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Adoniran Barbosa, o defensor involuntário
do
combate ao preconceito lingüístico
[1]

Mônica Guedes Jogas (UNESA)
Nataniel dos
Santos Gomes (UNESA)

 

Adoniran Barbosa teve grande importância na música popular, pois era um perfeito repórter, o repórter dos bairros pobres de São Paulo.

Mário Lago

 

A tentativa de apresentar Adoniran Barbosa como um defensor involuntário do combate ao preconceito lingüístico é, sobretudo, um meio de propiciar um novo olhar sobre a vida desse marco da MPB, estereotipado ao longo dos anos como engraçado, conferindo-lhe o devido reconhecimento pelo trabalho social desenvolvido, mesmo que involuntariamente. Trabalho esse que ficou registrado em suas composições, dando margem a diversas interpretações.

Adoniran não combateu como sofreu preconceito lingüístico e grafocêntrico, por cantar e grafar de acordo com o que faziam e ainda fazem em sua maioria os brasileiros que pertencem a uma sociedade menos favorecida, no caso retratado, da periferia de São Paulo. De entregador de marmitas a marco da MPB, Adoniran Barbosa percorreu uma longa jornada, sendo reconhecido quase ao final da vida. O que se pretende é não permitir que gerações simplesmente ignorem vida e obra desse homem que foi um mestre na arte de usar a língua materna.

 

RESUMO BIOGRÁFICO DE ADONIRAN BARBOSA

Como ocorre com a história de todo grande mito, mais de uma versão permeia a biografia de Adoniran Barbosa.

Oficialmente consta que nasceu em 1910, com o nome de João Rubinato em Valinhos, interior de São Paulo. De origem humilde, era filho de Fernando e Ema Rubinato, imigrantes italianos que aportaram em Santos, com o intuito de trabalhar e de se estabelecer no Brasil. O caçula dos sete filhos da família Rubinato viveu a infância e parte da juventude migrando pelo estado de São Paulo em busca de melhores condições de vida. Cedo se desobrigou dos estudos e passou a trabalhar nas mais diversas profissões, sempre em empregos de pouca monta na área de prestação de serviço.

Adoniran viveu em Valinhos, Jundiaí, Santo André e somente em 1934 fixou residência na capital paulistana. A partir de então esteve sempre envolvido com rádio, o que lhe rendeu quatro premiações com o troféu Roquete Pinto, cinema, televisão e a música sendo premiado inúmeras vezes em diferentes contextos. É preciso enfatizar que a arte esteve sempre ligada ao Adoniran, ou vice-versa, mas foi como cantor e compositor que se consagrou quase ao final da vida ao retratar em suas composições a cidade e o cotidiano da comunidade a que pertencia.

Enfim, tendo de trabalhar desde cedo, talvez Adoniran inconscientemente desejasse mudar seu passado e apagar as dificuldades que amargou a infância, e por isso vivia reinventando a história de seus verdes anos, a cada vez dando novas datas, nomes e fatos. Mas, no fim da vida ao perceber que mesmo consagrado como ator e sambista, não chegou a conhecer a riqueza (embora bem acima da linha de pobreza) sua única arma para enfrentar a realidade seria das mais eficazes: o bom humor. Assim mesmo ele se definiu em 1978:Eu sou um cara triste sabe, eu faço piada, mas é tudo por fora.. (MUGNAINI , 2002)

Apesar de ter abandonado a escola no início da vida acadêmica por motivos sócio-econômicos, senão culturais, foi diplomado Professor Emérito pelo Instituto de Música de São Paulo e, ainda, eleito Jornalista Honorário em 1976.

Adoniran faleceu em 1982 em São Paulo. Algumas de suas composições continuaram a ser gravadas por diversos intérpretes ao longo dos anos. Até os dias atuais a memória de Adoniran é contemplada com shows e musicais que o destacam como um marco da MPB em São Paulo.

