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Aquisição de Segunda Língua
de uma
perspectiva lingüística
a uma
perspectiva social

Isabel Cristina Rangel Moraes Bezerra (UERJ)

 

Introdução

Ao longo de décadas, pesquisadores têm tentado construir teorias que possam descrever o processo de aquisição de língua materna (L1). É incontestável a importância dessas tentativas de teorização uma vez que a linguagem é ferramenta simbólica comum a todos os seres humanos nas diversas sociedades. Por outro lado, tais modelos teóricos também têm sido tomados como ponto de partida para muitas pesquisas na área de aquisição de segunda língua (L2).

Segundo Mitchell e Myles (1998:2), a necessidade de se entender melhor o processo de aquisição de segunda língua deve-se a duas razões básicas: [a] o aumento de conhecimento nessa área é interessante por si, além de permitir que se compreendam melhor questões ligadas à natureza da linguagem, da aprendizagem humana e mesmo em relação à comunicação; [b] tal conhecimento será útil, pois se pudermos explicar melhor o processo de aprendizagem, melhor poderemos dar conta do porquê de sucessos e insucessos observados em aprendizes de L2.

Considerando-se, portanto, a importância de tais estudos para a área de ensino de línguas, com o presente trabalho, tenho por objetivo fazer uma breve apresentação de algumas teorias de aquisição de segunda língua. Pretendo iniciar apresentando como os estudos em aquisição de L2 começaram a ser construídos a partir de uma perspectiva lingüística com a contribuição de Chomsky (1965, apud Mitchell e Myles, 1998). Em seguida, apresento outra teoria também considerada de base inatista como a de Chomsky, proposta por Krashen. Logo após, introduzo uma abordagem que focaliza as questões do insumo (input) e da interação. Posteriormente, volto-me para as contribuições da perspectiva mais relacionada à questão sociocultural e sociolingüística. Finalmente, discuto a prática do professor de L2 e sua interface com as perspectivas teóricas apresentadas.


 

Chomsky e a Gramática Universal
uma
perspectiva lingüística
para a compreensão da aquisição de L2

Segundo Mitchell e Myles (1998), na década de cinqüenta e no início da década de sessenta, a teorização que se fazia na área de aprendizagem de L2 estava estreitamente relacionada às questões práticas do ensino de línguas. No entanto, desde o movimento da reforma na área de ensino de línguas, no final do século dezenove, havia a tendência de se tentar propor uma base teórica na área de aprendizagem de línguas para fundamentar os métodos que surgissem. Assim sendo, nos anos cinqüenta e sessenta, as reflexões e propostas dos experts em ensino de línguas apresentavam sérias considerações em torno de uma teoria de aprendizagem como em Lado (1964) para fundamentar o ensino de L2, como veremos abaixo. Com relação ao conteúdo lingüístico destas propostas pedagógicas, havia o respaldo de uma versão do estruturalismo desenvolvido por Palmer, um lingüista inglês, na década de vinte.

A teoria behaviorista de aprendizagem (Skinner, 1957) foi a base para o trabalho de Lado e Fries. Segundo tal visão, a aprendizagem de língua materna estaria equacionada à formação de hábitos, a partir de um estímulo que acarretaria uma resposta que, por sua vez, sofreria um reforço positivo caso a resposta fosse aquela esperada e que devesse ser mantida. O reforço seria negativo caso a resposta não fosse a esperada e não devesse ser mantida. No que diz respeito ao aprendizado de L2 haveria um problema: substituir os hábitos lingüísticos adquiridos em L1 por outros, podendo haver interferência positiva ou negativa. Chomsky (1959), partindo de um ponto de um vista lingüístico, faz uma revisão dos postulados de Skinner, apontando vários problemas. Chomsky (ibid.), por exemplo, discorda que as crianças apenas reproduzam sentenças. Na verdade, elas são criativas, na medida em que internalizam regras que lhes permitem criar novas sentenças. Havendo feito a distinção entre competência (capacidade para produzir sentenças gramaticalmente corretas) e produção ( a efetivação daquela capacidade no uso), Chomsky prefere trabalhar com a língua em abstração, ou seja, orientada para a competência, pois a produção está cheia de incorreções. Baseado neste princípio, ele afirma que as crianças são portadoras de uma mecanismo de aquisição de linguagem, de sorte que são naturalmente programadas para descobrir as regras da língua, de forma que não passa pelo processo estímulo-resposta-reforço.

