AS MULTIFACES D’OS
SERTÕES,
DE EUCLIDES DA
CUNHA
Ruy Magalhães de Araujo
(UERJ)
O
perfil
biográfico de Euclides da
Cunha
O
perfil
de Euclides Rodrigues
Pimenta
da
Cunha
deve
ser
traçado
através
de
vários
ângulos.
Da
atenta
leitura
dos
seus
biógrafos,
podemos
extrair
e
interpretar,
sucintamente,
os
seguintes
aspectos.
Nasceu a 20 de
janeiro
de 1868
em
Cantagalo,
Rio
de
Janeiro,
filho
legítimo
de Manuel Rodrigues
Pimenta
da
Cunha
e de Eudóxia Moreira da
Cunha.
Em
Cantagalo,
com
três
anos,
perdeu a
mãe
e daí
em
diante
passou a
morar
sucessivamente
com
diversos
parentes,
no
Rio
de
Janeiro,
em
São
Paulo e na Bahia.
Realizou
seus
primeiros
estudos
em
várias
cidades
e
só
em
1886 se fixou no
Rio
de
Janeiro,
como
aluno
na
Escola
Militar
da
Praia
Vermelha,
de
onde
foi
obrigado
a desligar-se
por
um
ato
de
indisciplina,
ao
protestar,
sozinho,
contra
a
visita
do
Ministro
da
Guerra,
conselheiro
Tomás
Coelho,
do
gabinete
conservador
da monarquia.
Euclides
era
republicano
histórico
e voltou ao
Exército
depois
do
movimento
militar
de 1889,
com
a proclamação da
República.,
tendo sido promovido a
tenente.
No
ano
de 1893,
sob
o
terror
oriundo
de
um
estado
de
sítio
do
governo
de Floriano Peixoto,
com
independência
e
coragem
atacou e denunciou a
crueldade
sugerida
por
um
senador
federal
que
aconselhava a
asfixia
dos
presos
políticos,
caso
a
cidade
fosse
atacada
pelas
forças
navais
dos
Almirantes
Custódio
de Melo e Saldanha da
Gama.
Euclides da
Cunha
auferiu
fama
de
grande
escritor
ao
publicar
OS
SERTÕES,
em
1902,
livro
em
que
narrou a
sangrenta
campanha
de
Canudos,
deflagrada
contra
Antônio
Conselheiro.
Precedendo a publicação do
livro,
escreveu
dois
artigos
para
“O
Estado
de S. Paulo”, intitulados “A
nossa
Vendéia”.
Em
1904, foi nomeado
chefe
da
comissão
de
reconhecimento
do
Alto
Purus e fez
mais
uma
viagem
à Amazônia, retornando ao
Rio
de
Janeiro
em
1905,
quando,
em
1906, no Itamarati, trabalhou
como
adido
ao
gabinete
do
barão
do
Rio
Branco.
Euclides da
Cunha
era
engenheiro
e
também
formado
em
Matemática
e
Ciências
Físicas
pela
Escola
Superior
de
Guerra.
Por
concurso,
foi
professor
de
Lógica
do
Colégio
Pedro II. Pertenceu à
Academia
Brasileira
de
Letras
e ao
Instituto
Histórico
e
Geográfico
Brasileiro.
Era
casado
com
Ana,
filha
do
general
republicano Sólon
Ribeiro.
Morreu assassinado,
por
questões
de
alcova,
a 15 de
agosto
de 1909, no
subúrbio
da
Piedade,
no
Rio
de
Janeiro.
OS
SERTÕES
constituem a
sua
obra
máxima
e
sobre
a
mesma
o
Professor
Eugênio Werneck transcreveu a
seguinte
frase:
“é uma das
bíblias
da
moderna
literatura
brasileira”.
In: ––.
Antologia
Brasileira,
Francisco Alves,
Rio
de
Janeiro,
1954, p. XXI).
Euclides da
Cunha
deixou
ainda:
“Relatório
da
Comissão
Mista
Brasileiro-Peruana de
Reconhecimento
do
Alto
Purus.”
“Contrastes
e
Confrontos”,
1907.
