O
PREFÁCIO
DE
UM
RETRATO
Marcello de
Oliveira
Pinto
(UERJ)
TODA
A
ARTE
É
COMPLETAMENTE
INÚTIL
O
Retrato
de Dorian Gray foi publicado na
Lippincot Monthly
Magazine,
revista
mensal
Inglesa,
em
1890 e
posteriormente
revisado
para
publicação
em
livro
em
1981.
Apesar
de
mais
de
cem
anos
terem se
passado
desde
a
sua
publicação,
ele
continua
popular
e
bastante
lido,
especialmente
fora
da Inglaterra. O
livro
é uma
obra
de
arte
sobre
o Estetismo, e nele estão
presentes
a
pintura,
a
literatura
e o
teatro,
todos
relacionados a uma
percepção
singular
do
fenômeno
artístico,
especialmente
abordada
por
Oscar Wilde, o
autor,
no
prefácio
da
edição
em
livro.
Polêmico e
genial,
nada
em
sua
biografia
literária
teve
maior
repercussão do
que
seu
romance.
Já
em
25 de
junho
de 1890,
cinco
dias
após
a
sua
primeira
publicação, Wilde defendia
sua
obra
afirmando “I am
quite
incapable of understanding how any work of art can be criticised from a
moral
standpoint. The sphere of art and the sphere of ethics
are
absolutely distinct and separate" (WILDE, 1979). É neste
contexto
que
o
autor
escreve o
famoso
prefácio
para
a
edição
em
livro,
que
pretendo
comentar.
É
preciso
antes
alertar
para
o
fato
de
que
este
ensaio
não
pretende
ser
mais
uma “exegese”
sobre
a
obra
de Wilde,
nem
tampouco
mais
uma “análise”
literária.
Ao
leitor
informo
que
decidi construí-lo a
partir
das
reflexões,
lembranças
e
redes
referenciais
que
as
sentenças
do
prefácio
em
mim
geraram. As
sentenças,
transcrevo aleatoriamente no
início
de
cada
parte
do
meu
texto
como
orientação,
assim
como
trechos
ao
longo
da
nossa
conversa.
Para
os
leitores
mais
organizados, o
prefácio
completo
ao
final.
O
ARTISTA
É O
CRIADOR
DE
COISAS
BELAS
Oscar Fingal O'Flarhertie Wills Wilde nasceu
em
Dublin, Irlanda,
em
1854 numa
família
de
classe
média
alta.
Inicialmente
educado
por
tutores
em
casa,
foi no
seu
lar
que
ele
teve os
primeiros
contatos
com
os
clássicos,
através
da
influência
de
seus
pais,
especialmente
sua
mãe,
uma poetiza politicamente engajada. O
interesse
de Wilde pelas
culturas
Grega
e
Romana
cresceu
enquanto
estudava no Trinity College
em
Dublin.
Posteriormente,
em
Oxford,
seu
conhecimento
sobre
os
clássicos
amadureceu,
além
de,
por
ser
um
leitor
contumaz,
travar
contato
com
obras
de várias
escolas
da
literatura.
Wilde escreveu
peças,
poemas,
estórias
infantis e
apenas
um
romance,
O
Retrato
de Dorian Gray.
Quando
O
Retrato
de Dorian Gray foi editado
em
forma
de
livro
em
1991, Wilde fez
alguns
ajustes
no
texto
original
e incluiu
um
prefácio
que
teve
um
impacto
tão
grande
junto
aos
críticos
quanto
a
própria
obra.
Devido
a
sua
construção
axiomática, o
prefácio
levou
certos
críticos,
incluindo Richard Ellman,
autor
renomado de uma completíssima
biografia
de Wilde, a afirmarem
que
este
desconstrói
por
completo
o
livro.
Instaurando uma
relação
paradoxal
entre
o
complexo
de
conceitos
expressos
no
prefácio
e a
própria
trama
do
livro,
Oscar Wilde,
segundo
a
crítica,
parece
desvelar
a
precariedade
da
sua
própria
obra.
Infelizmente,
tal
visão
despede-se do
trinômio
obra-autor-época,
que,
se
não
é
essencial
para
a
fruição
de
um
texto
na
perspectiva
do
leitor,
era,
a
meu
ver,
o
fluxo
vital
motivador da
construção
do
prefácio,
e
também
da
poética
de Wilde,
intensamente
voltada
para
o
seu
tempo.
Esta
preocupação
com
a
relação
entre
homem
e
mundo
e os
seus
preceitos
valorativos
modelares
se apresenta
logo
no
início
do
prefácio,
ao
lançar
o
foco
no
artista,
aquele
que
cria,
ou
seja, articula
um
medium
para
delinear
construtos
artificiais
cujo
objetivo
é
atingir
a
perfeição,
signo
da
beleza.
Ainda
sobre
a
arte
e o
artista
o
prefácio
nos
orienta "revelar
a
arte
e
ocultar
o
artista
é a
finalidade
da
arte".
A
beleza
criada
pelo
artista
sombreia a
sua
figura,
velando-o.
Um
aparente
contraste
se instaura
então,
pois
o Estetismo, a
doutrina
artística
anglo-saxônia
que
tinha
como
modelo
uma
Idade
Média
idealizada e a
simplicidade
de
meios
adotada
pelos
predecessores
do
pintor
italiano Rafael (Raffaello Sanzio,
1483-1520) e
que
no
fim
do
século
XIX reuniu
grande
número
de
artistas.
Além
disso, no
espaço
da
literatura,
juntamente
com
o
Decadentismo
e do
Simbolismo,
opôs se ao
racionalismo
burguês
e cientificista da
época,
preconizando a
arte
supérflua,
extravagante,
inútil
e
desprovida
de
qualquer
propósito
social.
Uma
arte
que
se
expressa
através
da
personalidade
do
artista
e reflete, ao
mesmo
tempo,
a
personalidade
do
artista
através
da
obra
de
arte.
O
romance
também
se
mostra
aparentemente
antitético
em
relação
à
idéia
da
arte
ocultar
o
artista.
A
personagem
Basil Howard afirma
em
relação
ao
quadro
que
pintou e
cujo
motif é Dorian Gray
vestido
à
moda
do
século
XIX tendo
como
fundo
o
seu
estúdio
" I have shown in it the secret of my own soul" (WILDE, 1992). O
paradoxo
se apresenta na
idéia
de
um
potrait realista
expor
o
seu
artista.
Contudo
este
paradoxo
imediatamente
se desfaz ao se
observar
que
é o
pintor
que
se
vê
na
obra
e
não
a
obra
que
reflete o
artista.
Wilde atesta,
em
uma de
suas
cartas,
que
"The art is a purely personal pleasure, and it is for the sake of this pleasure
that one creates" (idem).
Revelando, desta
forma,
que
a
expressão
da
personalidade
do
artista
se dá de uma
forma
mimética
através
do
prazer
do
efeito
da
sua
criação,
Wilde parece
dissipar
a
aparente
contradição,
quando
no
prefácio
escreve
que
"A
única
desculpa
de
haver
feito
uma
coisa
inútil
é admirá-la
intensamente".
O
paradoxo
aqui
desfeito
parece, a
meu
ver,
revelar
um
outro
questionamento:
a
conjuntura
da doxa realista/naturalista
incapaz
de
dar
conta
das possibilidades de
manifestação
da
criação
artística.
É a
percepção
de uma
outra
conjuntura
que
vislumbra uma
solidariedade
individualista
e
um
narcisismo
socialista
do
criador
e da
obra,
de
onde
se pode
refletir,
transmutadas, as gigantescas
sombras
que
o
futuro
lança
sobre
o
presente,
ou
seja, a
invasão
de
novas
áreas
e
formas
de
pensamento,
de
produção
artística,
de
organização
social,
etc.
A
VIDA
MORAL
DO
HOMEM
FAZ
PARTE
DO
TEMA
PARA
O
ARTISTA,
MAS
A
MORALIDADE
DA
ARTE
CONSISTE NO
USO
PERFEITO
DE
UM
MEIO
IMPERFEITO
A
questão
da
moral
como
código
de
valores
regentes
da
condição
de
vida
do
homem
e a
relação
deste
código
com
a
arte
é
um
tema
recorrente
na
obra
de Wilde e
não
podia
estar
ausente
no
prefácio
de
seu
romance,
onde
se
lê
"um
livro
não
é de
modo
algum
moral
ou
imoral".
