Um
dramaturgo
alto
pós-modernidade e
morte
em
Three tall women, de Edward Albee
Leonardo Mendes
(UERJ)
I
No
primeiro
ato
da
peça
Three tall women (1994), do
dramaturgo
norte-americano
Edward Albee, a
platéia
assiste às
conversas
de
três
mulheres
que
não
são
identificadas
por
nomes.
Para
o
leitor
da
peça,
elas
são
identificadas pelas
três
primeiras
letras
do
alfabeto.
As
idades
das
personagens
variam dos vinte e
seis
anos
que
tem a
mulher
identificada
pela
letra
C, passando
pelos
cinqüenta e
dois
anos
da
mulher
B,
para
chegar
aos noventa e
poucos
anos
da
mulher
A. As
três
encontram-se no
luxuoso
quarto
da
mais
velha,
que
jaz
sobre
um
leito
e sofre de várias
enfermidades
associadas à velhice. As
conversas
giram
em
torno
das
memórias
da
mulher
A,
além
de
seu
cotidiano
de
mulher
doente.
A
mulher
de
meia-idade
parece
ser
uma
dama
de
companhia
da
mulher
mais
velha
(sendo,
por
isso,
solícita
e
paciente),
enquanto
a
mais
jovem
é a representante do
advogado
que
administra os
bens
e
recursos
financeiros da
moribunda.
Ela
representa a
impaciência
e a
incompreensão
típicas da
juventude.
Ao
final
do
primeiro
ato,
um
espectador
que
assistisse à
peça
em
um
teatro
notaria
que
os
nomes
das
três
mulheres
não
haviam
ainda
sido mencionados. As
posições
bem
demarcadas na
geografia
do
palco
não
deixariam
dúvidas
de
quem
é
quem,
mas
mesmo
assim,
por
que
não
nomear
as
personagens?
Para
o
leitor
da
peça,
a
economia
da
marcação
com
as
três
primeiras
letras
do
alfabeto
deve
ser
um
alerta.
Afinal,
quem
são
estas
três
mulheres
altas?
Quando
o
segundo
ato
se inicia, o
leitor
ou
o
espectador
logo
nota
que
as
três
mulheres
são,
na
verdade,
uma
só.
Cada
uma
em
determinada
fase
da
vida
(juventude,
meia-idade
e velhice), as
três
agora
conversam
como
se fossem uma
só
pessoa,
usando o
pronome
pessoal
nós
para
se
referir
a
experiências
comuns,
vividas algumas
como
passado
(para
as duas
mulheres
mais
velhas), e outras
como
futuro
a
ser
vivido
(para
a
mulher
mais
jovem).
Ao
fundo
do
mesmo
quarto,
a
mulher
A jaz
imóvel
e
moribunda
sobre
seu
leito.
Mas,
depois
de
menos
de
cinco
minutos
de
conversa
entre
as
mulheres
B e C, no
início
do
segundo
ato,
eis
que
a
mulher
A
adentra
o
palco
pela
esquerda.
As duas outras
mulheres
não
se espantam
com
o
fato.
Quem
jaz
sobre
a
cama,
então,
é
um
manequim,
uma
representação
delas mesmas, à
beira
da
morte.
As
três
agora
se debruçam
sobre
os
caminhos
e
descaminhos
da
própria
vida,
enquanto
elas
mesmas caminham
para
a
morte.
II
Na
introdução
à
peça,
Albee explica
que
o
assunto
de Three tall women é
sua
mãe
adotiva,
uma
mulher
que
ele
diz
ter
conhecido
bem.
Acrescenta
que
a
peça
não
pretende
ser
um
manifesto
de
vingança
contra
a
mãe.
Mas
por
que
ela
seria? A
necessidade
de
explicar
isso
ao
leitor
revela a
existência
de
um
passado
de
animosidades
entre
o
autor
e
sua
mãe,
que
é dramatizado
em
vários
níveis
durante
os
dois
atos
da
peça.
Afinal,
nem
toda
peça
de
memória
precisa
ser
vingativa.
