A TRANSITIVIDADE
SEGUNDO
A
TRADIÇÃO
GRAMATICAL
E O
FUNCIONALISMO
INTRODUÇÃO
O
presente
artigo
tem,
por
finalidade,
confrontar
a
visão
dos
mais
renomados
gramáticos
da
língua
portuguesa
acerca
da
propriedade
TRANSITIVIDADE e o
nosso
ponto
de
vista
teórico
baseado
no
Funcionalismo
Lingüístico
norte-americano.
Assim
sendo, partiremos de Luft (1990),
que
considera a transitividade
como
sendo uma
propriedade
em
que
a
ação
“passa”
direta
ou
indiretamente
a
um
complemento.
Veremos
que
Kury (1991),
por
sua
vez,
apresenta uma
visão
diferente.
O
estudioso
ao
descrever
a transitividade
em
verbos
de
movimento
ou
de
situação,
postulou
que
tais
verbos
pedem
um
complemento
adverbial e,
ainda
que
tradicionalmente
eles
sejam
classificados
como
intransitivos,
devem
ser
considerados
como
transitivos,
partindo-se da
idéia
de
que
a transitividade se refere à
necessidade
de
um
complemento,
que
por
sua
vez,
vem
complementar
uma
idéia
insuficiente
em
si
mesma.
Veremos os
apontamentos
de Azeredo (2001)
que,
de
certa
forma,
em
muito
se aproximam da
visão
de Bechara (2001) no
que
tange a
questão
transitividade
como
uma
propriedade
restrita ao
verbo.
Mostraremos
que
Cunha
(1970) e
Lima
(2000) apresentam
um
ponto
de
vista
teórico
bem
convergente
quanto
à
oposição
transitividade X intransitividade.
Lima
(2000),
porém,
ao se
referir
ao
verbo
“intransitivo”,
alerta
que
este
pode
trazer
um
complemento
representado
por
substantivo
de
mesmo
radical,
de
sorte
que
o
autor
considera
tal
complemento
como
objeto
direto
interno.
Após
discorrer
sobre
o
tratamento
tradicional dispensado à transitividade, apresentaremos a
nossa
proposta
funcionalista
para
o
estudo
da
propriedade
em
questão,
questionando a
visão
tradicional
que
circunscreve a transitividade ao
verbo,
sem
se
levar
em
consideração
as próprias motivações discursivas, manifestadas no
quadro
de
traços
sintático-semânticos formulado
por
Hopper & Thompson (1980): o
número
de participantes envolvidos, a
idéia
de
ação,
o
aspecto
perfectivo
ou
não
perfectivo do
verbo,
a punctualidade do
verbo,
a intencionalidade do
sujeito,
a polaridade da
frase,
o
modo
realis
ou
irrealis, a agentividade do
sujeito,
a individuação e o afetamento do
objeto.
Mais
adiante,
estreemos retomando
dois
pares
de
frases
consideradas intransitivas tradicionalmente, mostrando
que
elas
apresentam
graus
diferentes
de transitividade,
pois
para
o
nosso
modelo
teórico,
a transitividade
não
é uma
propriedade
restrita ao
verbo,
mas
presentificada no continuum de
sentidos
em
construção,
cuja
codificação
se dá motivada
por
intenções
discursivas.
Logo,
diferentemente
do
modelo
formalista,
o
funcionalismo
lingüístico
entende a transitividade
como
uma
propriedade
escalar,
posto
que
as
construções
de uma
língua
apresentarão gradientes diferenciados de transitividade,
não
havendo,
portanto,
espaço
para
se
opor
binariamente e sumariamente transitividade à intransitividade.
O
QUE
DIZEM OS
GRAMÁTICOS
ACERCA
DA TRANSITIVIDADE?
A
visão
apresentada dos
autores
estudados acabam
por,
de uma
forma
ou
de
outra,
considerar
a transitividade
tão
somente
uma
propriedade
verbal.