“Peru
versus
Bolívia”, 1907.
“Castro Alves e
seu
tempo”(conferência,
1907).
“À
Margem
da
História”,
sua
obra
póstuma.
Edições
d’OS
SERTÕES,
de Euclides da
Cunha.
1ª
edição.
Rio
de
Janeiro,
Laemmert &
Cia,
1902. Ilustrada. 632
páginas.
Com
um
conto
e quinhentos, a 1ª
edição
foi financiada
pelo
próprio
Euclides da
Cunha.
Tal
importância
era
exorbitante
para
o
autor
e
talvez
representasse duas
vezes
o
seu
ordenado.
A publicação do
livro
com
o
número
de
páginas
que
tinham Os
Sertões
não
era
fácil,
tratando-se de
autor
desconhecido
como
era
ele.
A
princípio
pensou
em
publicá-lo parceladamente pelas
colunas
do
Estado
de
São
Paulo.
Talvez
fosse
esse
o
meio
de
atrair
a
atenção
de
algum
editor.
Levou os
originais
a Julio de
Mesquita,
certa
vez
em
que
esteve na
capital.Em
vão
esperou
em
Lorena
que
o
jornal
começasse a estampá-lo.
Longos
seis
meses se passaram. Voltando a
redação
do
Estado
de
São
Paulo, encontrou o
seu
grande
pacote
de
originais
coberto
de
poeira,
no
mesmo
lugar
em
que
o deixara.
Mas
apareceram
ainda
os
amigos.
Com
uma
carta
de Garcia
Redondo
a Lúcio de Mendonça, embarcou
para
o
Rio
de
Janeiro,
em
dezembro
de 1901. Deve
ter
sido
penoso
ao
estreante
o
fato
de
andar
daqui
para
ali
com
o
seu
manuscrito,
em
busca
de
editor.
Mas
Lúcio de Mendonça encontrou-o
afinal:
a
Livraria
Laemmert encarregou-se de
publicar
o
livro,
não
sem
alguma relutância. (Sylvio Rabello, Euclides da
Cunha.
Rio
de
Janeiro:
Civilização
Brasileira,
1966, p. 161)
A
personalidade
perfeccionista de Euclides,
constantemente
preocupado
com
a meticulosidade do
trabalho,
levava-o a
considerar
sempre
que
a
edição
necessitava de
emendas.
Por
isso,
(...) ia
sempre
ao
Rio
a
fim
de
corrigir
as
provas
tipográficas, umas
provas
que
nunca
o satisfaziam
inteiramente.
Posto
em
letra
de
forma,
o
livro
parecia-lhe
outro,
o
bom
e o
mau
das
descrições,
dos
episódios,
das
figuras,
ganhando
um
relevo
que
não
tinha
nas paginas manuscritas.
Mas
ainda
era
tempo
de
emendar
o
que
lhe
escapara
antes.
E refez
períodos
inteiros,
intercalou
novos,
ao
mesmo
tempo
que
substituía
palavras
por
outras, de
maior
propriedade
–
verbos
e
adjetivos
que
dessem
toda
a
sugestão
de
força
e de
harmonia
as
suas
idéias.
Terminada a
impressão
pela
editora,
notavam-se, porem,
ainda
muitos
erros.
Os
Sertões
jamais
poderiam
ser
lançados
com
tamanha
coleção
de
erros,
entendia Euclides.
Assim,
(...) depôs-se a
emendar
todos
os
defeitos,
todos
os
erros,
os
tipográficos
e os
próprios.
Durante
dias
e
dias,
diante
dos
operários
aturdidos,
não
arrendou pe da
tipografia
para
raspar,
a
ponta
de
canivete,
os
acentos
indicativos
de
crase
e as virgulas
mal
postas;
para
pingar
com
uma
pena
novos
acentos
e
novas
vírgulas.
Um
por
um,
cerca
de
mil
exemplares
da
tiragem
passaram pelas
mãos
do
revisor
inexorável.
Em
cada
exemplar
emendou oitenta
erros.
Oitenta
mil
emendas
ao
todo.
