ANÁLISE
DE
UM
POEMA
DA
MODERNA
LITERATURA
ANGOLANA
Leodegário A. de Azevedo
Filho
(UERJ, UFRJ e ABF)
Dedico o
texto
a Alberto da
Costa
e Silva e a Ildásio Tavares,
meus
amigos.
Salvato
Trigo,
no
livro
Luandino Vieira, o logoteta (Porto,
Brasília
Editora,
1981) escreve, na p. 72: “Não
restam
dúvidas,
portanto,
de
que,
em
Angola,
especialmente
na
região
etnolingüística do Kimbundu,
onde
ficam Luanda e o
Dondo,
o
bilingüismo
era
diluído
pelo
aparecimento
dum
discurso
mestiçado e de
tessitura
não
forçada,
forjada a
partir
de
cadências
mútuas
lexicais,
fonológicas e sintáticas.”
No Brasil,
diversamente
do
quadro
acima
descrito,
nunca
houve o
predomínio
de
qualquer
espécie
de “discurso
mestiçado”, havendo
apenas
empréstimos
de adstrato,
sobretudo
durante
o
período
de
bilingüismo
das
Entradas
e
bandeiras
do
século
XVII. Queremos
dizer
as
palavras
de
origem
indígena
passavam
por
um
processo
de
adaptação
fono-morfológica
para
entrar
no
léxico
do
português
do Brasil, eliminando-se a
língua
dos
índios
em
proveito
da
língua
dos colonizadores,
que
afinal
definitivamente
se implantou na América a
partir
do
século
XVIII.
Em
África, o
bilingüismo
persistiu e persiste
até
hoje,
diluindo-se num “discurso
mestiçado”,
como
acima
indicou o
autor
citado. A
propósito,
em
1948, observa-se
que
os
jovens
da
geração
de “Vamos
descobrir
Angola!”,
ao
que
pensamos,
não
chegaram a
pregar
nenhum
movimento
de
regresso
cego
e
radical
às
origens
primitivas da negritude,
como
se
isso
fosse
possível,
eliminando-se
assim
todo
o
longo
processo
cultural e
multissecular
da colonização. O
que
certamente
pregaram, e
com
certa
sabedoria,
foi o
regresso
ao
mundo
da angolanidade,
em
termos
puramente
culturais. Nesse
sentido,
Salvato
Trigo,
em
livro
acima
citado, lembra
que
o
poema
“sô
Santo”,
de Viriato da
Cruz,
“pode
ser
justamente
visto
como
o
modelo
textual
e discursivo da
moderna
literatura
angolana, anunciada
pela
geração
de “Vamos
descobrir
Angola
(op. cit. p. 77). No
poema,
claramente
se exprime uma
forma
própria
de
mestiçagem
cultural, criando-se
assim
uma
língua
literária
também
mista.
Vejamos o
poema,
bem
exemplificativo desse
discurso
literário
mestiçado:
Sô
Santo
Lá
vai o sô
Santo...
Bengala
na
mão
Grande
corrente
de
ouro,
que
sai da
lapela
Ao
bolso...
que
não
tem
um
tostão.
Quando
o sô
Santo
passa
Gente
e
mais
gente
vem à
janela:
– “Bom
dia,
padrinho...”
– “Olá...”
– “Beça,
cumpadre...”
– “Como
está?...”
– “Bom-om di-ia sô Saaanto!...”
– “Olá,
Povo!...”
Mas
por
que
é saudado
em
coro?
Por
que
tem
muitos
afilhados?
Por
que
tem
corrente
de
ouro
A
enfeitar
sua
pobreza?...
Não
me
responde, avó Naxa?
– “Sô
Santo
teve
riqueza...
Dono
de musseques
e
mais
musseques...
Padrinho
de
moleques
e
mais
moleques...
Macho
de
amantes
e
mais
amantes,
Beça-nganas
bonitas
Que
cantam pelas rebitas:
“Muari-ngana
Santo
dim-dom
ual’o
banda
ó calaçala
dim-dom
chaluto
mu
muzumbo
dim-dom...”
sô
Santo...
Banquetes
p’ra
gentes
desconhecidas
Noivado
da
filha
durando
semanas
Kitoto
e
batuque
prò
povo
cá
fora
Champanha,
‘ngaieta
tocando
lá
dentro...
Garganta
cansando:
“Coma
e arrebenta
e o
que
sobrar
vai no
mar...
