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O ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
POESIA BUCÓLICA DE VIRGÍLIO, CALPÚRNIO
E NEMESIANO

Ivone da Silva Rebello(PC-Rio)

 

O POEMA BUCÓLICO

O poema bucólico é de origem muito remota, nascido num passado longínquo, quando o homem praticava a vida pastoril. Vários grupos de pastores e trabalhadores do campo habitavam as férteis regiões da Sicília e da Itália Meridional. Daí o bucolismo traduzir a esperança de uma época de paz, um canto de saudade. O culto ao campo fazia parte da vida pastoril greco-romana. Nesse ambiente rústico, poetas como Virgílio (época de Augusto – 63-14 d.C.), Calpúrnio (período neroniano – 54 a 68 d.C.) e Nemesiano (segunda metade do século III d.C.) foram capazes de unir temas ligados à natureza aos ideais políticos e sociais da época em que viveram. Virgílio, em seus poemas, visualizou a Idade de Ouro com todo o passado glorioso de Roma e louvou os méritos divinos do Imperador Otávio Augusto. Calpúrnio fez alusões ao Imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro em Roma. Seus poemas apresentam uma dimensão nacional, tendo como objetivo servir à causa de Roma. E, finalmente, Nemesiano, que dedica a sua obra aos filhos do Imperador Caro, sendo os seus poemas portadores de ecos de renovação político-social, aludindo também à Idade de Ouro.

 

TEÓCRITO, PAI DO GÊNERO BUCÓLICO

Teócrito, grande poeta grego, nascido em Siracusa, na Sicília, provavelmente em 270 a.C., é considerado o pai do gênero bucólico pelo fato de ter escrito, com grande mestria, poemas pastoris, onde camponeses, animais, campo foram “pintados com perfeita naturalidade. Os poemas bucólicos de Teócrito foram chamados de Idílios. Nessas composições figuram cinco elementos primordiais que fundamentam toda a obra: o pastor, a natureza, o canto bucólico, o amor e a mulher. A maioria dos Idílios tem como cenário a paisagem siciliana. Portanto, a arte de Teócrito fundamenta-se diretamente na realidade objetiva da natureza.

VIRGÍLIO E SEU ENGAJAMENTO POLÍTICO-SOCIAL
NA
ÉPOCA DE AUGUSTO

Públio Virgílio Naro nasceu a 15 de outubro do ano 70 a.C., em Andes, perto de Mântua. Era filho de fazendeiro, tendo sido educado em Cremona.

O próprio poeta nos deixou pistas sobre o lugar do seu nascimento na IX Bucólica:

Vare, tuom nomen, superet modo Mantua nobis,

Mantua uae misere nimium uicina Cremonae,

cantantes sublime ferent ad sidera cycni.

(vv.27-29)

 

Varo, se Mântua nos restar, Mântua demasiado próxima,

ah!, da feliz Cremona, os cisnes, cantando levarão

teu nome sublime até os astros.

Virgílio foi um profundo conhecedor da terra que ele exalta, pois era filho de um pequeno proprietário de terras. Ele conhecia o outono com a maturação das uvas; o odor da terra fendida pelos ganchos da charrua; o forte hálito dos animais; os tosões aquecidos durante o dia todo pelo calor do sol; o aroma do vinho doce e do mel destilado durante os quentes verões.

O poeta também mostra a sua pretensão de ser o primeiro escritor latino a imitar a poesia pastoril de Teócrito:

Prima Syracosio dignata est ludere uersu

nostra, neque erubuit siluas habitare, Thalia.

Buc. VI,1-2

 

A minha Talia primeiro houve por bem divertir-se com

o verso siracusano, e não corou por habitar os bosques.

Em Roma, o poeta estabeleceu relações de amizade com importantes políticos como Polião, Mecenas, Vário e Cornélio e outros personagens ligados às letras como Cina, Valério Catão, Quintílio Varo, Propércio, Cornélio Galo, Horácio e outras importantes figuras do círculo literário.

Virgílio realizou uma viagem a Brindísio e, mais tarde, tendo viajado para Mégara, foi vítima de insolação por causa do calor abrasante. Resolveu, então, regressar a Atenas, mas por insistência do Imperador Augusto, volta à Itália. Porém, alguns dias após o seu desembarque em Brindísio, falece no dia 22 de setembro do ano 19 a.C., no consulado de Gneu Sêncio e Quinto Lucrécio. O seu corpo foi transportado para Nápoles e, antes de morrer, o poeta deixou redigido o seu próprio epitáfio:

Mântua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc

Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

 

Mântua me gerou, a Calábria me arrebatou, Partênope hoje

me possui; cantei as pastagens, os campos, os chefes.

