O
GÊNERO
DOS
SUBSTANTIVOS
DERIVAÇÃO
OU
FLEXÃO?
José Mario Botelho
(UERJ e FEUDUC)
INTRODUÇÃO
Acreditando
ser
imanente
o
gênero
do
substantivo
e considerando os
ensinamentos
tradicionais
acerca
do
assunto,
as diversas
considerações
de
autores
como
Câmara
Jr. (1972, 1985, 1989 e 1991), Macedo (1976), Freitas (1981) e
outros,
e,
principalmente,
a
digressão
de Herculano de
Carvalho
(1969, 1973 e 1984) e a afirmação de Sandmann (1991 e 1992), corroborando
Mathews (1974), de
que
não
se
trata
de
flexão
a variação de
gênero
dos
substantivos,
pergunto-me:
1
-
o
que
constitui
mais
propriamente o
fato
de
certos
substantivos
apresentarem uma
forma
de
feminino,
a
qual
se dá
com
o
acréscimo
da
marca
de
gênero
“-a”?
2
-
que
elemento
mórfico é esta
marca
de
gênero
(desinência
ou
sufixo
de
gênero,
sufixo
ou
vogal
temática)?
Pretendo
responder
a
tais
perguntas
e
apresentar
subsídios
para
eventuais
respostas
a
novas
indagações.
Logo,
o
objetivo
deste
estudo
é o de
fazer
emergir
e
discutir
os
problemas
acerca
da “flexão”
de
gênero
dos
substantivos,
os
quais
são
mascarados
devido
ao
tratamento
que
as nossas
gramáticas
dão ao
assunto,
acusando,
pois,
a
sua
complexidade.
A variação de
gênero
do
substantivo
e o
morfema
“-a”
Em
princípio,
admitamos
que
a
marca
de
gênero
“-a”,
como
morfema
gramatical
(“elemento
formal
que
se combina
com
o semantema, constituindo
um
mecanismo
gramatical
por
meio
do
qual
o semantema
passa
a
funcionar
na
comunicação
lingüística”.
Câmara
Jr., 1985, p. 170), seja
um
sufixo
flexional, comumente denominado pelas
gramáticas
de
desinência
de
gênero,
que
se acresce à forma-base de
masculino
por
meio
de
flexão
para
a
formação
do
feminino.
Depreende-se de
textos
teóricos
tradicionais
ser
a
flexão
um
processo
obrigatório
e fechado
que
é
imposto
pela
estruturação
frasal.
Logo,
conclui-se
ser
ele
sistemático.
Depreende-se,
também,
desses
ensinamentos
tradicionais
ser
a
derivação
um
processo
assistemático, não-obrigatório e
aberto,
que
se
efetiva
pela
vontade
do
falante,
o
qual
tem à
sua
disposição
vários
afixos
para
a
formação
de
novas
palavras.
Comparando os
dois
processos,
vê-se
logo
que
constituem
processos
distintos,
embora
ambos
se caracterizem
pelo
acréscimo
de
um
morfema
(sufixo
derivacional
ou
sufixo
flexional) a
sua
forma-base.
Ora,
a
formação
do
feminino
dos
substantivos
não
é
um
processo
sistemático
e
poucos
(em
relação
à
totalidade
do
idioma)
são
os
substantivos
que
sofrem
tal
processo,
o
qual
se dá de
formas
várias. Se
não,
vejamos:
menin(o)
menina
autor
autora
gal(o)
galinha
conde
condessa
poet(a)
poetisa
anão
anã
lebrão
lebre
homem
mulher
boi
vaca
o
artista
a
artista
A
partir
do
corpus
acima,
pode-se
perceber
que
a
forma
feminina
oposta
à
forma
masculina
de
um
dado
substantivo
nem
sempre
se obtém
com
o
acréscimo
do
morfema
“-a” a uma
base
à
semelhança
do
que
ocorre
com
os
adjetivos.
Nestes, o
processo
é
sistemático
e se caracteriza
ou
com
o
acréscimo
do
morfema
“-a” a uma
base
(adjetivos
biformes:
lindo/linda,
alto/alta))
ou
nenhum
morfema
é-lhe acrescido (adjetivos
uniformes:
simples,
feliz).