Na
história
do
teatro
norte-americano,
duas
grandes
peças
autobiográficas se dão ao
luxo
de
não
dar
essa
explicação
ao
leitor.
Talvez
porque
sejam
em
parte
vingativas, de
fato,
e
não
têm
vergonha
disso.
Mas
tanto
Tennessee Williams
em
The Glass Menagerie (1945),
quanto
Eugene O’Neill
em
Long Day’s Journey into Night
(1956), dramatizam uma
retrospectiva
autobiográfica
que
é
em
parte
um
acerto
de
contas
com
um
passado
doloroso.
O
valor
das duas
peças
está na
capacidade
de
rememorar
com
generosidade,
de
modo
que
todos
os
comportamentos
inaceitáveis
dos
personagens
parecem
em
parte
justificáveis
para
o
leitor
ou
espectador.
Há uma
certa
dignidade
na
disposição
de Amanda
em
superar
as
dificuldades,
e Mr Tyrone, a
despeito
de
sua
“mentalidade
de
camponês”
(FLOYD, 1985: 533), parece, ao
final,
aceitável
e
amável.
Para
o
crítico
literário,
prefácios
e
notas
introdutórias
são
partes
integrantes
de uma
obra.
Aprendemos,
desde
o new criticism, a
não
considerar
as
intenções
manifestas de
um
autor
como
chave
privilegiada de
leitura
de
sua
produção
literária
(WIMSATT & BEARDSLEY, 1989: 1383).
Mesmo
assim,
as
opiniões
de
um
dramaturgo
sobre
a
sua
peça,
como
vemos no
caso
de Albee, revelam
ansiedades
em
relação
a
mal
entendidos
futuros
que
dão
forma,
por
sua
vez,
às
expectativas
de
recepção
crítica
que
ele
nutria. É
um
pouco
suspeita
a
pressa
do
autor
de Three tall women
em
estabelecer
um
distanciamento
emotivo
da
mulher
que
lhe
serve de
inspiração.
Ele
diz
que
não
guarda
rancores
em
relação
a
ela
e
que
escreveu a
peça
sem
preconceitos.
Esta
reivindicação
de
objetividade
em
relação
a uma
mãe
(ainda
que
adotiva)
é
parte
integrante
do
quadro
biográfico
que
o
autor
pinta,
mesmo
que
ela
não
se realize
completamente
no
drama.
Inserida na
tradição
das memory plays norte-americanas, Three tall women,
portanto,
fala
tanto
de Albee
quanto
de
sua
mãe.
E
como
tal,
ela
é
em
parte
vingativa,
mas
é
também,
como
nos
casos
de Williams e O’Neill, uma
espécie
de
tributo
e de
reconhecimento.
O
personagem
do
homem
jovem,
visto
à
distância,
que
não
tem
nome
e
nada
fala
na
peça,
expressa
bem
a
frieza
que
definia as
relações
entre
mãe
e
filho.
Esta
presença
remota
também
retoma
tangencialmente
um
tema
caro
a Albee: a
ausência
de
filhos
como
símbolo
de
esterilidade
emotiva
e
espiritual
(HAYMAN, 1971: 41). O
autor
não
esconde
suas
dificuldades
de relacionamento
com
a
mãe,
e
só
vagamente
sugere
que
sua
homossexualidade
pudesse
ser
a
raiz
do
problema.
A
discrição
com
que
o
tema
é
tratado
na
peça
– há
referências
vagas
a
cartas
que
o
autor
recebia de
homens
mais
velhos
–
deixa
claro
que
Albee está
disposto
a
ser
generoso
com
a
memória
da
mãe.
Com
a
mesma
disposição,
o
autor
permite,
sem
muitas
justificativas,
que
a
mãe
cobre
várias
vezes
sua
presença
a
seu
lado,
reclamando
tanto
da
brevidade
quanto
da
raridade
de
suas
visitas.
A
mulher
B,
em
especial,
por
ser
a representante cronológica do
auge
da
crise
entre
mãe
e
filho,
é
bastante
dura,
e acusa o
autor
de
nunca
ter
se integrado à
sua
família
adotiva.
