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CAMINHOS DA PAIXÃO E DO AMOR
NA
LITERATURA PORTUGUESA

Regina Michelli (UERJ e UNISUAM)

 

 Amor é um fogo que arde sem se ver.
LUÍS DE CAMÕES

 O amor é uma companhia.
FERNANDO
PESSOA

 

Um trabalho de pesquisa pressupõe uma certa inquietação interna. Aqui, o interesse pessoal direciona-se ao estudo das relações humanas, em particular o amor. É fácil entender o porquê de se investigar este tema. Em primeiro lugar, Eros é um dos deuses mais antigos, força motriz da própria vida, gerador de vida. O homem de todos os tempos vive às voltas com este sentimento. Cada época construiu uma imagem mental do amor, configurando um horizonte de possibilidades e de interdições. Na literatura o amor fervilha entre versos e personagens, sendo quase impossível não o perceber nas páginas impressas de grandes escritores.

O homem contemporâneo vive as constantes mudanças de seu tempo. É um homem em crise, questionando valores e existência Considerando que o amor é um sentimento universal e habita o coração dos seres desde sempre, mas se modifica com e como o próprio homem - talvez por isso a dificuldade de aprisionar este sentimento em definições reducionistas -, que amor o homem do século XXI deseja, como vivê-lo de forma mais plena e enriquecedora, capaz de gerar felicidade para os amantes?

Para responder a estas indagações, encontra-se no berço da mitologia dois pares que simbolicamente expressam o percurso amoroso, aqui circunscrito à análise de textos da Literatura Portuguesa. Vênus e Marte representam a vivência da paixão avassaladora, da sedução envolvente capaz de romper os interditos sociais. Eros e Psique, a expressão do amor, conjugando a realização carnal com o encontro espiritual, amor publicamente assumido e abençoado pelos deuses no Olimpo. Para se entender o amor de hoje, torna-se necessário refazer as andanças humanas por esse território tão fluido, percorrer o caminho de nossos ancestrais. Como disse Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, o passado é todo o presente e todo o futuro. O homem é um ser na História e é um ser de histórias; nelas encontramos a fonte para entender o próprio homem.

A Idade Média, momento em que surge a Literatura Portuguesa, presenteia-nos com variados textos, como as cantigas trovadorescas e a poesia palaciana. Nas cantigas de amor, respira-se a idealização intelectualizada da mulher, reverenciada como verdadeira deusa, provável resquício da Grande Deusa celta em meio ao culto à Virgem Maria. Assiste-se à paixão por uma Senhora inacessível a quem o trovador rende a homenagem de vassalo, lançando-se aos pés de tão perfeita dama. Instala-se a coita, o sofrer pelo amor, configurando-se a morte ou a loucura como soluções para esse ser subjugado por sua domina. A figura feminina é colocada em um pedestal e em tal lugar deve obrigatoriamente permanecer. Este comportamento ainda hoje se acha presente nos relacionamentos humanos. Quando nos apaixonamos, geralmente o fazemos por uma imagem de perfeição por nós criada. O outro se distingue dos reles mortais, se mais não for, por algum detalhe que desperta a admiração. A convivência – a rotina mostra o ser real que se esconde sob a face da idealização, advindo muitas vezes o sentimento de frustração por o outro deixar de ser o que imaginávamos. Assim, a figura feminina das cantigas precisa permanecer no pedestal, completamente distante da mulher real, com virtudes e defeitos. Nas cantigas de amigo, de cunho popular, a voz feminina ecoa pelos versos, proclamando a reciprocidade amorosa ou o afastamento do amado, administrando maisnaturalmente” o desejo e a sua possibilidade de realização. A moça dirige-se à mãe, à irmã, às amigas ou à própria natureza, dividindo mágoas e júbilos através de uma linguagem que evidencia a singeleza da alma feminina juvenil e celebra a própria vida através de histórias de mulheres enredadas com a paixão. As cantigas de escárnio e de maldizer desvelam a face repudiada da mulher, reverso das cantigas de amor. Aparece aqui a mulher velha, feia, prostituída, degradada física e moralmente, alvo do escárnio masculino. Essas cantigas, ao desnudarem as relações de índole estritamente sexuais, abdicam da aura dignificante que o amor concede. Na poesia palaciana avulta o desafio de quem se qualifica como o melhor amador diante de sua amada. A medida, a dor. Assim, o melhor amante configurar-se-ia como aquele que sofre calado, resguardando a sua dor da publicidade alheia, ou aquele que a proclama aos quatro ventos, lamentando-se da incorrespondência feminina? No âmago da disputa, o cuidar, assinalando a face introspectiva do homem, e o suspirar, a extroversão humana.

