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REFLEXÕES SOBRE COORDENAÇÃO E SUBORDINAÇÃO

Sandra Bernardo (UERJ e PUC-Rio)

 

Neste artigo, apresento reflexões sobre os processos de coordenação e subordinação a partir de leituras de autores que se dedicaram ao tema. As observações tecidas aqui costumam ser objeto de minhas aulas; logo, este trabalho é, em essência, uma resenha, dedicada aos meus alunos, voltada para curso de Sintaxe.

Tradicionalmente, são descritos dois tipos de ligação entre orações: coordenação e subordinação. Em geral, a subordinação é definida em termos de dependência sintática, que a oração subordinada consiste em um termo que exerce função na principal, e semântica, porque a subordinada não tem sentido completo sem a principal. As orações coordenadas, por outro lado, são definidas como independentes (Bechara, 1988; Kury, 1987; Cunha & Cintra, 1985), porque possuem sentido completo e não constituem um termo da oração a que se ligam. Observa-se, assim, nessas conceituações a presença de critérios semântico e sintático.

Bechara (1988) inicia seu capítulo sobre o período, definindo oração independente como aquela que possui sentido completo, portanto, um critério semântico. Em seguida passa a adotar um critério sintático ao considerar independente a oraçãoque não exerce função sintática de outra a que se liga” (p. 104). Kury (1987) atém-se ao critério semântico referindo-se a orações como aquelas “que têm sentido por si mesmas” (p. 62), e a orações subordinadas como dependentes a uma principal. Cunha & Cintra (1983) arrolam os aspectos sintáticos e semânticos.

Rocha Lima (1996) adota um critério sintático, ao caracterizar a coordenação como uma “sucessão de orações gramaticalmente independentes” (p. 260), e a subordinação como “uma oração principal que traz presa a si, como dependente outra ou outras. Dependentes, porque cada uma tem seu papel como um dos termos da oração principal” (p. 261).

Essa flutuação entre os critérios semântico e sintático evidencia a carência de uma posição precisa por parte dos gramáticos de orientação normativa. Um exemplo disso é o fato de Bechara (1999)[1] optar exclusivamente pelo critério sintático em sua gramática, valendo‑se da análise em constituintes imediatos. A heterogeneidade de critérios em si não seria um problema, se os aspectos sintáticos e semânticos fossem explicitados nas conceituações.

Othon M. Garcia (1988) reclama contra o termo independente, ao classificar de falsa coordenação a ligação entre as orações do enunciadoO dia estava quente e eu fiquei logo exausto”, em que há, segundo o Autor, uma coesão íntima, uma relação de causa e efeito entre suas orações. Garcia questiona ainda a independência de orações comoportanto não sairemos” e “mas ninguém o encontrou”. Como questiona Carone (1988: 61), tais orações diferem de “Se eu fosse um mágico...”, em termos dependência?

A ambigüidade dos termos dependente e independente não seria um grave problema, se o binômio coordenação-subordinação satisfizesse os processos de ligação entre orações e se, no interior de cada um desses processos, não se observasse tanta heterogeneidade. Por isso, tais conceituações vêm sendo revistas por vários estudiosos. Em seguida chamarei, atenção para algumas críticas tecidas por autores que buscam a reformulação dos conceitos de subordinação e de coordenação.

Carone (1988) salienta o fato de as expressões coordenação e subordinação figurarem nas gramáticas a partir do estudo do período, quando, na verdade, ao ser abordada a relação entre núcleo e complemento dentro um sintagma como a busca da vitória, está-se tratando de uma subordinação.

Outra questão abordada pela Autora consiste na aparente simplicidade da coordenação, o que leva esse processo a ser apresentado em primeiro lugar nas gramáticas e nas salas de aula. Esse procedimento subjaz ao pensamento de que a subordinação estabelece relações gramaticais entre as orações, enquanto a coordenação relações lógicas; entretanto, Carone (1988) lembra que a relação lógica por excelência, causa e efeito, é expressa através de subordinação.

