SEMIÓTICA
&
ENSINO
ESTRATÉGIAS
PARA
A
LEITURA
E TEXTUALIZAÇÃO
Darcilia Simões
(UERJ)
Para
começar
a
conversa...
Nossas
pesquisas
têm buscado
produzir
moldura
teórica
e
estratégias
metodológicas
para
a melhoria das
aulas
de
português.
As
deficiências
na
competência
de
leitura
e de
produção
textual
são
o
problema
documentado nas avaliações
por
que
vêm passando o alunado no Brasil.
Nossa
experiência
com
turmas
de alfabetização (décadas
de 70/80) fez-nos
descobrir
a
relevância
da
semiótica
na
condução
das
atividades
didático-pedagógicas voltadas
para
a proficiência
verbal.
A
partir
do
que
ocupamo-nos,
especialmente,
com
o
texto
escrito
e vimos explorando a
sua
plasticidade
como
estímulo
do
desenvolvimento
de uma
atitude
científica
diante
dos
atos
de
ler
e de
escrever.
No
entanto,
alterar
o
que
está
posto,
mudar
rumos,
inaugurar
movimentos,
são
atitudes
perigosas e complicadas. A
sensação
de
segurança
sobre
o
conhecido,
quando
abalada
pela
novidade,
transforma-se
em
escudo,
e os
interlocutores
acabam
por
situar-se
em
campos
opostos,
ainda
que
não
tenha havido
comunicação
suficiente
para
esclarecer
tema
e
projeto.
Se o
leitor
pensa
que
isto
se dá de
modo
diverso
no
espaço
acadêmico-educacional, engana-se! Ao
contrário
do
que
se possa
esperar,
a
escola,
a
academia,
os
docentes,
em
sua
maioria,
representam
um
exército
de
resistência
às
inovações
(salvo
honrosas
exceções).
E
isto
se dá,
sobretudo
por
força
do
medo
de
enfrentar
o
novo,
o
desconhecido.
Sabe-se
que
as
condições
profissionais
no
âmbito
do
ensino
e da
pesquisa
no Brasil
não
são
as
melhores,
contudo,
isto
não
justifica uma
atitude
refratária
às mudanças,
mormente
quando
as
ações
historicamente repetidas
não
produzem os
resultados
perseguidos.
Logo,
urge
rever
posições,
criar
meios
e
modos
de atualização
permanente
e re-discutir
cotidianamente
a
prática
didático-pedagógica
com
vistas
a re-planejar o
fazer
nas
aulas
de
leitura
e textualização.
Por
que
resumir
em
leitura
e textualização?
Não
há
por
que
recalcitrar
na
tecla
de
que
o
homem
se comunica
através
de
textos,
etc. etc.
Isto
já
é
notório,
e
tanto
docentes
quanto
discentes
já
não
suportam
mais
esta
cantilena.
O
que
se faz
urgente
é a
reorganização
das
práticas
didáticas
voltadas
para
as
operações
com
a
língua,
principalmente
a
língua
nacional,
de
modo
a
produzir
sessões
em
que
os
usuários
(alunos
e
professor)
interajam
com
a
máxima
espontaneidade
possível
e gerenciem
seus
usos
lingüísticos
adequando-os às
situações
comunicativas.
Parece
chover
no
molhado,
todavia,
se
assim
o fosse
não
estariam
docente
e
discentes
permanentemente
envoltos
em
situações
constrangedoras relacionadas a
usos
lingüísticos
impróprios
ou
mutilados. A
eterna
queixa
de
que
os
alunos
não
se saem
bem
nas avaliações
porque
ou
não
entendem os
enunciados
das
tarefas
ou
não
redigem
respostas
legíveis
precisa
dar
lugar
a outras
falas,
em
que
o
tema
seja a
demonstração
de
habilidades
leitoras e redacionais vinculadas a
situações
reais
de
comunicação.
Para
tanto,
o
modelo
descritivo nomenclatural
ainda
predominante nas
classes
de
língua
portuguesa deve
ceder
espaço
para
operações
diretas
sobre
a
língua
em
funcionamento,
isto
é,
para
a
realização
lingüística
nos
textos.
Cumpre, no
entanto,
lembrar
que
a
seleção
dos
textos
deve
ser
encarada
como
verdadeira
arte,
pois
disto dependerá a
eficiência
do
trabalho
de
análise
e
produção
lingüística.
Enfim,
lemos
todo
o
tempo.
Desde
as
horas
no
relógio,
aos
letreiros
dos
ônibus
e
placas
de
supermercado.
Logo,
desenvolver
habilidades
de
leitura
e textualização é
indispensável.
Qual
é o
texto
adequado?
É
evidente
que
não
se tem a
intenção
de
dar
receitas
de
trabalho
didático,
pelo
simples
motivo
de entender-se
que
interagir
com
o
ser
humano
é uma
atividade
dinâmica
e de
mutação
infinita.
Logo,
o
que
se pretende
aqui
é
apontar
mais
um
caminho
de
exploração
lingüística
que
leve
o
usuário
a uma
prática
linguageira
eficiente.
