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ESTRATÉGIAS FACILITADORAS
DA
LEITURA DE TEXTOS ACADÊMICOS
EM INGLÊS COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA (ILE)

Solange Garrido da Costa (CPII)

 

INTRODUÇÃO

Este artigo é parte de um estudo das estratégias cognitivas e metacognitivas empregadas por leitores de Inglês como Língua Estrangeira (ILE) na leitura de textos acadêmicos específicos e não específicos de sua área de estudo e/ou trabalho. A pesquisa objetivou identificar os processos mentais que ativam o conhecimento prévio sobre o tipo de texto e sobre o assunto no ato de leitura de um texto acadêmico em ILE e avaliar a influência deste conhecimento na compreensão dos textos lidos.

Os sujeitos da pesquisa (doravante L1, L2 e L3) estavam envolvidos com a leitura de textos acadêmicos e, através de testes de classificação[1], foram qualificados nos níveis pré-intermediário (L1 e L2) e elementar (L3).

Os dados foram elicitados em três fases. Na primeira, foram usados um questionário e uma entrevista estruturada. Na segunda fase, os dados foram elicitados a partir de comentários e antecipações sobre o título dos textos seguidos de leitura, inicialmente silenciosa, e tradução livre dos textos. Para a leitura propriamente dita foi usada a introspecção.

Tanto a leitura quanto os protocolos gerados pela introspecção foram analisados segundo preceitos teóricos da Teoria dos Esquemas e da Lingüística Textual. O discurso[2] dos leitores apontou uma série de procedimentos adotados na descodificação dos textos que podem ser categorizados em estratégias[3] cognitivas e metacognitivas de acordo com a classificação proposta por Kato (1992:102), Entre as estratégias cognitivas e metacognitivas de leitura enfocaremos as estratégias facilitadoras que promoveram a compreensão dos textos.

 

PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

A natureza dos problemas investigados e os resultados obtidos impõem o exame de algumas questões teóricas que subjazem à leitura. Sucintamente, abordaremos tais questões, discutindo os preceitos teóricos que emanam da Psicolingüística e Teoria dos Esquemas.

 

Tentando Definir Leitura

A concepção de leitura tem variado ao longo dos anos, acompanhando o desenvolvimento da Lingüística (Kato, 1987). De acordo com a concepção estruturalista, a leitura se constitui na descodificação sonora da palavra escrita. Progressivamente, percebeu-se que a identificação da palavra levava em conta o conhecimento lexical do leitor. O leitor passa então a ser visto como “antecipador da palavra que vai ler” (op. cit. pág. 61).

Sob a influência da teoria lingüística gerativista, a leitura d apalavra vinculou-se ao contexto da frase em que se inseria. A leitura dava-se, então, em nível sentencial. Todavia, observou-se que não era apenas o contexto lingüístico a base para a compreensão do sentido. Ao fazer antecipações, levantar hipóteses e buscar informações no texto que as confirmem ou as refutem, o leitor faz uso de conhecimento prévio sobre o assunto veiculado no texto ou de informações extratexturais advindas de estruturas cognitivas ou esquemas.

Tendo a Psicolingüística e a Teoria dos Esquemas ampliado o escopo da leitura para além da frase, a Pragmática inclui o autor na relação interativa leitor-texto. A leitura constitui-se, então, na busca pelo leitor do que o autor quis dizer, de seus propósitos ao fazer as afirmações constantes do texto.

Não obstante as diferentes concepções do ato de ler creditadas às diversas correntes lingüísticas, a leitura compreende dois elementos incontestavelmente essenciais à sua realização: o leitor e o texto. Com isso não se pretende excluir um outro elemento tão importante neste processo – o autor-, mas entendemos que sua presença foi incorporada ao texto. Conforme aponta Widdowson (1979; 1984), o processo de negociação inerente à comunicação dá-se, no texto escrito, através da antecipação, pelo autor, das possíveis reações de seu(s) resultado(s). O autor cria suas próprias condições para a comunicação, alternando-se, no entanto, no papel de autor e leitor.

Podemos caracterizar a leitura como o processamento por leitores dos textos produzidos por um autor, que esteve em constante negociações com seu(s) leitor(es) no ato da produção. Este processamento dá-se numa relação essencialmente interativa e busca a depreensão de sentidos que podem variar com a motivação. A finalidade e a bagagem lingüística e cultural de cada leitor.

 

O Processamento da Leitura

Pesquisas em leitura, especialmente aquelas da área da Psicolingüística, confirmam que, diante de um texto escrito, os leitores proficientes,m diferentemente das crianças em fase de alfabetização, não lêem letra por letra ou sílaba por sílaba. As palavras são lidascomo um todo não analisado, isto é, por reconhecimento instantâneo e não por processamento analítico-sintético” (Kato, 1990:25). A leitura da palavra é feita de forma ideográfica. O processo de reconhecimento de palavras pelo processamento analítico-sintético, no entanto, dar-se-á quanto o leitor se deparar com palavras que desconhece, podendo, às vezes, ser mediado pela vocalização destas.

Esta forma dce leitura aplica-se igualmente a segmentos do texto maiores que a palavra. A depreensão de significados dá-se então por blocos. Nesta operação concorrem alguns processos mentais hipotetizados por estudiosos da Teoria de Esquemas (Rumelhart, 1980) e Psicolingüística (Goodman, 1988; Carrell, 1983, 1988).

Pesquisas que investigam os processos psicológicos envolvidos na compreensão revelam que nós entendemos alguma coisa em função de nossas experiências passadas e nosso conhecimento sobre o mundo ou, particularmente, sobre a comunidade sócio-cultural em que estamos inseridos. Este conjunto de conhecimento é tecnicamente denominado esquemas.

Esquema pode ser definido como “uma estrutura de dados usados para representar os conceitos genéricos armazenados na memória” (Rumelhart, 1980:34) (Tradução da A .)

Nossa interpretação de textos é guiada pelo princípio de que cada input ´pe contrastado com algum dos esquemas que possuímos e “todos os aspectos do esquema devem ser compatíveis com a informação veiculada no input.” (Carrell, 1983:2) (Tradução da A .). Deste princípio resultam dois modos de processamento de informação: o top-down (“descendente”) e o bottom-up (“ascendente”).

O processamento top-down, acionado por conceitos, consiste emfazer predições sobre o texto com base em experiência prévia ou conhecimento sobre o mundo e então checar o texto para confirmar ou refutar as predições” (Carrell, 1988:101). No processamento bottom-up, acionado pelos dados, ocorre a descodificação “de unidades lingüísticas individuais e a construção do significado do texto a partir de unidades menores para as maiores, modificando assim o conhecimento pré-existente e as atuais predições com base na informação encontrada no texto” (op. cit. Pág. 101) (Tradução da A .).

Todo este processamento se desenvolve automaticamente e revela comportamentos mais ou menos conscientes do leitor no ato de leitura. Com base nos conceitos de cognição e metacognição[4], Kato (1990) propõe uma classificação para as estratégias que revelam o comportamento do leitor durante a leitura. As estratégias cognitivas são aquelas que designam “os princípios que regem o comportamento automático e inconsciente do leitor” (op. cit. pag. 102). As estratégias metacognitivas designam “os princípios que regulam a desautomatização consciente das estratégias cognitivas” (op. cit. Pág. 102).

 

As Estratégias Facilitadoras da Leitura

Para fins de indicar a que leitor e a que texto os exemplos destacados se referem, usamos o código L1, L2 e L3 para reportarmo-nos aos leitores 1, 2 e 3, respectivamente. O número seguinte refere-se ao texto: Texto 1, que é o texto específico da área de cada leitor e o Texto 2 é o não-específico.

