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A POÉTICA DOS BEATLES

Afrânio da Silva Garcia (UERJ)

 

INTRODUÇÃO

Se existe um evento cultural que realmente serve como um divisor de águas entre a visão de mundo da primeira metade do século XX e a visão de mundo da segunda metade do século XX este evento é o surgimento dos Beatles e da Beatlemania. Até então, todo fenômeno cultural era mais ou menos restrito ao seu país de origem e constituía apenas isto: um fenômeno cultural. Com os Beatles, não; com os Beatles, pela primeira vez se tem um fenômeno cultural globalizado e que ultrapassa o âmbito de um simples fenômeno cultural para tornar-se uma revolução cultural e social, uma atitude diante da vida, uma negação dos valores até então tidos como absolutos.

Muito embora os Beatles fossem até bastante comedidos em sua postura revolucionária (os Rolling Stones serão bem mais ousados), eles pregam duas idéias altamente subversivas para a época: que os jovens não são adultos incompletos, mas seres humanos dotados de todo direito a se expressar e viver sua vida de acordo com seus parâmetros; e que as pessoas devem, antes de tudo e acima de tudo, buscar ser felizes.

Munidos dessas armas, o direito dos jovens de serem considerados como pessoas e a busca da felicidade, principalmente através do amor, os Beatles irão varrer da face da Terra muitas concepções errôneas e preconceitos profundamente arraigados e, infelizmente, ajudar a gerar algumas novas mazelas, como a cultura das drogas e a alienação da juventude num mundo fantasioso e irreal. Infelizmente, o sopro de felicidade que os Beatles lançaram sobre o mundo parece ter durado bem menos do que as mazelas que, involuntariamente, eles ajudaram a criar.

Mas os Beatles não eram pregadores da alienação, pelo contrário, a partir do momento em que eles se fixaram como músicos, eles contribuíram em muito para a conscientização e engrandecimento de seus ouvintes, com uma obra em que se aliam a qualidade, a reflexão e a criatividade, o que explica cabalmente a sua perenidade.

O objetivo desse trabalho é tentar mostrar um pouco da trajetória poética dos Beatles, a evolução de suas letras, sua temática e sua genialidade e a maneira como, muitas vezes, suas experiências pessoais e a realidade histórica da época influenciaram sua música. Como nem todos os que me lerem ou ouvirem dominam perfeitamente o inglês, após os trechos em inglês virão suas traduções.

 

A JUVENTUDE REFLETIDA NAS CANÇÕES

A primeira fase dos Beatles como compositores e letristas, que vai do seu primeiro compacto, “Love me do” (Ame-me de fato ou ame-me mesmo) até “Rubber soul” (Alma de borracha) e “Help” (Socorro!) é marcada por letras de temática essencialmente juvenil: a procura por uma namorada, o amor que durará para sempre (mas não dura!), a namorada que o trai ou larga, os amigos que riem, etc. , com uma simplicidade e uma candura absolutamente irresistíveis, embora um tanto cansativas, às vezes. As músicas parecem um contraponto: numa música, o rapaz faz tudo pela menina, noutra, é a menina que faz tudo pelo rapaz, como podemos verificar pelos trechos abaixo:

If there’s anything that you want,

If there’s anything I can do,

Just call on me and I’ll bring it along

With love from me to you .

(From me to you, 1963)

Se há alguma coisa que você queira

Se há alguma coisa que eu possa fazer

Apenas me chame e eu a trarei comigo

Com amor de mim para você

You’ve been good to me, you made me glad when I was blue

And eternally I’ll always be in love with you

And all I gotta do is thank you girl, thank you girl

(Thank you girl,1963)

Você tem sido boa para mim, você me faz feliz quando eu estava triste

E serei eternamente sempre apaixonado por você

E tudo que eu tenho de fazer é lhe agradecer a menina, lhe agradecer, menina

Outra hora, temos uma canção em que o rapaz só faz chorar em oposição a outra canção em que o rapaz diz que tudo que ele tem a fazer é chamar que a menina virá correndo, como podemos constatar abaixo:

I’ve got every reason on earth to be mad,

‘Cause I’ve lost the only girl I had.

If I could get my way,

I’d get myself locked up today,

But I can’t, so I’ll cry instead.

(I’ll cry instead.1964)

Eu tenho toda razão no mundo para estar arrasado,

Porque eu perdi a única garota que eu tinha.