“Hum-hum
Mas
deixa...
Quando
o sô
Santo
morrer,
Vamos
chamar
um
kimbanda
Para
‘Ngombo
nos
dizer
Se a
sua
grande
desgraça
Foi
desamparo
de Sandu
Ou
se é
já
própria
da
Raça...”
Lá
vai...
descendo a
calçada,
A
mesma
calçada
que
outrora
subia,
Cigarro
apagado,
Bengala
na
mão...
... Se
ele
é o
símbolo
da
Raça
ou
vingança
de Sandu...
(Poemas,
1961)
O
texto
do
poeta
angolano Viriato da
Cruz
(Angola,
1928 – Pequim, 1973) exemplifica
bem
o
aqui
denominado
discurso
mestiçado,
como
produto
de
um
contexto
também
de
mestiçagem
cultural, de
que
aliás
sô
Santo
é uma
figura
simbólica.
Como
se
vê,
o
poema
não
está propriamente empenhado
em
regressar
às primitivas
origens
da negritude, eliminando as
influências
da colonização. O
seu
empenho
consiste
em
regressar
ao
próprio
mundo
cultural
africano,
para
resgatá-lo
em
sua
forma
histórica.
Houve
tempo
em
que
as
personagens,
como
sô
Santo,
tiveram
um
papel
importante
e
definido
na
sociedade
angolana, sendo
mesmo
respeitadas
pela
população.
A
este
propósito,
abserva Salvato
Trigo,
na p. 80 do
livro
acima
referido,
que
o
poeta,
“sibilinamente”,
terminou o
poema
“com
uma
disjunção
altamente
significativa.”
E cita os
versos:
“... Se
ele
é o
símbolo
da
Raça
ou
vingança
de Sandu...”
E prossegue Salvato
Trigo,
na
mesma
página
80: “A
distinção
contida nestes
dois
versos
constitui
como
que
uma
chamada
de
atenção
aos angolanos, a
fim
de
que
eles
meditem no
que
aconteceu
com
sô
Santo.”
Ou
seja: o
leitor
terá
que
optar
por
uma
entre
duas
alternativas.
A
primeira
é a de
ascensão
social,
simbolizada no
poema
por
expressões
como
“grande
corrente
de
ouro”,
“dono
de musseques e
mais
musseques”, “banquetes
p’ra
gentes
desconhecidas”, “noivado
da
filha
durando
semanas”,
“champanha”,
etc. E a
segunda
de
decadência
visível,
com
a
figura
de sô
Santo
a
descer
a
calçada,
que
outrora
subia
com
charuto
na
boca,
mas
agora
desce
com
cigarro
apagado
e
sem
um
tostão
no
bolso...
Mas
quais
seriam os
motivos
que
levaram sô
Santo
a uma
situação
de
ruína?
Para
a
resposta,
após
a
morte
de sô
Santo,
o
povo
chamará
um
kimbanda (médico-adivinho,
curandeiro,
exorcista,
mago
ou
profeta)
para
dizer
se a
desgraça
do
velho
(outrora
figura
importante
e
poderosa)
adveio
por
“desamparo
de Sandu /
Ou
se é
já
própria
da
Raça...”
Portanto,
o
povo
vai
buscar
na
própria
cultura
a
resposta
para
a
indagação
feita
ou
para
as
causas
responsáveis
pela
ruína
de sô
Santo.
Tal
atitude,
como
é
evidente,
indica o
caminho
a
seguir
na
busca
de
soluções
para
os
problemas
angolanos – sejam
individuais
ou
nacionais
–
dentro
da
própria
cultura
histórica
do
mundo
africano.
E
por
que
Sandu,
como
espírito
protetor
do
povo,
se teria vingado de sô
Santo?
A
resposta
está claríssima no
poema:
porque
sô
Santo,
ao
adotar
hábitos
estranhos
e
até
incompatíveis
com
a
sua
origem
e
com
a
sua
formação
cultural, deixando-se
assimilar
pelos
hábitos
e
costumes
estrangeiros,
ou
seja, portugueses, acabou atraindo a
ira
ou
vingança
dos
deuses,
que
se viram preteridos
por
ele,
como
traidor
de
sua
gente.
Ou
seja: sô
Santo
teria sido assimilado, de
forma
alienante,
pela
cultura
estrangeira
do colonizador, transformando-se
assim
num
símbolo
negativo
ou
num
herói
trágico-cômico,
para
jamais
ser
esquecido
pela
memória
do
povo.
