A QUESTÃO DA PROFESSORA DE AMOR EM AMAR, VERBO INTRANSITIVO - IDÍLIO DE MÁRIO DE ANDRADE
Dante Gatto (UNEMAT)
PRELIMINARES
Trata-se do primeiro romance de Mário de Andrade - sua experiência de maior fôlego até então - e a segunda incursão no campo da ficção. A primeira foi o livro de contos Primeiro Andar, de 1926. Amar, Verbo Intransitivo - Idílio foi escrito em 1923-24, terminado em 1926 e publicado em 1927, quando a batalha modernista atingia o seu ponto culminante. Nesse ano já estava em andamento Macunaíma, considerado pela crítica literária a produção mais significativa da moderna literatura brasileira.
O idílio representa o núcleo da narrativa de Amar, Verbo Intransitivo. O idílio de Carlos e Fräulein. O Romance trata da iniciação sexual do adolescente Carlos de dezesseis anos, da família Souza Costa, de “novos ricos” paulista. A professora de amor é Elza (designada simplesmente por Fräulein, a partir do momento em que adentra no domínio Souza Costa): alemã, trinta e cinco anos, retirante da sua pátria em ruínas, por ocasião da Grande Guerra. Na prática quotidiana, aparentemente, exercerá as funções de governanta e professora de alemão e piano (uma espécie de preceptora), para Carlos e suas três irmãs: Maria Luísa, Laurinha e Aldinha.
Fräulein, no entanto, arrastará vigorosos conflitos por toda a narrativa, que, aliás, serão acentuados no aprofundamento do seu relacionamento com o jovem brasileiro. Tais conflitos estão relacionados à ambigüidade própria do povo alemão que, a todo momento, será lembrada pelo narrador intruso: “No filho da Alemanha tem dois seres: o alemão propriamente dito, homem-do-sonho; e o homem-da-vida, espécie prática do homem-do-mundo que Sócrates se dizia”. (ANDRADE, 1995:.59.)
A família Souza Costa não foge aos padrões convencionais da burguesia paulista, cruelmente caracterizada pelo narrador através de um registro fotográfico: “A mãe está sentada com a família menorzinha [sic] no colo. O pai de pé descansa protetoramente no ombro dela a mão honrada. Em torno se arranjaram os barrigudinhos. A disposição pode variar, mas o conceito continua o mesmo.” (ANDRADE, 1995:.53.)
O casal Souza Costa, típico casal burguês da sociedade paulista de novos-ricos: Ela “meia malacabada”; ele possuía fábricas de tecidos no Brás e se dedicava também, por desfastio, à criação do gado caracu. Vivem uma relação conjugal de troca de concessões e cumplicidade hipócrita, convenção tacitamente firmada entre eles: “nunca jamais ele trouxera do vale [Anhangabaú?] um fio louro no paletó” (ANDRADE, 1995:.55.), uma vez que, os cabelos da esposa eram pretos. Esta “fingia ignorar as navegações do Pedro Alvares Cabral … E quem diria que Souza Costa não era bom marido? Era sim. Fora tão nu de preconceito até casar sem por reparos nas ondas suspeitas do cabelo da noiva.” (ANDRADE, 1995:.55.) Como observa SCHMIDT (1991: 116): “amor sem sobressalto e sem paixão, sem camaradagem, sem amor.” Existia, portanto, um clima mais ou menos propício para o tipo de acordo que o Senhor Souza Costa estabelece com Elza. Dona Laura, em princípio, não é advertida da situação - de maneira intencional por Souza Costa - apesar de que o seu consentimento era uma das exigências enfaticamente solicitada por Elza (a outra eram os oito contos). Daí pode-se prever a inevitável descoberta e a previsível aceitação de Dona Laura. Há, também, o criado japonês que, num momento da narrativa, divide a cena com Fräulein, ligados pelos dissabores do exílio.
O romance apresenta no próprio título uma contradição gritante, afinal, como comprovamos no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, (FERREIRA, [s/d.], s.v.).) o verbo amar é transitivo direto e não intransitivo. Se isto já não bastasse, ainda recebe uma curiosa classificação: e apresentado na capa como idílio. A perplexidade é inevitável, uma vez que idílio implica numa forma singela de amor em que não pairam dúvidas quanto à reciprocidade entre dois sujeitos. Se Mário foi sempre muito feliz nos seus títulos, “escolhia-os admiravelmente”, Amar, Verbo Intransitivo constituiu-se num “verdadeiro achado”, principalmente, pela alta dose de impacto, compatível com o padrão revolucionário do movimento modernista (LUCAS, 1970: 19.)
