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A TRANSITIVIDADE
SEGUNDO A TRADIÇÃO GRAMATICAL
E O
FUNCIONALISMO

Alex Swander (UNIVERSO)
Karla
Franco dos Santos (UNIVERSO)

 

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem, por finalidade, confrontar a visão dos mais renomados gramáticos da língua portuguesa acerca da propriedade TRANSITIVIDADE e o nosso ponto de vista teórico baseado no Funcionalismo Lingüístico norte-americano. Assim sendo, partiremos de Luft (1990), que considera a transitividade como sendo uma propriedade em que a açãopassa direta ou indiretamente a um complemento. Veremos que Kury (1991), por sua vez, apresenta uma visão diferente. O estudioso ao descrever a transitividade em verbos de movimento ou de situação, postulou que tais verbos pedem um complemento adverbial e, ainda que tradicionalmente eles sejam classificados como intransitivos, devem ser considerados como transitivos, partindo-se da idéia de que a transitividade se refere à necessidade de um complemento, que por sua vez, vem complementar uma idéia insuficiente em si mesma. Veremos os apontamentos de Azeredo (2001) que, de certa forma, em muito se aproximam da visão de Bechara (2001) no que tange a questão transitividade como uma propriedade restrita ao verbo. Mostraremos que Cunha (1970) e Lima (2000) apresentam um ponto de vista teórico bem convergente quanto à oposição transitividade X intransitividade. Lima (2000), porém, ao se referir ao verbointransitivo”, alerta que este pode trazer um complemento representado por substantivo de mesmo radical, de sorte que o autor considera tal complemento como objeto direto interno. Após discorrer sobre o tratamento tradicional dispensado à transitividade, apresentaremos a nossa proposta funcionalista para o estudo da propriedade em questão, questionando a visão tradicional que circunscreve a transitividade ao verbo, sem se levar em consideração as próprias motivações discursivas, manifestadas no quadro de traços sintático-semânticos formulado por Hopper & Thompson (1980): o número de participantes envolvidos, a idéia de ação, o aspecto perfectivo ou não perfectivo do verbo, a punctualidade do verbo, a intencionalidade do sujeito, a polaridade da frase, o modo realis ou irrealis, a agentividade do sujeito, a individuação e o afetamento do objeto. Mais adiante, estreemos retomando dois pares de frases consideradas intransitivas tradicionalmente, mostrando que elas apresentam graus diferentes de transitividade, pois para o nosso modelo teórico, a transitividade não é uma propriedade restrita ao verbo, mas presentificada no continuum de sentidos em construção, cuja codificação se dá motivada por intenções discursivas. Logo, diferentemente do modelo formalista, o funcionalismo lingüístico entende a transitividade como uma propriedade escalar, posto que as construções de uma língua apresentarão gradientes diferenciados de transitividade, não havendo, portanto, espaço para se opor binariamente e sumariamente transitividade à intransitividade.

 

O QUE DIZEM OS GRAMÁTICOS
ACERCA DA TRANSITIVIDADE?

A visão apresentada dos autores estudados acabam por, de uma forma ou de outra, considerar a transitividade tão somente uma propriedade verbal. Diferentemente, o modelo teórico norteador da nossa pesquisa, concebe a transitividade como uma propriedade que se manifesta ao longo discurso. Logo, cada elemento de uma frase exercerá um importante papel quanto à significação do todo. Doravante, passemos a uma apreciação crítica acerca do que os gramáticos abordados falam sobre a transitividade. Para Azeredo (2001: 76 e 77),

A afirmação de que a predicação do verbo depende da frase implica negar que ela faça parte do sistema da língua, que ela integre o conhecimento que cada um tem de sua língua e que o torna capaz de saber se 'deve' ou simplesmente 'pode' anexar um objeto ao verbo que empregou. Muitos verbos entre os quais se incluem 'escrever' e 'beber' – estão categorizados na língua como transitivos e intransitivos (. . .) Por tudo isso, não é bastante dizer, por exemplo, que os verbos derreter e escrever podem ser transitivos e intransitivos, porque, categorizados de um modo ou de outro na língua, eles impõem a seus sujeitos papéis semânticos diferentes.

Na nossa concepção, Azeredo ao discordar de que a predicação do verbo depende da frase, justificando que tal afirmação implica negar que ela faça parte do sistema da língua, que ela integre o conhecimento que cada um tem de sua língua e que o torna capaz de saber se 'deve' ou simplesmente 'pode' anexar um objeto ao verbo que empregou, endossa a possibilidade de criticarmos tal posicionamento, até porque, segundo a nossa linha teórica (o Funcionalismo norte-americano), a transitividade é uma propriedade discursiva, conforme destaca Abraçado (2000: 4), que se baseia em Hopper & Thompson (1980), a transitividade é um universal lingüístico determinado discursivamente. Manifesta-se num continuum que envolve um complexo de dez traços sintático-semânticos, o que revela sua natureza escalar. Em seu trabalho, a autora cita ainda McCleary (1982), que destaca duas funções discursivas (cf. Abraçado, 2000: 5).

1- Função comunicativa (responsável pela organização interna do discurso).

2- Função cognitiva (responsável pela organização e interpretação do mundo exterior).

Assim, McCleary deslocou a transitividade do domínio discursivo para o domínio cognitivo. Desta feita, a transitividade assume uma função associada à dimensão perceptual de eventos. Assim, a transitividade está associada à forma como um espectador codifica eventos percebidos no mundo exterior, de forma que as ações mais salientes, isto é, mais perceptíveis, serão codificadas primordialmente, assumindo 1º plano na codificação lingüística. Indo mais além, Abraçado (idem, ibidem) cita Slobin (1982), que endossa a abordagem de McCleary (1982), ao afirmar que os eventos mais perceptivos correspondem a ações mais transitivas. Em sua pesquisa, Slobin constatou que as crianças demonstram perceber mais imediatamente uma mudança física perceptível no estado ou locação de um paciente por meio de um contato físico direto. Assim sendo, Slobin evidenciou empiricamente a realidade perceptual das ações mais transitivas. Por tudo o que apresentamos acima, acreditamos que para Azeredo é o verbo por si mesmo que “carrega” e determina a transitividade das construções; como se os outros constituintes da frase em nada somassem no que se refere a propriedade em questão. Leiamos novamente o que o autor escreve: (...) a transitividade não pode ser definida em termos de experiência extraverbal (AZEREDO, 2001: 76). Entendemos que a transitividade não pode estar restrita ao verbo, mas a todos os constituintes de uma frase. A tradição gramatical compartimenta os termos da oração empacotes” (termos essenciais, integrantes e acessórios). Deixaremos para discutir tal instância mais adiante. Entretanto, é importante mencionarmos a necessidade de revermos alguns conceitos categóricos que a tradição formalista sustenta, como por exemplo, o chamado termo acessório.[1] Até que ponto este termo pode ser considerado não fundamental? É evidente que não estamos aqui discutindo o grau de hierarquização de termos nucleares e satélites. Todavia, insistimos em dizer que um termo cuja ausência implica em deslocamento do sentido, não pode ser considerado como algo que não é fundamental. Segundo o Funcionalismo norte-americano, a transitividade não se encontra restrita ao verbo; muito além disso, ela, conforme dissemos, responsável pela organização do discurso, influindo na codificação de eventos percebidos no mundo exterior. Por conseguinte, nosso modelo teórico vai de encontro à afirmação apresentada por Azeredo (2001: 76): (...) a transitividade não pode ser definida em termos de experiência extraverbal. Ainda segundo o autor, (2001: 76 e 77):

A afirmação de que a predicação do verbo depende da frase implica negar que ela faça parte do sistema da língua, que ela integre o conhecimento que cada um tem de sua língua e que o torna capaz de saber se 'deve' ou simplesmente 'pode' anexar um objeto ao verbo que empregou.