Chomsky propõe a existência de uma Gramática Universal (GU), comum a todos os seres humanos, governada por princípios e parâmetrosque controlam a forma que as línguas humanas podem tomar, sendo o que faz as línguas humanas serem similares entre si” (Mitchell e Myles, 1998:43). Tais princípios lingüísticos abstratos “ajudam a diminuir o problema da aprendizagem criado pela pobreza do input recebido” (Larsen-Freeman e Long, 1994[1991]: 230). Esses princípios são restritos por parâmetros que governam um conjunto de propriedades da língua. Assim, as crianças desenvolveriam em L1 uma gramática básica (core grammar) através do insumo positivo de sentenças que auxiliam a modificar os princípios básicos que elas trazem consigo através da parametrização dos elementos não marcados. Elas desenvolveriam também uma gramática periférica para dar conta de regras mais marcadas e específicas daquela L1, diferentes dos universais lingüísticos.

No que tange a aquisição de L2, a teoria da Hipótese Universal pode assumir algumas possibilidades lógicas. Mitchell e Myles (1998:61,62) apontam:

[a] não acesso à hipótese: entendendo-se que a GU não influencia a aquisição de L2 porque o aprendiz não tem mais acesso a ela, uma vez que esse se atrofia com a idade. É uma visão que ainda é considerada, pois entende-se que há uma idade crítica para o aprendizado de L2 após a qual os aprendizes precisam lançar mão de outros mecanismos;

[b] acesso total à hipótese: o aprendiz acessa a GU diretamente, de forma que os processos de aquisição de L1 e L2 são similares. As diferenças se dão por conta da maturidade cognitiva e das necessidades do aprendiz, não havendo contudo limitações por conta de um período crítico;

[c] acesso indireto à hipótese: a GU não está diretamente envolvida no aquisição de L2, mas o aprendiz tem acesso indireto através da L1, de forma que os parâmetros fixados aplicam-se à L1. Se a L2, no entanto, apresenta diferentes parâmetros, o aprendiz terá que lançar mão de outros mecanismos para que os dados que ele tem em L2 se adeqüem a suas representações internas;

[d] acesso parcial à hipótese: alguns aspectos da GU ainda estão disponíveis ao aprendiz. É uma tentativa de conciliar fatos contraditórios no processo de aquisição de L2.

Na literatura, há autores que fazem críticas a esse modelo teórico. Ellis (1994[1985]), por exemplo, afirma que a Hipótese Universal assume que o conhecimento lingüístico é homogêneo, ignorando a variação. Mitchell e Myles (1998) apontam a limitante preocupação com a sintaxe, deixando-se de lado aspectos como semântica, pragmática e discurso. Além disso as pesquisas sob esse modelo focalizam a rota de desenvolvimento lingüístico em L2, não levando em consideração variáveis psicológicas e sociais. Larsen-Freeman e Long (1994[1991]) questionam a afirmação de Chomsky que a aprendizagem de línguas ocorre rapidamente e de que está basicamente completada por volta dos cinco anos de idade, posto que evidências empíricas de que aspectos complexos de sintaxe são adquiridos bem mais tarde. Outras limitações poderiam ser apontadas, mas cabe salientar, conforme apontam Mitchell e Myles (1998:70) que esse modelo teórico “tem sido bastante útil enquanto ferramenta sofisticada para análise lingüística, permitindo aos pesquisadores formularem hipóteses bem definidas que podem ser testadas em pesquisas empíricas”.

No próximo segmento abordo a teoria do Modelo Monitor proposta por Krashen e que tem como ponto de partida estudos sobre aquisição de morfemas em L1 (Brown,1973, apud Mitchell e Myles, 1998) e em L2 Dulay e Burt (1973, 1974,1975, apud Mitchell e Myles, 1998).