PROFISSÃO PROFESSORA DE AMOR
O inusitado da profissão de Fräulein pode parecer inverossímil numa visão separada da totalidade sócio-econômica e histórica (como também seu sonho de retornar à Alemanha, “depois de feito a América, e o casamento, o vago amado distante à espera de proteção, espécie de redenção wagneriana pelo amor.” (DANTAS, 1984: 6.). Professora de amor, profissão que uma “fraqueza” lhe permitiu exercer, no entanto “é uma profissão”, insistiria Fräulein (DANTAS, 1984: 49.).
Na Europa, o período denominado entre-guerras caracterizou-se por uma profunda crise econômica, social e moral que atingiu os países capitalistas na década de 20. Na Alemanha, particularmente, a situação era pior: havia um clima propício, como nos demais países que perderam a guerra, ao nascimento de um violento nacionalismo. No caso, sabemos, estava aberta a brecha para a ascensão do nazismo. No Brasil, apesar da guerra, o clima era bem outro: havia um relativo otimismo em relação ao futuro. Superávamos o atraso de um país agrário num estado mesmo de euforia pelo dinheiro proveniente da plantação e comércio do café e vislumbrava-se a possibilidade de unir esta riqueza à nova riqueza industrial. Fräulein, diante de realidades tão opostas, se adapta. Aliás, seu poder de adaptação é insistentemente enfatizado pelo narrador:
tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de Janeiro. São Paulo. Agora tinha que viver com os Souza Costas. Se adaptou (Id., ibid., p. 61).
Erich KÖEHLER (1989, p.31), analisando Madame Bovary, ao tratar da cena do homem de pé-aleijado, reflete sobre um traço essencial da realidade histórica. Flaubert nos coloca diante do "princípio da eficiência": Charles não tinha competência para executar a operação e assim atender à esposa que o pressiona, movida pela ambição social. É uma abordagem completamente moderna porque refere-se a uma imposição da sociedade industrial que estabelecia seus valores. Portanto, Flaubert "descobriu ali um problema que não poderia ter sido colocado antes dessa época". Nesta cena-peripécia podemos distinguir, através da camada ideológica da motivação e mediação (Lukács), os traços da infra-estrutura social que influem mais diretamente no romance. Representa o ponto culminante da ação, pois marca o processo de desagregação de Emma.
Em Amar, Verbo Intransitivo encontra-se um princípio com funcionamento similar ao da “eficiência”, distinguido em Madame Bovary. Apesar de longa, vale a pena ler a citação na qual o narrador aborda a questão da ambigüidade do alemão (homem-do-sonho/homem-da-vida) a qual já anunciamos:
Homem-da-vida é o que a gente vê. Ele criou no negócio dele artigo tão bom como o do inglês. Cobra caro. Mas não vê que um comprador saiu com as mãos abanando por causa do preço. Adapta-se o homem-da-vida. No dia seguinte o freguês encontra artigo quase igual ao outro, com o mesmo aspecto faceiro e de preço alcançável. Sai com os bolsos vazios e as mãos cheias. O anglo da fábrica vizinha, ali mesmo, só atravessar um estirão de água zangada, não vendeu o artigo dele. Não vendeu nem venderá. E continuará sempre fazendo-o muito bom.
Eu admirava mais o inglês se só este conseguisse manipular a mercadoria excelente, porém o alemão homem-da-vida também melhora as coisas até a excelência. Apenas carece que alguém vá na frente primeiro (Id., ibid., p. 60) (O grifo é nosso)
É de se notar, pois, que este fenômeno, da melhoria “até a excelência”, identificado por Mário de Andrade com tanta argúcia já nos anos 20, que representava mesmo "a maior razão do progresso deles" (Id., ibid., p. 59), do povo alemão, trata-se, sem dúvida, da forma preliminar de uma filosofia de gestão empresarial, hoje chamado “controle da qualidade total” ou TQC ( “Total Quality Control”) como é conhecido no Japão, onde foi aperfeiçoado, tomando-se por base idéias americanas ali introduzidas, logo após a segunda guerra mundial (CAMPOS, 1992; 13.). No Brasil, o TQC foi assimilado no final da década passada, na esteira do sucesso japonês, e se tornou uma verdadeira febre nos anos 90. Consiste basicamente em alçar o cliente à condição de Rei, sempre sensível às nuanças dos seus desejos. O objetivo, é claro, como princípio inerente às empresas capitalistas, é o lucro; o recurso é a satisfação integral do cliente/consumidor; a principal contingência econômica desencadeadora é a concorrência.
