PRESENÇA DE ANGULADORES EM TEXTOS DE JORNAL: SEGURAMENTE, UMA ESPÉCIE DE PESQUISA VERDADEIRAMENTE RELEVEANTE [1]
Vito Manzolillo (UERJ)
(...) people use language against different standards, and linguistic expressions exist whose role is to identify the standards by which the other parts of the sentences they occur in are to be interpreted or evaluated. (FILMORE, Charles J. “Preface”. In: KAY, Paul. 1997. Words and the grammar of context. Stanford, California: CSLI Publications, xiii.)
1. Considerações iniciais
No âmbito da Teoria Cognitivista, aquela centrada não na identificação de unidades estruturais (Estruturalismo) ou na predição sobre seqüências bem-formadas (Gerativismo), mas nos processos responsáveis pela construção do sentido – cf. Salomão (1999:12) –, conceito fundamental é aquele de hedge (angulador).[2]
Constituindo um grupo híbrido e amplo, os anguladores apresentam as seguintes características, de acordo com Almeida (1998:255): a) no discurso, apontam que propriedades do referente considerado devem ser levadas em conta para a compreensão da mensagem; b) são construtores de espaço mental; c) são marcadores de perspectiva, isto é, sinalizam ao receptor a direção certa a seguir rumo à decodificação da mensagem, indicando “o enquadre em que dado referente deve ser tomado no discurso realizado” e ajustando propriedades a entidades.
Além disso, nas palavras de Salomão (1999:60 - o negrito é do original),
um ponto interessante quanto aos anguladores é que o enquadre que eles introduzem é epistemológico: seja distinguindo entre as propriedades definidoras centrais ou periféricas de uma categoria, seja barganhando, interativamente, licença para falar segundo um certo ponto de vista (tecnicamente, amplamente, jocosamente, poeticamente, etc).
Noções altamente relevantes ligadas ao conceito de angulador parecem ser as de enquadre e categorização, de um lado, e analogia, desanalogia e reconceptualização, de outro. A análise que ora se inicia pretende examinar uma quantidade expressiva de anguladores, contribuindo para a descrição da língua portuguesa no que concerne a esse dispositivo discursivo e gramatical.
Os exemplos do corpus foram recolhidos nas edições dos dois mais importantes jornais cariocas, isto é, Jornal do Brasil (JB) e O Globo (OG), publicadas a partir do segundo semestre de 1999. No âmbito desta pesquisa, todas as partes e seções dos referidos jornais foram consideradas, embora a maioria dos exemplos ilustrativos pertença a textos argumentativos (editoriais e artigos de opinião). Em função da natureza deste estudo, é bom que se diga, não houve necessidade de que apenas um tipo de texto fosse levado em conta, sendo possível encontrar anguladores nos mais variados gêneros textuais.
A fim de facilitar a exposição, optou-se por dividir os anguladores em grupos, levando em consideração características comportamentais semântico-pragmáticas comuns. Tal critério, apesar de, inevitavelmente, abrir espaço a certa dose de subjetividade, foi considerado o mais adequado.
2. Análise do corpus
Passa-se agora ao exame dos anguladores selecionados, que aparecem em negrito, ao contrário dos demais elementos constituintes das frases.
1) “Em nosso entender, tudo ficou agravado com o instituto da reeleição, que já nasceu manchado com a suspeição de ter sido obtido por meios ilícitos e com graves denúncias de compra de votos para aprovação daquela emenda constitucional” (DIRCEU, José. In: JB, “Reforma política e radicalização?”, 07/07/99, p. 9) – Nesse trecho, o angulador “em nosso entender” deixa claro para o leitor sob que perspectiva o tema reeleição será enfocado, ou seja, a partir da forma de pensar do autor, de suas idéias acerca do assunto.
Na minha / nossa opinião, a meu / nosso ver , acredito / -mos que[3] e similares apresentam basicamente o mesmo sentido: “Em nossa opinião, o Estatuto não deve sofrer alterações localizadas, o que poderia resultar em prejuízo, por tratar-se de uma consolidação” (CAVALLIERI, Alyrio. In: JB, “O estatuto da criança”, 14/07/99, p. 9); “Acreditamos que o ISC tornará mais clara e transparente à sociedade a tributação, reduzindo, inclusive o custo da arrecadação, oneroso pela atual burocracia e seu efeito cascata na cadeia produtiva do setor” (VIEIRA FILHO, João Pedro Gouvêa. In: OG, “Um imposto para os combustíveis”, 03/07/99, p. 7).