Atualmente,
a
eficiência
comunicativa
não
demanda
conhecimento
exclusivamente
verbal,
pois
os
textos
hodiernos
se constroem
com
variado
material
sígnico. E foi partindo desta
premissa
que
ousamos
considerar
o
texto
verbal
escrito
como
um
produto
imagético e, a
partir
disto,
começar
a explorá-lo
como
se fosse
um
desenho,
uma
foto,
uma
imagem
ou
similar.
Para
tanto,
foi
preciso
ir
buscar
suporte
teórico
em
ciência
não-lingüística de
modo
a
alargar
a
abordagem
do
signo
para
além
das
letras.
A
intervenção
cibernética
no
mundo
contemporâneo
promoveu uma
mudança
na
produção
textual,
uma
vez
que
a
rapidez
da
comunicação
passou a
exigir
meios
mais
ágeis na
transmissão
das
idéias.
Portanto,
o
código
verbal,
simbólico
por
excelência
por
isso
mais
complexo
dos
códigos
humanos,
teve de
dividir
seu
espaço
com
outros
códigos
e
linguagens
com
vistas
a
atender
a
dinâmica
da
comunicação
na
era
da
informática.
Isto
demanda
uma
formação
também
ampliada do
professor
de
língua,
que
agora
passa
a
ser
professor
de
linguagem
e tem de
dominar
competentemente
outros
código
além
do
verbal.
Destacamos
aqui
as
linguagens
visuais
em
geral,
uma
vez
que
nos
ocupamos precipuamente do
texto
escrito
(sensível
aos
olhos).
Neste
caso,
o
texto
que
se
mostra
adequado ao
trabalho
que
vamos
propor
é o
texto
escrito;
e
mais,
a
seleção
do
texto
deve
levar
em
conta
a
clientela
a
quem
será apresentado
para
trabalhar.
Assim
sendo,
nossa
experiência
já
demonstrou
que
é
útil
partir
do
conhecido
para
o
desconhecido.
Logo,
jornais,
revistas,
anúncios
impressos,
letras-de-música,
poemas,
hinos,
etc.
são
material
produtivo
para
o
trabalho
em
classe.
Quais
seriam os
critérios
de
seleção?
Quando
da
seleção
textual
há
ainda
que
se
considerar
a
relevância
temática.
Observada a
importância
de uma
educação
que
resgate
as
sensibilidades
estética,
ética,
moral,
cumpre
lembrar
que
a
escolha
dos
textos
deverá
contemplar
temas
não
apenas
atuais,
mas
sobretudo
educativos.
É
óbvio
que
não
vamos
retroceder
em
busca
dos
textos
com
lição
de
moral
usados
outrora,
senão
textos
que
abordem
temas
importantes
para
a
sociedade
contemporânea
e
que,
por
meio
deles, seja
possível
ampliar
o
debate
para
os
ditos
temas
transversais
como
liberdade,
democracia,
educação,
participação
política,
ecologia,
educação
ambiental, etc.
Nessa
linha
de
raciocínio,
parece
ficar
visível
a
riqueza
de
códigos
e
linguagens
emergente
da
pluralidade
temática
disponível.
É
mister,
contudo,
considerar
ainda
a
opção
lingüística
como
dado
relevante
na
seleção
dos
textos.
Isto
porque
ao
mesmo
tempo
que
se estará discutindo
conteúdos
amplos
em
termos
socioculturais,
também
estará sendo observada a
língua
e
seu
necessário
ajuste
as
situações
comunicativas.
Os
signos,
a
leitura
e a
escrita
Desde
os
primórdios
da
humanidade,
buscam-se
explicações
para
o
processo
do
conhecimento
humano.
Muito
cedo,
pensadores
da antigüidade formularam
hipóteses
e geraram
teorias
que
definiam a
expressão
humana
como
um
processo
representativo de
suas
formas
de
ver
o
mundo.
Assim
descobriram o
signo,
conceituaram-no e o decompuseram na
intenção
de, desta
forma,
compreender
o
conhecimento
humano.
Concluíram
então
que,
independentemente
do instrumental usado, o
homem
manifesta
suas
idéias
por
meio
de estruturações sígnicas
em
forma
de
linguagens.
Deduziram do
signo
ora
dois
ora
três
componentes,
mantendo,
não
obstante,
significante
e
significado
como
integrantes
indispensáveis
à
composição
dessa
entidade
semiótica.
O
terceiro
elemento
constituinte
do
signo
tem sido
objeto
de longínquas
discussões
e serviu de
base
para
o desdobramento de uma
original
disciplina
dos
signos
(semiótica)
em
várias outras
disciplinas
que
se debatem
entre
signos,
significações e
relações.
São
elas:
semiótica,
semiologia,
semântica,
pragmática,
etc.
Em
nossos
estudos,
motivados
pela
opção
de
considerar
o
texto
escrito
como
objeto
visual,
portanto
associável a
qualquer
outro
construto sígnico
sensível
aos
olhos,
encontramos na
semiótica
de Peirce
um
caminho
produtivo,
uma
vez
que
a
teoria
da iconicidade
nos
permitiu
encarar
o
texto
escrito
como
objeto
plástico
e
entrar
a
examinar
as
qualidades
responsáveis
pela
plasticidade do objeto-texto.