Como
se fosse
um
europeu,
sô
Santo
só
tirou
proveitos
para
si
próprio
da
terra
africana,
não
apenas
como
“dono
de musseques” (quarteirão
de
barracos
habitados
por
negros
na
periferia
da
cidade),
mas
também
prostituindo a
mulher
africana,
ao se
tornar
macho
de
amantes
e
mais
amantes,
/ Beça-nganas (sentido
de moças solteiras
que
ainda
pediam a
bênção
aos
mais
velhos)
bonitas.”
Mais
ainda:
assimilando
hábitos
europeus
dos colonizadores, sô
Santo
organizou “banquetes
p’ra
gentes
desconhecidas”; discriminou os
seus
autênticos
irmãos
étnicos,
a
quem
enganou
orgulhosamente,
pois
deu “ao
povo
cá
fora
kitoto (variedade
de
cerveja
feita
de
milho)
e
batuque”,
enquanto
“lá
dentro”
bebia
champanha
com
os
seus
convidados
especiais
ou
gente
estrangeira.
Portanto,
a
alienação
é
que
destruiu sô
Santo,
não
havendo
assim
qualquer
motivo
para
se
pensar
seja
ele
“o
símbolo
da
Raça”
que,
por
fatalidade,
estaria destinada
sempre
a “descer
a
calçada”.
Como
se
vê,
historicamente, o
poema
recria uma
época
sócio-cultural, misturando
níveis
de
língua
num
discurso
bivalente
que,
segundo
Salvato
Trigo,
em
livro
já
aqui
citado, “acompanha os
dois
momentos
– poético e
histórico
–
em
que
o
texto
se resolve.”
Eis
os
dois
momentos:
Primeiro:
Muari-ngana
Santo
dim-dom
ual’ o
banda
ó calaçala
dim-dom
chaluto
mu
muzumbo
dim-dom
Segundo:
Lá
vai...
descendo a
calçada,
A
mesma
calçada
que
outrora
subia,
Cigarro
apagado
Bengala
na
mão...
Na
primeira
estrofe,
interpenetram-se
dois
sistemas
lingüísticos:
o kimbundu e o
português,
africanizando-se as
palavras
da
língua
portuguesa
por
adaptações
fono-morfológicas. Veja-se:
calçada
(= calaçala) e
charuto
(= chaluto).
Como
se verifica,
aqui
não
são
as
palavras
africanas
que
se incorporam ao
léxico
do
português
por
adaptações
fono-morfológicas. Ao
contrário:
as
palavras
portuguesas é
que
se amoldam fono-morfologicamente à
língua
africana.
Com
efeito,
a
passagem
de “calçada”
a “calaçala” se explica
por
epêntese da
vogal
/a/ e
por
assimilação
regressiva
do /d/ ao /l/,
já
que
a
estrutura
vocabular do kimbundu (sempre
cvcv...,
consoante
+
vogal,
consoante
+
vogal...)
rejeita a
combinação
ccv, existente
em
calçada.
Quanto
às
correspondências
isotópicas existentes no
poema,
ainda
na
primeira
estrofe,
temos a
figura
de sô
Santo
subindo a
calçada
(= ual’ o
banda
ó calaçala); e, na
segunda,
tem-se: descendo a
calçada.
Na
primeira
estrofe.
Sô
Santo
aparece de chaluto
mu
muzumbo (=
charuto
nos
lábios
ou
na
boca),
como
símbolo
de prosperidade;
mas,
na
segunda,
vemo-lo de
cigarro
apagado,
como
índice
de
decadência
ou
ruína.
Na
verdade,
há
aqui
pares
opositivos
que
indicam, alternadamente,
fartura
e
miséria.
Veja-se:
subir
a
calçada
/
descer
a
calçada;
e
charuto
nos
lábios
ou
na
boca
/
cigarro
apagado.
Com
isso,
o
poeta
parece
sugerir
– tomando a
figura
de sô
Santo
como
símbolo
– a
própria
alteração sofrida
pela
sociedade
angolana
em
face
da colonização portuguesa.