Um parecer ou ponto de vista, que não o do autor do texto, também pode indicar o foco de abordagem de determinado assunto, quer o autor concorde com essa outra opinião ou não:[4] “Segundo Fernando Martins, diretor da Associação Nacional de Jornais (ANJ), que ouviu associados em todo o país na semana passada, pode-se chegar a um balanço favorável sobre as mudanças” (SPINOLA, Noenio. In: JB, “Por que mudou o formato dos jornais”, 11/07/99, p. 9); “Mas, para os quadros do governo, ser moderno é copiar o que os ricos estrangeiros fazem lá fora, e não resolver os problemas reais da gente pobre, que eles chamam de atrasada, que está aqui dentro” (BUARQUE, Cristovam. In: JB, “Gente atrasada”, 12/07/99, p. 9); “A cidade, segundo a própria autoridade, é abandonada à sanha dos homens sem lei” (JB, “Pardais & bandidos”, 19/07/99, p. 8).
2) “Pelas estimativas da Associação Brasileira de Comércio Exterior, produtos no valor total de US$ 20 bilhões foram importados de maneira irregular (subfaturados ou contrabandeados) no ano passado” (OG, “Pelo ladrão”, 07/07/99, p. 6) – Aqui, o autor do trecho se vale de estimativa feita por entidade atuante na área de comércio exterior para iniciar seu texto, indicando, assim, que a informação veiculada deve, em princípio, ser levada a sério; “Do ponto de vista da opinião pública, a saída do ministro Domingo Cavallo do governo mostrou que o Plano Cavallo podia continuar sem ele, da mesma forma que a partir de então se demonstrou que o Plano Cavallo podia continuar também sem os peronistas” (JB, “Último tango”, 11/07/99, p. 8) – A questão da saída do ministro da economia argentino é introduzida a partir da opinião popular.
3) “Seguramente a euforia dos ganhadores não diminuirá: não se fica menos feliz por ganhar R$ 1,44 milhão em lugar de R$ 2 milhões, tendo apostado algo como um milionésimo desta cifra” (OG, “Boa aposta”, 05/07/99, p. 6) / “A saída para o impasse gerado pelos pedidos de retaliação comercial dos industriais e produtores agrícolas argentinos seguramente não é a escalada do confronto, mas a negociação” (JB, “Desafio da História”, 05/08/99, p. 10); “A sociedade que não paga suas dívidas é necessariamente caótica” (BUARQUE, Cristovam. In: JB, “Hierarquia de dívidas”, 09/08/99, p. 9) – Com a utilização dos anguladores “seguramente” e “necessariamente”, a idéia de convicção é passada, dificultando, em parte, a contra-argumentação do interlocutor.
Nesse mesmo caso, encontram-se outros anguladores, tais como: evidentemente, é evidente que, certamente, decerto, indiscutivelmente, notoriamente, obviamente, é óbvio que, sem (sombra de) dúvida (nenhuma), é fora de dúvida que, com (toda) certeza: “Embora evidentemente não se possa continuar fazendo cortes indefinidamente, sob o risco de se matar a galinha dos ovos de ouro, o temor parece exagerado” (OG, “Boa aposta”, 05/07/99, p. 6); “O governo vem tomando algumas providências para melhorar as condições de trabalho dos policiais civis, mas é evidente que ainda resta muito por fazer para se ter uma polícia moderna e capaz de esclarecer crimes e encarcerar criminosos” (JB, “Desafio criminoso”, 05/07/99, p. 10); “No ano que vem, a concorrência se estenderá à telefonia fixa, com a entrada no mercado de novos concorrentes. E certamente haverá novas vantagens para os usuários” (OG, “Salvar a imagem”, 09/07/99, p. 6) / “Depois vimos o Governo brigar internamente para punir as empresas, sem ter antes tomado os cuidados de verificar se uma mudança dessa magnitude estava bem planejada. Certamente tinham coisas mais importantes para fazer” (CUNHA, Eduardo. In: OG, “E afinal quem vai multar a Anatel?”, 09/07/99, p. 7); “Canalizar a energia da juventude para o esporte é, decerto, forma inteligente de enfrentar o crescente problema da violência entre os jovens” (OG, “Boa semente”, 21/07/99, p. 6); “A ciência é fundamental e seu progresso tem, indiscutivelmente, melhorado a vida do homem sobre a Terra, mas deve haver um limite para o que o homem possa ou não possa fazer” (JB, “Bomba genética”, 04/07/99, p. 8) / “Indiscutivelmente hoje a Argentina do Plano Cavallo está