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O ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
POESIA BUCÓLICA DE VIRGÍLIO, CALPÚRNIO
E NEMESIANO

Ivone da Silva Rebello(PC-Rio)

 

O POEMA BUCÓLICO

O poema bucólico é de origem muito remota, nascido num passado longínquo, quando o homem praticava a vida pastoril. Vários grupos de pastores e trabalhadores do campo habitavam as férteis regiões da Sicília e da Itália Meridional. Daí o bucolismo traduzir a esperança de uma época de paz, um canto de saudade. O culto ao campo fazia parte da vida pastoril greco-romana. Nesse ambiente rústico, poetas como Virgílio (época de Augusto – 63-14 d.C.), Calpúrnio (período neroniano – 54 a 68 d.C.) e Nemesiano (segunda metade do século III d.C.) foram capazes de unir temas ligados à natureza aos ideais políticos e sociais da época em que viveram. Virgílio, em seus poemas, visualizou a Idade de Ouro com todo o passado glorioso de Roma e louvou os méritos divinos do Imperador Otávio Augusto. Calpúrnio fez alusões ao Imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro em Roma. Seus poemas apresentam uma dimensão nacional, tendo como objetivo servir à causa de Roma. E, finalmente, Nemesiano, que dedica a sua obra aos filhos do Imperador Caro, sendo os seus poemas portadores de ecos de renovação político-social, aludindo também à Idade de Ouro.

 

TEÓCRITO, PAI DO GÊNERO BUCÓLICO

Teócrito, grande poeta grego, nascido em Siracusa, na Sicília, provavelmente em 270 a.C., é considerado o pai do gênero bucólico pelo fato de ter escrito, com grande mestria, poemas pastoris, onde camponeses, animais, campo foram “pintados com perfeita naturalidade. Os poemas bucólicos de Teócrito foram chamados de Idílios. Nessas composições figuram cinco elementos primordiais que fundamentam toda a obra: o pastor, a natureza, o canto bucólico, o amor e a mulher. A maioria dos Idílios tem como cenário a paisagem siciliana. Portanto, a arte de Teócrito fundamenta-se diretamente na realidade objetiva da natureza.

VIRGÍLIO E SEU ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
ÉPOCA DE AUGUSTO

Públio Virgílio Naro nasceu a 15 de outubro do ano 70 a.C., em Andes, perto de Mântua. Era filho de fazendeiro, tendo sido educado em Cremona.

O próprio poeta nos deixou pistas sobre o lugar do seu nascimento na IX Bucólica:

Vare, tuom nomen, superet modo Mantua nobis,

Mantua uae misere nimium uicina Cremonae,

cantantes sublime ferent ad sidera cycni.

(vv.27-29)

 

Varo, se Mântua nos restar, Mântua demasiado próxima,

ah!, da feliz Cremona, os cisnes, cantando levarão

teu nome sublime até os astros.

Virgílio foi um profundo conhecedor da terra que ele exalta, pois era filho de um pequeno proprietário de terras. Ele conhecia o outono com a maturação das uvas; o odor da terra fendida pelos ganchos da charrua; o forte hálito dos animais; os tosões aquecidos durante o dia todo pelo calor do sol; o aroma do vinho doce e do mel destilado durante os quentes verões.

O poeta também mostra a sua pretensão de ser o primeiro escritor latino a imitar a poesia pastoril de Teócrito:

Prima Syracosio dignata est ludere uersu

nostra, neque erubuit siluas habitare, Thalia.

Buc. VI,1-2

 

A minha Talia primeiro houve por bem divertir-se com

o verso siracusano, e não corou por habitar os bosques.

Em Roma, o poeta estabeleceu relações de amizade com importantes políticos como Polião, Mecenas, Vário e Cornélio e outros personagens ligados às letras como Cina, Valério Catão, Quintílio Varo, Propércio, Cornélio Galo, Horácio e outras importantes figuras do círculo literário.

Virgílio realizou uma viagem a Brindísio e, mais tarde, tendo viajado para Mégara, foi vítima de insolação por causa do calor abrasante. Resolveu, então, regressar a Atenas, mas por insistência do Imperador Augusto, volta à Itália. Porém, alguns dias após o seu desembarque em Brindísio, falece no dia 22 de setembro do ano 19 a.C., no consulado de Gneu Sêncio e Quinto Lucrécio. O seu corpo foi transportado para Nápoles e, antes de morrer, o poeta deixou redigido o seu próprio epitáfio:

Mântua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc

Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

 

Mântua me gerou, a Calábria me arrebatou, Partênope hoje

me possui; cantei as pastagens, os campos, os chefes.

