeito ao perfeito no que tange ao aspecto concluso/inconcluso. Ambos seriam apresentados e trabalhados como conclusos. O imperfeito, no caso, como tendo um aspecto durativo; já o perfeito, como sendo caracterizado como não durativo. O que corresponde a já conhecida estratégia articulada a partir dos advérbios ontem (para o perfeito) e antigamente (para o imperfeito). Repare-se que o que se está destacando é o aspecto concluso do imperfeito.
Como uma distinção outra, a proposta é a de se trabalhar o perfeito como durativo em ambientes que apareçam advérbios como sempre, isto é, em ambientes que apontem para o aspecto durativo. Para tornar mais evidente a proposta deste trabalho: o que se pretende sinalizar para o aluno é o fato de, em ambientes com advérbios que remetam para um acontecimento contínuo, o perfeito vir a ser a forma usada: seja porque tais advérbios o demandam, como é o caso do exemplo (5); seja porque a presença desta forma verbal irá permitir um outro matiz ao enunciado, caso do exemplo (1.1), seja porque o uso do perfeito irá impor uma leitura diferente em relação ao imperfeito, caso do exemplo (6). Importa destacar que está se propondo o perfeito não como sendo passível de apresentar o aspecto durativo devido a presença de um ou outro advérbio, mas como sendo por ele, advérbio, engendrado. Esta é uma importante mudança de foco da questão.
Em suma, está se propondo elucidar para o aluno que:
(i) as formas perfeito e imperfeito do indicativo perfeito apresentam o aspecto concluso e a oposição entre perfeito e imperfeito se dá a partir do aspecto durativo em certos ambientes;
(ii) a forma perfeito do indicativo também apresenta o aspecto durativo. Mais do isso: em ambientes com advérbios como sempre privilegia-se o emprego do perfeito. O emprego do imperfeito passa a ser tomado como também possível, mas como promovendo alterações no texto ou então como dependente de determinados estratégias textuais para ser possível. A título de ilustração, o imperfeito do exemplo (3) seria possível se a frase continuasse com “quando aconteceu o acidente” (Eu já morava lá por um ano quando aconteceu o acidente.)
(iii) a forma perfeito do indicativo pode apresentar o aspecto inconcluso e aproximar-se assim do pretérito perfeito composto do indicativo.
Por fim, é importante lembrar que estas observações constituem o início de uma pesquisa sobre os passados na língua portuguesa.
Bibliografia:
CUNHA, C. e CINTRA, L. Gramática do Português Contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985