Se eu pudesse trilhar meu caminho,

Eu me trancaria em casa hoje,

Mas eu não, então eu vou chorar (em vez disso).

Mas a maestria dos Beatles, mesmo nas letras simplistas desta primeira fase, já está presente. Reparem como eles usam bem o recurso estilístico da homonímia na seguinte música:

It won’t be long, yeh yeh (three times)

Till I belong to you

(It won’t be long, 1963)

Não vai demorar, ié ié (3 vezes)

Até que eu pertença a você.

São dessa fase duas obras-primas dos Beatles: “She loves you” (Ela ama você, 1963) e “And I love her” (E eu a amo, 1964), a primeira com sua vitalidade e otimismo, uma verdadeira celebração da alegria de viver e de amar, e a segunda com um lirismo exacerbado e primoroso, como podemos perceber abaixo:

She says she loves you,

And you know that can’t be bad,

Yes, she loves you,

And you know you should be glad.

She loves you, yeh, yeh, yeh (two times)

And with a love like that

You know you should be glad.

Ela disse que ama você,

E você sabe que isso não pode ser mau.

Sim, ela ama você,

E você sabe que você devia estar contente.

Ela ama você, ié ié ié (duas vezes)

E com um amor como esse

Você sabe que você devia estar contente.

I give her all my love

That’s all I do

And if you saw my love

You’d love her too.

And I love her.

She gives me everything

And tenderly

The kiss my lover bring

She brings to me

And I love her.

A love like ours could never die

As long as I have you near me

Bright are the stars that shine

Dark is the sky

I know this love of mine

Will never die

And I love her.

Eu dou a ela todo meu amor

Isso é tudo que eu faço

E se você visse meu amor

Você a amaria também

E eu a amo.

Ela me dá tudo

E ternamente

O beijo que minha amada traz

Ela traz para mim

E eu a amo.

Um amor como o nosso nunca vai morrer

Enquanto eu a tiver perto de mim.

Brilhantes são as estrelas que cintilam

Escuro é o céu.

Eu sei que este meu amor

Nunca morrerá

E eu a amo.

 

A REFLEXÃO DO COTIDIANO

A partir dos álbuns “Rubber soul e “Help”, a lírica dos Beatles ganha profundidade e desvincula-se, não completamente, da temática adolescente, de bailinhos e namoros, e passa a lidar com o cotidiano. Pela primeira vez, os Beatles vão lidar com as tristezas e os problemas humanos numa esfera mais ampla do que o simples sofrimento do jovem traído ou abandonado, como podemos notar na excelente canção “Nowhere man” (1966):

He’s a real Nowhere Man

Sitting in Nowhere Land

Making all his Nowhere plans for nobody.

Doesn’t have a point of view

Knows not where he’s going to

Isn’t he a bit like you and me?

Nowhere Man please listen

You don’t know what you are missing

Nowhere Man, the world is at your command.

He’s as blind as he can be

Just sees what he wants to see

Nowhere Man, can you see me at all?

Nowhere Man, don’t worry

Take your time, don’t hurry

Leave it all till somebody else give

Lends you a hand. (repeats all)

Ele é um verdadeiro Homem de Lugar Nenhum

Sentado em sua Terra de Lugar Nenhum

Fazendo todos seus planos de Lugar Nenhum para ninguém

Não tem um ponto de vista

Não sabe para onde está indo

Ele não é um pouquinho como eu e você?

Homem de Lugar Nenhum, não se preocupe

Vá no seu tempo, não se apresse

Deixe isso tudo (para lá) até que alguém mais

Dê-lhe uma mão. (repete tudo)

Nessa fase, nota-se pela primeira vez a maneira como a fama atinge e impressiona os Beatles, metonimizada na garota que deseja dirigir seu carro, ou na garota que se oferece a eles quando eles só querem dormir, como podemos conferir abaixo:

Working for peanuts is all very fine,

But I can show you a better time.

Baby, you can drive my car,

Yes, I’m gonna be a star,

Baby, you can drive my car, and maybe I’ll love you.

(Drive my car, 1965)

Trabalhar a troco de banana pode ser muito bom

Mas eu posso lhe mostrar um tempo (muito) melhor

Menina, você pode dirigir meu carro

Sim, eu vou ser um astro,

Menina, você pode dirigir meu carro

E talvez eu te ame.

And then she said “It’s time for bed”

She told me she worked in the morning and started to laugh

I told her I didn’t, and crawled to sleep in the bath

And when I awoke I was alone,

This bird had flown.

