O ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
POESIA
BUCÓLICA
DE VIRGÍLIO, CALPÚRNIO
E NEMESIANO
Ivone da Silva Rebello(PC-Rio)
O
POEMA
BUCÓLICO
O
poema
bucólico
é de
origem
muito
remota,
nascido num
passado
longínquo,
quando
o
homem
praticava a
vida
pastoril.
Vários
grupos
de
pastores
e
trabalhadores
do
campo
habitavam as férteis
regiões
da Sicília e da Itália
Meridional.
Daí o bucolismo
traduzir
a
esperança
de uma
época
de
paz,
um
canto
de
saudade.
O
culto
ao
campo
fazia
parte
da
vida
pastoril
greco-romana.
Nesse
ambiente
rústico,
poetas
como
Virgílio (época
de
Augusto
– 63-14 d.C.), Calpúrnio (período
neroniano – 54 a 68 d.C.) e Nemesiano (segunda
metade
do
século
III d.C.) foram
capazes
de
unir
temas
ligados à
natureza
aos
ideais
políticos
e
sociais
da
época
em
que
viveram. Virgílio,
em
seus
poemas,
visualizou a
Idade
de
Ouro
com
todo
o
passado
glorioso
de Roma e louvou os
méritos
divinos
do
Imperador
Otávio
Augusto.
Calpúrnio fez
alusões
ao
Imperador
Nero, louvando o
reinado
deste
soberano
como
sendo o iniciador da
Idade
de
Ouro
em
Roma.
Seus
poemas
apresentam uma
dimensão
nacional,
tendo
como
objetivo
servir
à
causa
de Roma. E,
finalmente,
Nemesiano,
que
dedica a
sua
obra
aos
filhos
do
Imperador
Caro,
sendo os
seus
poemas
portadores
de
ecos
de renovação político-social, aludindo
também
à
Idade
de
Ouro.
TEÓCRITO,
PAI
DO
GÊNERO
BUCÓLICO
Teócrito,
grande
poeta
grego,
nascido
em
Siracusa, na Sicília, provavelmente
em
270 a.C., é considerado o
pai
do
gênero
bucólico
pelo
fato
de
ter
escrito,
com
grande
mestria,
poemas
pastoris,
onde
camponeses,
animais,
campo
foram “pintados”
com
perfeita
naturalidade.
Os
poemas
bucólicos
de Teócrito foram chamados de
Idílios.
Nessas
composições
figuram
cinco
elementos
primordiais
que
fundamentam
toda
a
obra:
o
pastor,
a
natureza,
o
canto
bucólico,
o
amor
e a
mulher.
A
maioria
dos
Idílios
tem
como
cenário
a
paisagem
siciliana.
Portanto,
a
arte
de Teócrito fundamenta-se
diretamente
na
realidade
objetiva
da
natureza.
VIRGÍLIO E
SEU
ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
ÉPOCA
DE
AUGUSTO
Públio Virgílio Naro
nasceu a 15 de
outubro
do
ano
70 a.C.,
em
Andes,
perto
de Mântua.
Era
filho
de
fazendeiro,
tendo sido educado
em
Cremona.
O
próprio
poeta
nos
deixou
pistas
sobre
o
lugar
do
seu
nascimento na IX
Bucólica:
Vare, tuom nomen, superet
modo
Mantua nobis,
Mantua uae misere nimium uicina Cremonae,
cantantes
sublime
ferent ad sidera cycni.
(vv.27-29)
Varo, se Mântua
nos
restar,
Mântua
demasiado
próxima,
ah!, da
feliz
Cremona,
os
cisnes,
cantando levarão
teu
nome
sublime
até
os
astros.
Virgílio foi
um
profundo
conhecedor
da
terra
que
ele
exalta,
pois
era
filho
de
um
pequeno
proprietário
de
terras.
Ele
conhecia o
outono
com
a maturação das
uvas;
o
odor
da
terra
fendida
pelos
ganchos
da
charrua;
o
forte
hálito
dos
animais;
os
tosões
aquecidos
durante
o
dia
todo
pelo
calor
do
sol;
o
aroma
do
vinho
doce
e do
mel
destilado
durante
os
quentes
verões.
O
poeta
também
mostra
a
sua
pretensão
de
ser
o
primeiro
escritor
latino
a
imitar
a
poesia
pastoril
de Teócrito:
Prima
Syracosio dignata est ludere uersu
nostra, neque erubuit siluas habitare, Thalia.
Buc.
VI,1-2
A
minha
Talia
primeiro
houve
por
bem
divertir-se
com
o
verso
siracusano, e
não
corou
por
habitar
os
bosques.