Antecipar a descrição do processo de subordinação ante a coordenação, tornaria mais claro, de acordo com Carone (op. cit.), o critério da independência das orações coordenadas, que não seria entendida em termos puramente semânticos.

A colocação de Carone (1988) leva-me a acreditar que seria mais fácil tratar, inicialmente de períodos compostos por subordinação, especificamente pelas substantivas que caracterizam um processo de expansão de um termo da chamada oração principal, como por exemplo: Ele disse asneiras e Ele disse que cometeria asneiras[2].

A Autora (op. cit.) prossegue com sua análise detendo-se nas seguintes características da coordenação (p. 24):

a) os elementos coordenados têm a mesma função sintática;

b) os elementos coordenados pertencem a um mesmo paradigma;

c) a coordenação forma seqüências abertas, não sintagmas;

d) coordenam-se tanto orações como termos de uma oração.

Segundo Carone (op. cit.), quando se aborda a identidade funcional dos termos coordenados, está-se observando também a subordinação, pois, se há, por exemplo, dois objetos, esses encontram‑se subordinados a um verbo, ou seja, a função desses dois objetos se define em relação ao verbo. Assim, permanece a indagação sobre qual seria o papel da coordenação na estrutura frasal? O que se passa entre os termos coordenados?

Quanto à característica (b), a Autora lembra quecoordenação e associação paradigmática não se pressupõem mutuamente”. Artigos e pronomes adjetivos, por exemplo, podem ser comutados, mas não coordenados: “o homem saiu / aquele homem saiu / *o aquele homem saiu”. “Mesmo quando se combinam”, não configuram uma coordenação: “o homem saiu / outro homem saiu / o outro homem saiu” (p. 25).

O postulado consensual entre gramáticos de que se coordenam funções, não formas, também não é aceito por estilistas, que construções como quero sossego e que não me amolem mais” (Carone, 1988: 27), são rejeitadas em manuais de redação e estilo. Portanto, é preciso observar com mais rigor os termos que podem ser coordenados.

O fato de as coordenadas formarem uma seqüência aberta se aplicaria, como ressalta Carone (1988), às alternativas e aditivas, os demais tipos de coordenação constituem construções binárias, introduzidas por conjunções com valor retrojetivo, opondo-se ao que foi expresso anteriormente, como no exemplo, “Deus é bom, mas justo e severo” (p. 29), em que justo e severo, ligados por adição, formam um todo que se opõe a bom. Logo, para a Autora, as frases coordenadas também se organizam em pares, que podem constituir uma nova unidade; a identificação desses deve ser guiada não apenas pelo tipo de conjunção, mas também pelo sentido da frase.

Com relação à coordenação de termos oracionais e de orações, Carone (1988) expõe a análise estruturalista segundo a qual uma frase comoJoão e Maria saíram” seria o resultado da soma de duas oraçõesJoão saiu + Maria saiu”, após a supressão dos elementos repetidos. A concordância, nesse sentido, seria um mero reforço. Assim, haveria um tipo de coordenação. Essa hipótese de orações originais, aparece também em análises da teoria gerativa padrão (p. 33).

Entretanto, há casos que não podem ser atribuídos à coordenação de termos de orações originais das quais foram excluídas as repetições. Inserem-se nesses casos (p. 37 ss):

(i)      termos ligados pela preposição entre, como emEla sentou-se entre João e Maria”;

(ii)     orações que expressam reciprocidade, “João e Maria são semelhantes”;

(iii)    casos de ambigüidade, do tipo de “João e Maria casaram-se”, em que ambos os sentidos (João e Maria formando um casal ou não) teriam como orações originaisJoão casou-se” e “Maria casou-se”;