Não são os fornecedores do produto [ou serviço], mas aqueles para quem eles servem - os clientes, usuários [Souza Costa, Carlos] e aqueles que os influenciam ou representam [Souza Costa, Carlos, Dona Laura] - que têm a última palavra quanto e até que ponto um produto [ou serviço] atende às suas necessidades e satisfaz suas expectativas ... A satisfação relaciona-se com o que a concorrência oferece. (GARVIN, 1984 p.279).
Por outro lado, essas características - o trabalho de copiar - remontam aos primórdios da história da Alemanha. Emil LUDWIG (1947, p.20), compara os alemães aos outros povos, referindo-se às suas conquistas bélicas: os cartagineses, os romanos, os franceses, quando colonizavam, eram superiores aos conquistados, tinham ideais, uma teogonia, uma filosofia ou uma ciência. Os germanos eram bárbaros”, não porque fossem analfabetos, mas porque faltava-lhes alma: “toda a preciosa herança do Mediterrâneo que edificou e renovou a humanidade.” Esses nômades das florestas selvagens, exemplifica Ludwig, ao travarem conhecimento com os lindos jardins da Sicília e de Provença, ingenuamente esforçaram-se em copiar aquilo que só se consegue graças à herança, através do trabalho acumulado de gerações e mediante exaustivo aprendizado. NIETZSCHE (1984, p.99) compartilha dessa opinião: “As coisas boas custam muito caro e prevalece sempre a lei de que quem as têm é diferente de quem as adquire. Tudo que é bom é herança; o não herdado é imperfeito, não é mais que um princípio.” No entanto, como podemos comprovar, os contemporâneos de Fräulein, mais precisamente nas primeiras décadas deste século, obtiveram um relativo sucesso no trabalho de copiar, frente às necessidades da moderna sociedade industrial e os anseios dos seus consumidores.
O conflito entre Estado e Espírito, próprio do povo alemão (sintetizado por Mário de Andrade com a dicotomia homem-do-sonho / homem-da-vida), se evidencia de uma maneira exemplar com a Revolução Industrial. Em pleno século XIX, quando já ardiam as chaminés de Manchester, Madame de Staël referia-se aos alemães como um povo de pensadores e poetas. Ora, o estrangeiro só via o homem-do-sonho. Mas “lá nas trevas interiores … o homem-da-vida se adaptava ainda” (ANDRADE, 1995:.60.). Se em Fräulein permanecia paciente um “deus encarcerado” (Id., op. cit.), Nietzsche, o mais brilhante dos homens-do-sonho, representava o protótipo da crise e chamava a atenção do Mundo para este poder de adaptação. Conforme o filósofo, citado por Vamireh CHACON (1979, p.19), “tal como o combate singular era a alma da cultura entre os gregos antigos e como a guerra, a vitória e o direito o eram entre os romanos”, formava-se na Alemanha uma cultura cuja alma era o comércio. E acrescenta:
Aquele que se entrega ao comércio entende tudo tabelar sem o produzir, tabelar segundo a necessidade do consumidor e não segundo a sua necessidade pessoal; nele, o problema dos problemas é saber ‘que pessoas e quantas pessoas consomem tal coisa’? A partir daí, instintivamente e sem cessar, ele entrega esse tipo de tabelamento: a propósito de tudo, portanto, também a propósito da produção das artes, das ciências, dos pensadores, dos sábios, dos artistas, dos homens de Estado, dos povos, dos partidos e até de épocas inteiras: ele informa-se acerca de tudo o que não se cria, da oferta e da procura, a fim de fixar por si mesmo o valor de uma coisa. (Os grifos são nossos)
Ora, com que certeiro destino estas palavras dizem respeito à Fräulein enquanto homem-da-vida. Cabe aqui, de passagem, considerações acerca da personagem na narrativa. O cientificismo de certas posições da teoria literária contemporânea, leva Vitor Manuel de AGUIAR E SILVA (1997, p.694) a acentuar, ressalvando-se de um “certo truísmo”, que personagem implica um determinado número de propriedades psicológicas, morais e socioculturais que preexistem à ação narrativa e não deve haver impedimentos contra o seu uso na teoria e na crítica literária: “diremos que os textos literários narrativos são produzidos por homens para serem lidos por homens”.