Diferentemente,
o
modelo
teórico
norteador da
nossa
pesquisa,
concebe a transitividade
como
uma
propriedade
que
se
manifesta
ao
longo
discurso.
Logo,
cada
elemento
de uma
frase
exercerá
um
importante
papel
quanto
à significação do
todo.
Doravante,
passemos a uma apreciação
crítica
acerca
do
que
os
gramáticos
abordados falam
sobre
a transitividade.
Para
Azeredo (2001: 76 e 77),
A afirmação de
que
a
predicação
do
verbo
depende da
frase
implica
negar
que
ela
faça
parte
do
sistema
da
língua,
que
ela
integre o
conhecimento
que
cada
um
tem de
sua
língua
e
que
o
torna
capaz
de
saber
se 'deve'
ou
simplesmente
'pode'
anexar
um
objeto
ao
verbo
que
empregou.
Muitos
verbos
–
entre
os
quais
se incluem 'escrever'
e 'beber'
– estão categorizados na
língua
como
transitivos
e
intransitivos
(. . .)
Por
tudo
isso,
não
é
bastante
dizer,
por
exemplo,
que
os
verbos
derreter
e
escrever
podem
ser
transitivos
e
intransitivos,
porque,
categorizados de
um
modo
ou
de
outro
na
língua,
eles
impõem a
seus
sujeitos
papéis
semânticos
diferentes.
Na
nossa
concepção,
Azeredo ao
discordar
de
que
a
predicação
do
verbo
depende da
frase,
justificando
que
tal
afirmação implica
negar
que
ela
faça
parte
do
sistema
da
língua,
que
ela
integre o
conhecimento
que
cada
um
tem de
sua
língua
e
que
o
torna
capaz
de
saber
se 'deve'
ou
simplesmente
'pode'
anexar
um
objeto
ao
verbo
que
empregou,
endossa
a possibilidade de criticarmos
tal
posicionamento,
até
porque,
segundo
a
nossa
linha
teórica
(o
Funcionalismo
norte-americano),
a transitividade é uma
propriedade
discursiva,
conforme
destaca Abraçado (2000: 4),
que
se baseia
em
Hopper & Thompson (1980), a transitividade é
um
universal
lingüístico
determinado
discursivamente. Manifesta-se num continuum
que
envolve
um
complexo
de
dez
traços
sintático-semânticos, o
que
revela
sua
natureza
escalar.
Em
seu
trabalho,
a autora cita
ainda
McCleary (1982),
que
destaca duas
funções
discursivas (cf.
Abraçado,
2000: 5).
1-
Função
comunicativa
(responsável
pela
organização
interna
do
discurso).
2-
Função
cognitiva (responsável
pela
organização
e
interpretação
do
mundo
exterior).
Assim,
McCleary deslocou a transitividade do
domínio
discursivo
para
o
domínio
cognitivo. Desta
feita,
a transitividade assume uma
função
associada
à
dimensão
perceptual de
eventos.
Assim,
a transitividade está
associada
à
forma
como
um
espectador
codifica
eventos
percebidos no
mundo
exterior,
de
forma
que
as
ações
mais
salientes,
isto
é,
mais
perceptíveis,
serão
codificadas
primordialmente,
assumindo 1º
plano
na
codificação
lingüística.
Indo
mais
além,
Abraçado (idem,
ibidem)
cita Slobin (1982),
que
endossa
a
abordagem
de McCleary (1982), ao
afirmar
que
os
eventos
mais
perceptivos
correspondem a
ações
mais
transitivas.
Em
sua
pesquisa,
Slobin constatou
que
as
crianças
demonstram
perceber
mais
imediatamente
uma
mudança
física
perceptível no
estado
ou
locação
de
um
paciente
por
meio
de
um
contato
físico
direto.
Assim
sendo, Slobin evidenciou empiricamente a
realidade
perceptual das
ações
mais
transitivas.
