A
VISÃO
DE MATTOSO
CÂMARA
SOBRE
A
FILOLOGIA
José
Pereira
da Silva (UERJ)
INTRODUÇÃO
O
objetivo
desse
trabalho
é
apresentar
alguns
textos
de Joaquim Mattoso
Câmara
Júnior,
a
partir
dos
quais
fique
bastante
clara
a
idéia
que
esse
grande
lingüista
brasileiro
tinha
a
respeito
da
Filologia.
Preocupados
com
o
status
em
que
se encontram os
estudos
filológicos na
visão
dos
organizadores
das
áreas
de
conhecimento
do CNPq e de
outros
órgãos
de
ensino
e
pesquisa
no Brasil, os filólogos
brasileiros
estão se reunindo periodicamente
para
discutir
uma
definição
de
política
acadêmica
para
conseguirem a
inclusão
de “Filologia”
como
uma
área,
subárea
ou
especialidade
do
conhecimento
naquele
quadro
do CNPq e das
demais
agências
de
fomento
à
pesquisa
e de
ensino
superior.
Por
isto,
publicam-se
aqui
alguns
trechos
do da
obra
do
mais
conceituado
lingüista
brasileiro
falecido, extraídos de algumas de
suas
mais
importantes
obras,
tais
como
o
Dicionário
de
Lingüística
e
Gramática,
os
Dispersos,
a
História
da
Lingüística
e os
Princípios
de
Lingüística
Geral.
Segundo
o Prof. Joaquim Mattoso
Câmara
Júnior
(CÂMARA
JR., 1986, 117),
Filologia
é
um
helenismo
que
significa
literalmente
“amor
à
ciência”,
usado a
princípio
com
o
sentido
de
erudição,
especialmente
quando
interessada na
exegese
dos
textos
literários.
Hoje
designa,
estritamente,
o
estudo
da
língua
na
literatura,
distinto,
portanto,
da
Lingüística.
Há,
porém,
um
sentido
mais
lato
para
Filologia,
muito
generalizado
em
português;
assim
Leite
de Vasconcelos entende
por
Filologia
portuguesa “o
estudo
da
nossa
língua
em
toda
a
sua
plenitude,
e o dos
textos
em
prosa
e
em
verso,
que
servem
para
a
documentar”
(VASCONCELOS, 1926, 9),
o
que
vem a
ser
o
estudo
lingüístico,
especialmente
diacrônico,
focalizado no
exame
dos
textos
escritos
em
vez
da
pesquisa
na
língua
oral
por
inquérito
com
informantes.
A
Filologia
“pressupõe uma
língua
culta
e uma
língua
escrita”,
diz Mattoso no
verbete
“Lingüística”
de
seu
Dicionário
de
Lingüística
e
Gramática.
Em
seus
Princípios
de
Lingüística
Geral
(p. 284), Mattoso lembra:
Em
princípio,
a
língua
literária
fixa-se na
imitação
de
certos
modelos,
e algumas
vezes
na de
modelos
estrangeiros,
como
os franceses
atualmente
entre
nós,
ou
os
gregos
na Roma de
Augusto.
Além
disso, apresenta
convenções
próprias e apóia-se
em
sobrevivências de
fases
anteriores
da
língua.
“É
sempre
de
um
sistema
lingüístico
anterior
a
ele
que
ele
deve
partir”,
diz, do
poeta
em
geral,
Vandryes. (VANDRYES, 1933, 43)
Por
isso,
o
estudo
da
língua
da
literatura
constitui uma
exegese
a
que
se
chama
Filologia
e
que
convém
manter,
na
conceituação
e na
nomenclatura,
bem
distinta
da
Lingüística,
ao
contrário
do
que
se faz às
vezes.
LINGÜÍSTICA
OU
FILOLOGIA?
A
confusão
entre
as
definições
de
Lingüística
e
Filologia
começa
com
Max Müller, o
primeiro
lingüista
que
escreve e
ensina
em
muitos
outros
países
europeus
e inaugura, na
Universidade
de Oxford, o
estudo
da
Lingüística
sob
o
nome
de
Filologia
Comparada,
ensina
Mattoso:
Dessa
forma,
a cuidadosa
distinção,
feita
por
Schleicher,
entre
lingüística
e
filologia
foi
posta
de
lado
e o
uso
inglês
teve
início
tomando
filologia
como
sinônimo
de
lingüística.