O poeta ao falar em pascua está se referindo às Bucólicas, em rura, aos campos cultivados, às Geórgicas e em duces, a epopéia da Eneida.

Virgílio escreveu as Bucólicas aos 28 anos de idade, tendo levado três anos para compô-las. Elas foram inspiradas nos Idílios de Teócrito, onde pastores e camponeses figuram com suas canções, amores e sentimentos. Além de relatar a vida do campo, nelas aparecem projeções sobre a vida política e social, distanciadas do ambiente pastoril.

A poesia pastoril em Roma teve sólido crescimento. A Sicília, embora tenha sido província romana, não ficou sendo a sonhada terra do poeta. Virgílio a substitui pela distante e imaginária Arcádia, enquanto que Teócrito tinha diante de si o ambiente pastoril real. Neste ambiente criado por Virgílio, ele inclui a história de Roma, a estrela de César e Otaviano, como também suas idéias sobre a Idade de Ouro, expressando os seus sentimentos através dos pastores.

Virgílio, em suas Bucólicas I e IV, faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina. O poeta era partidário de César; era atraído não pela glória, mas também pela promessa de que poderia realizar o seu trabelho sob a paz de um regime político.

Em sua primeira Bucólica, o poeta alude aos acontecimentos políticos e sociais desencadeados após a vitória de Filipos, em 41, onde foram repartidas aos veteranos de terras na Gália Cisalpina, Cremona e Mântua; dentre essas terras, estava a propriedade de Virgílio. Mas Asínio Polião, amigo e protetor do poeta, conseguiu obter a revogação da sua expropriação, junto ao Imperador Augusto. Assim, o poeta, em seus versos, aponta para a triste situação de seus conterrâneos, a dor e a miséria dos deserdados e a sua feliz sorte de ter tido as suas terras poupadas.

En unquam patrios longo post tempore finis,

pauperis et tuguri congestum caespite culmen,

post aliquot, mea regna uidens, mirabor aristas?

Impius haec tam culta noualia miles habebit?

Barbarus has segetes? En quo discordia ciuis

produxit miseros! His nos conseuimus agros!

Buc. I, 67-72

 

Será que um dia, após longo tempo, reverei os territórios pátrios,

o teto da minha pobre choupana coberto de colmo e, mais tarde

revendo os meus domínios, encontrarei, surpreso, algumas espigas?

Um soldado ímpio possuirá estas terras tão cultivadas?

Um bárbaro, estas searas? Eis até onde a discórdia levou os cidadãos

infelizes! Para esses nós semeamos os campos!

 

Fortunate senex, ergo tua rura manebunt!

Buc. I, 46

 

Velho afortunado, então os teus campos permanecerão teus!

Uma das características da época de Augusto foi a valorização de temas relacionados à natureza, a volta aos ideais religiosos da Roma Antiga, o apoio, por parte do imperador, aos escritores da época e a paz social e política que pairava em todo o Império.

Na IV Bucólica, o poeta fala-nos da Idade de Ouro ligada ao nascimento de um menino. O poeta dirige-se ao cônsul Polião, anunciando o nascimento de uma criança, que governará e trará a Idade de Ouro a Roma.

magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.

Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;

iam noua progenies caelo demittitur alto.

Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum

desinet ac toto surget gens aurea mundo,

casta, faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.

Teque adeo decus hoc aeui ,te consule, inibit,

Pollio, et incipient magni procedere menses

te duce.

Buc. IV, 5-12

 

a grande série de séculos recomeça.

também retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno;

do alto céu é enviada uma nova geração.

Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce,

sob o qual primeiramente desaparecerá a raça de ferro

e surgirá no mundo inteiro a raça de ouro, reina o teu Apolo.

E esta honra do tempo começará e os grandes meses começarão

a suceder-se primeiramente sob o teu consulado, ó Polião,

sob o teu comando.