Por
tudo
o
que
apresentamos
acima,
acreditamos
que
para
Azeredo é o
verbo
por
si
mesmo
que
“carrega” e determina a transitividade das
construções;
como
se os
outros
constituintes
da
frase
em
nada
somassem no
que
se refere a
propriedade
em
questão.
Leiamos
novamente
o
que
o
autor
escreve: (...) a transitividade
não
pode
ser
definida
em
termos
de
experiência
extraverbal (AZEREDO, 2001: 76). Entendemos
que
a transitividade
não
pode
estar
restrita ao
verbo,
mas
a
todos
os
constituintes
de uma
frase.
A
tradição
gramatical
compartimenta
os
termos
da
oração
em
“pacotes”
(termos
essenciais,
integrantes
e
acessórios).
Deixaremos
para
discutir
tal
instância
mais
adiante.
Entretanto,
é
importante
mencionarmos a
necessidade
de revermos
alguns
conceitos
categóricos
que
a
tradição
formalista
sustenta,
como
por
exemplo,
o chamado
termo
acessório.
Até
que
ponto
este
termo
pode
ser
considerado
não
fundamental?
É
evidente
que
não
estamos
aqui
discutindo o
grau
de
hierarquização
de
termos
nucleares
e
satélites.
Todavia,
insistimos
em
dizer
que
um
termo
cuja
ausência
implica
em
deslocamento
do
sentido,
não
pode
ser
considerado
como
algo
que
não
é
fundamental.
Segundo
o
Funcionalismo
norte-americano,
a transitividade
não
se
encontra
restrita ao
verbo;
muito
além
disso,
ela,
conforme
já
dissemos,
responsável
pela
organização
do
discurso,
influindo na
codificação
de
eventos
percebidos no
mundo
exterior.
Por
conseguinte,
nosso
modelo
teórico
vai de
encontro
à afirmação apresentada
por
Azeredo (2001: 76): (...) a transitividade
não
pode
ser
definida
em
termos
de
experiência
extraverbal.
Ainda
segundo
o
autor,
(2001: 76 e 77):
A afirmação de
que
a
predicação
do
verbo
depende da
frase
implica
negar
que
ela
faça
parte
do
sistema
da
língua,
que
ela
integre o
conhecimento
que
cada
um
tem de
sua
língua
e
que
o
torna
capaz
de
saber
se 'deve'
ou
simplesmente
'pode'
anexar
um
objeto
ao
verbo
que
empregou.
Azeredo cita
Cunha
(1970)
que
aparentemente
insatisfeito
com
o
critério
formal,
se utiliza do
critério
semântico
para
tal
distinção.
Porém,
tal
recurso
parece
não
atender
a
construções
como
'Que
ela
afaste de ti aquelas
dores
/
Que
fizeram de
mim
isto
que
sou' (Florbela Espanca).
Cunha,
no
intuito
de
diferenciar
adjunto
adverbial de
objeto
indireto,
utiliza os
seguintes
exemplos:
‘estive
com
Pedro’ e ‘concordo
com
você’.
O
autor
ainda
cita
Lima
(1976: 221),
por
sua
vez,
classifica os
exemplos
apresentados
por
Cunha
como
termos
integrantes
e os
chama,
respectivamente,
'complemento
circunstancial' e 'complemento
relativo'.
Esta
última
classificação encontramos,
também,
em
Bechara (2001: 419): O
complemento
relativo
se pré-centifica
quando
o
verbo
apresenta
um
conteúdo
léxico
de
grande
extensão
semântica
e vem introduzido
por
uma
preposição.
Exs.:
Todos
nós
gostamos de
cinema.
Poucos
assistiram ao
concerto.
Quanto
àqueles
verbos,
tradicionalmente
classificados
como
‘intransitivos’,
os
autores
por
nós
estudados apresentam
opiniões
bastante
idênticas,
isto
é, a
noção
tradicional de
que
quando
não
há uma
transferência
de
ação
de
um
agente
para
um
objeto,
configura-se a intransitividade de
um
verbo.
