RIO/HOMEM
cursos e discursos na poesia de João
Cabral
Maria Isaura Rodrigues Pinto (UERJ)
(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.
João Cabral de Melo Neto, O Cão sem Plumas
Nos poemas O Rio e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a linguagem, catalisadora de metamorfoses, transmuta Rio em Homem e Homem em Rio, tornando esses elementos temáticos, em seu relacionamento recíproco, imagens poéticas confluentes. Têm-se, no caso, duas histórias (a de Severino, retirante do sertão nordestino e a do Capibaribe, rio cujo leito leva ao Recife), que, cruzadas, originam um sistema de equivalências, em que o rio humanizado e o homem fluvializado confundem suas naturezas, em face de um estado de precariedade por ambos compartilhado. As passagens, a seguir, extraídas, respectivamente, dos poemas acima mencionados, põem em evidência, por perspectivas diferentes (primeiramente, a do Capibaribe, depois, a de Severino), o processo de amalgamação que liga de forma indivisa Rio e Homem:
Os rios que eu encontro
Vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
Que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
Que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios.
(O Rio, in MELO NETO, 1986: 117)
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
(Morte e Vida Severina, in MELO NETO, 1986: 77)
Assim como o rio Capibaribe, Severino se define por sua natureza desvalida – ambos estão sujeitos a um destino de penúria, motivado pela seca. É a marca da carência que os aproxima e une numa poética de travessia. Sempre mirando-se, um sendo o eco do outro, rio e homem mal podem ser distinguidos. Sente-se que o rio se identifica com o viver nordestino, ou mesmo que o rio e a vida são a mesma coisa. Tem-se, no caso, a configuração do elemento fluvial como extensão do humano (e vice-versa). A relação isomórfica entre rio e homem torna-se, na poética de JCMN, metáfora de realidades amplas e, ao mesmo tempo, projeção simbólica de procedimentos de uma cultura regional que se movimenta à beira do precário e da sobrevivência.
A idéia mais frisada nos poemas parece ser a de que a vida, identificada com a natureza do rio, é translato, viagem, que coincide com a procura de melhores paragens. Tal busca implica difíceis andanças, luta constante e o defrontar com duras realidades, o que põe à prova a capacidade de resistência às asperezas. Atuando nessa direção, a prática textual apresenta, em cenário nordestino, seres viventes que, desprovidos de quase tudo, extraem de sua condição de carência a coragem necessária para prosseguir.
Compondo uma escritura fortemente voltada para a captação da realidade social e humana, os poemas em questão recriam paisagens dessublimadas, dão a ver um espaço depurado de imagens idealizadas, resultando o texto poético numa mescla de esferas que abarca o regional e o universal. Devido a isso, nas dúvidas, inquietações, esperanças e desesperanças dos severinos-rios, ressoam indagações próprias do ser humano, em qualquer parte e em todos os tempos.
A verdade é que se está diante de um tipo de produção literária que busca falar do Nordeste, apontar experiências de vida, sem cair, contudo, em categorias reducionistas de representação. A escritura, ao instaurar, entre outros recursos, a conexão isomórfica entre rio e homem, distancia-se, de pronto, do discurso etnográfico clássico, torna patente a noção de que não está objetivamente transmitindo um quadro antropológico, mas sim de que está ficcionalizando uma realidade sócio-cultural, isto é, interpretando-a pela via do simbólico. A propósito, Haroldo de Campos, em seu livro Metalinguagem, formula a questão da seguinte maneira: “pode-se dizer que JCMN dá categoria estética a muito daquilo que, no chamado romance nordestino, tinha apenas categoria documentária”(CAMPOS, 1967, p.72).
No entanto, o que alimenta e embasa os textos em estudo não é somente a ligação temática da escritura com o povo, com a cotidianidade, com a experiência, com a natureza, mas também a opção estilística direcionada para o reaproveitamento de expedientes com que a gente do nordeste constrói suas narrativas, imprimindo sentido ao seu existir. Daí um trabalho com a linguagem que, adotando mecanismos intertextuais, remete às tradições folclóricas, ao estilo dos cantadores e ao romanceiro popular, fonte de onde provém grande parte do material poético. Considerando esse contexto, a pesquisa aqui empreendida elege como caminho de análise dos poemas o enfoque das estratégias discursivas utilizadas na tematização da experiência rural nordestina, à qual corresponde um modo de elaboração textual calcado, sobretudo, em modelos e técnicas vinculados à oralidade.