O poeta ao falar em pascua está se referindo às Bucólicas, em rura, aos campos cultivados, às Geórgicas e em duces, a epopéia da Eneida.

Virgílio escreveu as Bucólicas aos 28 anos de idade, tendo levado três anos para compô-las. Elas foram inspiradas nos Idílios de Teócrito, onde pastores e camponeses figuram com suas canções, amores e sentimentos. Além de relatar a vida do campo, nelas aparecem projeções sobre a vida política e social, distanciadas do ambiente pastoril.

A poesia pastoril em Roma teve sólido crescimento. A Sicília, embora tenha sido província romana, não ficou sendo a sonhada terra do poeta. Virgílio a substitui pela distante e imaginária Arcádia, enquanto que Teócrito tinha diante de si o ambiente pastoril real. Neste ambiente criado por Virgílio, ele inclui a história de Roma, a estrela de César e Otaviano, como também suas idéias sobre a Idade de Ouro, expressando os seus sentimentos através dos pastores.

Virgílio, em suas Bucólicas I e IV, faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina. O poeta era partidário de César; era atraído não pela glória, mas também pela promessa de que poderia realizar o seu trabelho sob a paz de um regime político.

Em sua primeira Bucólica, o poeta alude aos acontecimentos políticos e sociais desencadeados após a vitória de Filipos, em 41, onde foram repartidas aos veteranos de terras na Gália Cisalpina, Cremona e Mântua; dentre essas terras, estava a propriedade de Virgílio. Mas Asínio Polião, amigo e protetor do poeta, conseguiu obter a revogação da sua expropriação, junto ao Imperador Augusto. Assim, o poeta, em seus versos, aponta para a triste situação de seus conterrâneos, a dor e a miséria dos deserdados e a sua feliz sorte de ter tido as suas terras poupadas.

En unquam patrios longo post tempore finis,

pauperis et tuguri congestum caespite culmen,

post aliquot, mea regna uidens, mirabor aristas?

Impius haec tam culta noualia miles habebit?

Barbarus has segetes? En quo discordia ciuis

produxit miseros! His nos conseuimus agros!

Buc. I, 67-72

 

Será que um dia, após longo tempo, reverei os territórios pátrios,

o teto da minha pobre choupana coberto de colmo e, mais tarde

revendo os meus domínios, encontrarei, surpreso, algumas espigas?

Um soldado ímpio possuirá estas terras tão cultivadas?

Um bárbaro, estas searas? Eis até onde a discórdia levou os cidadãos

infelizes! Para esses nós semeamos os campos!

 

Fortunate senex, ergo tua rura manebunt!

Buc. I, 46

 

Velho afortunado, então os teus campos permanecerão teus!

Uma das características da época de Augusto foi a valorização de temas relacionados à natureza, a volta aos ideais religiosos da Roma Antiga, o apoio, por parte do imperador, aos escritores da época e a paz social e política que pairava em todo o Império.

Na IV Bucólica, o poeta fala-nos da Idade de Ouro ligada ao nascimento de um menino. O poeta dirige-se ao cônsul Polião, anunciando o nascimento de uma criança, que governará e trará a Idade de Ouro a Roma.

magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.

Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;

iam noua progenies caelo demittitur alto.

Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum

desinet ac toto surget gens aurea mundo,

casta, faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.

Teque adeo decus hoc aeui ,te consule, inibit,

Pollio, et incipient magni procedere menses

te duce.

Buc. IV, 5-12

 

a grande série de séculos recomeça.

também retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno;

do alto céu é enviada uma nova geração.

Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce,

sob o qual primeiramente desaparecerá a raça de ferro

e surgirá no mundo inteiro a raça de ouro, reina o teu Apolo.

E esta honra do tempo começará e os grandes meses começarão

a suceder-se primeiramente sob o teu consulado, ó Polião,

sob o teu comando.

A instituição do culto ao Imperador, que muito influenciou a poesia da época de Augusto, foi o fundamento de toda política cultural augustana. Era de suma importância, para a coesão espiritual do grande império romano, a criação de uma religião estatal que fosse capaz de unir os diversos povos conquistados, principalmente os do Ocidente. Augusto desejava criar uma nova unidade cultural e religiosa entre os povos ocidentais e Roma.

Em 29 a.C., Augusto recebe oficialmente o título de deus e, em 27 a.C., o culto ao imperador torna-se público.