Em
Roma, o
poeta
estabeleceu
relações
de
amizade
com
importantes
políticos
como
Polião,
Mecenas,
Vário
e Cornélio e
outros
personagens
ligados às
letras
como
Cina, Valério Catão, Quintílio Varo, Propércio, Cornélio
Galo,
Horácio e outras
importantes
figuras
do
círculo
literário.
Virgílio realizou uma
viagem
a Brindísio e,
mais
tarde,
tendo
viajado
para
Mégara, foi
vítima
de
insolação
por
causa
do
calor
abrasante.
Resolveu,
então,
regressar
a Atenas,
mas
por
insistência
do
Imperador
Augusto,
volta
à Itália.
Porém,
alguns
dias
após
o
seu
desembarque
em
Brindísio, falece no
dia
22 de
setembro
do
ano
19 a.C., no
consulado
de Gneu Sêncio e
Quinto
Lucrécio. O
seu
corpo
foi transportado
para
Nápoles e,
antes
de
morrer,
o
poeta
deixou redigido o
seu
próprio
epitáfio:
Mântua
me
genuit, Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope; cecini pascua, rura, duces.
Mântua
me
gerou, a Calábria
me
arrebatou, Partênope
hoje
me
possui; cantei as
pastagens,
os
campos,
os
chefes.
O
poeta
ao
falar
em
pascua está se referindo às Bucólicas,
em
rura, aos
campos
cultivados, às Geórgicas e
em
duces, a
epopéia
da Eneida.
Virgílio escreveu as Bucólicas aos 28
anos
de
idade,
tendo
levado
três
anos
para
compô-las.
Elas
foram inspiradas
nos
Idílios
de Teócrito,
onde
pastores
e camponeses figuram
com
suas
canções,
amores
e
sentimentos.
Além
de
relatar
a
vida
do
campo,
nelas aparecem
projeções
sobre
a
vida
política
e
social,
distanciadas do
ambiente
pastoril.
A
poesia
pastoril
em
Roma teve
sólido
crescimento.
A Sicília,
embora
tenha sido
província
romana,
não
ficou sendo a sonhada
terra
do
poeta.
Virgílio a substitui
pela
distante
e
imaginária
Arcádia,
enquanto
que
Teócrito
tinha
diante
de
si
o
ambiente
pastoril
real.
Neste
ambiente
criado
por
Virgílio,
ele
inclui a
história
de Roma, a
estrela
de César e Otaviano,
como
também
suas
idéias
sobre
a
Idade
de
Ouro,
expressando os
seus
sentimentos
através
dos
pastores.
Virgílio,
em
suas
Bucólicas I e IV, faz
toda
uma
apoteose
do
reinado
de
Augusto,
colocando-o na
esfera
divina.
O
poeta
era
partidário
de César;
era
atraído
não
só
pela
glória,
mas
também
pela
promessa
de
que
poderia
realizar
o
seu
trabelho
sob
a
paz
de
um
regime
político.
Em
sua
primeira
Bucólica,
o
poeta
alude
aos
acontecimentos
políticos
e
sociais
desencadeados
após
a
vitória
de Filipos,
em
41,
onde
foram repartidas aos
veteranos
de
terras
na
Gália
Cisalpina,
Cremona
e Mântua;
dentre
essas
terras,
estava a
propriedade
de Virgílio.
Mas
Asínio Polião,
amigo
e
protetor
do
poeta,
conseguiu
obter
a
revogação
da
sua
expropriação,
junto
ao
Imperador
Augusto.
Assim,
o
poeta,
em
seus
versos,
aponta
para
a
triste
situação
de
seus
conterrâneos,
a
dor
e a
miséria
dos
deserdados
e a
sua
feliz
sorte
de
ter
tido as
suas
terras
poupadas.
En unquam patrios
longo
post tempore finis,
pauperis et tuguri congestum caespite culmen,
post aliquot, mea regna uidens, mirabor aristas?
Impius haec tam
culta
noualia
miles
habebit?
Barbarus has segetes? En quo discordia ciuis
produxit miseros! His
nos
conseuimus agros!
Buc.
I, 67-72
Será
que
um
dia,
após
longo
tempo,
reverei os
territórios
pátrios,
o
teto
da
minha
pobre
choupana
coberto
de
colmo
e,
mais
tarde
revendo os
meus
domínios,
encontrarei,
surpreso,
algumas
espigas?
Um
soldado
ímpio
possuirá estas
terras
tão
cultivadas?
Um
bárbaro,
estas
searas?
Eis
até
onde
a
discórdia
levou os
cidadãos
infelizes!
Para
esses
nós
semeamos os
campos!
Fortunate senex, ergo tua rura manebunt!
Buc.
I, 46
Velho
afortunado,
então
os
teus
campos
permanecerão
teus!