(iv)    frases que, por envolverem diferentes níveis de coordenação, podem ser explicadas como termos coordenados, conforme os exemplos: “Eu tenho uma blusa amarela e uma azul” e “Eu tenho uma blusa amarela e azul”, em que o primeiro exemplo pode ser o resultado de duas orações – “eu tenho uma blusa amarela + eu tenho uma blusa azul” –, mas o segundo, teria o sentido de que a blusa é composta de duas cores alterado, se lhe fossem atribuídas as referidas orações originais;

(v)     construções com retificação, como emAcresce que chovia – peneirava – uma chuvinha miúda, triste e constante”, que, segundo Carone (op. cit.), consistem em uma comutação explícita na cadeia sintagmática e não o acréscimo de um outro vocábulo.

Além dessas características, a Autora ressalta ausência de mobilidade de orações coordenadas adversativas, explicativas e conclusivas, frente a algumas adverbiais, em relação à oração a que se ligam. A mobilidade em orações coordenadas restringe-se a aditivas e alternativas, bem como a algumas conjunções coordenativas: porém, entretanto, logo etc.; ou seja, mesmo dentro de um mesmo grupo de orações como as adversativas, observam-se comportamentos distintos. Carone (op. cit.) não propõe alterações para o grupo das subordinadas.

Perini (1996) trata as relações de coordenação e subordinação como orações complexas. Segundo o autor, uma oração é complexa quando “contém dentro de seus limites pelo menos uma outra oração” (p. 124). Esse conceito está baseado na propriedade da recursividade, que permite “colocar estruturas dentro de outras estruturas” (p. 124).

Do conceito de oração complexa, surge a reformulação do que seria a oração principal, pois, segundo o Autor, a oração principal de uma oração complexa como Titia disse que nós desarrumamos a casa é titia disse que nós desarrumamos a casa, a qual contém a oração subordinada nós desarrumamos a casa. O que, nesse caso, é um elemento articulador, responsável pelo encaixe da oração subordinada a um SN com função de objeto direto formado por que + oração. Assim,

uma oração com todos os seus termos preenchidos por sintagmas não‑oracionais não pode ser principal; e uma oração que tenha pelo menos um termo preenchido por sintagma oracional é uma oração principal (op. cit.: 138).

Perini arrola os seguintes argumentos para tal segmentação: possibilidade de manter, sem sofismas, o postulado de que a subordinada faz parte da principal; ausência de um princípio inconveniente segundo o qual um objeto direto pode não fazer parte de sua oração; fuga da situação embaraçosa de afirmar que titia disse possui um objeto direto. De acordo com o Autor, dessa forma a afirmação de queorações subordinadas são termos desenvolvidos em oração” (KURY, 1987: 71) faz sentido.

Logo, uma oração subordinadanão é necessariamente a que funciona como termo de outra oração; mas é aquela que é parte de um termo de outra oração” (p. 134). Assim, “Nós desarrumamos a casa é uma subordinada porque faz parte de que nós desarrumamos a casa, que, por sua vez, é termo de outra oração. Em casos de orações reduzidas de gerúndio ou de infinito[3], a subordinada constituirá, sozinha, um termo da principal.

A fim de manter a coerência do conceito de oração complexa, Perini estabelece de que (1) Titia fez a salada e (2) Mamãe fritou os pastéis fazem parte da oração complexa (3) Titia fez a salada e Mamãe fritou os pastéis, exercendo a função de membro de coordenação. Tal função pode ser desempenhada por termos ou orações. Nesse sentido, para o Autor, não existe coordenação sem subordinação, que as orações (1) e (2) formam um terceiro constituinte ao qual (1) e (2) são subordinadas por terem em (3) a função de membro de coordenação (p. 134-136).

A proposta de Perini revela semelhança com a análise estruturalista em constituintes imediatos, a partir do conceito de sintagma, como pode ser observado no esquema, a seguir, em que ilustro a segmentação postulada pelo Autor, em uma espécie de caixa de Hockett: