Voltar ao índice

Memórias, repertórios, descontinuidades, onde as rupturas?[1]

 Iza Quelhas[2]

 

RESUMO:A proposta deste artigo é a de apresentar, discutir e analisar, a partir de algumas informações obtidas reflexões desenvolvidas com a pesquisa “O que é lançar mundos no mundo? A leitura e a escrita de textos ficcionais ou literários no município de São Gonçalo”, destacados os seguintes tópicos: a) a constituição de repertórios de textos, o que dimensiona um repertório construído socialmente; b) as formas de acesso à escrita e à leitura de textos literários e/ou ficcionais, assim como sua relação com outras práticas sociais num sistema cultural amplo. Nossa fundamentação teórica articula conceitos da Análise do Discurso e os da historiografia literária, em suas produções recentes, assim como a concepção de sociedade como instituição imaginária proposta por Cornelius Castoriadis (1975). Também é decisiva a relação entre o imaginário como construção e a concepção de território, tal como formulada pelos estudos recentes da geografia cultural, o que aciona  formas de pensar textos, leituras, memórias e espaços socialmente construídos. Selecionamos textos literários publicados na Coluna “Feira de Novidades”, do jornal “O São Gonçalo”, na década de 40 e inícios da década de 50.

 

PALAVRAS-CHAVE: LEITURA, MEMÓRIAS E SOCIEDADES; LITERATURA E SENTIMENTO NACIONAL; LITERATURA E CULTURA.

  

1. A memória como construção: territórios escritos, fantasmas em série

 

O lugar do Pai, sempre morto, como se sabe; pois só    o filho tem fantasmas, só o filho está vivo. (...) Se  considerarmos um instante a mais segura das  ciências humanas, isto é, a História, como não  reconhecer que ela tem uma relação contínua com o  fantasma?

(BARTHES, 1977)

 

 A proposta desenvolvida neste artigo é a de investigar as memórias socialmente construídas a partir do estudo de textos e repertórios de leituras socialmente validados a partir dos textos publicados em colunas literárias, no jornal “O São Gonçalo”, o que implica compreender não só um cenário discursivo – o do jornal – e suas relações com a produção de imaginários coletivos, mas também a configuração de um espaço – a cidade de São Gonçalo. Tal empreendimento investigativo vincula-se ao projeto intitulado “O que é lançar mundos no mundo? A leitura e a escrita de textos literários em São Gonçalo”, e a dois outros projetos: “Memórias textuais”, com participação de alunos da graduação do curso de Letras da FFP-UERJ, com bolsa de Iniciação Científica pelo CNPq, e “Literatura & Imprensa”, com bolsa pela Faperj.

Na esfera estética, a função social da literatura pode ser apreendida, do ponto de vista recepcional, segundo as modalidades de pergunta e resposta, modalidades sob cujo signo a obra adentra o horizonte de seu efeito histórico, como afirma Hans Robert Jauss (1994 : 53). Selecionamos como um conceito chave para este trabalho, conceito este desenvolvido pelos estudos da Análise do Discurso – o da comunidade discursiva – que focaliza os grupos sociais que “produzem e administram um certo tipo de discurso” (MAINGUENEAU, 2000 : 290) e o de território, na perspectiva da geografia cultural. A definição de território implica, de acordo com as palavras de Rogério Haesbaert, além da dimensão jurídico-política, a dimensão espacial de relações econômicas e a simbólico-cultural. Nesta última, o território é resultado da “apropriação/valorização simbólica de um grupo sobre seu espaço” (ROSENDAHL, CORRÊA : 2001 : 118). Essa concepção de território, com acentuada ênfase na cultura, interessa-nos pelas relações entre o discurso literário, que circulou no jornal numa determinada época, a construção da memória e de imaginários coletivos e individuais. Ao tratarmos de leituras, memórias e textos, consideramos que o sujeito que lê, produz, troca, ouve e fala comunicados, discursos e textos  é sujeito em atividade, pois é “olhar e suporte do olhar, pensamento e suporte do pensamento, é atividade e corpo ativo – corpo material e corpo metafórico.” (CASTORIADIS, 1982 : 127). Ao lidarmos com leituras de textos e leituras de textos escritos em coluna de um jornal local, não poderíamos minimizar a importância das instituições – a literatura, a escola, o jornal, por exemplo – para a compreensão do imaginário produzido, não se considerando, neste artigo, o imaginário como algo fantasioso. Consideramos imaginário quando queremos falar de “alguma coisa inventada – quer se trate de uma invenção absoluta (uma história imaginada em todas as suas partes), ou de um deslizamento, de um deslocamento de sentido, onde símbolos já disponíveis são investidos de outras significações que não suas significações ‘normais’ ou ‘canônicas’” (1982 : 154), em ambos, ocorre uma separação entre o imaginário e o real, quer ao pretender colocar-se em seu lugar, como é o caso de uma mentira, quer não pretenda faze-lo no plano do verdadeiro ou do falso, mas do possível e do desejado, como é o caso da literatura, por exemplo. A importância das significações imaginárias, como bem o coloca Castoriadis, não pode ser ignorada, e alcança um estatuto decisivo ao  focalizarmos nossa atenção numa comunidade que vive, lê, imagina e produz num espaço considerado periférico em relação a um centro cultural que a define como “bandas d’além” (GUEDES, 1997). É nessa relação de alteridade – a definição de quem somos nos é dada pelo outro – que se projetam as identidades, se articulam memórias e significações imaginárias, pois a “sociedade se constitui fazendo emergir uma resposta de fato a essas perguntas em sua vida, em sua atividade. É no fazer de cada coletividade que surge como sentido encarnado a resposta a essas perguntas, é esse fazer social que só se deixa compreender como resposta a perguntas que ele próprio coloca implicitamente.” (CASTORIADIS , 1982 : 177)

 A imprensa escrita, num local marcado pela escassez de bibliotecas e livrarias, ocupou a posição de principal meio de comunicação e construção de valores partilhados na comunidade local, assumindo o papel não apenas de mediadora, mas sim de produtora, ao selecionar, distribuir e fazer circular textos, discursos e significações o que aponta a constituição de uma “semântica cultural das sociedades” (OLINTO, 1998). Se a memória pode ser concebida como um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa, privilegiamos, neste trabalho, a “memória como fenômeno coletivo e social, construída também coletivamente” (POLLAK : 1992, 201). Os elementos constitutivos da memória, tanto a individual quanto a coletiva são acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa (ou o sujeito) se sente pertencer (Idem). Considerarmos que, no jornal O São Gonçalo, a coluna “Feira de Novidades”, objeto de nosso estudo, colabora ativamente para a construção de um significativo sentimento de pertencimento à coletividade local e extensivamente à coletividade nacional a partir de um trabalho de seleção e distribuição de uma certa imagem de literatura adequada à ideologia do jornal à época.

 Fundado no início da década de 30, mais precisamente em 22/01/1931, sob a responsabilidade da editora Belarmino de Matos, O São Gonçalo manteve, durante décadas, até 1958, uma coluna intitulada “Feira de novidades”, na qual eram publicados letras de canções populares, inclusive carnavalescas, e poemas de nítida linhagem romântica ou parnasiana. Também estão presentes homenagens e menções a personalidades públicas, aniversariantes, geralmente moradores do município, notas de falecimento, o que estabelece uma legível aliança entre o público e o privado. No caso específico da coluna “Feira de Novidades”, a mistura do público e do privado parece legitimar-se pela função predominante do literário, a partir dos recursos de persuasão, dos apelos aos sentimentos dos leitores que ora são instrumentalizados em direção à construção de elos e atos sociais, ora são direcionados para a valorização da organização burguesa, mantenedora da ordem e do progresso.

O discurso literário, veiculado pelo jornal, constrói linhas de permanência na paráfrase da tradição, a partir das estratégias construídas para estabelecer com o leitor um diálogo intenso, desenhado pelas linhas de continuidade de movimentos literários do século XIX, principalmente o Romantismo e o Parnasianismo. A emoção e o apego a formas canonizadas pela tradição literária estão presentes em vários textos publicados, o que aponta um curioso apego ao cânone e uma quase total alienação em relação ao  movimento Modernista e sua produção subseqüente, o que pode ser visto de várias formas. A literatura permanece vinculada a uma imagem do “belo”, em termos clássicos, como fica mais evidente no Parnasianismo, mas há toda uma construção de um leitor convidado a pensar questões contemporâneas a partir da função emotiva e de textos que consagram o mesmo como, por exemplo, a função da mulher na sociedade como mãe, a menção à caridade como um movimento que reforça o imaginário cristão e não ao exercício da cidadania.

