Voltar ao índice

MACHADO DE ASSIS
DIMENSÃO DIACRÔNICA DE ALGUNS ASPECTOS DO PESSIMISMO

Ruy Magalhães de Araujo (UERJ)

 

1 - INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo estudar, numa dimensão diacrônica, alguns aspectos do pessimismo em Machado de Assis, através da pesquisa de três dos seus principais romances: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

Para melhor ilustração, faremos um rápido apanhado da biografia de Machado de Assis e citaremos o acervo de produção literária, procurando mostrar a separação das duas fases da obra: o romantismo e o realismo.

Buscando encontrar as raízes da sua filosofia de negativismo, de seu desencanto com o mundo e com a humanidade, do seu niilismo enfim, mencionaremos a opinião crítica de alguns autores.

Ilustrando cada romance, constará a idéia nuclear.

De cada um dos romances extrairemos os textos onde o tema do pessimismo se desenvolve e procuraremos, tanto quanto possível, estabelecer o relacionamento diacrônico do mesmo com os citados romances, dentro dos parâmetros de uma comparação de textos.

Adotaremos para as nossas pesquisas o volume I (Romance) da Obra Completa de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S/A, 1971.

 

2. O AUTOR E A OBRA : NOTÍCIA SUCINTA

A 21 de junho de 1839, nasceu Joaquim Maria Machado de Assis, na Quinta do Livramento, no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Foram seus pais, Francisco José de Assis, de cor parda, e Maria Leopoldina Machado, portuguesa natural da Ilha de São Miguel, agregados da mencionada Quinta, de propriedade de Dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de Bento Barroso Pereira, “senador, oficial general do exército, ministro duas vezes, de D. Pedro I e da Regência trina.” (PEREIRA, 1988: 28)

No morro do Livramento, passou a infância, da qual pouco se sabe. Muito cedo, morreram-lhe a mãe e uma irmã, sendo criado pela madrasta Maria Inês, humilde lavadeira, mas pessoa de excelente índole e que lhe serviu de arrimo, principalmente após a morte do pai.

Serviu como sacristão na Igreja da Lampadosa e ajudando a missa, “embolsava a pequena espórtula que lhe assegurava o pão do dia...” (Ibidem, p. 49) As primeiras letras aprendeu-as em uma escola de São Cristóvão. Mas nessa época, o seu grande mestre foi o padre Antônio José da Silveira Sarmento, a quem dispensava especial afeição, em virtude do maior empenho com que lhe eram ministradas as aulas, muitas vezes entre uma folga e outra dos múltiplos afazeres do devotado sacerdote.

Sua primeira produção literária foi uma poesia, que se intitulou “Ela”, publicada em 1855 na Marmota Fluminense, periódico que reunia destacadas figuras da época, onde prestou colaboração até 1861.

Ingressou em 1856 na Imprensa Nacional, como tipógrafo aprendiz, e lá conheceu o romancista Manuel Antônio de Almeida, diretor do órgão, e que se tornou grande amigo e protetor de Machado de Assis.

Foi trabalhar, em 1858, como revisor de provas (e também caixeiro) na tipografia e livraria de Paula Brito, seu dileto amigo. Com ele, participou de outro grupo, a Petalógica, uma sociedade lítero-humorística de grande conceito.

Entre 1858 e 1860, colaborou nos jornais O Paraíba, em Petrópolis, Correio Mercantil, e na revista O Espelho.

Convidado por Quintino Bocaiúva, colaborou no Diário do Rio de Janeiro, de 1860 a 1867, usando os pseudônimos de Gil, Job, Platão. Durante esse período, escreveu ainda as seguintes peças: Hoje Avental, Amanhã Luva, 1860; Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; Os Deuses de Casaca, 1866.

Com o pseudônimo de Dr. Lucena, até 1875, colaborou na Semana Ilustrada, onde também usou o próprio nome.

De 1867 a 1878, colaborou no Jornal das Famílias, onde fez publicar muitos contos com os pseudônimos de Job, Vítor de Paula, Lara e Max .

As poesias Crisálidas apareceram publicadas em 1864. Em 1865, fundou a Arcádia Fluminense, sociedade artístico-literária muito bem aceita e onde Machado de Assis leu muitas de suas poesias.

Como burocrata, subindo a escala funcional, foi nomeado em 1867, para ajudante do diretor do Diário Oficial.

Em dezembro de 1869, firmou contrato com a Editora Garnier para a publicação dos Contos Fluminenses e das poesias Falenas.

Nesse mesmo ano, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, chegada ao Rio de Janeiro em 1866, vinda de Portugal. Seu irmão era o poeta português Faustino Xavier de Novais. A noiva, “andava pelos trinta e dois anos, mais cinco do que Machado de Assis.” (Ibidem, p. 109) “Sem ser bonita, Carolina devia ter sido extremamente simpática e atraente; todos quantos a conheciam, e a louvam sem reservas, enaltecem-lhe a irradiante simpatia” (Ibidem, p. 109)

Não tiveram filhos, fato que se vai refletir amargamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (p. 639)

Os Contos Fluminenses foram publicados em 1870.