O desejo de absorção da oralidade fica, por exemplo, bastante evidente na tática, adotada no poema O Rio, de tornar o Capibaribe uma espécie de narrador etnográfico subjetivo que, como diz Benedito Nunes, “de tudo que vê, dá correta notícia oral ao poeta, mencionado no texto como senhor da freguesia de Tapacurá” (NUNES, 1974, p.79). Produção elaborada “sob ditado”, o poema é o registro poético de um percurso de viagem que, por diversos níveis: o geográfico, o humano e o social, anuncia/denuncia a penúria do meio regional. Ao relatar sua viagem ao senhor de Tapacurá, o rio personificado traça, com detalhes, o mapa da região e o perfil da gente que encontra pelo caminho, em sua descida até o Recife: pequenos usineiros, antigos bangüêzeiros e cassacos, todos vistos pelo rio como “homens de bagaço” que, no “comum retirar”, compartilham de sua natureza fluvial.
Observem-se, a seguir, os versos do poema O Rio, em que a função do escritor é, sugestivamente, associada à do escrivão:
Então, o Tapacurá,
Dos lados da Luz, freguesia
Da gente do escrivão
Que foi escrevendo o que eu dizia.
(O Rio, in MELO NETO, 1986: 125)
Na passagem, fica também indiciada uma significativa aproximação entre a figura do escritor (metaforicamente representada pelo senhor da freguesia de Tapacurá) e a figura do poeta popular, uma vez que este, ao compor seus romances ou poemas narrativos, transpõe para a linguagem gráfica o que, em muitos casos, lhe foi transmitido oralmente. A tarefa do poeta popular consiste justamente em trabalhar de maneira utilitária a matéria colhida das experiências próprias ou alheias. Nesse sentido, na prática poética do poeta popular, modelam-se traços que integram a natureza do próprio narrador da tradição oral, que Walter Benjamin, primorosamente, descreve no famoso ensaio intitulado “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (BENJAMIN, 1987).
Pode-se constatar, em vista do exposto, que o poema O Rio, embora apresente uma estrutura monologal, engendra um jogo de vozes, no qual a técnica utilizada é a do “narrador do narrador”. O poema, ludicamente composto, apresenta-se como um relato oral feito a um narrador-ouvinte (o senhor da freguesia de Tapacurá), que reproduz, por escrito, a fala de um outro narrador (o rio Capibaribe). O segundo narrador (duplo do escritor), cuja fala espontânea revela uma linguagem criativa e poética, reconstitui no seu enunciado o discurso oralizado do primeiro, fazendo lembrar com seu gesto retransmissor o contador de “causos” das comunidades interioranas. Dessa forma, num movimento de apropriação de matrizes tradicionais da cultura, o poema propõe o resgate artificioso da atualidade viva do narrador oral, na sua faculdade de trocar experiências. Nessa perspectiva, ao analisar o poema, comenta Benedito Nunes:
A estrutura de O Rio é a de um poema constituído sob ditado, que conserva, na linguagem escrita, a mobilidade, a incompletude, os rodeios e as redundâncias da linguagem oral. Até nas variações métricas, estampa-se algo de um improviso, de um momentâneo ditado (NUNES, 1974: 79-80).
Em relação ao poema Morte e Vida Severina, atente-se para o fato de que, embora Severino, no monólogo de abertura, tente inicialmente se identificar — como um primeiro passo daquilo que representa a viagem, como uma busca de fixação de algo no movimento de retirada — sua insistência em dar sinais de identificação queda infrutífera, pois esbarra na anonimidade, na despersonificação do nordestino depauperado, que a condição comum de penúria define:
Somos muitos severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
Iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
(Morte e Vida Severina, in MELO NETO, 1986: 71)
O que acaba ocorrendo, como diz Benedito Nunes, é a “personalização dramática de um sujeito coletivo e passivo – a gente sem nome que baixou como o rio até o Recife” (NUNES, 1974, p. 82). O dado pessoal, nesse caso, cede lugar à condição impessoal de um destino coletivo de miséria e míngua que guarda grande semelhança com o destino do rio, desfalcado de suas águas. O tema individual transforma-se, então, em matéria universal que põe à mostra o homem em confronto com as intempéries.
Apesar de a escritura de JCMN caminhar em direção a um enfoque universal, as estórias são tecidas com material regional e folclórico. Como se pode ver, Morte e Vida Severina exibe na base de sua construção uma dose de oralidade e uma perspectiva teatral que foram buscadas na tradição do folclore pernambucano. A parte final do poema (as últimas seis cenas) é essencialmente uma releitura do pastoril. Alinhavada com um estilo irônico, que desarticula o cristalizado, essa forma tradicional de narrar é recuperada e revitalizada na pauta do poeta. O auto retoma os tradicionais quadros e personagens natalinos, mas os subverte, pela ironia dessublimadora do nascimento de uma criança entre os habitantes do mangue, cujo destino, previsto pelas ciganas, será o de também levar uma vida severina.