Com
os
substantivos,
porém,
o
processo
é assistemático e se caracteriza
por
não
apresentar
regularidade,
pois
não
só
se formam
femininos
com
o
acréscimo
de
um
morfema
(“-a”, “-esa”, “-isa” e
outros)
ou
supressão de
elementos
terminais,
mas
também
com
formas
heterônimas e
com
a
simples
anteposição de
um
determinante
(do
tipo
artigo
definido).
Aliás,
nem
é
conveniente
se
falar
em
formação
de
feminino
desse
ou
daquele
substantivo;
a
formação
de
palavras
femininas a
partir
de uma forma-base é uma
realidade
na
língua
portuguesa e,
naturalmente,
a
forma
resultante
se opõe
em
gênero
àquela
que
lhe
originou. Na
verdade,
tais
formas
femininas compõem uma
relação
de
palavras,
a
que
se antepõe
um
determinante
feminino,
e
que
nomeiam
seres
do
sexo
feminino.
Logo,
faltam aos
substantivos,
na
oposição
genérica,
que
em
princípio
é
mera
oposição
sexual,
as
condições
acima
estabelecidas.
Portanto,
o
morfema
de
gênero
feminino
“-a”, no
processo
de
formação
do
feminino
de
substantivos,
não
é
exclusivo
(apesar
de
ser
o
mais
incidente,
pois
se acresce à
maioria
das
palavras
variáveis
em
gênero),
nem
é
obrigatório,
já
que
nenhuma
regra
gramatical;
(imposição
frasal)
determina o
seu
uso.
O
uso
da
forma
feminina
em
vez
da
forma
masculina
é uma
escolha
do
falante,
o
qual
se baseia
em
princípios
pragmáticos
(conhecimento
de
mundo).
Além
disto, muitas destas
formas
femininas dão
entrada
em
dicionários;
outras
não
(mormente,
em
“-a”),
devido
à
inferência
que
qualquer
falante
da
língua
pode
fazer
por
se
tratar
de
um
processo
bem
produtivo
em
português.
Sendo assistemático o
processo
de
formação
de
feminino
desta
classe
a
partir
de uma forma-base de
masculino,
cuja
forma
conseqüente
pode
normalmente
ser
relacionada
em
dicionários,
não
se pode
ver
aí
flexão;
não
sendo o
morfema
“-a”,
pois,
indicador
de uma
flexão
ou
desinência
de
gênero,
como
quer
a
tradição.
Na
realidade,
o
que
se tem
com
a variação de
gênero
é uma
derivação
possível
para
um
número
significativo
de
substantivos
portugueses, a
qual
não
é
comum
para
a
totalidade
da
língua.
À
luz
da
história
do
gênero
dos
substantivos
portugueses poder-se-ia
dizer
que
este
morfema
é uma
vogal
temática,
já
que
corresponde (conforme
observara
Câmara
Jr., 1985, p. 126) à
vogal
breve
[a] dos
nomes
latinos
de
primeira
declinação,
os
quais
eram na
maioria
femininos
e se opunham à
maioria
dos
nomes
em
[u] de
segunda
declinação,
que
eram
masculinos.
Contudo,
percebe-se
que
este
morfema
não
se confunde
com
a
vogal
átona
final
de
um
grande
número
de
substantivos
de
tema
em
“-a” (“terra”,
“casa”,
“planeta”,
“artista”
e
outros).
Nestes, o
morfema
é uma
vogal
temática;
nos
que
expressam a particularização mórfico-semântica de
feminino,
a
partir
de uma forma-base de
masculino
em
“-o”, “-e”
ou
em
consoante
ou
vogal
tônica,
é
um
sufixo.
Sendo,
portanto,
derivação
sufixal o
processo
de
formação
de
feminino.
É
importante
ressaltar,
no
entanto,
que
o
morfema
“-a”,
como
marca
de
gênero
feminino,
só
é
morfema
de
gênero
feminino
em
função
da
oposição
com
uma forma-base
masculina.
Em
qualquer
outro
caso,
o
morfema
“-a” é
apenas
uma
marca
de
um
tema
nominal
em
“-a” (“casa”,
“mala”,
“poeta”,
“criança”,
etc.)
como
o
são
os
morfemas
“-e” (marca
de
um
tema
nominal
em
“-e”: “mestre”,
“elefante”,
“pente”,
“dente”,
etc.) e “-o” (marca
de
um
tema
nominal
em
“-o”: “carro”,
“ferro”,
“menino”,
“aluno”,
“lobo”,
etc.).