O romance Ressurreição, sua estréia como romancista, veio a lume em 1872.

Em 1873, publicou os contos Histórias da Meia-Noite. Neste mesmo ano, é nomeado para o cargo de primeiro-oficial da Secretaria de estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Em 1874, muda-se da residência da rua dos Andradas, para onde fora morar quando se casou, indo residir na rua da Lapa; publicou o romance A mão e a Luva.

Em 1875, foi morar na rua das Laranjeiras, e fez publicar as poesias Americanas.

Em 1876, veio a lume o romance Helena.

Em 1878, Iaiá Garcia.

Para tratamento de saúde, entre 1878 e 1879, foi morar em Nova Friburgo, como se chamava a cidade serrana.

Em 1880, escreve a peça Tu, só Tu, Puro Amor.

Em 1881, é publicado o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Antes, em 1880, a Revista Brasileira fê-lo publicar. Ainda em 1881, é nomeado Oficial de Gabinete de Pedro Luís, Ministro da Agricultura. Até 1897, mantém colaboração efetiva na Gazeta de Notícias.

Em 1882, publicou os contos Papéis Avulsos e saiu de férias para Nova Friburgo ou Petrópolis.

Em 1883, começa a aprender alemão.

Em 1884, fixa residência na rua Cosme Velho no 18. Publicou os contos Histórias Sem Data.

Em 1888, é agraciado como oficial da Ordem da Rosa, por decreto imperial.

Assume o cargo de Diretor da Diretoria do Comércio em 1889.

Em 1891, publicou o romance Quincas Borba e também pronunciou o discurso por ocasião do lançamento da pedra fundamental da estátua de José de Alencar.

Em 1892, assume o cargo de Diretor-Geral da Viação.

Em 1896, publicou os contos Várias Histórias e escreveu a peça Não Consultes Médico.

Em 1897, é eleito Presidente da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1886 por idéia de Lúcio Mendonça.

Em 1898, é colocado em disponibilidade na direção da Viação. Neste ano, foram publicados os trabalhos de Labieno (Lafaiete Rodrigues Pereira), através do Jornal do Comércio, fazendo a defesa de Machado de Assis das críticas de Sílvio Romero. Esses artigos foram reunidos no livro Vindiciae.

Em 1899, surgiu o romance Dom Casmurro e publicou os contos Páginas Recolhidas. Firmou-se novo contrato com a Editora Garnier para a edição de dez de suas obras.

Em 1901, publicaram-se as Poesias Completas, que sofreram severas críticas de Múcio Teixeira, no Jornal do Brasil.

Em 1902, é reconduzido ao trabalho burocrático como Diretor da Secretaria de Indústria, do Ministério da Viação. Também exerceu o cargo de Diretor-Geral de Contabilidade.

Em 1904, publicou o romance Esaú e Jacó. Vai a Nova Friburgo com a esposa doente. Neste mesmo ano, tornou-se membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. A 20 de outubro, faleceu Dona Carolina Xavier de Novais Machado de Assis. Foi um rude golpe sofrido pelo escritor.

Em 1905, participou da sessão solene da Academia Brasileira de Letras para a entrega de um ramo de carvalho de Tasso, remetido por Joaquim Nabuco. Com o título de Relíquia da Casa Velha, reuniu em livro mais algumas de suas produções, onde se destacou o célebre soneto “Carolina”, “preito de saudade à esposa morta.” (PÉREZ, 1971: 91). Mesmo abalado espiritualmente, consegue ainda reunir forças para estudar, ler, trabalhar, e começa a fazer estudos de grego.

Em 1906, escreveu a peça Lição de Botânica.

Mas a lembrança de Carolina persiste. Em 1907, dá início ao último romance: Memorial de Aires, “livro cheio de tranqüila poesia, e onde colocará a sua saudade,” (Ibidem, p. 92) saindo do prelo em 1908. No ano anterior, também pronunciara o discurso a Guglielmo Ferrero.

Com a saúde abalada, licenciou-se para tratamento médico. Aos 29 dias do mês de setembro de 1908, às 3h45m. da madrugada, faleceu o maior de todos os nossos romancistas. Foi vítima de uma série de males:

além da extrema fraqueza de vista e da velha infecção intestinal, seus constantes ataques lhe haviam aberto, na língua, uma úlcera cancerosa, que lhe impedia de ingerir qualquer alimento sólido. (Idem, ibidem)

Teve uma morte calma, “cercado pelos companheiros mais chegados,” (Idem, ibidem) dentre os quais “Mário de Alencar e José Veríssimo, Euclides da Cunha e Coelho Neto, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio.” (Idem, ibidem)

Foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, junto à sua amada Carolina. Discursou na ocasião, em nome da Academia Brasileira de Letras, o Conselheiro Ruy Barbosa.