Em Camões, a paixão presentifica-se no texto épico na própria atuação exuberante de Vênus, a mestra experta, cuja ação é apaixonada. Vênus é a grande deusa com pleno domínio de sua feminilidade e de sua sensualidade. É sedutoramente bela e inteligente, sabendo articular seus atributos a fim de conquistar o outro, subjugá-lo a seu império, a seus desígnios. Seduz física e psicologicamente o pai dos deuses, Júpiter, com o objetivo de obter seu apoio para a causa portuguesa. Prepara a Ilha dos Amores, palco do encontro amoroso entre as ninfas e os nautas portugueses, preocupando-se com os mínimos detalhes, criando um cenário para o encantamento dos sentidos e para o deleite espiritual. A Ilha é espaço de libertação, espaço de vigência da paixão, assinalando a existência de um tempo de felicidade distante do viver cotidiano, sobrevivência do prazer através da aventura, da festa. Ainda n’Os Lusíadas, há o amor-paixão de Inês e Pedro, enriquecendo a História de Portugal com lendas que o povo até hoje repete. Se agora é tarde e a Inês é morta, foi exatamente a sua morte que fez com que o amor transcendesse suas contingências e superasse os séculos. Inês é a pobre vítima do amor frente aos horizontes estreitos do poder político masculino.

No Romantismo, o amor vem à cena principal, via de regra avassalador, conduzindo à felicidade, quando abençoado pela sociedade, ou à loucura e à morte, únicas soluções possíveis ao par amoroso que ousa desafiar a ordem estabelecida, recuperando a coita medieval. Observa-se a fidelidade à eleição, consagrando-se o amor para sempre, independente da possibilidade de um final feliz com o objeto eleito. Os impedimentos de ordem sexual persistem, projetando este sentimento no espaço da idealização. O que vive nas páginas romanescas é a paixão, caracterizada pelo sonho, pela angelitude feminina, pela imagem idealizada, fixação no outro muitas vezes mal vislumbrado na realidade, amor-paixão alimentado pela dificuldade. Em Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, as imposições paternas afastaram inicialmente Eurico de Hermengarda, depois irremediavelmente separados pelo sacerdócio em que se refugiara Eurico, tentando esquecer a amada. Em Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, as rivalidades paternas também inviabilizaram o amor de Simão e Teresa, conduzindo os amantes a um desfecho trágico. A paixão é o móvel pelo qual as personagens pautam seus comportamentos. Em Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, o amor parece não ter mais lugar nesse novo tempo de barões e papéis. Carlos, fruto do idealismo romântico, vivencia a paixão de estar envolvido por alguém ou por uma causa, dividido entre o amor de Joaninha e o de Georgina. Carlos é homem, com todos os méritos e fraquezas inerentes à sua condição humana, personagem apresentando uma índole realista, que o projeta - e o amor – no vazio, na falta de um ideal a alimentar o próprio eu, falhando no amor.