 

2. O cultivo da ilusão: continuidades, não rupturas

 

– A gente se acostuma com o que vê. E eu desde que me entendo, vejo eleitores e urnas. Às vezes suprimem os eleitores e as urnas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam. (Graciliano Ramos, São Bernardo, 1991 : 67)

 

 No fragmento transcrito acima, a personagem narradora, Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, depois de agredir um jornalista que publicara um artigo no qual o acusara de “assassino”, admite a acusação como verdadeira num dos exames de autoconsciência por ele narrados e vividos. Mais adiante, no entanto, ao comprar jornais do dia seguinte à agressão, Paulo Honório esperava alguma notícia sobre o ocorrido, e depara-se com o silêncio: nada foi dito sobre o episódio que acontece inclusive publicamente.  Para a personagem os responsáveis pelo silêncio oportuno qualificam-se como “camaradas”, o que alimenta a idéia de uma imprensa manipuladora, que oculta e divulga aquilo que está de acordo com seus interesses, fortalecendo os complexos elos entre o público e o privado, numa perspectiva instrumental da construção de racionalidade que o conceito de publicidade, desde o Iluminismo, pretendeu instituir. O episódio ilustra uma questão que consideramos decisiva para dimensionar a importância da linguagem na produção de valores, crenças, afetos, enfim formas de poder e uso do imaginário. A relação entre o factual e o fictício, no jornal, não é o que mais mobiliza a atenção neste estudo, mas sim a forma como os valores, que constituem a semântica cultural (OLINTO : 1996) de uma determinada comunidade, são construídos na e pela imprensa escrita, principal meio de acesso à informação e ao entretenimento naquele momento, numa determinada comunidade. O jornal, portanto, direciona a força da função literária ao subordiná-la aos seus interesses empresariais e ideológicos, desmontando qualquer resíduo de crença na “transparência” ou “neutralidade” da palavra no âmbito das finalidades e competências dos veículos de informação.

Um fator extratextual que desperta a atenção daqueles que chegam à cidade de São Gonçalo é o fato de que, em pleno início do século XXI, há pouquíssimas livrarias e bibliotecas, apesar da densidade demográfica do município. A venda de livros, predominantemente didáticos, é efetuada em papelarias no município. Tal constatação poderia ser interpretada de forma drástica, pois afinal, como é possível trabalhar com leituras, textos em sua variedade, num espaço sem livrarias ou bibliotecas?

 Em termos históricos, São Gonçalo é o segundo município do Estado do Rio de Janeiro em densidade demográfica. Com o crescimento econômico de São Gonçalo, em 22 de setembro de 1890, logo após a Proclamação da República do Brasil, foi instaurado o município de São Gonçalo, pelo decreto número 124, desvinculando-se em termos legais de outro município fronteiriço, Niterói. Em termos geográficos, o município da região metropolitana está localizado na zona da Baixada Fluminense, registrando-se uma área territorial de 251 quilômetros quadrados. Desde a década de 60, São Gonçalo deixou de ser área rural, o que acarretou um loteamento de todas as fazendas do município, conforme registram estudos de historiadores e antropólogos sobre a região. De acordo com os resultados dos dados preliminares do Censo 2000, quando iniciamos o projeto anteriormente citado, estimou-se um total de 889.828 mil pessoas residentes, com 428.732 mil homens, e 461.096 mil mulheres residentes no município. São Gonçalo, em determinado momento, nas décadas de 40 e 50, principalmente, representou um lugar de oportunidades para aqueles que, vindo de várias partes do país, buscavam ocupação na indústria naval, no setor alimentício e outros setores.

Há na imprensa local, naquele período, uma preocupação de manter a literatura em suas páginas, o que se revela bastante eficaz, como uma estratégia, controlando a matéria poética em relação aos interesses editoriais. Apesar de tudo, hoje, ao ler as colunas literárias da década de 50, sobressai o lugar de destaque dado à arte, mesmo que se compreenda ser esse valor o instituído pelo mercado. Não se pode ignorar, na perspectiva deste trabalho, o quanto a literatura projeta uma concepção de cidadania em evidência naquele momento político, o que é tratado a seguir.