Uma das
características
da
época
de
Augusto
foi a valorização de
temas
relacionados à
natureza,
a
volta
aos
ideais
religiosos
da Roma
Antiga,
o
apoio,
por
parte
do
imperador,
aos
escritores
da
época
e a
paz
social
e
política
que
pairava
em
todo
o
Império.
Na IV
Bucólica,
o
poeta
fala-nos da
Idade
de
Ouro
ligada
ao nascimento de
um
menino.
O
poeta
dirige-se ao
cônsul
Polião, anunciando o nascimento de uma
criança,
que
governará e trará a
Idade
de
Ouro
a Roma.
magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.
Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;
iam noua progenies caelo demittitur
alto.
Tu
modo
nascenti puero, quo ferrea primum
desinet ac toto surget gens aurea
mundo,
casta,
faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.
Teque adeo decus hoc aeui ,te
consule, inibit,
Pollio, et incipient magni procedere menses
te
duce.
Buc.
IV, 5-12
a
grande
série
de
séculos
recomeça.
Já
também
retorna
a
Virgem,
voltam os
reinos
de
Saturno;
do
alto
céu
já
é
enviada
uma
nova
geração.
Tu
somente,
casta
Lucina, favorece ao
menino
que
nasce,
sob
o
qual
primeiramente
desaparecerá a
raça
de
ferro
e surgirá no
mundo
inteiro
a
raça
de
ouro,
já
reina
o
teu
Apolo.
E esta
honra
do
tempo
começará e os
grandes
meses começarão
a suceder-se
primeiramente
sob
o
teu
consulado,
ó Polião,
sob
o
teu
comando.
A
instituição
do
culto
ao
Imperador,
que
muito
influenciou a
poesia
da
época
de
Augusto,
foi o
fundamento
de
toda
política
cultural augustana.
Era
de
suma
importância,
para
a
coesão
espiritual
do
grande
império
romano,
a
criação
de uma
religião
estatal
que
fosse
capaz
de
unir
os
diversos
povos
conquistados,
principalmente
os do
Ocidente.
Augusto
desejava
criar
uma
nova
unidade
cultural e
religiosa
entre
os
povos
ocidentais
e Roma.
Em
29 a.C.,
Augusto
recebe
oficialmente
o
título
de
deus
e,
em
27 a.C., o
culto
ao
imperador
torna-se
público.
Assim,
conforme
nos
diz Garsey e Saller,
El
culto
al gobernante fue el
único
culto
romano
que
pasó a
ser
más o
menos
universal.
Cumplía tres funciones
principales:
la difusión de la ideología imperial, la concentración de la lealtad de los
súbditos en el emperador y el progreso
social
y
político
de los provincianos
que
presidían su funcionamiento. (GARSEY
et SALLER, 1991: 236)
Virgílio faz
toda
uma
apoteose
do
reinado
de
Augusto,colocando-o
na
esfera
divina:
O Meliboee,
deus
nobis haec otia fecit;
namque erit ille mihi semper
deus;…
Buc.
I, 6-7
Ó Melibeu,
um
deus
nos
concedeu
estes
ócios;
com
efeito,
ele
será
sempre
um
deus
para
mim;
Enfim,
Virgílio é
um
inovador
do
gênero
bucólico.
Em
seus
versos
além
de
apresentar
o
culto
da
terra,
o
amor
ao
campo
e
discutir
os
problemas
existenciais do
homem,
também
focaliza as transformações
políticas
e
sociais
de
sua
época.
CALPÚRNIO,
UM
POETA
A
SERVIÇO
DO
IMPÉRIO
NERONIANO (54 – 68 d.C.)
Virgílio teve
grande
influência
na
obra
de Calpúrnio
que,
ao
escrever
as
suas
Bucólicas, tomou-o
como
modelo.
Tito Calpúrnio Sículo,
de
quem
quase
nada
sabemos,
pois
não
existe
entre
os
autores
antigos
notícia
alguma
sobre
a
sua
vida,
foi o
autor
de
sete
Bucólicas. Nesta
sua
obra,
o
poeta
faz
alusões
ao
imperador
Nero, louvando o
reinado
deste
soberano
como
sendo o iniciador da
Idade
de
Ouro,
em
Roma. Daí colocarmos Calpúrnio
como
tendo
vivido
na
corte
de Nero,
conforme
afirma a
maioria
dos
críticos.
Quanto
ao
sobrenome
Siculus, numa
explicação
mais
simples,
indicaria a
pátria
do
poeta,
pois
no
manuscrito
de Gerhard Johan
Voss
(Vossius) (1577-1649), o
seu
nome
é
acompanhado
do
sobrenome
Sicilien,
nos
fazendo
crer
que
o
poeta
era
originário
da Sicília;
era
costume
dos
autores
de
épocas
remotas
adotar
como
sobrenome,
o
nome
de
sua
pátria.