So I lit a fire,

Isn’t it good? Norwegian wood.

( Norwegian wood, 1965)

E então ela disse “Está na hora da caminha”

Ela contou que ela trabalhava de manhã cedo e começou a rir

Eu disse a ela que não e escorreguei para dormir na Banheira

E quando eu acordei eu estava sozinho

Este pássaro tinha voado

Então eu acendi a lareira

Isso não é bom? Madeira de lei.

Nessa fase, os Beatles passam a te uma grande preocupação social, mas ela não é de modo algum panfletária ou engajada, e sim mostra a característica mais encantadora e permanente do seu trabalho, talvez a que lhes tenha garantido sua perenidade: sua extrema generosidade. Eles olham para as mazelas e misérias do mundo e das pessoas com uma condescendência, com uma ternura, realmente enternecedoras, como é o caso das pessoas solitárias e fracassadas da canção que se segue, que muitos críticos identificam como os próprios fãs dos Beatles:

Ah, look at all the lonely people.(two times).

Eleanor Rigby picks up the rice in the church

Where a wedding has been

Lives in a dream.

Waits at the window,

Wearing a face that she keeps in a jar by the door,

Who is it for?

All the lonely people, where do they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

Father McKenzie, writing the words of a sermon

That no- one will hear,

No-one comes near

Look at him working, darning his socks in the night

When there’s nobody there,

What does it care?

All the lonely people, where do they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people.(two times)

Eleanor Rigby died in the church

And was buried along with her name

Nobody came.

Father McKenzie, wiping in the dirt from his hand

As he walks from the grave

No-one was saved.

All the lonely people, where do they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

Eleanor Rigby (1966)

Ah, olhem toda essa gente solitária (duas vezes)

Eleanor Rigby cata o arroz na igreja

onde aconteceu um casamento

Vive dentro de um sonho.

Espera na janela, (imaginando) sua face coberta

por aquilo que ela guarda num jarro perto da porta

Para que serve isso?

Toda essa gente solitária, de onde que elas vêm?

Toda essa gente solitária, de onde elas são?

O pastor McKenzie, escrevendo as palavras

De um sermão que ninguém ouvirá

Ninguém (nem) chegará perto.

Olhem para ele trabalhando,

Cerzindo suas meias à noite

Quando não há ninguém lá

Para quê ele se importa?

Toda essa gente solitária, de onde que elas vêm?

Toda essa gente solitária, de onde elas são?

Ah, olhem toda essa gente solitária (duas vezes)

Eleanor Rigby morreu na igreja

E foi enterrada (somente) com seu nome.

O pastor McKenzie, limpando a sujeira das mãos

Conforme ele se afasta do túmulo

Ninguém foi salvo.

Toda essa gente solitária, de onde que elas vêm?

Toda essa gente solitária, de onde elas são?

Também nesta fase, eles vão começar a fazer a tecer críticas sociais e ironias por demais interessantes, como é o caso da música sobre o cobrador de impostos, que na Inglaterra são altíssimos:

Let me tell you how it will be

There’s one for you, nineteen for me

‘Cause I’m the taxman, yeah,

I’m the taxman.

If you drive a car, I’ll tax the street

If you try to sit, I’ll tax your seat

If you get too cold, I’ll tax your heat

If you take a walk, I’ll tax your feet.

And you’re working for no-one but me.

(Taxman, 1966)

Deixe-me contar-lhe como vai ser

É um para você, dezenove para mim

Porque eu sou o cobrador de imposto, sim,

O cobrador de impostos.

Se você dirige um carro, eu taxo a rua

Se você tenta sentar, eu taxo seu assento

Se você fica com muito frio, eu taxo o calor

Se você dá uma volta a pé, eu taxo seus pés.

E você não trabalha para ninguém, exceto para mim.

 

A PSIDODELIA E A EXPERIMENTAÇÃO

Em 1967, surge o álbum que vai revolucionar a história da música pop, provavelmente o melhor álbum dos Beatles, em que pela primeira vez um grupo pop utiliza recursos até então privativos da música clássica, tais como um conjunto de violinos ou um naipe de instrumentos de sopro, numa orquestração sob a batuta do maestro George Martin, que funciona como um quinto Beatle neste álbum.