 

VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA

A variação lingüística é um fenômeno estudado pela Lingüística, mais especificamente pela Sociolingüística que atua no limiar entre língua e sociedade, buscando a heterogeneidade encontrada nos diversos falares. Atualmente, esse tema é abordado por vários pesquisadores que se dedicam a estudar as variantes encontradas em nossa língua materna que, somam uma quantia incalculável, desmistificando a unidade lingüística no português falado pelo povo brasileiro.

Perceber o português falado em toda a extensão do território brasileiro como único é o mesmo que fechar os olhos para todas as culturas existentes em nosso país. É olvidar, dentre outros fatores, de todos os processos imigratórios e migratórios que constituíram e continuam constituindo a nossa história. É não perceber que politicamente pertencemos a diferentes estruturas sociais, que nos inserem em distintos contextos acabando por construir formas desiguais de linguagem dentro de uma mesma língua.

É através da linguagem que uma sociedade se comunica e retrata o conhecimento e entendimento de si própria e do mundo que a cerca. É na linguagem que se refletem a identificação e a diferenciação de cada comunidade e também a inserção do indivíduo em diferentes agrupamentos, estratos sociais, faixas etárias, gêneros, graus de escolaridade. (LEITE, 2002)

Adoniran Barbosa percebia essas diferenças e retratava em suas composições a fala e o cotidiano dos imigrantes italianos de baixa renda residentes em São Paulo. Ele indicava a diversificação dos falares, apontava o tempo inteiro para o falar diferenciado, o falar cantado, com sotaque italianado, de quem tinha pouca instrução acadêmica. Esse renomado sambista apesar de ser estereotipado ao longo dos anos como engraçado, devido não somente as músicas, mas aos personagens que interpretava no rádio, no cinema e na televisão, teve o reconhecimento, por parte de alguns, de sua principal função diante da comunidade, de reproduzir o que via, vivia e sentia pelos bairros da periferia de São Paulo.

A descrição da fala de uma comunidade ítalo-paulistana por Adoniran Barbosa chegou a ser denominada como Adoniranês e a classificação concedida a gramática particular, utilizada por Adoniran foi a de estropiada, conforme afirmou o jornalista (MUGNAINI , 2002: 100) em seu livro biográfico. Assim como para o jornalista não estava evidente, poderia não estar claro para muitos que ele apenas usava uma variação do português do Brasil.

Apesar de em algumas reportagens Adoniran afirmar que utilizava os erros de ortografia em suas composições porque fazia sambas para o povo, ou mesmo para torná-las mais engraçadas, o compositor tinha a preocupação de ser compreendido, ou, em termos lingüísticos de não ser agramatical, conforme se expressa na citação a seguir.

Não é fácil escrever errado como eu escrevo,pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas não diz nada...” (MUGNAINI , 2002: 9)

Com o depoimento supracitado, Adoniran demonstrava a seriedade com que encarava todo o processo de composição. Ele não escrevia sem cuidados, apenas descrevia a cultura através do seu maior instrumento : a fala que nada mais é do que o uso individual da língua e está intimamente arraigada a todo um processo de ordem cultural.

 

Preconceito lingüístico

Diante da pluralidade cultural brasileira, assunto abordado anteriormente, é natural que haja, como em toda sociedade, uma cultura que se imponha dominante e outras que erroneamente se enquadrem em posição inferior. A relação entre tantas culturas acaba resultando na produção de um sentimento de desaprecio a tudo o que não siga exatamente ao que se tem como norma e padrão, apesar de muitas vezes existir a consciência de todo um processo de imposição de valores culturais. É imprescindível afirmar que toda forma de rejeição a diferença é considerada preconceito.Com isso, subentende-se que a aceitação a diversidade pode manifestar-se como um meio de combate ao preconceito. Sendo assim, o preconceito lingüístico consiste na relação de intransigência entre a diversidade lingüística resultante das múltiplas culturas existentes em todo o território nacional. Talvez seja este o mais grave de todos os preconceitos,,pois ao ser intolerante com a fala do próximo, o agente desta ação estará rejeitando toda a cultura a que o falante está inserido, assim como, menosprezando toda a sua história de vida.