Quanto
às
funções
ocupadas
por
Calpúrnio na
Corte
imperial,
segundo
Flávio Vopisco, na
História
Augusta,
ele
exercia o
cargo
de magister
ou
dictator memoriae,
isto
é,
um
dos
secretários
e
arquivistas
do
imperador.
Este
posto
exigia
grande
honestidade
e
muita
instrução,
e o
titular
devia
estar
sempre
à
disposição
do
imperador.
Acredita-se
que
a I
Bucólica
tenha sido
escrita
no
início
do
governo
de Nero,
por
volta
do
ano
54
ou
57 d.C.
Esse
novo
governante,
a
quem
estavam confiados os
destinos
de Roma, prometia
voltar
aos
ideais
de
Augusto:
Na
ânsia
de
dar
uma
idéia
ainda
mais
nítida
do
seu
caráter,
após
haver
declarado “que
reinaria de
acordo
com
os
princípios
de
Augusto”,
não
perdeu nenhuma
ocasião
de
demonstrar
a
sua
liberdade,
sua
clemência
e
até
mesmo
sua
amabilidade.
(SUETÔNIO, 1966: 187)
Não conhecemos,
portanto,
muitos
detalhes
sobre a
vida do
poeta,
porém podemos
presumir
que
ele se identifica
atrás de
seu
personagem Coridão.
As Bucólicas I, IV e VII apresentam
claramente a
época de Nero, sendo,
dentre as
demais, as do
caráter
político.
Na
Bucólica
I,
Fauno
profetiza as
glórias
da
Idade
de
Ouro,
a
qual
estaria começando
sob
um
governo
que
traria as
leis
passadas
e a
ordem,
não
importunaria o
Senado
e propiciaria uma
pacífica
religiosidade
como
nos
dias
de Numa Pompílio:
Aurea
secura
cum pace renascitur aetas,
Et redit ad
terras
tandem squalore situque
Alma
Themis posito, juvenemque
beata
sequuntur
Secula, maternis causam qui lusit in ulnis.
Buc.
I, 42-45
A
Idade
de
Ouro
renasce
com
tranqüila
paz,
E
finalmente,
a
propícia
Têmis
volta
às
terras,
acabada
A
aflição
e a
miséria,
e os
séculos
felizes
seguem
A
um
jovem,
o
qual
mostrou
com
alegria
a
sua
condignos
[braços
maternais.
Plena
quies aderit, quae stricti nescia ferri
Altera Saturni revocet Latialia regna,
Altera regna Numae....
Buc.
I, 63-65
Uma
paz
plena
chegará,
que,
desconhecedora do
ferro
desembainhado
Restabelecerá os
outros
reinos
latinos
de
Saturno,
Os
outros
reinos
de Numae…
Além
disso, o
novo
imperador
compromete-se a
defender
a
causa
da
mãe
que
deu
origem
à gens Iulia e o
excêntrico
Nero é
visto
como
um
Iulius,
que
fala
do
povo
de Ílion, referindo-se à
legendária
vida
de Enéias e
seu
filho.
O
poeta
alude
claramente
ao
discurso
pronunciado
por
Nero
em
defesa
dos
habitantes
de Ílion (Buc. I, 50-73):
...Nullos jam Roma Philippos
Deflebit, nullos ducet captiva triumphos.
Omnia Tartareo subigentur carcere bella,
……………………………………………
Plena
quies aderit, quae stricti nescia ferri
Altera Saturni revocet Latialia regna,
Altera regna Numae....
......................................................................
Jam nec adumbrati faciem mercatus honoris,
Nec vacuos tacitus fasces, et
inane
tribunal
Adcipiet consul: sed legibus omne reductis
Jus
aderit, moremque fori vultumque priorem
Reddet, et adflictum melior
deus
auferet aevum.
Buc.
I, 50-52; 63-65; 69-73
...Agora
Roma
não
mais
chorará
Alguns
Felipes,
não
mais
celebrará,
cativa,
quaisquer
triunfos.
Todas as
guerras
serão
subjugadas na
prisão
do
Tártaro,
.........................................................................................
Uma
paz
plena
chegará,
que,
desconhecedora do
ferro
desembainhado,
Restabelecerá os
outros
reinos
Latinos
de
Saturno,
Os
outros
reinos
de Numa,...
................................................................................