no mesmo barco do Brasil do Plano Real, de que os argentinos se beneficiaram particularmente desde que a sobrevalorização do real anulava boa parte da sobrevalorização do peso, ao facilitar as exportações para o Brasil” (JB, “Último tango”, 11/07/99, p. 8); “O sistema eleitoral fundado na exclusividade do voto proporcional é notoriamente insuficiente para aprimorar a representatividade” (JB, “Ilusão universal”, 09/08/99, p. 8); “Para se informar, o povo cubano tem acesso apenas a um jornal oficial – o Granma (...). Seus textos e reportagens, obviamente, dedicam-se ao elogio subserviente do regime de Fidel” (COSTA, Octávio. In: JB, “Totem e tabu”, 02/07/99, p. 9) / “Obviamente que não há como fugir então da plena convicção de que é preciso lutar por uma cultura de valores positivos e não de violência” (COSTA, Milton Corrêa da. In: OG, “Violência e paz”, 02/07/99, p. 6); “A publicidade brasileira é, sem dúvida nenhuma, um dos nossos melhores produtos de exportação” (CORRÊA, Flávio A. In: JB, “Nossa publicidade de exportação”, 10/08/99, p. 9); “É fora de dúvida que número excessivo de partidos embaralha o processo com a eterna barganha de interesses” (JB, “Ilusão universal”, 09/08/99, p. 8).
4) “No imaginário náutico e na cartografia medieval, desde meados do século XIV já se mencionam ilhas míticas e paradisíacas em diversos pontos do Atlântico. Aparentemente inspiradas nas lendárias aventuras de São Brandão , o irlandês que buscava o Éden” (DINES, Alberto. In: JB, “Brasil, o nome”, 03/07/99, p. 9) / “No Rio, a autoridade está liberando os sinais após as 22h a quem passe devagar, pelo risco de assalto. Aparentemente é medida de bom senso” (JB, “Pardais & bandidos”, 19/07/99, p. 8) / “A Argentina acossada pelo desemprego que ameaça se tornar crônico marcha para a próxima eleição presidencial aparentemente desembaraçada da aspiração menemista de tentar o terceiro mandato (...)” (JB, “Último tango”, 11/07/99, p. 8); “Estudos botânicos realizados no Santo Sudário de Turim, que supostamente envolveu o corpo de Cristo, indicam que o tecido procede de Jerusalém e data de antes do século 8” (JB, Ciência - “Santo Sudário – Exame estabelece nova data e origem” , 04/08/99, p. 10) – Os anguladores “aparentemente” e “supostamente”, nas situações anteriores, promovem uma redução da força da proposição. Os jornalistas procuram não se comprometer e relativizam o que está sendo afirmado, quer dizer, as assertivas não são feitas de modo categórico, possivelmente porque seus autores não estejam totalmente seguros com relação à veracidade delas.
Efeito semelhante é obtido através do uso do angulador “eventualmente”, o qual, no seguinte trecho, tem seu sentido relativizador reforçado pelo verbo poder: “Para tornar as espécies transgênicas mais resistentes às pragas, os cientistas desenvolveram antibióticos naturais, produzidos geneticamente pela própria planta e que poderão, eventualmente, ser assimilados pelos animais dos rebanhos alimentados com bagaço transgênico, ou por consumidores finais da carne, laticínios e derivados produzidos por esses animais, agindo sobre a flora bacteriana e dando origem a resistências e mutações desses microorganismos, que poderão, eventualmente, tornar-se assassinos potenciais, em conseqüência da exposição incorreta e excessiva a antibióticos (...)” (JB, “Bomba genética”, 04/07/99, p. 8).
Apresentando idéia de relativização quanto ao grau de pertinência de determinado elemento a uma classe, é possível mencionar estes anguladores: relativamente, mais ou menos, um tanto quanto, em certa medida: “A situação do Brasil é de diagnóstico relativamente fácil” (JB, “Pouso forçado”, 09/08/99, p. 8), isto é, apenas em certa medida, o diagnóstico da situação do Brasil se enquadra na “classe dos fáceis”; “Entretanto, a crítica do relator da CPI procede em certa medida: uma polícia incapaz de produzir informações sobre qualquer crime está contribuindo para a impunidade (...)” (OG, “Na pista certa”, 02/07/99, p. 6), ou seja, a crítica do relator da CPI não é completamente pertinente, não se enquadra perfeitamente nessa categoria.