A
confusão
ficou no
ar
a
partir
do
momento
em
que
a
filologia
clássica
aceitou a
abordagem
lingüística.
Ademais,
como
já
vimos, os
primeiros
lingüistas
comparativos
eram
também
filólogos sanscritistas e a
gramática
comparativa,
referindo-se às
línguas
mortas, dependia da
interpretação
dos
textos
escritos.
Por
todas estas
razões,
uma
nítida
separação
entre
filologia
e
lingüística
não
foi
rigorosamente
mantida,
mesmo
na Alemanha,
apesar
da
atitude
de Schleicher.
Max Müller
era
um
orientalista
muito
competente
no
sentido
mais
amplo
do
termo.
Era
também
filólogo sanscritista.
Seu
primeiro
trabalho
na Inglaterra foi a
edição
crítica
do Rig-Veda, a
parte
dos Vedas contendo os
mais
antigos
e os
mais
genuínos
hinos
religiosos
do Índico. (CÂMARA
JR., 1986-a, 56)
A
FILOLOGIA
NA
HISTÓRIA
DA
LINGÜÍSTICA
Na
História
da
Lingüística,
Joaquim Mattoso
Câmara
Júnior
lembra
que,
em
oposição
ao
estudo
do
certo
e errado e o
estudo
da
língua
estrangeira,
em
que
consideramos o
estímulo
proveniente de uma
diferença
lingüística
contemporânea,
podemos
também
considerar
a
diferença
em
que
a
fala
atual
é comparada
com
as
formas
lingüísticas
escritas
do
passado:
Há a
necessidade
de compreender-se
textos
antigos
cuja
língua
é
obsoleta.
Esta
necessidade
dá
lugar
a
um
novo
tipo
de comparação – a da
linguagem
do
passado
com
a do
presente.
Em
qualquer
estado
complexo,
com
tradição
governamental,
esta
necessidade
está
viva
e
operante.
Mas
ela
se faz
mais
agudamente
sentida
nos
domínios
da
literatura.
A
literatura
é uma
atividade
da
linguagem
na
qual
a
língua
entra
com
o
seu
próprio
risco,
ao
lado
da
intenção
comunicativa.
Isto
leva,
naturalmente,
a se
encarar
a
língua
de
um
modo
mais
consciente
do
que
no
caso
das outras
atividades
da
linguagem.
Esta
situação
se
torna
mais
profunda
quando
nos
deparamos
com
textos
literários
do
passado.
Devemos
compreender
os
traços
lingüísticos
obsoletos
a
fim
de
captar
a
mensagem
artística.
Um
estudo
da
linguagem
desses
textos
torna-se,
então,
imperativo.
Temos,
então,
um
terceiro
fator
para
o
estudo
da
linguagem.
Este
tipo
de
estudo
tem sido chamado de
filologia
a
partir
dos
gregos
e,
aqui,
manteremos o
termo.
Chamaremos,
então,
este
terceiro
tipo
de
estudo
da
linguagem
de O
Estudo
Filológico da
Linguagem.
(CÂMARA
JR., 1986-a, 10-11)
No
mesmo
capítulo,
ainda
acrescenta Mattoso
Câmara,
em
tom
explicativo:
Na
filologia
os
homens
estão
cônscios
de
um
contraste
entre
os
traços
lingüísticos
do
presente.
O
contraste
é,
porém,
visto
de
um
modo
estático.
“A” é
conhecido
como
diferente
de “B”
mas
“A”
não
é
visto
como
a
causa
de “B”
ou
“B”
como
conseqüência
de “A”.
Não
são
imaginados
como
pontos
relacionados numa
linha
de
desenvolvimento.
A
lacuna
entre
o
conceito
filológico e a
concepção
da
linguagem
está
claramente
ilustrada
quando
confrontamos
aquilo
que
a
filologia
grega
chamou de metaplasmo
com
a
idéia
de
alternância
sonora,
elaborada
pela
lingüística
moderna.