O
fato
de
que
Albee representa a
si
mesmo
como
um
homem
para
sempre
com
um
pé
na
soleira
da
porta
da
casa
mãe
é a
inserção
mais
autêntica
(e reveladora) de
um
traço
da
personalidade
da biografada: a
altivez.
III
Mas
a
vingança
de Albee
por
esta
expulsão
involuntária
– uma
expulsão
que
é, ao
mesmo
tempo,
material,
moral
e
afetiva
–,
ainda
que
ele
a negasse, pode
ser
verificada nas
dinâmicas
do
grande
achado
cênico
da
peça:
dividir
em
três
uma
personagem
para
fazer
com
que
ela
pudesse confrontar-se
com
ela
mesma,
em
três
momentos
de
sua
vida,
sobre
as
escolhas
de
sua
própria
vida.
Os
confrontos
são
freqüentemente
agressivos,
mas
como
são
diferentes
facetas
de uma
mesma
mulher
que
se agridem e xingam, Albee pode
admoestar
e
humilhar
sua
mãe
sem
que
suas
opiniões
sobre
ela
contenham a
assinatura
ostensiva
de
sua
voz.
Desse
modo,
as
ofensas
que
na
peça
a
mãe
lança
a
judeus,
negros
e
homossexuais
são
criticadas
pela
mulher
C,
que
é
antes
de
tudo
ela
mesma,
mas
também
é a
voz
através
da
qual
Albee
fala
nesse
momento.
Ao
dividir
sua
mãe
em
três,
o
autor
obtém
um
efeito
de
simultaneidade
que
só
pode
ser
atingido no
palco.
Este
mesmo
palco
se transforma
assim
num
altar
onde
um
filho
presta
homenagem
à
memória
de
sua
mãe
ao
mesmo
tempo
em
que
a mutila simbolicamente, sacrificando-a
para
que
ele
possa
seguir
em
frente.
O desmembramento da biografada
em
três
às
vezes
reverbera no
corpo
físico
da
personagem.
Devido
a uma
fratura
de
braço
mal
curada, os
médicos
sugerem
que
o
membro
da
moribunda
seja amputado (ALBEE, 1995: 26).
Mas
esta
fragmentação
deve
ser
também
compreendida
dentro
de
um
contexto
cultural
mais
amplo,
para
além
das
dinâmicas
autobiográficas.
Um
biografia
desse
modo
descentralizada, construída a
partir
de
pontos
de
vista
oscilantes,
é
também
típica
do
que
se convencionou
chamar
de
tempos
pós-modernos (HUTCHEON, 1991: 88).
Como
explica Jorge Larrain (1995: 274):
O
discurso
pós-moderno
não
mais
considera a
razão
como
a
base
para
a
construção
de
identidades
e
seus
outros.
No
contexto
do pós-modernismo,
não
se pode
mais
aspirar
a uma
representação
unificada do
mundo,
ou
entendê-lo
como
uma
totalidade
repleta
de
conexões
e
diferenciações.
O
que
se tem é uma
conjunção
de
fragmentos
em
perpétuo
deslocamento.
Não
existe uma
história
única,
mas
somente
imagens
do
passado
projetadas a
partir
de
pontos
de
vista
diferentes.
É
ilusório
supor
que
existe
um
ponto
de
vista
ou
compreensão
suprema,
capaz
de
unificar
todos
os
outros.
Daí a
ênfase
do pós-modernismo
em
descontinuidade
e
fragmentação.
Nem
filósofos
nem
cientistas
sociais
conseguem
dar
um
sentido
global
para
o
mundo.
Nesse
contexto,
para se
falar de uma
vida, há
que se
falar de
pelo
menos
três
vidas. Poderiam
ser
quatro,
cinco
ou
seis,
exibir os
vários Mr Hydes de
nossos Dr Jekylls, de
modo a
proliferar
narrativas diversas
sobre uma
mesma
vida,
sem
que nenhuma detenha a
verdade
final. Substitui-se,
assim, a
metáfora da
profundidade do
conhecimento
pela
metáfora da
amplitude.