O romance A queda dum anjo, de Camilo Castelo Branco, estabelece a transição entre o Romantismo e o Realismo, oferecendo uma análise do comportamento humano que subjaz a estas duas correntes literárias. A queda do Romantismo consuma-se através da falência do Calisto-anjo puro, insensível aos prazeres mundanos, mas anacrônico, e da ascensão do Calisto-homem, adúltero, interesseiro, perdulário, mas integrado em uma sociedade cujo comportamento pauta-se, na prática, por esses atributos. O tratamento dispensado ao amor segue percurso igual ao do título. O idealizado amor-paixão romântico sofre um irônico ataque do narrador, sem que este, entretanto, anule ou rejeite o sentimento amoroso. A união com Ifigênia consagra a supremacia do amor natural e espontâneo, que ousa romper com o código moralizante e se impõe à sociedade, harmonizando dois seres afins.

O Realismo decreta a falência do idealismo romântico, oferecendo a sua antítese, o racionalismo, sem consumar a síntese enriquecedora entre razão e emoção. O amor-paixão romântico passa a ser visto como uma doença, degenerescência da alma, provavelmente rejeitado pela excessiva pieguice que o cercava. Esse obliteramento do amor, substituído pelo prazer dos sentidos, pode ser observado n’A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiroz. A personagem principal, Gonçalo Ramires, “o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal”, não vive uma história de amor, o que evidencia a posição secundária de tal sentimento. O amor é negado à medida que não evolui para a felicidade de uma união estável, terminando de forma trágica, como na história de Violante e Lopo, ou abortado, sem aparente explicação, como acontece com o namoro de Graça e André, estratégia pedagógica que adverte para os males causados por ele. Reforçam o exílio do amor todos os casamentos movidos pelo interesse, condicionados pela razão, levando ao estabelecimento do matrimônio como um contrato entre as partes interessadas. Eça começa a indiciar que o perfil romântico da mulher lânguida, sentimental e frágil não mais atende ao homem daquela época, provavelmente carecendo mais de uma companheira que de uma deusa. O amor-paixão transforma-se em ameaça ao equilíbrio vital na condução de um viver em sociedade. Nãoespaço para o encontro efetivo de Vênus e Marte, o amor-paixão não deixa de existir, mas é sufocado, perdendo seu vigor.

A modernidade vive a crise do sujeito, que se perde nos meandros do mecanicismo, do progresso, da sexualidade, da aparência, apontando os descaminhos que envolvem a relação amorosa. João Eduardo e Luísa, em O homem disfarçado, de Fernando Namora, e Osório e Maria José, em Enseada amena, de Augusto Abelaira, evidenciam a dificuldade de diálogo devido à falta de clareza interna. Buscam o outro, mas se perdem no encontro. Não conseguem estabelecer relações verdadeiramente duradouras e sinceras, porque carecem principalmente do encontro com o próprio eu. Terminam projetando no outro a responsabilidade de conferir um sentido à vida - falta a João Eduardo e Osório empreender o caminho em direção à própria alma, imersos na busca de ascensão social, de poder, de sexo, de aventura. Não vivenciam mais o ardor da paixão de Vênus e Marte, nem efetuam as bodas de Psique e Eros. Tempo labiríntico.

A poesia de Miguel Torga e a obra Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, configuram-se como modelos de respostas possíveis ao homem contemporâneo em seu anseio de amor. Celebram o casamento de Psique – a alma com Eros - o amor, num movimento que requer inicialmente o mergulho na própria interioridade para depois efetivar o encontro com o outro, entretecendo descida e ascensão, reclusão e abertura.

Miguel Torga exercita uma consciência crítica e afetiva que o impele a conviver com sua face bifronte: desce ao inferno da interioridade, tal como Psique, buscando o autoconhecimento para conjugá-lo a seu profundo amor a todos os seres, amor telúrico, amor humano, amor de Eros, o deus também da vida. Torga é poeta do sagrado, articulando o bem e o mal, a agonia e a luta contra tudo e todos que possam toldar sua busca de definição humana, homem insubmisso, poeta rebelde, no fundo solidário, mas também solitário, a desassossegar a humanidade