A
idéia
de
emendar
e
corrigir
o
livro
sempre
o atormentava. É o
que
veremos a
seguir,
ainda
com
as
palavras
de Sylvio Rabello, Op. cit., p. 186,187:
Mas
Os
Sertões
definitivamente
revistos e
dados
por
corretos
nunca
contentaram o
seu
ideal
de
perfeição.
A
um
amigo,
em
1909, escreveu: ‘Hei de
consertar
isso
por
toda
a
vida.
Até
já
nem
abro Os
Sertões,
porque
fico
sempre
atormentado, a
encontrar
imperfeições
a
cada
passo’.
É
que
Euclides se supunha o
ponto
de
referência
de
todos
os
gramáticos
que,
de
lápis
em
punho,
poderiam
catar
os
erros
que
não
emendara. Desta
época,
possivelmente
antes
de
ter
saído
a
segunda
edição
do
seu
livro,
é a
poesia
O
Paraíso
dos
Medíocres
– uma
página
que
Dante destruiu. Euclides imaginava-se
em
certo
sítio
perto
do
inferno
e tendo
por
guia
Virgílio.
Mas,
de
súbito
este
desaparece, deixando-o perdido
entre
demônios.
Em
vão
lhe
grita
pelo
nome.
Em
lugar
do
companheiro
de
peregrinação,
aparece uma
figura
estranha,
de
fronte
lisa
e
dentes
à
mostra,
em
riso
imbecil.
Indaga-lhe o
nome.
Era
o
cicerone
do
paraíso
dos
medíocres.
Sou Marcellus Pompônio, o purista,
O
guia
que
te
trouxe,
esse
Virgílio,
Esta
ama
seca
que
apelidas
tanto
Não
me
suportaria;
eu
sou
capaz
De
mostrar
solecismos
nas Geórgicas ...
Fez
bem.
Fugiu. E
tu
certo
conheces
O
gênio
prodigioso
que
venceu
Certa
causa
notável,
apontado
Um
erro
de
gramática
nos
autos:
Sou
eu.
Sou
imortal
...
Tu
és
feliz,
Lucraste
com
a
troca.
Folga,
ri,
Agradece ao
teu
Deus
e dá-me o
braço.
Eu
vou mostrar-se o
que
outrem
não
faria.
Já
viste o
inferno,
vou levar-te
agora
Ao
purgatório
e ao
céu.
Mas
antes
deles
Há uma
terra
ideal
onde
domina
A
santa
mediania da
virtude
E se
chama
o
Paraíso
dos
Medíocres
É
ali
– disse. E
depois
me
foi levando
Por
um
trilho
escarpado.
A
breve
trecho,
Vingando
um
cerro
abrupto,
tive
em
frente
O
mais
belo
país
que
eu
inda
vira.
Que
terra
encantadora.
O
meu
olhar
Desatou-se folgando
em
amplitude
Dos
horizontes
vastos
onde
eternos
Fulgores
de uma
primavera
eterna
Se revezam co’as
noites
estreladas.
Nesse
paraíso
dos
medíocres
é
que
Euclides desejava
colocar
os
supostos
caturras
que
faziam de Os
Sertões
um
exercício
de
aplicação
de
regras
gramaticais.
É
importante
informarmos
que
somente
em
1914 o
exemplar
corrigido e revisto
pelo
próprio
autor
foi encontrado, sendo considerada, desse
modo,
como
edição
definitiva
a 4ª, na
qual
se registram 1500
emendas.
Durante
algum
tempo,
Euclides permaneceu numa angustiante
expectativa,
ate
que
recebeu
carta
do
editor
dando-lhe
conta
de
que
(...) Os
Sertões
tinham
feito
um
grande
sucesso.
Em
oito
dias,
a
metade
da
edição
se esgotara.
Nunca
na
sua
vida
de
livreiro
vira
acontecimento
igual.
E
depois
os
jornais
vinham
com
artigos
elogiosos.
Os
melhores
críticos
já
tinham emitido o
seu
juízo:
livro
de
mestre.
A
crítica
de Araripe
Júnior
fê-lo
ainda
mais
conhecido
e
dentro
em
pouco
tempo
já
se reclamava a 2ªedição.
