A
POÉTICA
DE LÚCIO CARDOSO:
O
CATOLICISMO
DA
TRANSGRESSÃO[1]
Fernando Monteiro de
Barros
(UERJ)
São
estes
tempos
exatos
os de
agora,
tempos
precisos
-
não
mais
vivemos no
entardecer
crepuscular
quando
o
mal
se misturava
com
o
bem
e confundia o
mundo.
Agora,
pela
graça
de
Deus,
o
sol
brilha
no
céu,
e
aqueles
que
não
temem a
luz
certamente
o louvarão.
(Arthur Miller, As feiticeiras de Salem)
A modernidade
que
se instalou
hegemônica
no
cenário
ocidental
a
partir
da
segunda
metade
do
século
XVIII trouxe
em
seu
bojo
a dicotomização
proposta
por
Sócrates, Platão e Aristóteles e
levada
a
cabo
por
Descartes
no
século
XVII,
época
em
que
se
passa
a
ação
transcorrida na
peça
de Arthur Miller (MILLER, 1984: 85),
que,
numa
alusão
ao maccartismo
americano
dos
anos
50,
em
que
supostos
comunistas
eram denunciados e perseguidos,
trata
da perseguição das
bruxas,
pactuadoras
com
o
mal,
por
parte
da
comunidade
puritana
na
então
colônia
de Massachussetts na
década
de 1690. Os
puritanos
ingleses do
século
XVII,
antes
da
vitória
e do
poderio
de Oliver Crommwell, ao terem
postulado
reformar
a
Igreja
Anglicana,
despojando-a de
seus
resíduos
católico-romanos e tornando-a
conforme
seus
preceitos
calvinistas,
fundamentados na
severidade
da
virtude
e no
trabalho
como
meio
para
se
atingir
o
merecimento
de
ser
um
dos eleitos
por
Deus
no
reino
dos
céus,
foram perseguidos e partiram
para
a América do
Norte
para
lá
fundarem
sua
sociedade
baseada
nos
princípios
burgueses
que,
com
o
tempo,
acabariam
por
explodir
o
etos
do
Antigo
Regime
e
instaurar
a
ordem
mundial
perante
a
qual
todos
os
países
têm
que
se
submeter
à
ética
protestante
e ao
espírito
do
capitalismo,
para
citarmos Max Weber.
Na modernidade, "a
razão
toma
o
lugar
da
revelação"
(TAWNEY, 1971: 24), e a
hegemonia
teocrática
da
Igreja
Católica
Romana,
que
propunha o
mundo
como
o
lugar
do
desterro
e do sofrimento, cede
lugar
à
crescente
secularização da
sociedade
que,
aos
poucos
liberta
do
jugo
de uma
hierarquização
ritualizadora da
imutabilidade
dos papéis,
que
condenava a
todos
os
não
pertencentes à
casta
dominante
ao
desprestígio,
julga-se no
direito
de
obter
a
felicidade
e
banir
do
mundo
o sofrimento e o
mal.
O
pensamento
arcaico,
pré-socrático,
concebia a "mistura"
de todas as
coisas
dentro
dos
intermináveis
ciclos
de nascimento e
morte,
criação
e
destruição,
dia
e
noite.
A
concepção
de
mundo
de Heráclito,
por
exemplo,
assenta-se
sobre
o
paradoxo,
assim
como
a de várias outras
sociedades
arcaicas,
como
a
hindu,
para
a
qual
o
bem
e o
mal
nada
mais
são
do
que
expressões
ilusórias deste
mundo
terrestre.
A coincidentia oppositorum,
concomitância
dos
contrários,
está
encarnada
na
figura
de
Deus
inclusive,
segundo
Mircea Eliade (1969: 105)
e Carl-Gustav Jung (JUNG, 1990: 52-57),
que
apontam
para
tradições
judaicas e cristãs dos
primeiros
tempos
segundo
as
quais
de
Deus
provém
tanto
o
Bem
quanto
o
Mal,
o
que
é
expresso
na
fraternidade
Cristo-Satã: "ambos
aspiram à
realeza:
um
à
realeza
do
céu
e o
outro
ao
governo
deste
mundo,
como
se o
mundo
e o
tempo
tivessem sido partilhados
entre
os
dois
irmãos
régios"
(Idem,
p. 41).