5) “Oficialmente, o peso continua a guardar a paridade com o dólar desde a implantação do Plano Cavallo em 1991” (JB, “Questão de tempo”, 13/07/99, p. 8) – O angulador oficialmente é capaz de instaurar idéia de contraste nos contextos em que aparece. A noção veiculada pelo termo é a de que, na realidade, as coisas se passam de modo contrário ao afirmado.
6) “Os dois exemplos envolvem jovens da elite do país, não são marginais, trombadinhas nem traficantes. São todos adultos, literalmente vacinados e que tiveram e têm todas as oportunidades na vida” (JB, “Médicos e monstros”, 20/07/99, p. 8) – O angulador “literalmente” informa que o item considerado está sendo tomado em seu sentido básico, ao contrário de “no sentido mais amplo do termo” em: “O êxito do Sipam/Sivam, que é um projeto estratégico no sentido mais amplo do termo, facilitará o ingresso do Brasil, (...), no novo paradigma mundial com base na tecnologia da informação” (SARDENBERG, Ronaldo Mota. In: OG, “Amazônia: o futuro começa agora”, 19/07/99, p. 7).
7) “Em princípio, o Banco do Brasil não pode ser condenado por ter sido gestor do fundo de liquidez dos títulos municipais, pois há mais de 20 anos realizava esse tipo de negócio, com resultados financeiros positivos para a instituição” (OG, “Falta a punição”, 03/07/99, p. 6) / “Qualquer lei de imprensa (...) é, em princípio, inconstitucional, já que a Constituição (...) dispõe que ‘nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social’ (...)” (JB, “Rolo compressor”, 06/08/99, p. 8) / “Em princípio, quanto mais ampla a cobertura de um plano de saúde, melhor para o cidadão” (OG, “Livre escolha”, 09/07/99, p. 6) – O emprego do angulador “em princípio” pode chamar atenção para a ocorrência real ou potencial de algo que não deveria acontecer. Protege a face do emissor na medida em que lhe dá a oportunidade de explicitar que ele está ciente da “irregularidade” do fato em questão. [5]
Exemplo parecido com o anterior é o uso de “na primeira leitura” – reforçado pela forma verbal poderia – na seguinte construção: “A fusão da Brahma e da Antártica é surpresa geral (...). Na primeira leitura, a união poderia representar perigosa oligopolização do mercado brasileiro e indicar que a cartelização de preços tem o perigo do monopólio” (JB, “Dose dupla”, 02/07/99, p. 8).
8) “Esse farelo é um excelente alimento do gado que os europeus criam geralmente confinado” (JB, “Bomba genética”, 04/07/99, p. 8) / “Na realidade, os que costumam apostar na loteria geralmente não fazem idéia do percentual da arrecadação que forma o prêmio, nem estão muito interessados em sabê-lo (OG, “Boa aposta”, 05/07/99, p. 6) / “Essa doença [insuficiência cardíaca] é geralmente precedida pela arteriosclerose (...)” (MESQUITA, Evandro Tinoco & ESPORCATTE, Roberto. In: JB, “Reaprendendo a viver”, 09/08/99, p. 9); “Em geral os brasileiros só sabem quanto gastam com impostos quando recebem o salário e mesmo assim com um imposto específico: o de renda” (JB, “Imposto às claras”, 16/07/99, p. 8 ) / “Em geral, quando as condições de mercado não são suficientes, por si sós, para atingir um objetivo de desenvolvimento econômico ou sócio-ambiental que uma sociedade se propõe, esta deve estar preparada para pagar algum tipo de custo para a sua implementação” (HADDAD, Paulo R. In: JB, “A Ford no Nordeste”, 22/07/99, p. 9) / “Os meios de comunicação em geral estão sofrendo cada vez mais do mal de ‘sensacionalizar’ as chacinas e tudo aquilo que realça, infelizmente com toda razão, a mais do que eventual violência policial” (CARNEIRO, Luiz Orlando. In: JB, Deu no JB – “Distorção e irresponsabilidade”, 31/07/99, p. 9) / “Os dirigentes políticos, em geral, (...) estão preocupados com o seu tempo” (MAIA, Rodrigo. In: JB, “A inútil inadimplência do Rio”, 09/08/99, p. 9); “Normalmente discrição e sigilo são mais do que virtudes policiais: são verdadeiros métodos de trabalho” (JB, “Silêncio que fala”, 07/07/99, p. 8); “As internações compulsórias, em clínicas caras e sofisticadas, freqüentemente acabam na amargura da recaída” (FRANCO, Carlos Alberto di. In: OG, “Drogas, a hora da recuperação”, 05/07/99, p. 7); “Nestes tempos difíceis de instabilidade mundial, no que diz respeito à globalização das economias e volatilidade dos capitais, a melhor forma de colaboração dos governos estaduais com o governo da República consiste em manterem suas finanças em perfeita ordem, abstendo-se de dispendiosas agitações administrativas, que não raro acabam em fastidiosas solicitações ao tesouro federal” (SOARES, José Celso de Macedo. In: JB, “Finanças estaduais”, 02/07/99, p. 9) – Anguladores como geralmente, em geral, normalmente, freqüentemente e não raro são utilizados em situações nas quais é importante realçar a abrangência do que está sendo dito, sem correr o perigo – sempre há uma exceção, um caso que não se aplica à regra – de uma generalização contestável.