Eis
o
que,
a
propósito,
escreve Salvato
Trigo:
Viriato da
Cruz
mostra-nos essa transformação numa
perspectiva
bidimensional,
isto
é,
não
apenas
ao
nível
do
texto
onde
o
subir
a
calçada
ou
a
ascensão
social
dos
filhos
do
país
deu
lugar
à
descida
da
calçada
ou
à
perda
de
importância
social
e de
direitos
de
cidadania,
mas
também
ao
nível
do
discurso,
ao
nível
da
expressão
lingüística:
no
tempo
em
que
sô
Santo
podia “subir
a
calçada”
o
povo
“cantava pelas rebitas” [rebitas é o
mesmo
que
baile
ou
festa]
numa
linguagem
onde
o kimbundu e o
português
se casavam
sem
complexos,
se angolanizavam;
agora,
que
ele
a desce, o
português
normativo impõe-se. Nesta transformação da
linguagem,
nesta
mudança
do
discurso
crioulizado
para
o
discurso
genuinamente
português,
terá o
poeta
querido
marcar
todo
esse
período
de
europeização
insensata
que
Angola
suportou a
partir
do
nosso
século
até
ao
fim
do
domínio
colonial. A
introdução
da
estrofe
em
expressão
lingüística,
no
poema
Sô
Santo,
significará o
desejo
por
parte
de Viriato da
Cruz
de
evidenciar,
como
o fez,
por
exemplo,
em
Makézù,
que
a
literatura
angolana deverá
retomar
um
discurso
que
pudesse
representar
a
situação
cultural e sociológica de
Angola,
onde
o “mundo
africano”
tinha
desenvolvido,
durante
os
séculos
XVI, XVII, XVIII e
parte
do XIX, uma
linguagem
angolanizada, tradutora do
estado
de
aculturação
que
a colonização
não
dirigida
tinha
conseguido
estabelecer
em
várias ‘ilhas’
do
território,
nomeadamente nas
zonas
litorâneas de urbanização,
conforme
vimos. (op. cit. p. 86).
Como
é
sabido,
depois
da colonização “não-dirigida”, intensificou-se,
sobretudo
no
início
do
nosso
século,
a colonização
francamente
“dirigida
ou
sistemática”,
com
todo
um
processo
de
assimilação
cultural
ou
de aportuguesamento dos angolanos, nesse
processo
incluindo-se: a
criação
do
Liceu
Salvador
Correia,
em
1919, entrando
em
vigor
o
ensino
secundário
oficial;
a publicação de
jornais
defendendo o
sistema
e a
superioridade
cultural do
mundo
europeu;
a
proibição,
por
Norton de
Matos,
do
ensino
das
línguas
nativas de
Angola
nas
Missões,
a
não
ser
para
fins
de
catequese;
a ocidentalização dos
veículos
de
difusão
cultural,
como
o
cinema
e o
teatro;
a
construção
arquitetônica à
maneira
européia; e o
asfalto
como
índice
de
riqueza
das
cidades,
em
contraste
com
a
miséria
dos musseques e das sanzalas,
tudo
isso
concorrendo
para
a valorização
crescente
da colonização portuguesa
em
detrimento
do
mundo
africano.
Daí se conclui
que
o
poema
de Viriato da
Cruz,
implicitamente contém uma
crítica
amarga
aos
que
forçaram a transformação de uma
sociedade
africana
numa
sociedade
européia, alienando as
pessoas
por
um
intenso
processo
de
assimilação
e pondo na
marginalidade
todos
aqueles
que
se opusessem a
isso.
E
aqui,
de
novo,
recorremos à
exegese
de Salvato
Trigo:
“sô
Santo
evoca essa transformação, ao
mesmo
tempo
em
que
invoca o
mundo
angolano
que
a precedeu e a
que
a
geração
do “Vamos
descobrir
Angola!”
deseja
regressar
para,
a
partir
dele,
construir
uma
literatura
capaz
de
traduzir,
como
dizia Agostinho
Neto,
“a
melodia
crepitante das
palmeiras
/ lambidas
pelo
furor
de uma
queimada.”
(op. cit. p. 86).
Sem
dúvida
alguma, houve
muita
gente
“assimilada”, a
exemplo
de Sô
Santo.
Mas
também
crescia
enormemente
a
massa
marginalizada,
que
falava o “pretoguês” (dialeto
crioulo),
ou
mistura
de uma
língua
românica
com
línguas
nativas num
discurso
mestiçado
que
adaptava o
sistema
lingüístico
do
português
ao
sistema
das
línguas
africanas,
sempre
falado
nos
musseques e nas sanzalas,
espécie
de
dialeto
crioulo,
montado
na
lei
do
menor
esforço
e da
analogia.