Em Three tall women, as
três
mulheres colocam
em
movimento, ao
mesmo
tempo, uma
colaboração e
um
confronto de
narrativas e
vocabulários. A
dinâmica de
generosidade e agressividade –
exemplarmente realizada
por O’Neill
em Long Day’s Journey into Night – é
aqui
animada
por uma
solução
cênica
radical. As
três
mulheres narram várias
histórias
que lutam
para
sobreviver, várias
histórias
sobre
elas mesmas
que se tornam
mais
ou
menos
audíveis a
partir da
capacidade
momentânea de
convencimento (PHILIPS, 1998: 154).
O
resultado
imediato da
proliferação de
narrativas
sobre uma
vida é o
desacordo. O
confronto
mais marcado se dá
entre as
mulheres A e B
com a
mulher C. Continuamente a
mulher
mais
jovem rejeita as
interpretações e avaliações das duas
mulheres
mais velhas, dizendo
por
fim “I’ll never become you – either of you”,
que é uma
forma de
rejeitar o
futuro dela
mesma. No
limite,
ela acaba
por
negar a
existência da
mulher
mais
velha, num
gesto
radical e
inútil de
negação da
derrota e da amargura da
morte.
Mas
também há
desacordo
entre as duas
mulheres
mais velhas.
Quando as duas contam à
mais
jovem
sobre as futuras
traições do
marido delas mesmas, a
mulher B julga
que as
mulheres traem
seus
maridos
porque se sentem
solitárias,
enquanto os
homens traem
suas
mulheres
simplesmente
porque
são
homens. A
mulher A discorda: “No. We cheat because we’re
bored, sometimes. We cheat to get back; we cheat because we don’t know any
better; we cheat because we’re whores. We cheat for lots of reasons. Men cheat
for only one – as you say, because they’re men” (ALBEE, 1995: 83). É
como se as
três
vozes propusessem
um
revisionismo
insistente e
sem
fim;
como se uma
vida estivesse sendo
permanentemente recontada. A uma
opinião se sobrepõe
outra,
mais
ou
menos sofisticada,
mas
não necessariamente
melhor
ou
mais verdadeira do
que as outras. O
espectador
não
passa a
conhecer a
realidade de uma
vida,
porque a
realidade
não
passa da
interseção de uma multiplicidade de
imagens.
Da
pluralidade
de
discursos,
emerge a
alteridade.
No
caso,
aqui,
os
outros
são
ela
mesma.
É a
mesma
mulher
que
não
se reconhece nas
mulheres
em
que
se transformaria, do
mesmo
modo
que,
no
futuro,
as
mulheres
mais
velhas custam a
acreditar
que
elas
próprias pudessem
ter
sido
tão
ingênuas e
impacientes.
A
peça
é uma mirada
permanente
de uma
personagem
no
espelho,
para
seguidamente
se
espantar
com
o
que
vê
e
não
se
reconhecer
nas variações de uma
mesma
identidade,
alternadamente se assustando e se apaziguando
com
os
outros
que
são
ela
mesma.
Dessa
forma,
Albee impõe
retrospectivamente
à
sua
mãe
preconceituosa
uma
experiência
ao
mesmo
tempo
íntima
e
radical
da
alteridade.
O
espanto
de
si
transforma as
mulheres
num
sujeito
essencialmente
fragmentado e descentrado
em
seu
eu
interior,
internamente
dividido,
incapaz
de
unificar
suas
experiências
de
passado,
presente
e
futuro.
Por
isso,
em
Three tall women abole-se o
tempo
cronológico. Temos
aqui
uma espacialização do
tempo
(HARVEY, 1989: 240). O
tempo
não
flui
mais
como
tempo
vetor,
como
ocorre no
romance
realista do
século
19, partindo de
um
ponto
que
demarcaria
um
começo,
passando
pelo
meio,
para
então
chegar
a
algum
fim.
Na
peça
de Albee, a
sincronia
toma
o
lugar
da