Quanto aos textos críticos, crônicas e correspondência de autoria de Machado de Assis, foram quase todos reunidos em livros publicados após a sua morte. Daí porque não constam diretamente destes dados biográficos.

De acordo com a opinião da crítica especializada, consideram-se duas fases distintas na obra de Machado de Assis. A primeira, de cunho eminentemente romântico; a segunda em que se definirá com clareza tido aquele somatório de fatores que influenciaram a produção machadiana. O romance Iaiá Garcia é considerado como a obra de transição entre uma fase e outra. Saiu do prelo em 1878.

A primeira etapa teria sido inspirada pela corrente romântica que ainda existia no Brasil, bem assim por padrões técnicos de narrativa do mesmo movimento. De 1869 até 1879, publicaram-se as seguintes obras: Falenas, 1870; Contos Fluminenses, 1870; Ressurreição, 1872; Histórias da Meia-Noite, 1873; A Mão e a Luva, 1847; Americanas, 1875; Helena, 1876; Iaiá Garcia, 1878; evidenciando-se Crisálidas, 1864.

Quanto à segunda etapa, considerada por muitos críticos como de maturação, levaram-se em conta os seguintes fatores, tão bem delineados por Afrânio Coutinho:

Esses fatores estão bem caracterizados como de natureza psicológica e constitucional, social e cultural:

A consciência da inferioridade física pela doença e a constituição psicológica semi-anormal; o conflito íntimo resultante da consciência de inferioridade social pela origem humilde e mestiçamento e da preocupação de ascensão social; e as doutrinas abeberadas na leitura e meditação dos autores prediletos, as quais se lhe ajustaram perfeitamente. (COUTINHO, 1971: 25)

Há que se considerar ainda o processo paulatino, bem dosado, que desabrocha, que refloresce, gerando um aprimoramento estético e uma nova concepção técnica voltados para os postulados da nova escola literária: o realismo.

Ambas as fases contêm diferenças e semelhanças. Nas duas aparece o humorismo, se bem que na primeira não esteja ainda irmanado ao pessimismo.

Sem o travo amargo e mórbido, sem a melancolia de finado, sem o desencanto que a descoberta da maldade humana e o sofrimento físico e moral lhe dariam depois. (Ibidem, p. 26)

Notando, sim, um humorismo chistoso, alegre, comprometido apenas em divertir, em fazer rir. O sensualismo e o erotismo existiram nas duas fases, entrementes, na segunda, comprovam-se as marcas do realismo. Em ambas as etapas, notamos o apurado trato psicológico das personagens e a tendência de fazer-se a análise dos costumes. Os recursos técnicos e de estilos, desenvolvidos e melhor apurados na segunda fase, tiveram suas origens na primeira. Isso acontece com a introspecção, com o desenvolvimento da trama, com o monólogo interior, com o enfoque psicológico, com a análise dos costumes.

Pertencem à segunda fase os seguintes romances: Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 (a maior obra do Realismo na Literatura Brasileira); Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esaú e Jacó, 1904; Memorial de Aires, 1908.

Para concluir, devemos considerar os 50 anos de existência literária de Machado de Assis como uma eterna presença.

Ele foi um gênio que marcou a sua época. Projetou-se na atualidade e permanecerá na eternidade, enquanto houver literatura.

 

3. ALGUNS ASPECTOS DO PESSIMISMO: VISÃO DIACRÔNICA DE TRÊS ROMANCES

Diz Afrânio Coutinho, referindo-se à filosofia pessimista de Machado de Assis, que ele “não fazia mais do que retratar a vida e os homens tais como eram a seus olhos”. (Ibidem, p. 40).

Toda essa filosofia de descrença, concebendo o ser humano irremediavelmente perdido e cheio de tantos danos motivados por forças do mal, do egoísmo, do sensualismo escandaloso, da ingratidão, da insensatez, da canalhice, do ódio, do rancor, da vingança, enraíza-se, com certeza, na seguinte dicotomia: de um lado, a própria condição existencial de Machado de Assis marcada pela doença (sofria de epilepsia); a pobreza (era de família humilde); e a preconceituosa condição social (ele era mestiço); do outro lado, a filosofia “niilista” então em voga, em cujas causas vão-se encontrar profundas bases psicológicas, em paralelo a outras decisivas influências de pensadores, filósofos e escritores da época, como B. Pascal, A. Schopenhauer, F. Nietzsche, G. Leopardi, tudo isso enfatizado pela moral jansenista.

Como ainda afirmou Afrânio Coutinho,

um ódio radical da vida e da humanidade, uma ausência total de simpatia para os homens e de confiança neles, uma indiferença completa para os seus sofrimentos, amarguras e desesperos.” (Ibidem, p. 40).