Considerando-se a
língua
como
matéria-prima
das
interações
sociais,
verifica-se
que,
entre
os
signos,
o
lingüístico
(ou
verbal)
ocupa
espaço
privilegiado. A
despeito
de
sua
complexidade, é o
signo
lingüístico
que
se impõe
como
domínio
obrigatório
e,
em
geral,
impele o
indivíduo
a
buscar
a
escola:
espaço
onde
se aprende a
ler,
escrever
e
contar.
Observe-se
que
contar
é uma
operação
matemática
que
também
atravessa os
domínios
do
signo
visual,
pois
há
códigos
numéricos a serem aprendidos
que
implicam a
identificação
e a
tradução
de
figuras.
Logo,
para
contar
é
preciso
realizar
atividades
de
leitura
e
escrita.
Mesmo
que
uma
voz
interna
diga
que
é
possível
contar
sem
escrever
ou
ler,
reduzindo a
operação
à
atividade
de
organizar
coleções,
ordenações,
etc. A
aquisição
dos
códigos
numéricos e da estruturação das
sentenças
matemáticas
e respectivas
operações
demanda
o
desenvolvimento
de
habilidades
visuais
e motoras correlatas às exigidas
para
o
aprendizado
da
leitura
e da
escrita.
Assim
sendo, as
operações
sígnicas
que
aqui
propomos se prestam ao
desenvolvimento
de
habilidades
visuais,
cognitivas e motoras,
que
se cruzam no
processo
de aprendizagem
escolar
transdisciplinarmente.
A aprendizagem
significativa
Assim
como
se propôs uma
correlação
entre
saberes
lingüísticos
e matemáticos, é
preciso
conectar
conhecimentos
antigos
a
informações
novas.
O
dado
e o
novo
são
componentes
que
se articulam na
construção
da
coesão
e da
coerência
dos
textos.
Se
algo
só
é
signo
quando
significa
algo
para
alguém,
não
é
possível
propor
atividades
escolares
que
não
venham a
produzir
significado
para
os
estudantes.
Observe-se
que
o
radical
de
signo
é de
indiscutível
produtividade no
âmbito
de nossas
especulações
acerca
do
conhecimento
e da aprendizagem
humana.
Isto
se deve ao
fato
de perseguirem-se
imagens
significativas
para
a
constituição
de
nossa
experiência.
Por
isso,
significar,
grosso
modo,
quer
dizer
tornar-se
signo,
produzir
significação,
fazer
com
que
algo
signifique alguma
coisa
para
alguém.
Portanto,
significar
resume o
processo
semiótico:
geração
de
signos
e significações.
Nesta
ótica,
vimos tentando
analisar
a plasticidade
textual,
faculdade
de
um
texto
produzir
imagens
na
mente
do
produtor
e do
leitor,
funcionando
assim
como
um
ícone
temático
em
cujo
interior
seriam apuráveis
outros
signos
icônicos, indiciais e simbólicos
que
norteariam
ou
desnorteariam o
leitor
durante
a
leitura.
Isto
se deve
associar
a
corrente
pedagógica
que
propõe
um
processo
de aprendizagem
significativo
(v. aprendizagem
significativa
- Moreira, 1999: 20),
por
meio
do
qual
o
estudante
consiga
estabelecer
relações
entre
suas
experiências
vivenciais e as
informações
obtidas na
escola.
Onde
encontrar
plasticidade?
Em
outro
de
nossos
estudos
(Simões, 2004: 5), apontamos
caminhos
para
análise
da iconicidade
textual.
Eis
três
deles: 1 – iconicidade diagramática (no
projeto
visual
do
texto
e na estruturação dos
sintagmas);
2 – iconicidade
lexical
(discutindo a
seleção
dos
itens
lexicais
ativados
no
texto);
3 - iconicidade isotópica (extraída das duas
anteriores
e funcionando
como
trilha
temática
para
a
formação
de
sentido).
Neste
estudo,
acrescentamos
mais
um
tipo:
a iconicidade lingüístico-gramatical (resultante
do
emprego
estratégico
das
classes,
categorias,
relações
e
mecanismos
gramaticais
em
prol
da
legibilidade
ou
da
opacidade
textual).
Testamos e constatamos a
eficiência
da
exploração
da iconicidade
textual
como
estratégia
de
análise
dos
componentes
da
trama
textual.
Por
isso,
entendendo o
texto
como
imagem
(objeto
visual),
temos
desenvolvido
trabalhos
onde
se tem podido
demonstrar
no
projeto
plástico
do
texto:
o
potencial
icônico do
léxico
(iconicidade
lexical),
bem
como
a
importância
da
seleção
lexical
na
construção
das
trilhas
de
leitura;
a
distribuição
dos
enunciados
em
parágrafos
(iconicidade diagramática); o
aproveitamento
das
informações
gramaticais