(CÂMARA
JR., 1986-a, 12)
Diz Mattoso
Câmara
que,
na Antigüidade, o
estudo
da
linguagem
foi
totalmente
desenvolvido
na
Índia
e na Grécia, prevalecendo na
Índia
o
aspecto
‘filológico’ da
linguagem
e a
preocupação
com
a
compreensão
correta
dos
antigos
textos
religiosos
dos Vedas. (CÂMARA
JR., 1986-a, 15)
O Nirukta (Explanação)
é o
mais
antigo
tratado
sobre
a
linguagem
preservado
até
hoje,
na
Índia.
É, na
realidade,
uma
explicação
das
palavras
do Rigveda
que
já
se haviam
tornado
obscuras
quatro
séculos
antes
de
Cristo.
E foi a
orientação
filológica
que
estimulou a
composição
das Kosas
para
o
sânscrito
clássico,
correspondentes
aos
nossos
dicionários,
tais
como
o Amarakosa
ou
dicionário
de Amera,
seis
séculos
antes
de
Cristo.
(CÂMARA
JR., 1986-a, 16)
É
também
Mattoso
Câmara
Júnior
quem
informa:
A
filologia
é a
grande
tarefa
do
estudo
da
linguagem
durante
o
período
helenístico
em
Alexandria.
Seu
objetivo
principal
foi a
explanação
dos
textos
dos
antigos
poetas,
principalmente
Homero.
Como
a
antiga
literatura
grega
usava
dialetos
locais
e velhas
formas
do
discurso
que
tinha
se
tornado
obsoletas
em
face
da
expansão
do
dialeto
ático
como
língua
comum
a
toda
a Grécia (coinh),
os filólogos
alexandrinos
eram
levados
a
estudar
as antigas
fases
da
língua
e os
traços
distintivos
dos
dialetos
gregos.
Assim,
em
um
dicionário
de Hesíquio,
que
viveu provavelmente no
século
V de
nossa
era,
encontramos
não
somente
palavras
áticas
mas,
também,
vocábulos
de
outros
dialetos
gregos,
do
latim
e,
mesmo,
de muitas
línguas
‘não
clássicas’,
tais
como
o egípcio, o
acadiano,
o lídio, o
persa,
o
frígio,
o
fenício,
o cita e o
parto.
Vemos,
assim,
o
início
do
estudo
‘de
língua
estrangeira’
como
conseqüência
do
estudo
‘filológico’.
Os
principais
filólogos do
período
alexandrino
foram Zenódoto (no
século
IV
ou
III aC.); Aristarco,
famoso
como
intérprete
de Homero; e Apolônio Díscolo.
O
estudo
filológico misturava-se,
naturalmente,
com
as
asserções
gramaticais
de
caráter
normativo e
com
pontos
de
vista
filosóficos [...] (CÂMARA
JR., 1986-a, 19)
Joaquim Mattoso
Câmara
Júnior,
na
sua
História
da
Lingüística,
p. 36-37, apresenta-nos as
seguintes
informações,
relativas à
filologia
clássica
e à
filologia
sânscrita
principalmente,
que
se desenvolveram no
século
XIX:
August Schlegel,
irmão
de Friedrich Schlegel, foi
professor
de
sânscrito
na
Universidade
de Bonn.
Ele
e
seu
discípulo,
o norueguês Christian Lassen, foram os
fundadores
da
filologia
sânscrita
na Europa.
Assim
se criou o
estudo
filológico do
sânscrito.
Os Vedas,
antigos
hinos
religiosos
do
povo
hindu,
o Mahabharata e o Ramayana, tradicionais
epopéias,
as
obras
dramáticas da
literatura
hindu
e os
tratados
filosóficos e
religiosos
do
Bramanismo
e do
Budismo
passaram a
ser
comentados e debatidos do
mesmo
modo
que
a
filologia
clássica
procedia
em
relação
a Homero e aos
grandes
autores
antigos
da Grécia e de Roma.
A
partir
de
então,
durante
o
século
XIX, se desenvolveu
com
intensidade
o
estudo
filológico do
sânscrito.
Podemos
citar
entre
os sanscritistas do
século
XIX Niels Westergaard, Theodor Bentey, Otto Bohtling e Gudolf Roth,
estes
dois
últimos
autores
de
um
dicionário
do
sânscrito
em
7
volumes,
bem
como
o
francês
Euge Burnouf.