Todo esse aglomerado determinava o pessimismo machadiano. Até mesmo o seu humorismo impregna-se de um sabor trágico. Graças, entretanto, à genialidade do próprio escritor, aquela gama de negativismo adquiria foros de criação artístico-literária altamente elaborada.

Dentro dos objetivos deste trabalho, de modo específico, destacaremos os três romances escolhidos para pesquisa. De cada um deles, extrairemos a idéia nuclear correspondente. Em seqüência, enfocaremos o pessimismo machadiano, que não aparecerá, como é óbvio, em situações rigidamente iguais ou idênticas, mas que terá, com certeza, a mesma essência temática.

 

3.1 - Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

3.1.1 - Idéia nuclear

Trata-se da autobiografia de Brás Cubas, protagonista narrador que reúne em si mesmo um conjunto de predicados ruins: é um parasita social que nunca trabalha. Depois de morto, decide-se a narrar suas memórias.

Da narrativa, evidenciam-se os amores de Brás Cubas por Marcela, sua antiga namorada de juventude e agora uma prostituta de luxo, extravagante e supérflua e que por pouco não levou a família à bancarrota.

Atingido por uma paixão intensa, Brás Cubas viaja para a Europa, a fim de esquecer Marcela. De lá, regressa doutor, ainda a tempo se assistir à morte da mãe.

De forma irrefletida, namora Eugênia, moça de família pobre, dotada de beleza, porém defeituosa de uma das pernas. Despreza-a por causa de Virgília, com quem fica noivo e cujo pai com certeza poderia dar a ele alguma oportunidade na carreira política.

Mas Virgília lhe é roubada por Lobo Neves, homem decidido e também inclinado à vida política.

Brás Cubas, permanecendo solteiro, torna-se mais tarde amante de Virgília. Vivem por algum tempo intensa e mútua paixão, realizando agora o que não conseguiram quando noivos. O fogo das paixões esfria, mas se reaviva, quando Virgília engravida de Brás Cubas.

A criança morreu sem ter nascido e ambos os amantes resolvem separar-se.

Sabina, irmã de Brás Cubas, preocupada em vê-lo ainda solteirão, arranja-lhe uma noiva, Eulália, a Nhã-loló, que morre de uma epidemia.

Sem rumo e objetivos na vida, Brás Cubas um dia reencontra-se com Quincas Borba, antigo amigo e colega de infância, que se intitulava filósofo e criador do “Humanitismo”.

Por ocasião desse reencontro, Quincas Borba, pobre, miserável e faminto, furta, num apertado abraço, o relógio de Brás Cubas, que lhe devolve tempos depois, graças ao recebimento de uma herança.

Quincas Borba é atacado pela loucura.

Brás Cubas, querendo encontrar uma forma de vida menos vazia, busca outra vez a carreira política. Foi em vão, entretanto, pois não consegue nenhum êxito.

À procura de celebridade, cogita em fabricar um remédio que levará seu nome: - o emplasto Brás Cubas. Por ironia do destino, quando um dia saía à rua para tratar de um projeto, enfrentou um vasto aguaceiro, pegou uma pneumonia e morreu.

Ao morrer, é assistido por Virgília e alguns familiares.

 

3.1.2 - Alguns aspectos do pessimismo

No próprio título, as Memórias, sendo póstumas, já transmitem uma concepção de idéia tumular, fúnebre e, logo, tem-se a denotação de um pessimismo.

A dedicatória configura-se numa confissão de total e absoluto niilismo: a vida acabou inexorável, irreversivelmente.

Ao verme

que

primeiro roeu as frias carnes

do meu cadáver

dedico

como saudosa lembrança

estas

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Memórias Póstumas (p. 511)

O tema pessimismo também aparece no Prólogo da Terceira Edição: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo” (p. 512)

O Capítulo Primeiro abriga outra passagem de pessimismo:

A vida estrubuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma. (p. 514)

Mas tudo leva crer que o autor narrador adaptou um ataque de epilepsia ou crise convulsiva, de que sofria, à personagem Brás Cubas, ao fazê-la passar também por uma crise de pneumonia, nos estertores da morte.

No Capítulo VII, deparamos com esse trecho significativo de um delírio:

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outro, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo como um farrapo. (p. 523)

E prossegue:

Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. (p. 523)

O Capítulo XXXII mostra-nos uma cena de impacto, com relação à Eugênia, que, por ironia e contrastando com o próprio nome (em grego “a bem nascida”), era defeituosa de uma perna, mancava, apesar de ser uma bela moça:

Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:

- Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão

...................................................................................................