Retornando ao pensamento de Köehler sobre Flaubert, observa-se que da mesma forma que o "princípio da eficiência" em Madame Bovary provoca a transformação de um tema emprestado da realidade econômica e social em um valor efetivo, em Amar, Verbo Intransitivo temos o que podemos chamar de "princípio da concorrência". Este foi instaurado, também, pela complicada situação de mercado consumidor que foi uma das causas geradoras da Primeira Guerra Mundial e que com ela se agravou. Vamos entender isto.
Tem-se assim, pois, Fräulein, em terra estrangeira, num país há pouco saído de uma economia agrária atrasada, cujas famílias de novos-ricos mostravam-se ciosas da fortuna recém-adquirida e protegiam-se, protegendo os filhos dos eventuais ataques das eventuais aventureiras. Portanto, além da finalidade higienizadora e profilática, a atividade de iniciadora sexual era evitar que a renda familiar fosse desviada para mãos ilícitas. Esta proteção era estendida apenas aos meninos porque as meninas, estas eram explicitamente reprimidas numa época absolutamente machista. Vê-se, pois, aqui com bastante clareza, que Amar, Verbo Intransitivo “é um retrato cruel da sociedade que recusa espaço para o amor em favor de outros valores tidos como primordiais” (LUCAS,.1970: 22.).
A descoberta de Dona Laura sobre o acordo estabelecido entre Fräulein e o Senhor Souza Costa, referente à iniciação amorosa/sexual de Carlos, provocou explicações desconcertantes, exibindo a hipocrisia social vigente na metrópole paulista:
Laura, Fräulein tem o meu consentimento. Você sabe: hoje esses mocinhos... é tão perigoso! Podem cair nas mãos de alguma exploradora! A cidade... é uma invasão de aventureiras agora! Como nunca teve!. COMO NUNCA TEVE, Laura... Depois isso de principiar... é tão perigoso! Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebida não! Hoje não tem mulher-da-vida que não seja eterônoma, usam morfina... E os moços imitam! Depois as doenças!… Você vive em sua casa, não sabe… é um horror! Em pouco tempo Carlos estava sifilítico e outras coisas horríveis, um perdido! (ANDRADE, 1995: 77).
Há de se convir que havia um vasto mercado para a professora de amor, que se fez assim, inclusive, por captar as necessidades e capacidade desse mercado. Ora, antes de vir para a emergente São Paulo, ela esteve no Rio de Janeiro e em Curitiba, “onde não teve o que fazer”.
Refletindo agora, tendo como suporte os paradigmas da Total Quality Control (argutamente previstos por Nietzsche e identificados por Mário), podemos inferir: o cliente/usuário, influenciadores e representantes, Souza Costa, Carlos e Dona Laura, também, como vimos, - aliás, toda a sociedade de novos-ricos paulista - apresentaram uma necessidade, reconheceram a qualidade do serviço de Fräulein em função da concorrência (as aventureiras e as prostitutas) e ratificaram a utilidade da professora de amor.
Segundo Maria Rita KEHL (1995, s.p.), a justificativa sociológica para a existência da prostituição, conforme o confessam famílias menos preocupadas com a hipocrisia, sustenta-se numa dupla necessidade: preservar a castidade das meninas, que deveriam chegar virgens até o casamento e, ao mesmo tempo, atender à virilidade dos rapazes a quem não ficaria bem tal virgindade ao adentrar à sagrada instituição. Para estes, era desaconselhável que contivessem seus impulsos sexuais; para aquelas, era fácil de controlar uma vez que seus desejos eram menos intensos, como se pensava. Portanto, “as prostitutas, neste caso, eram as guardiãs da moral sexual”. Esta situação se sustentou até a reviravolta dos anos 50/60. A prática de Souza Costa casa-se perfeitamente dentro deste contexto. Alias, Martin DAMY (1927) configurou-a com precisão por ocasião da publicação do romance:
Ora Souza Costa, o chefe da família não pensou apenas na educação intelectual dos filhos. Pras meninas bastava o ensinar-lhes artes e línguas alemã. Mas pro menino, pro Carlos, Souza Costa exigira uma outra lição bem mais grave - a iniciação no amor. E ele bem sabia que numa certa idade os apetites carnais nos meninos dão para pedir saciamento. … então a fräulein entraria com o jogo para por silêncio nos desejos do menino.