Embora muito influenciados pelas drogas nessa época, haja vista as letras de “Lucy in the sky with diamonds” (cujo título forma a sigla LSD) e “A day in the life”, os Beatles alcançam neste disco um esplêndido resultado, em que praticamente todas as músicas são obras-primas, de grande lirismo e profundidade. Uma delas, em especial, tornou-se um ícone da alegria de viver que não conhece as barreiras da idade, do amor que supera o tempo, uma música linda e extremanete generosa, como podemos conferir abaixo:

When I get older, losing my hair

Many years from now

Will you still be sending me a Valentine

Birthday greeting, bottle of wine

If I’d been out till quarter to three

Would you lock the door

Will you still need me, will you still feed me

When I’m sixty four?

You’ll be older too,

And if you say the word, I could stay with you.

I could be handy mending a fuse

When your lights have gone

You can knit a sweater by the fireside

Sunday morning go for a ride

Doing the garden, digging the weeds

Who could ask for more

Will you still need me, will you still feed me

When I’m sixty four?

Every summer we can rent a cottage

In the Isle of Wight, if it’s not too dear

We shall scrimp and save

Grandchildren on your knees

Vera, Chuck and Dave

Send me a postcard, drop me a line

Stating points of view

Indicate precisely what you mean to say

Yours sincerely wasting away

Give me your answer, fill in a form

Mine for evermore

Will you still need me, will you still feed me

When I’m sixty four?

(When I’m sixty four, 1967)

Quando eu ficar velho, perdendo meus cabelos

Daqui a muitos anos

Você ainda vai me mandar um cartão de namorados

Saudações de aniversário, uma garrafa de vinho

Se eu ficar fora até um quarto para as três

Você vai trancar a porta

Você ainda vai precisar de mim,

Você ainda vai me alimentar,

Quando eu tiver sessenta e quatro anos?

Você vai ser mais velha também

E se você disser a palavra, eu poderei ficar com você.

Eu posso ser prestativo consertando um interruptor

Quando suas luzes tiverem se apagado

Você pode tricotar um suéter perto da lareira

No domingo de manhã vamos dar um passeio

Cuidando do jardim, enterrando as ervas-daninhas

Quem pode pedir mais

Você ainda vai precisar de mim,

Você ainda vai me alimentar,

Quando eu tiver sessenta e quatro anos?

Todo verão nós podemos alugar uma cabana

Na ilha de Wight se não for muito caro

Nós podemos economizar e poupar

Com netinhos sobre seus joelhos

Vera, Chuck e Dave

Mande-me um postal, dê um telefonema

Declarando (seu) ponto de vista

Indique precisamente o que você quer dizer

Esbanjando nos “sinceramente sua”

Dê-me sua resposta, preencha um formulário

Meu para todo o sempre

Você ainda vai precisar de mim,

Você ainda vai me alimentar,

Quando eu tiver sessenta e quatro anos?

Em 1968, os Beatles lançam seu projeto mais ambicioso, o álbum duplo intitulado simplesmente The Beatles, conhecido como o álbum branco, por ter a capa toda branca com o nome do álbum em relevo. Nele, eles mostram todo seu talento, com melodias muito bem elaboradas e letras de altíssima qualidade poética. Destacam-se especialmente, neste álbum, a música experimental Number Nine, que consiste simplesmente na repetição do título da canção durante todo o período de duração da música, com várias modulações e ritmos; as músicas experimentais e de difícil entendimento “Everybody’s got something to hide except for me and my monkey” e “Helter skelter”; as canções de cunho político-social “Revolution” e “Piggies” e a canção de amor filial “Julia”. Confira a qualidade excepcional das duas últimas canções citadas:

Have you seen the little piggies

crawling in the dirt?

And for all the little piggies life is getting worse,

Always having dirt to play around in.

Have you seen the bigger piggies

In their starched white shirts?

You will find the bigger piggies stirring up the dirt,

Always have clean shirts to play around in.

In their styes with all their backing they don’t care

What goes around.

In their eyes there’s something lacking,

What they need’s a damn good whacking.

Everywhere there’s lots of piggies living piggy lives,

You can see them out for dinner with their piggy wives,

Clutching forks and knives to eat their bacon.

Você já viu os leitõezinhos chafurdando na sujeira?

E par a todo os leitõezinhos a vida está ficando pior,

Sempre tendo (somente) sujeira para brincarem dentro.

Você já viu os leitões maiores

Com suas camisas brancas engomadas?