Criticar
esse
trabalho
– escreveu –
não
e
mais
possível.
A
emoção
por
ele
produzida neutralizou a
função
da critica. E, de
fato,
ponderando
depois
calmamente
o
valor
da
obra,
pareceu-me
chegar
à
conclusão
de
que
Os
Sertões
são
um
livro
admirável,
que
encontrara
muito
poucos,
escritos
no Brasil,
que
o emparelhem –
único,
no
seu
gênero,
se atender-se a
que
reúne a uma
forma
artística
superior
e
original,
uma
elevação
histórico-folosófica
impressionante
e
um
talento
épico-dramatico,
um
gênio
trágico
como
muito
dificilmente se
nos
deparara
em
outro
psicologista
nacional.
O Sr. Euclides da
Cunha
surge,
portanto,
conquistando o
primeiro
lugar
entre
os
prosadores
da
nova
geração.
(Araripe Junior – “Os
Sertões”.
In: --
Juízos
Críticos,
pp. 33-71)
Nas
pegadas
de Araripe Junior, Afrânio Peixoto talqualmente exaltou Os
Sertões,
mostrando
(...) o
seu
aspecto
acidental,
episódico,
de
livro
que
narra uma
campanha,
e o
seu
aspecto
essencial,
profundo,
que
é de a
advertência
aos
brasileiros
de todas as
suas
formas
de
incapacidade
não
só
de
dominar
a
terra
como
de possuí-la
dignamente.
(...)
livro
esperado
pela
raça
sertaneja
há
séculos
abandonada no
recesso
do
País.
(Afrânio Peixoto. In: –––Sylvio Rabelo, op.cit. p. 190)
Também
o fez Tristão de Ataíde.
Sua
obra
vinha
mostrar,
eloqüentemente,
e
com
fatos,
o
erro
do litoralismo
político
–
que
fora
na monarquia o
parlamentarismo,
importando formulas e confundindo
ficções
com
soluções
–
embora
tendo conseguido
organizar
a
estrutura
social
da
nacionalidade
e
fixar
a
face
mais
original
de
sua
literatura,
ate
então
– e
era
agora
na Republica e caudilhismo
militarista,
corrompendo as
forças
armadas
pelo
veneno
politicamente. Literariamente
vinha
relevar
o
erro
do
esquecimento
em
que
jazia a
massa
dos
homens
brasileiros
e
dar
aos
vindouros
um
exemplo
de
originalidade
ao
tomar
em
suas
mãos
a
matéria
bárbara
americana
e
procurar
exprimi-la
sem
a
correção
de
escolas
e
preconceitos.
(Tristão de Ataíde.
Política
e
Letras.
In: -- A
Margem
dos
História
da
República,
p. 288-289.)
2ª
edição.
Rio
de
Janeiro,
Laemmert &
Cia,
1903. Ilustrada. 618
páginas.
(Corrigida)
3ª
edição.
Rio
de
Janeiro,
Laemmert &
Cia.,
1905. Ilustrada. 618
páginas.
(Corrigida).
4ª
edição.
Rio
de
Janeiro,
Francisco Alves 1911. Ilustrada. 620
páginas.
(Corrigida)
5ª
edição.Rio
de
Janeiro,
Francisco Alves.1914.Ilustrada. 620
páginas.
(Corrigida.
Definitiva,
de
conformidade
com
as
emendas
deixadas
pelo
autor).
Obs. É
pertinente
transcrevermos
aqui
a
informação
constante
da 5ª
edição
da
Livraria
Francisco Alves,
em
sua:
ADVERTÊNCIA
(da 5ª
edição)
À
primeira
edição
deste
livro,
em
1902, sucederam-se,
em
1903 e 1905, a
segunda
e a
terceira,
todas impressas
pela
firma
Laemmert & C.ª Tendo
nós
adquirido, à
falência
destes
editores,
e
depois
da
morte
do
autor
em
1909, a
propriedade
da
obra,
publicamos,
em
1911, 14ª
edição.
Todas
elas,
sensivelmente,