Dentre as estratégias empregadas pelos leitores no ato de ler, distinguimos as estratégias facilitadoras ou reparatórias. Elas tiveram basicamente a função de compensar falta de conhecimento lingüístico sobre o tema desenvolvido nos textos permitindo assim que a leitura fluísse e algum sentido fosse extraído do texto. Três procedimentos destacaram-se: o uso do conhecimento sobre o assunto lido, a ativação do conhecimento e da lógica da realidade extra-lingüística e a aplicação de conhecimentos sobre a língua.

 

Uso do Conhecimento sobre o Assunto

No texto Massive Upper Gastrointestinal Hemorrahage (Krupp, 1978), a L1 deparou-se com a palavra “tarry” que significa “escuro” (no texto, fezes escuras). Embora não soubesse seu significado, o conhecimento que tem sobre os sinais de uma hemorragia gastrintestinal alta aponta as várias características que as fezes apresentam neste tipo de hemorragia, como evidenciado no seguinte protocolo.

L1.1.1 ... existe geralmente uma história de de repente fraqueza ou

             “fainted” associada ou seguida de fezes “tarry” → é escura

             melena fétida eu não sei ↓ é o que acontece ↓ né ↑ essas

             coisas todas volumosa diarréica ...

Ao comentar sobre o parágrafo lido, transcrito abaixo, a L1 afirma que “tarry” está relacionada a fezes e que significa “escuro”. Acreditamos que a insegurança quanto ao significado da palavra demonstrada pela leitora deveu-se ao fato de haver, no texto, uma outra palavramelena”, que significa “passagem de fezes escuras, píceas e grumosas manchadas com pigmentos de sangue ou sangue alterado.” (Dorland’s Illustrated dictionary).

L1. 1. 2 Acho que ta tudo relacionado a isso ↓ “stools” fezes ↓então

             alguma coisa ligada a fezes as fezes são escuras ↓ mas aqui

             tá dizendo melena então aqui disse que era escura

             volumosas → acho que não é volumosas ↓ fétidas ↑ é terríveis

             ↑ não sei ↓ ...

Quanto à palavra “fainting”, a L1 a leu como “fainted” e não fez qualquer referência a ela no decorrer da leitura. Ao comentar sobre o parágrafo, entretanto, a L1 descreve as características de um desmaio, embora não o nomeie como tal.

L1. 1. 3 ... falência queda do estado geral → subitamente

             subitamente o paciente começa a ficar pálido fraco ansioso

             → sudorêico ...

No último parágrafo do texto, a L1 encontra dificuldade com a palavra “outcome” (“resultado”), que é superada pelo sei conhecimento sobre o assunto. Num protocolo, ela afirma que não entendeu (... “isso aqui eu não entendi ...”), repete a palavra em inglês (“the outcome”) e o marcador discursivo “quer dizer” duas vezes para introduzir o significado da palavra, mas tal explicação é frustrada com a continuação da leitura do texto. A compreensão do sentido deste parágrafo é explicitada em

L1. 1. 4 ah eu acho que é o seguinte ↓ é apesar de um ser melhor do

   que o outro → o que o médico vai fazer quer dizer ↓ o

   tempo de hospital → a decisão que vai fazer não independe

   um pouco → se você vai fazer um ou outro ↓ acho que é mais

   a clínica do doente eu não sei se é isso que ele quis dizer

   aqui ↓ acho que esse “outcome” aqui → é tipo assim é a

  conduta frente → a embora um é melhor seja melhor que o

  outro ↓se você não tiver endoscopia você vai acabar fazendo

  um raio-x ou vai acabar não fazendo nada ↓ e com a clínica do

  doente você vai tratar empiricamente → e vai e é isso que vai

  te dizer quer dizer ↓ a razão da mortalidade → o número de

  operações as estatísticas vão te levar a um tratamento de

  rotina a um protocolo é isso

Segundo os autores, embora a endoscopia seja mais precisa que o raio-x, não diferença entre eles quanto às informações fornecidas, conforme atestado pelas taxas de mortalidade, número de cirurgias, tempo de hospitalização e decisão quanto ao tratamento. Do relato da L1, depreende-se que ambos os exames são eficazes, bem ora a endoscopia seja melhor que o rio-x, porém a clínica do paciente é soberana na escolha do tratamento, até mesmo na falta de um ou de ambos os exames. Ficou clara a falta de compreensão do significado da palavra “outcome”. Observou-se, aqui, que a L1 empregou a estratégia de utilizar seu conhecimento, sua experiência profissionais na solução do problema, indo além do que estava escrito (o valor de cada exame).