A instituição do culto ao Imperador, que muito influenciou a poesia da época de Augusto, foi o fundamento de toda política cultural augustana. Era de suma importância, para a coesão espiritual do grande império romano, a criação de uma religião estatal que fosse capaz de unir os diversos povos conquistados, principalmente os do Ocidente. Augusto desejava criar uma nova unidade cultural e religiosa entre os povos ocidentais e Roma.

Em 29 a.C., Augusto recebe oficialmente o título de deus e, em 27 a.C., o culto ao imperador torna-se público.

Assim, conforme nos diz Garsey e Saller,

El culto al gobernante fue el único culto romano que pasó a ser más o menos universal.

Cumplía tres funciones principales: la difusión de la ideología imperial, la concentración de la lealtad de los súbditos en el emperador y el progreso social y político de los provincianos que presidían su funcionamiento. (GARSEY et SALLER, 1991: 236)

Virgílio faz toda uma apoteose do reinado de Augusto,colocando-o na esfera divina:

O Meliboee, deus nobis haec otia fecit;

namque erit ille mihi semper deus;…

Buc. I, 6-7

 

Ó Melibeu, um deus nos concedeu estes ócios;

com efeito, ele será sempre um deus para mim;

Enfim, Virgílio é um inovador do gênero bucólico. Em seus versos além de apresentar o culto da terra, o amor ao campo e discutir os problemas existenciais do homem, também focaliza as transformações políticas e sociais de sua época.


 

CALPÚRNIO, UM POETA
A
SERVIÇO DO IMPÉRIO NERONIANO (54 – 68 d.C.)

Virgílio teve grande influência na obra de Calpúrnio que, ao escrever as suas Bucólicas, tomou-o como modelo.

Tito Calpúrnio Sículo, de quem quase nada sabemos, pois não existe entre os autores antigos notícia alguma sobre a sua vida, foi o autor de sete Bucólicas. Nesta sua obra, o poeta faz alusões ao imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro, em Roma. Daí colocarmos Calpúrnio como tendo vivido na corte de Nero, conforme afirma a maioria dos críticos.

Quanto ao sobrenome Siculus, numa explicação mais simples, indicaria a pátria do poeta, pois no manuscrito de Gerhard Johan Voss (Vossius) (1577-1649), o seu nome é acompanhado do sobrenome Sicilien, nos fazendo crer que o poeta era originário da Sicília; era costume dos autores de épocas remotas adotar como sobrenome, o nome de sua pátria. Quanto às funções ocupadas por Calpúrnio na Corte imperial, segundo Flávio Vopisco, na História Augusta, ele exercia o cargo de magister ou dictator memoriae, isto é, um dos secretários e arquivistas do imperador. Este posto exigia grande honestidade e muita instrução, e o titular devia estar sempre à disposição do imperador.

Acredita-se que a I Bucólica tenha sido escrita no início do governo de Nero, por volta do ano 54 ou 57 d.C. Esse novo governante, a quem estavam confiados os destinos de Roma, prometia voltar aos ideais de Augusto:

Na ânsia de dar uma idéia ainda mais nítida do seu caráter, após haver declarado “que reinaria de acordo com os princípios de Augusto”, não perdeu nenhuma ocasião de demonstrar a sua liberdade, sua clemência e até mesmo sua amabilidade. (SUETÔNIO, 1966: 187)

Não conhecemos, portanto, muitos detalhes sobre a vida do poeta, porém podemos presumir que ele se identifica atrás de seu personagem Coridão.

As Bucólicas I, IV e VII apresentam claramente a época de Nero, sendo, dentre as demais, as do caráter político.

Na Bucólica I, Fauno profetiza as glórias da Idade de Ouro, a qual estaria começando sob um governo que traria as leis passadas e a ordem, não importunaria o Senado e propiciaria uma pacífica religiosidade como nos dias de Numa Pompílio:

Aurea secura cum pace renascitur aetas,

Et redit ad terras tandem squalore situque

Alma Themis posito, juvenemque beata sequuntur

Secula, maternis causam qui lusit in ulnis.

Buc. I, 42-45

 

A Idade de Ouro renasce com tranqüila paz,

E finalmente, a propícia Têmis volta às terras, acabada

A aflição e a miséria, e os séculos felizes seguem

A um jovem, o qual mostrou com alegria a sua condignos

                                                                      [braços maternais.

 

Plena quies aderit, quae stricti nescia ferri

Altera Saturni revocet Latialia regna,

Altera regna Numae....