Então,
a
cúria
não
aceitará a
aparência
de uma
falsa
cerimônia
Nem
o
cônsul
calado
aceitará os
feixes
inconstantes,
e o
Tribunal
inútil:
aproximar-se-á,
porém,
toda
justiça
Das
leis
feitas,
e
um
deus
melhor
restituirá o
costume
E a
imagem
antiga
do
Foro,
e afastará a
geração
aflita.
Tal
referência
é encontrada
em
Tácito
e
em
Suetônio:
No
consulado
de D. Júnio e Q. Hatério, Nero, aos dezessete
anos
de
idade,
casou-se
com
Otávia,
filha
de Cláudio; e
para
que
também
com
a
glória
da
eloqüência
e de
honrosos
estudos
se ilustrasse, tomou a
causa
dos
habitantes
de
Ílio,
donde
era
provindo o
povo
romano
e Enéias,
estirpe
da
família
Júlia; e
memorando
fatos
quase
fabulosos
por
sua
antigüidade, obteve
para
eles
isenção
de quaisquer
encargos
públicos.
(TÁCITO,
1964)
Conduzido ao “Forum”
para
aí
tomar
a
toga,
prometeu uma
distribuição
ao
povo
e uma
gratificação
aos
soldados.
Numa
revista
aos pretorianos, colocou-se à
frente
destes
com
um
escudo
na
mão.
Depois,
solicitou ao
Senado,
ações
de
graça
para
seu
pai
adotivo.
Defendeu,
diante
dele,
então
cônsul,
em
latim,
os
habitantes
de Bolonha e,
em
grego,
os de Rodes e de Ílion. (SUETÔNIO, 1966: 187)
Enfim,
um
cometa
aparece no
céu,
o
qual
foi
assinalado
por
Suetônio e Plínio e interpretado
como
anunciador da
morte
de Cláudio,
em
13 de
outubro
do
ano
54:
Cernitis, ut
puro
nox jam vigesima coelo
Fulgeat? ut placidum radianti luce cometem
Proferat? ut liquidum mittat sine vulnere sidus?
Buc.
I, 77-79
Vês,
como
já
a
vigésima
noite
brilha
no
céu
Sereno?
como
mostra
o faiscante
cometa
com
radiante
Luz?
como
esteja enviando
um
astro
límpido
sem
[desgraça?
Os
maiores
presságios
da
sua
morte
foram: a
aparição
duma dessas
estrelas
de
cabeleira
a
que
chamam de
cometa.
A
queda
dum
raio
no
túmulo
do
seu
pai
Druso. E a
morte,
no
mesmo
ano
que
a dele da
maior
parte
dos
magistrados.
(SUETÔNIO, 1966: 183)
Calpúrnio termina o
poema
na
esperança
de
que
os
seus
versos
cheguem aos
ouvidos
do
príncipe,
através
do
pastor
Melibeu:
Forsitan Augustas feret haec Meliboeus ad aures.
Buc.
I, 94
Talvez
Melibeu
leve
estes
(poemas)
aos
ouvidos
Augustos.
A IV
Bucólica
(escrita,
provavelmente, na
mesma
época
da I
Bucólica)
se apresenta
como
uma
poesia
essencialmente
política.
Calpúrnio, disfarçado no
personagem
Coridão,
deseja
que
seu
protetor
Melibeu
leve
sua
obra
à
Corte
de Nero e agradece a Melibeu
por
tê-lo tirado da
pobreza
e evitado
seu
exílio
até
os
confins
do
mundo.
Toda
a
segunda
parte
do
poema
consiste num
elogio
a Nero, apresentando os
seus
divinos
poderes.
COR.
Carmina jam dudum, non quae nemorale resultent,
Volvimus, o Meliboee; sed haec, quibus aurea
possint
Secula cantari, quibus et
deus
ipse canatur,
Qui populos urbemque regit, pacemque togatam.
................................................................................
Scilicet
extremo
nunc uilis in
orbe
iacerem,
Ah dolor! et pecudes inter conductus Iberas,
...............................................................................
At mihi, qui nostras praesenti numine
terras,
Perpetuamque regit juvenili robore pacem,
Laetus, et
Augusto
felix adrideat ore.
................................................................................
AM. Dii, precor, hunc juvenem,
quem
vos
(nisi fallor) ab [ipso
Aethere misistis, post
longa
reducite vitae
Tempora, vel potius mortale resoluite pensum,
Et date perpetuo coelestia
fila
metallo:
Sit
deus,
et nolit pensare Palatia coelo
Buc.
IV, 5-8; 43-41; 84-86; 137-141
COR.
Já
há
muito
tempo,
ó Melibeu, meditamos
em
versos,
não
os
que
Ressoam de
forma
pastoril;
mas
naqueles,
pelos
quais
os
Séculos
de
Ouro
Possam
ser
celebrados, e
pelos
quais
possa
ser
cantado o
próprio
deus,
Que
rege os
povos
e a
cidade,
e a
paz
romana
....................................................................................................