9) “Nesse dia, talvez, os contribuintes passem a dar mais valor ao dinheiro gasto, tornem-se mais exigentes e passem a interessar-se pelo destino que as autoridades dão a seu suado dinheiro” (JB, “Imposto às claras”, 16/07/99, p. 8); “O governador provavelmente tem razão quando denuncia a existência de uma campanha sistemática contra a sua política de segurança (...)” (OG, “Risco de atropelo”, 19/07/99, p. 6) / “A polícia e a Universidade provavelmente não descobrirão quem matou, afogado na piscina, o calouro Edson Tsun Ching durante o trote bárbaro” (JB, “Médicos e monstros”, 20/07/99, p. 8); “Pela conquista do título pan-americano, as brasileiras praticamente garantiram a presença entre os 10 conjuntos na Olimpíada de Sídnei” (GRIJÓ, Fabio & GUEIROS, Pedro Motta. In: JB, Esportes – “Ousadia vale ouro na ginástica rítmica”, 09/08/99, p. 7) / “A diretoria do Flamengo deixou ontem praticamente acertada a contratação das medalhas de ouro Leila e Virna (...)” (JB, Esportes – “Fla anuncia contratação de Leila e Virna”, 10/08/99, p. 24) – Alguns anguladores (talvez, possivelmente, provavelmente, praticamente etc) surgem quando, mesmo em dúvida quanto à veracidade ou efetiva ocorrência de determinado fato, o falante julga importante mencioná-lo. É possível perceber um tom mais neutro nos dois primeiros em comparação com os dois últimos, dotados – especialmente o último – de um grau de certeza maior. Anguladores desse grupo promovem a filiação de elementos a categorias com reservas, isto é, as atletas brasileiras, com muita probabilidade, terão a chance de disputar as próximas Olimpíadas, mas pode ser que isso não venha a suceder de fato, acontecendo o mesmo com relação a “contribuintes” / “Leila” e “Virna” (elementos), de um lado, e “contribuintes exigentes e interessados”/ “atletas do Flamengo” (categorias), de outro.
A carga semântica de certos verbos também pode exercer esse papel: “A nova elevação nas taxas de juros pelo Banco Central americano (...) deve complicar ainda mais o precário quadro de equilíbrio financeiro das empresas de aviação” (JB, “Pouso forçado”, 09/08/99, p. 8) / “A matrícula no ensino Superior cresceu muito nos últimos quatro anos (...). O que mais anima, porém, é que esse crescimento deve acelerar-se pela simultânea e visível expansão da matrícula no ensino Médio (...)” (SOUZA, Paulo Renato. In: JB, “Crédito educativo e benefícios”, 08/08/99, p. 9); “Um dos focos do problema [alto valor do seguro de automóvel no Rio de Janeiro], paradoxalmente, parece estar na própria polícia” (JB, “Ponto morto”, 11/07/99, p. 8); “Os efeitos do aumento de cerca de 80% no petróleo importado, dos aumentos dos remédios e de outros bens e tarifas que afetam os custos de produção e o custo de vida podem, entretanto, surpreender a sociedade com novo clima de repasses (...)” (CARNEIRO, Dionísio Dias. In: JB, “Juros e inflação”, 05/08/99, p. 11) / “A decisão da prefeitura de recuperar a área portuária pode ser o passo inicial para uma transformação espetacular e sem precedentes do espaço urbano do Rio (...)” (JB, “Por um novo Rio”, 01/08/99, p. 10) .