Daí surgiu o
conceito
de
decalque
como
a
tendência
que
tem o aloglota
em
adaptar
às
estruturas
de
sua
língua
materna
os
elementos
advindos da
língua
estrangeira.
Inversamente, na
língua
falada
pelos
“assimilados” e
também
na
língua
literária,
a
penetração
de
elementos
das
línguas
nativas
ou
maternas na
estrutura
da
língua
portuguesa, de
forma
perfeitamente
compreensível,
nunca
deixou de verificar-se. A
propósito
disso, conclui Salvato
Trigo:
“a diglossia,
que
a
língua
portuguesa suporta
sem
grandes
conflitos,
é o
preço
que
ela
teve de
pagar,
enquanto
língua
de
diáspora.”
(op. cit. p. 88). E, na
mesma
página,
acrescenta:
É essa adaptabilidade, essa
ductilidade
da
língua
portuguesa,
que
se presta a enxertias e nativizações, deixando-se
mestiçar
com
um
certo
à-vontade
e
sempre
dentro
dos
limites
da
língua,
que
dilui o
drama
lingüístico
que
as outras
línguas
de colonização provocaram.
No
texto
acima
transcrito, observa-se
que
o
termo
diglossia foi
empregado
de
modo
muito
pessoal.
Na
verdade,
aqui
nos
parece
que
se
deva
falar
em
bilingüismo,
ou
seja, a
capacidade
que
tem
um
indivíduo
de
usar
duas
línguas
distintas, no
caso
a angolana e a portuguesa,
como
se ambas fossem maternas, optando
por
esta
ou
por
aquela
em
função
do
momento
social
em
que
se
encontra.
Portanto,
tal
capacidade
é
diferente
da
que
possa
ter
um
indivíduo
de
falar
e de
escrever
uma
língua
estrangeira
(diglotismo)
ou
várias
línguas
estrangeiras,
em
casos
de poliglotismo. Seja
como
for, a
interpenetração
de
sistemas
lingüísticos,
tanto
nos
casos
naturais
de
bilingüismo,
como
nos
casos
de diglossia
ou
poliglossia, gerando as
deformações
dos
discursos
mestiçados
ou
híbridos,
no
fundo,
o
que
faz é
provocar
diferentes
formas
de dialectação. Se a
língua
de
base
for a portuguesa,
para
ficarmos no
exemplo
angolano, os
termos
da
língua
materna
serão
tomados de
empréstimo,
com
naturais
adaptações
fono-morfológicas.
Ou
seja: há
um
processo
de aportuguesamento,
como
ocorreu no Brasil
com
palavras
de
origem
indígena,
em
geral
referentes
à
fauna
e à
flora,
e
também
com
palavras
de
origem
africana
ou
mesmo
de
outra
procedência,
todas
elas
se incorporando ao
léxico
do
português
da América.
Mas
se, ao
contrário,
for
africana
a
língua
de
base,
nela penetrando,
por
empréstimo
lingüístico,
os
termos
da
língua
portuguesa, o
que
se vai
ter
é
um
processo
de africanização do
português.
Além
disso, há os
dialetos
crioulos,
que
se formam no
seio
de
populações
analfabetas e
que
resultam da
interpenetração
de
sistemas
lingüísticos
diferentes,
com
deformações
recíprocas de
formas
de
expressão,
e redução flexional numa
situação
nunca
inteiramente
estável,
de
tal
forma
que
se tornam, muitas
vezes,
ininteligíveis
para
os
falantes
de uma
mesma
região.
Em
síntese,
dentro
de
qualquer
sistema
lingüístico,
há
sempre
duas
forças:
uma agregadora e
outra
desagregadora. A
primeira
responde
pela
unidade
e
permanência
da
língua,
enquanto
a
segunda
responde
por
sua
desintegração
ou
modificação.
Quando
a
primeira
força,
a agregadora, sobrepõe-se à
segunda,
que
é a desagregadora, o
sistema
permanece o
mesmo
em
sua
unidade.
Quando
as duas
forças
se equivalem, o
sistema
permanece numa
situação
de
equilíbrio
dinâmico.
Mas,
se a
força
desagregadora se sobrepõe à
força
agregadora, é
claro
que
o
sistema
se desarticulará, fragmentando-se a
língua.
No
caso
do
português
de
Angola,
como
no
caso
do
português
das
demais
nações
africanas
que
integram o
mundo
lusófono,
parece de
alta
conveniência
manter
–
ou
envidar
esforços
nesse
sentido
–
sempre
em
situações
de
equilíbrio
as duas
forças
acima
indicadas.