A
concepção
trágica
do
mundo
presente
nas
sociedades
arcaicas implica na
imutabilidade
do
devir
a
que
tudo
e
todos
estão submetidos,
tanto
prazerosa
quanto
dolorosamente,
ritualizado nas
festas
dionisíacas. O
catolicismo
medieval
despiu o
trágico
de
sua
parcela
de
alegria,
prazer
e
bem-aventurança
material,
solenizando
apenas
o
que
no
devir
há de
doloroso
e
mortal.
Com
o
surgimento
da modernidade, na
sua
aurora
que
foi o
Renascimento
e a Reforma
protestante,
a
crença
na
atuação
transformadora do
homem
sobre
o
mundo
fez
com
que
este
se acreditasse
capaz
de
estancar,
do
devir,
todos
os
seus
aspectos
desditosos. Recorrendo à dicotomizaçao
platônica
entre
sujeito
e
objeto,
através
da
razão
procurou
abolir
o
paradoxo
e
instituir
a doxa,
ou
seja,
senso
comum,
através
da
qual
a
totalidade
primeva
é suplantada
pela
pretensão
de uma
vitória
do
sujeito
sobre
o
objeto,
da
racionalidade
sobre
a
irracionalidade,
da
ordem
sobre
o
caos,
da
luz
sobre
as
trevas.
De
um
cristianismo
voltado
para
a
dor
e a
escatologia,
com
a Reforma passou-se a
um
cristianismo
que
vê
na prosperidade
material
decorrente do
trabalho
a
bênção
de
Deus.
A
crença
no
progresso
como
culminância de
um
tempo
concebido
como
linha
reta
evolutiva
é colhida da
concepção
cristã de
tempo
retilíneo,
embora
sem
sua
perspectiva
escatológica,
que
é substituída
pela
crença
no
movimento
contínuo
e
infinito
do
tempo,
retirada
da
visão
de
mundo
arcaica
sem
levar
em
conta
sua
estrutura
circular,
cíclica, de
eterno
retorno
do
mesmo,
conforme
nos
aponta Karl Lowith (LOWITH, 1991: 208).
Derrotado o
Antigo
Regime,
secularizada a
sociedade,
o
catolicismo
adequou-se à
burguesia
vitoriosa,
de
modo
que
há
mais
de
um
século
é identificado à
virtude,
à
bem-aventurança
e à
moralidade
da
família,
célula-mater da
sociedade
burguesa, procurando
viver
"em
harmonia
com
o
mundo,
por
forma
a
permanecer
aceitável"
(Idem.
p. 40), abolindo
destarte
sua
originária
ritualização e solenização do
trágico.
Para
um
pensador
do
século
XIX
como
Burckhardt,
entretanto,
"um
Cristianismo
reduzido à
moralidade
e destituído das
suas
bases
sobrenaturais
e
doutrinais
já
não
é uma
religião"
(Ibidem).
Num
mundo
agora
guiado
exclusivamente
pela
razão
e
arrogante
em
sua
auto-confiança, a
religião
converteu-se num "elemento
salutar
da
civilização
secular"
(Idem,
p. 41)
À
luz
destas
questões,
é interessante vermos
como
se delineia o
posicionamento
dos
pouco
estudados
romancistas
brasileiros
surgidos
nos
anos
30 e rotulados
como
"católicos"
Lúcio Cardoso (1912-1968) e Octavio de Faria (1908-1980), no
contexto
do Brasil
modernizado
de
sua
época.
Ao
estudioso
da
literatura
brasileira
que
nunca
se detiver
sobre
seus
textos,
limitando-se ao
que
deles se diz comumente
nos
manuais
de
história
da
literatura,
parecerá
que
se enquadram no
perfil
conservador
ligado ao
catolicismo
moderno
vinculado à
moral
e aos
bons
costumes.