Tendo como leit motiv o percurso de Severino, do sertão até o Recife, o auto (que fala de existências calcinadas pelo sol, em condição de itinerância), na última parte, alude ao nascimento de Jesus. O episódio, assinalado pelas especificidades do regional, reveste-se igualmente de traços cosmogônicos e universalizantes. O poema, no todo, se divide em cenas, todas precedidas de uma síntese narrativa, na qual uma voz em terceira pessoa, antecipadamente, dá a conhecer um acontecimento ou uma situação. Nas doze primeiras cenas, a escritura alterna seis monólogos de Severino a diálogos que este estabelece ou escuta durante a viagem. A partir daí, o personagem passa à condição de espectador da comemoração natalina. Na última cena, concluída a alegoria, José (personagem a quem Severino, anteriormente, havia se dirigido) volta a falar com Severino, reatando o diálogo que fora interrompido. Como se pode ver, o poema, em sua técnica de construção, opera com uma ampla rede de vozes e discursos.
Nos poemas em questão, por diferentes perspectivas, se promove o reencontro com as fontes orais da narrativa. As composições engendram vozes que, à maneira dos contadores, repassam um discurso comum à coletividade. Com a atualização da figura do narrador arcaico, os textos ganham uma dicção oral que desloca o leitor para a função do ouvinte. Imprimir oralidade à escritura é um dos procedimentos que marca, sobremaneira, as produções de O Rio e de Morte e Vida Severina. Por outro lado, a inserção, no enunciado, de vozes que evocam a presença do “contador” comunitário, retransmissor de experiências, complica os princípios modernos de originalidade e de individualidade, uma vez que o eu do escritor se mostra diluído por trás da máscara linguageira do narrador primitivo.
No caso do poeta JCMN, assinale-se, desde logo, que há uma ambivalência manifesta na forma pela qual o poeta pernambucano se vale da linguagem poética. A expressão Duas águas, denominação dada pelo próprio autor, em 1956, ao conjunto de seus livros, anuncia o reconhecimento de duas vertentes na sua produção, além de propor, num movimento de ampliação do campo metafórico da escritura, um paralelismo entre Rio e Obra, já que, ao se descrever o curso da produção poética, mediante o uso da expressão referida, evoca-se a realidade líquida e complexa do Capibaribe.
No volume único intitulado Duas águas, o poeta agrupa, na primeira água, os livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia da Composição, O Cão sem Plumas, Uma Faca só Lâmina e Paisagens com Figuras e, na segunda água, Os Três Mal-Amados, ao lado, de O Rio e Morte e Vida Severina. Só posteriormente, seria incluído na segunda água o Auto do Frade. Quanto ao sentido dessa bipartição, alerta o poeta na nota preliminar do volume de 1956:
Duas águas querem corresponder a duas intenções do autor e — decorrentemente — a duas maneiras de apreensão por parte do leitor ou ouvinte: de um lado, poemas para serem lidos em silêncio, numa comunicação a dois, poemas cujo aproveitamento temático, quase sempre concentrado, exigem mais do que leitura, releitura; do outro, poemas para auditório, numa comunicação múltipla, poemas que, menos que lidos, podem ser ouvidos (MELO NETO, apud NUNES, 1974:.74).
Sintetizando, de maneira bastante eficiente, os aspectos caracterizadores desses dois tipos de expressão poética (ou de águas), Benedito Nunes diz trata-se de um equívoco imaginar que a quantidade de informação e as qualidades formativas da poesia é que determinam a distinção e esclarece:
É precisamente sob o aspecto da comunicação, (...) que a diferença entre as “duas águas” pode ser estabelecida. Temos assim, em vez de duas espécies de poesia, dois tipos de dicção, que se distinguem em função do destinatário e da modalidade de consumo do texto (NUNES, 1974: 74).
Dessa forma, tem-se na primeira água, os poemas de voz baixa, com elevado grau de constituição, solicitando uma leitura acurada, detida, indispensável à apreensão dos mecanismos de elaboração do texto. Neste caso, a ênfase recai no modo de compor, na expressão, em detrimento do alcance da comunicação. Essa perspectiva de construção, calcada nos princípios da originalidade e individualidade, caracteriza, sobremaneira, a práxis moderna.
Na segunda água, em que se inscrevem os poemas O Rio e Morte e Vida Severina, os textos possuem um menor grau de constituição e, em contrapartida, maior altura da dicção. Neste caso, valoriza-se o efeito comunicativo, intensificado pelo suplemento de oralidade de que se reveste o texto no enfoque da realidade social e humana. Já aqui, na segunda perspectiva dos interesses de JCMN, a função autoral expressa pela escritura oscila entre dois procedimentos estéticos diversos: se, por um lado, persistindo nas prerrogativas de rigor e potencial expressivo da linguagem, mostra-se presa à perspectiva moderna de escritura singular, de experiência autêntica; por outro, corroborando, com o aproveitamento da fala coletiva do narrador arcaico, a noção de perda da individualidade, de marca pessoal diferenciadora, já evidencia uma mudança, então em processo, na maneira de conceber a produção literária. Mudança que, no pós-moderno, passaria pelo esgarçamento da idéia de estilo.