Às vezes, apenas o uso de verbos no futuro do pretérito do indicativo (simples ou composto) igualmente é capaz de exprimir dúvida ou incerteza, recurso bastante usado em textos jornalísticos, pois permite que o repórter não se comprometa diretamente com o fato em pauta: “O Brasil está pendurado entre esses dois mundos. Em números redondos, neste país (cujo PIB, em paridade de poder de compra, é superior a um trilhão de dólares), metade das pessoas tem uma renda que já beira o liminar do Primeiro Mundo, e a outra metade estaria, na média, pouco acima da marca da pobreza absoluta” (CAMPOS, Roberto. In: OG, “A Versailles do cerrado”, 11/07/99, p. 7) / “O excedente da produção de pasta-base de coca na Bolívia e a produção do Peru costumam ser destinados ao interior do território colombiano, onde seriam refinados 80% do cloridrato de cocaína (...)” (LEALI, Francisco. In: JB, “Amazônia entre a guerrilha e a droga”, 11/07/99, p. 4) / “Sócio do Jockey teria sido vítima de vingança de policiais que denunciou” (tít.) (GARCIA, Renato. In: OG, 19/09/99, p. 21).
10) “Para se definir a quem pertence o patrimônio público é preciso inicialmente examinar a sua constituição acionária. Tanto pode ser da União, como do estado ou do município. Mas, na verdade, essas entidades da administração direta não são proprietárias desse patrimônio” (LIMA SOBRINHO, Barbosa. In: JB, “Um mar de ilegalidade”, 11/07/99, p. 9); “É difícil crer que o apostador que hoje considera tentador o prêmio da loteria passe a desprezá-lo com a redução. Na realidade, os que costumam apostar na loteria geralmente não fazem idéia do percentual da arrecadação que forma o prêmio, nem estão muito interessados em sabê-lo” (OG, “Boa aposta”, 05/07/99, p. 6) – Promotores de reenquadre e polifonia, além de introdutores da noção de contrafactualidade, são anguladores como “na verdade” e “na realidade”, mais enfáticos se acompanhados de mas. Como é possível constatar pela leitura dos exemplos anteriores, num primeiro momento, o emissor abre espaço a um discurso contrário ao seu, que, logo em seguida, será contestado, reformulado e desmerecido.
11) “Basicamente, uma palavra composta pode ser um substantivo ou um adjetivo” (CIPRO NETO, Pasquale. In: OG, Ao pé da letra – “Plurais complicados”, 22/08/99, p. 27) / “O setor mineral fluminense ocupa-se basicamente da extração de matérias-primas para a construção civil” (VICTER, Wagner Granja. In: OG, “Rio, mineração e um suave veneno”, 12/07/99, p. 7) / “(...) uma observação empírica demonstra que a taxa de investimento de risco por estrangeiros realiza-se basicamente em suas praças de origem (...)” (GOMES, Ciro. In: JB, “O desafio do desenvolvimento”, 22/07/99, p. 9); “Tradicionalmente a polícia se baseia apenas em confissões de suspeitos que diante do tribunal negam tudo e fazem o processo retornar à estaca zero” (JB, “Procura-se ajuda”, 02/08/99, p. 8); “Coordenadora do evento (...) a professora Cleonice Berardinelli, vice-presidente da AIL e de certa forma um símbolo do encontro, era uma das mais emocionadas na noite de domingo (...)” (GRAÇA, Eduardo. In: JB, Caderno B – “‘Onde está nossa voz de protesto?’ ’’, 10/08/99, p. 1); “Já foi dito que ‘Bem-Hur’ não passava de uma corrida de bigas cercada por um filme. A grosso modo (sic), ‘Bullit’ (1968), que a Globo mostra à 1h30min, poderia ser reduzido a uma perseguição de carros em São Francisco” (LIMA, Eduardo Souza. In: OG, Revista da TV – “Filmes de hoje”, 18/07/99, p. 19) [6] – Nas frases precedentes, a ausência dos anguladores poderia até mesmo comprometer o julgamento do valor de verdade das afirmativas nelas contidas, já que palavras compostas não são apenas substantivos e adjetivos, o setor mineral fluminense ocupa-se de outras atividades além da extração de matérias-primas para a construção civil, a taxa de investimento de risco por estrangeiros realiza-se não só em suas praças de origem e nem todos os suspeitos negam tudo diante do tribunal. O autor do último exemplo, um crítico de cinema, seguramente sabe que um filme de longa-metragem como “Bullit” também não é ou pode ser resumido a uma perseguição de carros.