Ao estudar a construção da cidadania no Brasil, nos vários momentos de consolidação da República e seus governos, José Murilo de Carvalho identifica uma “Marcha acelerada” no período compreendido entre 1930 e 1964, e apesar de a legislação trabalhista avançar nesse período, o grande excluído foi o trabalhador rural, o que só será retomado durante os governos militares.

 

Apesar de tudo, porém, não se pode negar que o período de 1930 a 1945 foi a era dos direitos sociais. Nele foi implantado o grosso da legislação trabalhista e previdenciária. Que veio depois foi aperfeiçoamento, racionalização e extensão da legislação a número maior de trabalhadores. Foi também a era da organização sindical, só modificada em parte após a segunda democratização, de 1985. Para os beneficiados, e para o avanço da cidadania, o que significou toda essa legislação? O significado foi ambíguo. O governo invertera a ordem do surgimento dos direitos descrita por Marshall, introduzira o direito social antes da expansão dos direitos políticos. Os trabalhadores foram incorporados à sociedade por virtude das leis sociais e não de sua ação sindical e política independente. Não por acaso, as leis de 1939 e 1943 proibiam as greves.

                                                                                      (MURILO DE CARVALHO, 2002 : 123-124)

 

 Nos textos transcritos do primeiro editorial do jornal, principalmente, há uma relação de funcionalidade, mais ou menos dissimulada, entre o que é tratado literariamente e o que circula como informação nas demais páginas do periódico. Em termos de hipótese de pesquisa, pode-se afirmar que, os leitores do jornal pertenciam à elite local e a uma parcela expressiva de trabalhadores residentes na localidade. Se as leituras podem ser realizadas a partir de princípios diferenciados tais como "a coerência, o prazer, a verdade, a comparação" (NUNES, 1994, p. 14), pode-se compreender a construção das memórias discursivas tão decisivas para a construção de comunidades ou grupos sociais. Ao apontar as condições de produção do discurso, as teorias sobre o assunto assinalam questões além da lingüística.

 

Os fenômenos lingüísticos de dimensão superior à frase podem efetivamente ser concebidos como um funcionamento mas com a condição de acrescentar imediatamente que este funcionamento não é integralmente lingüístico, no sentido atual desse termo e que não podemos defini-lo senão em referência ao mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto de discurso, mecanismo que chamamos 'condições de produção do discurso.

 ( NUNES, 1994 :  24)

 

 Para os objetivos desta comunicação, os ditos e os não-ditos se articulam não a uma intencionalidade de um sujeito, mas com "o posicionamento dos protagonistas na sociedade", isto é, um certo estado das condições de produção do discurso que se une à produção de uma idéia de urbano, na sua acepção ampla. (Idem, 24-25). Os textos literários, nas colunas de jornal, remetem a formações discursivas - o que pode e deve ser dito por grupos sociais distintos. A nossa atenção, portanto, concentrou-se na construção das memórias discursivas a partir do local e sua relação com o universal, no caso, tanto a nação quanto a América.

Pensar os textos publicados sugere a invenção da cidade, o dialogar com questões contemporâneas num espaço repleto de marcas de uma ruralidade apenas recentemente ultrapassada em termos institucionais. Se a cidade é o lugar dos conflitos permanentes, expressão dos desejos e das coações, como se engendram as práticas de escrita e leitura de textos ficcionais num contexto, pelo menos aparentemente, marcado pelas adversidades?

 Um dos caminhos privilegiados foi o de pesquisar o principal periódico do município e localizar colunas ou quaisquer outros espaços destinados à circulação de textos literários. Como a pesquisa desenvolve-se com consulta ao acervo de periódicos na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, encontramos exemplares disponíveis apenas a partir de 1948, apesar de o jornal O São Gonçalo, ter sido fundado em inícios da década de 30. A coluna “Feira de Novidades”, presente nas páginas do jornal desde o seu início na década de 30, funcionou como um espaço de trânsito e controle de imagens e desejos, onde o fictício e o imaginário produzem realidades que se entrecruzam. Apenas para exemplificar, é comum a disseminação, ampliação ou ressonância, na página da Coluna em questão, de focos temáticos. Um poema intitulado “Pedir”, publicado em 19/08/1951, na página 2, que exalta o gesto de doar é colocado na mesma edição em que constam artigos sobre a necessidade de doações para uma instituição de caridade que abriga idosos, no município. Numa edição anterior, de 15/05/1949, página 2, há uma crônica intitulada “A realidade”, enquanto no espaço ao lado, na coluna sob o título “Conversando”, encontra-se um artigo sobre a aposentadoria dos ferroviários. A disposição dos textos, nas páginas do jornal, propicia que os gêneros discursivos, entendidos como enunciados orais e escritos que reproduzem esferas diferenciadas de uso da língua (MACHADO, 1995 : 312), em sua variedade, funcionem como um coro de vozes de seus atores através de objetivos comuns, o que está em conflito com a polifonia das vozes dos gêneros, concepção elaborada por Mikhail Bakhtin (1997). A polifonia, como radicalização do processo de descentramento da linguagem, é constituída não apenas pelas vozes das personagens, mas também pelas vozes dos gêneros (MACHADO :  314).      