Azeredo cita Cunha (1970) que aparentemente insatisfeito com o critério formal, se utiliza do critério semântico para tal distinção. Porém, tal recurso parece não atender a construções como 'Que ela afaste de ti aquelas dores / Que fizeram de mim isto que sou' (Florbela Espanca). Cunha, no intuito de diferenciar adjunto adverbial de objeto indireto, utiliza os seguintes exemplos: ‘estive com Pedro’ e ‘concordo com você’. O autor ainda cita Lima (1976: 221), por sua vez, classifica os exemplos apresentados por Cunha como termos integrantes e os chama, respectivamente, 'complemento circunstancial' e 'complemento relativo'. Esta última classificação encontramos, também, em Bechara (2001: 419): O complemento relativo se pré-centifica quando o verbo apresenta um conteúdo léxico de grande extensão semântica e vem introduzido por uma preposição. Exs.: Todos nós gostamos de cinema. Poucos assistiram ao concerto.

Quanto àqueles verbos, tradicionalmente classificados comointransitivos’, os autores por nós estudados apresentam opiniões bastante idênticas, isto é, a noção tradicional de que quando não há uma transferência de ação de um agente para um objeto, configura-se a intransitividade de um verbo. Azeredo (2001: 82 e 83) claramente afirma: sintaticamente, não diferença entre as frases (a) e (b) de cada um dos pares abaixo:

(a)"O carro bateu no poste."     (b)"A mulher bateu no marido"

(a)"Pedro dependia do pai"       (b)"Pedro fugia da escola"

(a)"Luís mora em Niterói"          (b)"Luís trabalha em Niterói"

Bechara (2001), parece dizer a mesma coisa: Os verbos que apresentam significado lexical referentes a realidades bem concretas não necessitam de outros signos léxicos (...) A tradição gramatical chama intransitivos a tais verbos (p. 415): Ela não trabalha. As crianças cresceram rapidamente' (Bechara, 2001). Interessante para a nossa análise, é constatarmos que Azeredo e Bechara compartilham também da opinião quanto à ‘não oposição absoluta entre verbos transitivos e intransitivos. Leiamos: Azeredo (2001: 79) fala sobre transitividade 'direta' e transitividade 'indireta' e afirma que a distinção que se faz entre verbos transitivos diretos e indiretos é inadequada por várias razões. Em primeiro lugar, não é bem clara a base desta distinção; alguns gramáticos vêem na preposição um indicador do caráter 'indireto' da relação entre o verbo e o complemento. Cunha (1970: 96) também menciona a intransitividade.

Verbos intransitivos são aqueles em que a ação não vai além do verbo. Ex.: Cai o crepúsculo. Kury (1970 p. 24) admite, também, a classificação de verbos comointransitivos’:Intransitivos (aqueles que podem conter em si toda a significação do predicado sem acréscimo de 'objeto'. Exs.: As crianças brincam / Moro no Rio de Janeiro). Oportunamente, seguindo os pressupostos teóricos do Funcionalismo norte-americano, faremos as críticas pertinentes à classificação dos verbos comointransitivos’, até porque para o nosso modelo teórico, a transitividade não é uma propriedade binária; ela é uma propriedade escalar. Assim, todas as construções de uma língua, em termos de transitividade, variam em graus. Voltemos aos autores da tradição gramatical que foram por nós estudados. Azeredo (2001: 81 e 82) faz crítica ao conceito tradicional de transitividade – entendido como 'ação que passa de um sujeito a um objeto' – . A crítica se baseia na pressuposição de que sujeito e objeto correspondem categoricamente a agente e paciente. Num primeiro olhar, tal problemática levantada por Azeredo nos chamou muito a atenção, até porque de acordo com o nosso ponto de vista teórico, o conceito tradicional de transitividade apresentado, em oposição às gramáticas que tratam do assunto, não é reducionista, pois abre espaço para a nossa abordagem teórica de que a transitividade não é uma propriedade restrita ao verbo. Entendemos que é prototipicamente mais transitiva a frase em que um sujeito humano e individuado, intencionalmente, provoca uma perceptível mudança de estado físico em um objeto também individuado. Kury falará de verbos transitivos diretos e indiretos simultaneamente (id ibidem):aqueles que necessitam ao mesmo tempo do objeto direto e do objeto indireto