12) “A Constituição Federal, carta de princípios por excelência, declara ser dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente (...) o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (...)” (DIAS, Carlos. In: JB, “Adoção por homossexuais”, 12/07/99, p. 9) – Através da utilização do angulador “por excelência”, o autor classifica o elemento “Constituição Federal” como o mais típico, completo e perfeito – ou, pelo menos um dos que se enquadram nessa categoria – de todos os elementos pertencentes ao conjunto “carta de princípios”.
13) “Embora ainda não lembrado na pauta das comemorações dos 500 anos da Descoberta, o nome Brasil tem funcionado como uma espécie de gênese em todos os trabalhos de fôlego sobre nosso passado” (DINES, Alberto. In: JB, “Brasil, o nome”, 03/07/99, p. 9) / “Esta é uma questão que ficará para o próximo governo, espécie de bomba-relógio a funcionar como assinatura da herança menemista” (JB, “Último tango”, 11/07/99, p. 8) / “Espécie de engessamento da moeda nacional, a dolarização deixa pouco espaço ao governo para manobras em caso de choques econômicos” (v. referência anterior) – Importante propriedade do angulador “(uma) espécie de” é promover desanalogia entre dois espaços mentais. De um lado, o espaço-base (da realidade), de outro, um espaço mental organizado em torno de algumas das características do primeiro, a partir da ligação feita pelo angulador. Nesse sentido, a “questão delicada” de que fala o exemplo retirado do corpus não é, na realidade, uma “bomba-relógio”, mas algo que pode significar perigo iminente ou confusão generalizada (após o desfecho). Do mesmo modo, “dolarizar” se confunde parcialmente com “engessar”, já que ambas as noções portam idéia de limitação ou aprisionamento. Fica claro que as entidades às quais os anguladores fazem referência não se encaixam perfeitamente na situação, sendo o processo ocasionado a partir da estrutura gramatical analógica do angulador.
Dotados de características semelhantes àquelas presentes no angulador anteriormente analisado e igualmente capazes de promover desanalogia, é possível citar ainda estes outros anguladores: “Firmaram, acadêmicos brasileiros e franceses, como que um pacto defensivo, cuja primeira manifestação foi a entrega ao mexicano Carlos Fuentes (...) do prêmio instituído pelas duas academias: o Prêmio da Latinidade” (MADEIRA, Marcos Almir. In: OG, “Língua francesa, cultura brasileira”, 05/07/99, p. 7); “Todo o patrimônio público foi formado através do pagamento de impostos, taxas e contribuições do povo brasileiro. E o governo, ao vender o que não lhe pertence, pratica um verdadeiro estelionato” (LIMA SOBRINHO, Barbosa. In: JB, “Educação e cidadania”, 04/07/99, p. 9) / “O Rio precisa de verdadeira revolução urbana” (JB, “Por um novo Rio”, 01/08/99, p. 10).
14) “Outra prática que precisa acabar é o esquentamento de documentos de carro dados como ‘perda total’ em acidentes automobilísticos” (JB, “Ponto morto”, 11/07/99, p. 8) / “A luta é restrita à prevenção, no campo educativo, e aos preservativos, cognominados ‘sexo seguro’, quando não o são” (SALES, D. Eugenio. In: JB, “Aids e moral”, 03/07/99), p. 9) / “O ‘crime’ dos índios foi a recusa de se submeterem ao arbítrio dos colonizadores” (FREI BETTO. In: OG, “Velho mundo rural”, 02/07/99, p. 7) / “Na Tailândia os agricultores plantam desde a antiguidade um tipo de arroz-jasmim de alto rendimento. Recentemente, esse arroz foi patenteado por uma corporação americana e agora os agricultores tailandeses tem (sic) que pagar ‘direitos autorais’ à multinacional cada vez que plantam o arroz desenvolvido por seus antepassados” (JB, “Patentes e limites”, 10/08/99, p. 8) ; “As bactérias não apenas aprendem [7] a ganhar imunidade contra drogas cada vez mais potentes como transmitem essa habilidade a todas as bactérias de sua espécie com que entrem em contato” (JB, “Bomba genética”, 04/07/99, p. 8) / “Com um time baixinho [8] em quadra, a Seleção [brasileira de basquete] abriu dez pontos” (GRIJÓ, Fábio & GUEIROS, Pedro Motta. In: JB, Esportes – “Ouro com sabor de volta por cima”, 09/08/99, p. 8) – Na escrita, recursos como o uso de aspas[9] ou a exploração de possibilidades tipográficas – utilização de negrito e de itálico, por exemplo – também podem fazer as vezes de marcadores de perspectiva, tal qual os anguladores propriamente ditos, até aqui estudados. [10] Expressões como “perda total”, “sexo seguro”, “crime” e “direitos autorais” apresentam, em função das aspas, significados diferentes do esperado, obrigando o leitor a, de alguma maneira, relativizar a informação nelas contida. Do mesmo modo, o itálico presente em “aprendem” e “baixinhos”, sem alteração de perspectiva, poderia ser substituído por anguladores de fato, por exemplo, “As bactérias não apenas aprendem, por assim dizer, a ...” / “As bactérias como que aprendem não apenas a...” e “Com um time até certo ponto / relativamente baixinho ...”