 

A teoria do Modelo Monitor

Estudos de Brown (1973, apud Mitchell e Myles, 1998) sobre a aquisição de morfemas em L1 mostraram haver uma ordem de aparecimento de quatorze morfemas gramaticais na fala de crianças falantes de inglês L1 em um estudo longitudinal, posteriormente confirmado em outros estudos por outros pesquisadores. Esse estudo levou estudiosos como Dulay e Burt(1973, 1974,1975, apud Mitchell e Myles, 1998) a investigarem o surgimento dos mesmos morfemas em aprendizes de inglês como L2, reportando o aparecimento de oito daqueles morfemas com base no estudo da produção de crianças hispano falantes. Tais estudos serviram de base para que Krashen formulasse sua teoria ao final da década de setenta, segundo Mitchell e Myles (1998). Ela é constituída de cinco hipóteses básicas:

[a] Hipótese da ordem natural – essa hipótese deriva-se das pesquisas que indicam um percurso (mais ou menos) comum na aquisição de traços gramaticais formais (Ellis, 1994[1985]). Desta forma, o aprendiz apresenta essa ordem em sua produção se estiver envolvido em atividades de comunicação natural, no entanto tal ordem é perturbada caso ele tenha que desenvolver atividades que exijam ou permitam a utilização de conhecimento metalingüístico obtido através da aprendizagem.

[b] Hipótese do monitor – o monitor é o mecanismo acionado pelo aprendiz para editar sua produção lingüística, pois utiliza conhecimentos aprendidos para modificar as elocuções produzidas a partir do conhecimento adquirido, podendo ser acionado antes ou depois de a elocução ser efetivamente produzida. Para que tal mecanismo seja acionado pelo aprendiz é preciso que haja tempo suficiente, que o foco seja na forma e não no significado e que ele saiba a regra que precisa ser acionada (Ellis, 1994[1985]). É possível que o aprendiz utilize conhecimento adquirido, mas esse tipo de edição seria feito através de “percepção”. Haveria, então, três tipos de usuários do monitor (Mitchell e Myles, 1998): os sub-usuários que não se importam com os erros cometidos; os super usuários que não gostam de errar e que estão constantemente checando sua produção; os ótimos utilizadores do monitor que o usam apenas nos momentos apropriados, ou seja, quando não vai interferir na comunicação.

[c] Hipótese da aquisição-aprendizagem: em seu modelo, Krashen faz a distinção entre aquisição – “processo subconsciente idêntico ao processo que a criança utiliza ao aprender sua primeira língua (Krashen, 1985:1) – e aprendizagem processo consciente que resulta em saber sobre a língua” (ibid.). Desta forma, a aquisição de L2 é resultante do processo natural de interação, usando-se a língua em comunicação significativa, cujo desenvolvimento se assemelha à aquisição de L1, ao passo que a aprendizagem é resultante da experiência em sala de aula, na qual o aprendiz é levado a voltar sua atenção para a forma e a aprender sobre regras gramaticais.

[d] Hipótese do insumo – essa hipótese está relacionada à anterior no sentido de que o aprendiz se move em um contínuo de desenvolvimento na medida em que recebe insumo compreensível em L2 Esse tipo de insumo é aquele um pouco além da sua atual competência, em termos de complexidade sintática (Mitchell e Myles, 1998) e representado pela fórmula i+1. Segue-se que um insumo muito simples (i+0) ou muito complexo (i+2; i+3...) não são úteis no processo de aquisição de L2. O primeiro por ser conhecido e o segundo por estar além da capacidade de compreensão do aprendiz, não podendo ser transformado em insumo absorvido (intake), conforme apontam Larsen-Freeman e Long(1994[1991]). Assim sendo, a fala não é causa da aquisição, é o seu resultado (Ellis,2002[1994]), diferentemente da posição defendida pelos teóricos interacionistas.

[e] Hipótese do Filtro Afetivo – o insumo compreensível por si não faz com que a aquisição aconteça. É preciso que os aprendizes deixem-no entrar. Daí a importância dessa hipótese, pois esse filtro “determinaria quão receptivo seria o insumo compreensível recebido pelo aprendiz” (Mitchell e Myles, 1998:38).

Assim fatores como motivação, autoconfiança e ansiedade, assumem um papel facilitador na aquisição de L2 (Larsen-Freeman e Long,1994[1991]).

Várias são as críticas a esse modelo teórico. Com relação à hipótese da ordem natural, McLaughlin (1978, apud Larsen-Freeman e Long(1994[1991]) mostra que nos próprios estudos de Krashen e seus colegas em que seria testada a hipótese de que em redações escritas sob a pressão de tempo não haveria perturbação na ordem de aparecimento dos morfemas, o que aconteceria no caso de não haver essa pressão, mostrou que a ordem natural aparecia em ambos os casos. Quanto à hipótese do Monitor, era difícil testá-la empiricamente, segundo Larsen-Freeman e Long (1994[1991]), Ellis (1994[1985]) e Mitchell e Myles (1998), por falta de elementos para medir se alguém era um sub-usuário, um super usuário ou um ótimo usuário do monitor. Da mesma forma é impossível testar as hipótese do insumo compreensível e do filtro afetivo.