Tais observações encaminham a discussão da literatura no jornal, no âmbito mesmo do mercado, à arena de interesses em jogo. Afinal, os sentidos “estão sempre ‘administrados’, não estão soltos” e “diante de qualquer fato, de qualquer objeto simbólico somos instados a interpretar, havendo uma injunção a interpretar” (ORLANDI, 1999 : 10). Ao indagar sobre tais interesses, destaco a importância do conceito de memória como interdiscurso.

 

                                                                         Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. (1999 : 31)

 

 Ao ler a coluna “Novidades”, deparei-me com um processo que lança mão dos recursos e estratégias literários para a produção de efeitos, num jogo entre criatividade, que pressupõe um conflito entre o já produzido e o que se vai instituir, e a produtividade, regida pelo processo parafrástico, que produz a variedade do mesmo (Idem, p.37-38). O movimento literário denominado Parnasianismo, por exemplo, apresentou uma poesia mais propensa à descrição, principalmente de objetos estéticos, e ao culto da forma de um “belo” universal e canônico. A presença de autores ou de textos vinculados à proposta do Parnasianismo - o culto à perfeição pelo labor incessante - é bastante expressiva em termos quantitativos no material estudado nesse período. As marcas do movimento romântico sugerem um certo ar de modernidade, ao cultuarem o eu-lírico em versos mais despojados e repletos de sinais simuladamente confessionais. As marcas do Romantismo e do Parnasianismo, movimentos marcantes nas formas do dizer literário no século XIX, são estratégias para moldar uma memória discursiva a partir da plasticidade do estético, bastante eficaz para a ressonância dos ecos da tradição.

Transcrevemos a seguir alguns textos que apresentam não apenas os atores enunciadores e comunicadores em evidência, mas a construção de um cenário e as marcas da tradição que se pretende legitimar pelo processo de repetição, não rupturas , no corpo de uma comunidade que lê nas páginas do jornal os resíduos ou as cinzas do que se pode denominar literatura. No entanto, se, para os estudiosos, o olhar depara-se com as cinzas, para os editores o uso do imaginário articulado pela força do literário e do estético servem a uma causa: constituir uma comunidade de leitores, possíveis eleitores das causas já escolhidas por todos aqueles que representam o poder instituído em suas páginas.

 

 

 

10/10/1948

[Página 3]

CONVERSANDO

 

Os cumprimentos

 

   Vivemos uma época de maravilhas e iniciativas tão grande que nos dão a impressão de estarmos sonhando, apesar de termos "menores abandonados", etc e tal.

   Quem vive um pouco a margem do bulício que vai por ai, é que pode avaliar o nosso progresso.

   O progresso é um fato inconteste em muitos e muitos setores da vida; todavia ainda não caminhamos o suficiente em matéria de higiene. O aperto de mão, por exemplo, já devia  ter sido abolido. Que ele representa? Como principio social, nada. De ponto de vista higiênico é prejudicial. Mãos limpas devem existir em proporções gigantescas, entretanto não impede que apareçam as mãos menos limpas e vai d'aí. Transferimos a nossa saudação para o simplicismo, protocolar e inexpressivo "Bom dia". E chega. Esses "como tem passado?", vai bem? Etc. bastam para enfeitar a mentira que anda solta que é o "interesse" que se diz ter pela vida alheia.

   Quantas vezes - quantas? - recebemos um "Bom dia" ou "Boa noite" quando o tempo está fechado. Assim mesmo ainda é preferível essa tapeaçãozinha.Vamos abolir o aperto de mão? Vamos?