Olhei para ela e reparei que ia triste. (p. 553)

O Capítulo XXXVIII narra os estragos que uma doença, a bexiga, havia causado no rosto de Marcela, outrora uma bela mulher, e que também se apresentava envelhecida precocemente:

Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce destruíram-lhe a flor das graças. As bexigas haviam sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. (. . .) essa mulher era Marcela. (p. 557)

No Capítulo XLI, temos outra cena trágica, aterrorizante. Virgília, a beleza de outrora, estava agora maltratada, castigada pela mesma doença que atacou Marcela:

De repente morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília . . . seria Virgília aquela moça? Fitei-a muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhá-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo, que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; (. . .) Creio que fiz um gesto de repulsa. (p. 560)

O Capítulo LIX mostra o encontro deplorável entre Brás Cubas e Quincas Borba, este agora em extrema penúria de miséria:

Recuei espantado . . . Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e agastado, Quincas Borba! Não; impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruína fosse o Quincas Borba. (p. 573)

E confirma com desolação:

Mas era. Os olhos tinham um resto de expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar escarninho que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparação acabrunhava. (p. 573 )

A complementação desse encontro dá-se no Capítulo LX, quando Quincas Borba, impelido pela fome e completa penúria, rouba o relógio de Brás Cubas, ao despedir-se com um forte abraço:

- E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraçou-me com tal ímpeto, que não pude evitá-lo. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada no braço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte simpática da sensação, mas a outra. Quisera ver-lhe a miséria digna. Contudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo

...................................................................................................

Meto a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! O Borba furtara-mo no abraço. (p. 574)

No Capítulo CLX, finalmente essa terrível, negativa e ao mesmo tempo catártica confissão: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (p. 639)

 

3.2 - Quincas Borba (1891)

3.2.1 - Idéia nuclear

O romance conta a história de Rubião, um professor nascido em Minas Gerais, e que herdara todos os bens do filósofo Quincas Borba, personagem do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas lhe é imposta a condição de cuidar do cachorro do morto, também chamado Quincas Borba.

Assumindo a herança, e tendo aprendido algumas lições do Humanitismo, filosofia criada por Quincas Borba, Rubião resolveu fixar residência no Rio de Janeiro, para onde se mudou.

Sem ter nunca residido numa cidade grande, Rubião estranha os novos hábitos. Vê-se arrodeado por pessoas interessadas em seu dinheiro e termina apaixonando-se por Sofia, mulher de seu amigo e sócio Cristiano Palha.

Tomando ciência das intenções de Rubião para com Sofia, Cristiano Palha vê-se diante de um crucial dilema: por ciúmes da mulher, tomar atitudes decisivas e radicais contra Rubião e ao mesmo tempo recuar, não ofender o sócio, de quem depende em termos financeiros.

Com muita astúcia e habilidade, Sofia (fazendo jus ao nome, em grego “sabedoria”) consegue equilibrar a situação: permite que Rubião continue a cortejá-la e mantém intacto o relacionamento conjugal com o marido. Ela possuía também inclinação por Carlos Maria.

Gradativamente, vão acontecendo fatos estranhos com Rubião. Julga-se o imperador Napoleão III, passa a viver num mundo de sonhos e ilusões, fala sozinho. Aos poucos, vai perdendo a fortuna e termina por enlouquecer de vez.

Vem a ruína total de Rubião e os falsos amigos, antigos bajuladores, agora fogem dele. Também o fazem Sofia e Cristiano Palha.

Depois de permanecer internado num asilo, Rubião foge para Minas Gerais, onde veio a falecer, delirando de grandeza.

Estava acompanhado de seu cão Quincas Borba e repetia com ênfase uma frase da filosofia do Humanitismo: “Ao vencedor, as batatas.”

 

3.2.2 - Alguns aspectos do pessimismo

O Capítulo CLXXXII narra algumas facetas do precário estado de saúde mental de Rubião, ao imaginar-se o imperador Napoleão III, e exposto aos vexames do riso dos transeuntes e da curiosidade pública:

Rubião não cuidou mais do coche nem do esquadrão de cavalaria. Foi dar consigo abaixo, andou por várias ruas, até que subiu pela de S. José. Desde o paço imperial, vinha gesticulando e falando a alguém que supunha trazer pelo braço, e era a imperatriz. Eugênia ou Sofia? Ambas em uma só criatura, - ou antes a segunda com o nome da primeira. Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas corri gente às portas. Uns riam-se, outros ficavam indiferentes; alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para poupá-los à aflição que lhes dava o espetáculo do delírio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, alguns tão próximos, que lhe ouviam as palavras. Crianças de toda sorte vinham juntar-se ao grupo. Quando eles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz à multidão, e começou a surriada:

- Ó gira! ó gira! (p. 797)

E continua a descrever o bulício causado pelo delírio:

Esse vozear chamou a atenção de outras pessoas, muitas janelas dos sobrados começaram abrir-se, apareceram curiosos de ambos os sexos e todas as idades, um fotógrafo, um estofador, três e quatro figuras juntas, cabeças por cima de outras, todas inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que falava à parede, com seu gesto cheio de grandeza e de obséquio.