3. Considerações finais
Como foi possível perceber, o conjunto dos elementos que podem funcionar como anguladores é realmente amplo e híbrido. Não é único também o tipo de item ao qual os anguladores podem fazer referência: um nome, como em: “(...) o nome do Brasil tem funcionado como uma espécie de gênese em todos os trabalhos de fôlego sobre nosso passado”, “Firmaram (...) como que um pacto defensivo” e “(...) pratica um verdadeiro estelionato” (cf. 13) ou uma oração, como em: “E certamente haverá novas vantagens para os usuários” e “Seus textos e reportagens, obviamente, dedicam-se ao elogio subserviente do regime de Fidel” (cf. 3).
Às vezes, constatou-se também, o mesmo angulador pode, dependendo da situação, fazer referência a um nome ou a uma oração, como é o caso de “geralmente” nestes exemplos: “(...) gado que os europeus criam geralmente confinado” / “(...) os que costumam apostar na loteria geralmente não fazem idéia do percentual da arrecadação que forma o prêmio (...)” e de “em geral” nestes outros: “Os meios de comunicação em geral estão sofrendo cada vez mais do mal de ‘sensacionalizar’ as chacinas (...)” / “Em geral os brasileiros só sabem quanto gastam com impostos quando recebem o salário (...)” (cf. 8).
A escrita, pôde-se verificar, conta com marcadores de perspectiva próprios: utilização de aspas ou de recursos tipográficos como itálico ou negrito.
Capítulo relevante da Teoria Cognitivista e elementos fundamentais na esfera do processo da construção do sentido, os anguladores precisam ser cuidadosa e detalhadamente estudados, a fim de que se possa alcançar um conhecimento amplo e abrangente do funcionamento da linguagem humana.
4. Referências bibliográficas
ALMEIDA, Maria Lúcia Leitão de. 1998. Viver é uma forma de enferrujar: estudo de anguladores em semântica cognitiva. In: VALENTE, André Crim (org.). Língua, lingüística e literatura. Rio de Janeiro: UERJ.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. 1999. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. totalmente rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
LAKOFF, George. 1972. Hedges, a study in the meaning criteria and the logic of fuzzy concepts. In: CLS – 8. Chicago.
SALOMÃO, Maria Margarida Martins. 1999. O processo cognitivo da mesclagem na análise lingüística do discurso. Rio de Janeiro / Juiz de Fora. Projeto Integrado de Pesquisa.
[1] O presente artigo constitui versão, algo modificada, de trabalho monográfico apresentado à Professora Maria Lúcia Leitão de Almeida (UFRJ) em curso realizado como pré-requisito para obtenção do grau de Doutor em Língua Portuguesa.
[2] Em Lakoff (1972), encontra-se o primeiro estudo relativo ao tema. No Brasil, na segunda metade da década de 90, o grupo de pesquisa Gramática & Cognição, coordenado pela professora Maria Margarida Martins Salomão, iniciou o estudo dos anguladores em português. A denominação portuguesa, proposta por Almeida (1998:253-60), será usada a partir de agora.
[4] Os propósitos argumentativos serão diferentes nas duas situações. No primeiro caso, a opinião externa funcionará como argumento de legitimação e de convencimento.
[5] Ferreira (1999:princípio) fornece apenas os seguintes sentidos para a expressão “em princípio”: antes de qualquer consideração, antes de tudo, antes de mais nada.
[9] Na língua oral, é comum a explicitação de que algo está sendo considerado “entre aspas” ou a realização de gesto feito com os dedos, indicador de que alguma coisa vale “entre aspas”.
[10] Na língua oral, recursos prosódicos como entonação também podem funcionar como angulador. A frase “João é culpado”, com pronúncia enfática da forma verbal, passa idéia de certeza, convicção.