 

                                                         da Cruz de Carvalho      

 

 

13/03/1949

[Página 2]

 

CONVERSANDO

 

              Significados

 

Político

Amai-vos uns aos outros,

Porque eu gosto de mim mesmo

Sambinhas

   Verdades cantadas

Paz mundial

   Brincadeira dos "manda-chuvas".

Guerra na China

   No chão não caem mais cheques

Sereias d' Icaraí

   Desafio ao...Sol

Decotes

   Caminho para o inferno

Moças que fumam

   Melhoria do padrão de vida.

Burocracia

   Caminho de santificação.

Polícia

  Esperança de tranqüilidade

Democracia

   Licença para criticar governantes.

                              da Cruz de Carvalho

 

 

15/05/1949

[Página 2]

 

A REALIDADE...

 

Alongo a vista em busca do infinito

Onde procuro ver algo de belo,

Com que bosqueje meu viver contrito

Imenso em sonhos dum falaz castelo.

 

A vista canso procurando o mito

Que vem correndo há muito em

                                      [paralelo

Co'a idade minha que me torna aflito

Ante a velhice e o nada deste anelo.

 

Ontem, na flor dos anos, convencido,

Jurava ser um sonho uma verdade,

No máximo esplendor dum colorido. 

 

Hoje, cansado, velho, enfraquecido,

Estendo a vista em volta... a eternidade...

Diz-me baixinho: - pobre desgraçado.

 

A.     Barbedo

 

 

Obs.: este poema encontra-se abaixo da coluna "Conversando" com um artigo de da Cruz de Carvalho que fala sobre a regulamentação da Lei (593/48) de aposentadoria dos ferroviávios com 35 anos de serviço, no entanto, passado mais de 120 dias e a lei ainda não está vigorando.

 

12/08/1954

[Página 2]

 

Poema de politicóide

 

Antes:

 

- Sou filho do povo!

- Sou irmão do povo!

- Sou pai do povo!

- Vivo do povo!

- Morrerei pelo povo!

 

         - Quero voto, meu povo!

         Muito voto, meu povo!

 

 

Depois

 

Charutos... Cassinos

Cadilac... Mulheres...

 

- E o povo?

- Que povo?

 

         Ah, o povo!

         Ora, o povo!

                    

  DEMÓCRITO

 

05/09/1954

[Página 2]

                 Um sonho

Sonhei que Brucutu, o célebre figurão

que dá tanto prazer a nossa risada,

fez-se candidatar, (após sua chegada)

num dos mais elevados postos da Nação.

 

Observei então, no dia da eleição,

uma fila estupenda e mal organizada;

surpreso, eu vi então enorme macacada,

que aguardava o chamado em grande confusão!

 

Gorilas, monos, bugios, chipanzés

seus garranchos deixando incertos nuns papéis,

fazendo-se elevar a bravos fanfarrões.

 

Considerei, no sonho, a cena deprimente:

- como pode viver o povo consciente,

entre a vil macacada e feroz tubarões!

 

                  DOROTHEO GONÇALVES DE OLIVEIRA

                                      

Magé, 6-9-54

22/09/1954

[Página 2]

 

                        O Trabalho

 

Tudo que existe é fruto do trabalho:

- o Deus potente construindo um mundo,

- a Natureza em seu poder fecundo,

o homem rude dando impulso ao malho.

 

Trabalho - ação de aspecto diferente:

- Cristo pregando a caridade,  amor;

seu fim, consiste na felicidade;

- seu todo, o sopro que conforta e anima.

 

No seu reinado seu amor sublima.

Sua existência singra a eternidade;

seu fim, consiste na felicidade;

seu todo, o sopro que conforta e anima.

 

 

 

 

Sol que, irradia luz em toda parte,

que esplende foco animador de seres;

podes que atrai todos demais poderes,

que esparge o bem, sabedoria e arte.

 

Fronde copada que dá sombra amena,

aonde o exausto viajor descansa,

âncora suprema símbolo de esperança,

jardim florido de expansão serena.

 

Tudo o que existe é prova do trabalho...

(embora alguém queira ofuscar-lhe o brilho [)]

- seja u'a mãe amamentando o filho,

ou o homem rude acionando o malho.