Naturalmente
eu
agora
jazeria
desprezível
num
longínquo
mundo,
Ah
dor!
e conduzido
entre
as
ovelhas
Iberas,
................................................................................................
A
mim,
porém,
agrada
(cantar)
aquele
que
governa
as nossas
terras,
Com
a
divindade
propícia
e dirige
com
a
sua
força
juvenil
uma
paz
Perpétua,
alegre,
e
feliz
com
face
Augusta.
....................................................................................................
AM.
Deuses,
eu
suplico, reconduzi
este
jovem,
que
vós
(se
eu
não
me
engano)
Do
próprio
Éter
enviaste,
após
longos
tempos
De
vida,
ou
antes
cortai o
fio
mortal,
E dai-lhe
fios
celestes
com
um
metal
duradouro:
Que
ele
seja
um
deus,
e
não
queira
trocar
seus
Palácios
pelo
céu
Além
disso, o
poeta
faz
referência
à
nova
legislação
que
seria implantada
pelo
novo
soberano.
Tácito,
nos
seus
Anais,
descreve
um
presságio
ocorrido nessa
época:
Nesse
ano
a
figueira
Ruminal, na
praça
dos
comícios,
que
oitocentos e trinta
anos
antes
abrigara a
infância
de Rômulo e
Remo,
perdeu
toda
ramagem,
secando-se-lhe o
tronco;
mas
tornou a
brotar
depois,
o
que
foi tido
como
prodígio.
(TÁCITO,
s.d. : 209-210)
Na VII
Bucólica,
o
pastor
Coridão é o
próprio
Calpúrnio
que
esteve
em
Roma e faz uma
grande
descrição
da
cidade,
a
fim
de
mostrar
a
beleza
e a
majestade
que
pairavam
em
Roma no
tempo
de Nero. O
poeta
descreve de
modo
maravilhoso
o
anfiteatro
de
madeira
construído
por
Nero no
ano
57 d.C., no
Campo
de
Marte
(vv. 37-38). Daí acreditar-se
que
esta
bucólica
tenha sido
escrita
nessa
época.
Tácito
e Suetônio fazem
alusão
a
este
edifício:
Do
consulado
de Nero,
pela
segunda
vez,
e L. Pison
pouco
há de
narrar,
a
não
ser
que
se apraza
alguém
em
encher
volumes
com
elogios
aos
fundamentos
e
armações
de
um
anfiteatro
construído
por
César no
Campo
de
Marte;...
(TÁCITO,
s.d.: 199)
E
quando
do
combate
de
gladiadores,
que
se verificou num
anfiteatro
de
madeira,
construído
no
espaço
dum
ano,
no
bairro,
do
Campo
de
Marte,
não
mandou
matar
ninguém,
nem
mesmo
entre
os
criminosos.
(SUETÔNIO, [s/d]: 188)
...Stabam defixus et ore parenti
cunctaque mirabar nec dum bona singula noram.
Buc.
VII, 37-38
...Permanecia
imóvel
e
boquiaberto
e admirava todas as
coisas
em
conjunto,
e
não
percebendo
[cada
uma dessas belas
coisas
em
particular.
A
datação
desta
bucólica
também
pode
ser
dilatada
para
o
ano
63,
devido
à
alusão
aos
lugares
reservados
aos
cavaleiros
romanos,
segundo
uma
lei
estabelecida
por
Nero neste
mesmo
ano:
Designou
para
os
cavaleiros
romanos
lugares
adiante
dos da
plebe,
no
circo;
até
aquela
data,
eles
ficavam confundidos,
porquanto
a
lei
Róscia
não
dispunha
senão
a
respeito
das quatorze primeiras
filas
de
lugares
no
teatro.
(TÁCITO,
s.d.: 244)
Nam quaecumque patent sub
aperto
libera coelo,
aut eques aut niuei loca densauere tribuni.
Buc.
VII, 28-29
No
entanto,
todos
aqueles
lugares
que
se apresentam
livres
[sob
o
céu
aberto,
ou
os
cavaleiros
os ocuparam
ou
os
tribunos
vestidos
de
branco.
Além
dos
versos
acima,
temos uma belíssima
descrição
do
anfiteatro
e dos
jogos
patrocinados
pelo
imperador,
o
qual,
segundo
o
texto
(vv. 23-72; 82-84), se fazia
presente
nos
espetáculos:
...utcumque tamen conspeximus ipsum
longius; ac nisi
me
decepit uisus, in
uno
et Martis vultus et Apollinis
esse
putaui.
Buc.