Sabe-se que a língua atua como um forte instrumento de poder social. Tem mais influência na sociedade aquele que mais se aproxima da língua culta ou “cultuada” como define bem o lingüista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Lingüístico; o tratamento da variação. Como ele também preconiza, na mesma obra, umas das armas mais eficazes para o combate ao preconceito lingüístico seria esclarecimento de que a gramática não é a língua, conforme a seguinte citação:

O preconceito lingüístico está ligado em boa medida à confusão que foi criada no curso da história entre língua e gramática normativa.Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa- múndi não é o mundo...Também a gramática não é a língua. (BAGNO, 1999: .9 )

Adoniran Barbosa foi alvo de duras críticas sociais e por conseqüência de preconceito, pois compunha usando um linguajar diferenciado dos outros compositores. Consta que o grupo Demônios da Garoa ao oferecer uma composição do Adoniran para uma determinada gravadora foi insultado ouvindo que a letra apresentada era uma vergonha para a música brasileira devido aos entãoerros gramaticais”. A mesma gravadora na década de 60 atingiu o apogeu no meio artístico fazendo a correção gramatical das letras das músicas da Jovem Guarda. (MUGNAINI JR, 2002: 80)

Com muita tranqüilidade e consciência do que não fazia nada além de um retrato cultural, a defesa de Adoniran estava na existência da linguagem que usava para compor. Na realidade faltava aos que não respeitavam os seus trabalhos, o conhecimento da existência de várias gramáticas em uma mesma língua.

Na língua, nada é por acaso : tudo tem uma explicação. Ninguém fala errado porque é burro ou preguiçoso : as pessoas falam diferente porque empregam regras gramaticais diferentes. (BAGNO, 2002: 26)

Adoniran criava polêmica com suas composições. Era do seu conhecimento que suas músicas chegavam às escolas e que eram discutidas entra alunos e professores que mostravam que era assim que se falava, mas que a grafia deveria ser diferente. Provavelmente, não tinha a noção de que esse era um trabalho social desenvolvido involuntariamente. Ao não somente reconhecer e aceitar, mas resgatar ao linguajar específico de uma comunidade, Adoniran atingia um número infinito de pessoas que reconheciam, cantavam e discutiam suas composições,. conseqüentemente combatia o preconceito lingüístico. Tema que agora, no início do século XXI, não pode mais ser discutido sem coligar ao lingüista Marcos Bagno, que em mais de uma obra abordou o assunto com tanta clareza. O mesmo lingüista propõe como uma possível solução, em longo prazo, para o preconceito lingüístico, uma conscientização coletiva da sociedade

E a primeira campanha a ser feita, por todos na sociedade, é a favor da mudança de atitude. Cada um de nós, professor ou não, precisa elevar o grau da sua própria auto-estima lingüística : recusar com veemência os velhos argumentos que visem menosprezar o saber lingüístico individual de cada um de nós. Temos de nos impor como falantes competentes de nossa língua materna. Parar de acreditar que brasileiro não sabe português, que português é muito difícil, que os habita. Acionar o nosso senso crítico toda vez que nos deparamos com um comando paragramatical e saber filtrar as informações deixando de lado (e denunciando, de preferência) as afirmações preconceituosas, autoritárias e intolerantes. (BAGNO, 1999: 115)

Uma mudança de atitude talvez seja na realidade o que o povo brasileiro precise. Todo um processo de reeducação, de conscientização deve ser feito em torno desse sentimento, dessa atitude, que não denigre como mutila a diversidade cultural brasileira. Para isso, uns envolvimentos de instituições voltados à educação teriam que colocar em prática as teorias de aceitação a diversidade cultural através,em primeiro lugar, do reconhecimento da fala como herança e retrato cultural.

 

ALGUMAS OBSERVAÇÕES
SOBRE AS COMPOSIÇÕES DE ADONIRAN

Análise das variações lingüísticas
encontradas na
composição Tiro ao Álvaro de Adoniran Barbosa.

Tiro ao Álvaro

Adoniran Barbosa

 

De tanto levar

frechada” do teu olhar

Meu peito até

         parece sabe o quê

Tauba” de tiroao Álvaro”

Não tem mais onde furar

 

         Teu olhar mata mais

do que bala de carabina

Que veneno istriquinina

que peixeira de baiano

Teu olhar mata mais

que atropelamento de automóver

Mata mais

que bala de revórver.