 

                     DOROTHEO GONÇALVES DE OLIVEIRA          

 

 

3. Conclusões

 

Esses recortes formais e temáticos apresentados nos textos anteriormente transcritos sinalizam questões decisivas na passagem de uma década a outra, e lembram as palavras de Mallarmé para quem existia duas formas "radicalmente antagonistas do escrito, o jornal e o poema".  Para Mallarmé, o jornal seria o "lugar do despejo", "puro instrumento de circulação" em contraposição ao poema, "estado ritmado" e "medido da língua". Mas tanto "um quanto outro fundamentam uma comunidade política sensível: a dos eleitores que despejam silenciosamente suas cédulas na urna ou a da multidão, 'guardiã do mistério' e clamada para as festas do futuro. (RANCIÈRE, 1995 : 42-43)

 Há muito a investigar ainda sobre o modo como esses escritos articulam textos, imaginários e memórias, tão necessários ao processo de conhecimento, aos estudos literários e lingüísticos e à circulação de valores no mundo contemporâneo das linguagens e seus usos.

 Quanto aos leitores, se o efeito produzido por um texto é resultado da dialética entre "mostrar e encobrir", entre o "dito e o significado", o estudo das práticas de leituras pode tornar-se um instrumento valioso para compreender as diversidades das práticas sociais mais amplas, que implicam escolha, seleção e combinação, portanto a própria complexidade da atribuição de significados e significação ao que é dito, escrito e legitimado socialmente. Tais processos estão no cerne da gestualidade e da atitude contemporâneas, num mundo repleto de informações e estratégias de convencimento, tornadas quase imperceptíveis de tão eficazes.  Em ambientes democráticos, esses estudos investigativos sobre aquilo que é até mesmo desprezado pelos especialistas em literatura, podem mapear novos percursos em direção ao conhecimento da construção de  identidades, de sentimentos nacionais e locais, ao visarmos uma cidadania menos iluminista, que não exclua a força do estético, do simbólico e do imaginário.

  

BIBLIOGRAFIA

 

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo : Martins Fontes, 1997.

BARTHES, Roland. Leçon inaugurale. In: Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo : Cultrix, [s.d.]

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil - o longo caminho. 2e. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2002.

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 5a.edição. Trad.Guy Reynaud. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1982.

FERREIRA, Lúcia M.A.; ORRICO, Evelyn G.D. (Org.) Linguagens, identidade e memória social: novas fronteiras, novas articulações. Rio de Janeiro : DP&A, 2002.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro : Forense-Universitária,  1987.

GUEDES, Simone Lahud. Jogo de corpo - um estudo de construção social de trabalhadores. Niterói : EDUFF, 1997.

HAESBAERT, Rogério. “Território, cultura e des-territorialização”. In: ROSENDAHL, Zeny & CORRÊA, Roberto Lobato (Org.) Religião, identidade e território. Rio de Janeiro : EdUERJ, 2001.

ISER, Wolfgang. O ato de leitura. Uma teoria do efeito estético. Trad. Johanes Kretschmer. Rio de Janeiro : Editora 34, 1996. V.1.

_____________. O fictício e o imaginário - perspectivas de uma antropologia literária. Trad. Johanes Kretschmer. Rio de Janeiro : EDUERJ, 1996.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo : Ática, 1994.

MACHADO, Irene A. O romance e a voz - a prosaica dialógica de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro, São Paulo : Imago, FAPESP, 1995.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Trad. Freda Indursky et al. Campinas, SP : Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1997.

____________________________. Termos-chave da análise do discurso. Trad. Márcio Venício Barbosa e Maria Emília  A T. Lima. Belo Horizont : UFMG, 2000.

NUNES, José Horta. Formação do leitor brasileiro- imaginário da leitura no Brasil colonial. Campinas : Editora da Unicamp, 1994.

OLINTO, Heidrun Krieger. Histórias de literatura – as novas teorias alemãs. São Paulo : Ática, 1996.

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso. Princípios e procedimentos. Campinas : Pontes, 1999.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro : Record, 1991.

RANCiÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Trad. Raquel Ramalhete et al. Rio de Janeiro : Editora 34, 1995.


 

[1] Uma primeira versão deste artigo foi apresentada durante o Congresso Nacional de Lingüística e Filologia, realizado em 2003, no Instituto de Letras da UERJ.

[2] Professora Adjunta de Literatura Brasileira na Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Mestre e Doutora em Teoria Literária pela UFRJ. Em fase de realização de Pós-doutoramento na Puc-Rio, com a Professora Dra. Heidrun Krieger Olinto.