VII, 82-84
...de
qualquer
maneira,
porém,
nós
o vimos
muito
longe;
e se a
minha
vista
não
me
iludiu, ao
mesmo
tempo
julguei
ver
não
só
o
rosto
de
Marte
mas
também
o de Apolo.
O
poeta
canta,
portanto,
a Roma neroniana, embriagada
pelo
luxo
imperial; descreve de
modo
maravilhoso
o
anfiteatro
de
madeira
construído
pelo
soberano,
no
ano
57 d.C.
Todo
esse
lirismo
em
tom
político
é explorado
por
Calpúrnio, imitando Vergílio,
que
com
grande
sensibilidade
soube
louvar
os
méritos
divinos
do
imperador
Augusto.
E Calpúrnio apresenta nas Bucólicas I, IV e VII
um
Nero
também
divinizado
que,
ao
assumir
o
poder,
prometeu
seguir
os
passos
de Otávio
Augusto.
Assim,
na I
Bucólica,
Calpúrnio assemelha Nero ao
Sol
soberano
e, às
vezes,
aos
deuses
Apolo e
Júpiter.
As
composições
de Calpúrnio fazem
parte
da “descendência
do
lirismo
latino”
(GRIMAL, 1978: 163), cujas raízes vêm
desde
Virgílio,
com
uma
linguagem
nova,
numa
tentativa
de colocar-se
como
uma
obra
que
representaria a
época
de
um
soberano
que
traria uma
nova
política
ao
interior
de Roma.
NEMESIANO,
UM
POETA
DO
SEU
TEMPO
Marco
Aurélio Olímpio Nemesiano viveu na
segunda
metade
do III
século
de
nossa
era,
aproximadamente no
tempo
do
Imperador
Caro.
Época
de
grandes
transformações e
acontecimentos,
quando
o
Império
Romano
vive
em
meio
a
turbulências
políticas
externas
e internas.
Nesse
ambiente,
surge Nemesiano, nascido
em
Cartago (África), o
qual
assume
um
lugar
de
relevância
nesta
fase,
pois
foi o
mais
notável
poeta
deste
século
tão
pobre
de
poesia.
Tal
reputação
foi favorecida
quando
Numeriano, considerado
bom
poeta
na
época,
filho
do
Imperador
Caro,
ocupa o
Império
e promove
um
concurso
poético, no
qual
participa Nemesiano.
A
vida
de Nemesiano é
obscura,
no
entanto,
o
melhor
testemunho
que
temos é o de Flávio Vopisco,
em
sua
História
Augusta,
onde
o historiador
nos
diz:
Ele
(Numeriano)
tinha,
diz a
fama
,
um
tal
talento
que
o elevou
sobre
todos
os
poetas
de
seu
tempo.
Com
efeito,
rivalizou
com
Olímpio Nemesiano,
autor
das Heliêuticas, Cinegéticas e
Náuticas,
que
se distinguiu
pelo
brilho
de todas as
cores
de
sua
poesia.
Caro,
11-2
Assim,
é
certo
que
o
poeta
viveu no III
século,
já
que
o
Imperador
Numeriano morreu
em
284.
Porém,
não
podemos
precisar
a
data
de
seu
nascimento
ou
de
sua
morte,
embora
haja
indícios
de
que
o
poeta
tenha nascido no
ano
258,
sob
o
reinado
de Valeriano, e falecido no de Diocleciano.
Quanto
ao
sobrenome
Nemesiano,
este
tinha
sido herdado de
seus
antepassados,
que
eram de Nemésio,
cidade
da Líbia. O
seu
nome
de
família,
segundo
a
opinião
de
alguns
críticos,
é Olímpio.
Já
Marco
Aurélio, é
provável
que
seus
pais
tenham
lhe
dado
esse
nome,
por
ser
comum,
em
Roma,
dar
aos
filhos
nomes
de
pessoas
famosas.
Seguindo os
passos
de Virgílio, escreveu
quatro
Bucólicas e
um
poema
didático
em
homenagem
aos
filhos
de
Caro
- Numeriano e Carino.
As
quatro
bucólicas apresentam
reminiscências
Clássicas,
fineza
de
gosto
e
estilo,
utilização
de
recursos
helenísticos
como
o hexâmetro,
motivos
mitológicos
e
cultos
campestres.
As Bucólicas incorporam
temas
pastoris tradicionais: o
lamento
pela
morte
de
um
velho
pastor
poeta,
pastores
rivais
cantando
louvores
a
seus
respectivos
amores,
Pã aparecendo a
alguns
pastores
e uma competição de
canto
entre
dois
pastores.
Muitos
estudiosos
têm
visto
estes
poemas
como
certa
referência
aos
programas
de
restauração
do
Império
atribuídos ao
Imperador
Caro
e a
seus
filhos.