Para
o
autor
a
arte
esta
acima
da
ordem
moral
como
se pode
ver
numa de
suas
cartas
endereçadas ao
editor
do
jornal
inglês
Daily Chronical
em
30 de
junho
de 1890
onde
ele
comenta
sobre
o
seu
romance
“I felt that, from an aesthetic point of view, it would be difficult to keep the
moral
in its proper secondary place" (Wilde,
1979).
Ele
ainda
questiona a
qualidade
da
primeira
versão
de
sua
obra
"I think the
moral
is too apparent. When the book is published in a
volume
I hope to correct this defect” (idem).
A
menção
a
um
“defeito”
remete ao
prefácio,
que
além
de
afirmar
a
amoralidade
dos
livros
conclui "Os
livros
são
bem
ou
mal
escritos.
Eis
tudo".
O
debate
sobre
a
moral
já
se desenrolava
anteriormente
a publicação do
Retrato
de Dorian Gray.
Em
1888 no
seu
ensaio
Pen, Pencil and Poison Wilde
tenta
provar
que
a
moral
e o
comportamento
social
não
estão necessariamente vinculados à
criação
artística.
Porém,
no
seu
romance,
ambos
Dorian e a
personagem
Lord Henry
são
“envenenados”
por
livros.
Embora
os
nomes
não
sejam mencionados, acredita-se serem The Renaissance e À Rebours
de W. Pater e J. K. Huysmans,
respectivamente,
os
livros
que
influenciaram as
personagens.
Além
do
livro,
Dorian é influenciado pelas
frases
de
efeito
de Lord Henry. O
forte
poder
do
discurso
como
fator
corruptor
e moralizante parece
criar
uma
outra
disritmia
entre
prefácio
e
romance.
Contudo
penso
no
próprio
prefácio
mais
uma
vez
e creio
que
Wilde
não
pretendia
fazer
da
sua
obra
um
exemplo
literário
da
sua
teoria,
pois
“o
artista
nada
deseja
provar.
Até
as
coisas
verdadeiras podem
ser
provadas". O
artista,
nas
palavras
de Wilde “has no ethical sympathies at all. Virtue and Wickedness
are
to him simply what the colours on his palette
are
to painters" (ibidem).
Esta é uma
atitude
condizente
com
os
preceitos
do Estetismo,
que
não
vê
numa
obra
de
arte
um
conteúdo
moral.
A
obra
é
obra
em
si,
com
a
sua
moralidade
própria,
que
é o
limite
instrumental da
sua
criação
"Pensamento
e
linguagem
são
para
o
artista
instrumentos
para
uma
arte"
e
seus
limites
materiais
"vício
e
virtude
são
para
o
artista
materiais
de uma
arte".
A
obra
é
então
um
ensaio
de
arte
decorativa e
como
toda
a
arte
é uma
construção
artificial
"completamente
inútil".
O
ÚNICO
PRETEXTO
PARA
SE
FAZER
ALGO
INÚTIL
É
QUE
SE O ADMIRE
INTENSAMENTE.
O
entusiasmo
pela
artificialidade da
cultura
reverbera o modus vivendi finisecular e
cadente
e é
patente
no
estilo
de
vida
de Oscar Wilde.
Suas
extravagâncias
e
comportamento
desafinado
com
os
preceitos
e
valores
da
sociedade
vitoriana revelam a
tentativa
de
reproduzir
a
essência
da
beleza
da
criação
artística
na
vida.
Esta
intrincada
relação
entre
arte
e
vida
e discutida
por
Wilde
além
dos
paradoxos.
Para
ele
"life by its realism is always spoilling the subject matter of art. The supreme
pleasure in literature is to realise the non-existent" (Wilde,
1979) e
portanto
todo
o
contato
com
a
realidade
e todas as
tentativas
de
dar
realidade
a
sonhos
e
desejos
conduzem à
sua
corrupção.
Por
sua
vez
a
arte
está separada dos
modelos
canônicos
das
relações
sociais
- "Nenhum
artista
tem
simpatias
éticas.