As variantes lingüísticas assinaladas na composição em evidência buscam retratar o perfil sócio-cultural de uma determinada comunidade. Adoniran apresenta a coerência encontrada na transformação da língua. A permuta entre os vocábulos alvo e Álvaro no título,bem como no quinto verso, foi possível principalmente em função da semelhança sonora e sintática existente entre os vocábulos. No caso, o SP ao alvo apresenta-se como ao Álvaro, também SP.

Sabe-se que o fenômeno da rotacização ou o rotacismo se fez presente no processo de formação da língua portuguesa. Palavras que sofreram a transformação do L em R nos encontros consonantais, como flaccu (latim) para o conhecido fraco ou mesmo plaga (latim) para praga, é representado no primeiro verso, quando Adoniran tanto grafa quanto canta “frechada” ao invés de flechada.

Outra forma de rotacismo visível, consiste na troca das mesmas consoantes (L pelo R) e está explícito na mesma composição em palavras como automóvel /automóver e revólver/ revórver. Esse rotacismo, assim como o do encontro consonantal,versa na história da língua portuguesa ainda no período de sua formação.

O que acontece de fato, é que as consoantes /l/ e /r/ são do ponto de vista articulatório parentas muito próximas, o que faz com que, na história de muitas línguas substituam uma a outra indiferentemente. (BAGNO, 1999: 92)

A explicação para a variante de tábua transcrita no quinto verso como tauba consiste em um fenômeno explicado como redução de palavras proparoxítonas em paroxítonas comumente encontrado na fala regionalizada do brasileiro. Há uma forte tendência na língua portuguesa, não sendo exceção em comparação a outras línguas do mundo, em abreviar os vocábulos na hora de pronunciá-lo. Dentre outros exemplos são também marcantes a redução dos vocábulos árvore para arvre e de fósforo para fosfro.

Múltiplas são as variantes encontradas nas composições de Adoniran Barbosa que retrata com êxito o perfil sócio-cultural de uma comunidade. Em outras obras do mesmo compositor é comum encontrar o fenômeno da monotongação que consiste, por exemplo, na troca do ditongo /ou/ pelo fonema /o/ em vocábulos como ôtro ou mesmo a ausência da marca de pluralização em elementos da mesma oração, em construções do tipo, as mariposa ou mesmo nós pega.

 

Conclusão

João Rubinato/ Adoniran Barbosa viveu entre 1910 e 1982. Nasceu antes da Light iniciar o serviço de iluminação pública paulistana, acompanhou toda a evolução tecnológica que permitiu desde a fundação da primeira rádio no Brasil até a produção de filmes de longa metragem no cinema.

Conferir ao Adoniran a função de defensor involuntário do combate preconceito lingüístico é ampliar ainda mais o seu extenso currículo que acumula variadas e significativas funções. Diante da pluralidade cultural e lingüística brasileira, Adoniran Barbosa não aceitava como propagava a diversidade encontrada na fala dos brasileiros. Ele “mirou um alvo” e atingiu em cheio, retratando um falar diferenciado do que é prescrito pela NGB, há muito combatido por lingüistas e estudiosos do português contextualizado no Brasil. A depreciação cultural é um marco do povo brasileiro que insiste em desvalorizar a sua cultura a começar pela fala.

Atualmente Marcos Bagno e outros lingüistas e estudiosos se incumbem dessa tarefa árdua que se cumprida renderá bons frutos.

 

BIBLIOGRAFIA

Bagno, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

––––––. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. São Paulo: Parábola, 2002.

LEITE, Yonne & CALLOU, Dinah. Como falam os brasileiros?  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

MOLLICA, Maria Cecília & Braga, Maria Luiza. Introdução à  Sociolingüística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.

MUGNAINI JR., Ayrton. Adoniran: Dá licença de contar. São Paulo: Editora 34, 2002.

PERINI, Mário. Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática, 2001.


 

[1] Trabalho apresentado no VII CNLF, em agosto de 2003.