Não obstante a leitura da L2 tenha apresentado muitas dificuldades, foi possível detectar a interferência positiva de seu conhecimento na leitura sobre o processo de construção de uma disciplina.

Ao comentar sobre o primeiro parágrafo do texto “On Discipline Building: the Paradoxes of George Sarton” (Thackray & Merton: 1972), a L2 depreende que o processo de construção de um conhecimento compreende duas dimensões – a identidade cognitiva e a identidade profissional – e que esta última, embora seja apenas uma faceta deste processo, tem sido alvo de estudo pelos historiadores da ciência. Como nos seguintes trechos destacados de seu protocolo.

L2. 1. 5 bom ↓o que eu entendi deste parágrafo bom ↓ tem duas coisas

            na construção de uma disciplina ↓ ... o processo de

            institucionalização de um determinado conhecimento envolve

           duas dimensões ... uma primeira que é essa identidade

           cognitiva ↓ ... a segunda → ... a identidade profissional ↓ ... essa

           peculiaridade da identidade profissional → tem sido enfocada

           muito focalizada pela sociologia da história da ciência mas isso

           → diz ele ↓ é uma parte → ...

No trecho, transcrito abaixo, a L2 enriquece sua leitura com uma explicação dói termovisão empregada pelos autores para justificar o argumento de que a identidade cognitiva de qualquer disciplina é profundamente marcada pela visão particular de seus fundadores.

L2.1.6 ... essa visão privada aqui não ta querendo dizer visão mas

           sim ideologia ↓ ...

Em outra passagem, a L2 esclarece p elo coesivo entre o termo geral “home” (“casa”) e o elemento a que ele se refere: a história da ciência. No texto original, os autores citam um outro exemplo de disciplinas que foram institucionalizadas e guardam a marca da visão de mundo de seus fundadores, a saber, a relação íntima e paradoxal de George Sarton com a história da ciência, anunciando que este encontra-se mais próximo de casa, Ito é, da história da ciência.

L2.1.7 ... um exemplo além desse → mais próximo de casa → da história

           da ciência → pode ser encontrado ...

No trecho discutido a seguir, a leitora não teve dificuldade em lê-lo. Ao contrário, ela enriqueceu sua leitura comentando a respeito do que os autores queriam expressar com tal período. Com base em seu conhecimento sobre o processo de construção de uma disciplina e conseqüente mudança na representação social dos indivíduos envolvidos. Segundo os autores, a transformação da atividade intelectual de qualquer campo de conhecimento em um a disciplina institucionalizada compreende uma mudança nas imagens da disciplina e sua funções sociais e culturais conforme percebido de modo diversificado pelos seus praticantes, patronos e público em geral. Em seu protocolo sobre o período, a L2 revela que os autores estariam se referindo à representação tanto daquela que u,m indivíduo tem sobre si mesmo com a que os outros indivíduos têm sobre ele.

L2.1.8 ... acho que ele tá falando da da das ideologias ou das

           representações que os indivíduos têm sobre si mesmo e que os

           outros de si mesmo e que os pensam sobre ele ↓ né ↑ ...

Seu conhecimento sobre a inevitável interferência ideológica do fundador sobre a disciplina criada permitiu que a L2 preenchesse a lacuna deixada pela não leitura de parte de uma frase, conforme ela mesma avalia no protocolo que é parcialmente transcrito para ilustrar