Alguns
desses
mestres
também
se dedicaram ao
estudo
filológico das
línguas
da Pérsia
antiga.
O
pioneiro
foi
aqui
um
viajante
francês,
Anguetil du Perron, no
século
XVIII,
que
viveu
muito
tempo
entre
os Parsis,
aderentes
de Zoroastro,
que
tinham se refugiado na
Índia
durante
o
domínio
maometano
da Pérsia. Ramus Ras revelou
um
grande
interesse
pela
língua
do Avesta, o
livro
sagrado
da Pérsia
antiga.
Na
interpretação
dessa
obra,
salientaram-se Burnouf, Westergaard e o
alemão
Christian Bartholomae,
cujo
dicionário
dá uma
interpretação
cabal
do
texto
persa.
Ao
mesmo
tempo
continuava a
filosofia
greco-latina,
iniciada
na
Renascença.
No
século
XIX essa
filologia
clássica
fez
um
grande
progresso
na
crítica
dos
textos,
isto
é, no
método
de
comparar
os
diferentes
manuscritos
gregos
e
latinos
de uma
obra
dada
para
descobrir
interpretações,
omissões
e
erros
de
copistas.
Mas
o
principal
avanço
na
filologia
da
época
foi
feito
pelo
mestre
alemão
Georg Curtius,
que
nos
meados
do
século
XIX associou a
filologia
grega
com
a
lingüística
histórico-comparativa (textos
em
Arens, 1955, 242-251).
Para
o
latim
uma
nova
orientação
coube ao dinamarquês J. Madvig. Pode-se
dizer,
portanto,
que
no
século
XIX o
estudo
“pré-lingüístico” da
filologia
foi ligado ao
domínio
da
lingüística
propriamente
dita,
ficando
como
um
ramo
especializado dessa
ciência.
O
estudo
filológico
também
se estendeu às
línguas
medievais
da Europa, o
que
decorreu
principalmente
da
importância
que
o
romantismo
dava à
Idade
Média
e a
todos
os
seus
aspectos
culturais.
Até
o
aparecimento
de
Augusto
Schleicher,
com
a
pretensão
de
colocar
a
lingüística
no
âmbito
das
ciências
da
Natureza,
ela
estava
mais
ou
menos
interligada à
filologia,
visto
que
todos
os
estudos
lingüísticos
se baseavam
nos
textos,
que
eram editados, interpretados e
desenvolvidos.
Escreve J. Mattoso
Câmara
Júnior:
Vimos
que
Bopp
era
um
mestre
na
filologia
do
sânscrito
e
assim
foram os indo-europeístas
que
o seguiram. Grimm, da
mesma
forma,
foi
um
dos
mais
competentes
filólogos
germânicos.
Mesmo
a
filologia
clássica,
que
se concentrava
em
torno
do
grego
e do
latim,
que
a
princípio
se mantivera à
parte
em
relação
à
lingüística,
estava
com
esta envolvida
em
conseqüência
da
atitude
de Georg Curtius e
outros
estudiosos
de
menor
importância,
os
quais
eram
tanto
lingüistas
como
filólogos
clássicos.
Schleicher, ao
contrário,
intitulava-se
apenas
um
lingüista
e reclamava
para
esta
ciência
o
lugar
de
ciência
natural,
oposta
à
filologia,
que
via
como
um
ramo
da
história.
(CÂMARA
JR., 1986-a, 50-51)
A
LÍNGUA:
OBJETO
DE
ESTUDO
DA
FILOLOGIA
Apesar
de
parecer
óbvio
o
que
é
língua,
é
válida
a
apresentação
do
conceito
de Mattoso
Câmara
sobre
o
assunto.
Entendendo
que
língua
é o
sistema
de
sons
vocais
pelos
quais
se
processa
o
uso
da
linguagem
numa
comunidade
humana,
escreve:
Como
sistema
de
linguagem,
a
língua
compreende uma
organização
de
sons
vocais
específicos,
ou
fonemas,
com
que
se constroem as
formas
lingüísticas
, e uma
língua
se distingue de
outra
pelo
sistema
de
fonemas
e
pelo
sistema
de
formas,
bem
como
pelos
padrões
frasais,
em
que
essas
formas
se ordenam na
comunicação
lingüística