Buc. I, 63-65

 

Uma paz plena chegará, que, desconhecedora do ferro desembainhado

Restabelecerá os outros reinos latinos de Saturno,

Os outros reinos de Numae…

Além disso, o novo imperador compromete-se a defender a causa da mãe que deu origem à gens Iulia e o excêntrico Nero é visto como um Iulius, que fala do povo de Ílion, referindo-se à legendária vida de Enéias e seu filho. O poeta alude claramente ao discurso pronunciado por Nero em defesa dos habitantes de Ílion (Buc. I, 50-73):

...Nullos jam Roma Philippos

Deflebit, nullos ducet captiva triumphos.

Omnia Tartareo subigentur carcere bella,

……………………………………………

Plena quies aderit, quae stricti nescia ferri

Altera Saturni revocet Latialia regna,

Altera regna Numae....

......................................................................

Jam nec adumbrati faciem mercatus honoris,

Nec vacuos tacitus fasces, et inane tribunal

Adcipiet consul: sed legibus omne reductis

Jus aderit, moremque fori vultumque priorem

Reddet, et adflictum melior deus auferet aevum.

Buc. I, 50-52; 63-65; 69-73


 

...Agora Roma não mais chorará

Alguns Felipes, não mais celebrará, cativa, quaisquer triunfos.

Todas as guerras serão subjugadas na prisão do Tártaro,

.........................................................................................

Uma paz plena chegará, que, desconhecedora do ferro desembainhado,

Restabelecerá os outros reinos Latinos de Saturno,

Os outros reinos de Numa,...

................................................................................

Então, a cúria não aceitará a aparência de uma falsa cerimônia

Nem o cônsul calado aceitará os feixes inconstantes, e o

Tribunal inútil: aproximar-se-á, porém, toda justiça

Das leis feitas, e um deus melhor restituirá o costume

E a imagem antiga do Foro, e afastará a geração aflita.

Tal referência é encontrada em Tácito e em Suetônio:

No consulado de D. Júnio e Q. Hatério, Nero, aos dezessete anos de idade, casou-se com Otávia, filha de Cláudio; e para que também com a glória da eloqüência e de honrosos estudos se ilustrasse, tomou a causa dos habitantes de Ílio, donde era provindo o povo romano e Enéias, estirpe da família Júlia; e memorando fatos quase fabulosos por sua antigüidade, obteve para eles isenção de quaisquer encargos públicos. (TÁCITO, 1964)

Conduzido ao “Forum” para tomar a toga, prometeu uma distribuição ao povo e uma gratificação aos soldados. Numa revista aos pretorianos, colocou-se à frente destes com um escudo na mão. Depois, solicitou ao Senado, ações de graça para seu pai adotivo. Defendeu, diante dele, então cônsul, em latim, os habitantes de Bolonha e, em grego, os de Rodes e de Ílion. (SUETÔNIO, 1966: 187)

Enfim, um cometa aparece no céu, o qual foi assinalado por Suetônio e Plínio e interpretado como anunciador da morte de Cláudio, em 13 de outubro do ano 54:

Cernitis, ut puro nox jam vigesima coelo

Fulgeat? ut placidum radianti luce cometem

Proferat? ut liquidum mittat sine vulnere sidus?

Buc. I, 77-79

 

Vês, como a vigésima noite brilha no céu

Sereno? como mostra o faiscante cometa com radiante

Luz? como esteja enviando um astro límpido sem [desgraça?

 

Os maiores presságios da sua morte foram: a aparição duma dessas estrelas de cabeleira a que chamam de cometa. A queda dum raio no túmulo do seu pai Druso. E a morte, no mesmo ano que a dele da maior parte dos magistrados. (SUETÔNIO, 1966: 183)

Calpúrnio termina o poema na esperança de que os seus versos cheguem aos ouvidos do príncipe, através do pastor Melibeu:

Forsitan Augustas feret haec Meliboeus ad aures.

Buc. I, 94

 

Talvez Melibeu leve estes (poemas) aos ouvidos Augustos.

A IV Bucólica (escrita, provavelmente, na mesma época da I Bucólica) se apresenta como uma poesia essencialmente política. Calpúrnio, disfarçado no personagem Coridão, deseja que seu protetor Melibeu leve sua obra à Corte de Nero e agradece a Melibeu por tê-lo tirado da pobreza e evitado seu exílio até os confins do mundo. Toda a segunda parte do poema consiste num elogio a Nero, apresentando os seus divinos poderes.