Vale notar que o processo de identificação entre Rio e Homem não é um procedimento imagístico exclusivo da segunda água. Já no poema O Cão sem Plumas, rio e homem se confundem numa dissolução comum, que fica poeticamente traduzida na imagem da natureza desplumada. No poema, que se compõe de quatro movimentos (Paisagem do Capibaribe, I e II; Fábula do Capibaribe, III e Discurso do Capibaribe IV), os versos a seguir, extraídos do IV momento, ilustram com precisão o que foi dito acima:
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
(O Cão sem Plumas,in MELO NETO, p. 190 e 192)
A articulação com o popular ganha vários alcances nos poemas O Rio e Morte e Vida Severina. Relações intertextuais se estabelecem com a tradição medieval ibérica, podendo-se encontrar, nos textos, de forma mais ou menos acentuada, ecos do teatro de Gil Vicente, já que os poemas, na trilha da experiência vicentina, adotam a justaposição de cenas, a sátira contra as desigualdades sociais, a constituição alegórica dos personagens que funcionam, no caso, como tipos sociais do nordeste. O próprio subtítulo de Morte e Vida Severina — Auto de Natal Pernambucano — já aponta para essa retomada do auto medieval no contexto nordestino.
Diante desses aspectos, a menção feita ao tear no final do poema O Rio (“ Somente a relação / de nosso comum retirar, / só esta relação / tecida em grosso tear”) pode ser entendida como alusão de natureza metapoética que metaforiza o poema como um engenho que não pára de reciclar, entrecruzar e retramar os fios que formam o tecido-texto. Fios de diferentes procedências integram a trama matizada do texto que se abre para novas texturas, para novos acréscimos. Esse entretecimento permanente, que a imagem do tear sugere, permite dizer, na esteira de Walter Benjamin, que, ao tecer a rede que liga todas as histórias, a “ lembrança institui a corrente da tradição que transmite o acontecido de geração para geração” e que a sabedoria das narrativas orais reside no seu caráter de exemplaridade (BENJAMIN, 1987: 211).
Assim como há um texto, escrevendo-se, tecendo-se e reprocessando outros, também as existências de Severino e do Capibaribe, entrecruzando seus fios, estão em incessante processo de construção, deslocamento. Tanto na ação dramática da peça quanto na narração de viagem do rio, têm-se o deslocamento constante e a notação descritiva/narrativa de quem está de passagem. Em ambos, fica patente a decisão de viagem.
Variante do percurso seguido pelo Capibaribe, do sertão até o Recife, a viagem de Severino é igualmente de mudança e fuga. Em ambos os poemas, a experiência de viagem redunda em experiência visual que se realiza por etapas. Dois olhares – o de Severino e o do Capibaribe – deslizam por sobre um mesmo cenário (o sertão, o Agreste, a caatinga, a Mata), registrando os mesmos referenciais: a toponímia e os elementos econômicos (plantações de cana, engenhos e usinas).
Há, portanto, uma correlação entre esses dois olhares, que se imbricam, na reafirmação do precário, da penúria, que é vida presidida pela morte. Em ambos os casos, a história do morrer e do viver enforma o tema da viagem. Ressalte-se que a viagem de Severino parece carregar tão somente o peso da morte. Na primeira parte de Morte e Vida Severina, as peregrinações do personagem conduzem-no, irremediavelmente, a encontros sucessivos com a morte, que assume diferentes faces. Em seu percurso, a segunda morte com a qual se defronta é a da própria natureza. O retirante, desiludido, vê que o seu rio-guia, o Capibaribe, cortou com a seca. Só no final do auto, quando é anunciado o nascimento do filho do José, mestre carpina, Severino se depara com a vida. Acompanhar a sua peregrinação até o Recife (disposta em fragmentos poéticos), é, em certo sentido, percorrer os passos da via crucis. Por outro lado, as águas do Capibaribe (ainda que intermitentes em certos locais), guardando semelhanças com os anseios humanos, encenam, em sua descida para o mar, o desejo de preservar, através da mobilidade, a esperança em face das agruras.
BIBLIOGRAFIA
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem. Petrópolis: Vozes, 1967.
MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Petrópolis: Vozes, 1986.
––––––. Da Educação pela Pedra à Pedra do Sono: Antologia Poética. São Paulo: Círculo do Livro, 1965.
NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto. Petrópolis, Vozes, 1974.