Azeredo (2001: 82 e 83)
claramente
afirma: sintaticamente,
não
há
diferença
entre
as
frases
(a) e (b) de
cada
um
dos
pares
abaixo:
(a)"O
carro
bateu no
poste."
(b)"A
mulher
bateu no
marido"
(a)"Pedro dependia do
pai"
(b)"Pedro fugia da
escola"
(a)"Luís
mora
em
Niterói" (b)"Luís
trabalha
em
Niterói"
Bechara (2001), parece
dizer
a
mesma
coisa:
Os
verbos
que
apresentam
significado
lexical
referentes
a
realidades
bem
concretas
não
necessitam de
outros
signos
léxicos
(...) A
tradição
gramatical
chama
intransitivos
a
tais
verbos
(p. 415):
Ela
não
trabalha.
As
crianças
cresceram rapidamente' (Bechara, 2001). Interessante
para
a
nossa
análise,
é constatarmos
que
Azeredo e Bechara compartilham
também
da
opinião
quanto
à ‘não
oposição
absoluta’
entre
verbos
transitivos
e
intransitivos.
Leiamos: Azeredo (2001: 79)
fala
sobre
transitividade 'direta'
e transitividade 'indireta'
e afirma
que
a
distinção
que
se faz
entre
verbos
transitivos
diretos
e
indiretos
é inadequada
por
várias
razões.
Em
primeiro
lugar,
não
é
bem
clara
a
base
desta
distinção;
alguns
gramáticos
vêem na
preposição
um
indicador
do
caráter
'indireto'
da
relação
entre
o
verbo
e o
complemento.
Cunha
(1970: 96)
também
menciona a intransitividade.
Verbos
intransitivos
são
aqueles
em
que
a
ação
não
vai
além
do
verbo.
Ex.: Cai o
crepúsculo.
Kury (1970 p. 24) admite,
também,
a classificação de
verbos
como
‘intransitivos’:Intransitivos
(aqueles
que
podem
conter
em
si
toda
a significação do
predicado
sem
acréscimo
de 'objeto'.
Exs.: As
crianças
brincam / Moro no
Rio
de
Janeiro).
Oportunamente,
seguindo os pressupostos
teóricos
do
Funcionalismo
norte-americano,
faremos as
críticas
pertinentes
à classificação dos
verbos
como
‘intransitivos’,
até
porque
para
o
nosso
modelo
teórico,
a transitividade
não
é uma
propriedade
binária;
ela
é uma
propriedade
escalar.
Assim,
todas as
construções
de uma
língua,
em
termos
de transitividade, variam
em
graus.
Voltemos aos
autores
da
tradição
gramatical
que
foram
por
nós
estudados. Azeredo (2001: 81 e 82) faz
crítica
ao
conceito
tradicional de transitividade –
entendido
como
'ação
que
passa
de
um
sujeito
a
um
objeto'
– . A
crítica
se baseia na pressuposição de
que
sujeito
e
objeto
correspondem categoricamente a
agente
e
paciente.
Num
primeiro
olhar,
tal
problemática
levantada
por
Azeredo
nos
chamou
muito
a
atenção,
até
porque
de
acordo
com
o
nosso
ponto
de
vista
teórico,
o
conceito
tradicional de transitividade apresentado,
em
oposição
às
gramáticas
que
tratam do
assunto,
não
é reducionista,
pois
abre
espaço
para
a
nossa
abordagem
teórica
de
que
a transitividade
não
é uma
propriedade
restrita ao
verbo.
Entendemos
que
é prototipicamente
mais
transitiva
a
frase
em
que
um
sujeito
humano
e individuado,
intencionalmente,
provoca uma perceptível
mudança
de
estado
físico
em
um
objeto
também
individuado. Kury falará de
verbos
transitivos
diretos
e
indiretos
simultaneamente (id
ibidem):aqueles
que
necessitam ao
mesmo
tempo
do
objeto
direto
e do
objeto
indireto