- Ó gira! ó gira! berravam os vadios. (p. 797)

O Capítulo CLXXXIV apresenta outros aspectos da loucura de Rubião:

DUAS HORAS DEPOIS da cena da Rua da Ajuda chegou Rubião à casa de D. Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, os claros não se preenchiam; os três últimos juntaram os seus adeuses em um berro único e formidável. Rubião continuou sozinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuía ou mudava de feitio. Não se dirigia à parede, à suposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava,parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, envolvido naquele véu, através do qual todas as cousas eram outras, contrárias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de resposteiro. Rubião seguia direito à sala do tronco, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminável, cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes, - e por entre alabardeiros, altos e robustos. (p. 799)

O Capítulo CXCIX descreve o clímax da inofensiva loucura de Rubião, ao ser recolhido da rua por uma antiga comadre:

- Ao vencedor, as batatas! - bradava Rubião aos curiosos. Aqui estou imperador! Ao vencedor, as batatas!

Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem com o sentido. Alguns desafetos do Rubião iam entrando, sem cerimônia, para gozá-lo melhor; e diziam à coma - der que não lhe convinha ficar com um doudo em casa, era perigoso; devia mandá-lo para a cadeia, até que a autoridade o remetesse para outra parte. (p. 806)

Na presença de um médico, que uma pessoa mais caridosa lembrou chamar, Rubião continuava no auge do delírio, dizendo que:

Capturar o rei da Prússia, não sabendo ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém,

que exigiria uma indenização pecuniária enorme, - cinco biliões de francos.” (p. 806)

O Capítulo CC narra o fim do delírio com a morte de Rubião:

POUCOS DIAS DEPOIS morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.

- Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...

A cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação. (p. 806)

 

3.3 - Dom Casmurro (1899)

3.3.1 - Idéia nuclear

A narração da história é na primeira pessoa, em que Bentinho, órfão de pai, é criado com muito carinho e desvelo por sua mãe, Dona Glória. Desde cedo, Bentinho sente a forte proteção de seus familiares e amigos, nas pessoas de tia Justina, tio Cosme e José Dias.

Em cumprimento a uma antiga promessa de Dona Glória, Bentinho é encaminhado a um seminário para ser padre. Antes conhecera Capitu, seu primeiro amor, e que era filha de vizinhos, da qual não consegue esquecer no internato sacerdotal. Capitu possuía os “olhos de ressaca”.

Bentinho não se sente atraído pela vida de seminarista e muito menos tem vocação sacerdotal. Dona Glória, a despeito de sua promessa, também não concebe a idéia de separar-se do filho. Por interferência de José Dias, Bentinho deixa o seminário e o seu lugar é preenchido por um antigo escravo.

Bentinho resolve ser advogado, formando-se em Direito. A seguir, casa-se com Capitu. Reaviva sua velha amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que se casa com Sancha, amiga de Capitu.

Bentinho e Capitu tiveram um filho, Ezequiel.

Mais tarde, morreu Escobar e durante o velório Bentinho acha estranha a maneira pela qual Capitu velava o cadáver. Já possuía ciúmes de Capitu e a partir desse dia passa a tê-lo ainda muito mais.

Com o crescimento de Ezequiel, nota que o filho se parece cada vez mais com Escobar, infernizando constantemente a vida de Capitu.

No auge do ciúme, idealiza envenenar a esposa e o filho, e matar-se a seguir. Mas lhe falta coragem, ao chegar Capitu.

Separam-se Bentinho e Capitu e a tragédia esvazia-se.

Capitu, em companhia do filho, viaja para a Europa, onde morreu depois de alguns anos.

Ezequiel, rapaz feito, regressa ao Brasil. Visita Bentinho, que só faz comprovar a extraordinária semelhança entre o filho e o ex-colega de seminário. Ezequiel retorna ao estrangeiro, morrendo depois.

Bentinho, à medida que o tempo corre, é tomado pela dúvida e pela incerteza e fecha-se cada vez mais em si mesmo.

Então os amigos e vizinhos lhe dão o apelido de Casmurro e passa a escrever a história de sua própria vida, que é o romance.

 

3.3.2 - Alguns aspecto do pessimismo

No Capítulo XVII, temos outro aspecto do niilismo: assim como aqueles vermes que acabam com a carne, com os tecidos, com os ossos dos que morrem, esses outros reduzem a nada as páginas dos textos, onde se concentram o pensamento, a inteligência, a arte, a filosofia, a ciência, o trabalho intelectual do ser humano. Tudo isso fria e impassivamente:

Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. (p. 827)

O Capítulo LXXXV descreve o quadro horrível, desenhado pela doença e pintado pela morte:

A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando; à porta da alcova duas crianças olhavam para dentro, com o dedo na boca. O cadáver jazia na cama; a cama . . . (. . .) o quadro era feio, já pela morte, já pelo defunto, que era horrível . . . Teria dezoito ou dezenove anos, mas tanto lhe darias quinze como vinte e dous, a cara não permitia trazer a idade à vista, antes a escondia nas dobras da . . . Vá, diga-se tudo; é morto, os seus parentes são mortos, se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada menos que a lepra. Vivo era feio; morto pareceu-me horrível. Quando eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquele meu vizinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. (p. 893 - 4)

Com o Capítulo CXXXV, temos outra demonstração de niilismo, quando Bentinho, movido por forte dose de ciúmes, engendra o suicídio; antes imaginara matar Capitu. Ele acabara de assistir à encenação de Otelo, uma tragédia de Shakespeare:

Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé, e meti-me no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi uma carta, a última, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O segundo continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. (p. 935)

O Capítulo CXXXVI continha a idéia de destruição contida no anterior,

O MEU PLANO foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la.” (p. 935)

.............................................................................................

O copeiro trouxe o café. Ergui-me, (. . .), e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com as mãos nas costas da cadeira, a olhar de longe... ‘Acabemos com isso’, pensei.

Quando ia beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; a bebedeira depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr para mim bradando:

- Papai ! papai ! (p. 936)

Em continuação, o autor adverte-nos para um gesto “belo e trágico”, que ele não descreve, “por havê-lo inteiramente esquecido” (p. 936):

Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se nas pontas dos pés, como querendo subir e dar-me um beijo do costume; e repetia puxando-me:

- Papai ! papai ! (p. 936)

A seguir o Capítulo CXXXVII, que inclui a tentativa de envenenamento de Ezequiel:

SE TU NÃO OLHASSE para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

- Já, papai; vou à missa com mamãe.

- Toma outra xícara, meia xícara só.

- E papai ?

- Eu mando vir mais; anda, bebe !

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio . . . Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

- Papai ! papai ! exclamava Ezequiel.

- Não, não, eu não sou teu pai ! (p. 936)

Essa tragédia, contudo, não se consumou e os fatos tomaram outros rumos, graças ao aparecimento repentino de Capitu e posterior separação do casal.

 

3. 4 - Comparação dos textos

Tanto quanto possível, a comparação desses textos será pautada numa óptica diacrônica.

Desse modo, os três romances escolhidos para pesquisa, surgindo em três décadas diferentes de publicação, consoante dados cronólicos mencionados no “corpus” deste trabalho, apresentam o tema do pessimismo machadiano transmutado em pluriformes aspectos, que variam de romance a romance.

Esse niilismo ora se apresenta sob a forma de germes devoradores de cadáver (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dedicatória, p. 511), ora sob a forma de germes destruidores de páginas de textos (Dom Casmurro, Capítulo XVII, p. 827) ; ora como crises mortais de pneumonia (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo Primeiro, p. 514), ora como crises de loucura nos estertores da morte (Quincas Borba, Capítulo CLXXXII, p. 797); ora como marcas de bexiga que tornam os rostos repugnantes, tornando-os também precocemente envelhecidos (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulos XXXVII e XLI, p. 557 e 560), ora como flagelos e mutilações medonhos no corpos de pessoas atacadas por lepra (Dom Casmurro, Capítulo LXXXV, p. 893 - 4); ora como defeito físico congênito em uma das pernas de mulher jovem, causando cenas de espanto, tristeza e desilusão (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo XXXII, p. 553), ora como ataques delírio intenso, provocando o riso, a vaia, o vexame (Quincas Borba, Capítulos CLXXXII e CLXXXIV, p. 797 e 799); ora como falta de dignidade e caráter provocados pela miséria (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo LX, p. 574), ora como falta de solidariedade humana motivada por inimizades (Quincas Borba, Capítulo XCIX, p. 806); ora como um clímax de todo um processo de pessimismo (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capítulo CLX, p. 639 final), ora como o coroamento de todo um sonho, de todo um delírio, de toda uma loucura (Quincas Borba, Capítulo CC, p. 806); ou simplesmente como uma idéia de suicídio, assassinato, vingança, destruição, aniquilamento (Dom Casmurro, Capítulos CXXXV, CXXXVI, CXXXVII, p. 935 e 936).

Entrementes, a filosofia de negativismo machadiano guarda em si a mesma maneira de ser, a sua essência, a sua particularidade, ou a sua forma ontológica de realização.

 

4 - CONCLUSÃO

Como se depreende da exposição acima, a vida Machado de Assis foi marcada, digamos assim, por um permanente estado de sofrimento físico, psicológica e social.

O seu pessimismo, por conseqüência, foi determinado por esse condicionamento existencial, a par de uma gama de influências filosóficas e literárias, cuja essência de idéias resumia-se num só primado: a descrença total de tudo e de todos.