Ainda com relação à hipótese do insumo compreensível, Gregg(1984) e Mitchell e Myles (1998) criticam a forma vaga e imprecisa como Krashen refere-se ao conteúdo lingüístico, novamente tornando-se impossível testar essa hipótese. Ellis (1994[1985]:266), por outro lado, aponta que essa hipótesenão explica o fato de a aquisição poder acontecer sem negociação de significado, nem reconhecer que a produção (output) também desempenha papel importante” no processo.

Quanto à hipótese da aquisição-aprendizagem, Krashen foi criticado por definir de maneira imprecisa e muito vaga o que seriam processos conscientes ou inconscientes, de forma que, na prática, não é possível dizer quando a produção do aprendiz é resultante de um processo consciente ou não, ou seja da aprendizagem e da aquisição, respectivamente. Outra questão criticada nesta hipótese, segundo Mitchell e Myles (1998:36), diz respeito ao fato de Krashen afirmar que o conhecimento aprendido não pode tornar-se conhecimento adquirido, em função da dicotomia que ele mesmo propôs. Finalmente, no que diz respeito à Hipótese do Filtro Afetivo, Gregg (1984), questiona porque o filtro não existe em crianças, passando a existir em adolescentes e adultos. Mitchell e Myles (1998), apesar de reconhecerem que as variáveis afetivas têm um importante papel no processo de aquisição de L2, também criticam a forma vaga e não teórica como o filtro afetivo aparece na teoria, pois não se sabe como ele funciona. Elas ainda questionam se todos os adultos confiantes e extrovertidos são bons aprendizes de L2, o que provavelmente não é o caso.

Ainda com relação às criticas, todos os autores acima mencionados apontam como falha no modelo o fato de todas as hipóteses permanecerem hipóteses por não poderem ser testadas. Acredito que também seria possível adicionar à lista de problemas, o fato de Krashen não considerar o contexto social em que o processo de aquisição-aprendizagem acontece, nem as influências que poderia acarretar para o mesmo.

No próximo segmento, apresento uma abordagem para a compreensão do processo de aquisição de L2 que entende a interação comofonte primordial de insumo da língua alvo, alimentando o suposto mecanismo interno de aquisição do aprendiz” (Mitchell e Myles, 1998:122).

 

O valor do insumo e da interação
na
aquisição de L2

Para os teóricos que trabalham com os pressupostos da Gramática Universal, por exemplo, o insumo serve apenas como elemento para guiar o aprendiz na (re)definição de parâmetros que indiquem o que é gramatical ou não, aceitável ou não em relação a uma L1 ou L2. O aprendiz é um agente autônomo que processa os dados disponíveis para reestruturar suas hipóteses e que tem na fala a oportunidade de testá-las. Conforme apontam Mitchell e Myles (1998:122), para os interacionistas como Long, porém, a função do insumo vai além, pois, à medida em que os aprendizes se envolvem em negociação de significado com seus interlocutores, o insumo pode sofrer uma mudança qualitativa. Assim sendo, “quanto mais o input for negociado para aumentar o seu nível de compreensão, maior será o seu potencial de utilidade enquanto um insumo que está sendo bem direcionado para um nível particular de desenvolvimento e de necessidade de aquisição do aprendiz” (ibid:122).

Essa abordagem tem suas origens nos estudos em L1, cujo foco recai na interação entre mães / outras pessoas, como babás ou outros adultos, responsáveis pelo cuidado de crianças e estas desde a mais tenra idade. Tais estudos receberam crítica de Chomsky, proponente da GU (1986), pois ele achou absurdo que aspectos de aquisição de L1 pudessem estar relacionados ao insumo. Como resposta, os especialistas na área criticaram os modelos de parametrização de aquisição como algo extremamente determinista (Valian, 1990).

Long (1996) vem propor uma Hipótese da Interação através da qual ele mostra que pouca diferença entre a fala que acontece na interação entre NS-NS[1] e aquela que ocorre entre NS-NNS no que se refere a diversos aspectos de complexidade gramatical. No entanto, quando as interações são analisadas sob o ponto de vista do controle conversacional, bem como das funções da linguagem ativadas, há diferenças significativas. Nos