Em
verdade,
não
é a
simples
presença
de
um
“-a”,
átono
final,
que
expressa
o
feminino
dos
nomes
substantivos;
é a
sua
presença
em
oposição
a uma forma-base de
masculino
sem
este
“-a”. E
isto
não
implica
dizer
que
se
trata
de
flexão.
Assim,
o
morfema
de
gênero
“-a” pode
ser
observado
em:
“menin-o/a”, “lob-o/a”, “mestr-e/a”, “elefant-e/a”, “cantor-/a”, “oficial-/a” e
outras.
Já
não
se pode observá-la
em
“cas-a” (apesar
de
ser
feminina),
nem
em
“planet-a” (exclusiva
e
convencionalmente
masculina)
ou
em
“artist-a” (que
de
acordo
com
a
intenção
do
falante
é
masculina
ou
feminina
– neste
caso,
o
gênero
é explicitado
por
um
determinante
do
tipo
artigo).
Nestas e
em
outras
formas
de
temas
nominais
diversos
(“carro”,
“tribo”,
“dente”,
“mente”,
“sofá”,
“jacaré”,
“caqui”,
“tatu”,
“amor”,
“sol”,
“cal”,
“pudim”,
“mártir”
e outras),
não
há
nenhum
índice
morfológico de
gênero.
À
luz
das
digressões
de
Câmara
Jr., Herculano de
Carvalho
e de Mathews,
em
suas
obras
supracitadas, temos
elementos
suficientes
para
não
só
manter
o
questionamento
que
venho fazendo,
como
também
para
definir
o
fenômeno
da
formação
do
gênero
dos
substantivos
como
um
processo
lexical,
semelhante
fonologicamente ao
processo
flexional dos
adjetivos,
mas
não,
o
mesmo,
se adotarmos o
critério
da
congruência.
CONCLUSÃO
São muitas as
contradições causadas
pela
descrição
preconceituosa de
gênero dos
substantivos,
devido
principalmente à
relação estabelecida
pela
tradição
entre
sexo e
gênero
gramatical.
Embora
não seja a
nossa
pretensão
esgotar o
tema, algumas
conclusões surgiram
com a
pesquisa e
com a
constatação de
que a
homogeneidade no
tratamento do
assunto
acerca de
gênero dos
substantivos
dado pelas
gramáticas e
compêndios
gramaticais fica
abalada
pelo
tratamento
crítico e,
por
conseguinte não-homogêneo,
dado
por
diversos
autores.
Portanto, é inadequado
considerar o
gênero
sob o
aspecto
natural,
pois
sexo e
gênero
não
são
um
mesmo
assunto. A
correspondência
entre
estes
dois
aspectos é
relativa,
porque a
maioria dos
nomes é
assexuada e a
eles
não se pode
fazer uma
relação
com
um dos
dois
sexos (masculino e
feminino).
Não é numa
oposição
natural de
sexos
que se
fundamenta o
gênero
em
português.
Nos
adjetivos,
pronomes e
numerais, o
gênero se
fundamenta numa
regra de
concordância,
em
que se pode
atestar
que a
forma utilizada é
determinada
pelo
núcleo
substantivo a
que aquelas
classes fazem
alusão.
Nos
substantivos,
entretanto, o
gênero se
fundamenta numa
oposição
meramente
formal e de
natureza classificatória
em
dois
grupos (de
um
lado os
masculinos -
todos a
que se pode
antepor o
artigo
masculino; do
outro, os
femininos -
todos a
que se pode
antepor o
artigo
feminino).
O
gênero dos
substantivos é
imanente,
isto é, faz
parte da
constituição de
cada
substantivo,
quer esteja isolado,
quer esteja integrado
em
contexto
lingüístico,
pois surge no
momento da
concepção do
ser a
que se refere.
Conquanto seja
IMANENTE o
gênero do
substantivo -
classe dos
determinados -,
não se pode
admitir a
flexão de
gênero nesta
classe,
apesar de se
verificar
um
processo
semelhante ao
que ocorre na
classe dos
determinantes.
Ambos os
processos constituem uma variação
ou
flexão (no
sentido
lato: “ato de
curvar, de
dobrar, de
flectir”)
em
si,
mas
que se distinguem, de
acordo
com os
conceitos
gramaticais de
derivação e
flexão
ou,
pelo
menos, deveriam distinguir-se.
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