Esse pessimismo verificou-se de modo mais nítido na segunda fase da obra, quando, numa dimensão diacrônica que abrangeu três décadas, ou melhor, três períodos de maturação, podemos observá-lo através dos romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

O tema foi tomando matizes distintos, diferenciados, não perdendo, apesar de tudo, a sua condição característica essencial e primeira: pertencer à filosofia negativista, aos postulados do niilismo e, principalmente, não se desgastar na sua forma ontológica de realização.

 

5 - BIBLIOGRAFIA

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. A Estrutura do Romance. Coimbra : Almedina, 1974.

------. Teoria da Literatura. Coimbra : Almedina, 1979.

ANDRADE, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira. Rio, 1943.

APONTAMENTOS de aula do curso: “A Narrativa no Realismo”, ministrado pelo Professor Doutor Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro : Pós-Graduação da Faculdade de Letras, (UFRJ): 1º semestre de 1989.

ATAÍDE, Tristão. Três ensaios sobre Machado de Assis. Belo Horizonte, 1941.

BARRETO FILHO. Introdução a Machado de Assis. Rio, 1947.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo : Cultrix, 1976.

CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo : Livraria Martins, 1959.

CARVALHO, R. Pequena História da Literatura Brasileira. Rio : F. Briguet &Cia., 1953.

CASTELO, José Aderaldo. Realidade e Ilusão em Machado de Assis. São Paulo : Cia. Editora Nacional, 1969.

CORÇÃO, Gustavo. Machado de Assis. In: ---- Nossos Clássicos. Rio : Agir, 1974.

COUTINHO, Afrânio. A Filosofia de Machado de Assis e Outros Ensaios. Rio, Livraria São José, 1959.

------. Machado de Assis: Estudo Crítico. In: ----- Obra Completa de Machado de Assis. Rio, Editora Nova Aguiar S/A, 1971, 1º vol.

ECO, Umberto. As Formas do Conteúdo. São Paulo, Editora Perspectiva, S/A, 1980.

GOLDMANN, Lucien. Pour Une Sociologie du Roman. Paris, TEL, Éditions Gallimard, 1986.

GOMES, Eugêncio. Influências Inglesas em Machado de Assis. Bahia, 1939.

------. Espelho contra Espelho - Estudos e Ensaios. São Paulo, Instituto Progresso Editorial S/A, 1949.

KRISTEVA, J. Le texte du roman. Paris, Mouton, 1970.

LEFEBVE, Maurice-Jean. Estrutura do Discurso da Poesia e de Narrativa. Coimbra, Almedina, 1975.

MACHADO DE ASSIS, José Maria. Obra Completa. Rio, Editora Nova Aguiar S/A, 1971. (3 vols.). Vol. I - Romance; Vol. II - Conto e Tetro; Vol. III - Poesia e Crônica.

------. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio, Garnier, 1988.

------. Quincas Borba. Rio, Garnier, 1988.

------. Dom Casmurro. Rio, Garnier, 1988.

MAGALHÃES JÚNIOR, R. Vida e Obra de Machado de Assis. (4 vols.), Rio, Civilização Brasileira, INL/MEC, 1981.

------. Machado de Assis Desconhecido. Rio, Civilização Brasileira, 1955.

MEYER, Augusto. Machado de Assis. Rio, Livraria São José, 1959.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo, Cultrix, 1974.

------. A Criação Literária: Introdução à Problemática da Literatura. São Paulo, Cultrix, 1972.

------. A Análise Literária. São Paulo, Cultrix, 1977.

MONTENEGRO, Olívio. O romance brasileiro. Rio, José Olympio, 1938.

PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis: Estudo Crítico e Biográfico. Belo Horizonte, Editora Itatiaia Ltda, 1988.

------. Prosa e Ficção, de 1870 a 1920. Rio, José Olympio, 1950.

PEREGRINO JÚNIOR. Doença e Constituição de Machado de Assis. Rio, 1938.

PÉREZ, Renard. Machado de Assis: Esboço Biográfico. In: ---- Obra Completa de Machado de Assis. Rio, Editora Nova Aguiar S/A, 1971, 1º vol.

REIS, Carlos & LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo. Editora Ática S/A, 1988.

ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira. Rio, José Olympio, 1953.

------ & RIBEIRO, João. Compêndio da História da Literatura Brasileira. Rio, Francisco Alves, 1909.

SOUSA, J. Galante de. Bibliografia de Machado de Assis. Rio, MEC/INL, 1955.

------. Fontes para o estudo de Machado de Assis. Rio, MEC/INL, 1958.

SCHWARTZ, R. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo, Ed. Duas Cidades, 1977.

TELES, Gilberto Mendonça. Retórica do Silêncio. Rio, José Olympio, 1989.

TODOROV, T. As Estruturas Narrativas. São Paulo, Editora Perspectiva S/A, 1970.

VALE, Luís Ribeiro do. A psicologia mórbida na obra de Machado de Assis. Rio, 1917.

VIANNA FILHO, Luiz. A Vida de Machado de Assis. São Paulo, Martins, 1964.