COR. Carmina jam dudum, non quae nemorale resultent,

Volvimus, o Meliboee; sed haec, quibus aurea possint

Secula cantari, quibus et deus ipse canatur,

Qui populos urbemque regit, pacemque togatam.

................................................................................

Scilicet extremo nunc uilis in orbe iacerem,

Ah dolor! et pecudes inter conductus Iberas,

...............................................................................

At mihi, qui nostras praesenti numine terras,

Perpetuamque regit juvenili robore pacem,

Laetus, et Augusto felix adrideat ore.

................................................................................

AM. Dii, precor, hunc juvenem, quem vos (nisi fallor) ab [ipso

Aethere misistis, post longa reducite vitae

Tempora, vel potius mortale resoluite pensum,

Et date perpetuo coelestia fila metallo:

Sit deus, et nolit pensare Palatia coelo

Buc. IV, 5-8; 43-41; 84-86; 137-141

 

COR. muito tempo, ó Melibeu, meditamos em versos, não os que

Ressoam de forma pastoril; mas naqueles, pelos quais os Séculos de Ouro

Possam ser celebrados, e pelos quais possa ser cantado o próprio deus,

Que rege os povos e a cidade, e a paz romana

....................................................................................................

Naturalmente eu agora jazeria desprezível num longínquo mundo,

Ah dor! e conduzido entre as ovelhas Iberas,

................................................................................................

A mim, porém, agrada (cantar) aquele que governa as nossas terras,

Com a divindade propícia e dirige com a sua força juvenil uma paz

Perpétua, alegre, e feliz com face Augusta.

....................................................................................................


 

AM. Deuses, eu suplico, reconduzi este jovem, que vós (se eu não

me engano)

Do próprio Éter enviaste, após longos tempos

De vida, ou antes cortai o fio mortal,

E dai-lhe fios celestes com um metal duradouro:

Que ele seja um deus, e não queira trocar seus Palácios pelo céu

Além disso, o poeta faz referência à nova legislação que seria implantada pelo novo soberano. Tácito, nos seus Anais, descreve um presságio ocorrido nessa época:

Nesse ano a figueira Ruminal, na praça dos comícios, que oitocentos e trinta anos antes abrigara a infância de Rômulo e Remo, perdeu toda ramagem, secando-se-lhe o tronco; mas tornou a brotar depois, o que foi tido como prodígio. (TÁCITO, s.d. : 209-210)

Na VII Bucólica, o pastor Coridão é o próprio Calpúrnio que esteve em Roma e faz uma grande descrição da cidade, a fim de mostrar a beleza e a majestade que pairavam em Roma no tempo de Nero. O poeta descreve de modo maravilhoso o anfiteatro de madeira construído por Nero no ano 57 d.C., no Campo de Marte (vv. 37-38). Daí acreditar-se que esta bucólica tenha sido escrita nessa época.

Tácito e Suetônio fazem alusão a este edifício:

Do consulado de Nero, pela segunda vez, e L. Pison pouco há de narrar, a não ser que se apraza alguém em encher volumes com elogios aos fundamentos e armações de um anfiteatro construído por César no Campo de Marte;... (TÁCITO, s.d.: 199)

E quando do combate de gladiadores, que se verificou num anfiteatro de madeira, construído no espaço dum ano, no bairro, do Campo de Marte, não mandou matar ninguém, nem mesmo entre os criminosos. (SUETÔNIO, [s/d]: 188)

 

...Stabam defixus et ore parenti

cunctaque mirabar nec dum bona singula noram.

Buc. VII, 37-38

 

...Permanecia imóvel e boquiaberto

e admirava todas as coisas em conjunto, e não percebendo

[cada uma dessas belas coisas em particular.

A datação desta bucólica também pode ser dilatada para o ano 63, devido à alusão aos lugares reservados aos cavaleiros romanos, segundo uma lei estabelecida por Nero neste mesmo ano:

Designou para os cavaleiros romanos lugares adiante dos da plebe, no circo; até aquela data, eles ficavam confundidos, porquanto a lei Róscia não dispunha senão a respeito das quatorze primeiras filas de lugares no teatro. (TÁCITO, s.d.: 244)

Nam quaecumque patent sub aperto libera coelo,

aut eques aut niuei loca densauere tribuni.