Entretanto,
tal
equívoco
pode
acontecer
mesmo
aos
que
se debruçarem
sobre
a
obra
dos referidos
romancistas,
pois
Mario Carelli,
autor
de
Corcel
de
fogo,
tese
sobre
a
vida
e a
obra
de Lúcio Cardoso,
sobre
o
romance
Crônica
da
casa
assassinada afirma
que:
"A
causa
dos
infortúnios
se
encontra
no
mistério
do
mal
e
seu
domínio
sobre
os
homens
[pois
o
que]
resulta dessas
tempestades
passionais
são
a
degradação,
a
decomposição
e a
morte"
(CARELLI, 1988: 199), equiparando,
pois,
o
romance
de Lúcio Cardoso às
narrativas
exemplares
dezenovescas,
romances
burgueses de
honra
e
paixão,
em
que
a
transgressão
é punida
com
a
morte,
como
Lucíola, de José de Alencar,
ou
O
primo
Basílio de
Eca
de Queiroz.
Vejamos,
pois,
o
que
constitui a
verdade,
a
mentira
e a
revelação
para
os referidos
romancistas.
O
romance
Crônica
da
casa
assassinada foi publicado
em
1959,
quando
o Brasil vivia a
euforia
desenvolvimentista do
governo
do
então
presidente
Juscelino Kubitschek.
Tributário
do
mundo
mediterrâneo,
espaço
em
que
a
concepção
arcaica
de
mundo
custou a
dar
lugar
aos
postulados
da modernidade
estrangeira
nascida
na Europa do
norte,
e
onde
já
se confluíam as
três
raças
européia,
africana
e
asiática,
o Brasil herdou de
sua
matriz
meridional
a
concepção
pré-moderna de
mundo,
atestada
pelos
estudos
de Gilberto Freyre,
principalmente.
O
processo
de modernização sofrido
pelo
país,
começando
pelo
positivismo
republicano e desaguando no
projeto
modernizador do
Estado
Novo
iniciado
em
1930, foi e
ainda
é
por
muitos
saudado
como
benéfico
e propiciador da
equiparação
do
país
às
potências
do
assim
auto-intitulado
primeiro
mundo.
Lúcio Cardoso,
entretanto,
concebia a modernização
como
produto
alienígena
e
daninho
ao
território
brasileiro.
Na
resenha
ao
romance
A
menina
morta
(1954) de Cornélio Penna,
que
tem
como
cenário
imponente
e feudal
fazenda
cafeeira
do
Vale
do Paraíba
fluminense
nos
anos
em
que
o Brasil monárquico e
escravocrata
ainda
não
se
via
ameaçado
pelos
motores
revolucionários
que
o suplantariam, e
como
personagens
os aristocráticos
senhores
da
casa-grande
e
seus
escravos,
assim
se refere Lúcio ao
texto
de Cornélio:
Através
de uma
obra
volumosa,
vamos sentindo
palpitar
a
música
em
surdina
dessa
esplêndida
fabulação,
que
nos
retrata,
não
um
Brasil de
ontem,
como
muitos
poderiam
pensar,
mas
um
Brasil
eterno
nas
suas
raízes e na
sua
tragédia.
Temos
aqui
um
escritor
avançando
com
segurança
no
mais
belo
e
mais
vivo
terreno
nacional:
e
confesso
que
não
encontro
outro
escritor
moderno,
entre
nós,
que
assim
nos
devolva a
carne
e o
espírito
de uma
pátria
perdida, assolada de
todos
os
lados
por
males
estrangeiros
e
sem
grandeza
e
que
aqui,
com
uma
pureza
que
é
seu
toque
máximo,
reencontra
sua
carnação
e
seu
mistério,
e desabrocha aos
nossos
olhos
como
uma
rosa
esquisita,
ainda
viva
e
cheia
de
prestígio
(CARDOSO, 5-2-1955: 41)
O
estudo
de Luiz
Costa
Lima
sobre
a
obra
de Cornélio Penna (LIMA,
1976)
ressalta o
caráter
pré-moderno da
Fazenda
do Grotão,
cenário
do
romance
a
que
Lúcio se refere: a
casa-grande
é o
espaço
do
sagrado
legitimado,
masculino,
com
sua
capela
onde
missas
católicas
são
celebradas; a
clareira
na
floresta
é o
espaço
do
sagrado
feminino,
opositor
ao
masculino,
onde
a misteriosa
Senhora
da
fazenda
ajoelha-se e faz
suas
preces;
e a
senzala
é o
espaço
do
sagrado
da
feitiçaria
africana.
