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A polêmica questão
da
categoria gramatical de gênero[1]

José Pereira da Silva (UERJ e ABF)

 

Há duas maneiras de aprender qualquer coisa: uma, leve, suave, com informações corretas mas superficiais, que, pela incompletude da lição, não indo aos assuntos a ela correlatos, acaba sendo insuficiente para permitir a fixação da aprendizagem. É um método que pode agradar, e até divertir o leitor menos exigente; mas não lhe garante o sucesso do conhecimento.

A segunda maneira é aquela que procura dar um passo à frente da resposta breve e imediata: estabelece relações entre a dúvida apresentada e outros assuntos afins, de modo que, aprofundando um pouco mais a lição, amplia o conhecimento e garante sua permanência, porque não se contenta em ficar na superfície dos problemas e das dúvidas.

Falando em superfície, e a palavra nos sugere agora uma comparação entre as duas maneiras de aprender de que vimos tratando. A primeira ensina a pessoa, no mar de dúvidas, a manter-se à superfície; não afunda, mas não sai do lugar.

A segunda, além de permitir à pessoa permanecer à superfície, ensina-lhe dar braçadas, ir mais além. Assim, pela primeira, a pessoa bóia; pela segunda, nadando, avança e chega a seu destino.

(BECHARA, 2001: Orelhas)

 

A história da gramaticologia ocidental teve início na Antigüidade Greco-Latina, com Platão, com Aristóteles e com Varrão, trazendo numerosas e indesculpáveis conseqüências terminológicas absolutamente distanciadas das diversas realidades lingüísticas descritas ou normatizadas. Em conseqüência, as modernas gramáticas das línguas românicas, de Nebrija a Bechara, vêm adotando uma adaptação terminológica das gramáticas latinas que, por sua vez, não fizeram uma boa adaptação da terminologia da gramaticologia grega, muito mais fiel à tradição do que à ciência lingüística, que não se pode considerar adolescente.

É natural que a preocupação dos gramáticos greco-latinos não era a descrição da língua, conforme se faz na lingüística moderna, sem qualquer praticidade ou pragmatismo. Em princípio, era uma gramática normativa, com o objetivo de indicar, pedagógica e exemplarmente, as formas corretas da língua, abonadas com a autoridade dos escritores corretos.

Parafraseando Gladstone Chaves de Melo, ao se referir à gramática descritiva e à gramática normativa, Carlos Alberto Gonçalves Lopes conclui que ambas “cumprem a sua missão, que a gramática normativa pode apresentar um problema, que não está tanto no de ser prescritiva (diga advogado e não adevogado), mas no de basear-se em descrições incoerentes, inadequadas e muitas vezes falsas.” (LOPES, 2003: 25).

Tratando do mesmo assunto Bruno Fregni Bassetto disse, no VII Congresso Nacional de Lingüística e Filologia em 2003, absolutamente de acordo com o que pensam os reformistas mais incomodados com a descabida inadequação terminológica da lingüística ocidental moderna (BASSETTO, 2003: 63):

Em relação à nossa terminologia gramatical, urge não esquecer que, em grande parte, ela remonta a Dionísio Trácio, que escreveu a primeira gramática do Ocidente. Os gramáticos latinos (Varrão, Aulo Gélio, Carísio, Donato, Prisciano) apenas adaptaram, traduziram ou apenas decalcaram os termos gregos. No correr dos séculos, muitos desses termos tiveram seu conteúdo semântico ampliado ou reduzido, empanando a indispensável transparência que uma terminologia científica de qualquer área do conhecimento humano precisa ter. Penso que seria muito útil se voltássemos à etimologia dos termos da nomenclatura gramatical das vertentes grego-latinas, evitando sobretudo ampliações semânticas indevidas. O resultado certamente seria profícuo sobretudo nos diversos níveis de ensino. Memorizam-se os termos gramaticais sem que se perceba a relação significante-significado e esse fato impede a compreensão clara do fato lingüístico estudado. Todos os que se dedicam a esse ramo do conhecimento humano, como Gladstone Chaves de Mello, sentem o problema e com ele se angustiam; uma reforma da nomenclatura gramatical deve levar em conta essas vertentes greco-latinas, cujas contribuições não podem ser ignoradas mas sim expurgadas de aplicações indevidas e obnubiladas, que lhe foram acrescidas ao longo dos séculos. Os avanços atuais nos estudos da linguagem podem e devem ser adicionados, mas mesmo esses partem daquelas bases.

Não podemos ignorar o esforço de gramáticos como Walmírio Macedo (1991), Evanildo Bechara (1999 e 2001), Manoel Pinto Ribeiro (2002) e muitos outros, que vêm lutando com essa enorme dificuldade terminológica, além de toda a Academia Brasileira de Filologia, empenhada na reforma da Nomenclatura Gramatical Brasileira vigente (mas não tão vigente).

 

QUESTÕES DE FLEXÃO E DE GÊNERO

Em geral, há uma grande dificuldade em distinguir tecnicamente a flexão da derivação, como se pode ver em BECHARA (1999: 341), pois

A flexão consiste fundamentalmente no morfema aditivo sufixal acrescido ao radical, enquanto a derivação consiste no acréscimo ao radical de um sufixo lexical ou derivacional.: casa + s: casas (flexão de plural); casa + inha: casinha (derivação).