A
simpatia
ética
num
artista
constitui
um
maneirsmo de
estilo"
- e possui uma
natureza
particular.
É esta a
questão:
acredito
que
Wilde
não
defende a
idéia
de
que
se deve
viver
de
acordo
com
os
preceitos
éticos
da
sociedade
descritos numa
obra.
A
sua
idéia
é
conduzir
a
vida
de
acordo
com
a
natureza
da
criação
artística
e
portanto
quando
Wilde desliga as
sua
obras
literárias da
sua
vida
-
que
ele
almeja
fruir
como
uma
obra
de
arte
- tem no
espírito
do dandy de Baudelaire o
ideal
de uma
existência
absolutamente
inútil,
sem
nenhum
objetivo
e
justificação
a
não
ser
o
prazer
dos
sentidos.
TODA
ARTE
É AO
MESMO
TEMPO
SUPERFÍCIE
E
SÍMBOLO
Um
outro
paradoxo
aparente
é
construído
ao se
focalizar
a
trama
do
romance.
Já
foi mencionado
que
Basil Howard
cria
um
retrato
que
apresenta
qualidades
misteriosas e
que,
ao
acabar
de
ser
pintado
proporciona a
subseqüente
transformação de Dorian e do
quadro.
Este
momento
de
divisão
está
bem
marcado no
livro
quando
Basil humaniza a
pintura
usando a
segunda
pessoa
do
singular
"Well as soon as you
are
dry, you shall be varnished, and framed, and send home. Then you can do what you
like with yourself" (Wilde, 1992).
Tal
transformação
não
é
simples,
pois
Wilde parece
ir
expandir
o
tema
do
homem
vendendo
sua
alma
pela
juventude
eterna,
trazendo
novas
nuances
para
sua
trama.
O
que
mais
me
chama
atenção
nesta
escolha
temática
e
que
Wilde aponta
para
a
questão
da
fragmentação,
e
como
ele
não
pode
ser
entendida
como
uma polaridade. A
alma,
a
parte
imaterial
do
ser
humano,
é identificada no
retrato
e sofre as
marcas
das
ações
do
tempo
e das
maldades
de Dorian,
enquanto
o
jovem
mantém o
frescor
juvenil
e perde a
capacidade
de
sentir
emoções
verdadeiras,
como
o
amor.
Outra
curiosidade
construída na
trama
por
Wilde é o
fato
de o
retrato
ter
sido
criado
para
ser
escondido e
não
exibido,
graças
a
sua
capacidade
de
revelar
a
alma
e as mudanças ocorridas
através
das
ações
e do
tempo.
É
curioso
que
a
sua
única
capacidade
é a de
refletir
as
marcas
das
ações
de Dorian,
que,
como
uma
máscara,
nunca
muda.
QUANDO
OS
CRÍTICOS
DIVERGEM,
O
ARTISTA
ESTÁ DE
ACORDO
CONSIGO
MESMO.
Wilde sabia do
poder
de
deturpação
dos
críticos
e o afirmou no
prefácio
que
"o
crítico
é
aquele
que
pode
traduzir,
de
um
modo
diferente
ou
por
um
novo
processo,
a
sua
impressão
das
coisas
belas" e
como
não
podia
deixar
de
ser,
a
crítica
foi
imperiosa
em
relação
ao
livro,
tanto
no
momento
da
sua
publicação
quanto
na contemporaneidade. As
manifestações
da
crítica
mostram, de
acordo
com
as
palavras
do
próprio,
a afinação de Wilde
consigo
e
com
a
sua
postura
em
relação
à
arte
e a
vida.
Lançando
mão
do
paradoxo,
Wilde abre uma
fenda
e revela a
vitalidade
da
pena
decadentista fin-de-siécle. O
prefácio
é, nestes
termos,
uma
resposta
à
crítica
da
obra,
um
comentário
sobre
o
papel
do
crítico
de
arte.
A
própria
construção
do
prefácio
pode
ser
pensada
como
uma
resposta
e
um
“esclarecimento”,
como
apontei
acima,
e
também
como
uma
nova
análise
crítica
ou
como
um