A
primeira
Bucólica
parece
apresentar
um
elogio
a
certa
personalidade
política,
que
conseguiu
instalar
o
direito
e a
paz
em
toda
a
província
que,
na
época,
pertencia a Roma; pairava,
então,
o
ideal
da
paz
romana.
Sub
te
ruris
amor,
sub
te
reuerentia iuris
floruit, ambiguos signauit terminus agros
Buc.
I, 54-55
Sob
tua
autoridade
floresceu o
amor
ao
campo,
sob
teu
poder,
a
reverência
da
justiça,
o
limite
marcou os
campos
duvidosos.
Longa
tibi cunctisque diu spectata senectus
felicesque anni nostrique nouissimus aeui
circulus innocuae clauserunt tempora uitae.
Nec minus hinc nobis gemitus lacrimaeque fuere
quam
si
florentes
mors
inuida carperet annos,
nec tenuit
tales
communis
causa
querelas.
Buc.
I, 43-48
Uma velhice
longa,
por
muito
tempo,
notável
para
ti
e
para
todos
os
anos
felizes
e o
último
círculo
de
nosso
tempo
encerram as
etapas
de uma
vida
irrepreensível
Não
tivemos
desde
então
menos
gemidos
e
lágrimas
do
que
se a
morte
invejosa
te
arrancasse os
anos
em
flor,
a
sorte
comum
não
reteve
tais
querelas.
Enfim,
Nemesiano,
como
seus
precursores,
recebeu
influências
da
poesia
helenística,
pois
escrevia
nos
moldes
clássicos.
Apresenta
linguagem
clara,
perfeição
na
utilização
do hexâmetro e do
canto
amebeu, dando
importância
aos
deuses
campestres
e,
através
de uma
linguagem
metafórica, apresenta
um
ideal
político
onde
sobrevivia
lado
a
lado
a
paz
romana
e o otium poético.
CONCLUSÃO
Virgílio, Calpúrnio e Nemesiano
são
poetas
líricos,
pois
utilizaram o
mesmo
processo
de estruturação,
ou
seja, o
discurso
lírico.
Contudo,
cada
um
deles vai
apresentar
uma
manifestação
diferente
do
mesmo
discurso,
através
das
diferentes
imagens
de
mundo.
Virgílio,
em
suas
Bucólicas I e IV, faz
toda
uma
apoteose
do
reinado
de
Augusto,
colocando-o na
esfera
divina.
Neste
ambiente
pastoril,
o
poeta
inclui a
história
de Roma, a
estrela
de César e Otaviano,
como
também
suas
idéias
sobre
a
Idade
de
Ouro.
Otávio simbolizava
um
mundo
novo.
Roma será a
primeira
Vrbs a
afirmar
sua
dignitas. E Virgílio se une aos
valores
tradicionais do
espírito
romano,
colocando as
suas
Bucólicas na
esfera
político-social.
Toda
política
de revalorização dos
antigos
costumes
é
posta
em
sua
obra,
de
maneira
a
fazer
ressaltar
as
qualidades
do
governante.
Em
sua
exaltação
a
Augusto,
o
poeta
está celebrando o
povo
romano
em
meio
à
vida
no
campo.
Calpúrnio,
em
suas Bucólicas, está
muito ligado à
vida
política e esta acha-se
presente,
principalmente, nas Bucólicas I, IV e VII,
que louvam as
qualidades do
Imperador Nero. Estas
composições anunciam
que a
nova
Idade de
Ouro havia
chegado a Roma, trazendo a
paz, a
justiça e a
ordem; o “deus”, de
que Calpúrnio
fala, regerá o
povo
romano
conforme os
tempos de Numa e do “divo”
Augusto.
Estes
poemas apresentam
um
vínculo
entre a
Natureza e o
Imperador
que ascende.
Em
torno dessa
apoteose, Calpúrnio abre as
suas Bucólicas
com
um Nero “em
majestade”.
Esse
novo
soberano prenunciava
um
sentimento de renovação
que
vinha
satisfazer os
ideais de
um “novo
século”.
Finalmente, Nemesiano
fecha a
tradição das Bucólicas, colocando
seus
poemas
como
um
marco de renovação do
Império
que surgia
sob o
comando do
Imperador
Caro e
seus
filhos Numeriano e Carino.
Sabemos,
pois,
que os
fatos
históricos influem na
obra
literária
pelo
simples
fato de
não
poder esta
existir
fora do
tempo.
Em
suma,
esses
três
poetas da
Literatura
Latina exploraram
com
grande
habilidade os
cânones do
lirismo
bucólico, dando a
eles
um
tom político-social.
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