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No plano sintagmático, a flexão provoca o fenômeno da concordância: móvel novo móveis novos em oposição a a casa nova → a casinha nova.

Ora, se mal se consegue distinguir flexão de derivação, o que levou a NGB a definir o grau como flexão, e se o conceito de gênero nas línguas românicas tem sido quase sempre confundido com o conceito de sexo, não seria óbvia uma definição adequada para essa categoria.

Carlos Alberto Gonçalves Lopes, tratando dos morfemas flexionais (ou categóricos), lembra que as desinências se diferem dos afixos principalmente por serem obrigatórias e produzirem os vocábulos flexionáveis (ou vocábulos morfológicos, na terminologia de José Carlos Azeredo).

Por conseguinte, as flexões existem para efetuar concordância e a concordância serve para indicar o binômio determinado / determinante, ou núcleo / periferia, encontrável no enunciadoMaria encontrou, satisfeita, Marcos”. Como se pode constatar, as desinências inserem a palavra na frase mediante o mecanismo da concordância, mecanismo este que se caracteriza por envolver simultaneamente regras morfológicas e sintáticas aplicáveis apenas aos vocábulos flexíveis, que em português são o substantivo, o artigo, o adjetivo, o numeral, o pronome e o verbo. (LOPES, 2003: 39)

Depois de lembrar que Mattoso Câmara Jr. (1985: 88) informa que “na realidade o gênero é uma distribuição em classes mórficas” que “serve freqüentemente para em oposição entre si distinguir os seres por certas qualidades semânticas” e o sexo entre animais e pessoas, José Mário esclarece:

Quanto aos adjetivos, o gênero é propriedade gramatical que tem o objetivo de concordar com o núcleo substantivo a que se refere, constituindo verdadeiramente o fenômeno da flexão de gênero gênero gramatical. (...)

Aliás, os adjetivos não têm gênero propriamente dito; eles se apresentam numa forma genérica de masculino e, no contexto em que são empregados pelos usuários da língua, tomam a forma de feminino, com o morfema de gênero “-a”, sob a regra de congruência, ou mantêm-se invariáveis. Ou seja, todos os adjetivos são, em potencial, flexionáveis em gênero: os biformes apresentam uma forma de feminino com o acréscimo do morfema de gênero “-a” (com a queda ou não da vogal átona final) e os uniformes, uma única forma para os dois gêneros. (...)

Assim, a variação de gênero dos adjetivos e a dos substantivos constituem fenômenos distintos. Naqueles trata-se de um processo gramatical, obrigatório e fechado, enquanto que nestes, um processo lexical, não-obrigatório e aberto. Em outras palavras, o adjetivo não apresenta gênero, mas torna-se masculino ou feminino, concordando com o substantivo a que se refere; o substantivo, não obstante, é ou masculino ou feminino... (BOTELHO, 2004)

E, pouco adiante, no mesmo artigo, acrescenta BOTELHO, na argumentação para distinguir os nomes em substantivos e adjetivos:

Como adjetivos, flexionam-se normalmente de acordo com o gênero do núcleo substantivo a que se referem, por imposição gramatical, que o processo de flexão de gênero é uma característica do adjetivo. Isto é, quando usamos um adjetivo, não podemos escolher seu gênero; será feminino ou masculino, se for biforme, de acordo com o gênero do núcleo substantivo a que se liga, ou ficará invariável, se for uniforme.

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Nos substantivos, considerando a categoria de gênero, faz-se uma classificação arbitrária e convencional, e há mais de uma maneira de reunir todos os substantivos do português no seu quadro de gêneros: a analogia formal, a analogia conceptual (incluindo algumas metáforas) e a ampliação do gênero num dado contexto, cuja escolha é semanticamente motivada.

Logo, no tratamento do gênero, não se deve partir de uma noção precisa e bem definida, apesar de sua importância, pois nenhuma noção reúne em si condições para uma eficiente descrição gramatical de gênero.

Por isto, o debate que abrimos com esta série de eventos pretende colher subsídios para uma futura e eficiente descrição do gênero gramatical, não somente no português, mas em todos os idiomas em que se manifeste gramaticalmente.

O Dicionário Houaiss, no verbeteDesinência”, esclarece que “nas línguas flexionais, é o sufixo flexional que aparece no final de vocábulos adicionando ao seu radical significados gramaticais” (HOUAISS, 2001, s.v.), diferentemente do sufixo derivacional, alheio a tais significados.

O Professor Castelar de Carvalho, defendendo a posição oficial sobre o problema do gênero do substantivo como flexão, indicou-nos o livro Morfologia Portuguesa, do Professor José Lemos Monteiro (2002), que mais nos ajudou na confirmação de nossa hipótese, pois afirma, na página 79, referindo-se às categorias nominais de gênero e de número:

Observemos que nem todo nome ou pronome possui essas quatro subcategorias [de gênero masculino e feminino e de número singular e plural]. Estruturalmente, uma subcategoria sempre se opõe a outra. Ou seja, uma palavra apresenta a marca do masculino se tiver um feminino correspondente. Não plural sem singular e vice-versa.

E continua o Professor, dando o exemplo que nos ajudou, visto que não se pode falar de flexão quando a nova forma significa (no mundo exterior) outra coisa diferente da que supostamente sofreu mera flexão:

Os