Buc. VII, 28-29

 

No entanto, todos aqueles lugares que se apresentam livres

[sob o céu aberto,

ou os cavaleiros os ocuparam ou os tribunos vestidos de branco.

Além dos versos acima, temos uma belíssima descrição do anfiteatro e dos jogos patrocinados pelo imperador, o qual, segundo o texto (vv. 23-72; 82-84), se fazia presente nos espetáculos:

...utcumque tamen conspeximus ipsum

longius; ac nisi me decepit uisus, in uno

et Martis vultus et Apollinis esse putaui.

Buc. VII, 82-84

 

...de qualquer maneira, porém, nós o vimos

muito longe; e se a minha vista não me iludiu, ao mesmo tempo

julguei ver não o rosto de Marte mas também o de Apolo.

O poeta canta, portanto, a Roma neroniana, embriagada pelo luxo imperial; descreve de modo maravilhoso o anfiteatro de madeira construído pelo soberano, no ano 57 d.C.

Todo esse lirismo em tom político é explorado por Calpúrnio, imitando Vergílio, que com grande sensibilidade soube louvar os méritos divinos do imperador Augusto. E Calpúrnio apresenta nas Bucólicas I, IV e VII um Nero também divinizado que, ao assumir o poder, prometeu seguir os passos de Otávio Augusto. Assim, na I Bucólica, Calpúrnio assemelha Nero ao Sol soberano e, às vezes, aos deuses Apolo e Júpiter.

As composições de Calpúrnio fazem parte da “descendência do lirismo latino” (GRIMAL, 1978: 163), cujas raízes vêm desde Virgílio, com uma linguagem nova, numa tentativa de colocar-se como uma obra que representaria a época de um soberano que traria uma nova política ao interior de Roma.


 

NEMESIANO, UM POETA DO SEU TEMPO

Marco Aurélio Olímpio Nemesiano viveu na segunda metade do III século de nossa era, aproximadamente no tempo do Imperador Caro. Época de grandes transformações e acontecimentos, quando o Império Romano vive em meio a turbulências políticas externas e internas.

Nesse ambiente, surge Nemesiano, nascido em Cartago (África), o qual assume um lugar de relevância nesta fase, pois foi o mais notável poeta deste século tão pobre de poesia.

Tal reputação foi favorecida quando Numeriano, considerado bom poeta na época, filho do Imperador Caro, ocupa o Império e promove um concurso poético, no qual participa Nemesiano.

A vida de Nemesiano é obscura, no entanto, o melhor testemunho que temos é o de Flávio Vopisco, em sua História Augusta, onde o historiador nos diz:

Ele (Numeriano) tinha, diz a fama , um tal talento que o elevou sobre todos os poetas de seu tempo. Com efeito, rivalizou com Olímpio Nemesiano, autor das Heliêuticas, Cinegéticas e Náuticas, que se distinguiu pelo brilho de todas as cores de sua poesia.

Caro, 11-2

Assim, é certo que o poeta viveu no III século, que o Imperador Numeriano morreu em 284. Porém, não podemos precisar a data de seu nascimento ou de sua morte, embora haja indícios de que o poeta tenha nascido no ano 258, sob o reinado de Valeriano, e falecido no de Diocleciano.

Quanto ao sobrenome Nemesiano, este tinha sido herdado de seus antepassados, que eram de Nemésio, cidade da Líbia. O seu nome de família, segundo a opinião de alguns críticos, é Olímpio. Marco Aurélio, é provável que seus pais tenham lhe dado esse nome, por ser comum, em Roma, dar aos filhos nomes de pessoas famosas.

Seguindo os passos de Virgílio, escreveu quatro Bucólicas e um poema didático em homenagem aos filhos de Caro - Numeriano e Carino.

As quatro bucólicas apresentam reminiscências Clássicas, fineza de gosto e estilo, utilização de recursos helenísticos como o hexâmetro, motivos mitológicos e cultos campestres.

As Bucólicas incorporam temas pastoris tradicionais: o lamento pela morte de um velho pastor poeta, pastores rivais cantando louvores a seus respectivos amores, Pã aparecendo a alguns pastores e uma competição de canto entre dois pastores.

Muitos estudiosos têm visto estes poemas como certa referência aos programas de restauração do Império atribuídos ao Imperador Caro e a seus filhos.

A primeira Bucólica parece apresentar um elogio a certa personalidade política, que conseguiu instalar o direito e a paz em toda a província que, na época, pertencia a Roma; pairava, então, o ideal da paz romana.