Portanto, Fräulein agrega um valor inestimável aos seus serviços à medida que se insere como uma confortável, discreta e sadia opção (aliás, profilaxia) para as respeitáveis famílias de novos-ricos paulistana.
A peripécia, bem como o momento de reconhecimento, no sentido aristotélico, pode ser identificada em Amar, Verbo Intransitivo. Trata-se da cena do ciúme. Fräulein, através do método socrático de perguntas e respostas, inquire Carlos sobre suas experiências: "Bem que ela desconfiara na primeira noite, Carlos já conhecia o." Obtém, por fim, a confissão: "O fato de Carlos não lhe ter dado a inocência, preocupava-a. Sejamos sinceros: aquilo machucou-lhe o orgulho profissional." (ANDRADE, 1995: 103. O grifo é nosso).
Nietzsche previu tal fenômeno. Referindo-se aos alemães, cuja alma da cultura em formação era o comércio (tabelamento, preço, necessidade dos consumidores, etc.), não teve dúvidas: “isto erigido como princípio de toda uma cultura, estudado desde o ilimitado até ao mais sutil e imposto a toda a espécie de querer e de saber será o vosso orgulho homens do próximo século” (CHACON, 1979: 19). (O grifo e nosso).
Temos, portanto, em Fräulein, referindo à Lukács, um claríssimo exemplo de estrutura psicológica nascida das circunstâncias econômicas, combinada com este incrível poder de adaptação. Não se trata, simplesmente, de um sentimento contraditório, promovido pela cegueira do ciúmes, uma vez que “conservaria sempre pelo anos a sensação logo vencida mas imortal de que tinham lhe passado a perna.” (ANDRADE, 1995: 104).
Atente-se para o fato de que, segundo este ponto de vista, a professora de amor não é uma prostituta, mas, como Manon, Fräulein torna-se mercadoria e tem o seu preço: “Fräulein preparava ele. Depois isso não tem conseqüência... Quem me indicou, Fräulein foi o Mesquita, ... Se utilizaram dela, creio que pro filho mais velho.” (ANDRADE, 1995: 82). E acaba, como a francesa, refletindo, em sua psicologia (apesar da ambigüidade), a reificação das relações humanas: “Professora de amor... porém não nascera pra isso, sabia. As circunstâncias é que tinham feito dela a professora de amor, se adaptara. Nem discutia se era feliz, não percebia a própria infelicidade. Era verbo ser” (Id., Ibid., p. 104.).
Um recurso interessante, utilizado por Mário de Andrade, para caracterizar a reificação humana dentro da sociedade capitalista, bem como a crise da noção de pessoa, própria do século XX, consiste, neste enfoque, no fato de a personagem, a partir do momento em que assume seu papel na casa dos Souza Costa, passar a ser designada genericamente por Fräulein (senhorita, professora), num claro sentido de enfatizar a função em detrimento da pessoa Elza. Ora, “o nome é um elemento importante na caracterização [retrato] da personagem, tal como acontece na vida civil em relação a cada indivíduo”. (AGUIAR E SILVA, 1997: 704.)
Para Hegel, o romance, essa “epopéia burguesa moderna”, supõe, como o poema épico, “uma visão total do mundo e da vida”. Esta visão da totalidade na arte, agora nos referindo a Lukács, implica em substituir à totalidade extensiva do real a totalidade intensiva da coerência estética da obra de arte. Há um momento particularmente exemplar desta substituição, na qual Fräulein, invadida por sentimentos confusos (totalidade intensiva), na expressão da sua dor, confunde-se com a Alemanha (totalidade extensiva). Estamos na iminência do fim do idílio. "Fräulein sente uma fraqueza, sorri de amorosa. Pobre Carlos vai sofrer. Vem uma revolta: que sofra e ela então? Grande Alemanha sem recursos, desmantelada." (ANDRADE, 1995:132)
.Esta última citação acima reflete, ainda, o antagonismo interior em que se debate a personagem, dividida entre o amor-negócio e o amor total: o sentimento de Fräulein pelo aluno Carlos transpôs os contornos definidos pela sua pedagogia, tomando a proporção de uma verdadeira paixão, resultado, pois, no idílio. Mas este já é outro assunto que, oportunamente, terá a sua vez.
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