Assim, conforme nos diz Garsey e Saller,

El culto al gobernante fue el único culto romano que pasó a ser más o menos universal.

Cumplía tres funciones principales: la difusión de la ideología imperial, la concentración de la lealtad de los súbditos en el emperador y el progreso social y político de los provincianos que presidían su funcionamiento. (GARSEY et SALLER, 1991: 236)

Virgílio faz toda uma apoteose do reinado de Augusto,colocando-o na esfera divina:

O Meliboee, deus nobis haec otia fecit;

namque erit ille mihi semper deus;…

Buc. I, 6-7

 

Ó Melibeu, um deus nos concedeu estes ócios;

com efeito, ele será sempre um deus para mim;

Enfim, Virgílio é um inovador do gênero bucólico. Em seus versos além de apresentar o culto da terra, o amor ao campo e discutir os problemas existenciais do homem, também focaliza as transformações políticas e sociais de sua época.


 

CALPÚRNIO, UM POETA
A
SERVIÇO DO IMPÉRIO NERONIANO (54 – 68 d.C.)

Virgílio teve grande influência na obra de Calpúrnio que, ao escrever as suas Bucólicas, tomou-o como modelo.

Tito Calpúrnio Sículo, de quem quase nada sabemos, pois não existe entre os autores antigos notícia alguma sobre a sua vida, foi o autor de sete Bucólicas. Nesta sua obra, o poeta faz alusões ao imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro, em Roma. Daí colocarmos Calpúrnio como tendo vivido na corte de Nero, conforme afirma a maioria dos críticos.

Quanto ao sobrenome Siculus, numa explicação mais simples, indicaria a pátria do poeta, pois no manuscrito de Gerhard Johan Voss (Vossius) (1577-1649), o seu nome é acompanhado do sobrenome Sicilien, nos fazendo crer que o poeta era originário da Sicília; era costume dos autores de épocas remotas adotar como sobrenome, o nome de sua pátria. Quanto às funções ocupadas por Calpúrnio na Corte imperial, segundo Flávio Vopisco, na História Augusta, ele exercia o cargo de magister ou dictator memoriae, isto é, um dos secretários e arquivistas do imperador. Este posto exigia grande honestidade e muita instrução, e o titular devia estar sempre à disposição do imperador.

Acredita-se que a I Bucólica tenha sido escrita no início do governo de Nero, por volta do ano 54 ou 57 d.C. Esse novo governante, a quem estavam confiados os destinos de Roma, prometia voltar aos ideais de Augusto:

Na ânsia de dar uma idéia ainda mais nítida do seu caráter, após haver declarado “que reinaria de acordo com os princípios de Augusto”, não perdeu nenhuma ocasião de demonstrar a sua liberdade, sua clemência e até mesmo sua amabilidade. (SUETÔNIO, 1966: 187)

Não conhecemos, portanto, muitos detalhes sobre a vida do poeta, porém podemos presumir que ele se identifica atrás de seu personagem Coridão.

As Bucólicas I, IV e VII apresentam claramente a época de Nero, sendo, dentre as demais, as do caráter político.

Na Bucólica I, Fauno profetiza as glórias da Idade de Ouro, a qual estaria começando sob um governo que traria as leis passadas e a ordem, não importunaria o Senado e propiciaria uma pacífica religiosidade como nos dias de Numa Pompílio:

Aurea secura cum pace renascitur aetas,

Et redit ad terras tandem squalore situque

Alma Themis posito, juvenemque beata sequuntur

Secula, maternis causam qui lusit in ulnis.

Buc. I, 42-45

 

A Idade de Ouro renasce com tranqüila paz,

E finalmente, a propícia Têmis volta às terras, acabada

A aflição e a miséria, e os séculos felizes seguem

A um jovem, o qual mostrou com alegria a sua condignos

                                                                      [braços maternais.

 

Plena quies aderit, quae stricti nescia ferri

Altera Saturni revocet Latialia regna,

Altera regna Numae....

Buc. I, 63-65

 

Uma paz plena chegará, que, desconhecedora do ferro desembainhado

Restabelecerá os outros reinos latinos de Saturno,

Os outros reinos de Numae…

Além disso, o novo imperador compromete-se a defender a causa da mãe que deu origem à gens Iulia e o excêntrico Nero é visto como um Iulius, que fala do povo de Ílion, referindo-se à legendária vida de Enéias e seu filho. O poeta alude claramente ao discurso pronunciado