Com
efeito,
a flexibilidade e plasticidade da
língua
portuguesa, amoldando-se à
necessidade
de
expressão
de
povos
etnolingüisticamente
distintos,
graças
à
ductilidade
com
que
se
deixa
usar,
atingem
limites
que
seriam
insuportáveis
por
outras
línguas,
de
tal
forma
que
as
literaturas
africanas dificilmente poderiam
ser
expressas
em
qualquer
outra
língua
de colonização,
sem
graves
prejuízos.
Como
o
texto
aqui
nos
mostra,
o
povo
colonizado apoderou-se da
língua
portuguesa
para
dominá-la e
até
africanizá-la, na
construção
de uma
língua
literária
independente
de Portugal.
Em
outras
palavras,
fundamentalmente,
a langue parece a
mesma,
mas
já
é
outra
a
dinâmica
da parole. No
caso,
o
que
vai
importar
é a
construção
de uma
estética
literária
africana,
perfeitamente
capaz
de
exprimir,
numa
língua
de
cultura
ou
de
civilização
escrita,
no
caso
a portuguesa, o
sentimento
profundo
do
povo,
diante
da
grandeza
e da
precariedade
da
própria
condição
humana.
Em
suma,
convém
distinguir,
claramente,
africanização de aportuguesamento. Os
empréstimos
lingüísticos
de
línguas
africanas
que
se ajustam à
morfologia
portuguesa
nada
têm a
ver
com
o
fenômeno
de africanização, e
sim
com
o
fenômeno
de aportuguesamento, enriquecendo-se o
vocabulário
do
português
do Brasil. Ao
contrário,
quando
línguas
africanas recebem
empréstimos
lingüísticos
do
português,
a
exemplo
do
que
se
vê
na
primeira
parte
do
poema
em
causa
(calaçala
por
calçada).
Aí,
sim,
temos o
fenômeno
de africanização,
próprio
de
discursos
mestiçados
ou
de
dialetos
crioulos.
Em
tudo
isso,
o
importante
não
é
ter
muitas
línguas
ágrafas,
mas
dispor,
ao
lado
delas, de uma
língua
de
civilização
escrita,
no
caso
a portuguesa,
que
é a
sexta
língua
materna
mais
falada
no
mundo,
ocupando o
imenso
espaço
etnolingüístico da lusofonia,
com
cerca
de duzentos
milhões
de
falantes.
E o
novo
milênio
exige o
fortalecimento
dos
grandes
blocos
lingüísticos,
entre
eles
incluindo-se a
língua
portuguesa,
já
agora
com
a
inclusão
de Timor
Leste,
ao
lado
das
cinco
nações
africanas de
língua
oficial
portuguesa, e ao
lado
do Brasil e de Portugal.
Observe-se
que,
na
expressão
sô
Santo,
tem-se a redução de
Senhor
a
Seu
e,
depois,
a Sô. E
Santo
é
forma
apocopada de
Santos,
eliminando-se o –s
final
por
força
da
estrutura
vocabular da
língua
nativa,
igual
a:
consoante
+
vogal,
consoante
+
vogal
... (cvcv...)
Em
“vem à
janela”,
a
sintaxe
é
puramente
portuguesa. Na
língua
popular
do Brasil, ouve-se
freqüentemente:
“vem na
janela”.
Musseques.
Quarteirão
de
barracos
habitado
por
negros
na
periferia
da
cidade.
Rebitas.
O
mesmo
que
“festas
ou
bailes”.
Muari-ngana
Santo.
O
Senhor
Santo.
Ual’o
banda
ó calaçala. O
mesmo
que
“subir
a
calçada”.
Em
calaçala, há
calçada,
com
epêntese do /a/ e
assimilação
regressiva
do /d/ ao /l/,
para
adaptar
o
termo
português
à
estrutura
vocabular da
língua
africana.
Africanização
lingüística.
Chaluto.
Troca
do /r/
pelo
/l/,
por
lambdacismo, deformando-se a pronuncia do
vocábulo.
Africanização.
O
termo
‘ngaieta designa
um
instrumento
musical
semelhante
à
nossa
harmônica.
Kimbanda.
O
mesmo
que
médico-adivinho,
curandeiro,
exorcista,
mago
ou
profeta.
Sandu.
Espírito
ou
divindade
protetora do
povo.