Sub te ruris amor, sub te reuerentia iuris

floruit, ambiguos signauit terminus agros

Buc. I, 54-55

 

Sob tua autoridade floresceu o amor ao campo, sob teu poder,

a reverência da justiça, o limite marcou os campos duvidosos.

 

Longa tibi cunctisque diu spectata senectus

felicesque anni nostrique nouissimus aeui

circulus innocuae clauserunt tempora uitae.

Nec minus hinc nobis gemitus lacrimaeque fuere

quam si florentes mors inuida carperet annos,

nec tenuit tales communis causa querelas.

Buc. I, 43-48

 

Uma velhice longa, por muito tempo, notável para ti

e para todos os anos felizes e o último círculo

de nosso tempo encerram as etapas de uma vida irrepreensível

Não tivemos desde então menos gemidos e lágrimas

do que se a morte invejosa te arrancasse os anos em flor,

a sorte comum não reteve tais querelas.

Enfim, Nemesiano, como seus precursores, recebeu influências da poesia helenística, pois escrevia nos moldes clássicos. Apresenta linguagem clara, perfeição na utilização do hexâmetro e do canto amebeu, dando importância aos deuses campestres e, através de uma linguagem metafórica, apresenta um ideal político onde sobrevivia lado a lado a paz romana e o otium poético.

CONCLUSÃO

Virgílio, Calpúrnio e Nemesiano são poetas líricos, pois utilizaram o mesmo processo de estruturação, ou seja, o discurso lírico. Contudo, cada um deles vai apresentar uma manifestação diferente do mesmo discurso, através das diferentes imagens de mundo.

Virgílio, em suas Bucólicas I e IV, faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina. Neste ambiente pastoril, o poeta inclui a história de Roma, a estrela de César e Otaviano, como também suas idéias sobre a Idade de Ouro. Otávio simbolizava um mundo novo. Roma será a primeira Vrbs a afirmar sua dignitas. E Virgílio se une aos valores tradicionais do espírito romano, colocando as suas Bucólicas na esfera político-social. Toda política de revalorização dos antigos costumes é posta em sua obra, de maneira a fazer ressaltar as qualidades do governante. Em sua exaltação a Augusto, o poeta está celebrando o povo romano em meio à vida no campo.

Calpúrnio, em suas Bucólicas, está muito ligado à vida política e esta acha-se presente, principalmente, nas Bucólicas I, IV e VII, que louvam as qualidades do Imperador Nero. Estas composições anunciam que a nova Idade de Ouro havia chegado a Roma, trazendo a paz, a justiça e a ordem; o “deus”, de que Calpúrnio fala, regerá o povo romano conforme os tempos de Numa e do “divo” Augusto. Estes poemas apresentam um vínculo entre a Natureza e o Imperador que ascende. Em torno dessa apoteose, Calpúrnio abre as suas Bucólicas com um Nero “em majestade”. Esse novo soberano prenunciava um sentimento de renovação que vinha satisfazer os ideais de umnovo século”.

Finalmente, Nemesiano fecha a tradição das Bucólicas, colocando seus poemas como um marco de renovação do Império que surgia sob o comando do Imperador Caro e seus filhos Numeriano e Carino.

Sabemos, pois, que os fatos históricos influem na obra literária pelo simples fato de não poder esta existir fora do tempo.

Em suma, esses três poetas da Literatura Latina exploraram com grande habilidade os cânones do lirismo bucólico, dando a eles um tom político-social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALFOLDY, Géza. A história social de Roma. Tradução de Maria do Carmo Cary. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

CALPURNIUS SICULUS. Bucoliques. Texte établi et traduit par Jacqueline Amat. Paris: Les Belles Lettres, 1991.

CARCOPINO, Jerôme. Roma no apogeu do Império. Tradução: Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras / Círculo do Livro, 1990 . (Coleção “A vida cotidiana”).

GARSEY, Peter et SALLER, Richard. El Imperio Romano: economía, sociedad y cultura. Traducción castellana de Jordi Beltran. Barcelona: Editorial Crítica, 1991.

GRIMAL, Pierre. A civilização romana. Tradução de Isabel St. Aubyn. Lisboa: Edições 70, 1988.

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––––––. Virgílio ou o segundo nascimento de Roma. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Coleção “O homem e a história”)

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