Você verá os leitões maiores pairando acima da sujeira,

Sempre tendo camisas limpas para brincar dentro.

Nos seus chiqueiros com todos aqueles traseiros

eles não ligam para o que se passa à sua volta,

nos seus olhos há alguma coisa faltando,

o que eles precisam é uma surra daquelas.

Em todos os lugares há montes de leitões

Vivendo vidas porcas

Você pode vê-los saindo para jantar

Com suas mulheres porcas

Manejando garfos e facas para comerem seu bacon.

Half of what I say is meaningless

But I say it just to reach you, Julia.

Julia, Julia, oceanchild, calls me

So I sing a song of love, Julia

Julia, seashell eyes, windy smile, calls me

So I sing a song of love, Julia

Her hair of floating sky is shimmering,

Glimmering in the sun.

Julia, Julia, morning moon, touch me

So I sing a song of love, Julia

When I cannot sing my heart

I can only speak my mind, Julia

Julia, sleeping sand, silent cloud, touch me

So I sing a song of love, Julia

Hum hum hum hum. . . calls me

So I sing a song of love for Julia, Julia, Julia.

Metade do que eu falo é sem sentido

Mas eu falo só para alcançar você, Julia.

Julia, Julia, criança do oceano, chama-me

E aí eu canto uma canção de amor, Julia.

Julia, olhos de conchas, sorriso de vento, chama-me

E aí eu canto uma canção de amor, Julia.

Seus cabelos de céu esvoaçante estão tremulando,

Cintilando no sol.

Julia, Julia, lua da manhã, chama-me

E aí eu canto uma canção de amor, Julia.

Quando eu não posso cantar meu coração

Eu só posso falar minha mente, Julia

Julia, areia dormente, nuvem silenciosa, chama-me

E aí eu canto uma canção de amor, Julia

Hum hum hum hum.... chama-me

E aí eu canto uma canção de amor, Julia, Julia, Julia.

 

A DESILUSÃO DA DISSOLUÇÃO

Finalmente, para alegria de todos os malditos azuis (the blue meanies do desenho animado Submarino Amarelo), os Beatles ficaram exauridos da convivência contínua e resolveram se separar, principalmente devido à desavença entre John e Paul. Mas essa separação foi extremamente penosa para ambos e, muito embora ambos tenham se agredido em público e pessoalmente, o sentimento maior desse período é o de perda, uma imensa perda pela amizade juvenil genuína que tinha que se acabar ou se modificar pela entrada em cena de um valor mais alto: as esposas, as mães dos seus filhos. Evidência dessa dor é o fato de a maioria das músicas dessa época, dos álbuns “Abbey Road” e “Let it be”, como podemos constatar pelos seguintes trechos de canções da época:

Get back, get back.

Get back to where you once belonged.

Get back Jojo. Go home.

(Get back, 1970)

Volte, volte.

Volte para o lugar ao qual você já pertenceu.

Volte Jojo. Venha para casa.

Oh! Darling, if you leave me I’ll never make it alone

Believe me when I beg you don’t ever leave me alone.

Oh, querida, se você me deixar

Eu nunca vou conseguir (viver, fazer isso) sozinho

Acredite-me quando eu lhe imploro

Para nunca me deixar sozinho

 

CONCLUSÕES

A poética dos Beatles encantou e sobrevive até hoje porque eles aliaram um grande talento a uma grande generosidade e também porque eles foram extremamente respeitosos e democráticos na defesa de suas idéias e ideais. Suas músicas falam das alegrais e tristezas mais comezinhas do ser humano assim como dos grandes problemas filosóficos e políticos, mas sem nunca querer impor suas idéias e sua estética, de maneira que nos sentimos muito à vontade para ouvi-los, pois temos certeza de que, se não concordarmos com suas idéias, elas não nos serão impostas, como soem fazer vários artistas, que transformam suas obras em libelos. Por exemplo, os Beatles defenderam vigorosamente a paz sem nunca sequer usarem a palavra Vietnam, foram parte da cultura das drogas sem jamais fazerem qualquer alusão direta ao assunto. É essa elegância, esse savoir-faire, esse respeito às liberdades individuais, aliados ao seu inegável talento e à sua extrema generosidade e otimismo que permitiram que um disco dos Beatles recém-lançado, o Número 1, tenha alcançado hoje, vinte anos após a dissolução do conjunto, o primeiro lugar na sua terra natal, a Inglaterra, e esteja vendendo muito bem em todo o mundo.