Ainda
segundo
Costa
Lima,
em
A
menina
morta
a
ordem
masculina
do
senhor
da
casa-grande
vincula-se ao vampirismo,
enquanto
as
personagens
femininas recusam a
opressão
através
de
sua
presença
sempre
ausente,
ou
de
sua
ausência
sempre
presente,
o
que
as caracteriza
como
fantasmas,
e os
escravos
são
presididos
pela
bruxaria
e
pelo
satanismo.
Isto
tudo
sem
contar
o
tom
grave
da
narrativa,
que
soleniza a
concepção
trágica
do
mundo,
vincando o
texto
de Cornélio Penna de
características
afins
aos
romances
góticos
ingleses do
final
do
século
XVIII.
Renunciando à
sua
tradição
de
senhores
da
casa-grande,
portanto
vampiros
e
fantasmas
do Ancien Régime
brasileiro,
os Meneses da
Crônica
da
casa
assassinada traem
sua
verdadeira
natureza
em
prol
dos
valores
da
burguesia,
vindos no
bojo
da modernização do
país,
"males
estrangeiros
e
sem
grandeza"
que
assolam esta
pátria,
deixando-a "perdida",
conforme
a
resenha
de Lúcio
sobre
o
romance
de Cornélio,
que
retrata
o "Brasil
eterno
nas
suas
raízes e na
sua
tragédia",
da
ordem
do
arcaico
configurado no vampirismo e na goticidade,
segundo
o
estudo
de
Costa
Lima.
A
moral
burguesa assenta-se no
bem,
na
virtude,
na "normalidade",
ou
seja,
conformidade
ao
padrão
instituído e legitimado
por
ser
o "da
maioria".
A
transgressão
e a
diferença
são
proscritos
do
espaço
social.
[Até
pouco
tempo
atrás
a
sociedade
capitalista
moderna
ainda
não
havia
descoberto
que
os
diferentes
também
poderiam
consumir
e
ainda
não
os reconhecera
como
lucrativos
setores
de
mercado,
legitimando-os
através
do
presente
e finissecular
recurso
do "politicamente
correto".]
Assim,
os
legítimos
representantes da
tradição
do Brasil pré-moderno e corneliano no
romance,
a
antepassada
transgressora Maria Sinhá e Timóteo, o
irmão
que
se
veste
com
as
roupas
da
mãe,
são
renegados e escondidos
como
sendo
parte
de
um
podre
segredo
familiar.
Com
a
chegada
de Nina, recém-desposada
por
Valdo,
um
dos
irmãos
Meneses, a
moral
burguesa à
qual
a
família
se apegara
como
sendo da
ordem
da
verdade
cai
por
terra,
no
que
a
personagem,
encarnadora
tanto
de Eros,
por
dar
livre
curso
às
suas
transgressoras
paixões,
quanto
de Tânatos,
por
trazer
em
si
o
mal
fatal
que
acabará
por
matá-la, opõe-se,
conforme
Georges Bataille, ao
etos
do
mundo
do
trabalho
e da
razão.
Ciente
de
seu
potencial
desagregador e
revolucionário,
Timóteo, o
monstro
familiar
enclausurado, compactua
com
Nina o desmascaramento da
família
Meneses: "...é da
verdade
que
se
trata
- e a
verdade
é
essencial
a
este
mundo"
(CARDOSO, 1963: 46), diz o travestido
personagem,
que
se
lamenta
por,
enclausurado,
viver
seu
caráter
transgressor
apenas
como
alegoria:
Eu
sabia o
que
me
devorava. Sabia o
que
era
a
pusilanimidade,
o
cheiro
de
jasmim,
que
decompunha
este
quarto.
Era
a
ausência
de
febre,
o
coração
impune.
Era
todo
eu,
branco
e
sem
serventia.
Olhava
minhas
mãos
brancas,
meus
pés
brancos,
minha
carne
branca
- e
toda
uma
náusea,
impiedosa
e
fria,
sacudia-me o
fundo
do
ser.
Ah,
que
coisa
terrível
é a
castidade.
A
castidade,
eis
o
que
me
devorava.
Mãos
castas,
pés
castos,
carne
mansa
e
casta.
E
eu
chorava, Nina,
porque
nada
mais
me
conseguiria
fazer
arder
o
sangue,
e
era
sobre
esta
ruína
mole
que
os Meneses erguiam o
indestrutível
império
de
sua
mentira
(Idem.
p. 179-180).
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