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Experimentos psicolingüísticos
NA
ÁREA DE PROCESSAMENTO LEXICAL
A
INFLUÊNCIA DAS CARACTERÍSTICAS DAS LÍNGUAS
NA
CONFIGURAÇÃO E RESULTADOS EXPERIMENTAIS

Antônio Sérgio Cavalcante da Cunha (UERJ)

 

Nosso trabalho tem como objetivo estabelecer comparações entre os resultados de experimentos psicolingüísticos na área de processamento lexical. Além disso, tentaremos mostrar que essas diferenças também contribuem para distintas configurações dos experimentos, o que também leva a alterações nos resultados obtidos. No tocante ao nosso trabalho, são as diferenças entre o inglês, língua com a qual foram feitos os experimentos nos quais nos inspiramos, e o português, idioma usado em nossos experimentos as responsáveis por divergências nos resultados.

Os experimentos que fizemos foram inspirados nos realizados por Tyler, Waksler e Marslen-Wilson (1993), tendo em vista a não existência de experimentos com dados da língua portuguesa. O principal objetivo é o de verificar se o fator semelhança fonológica exerce influência na organização das representações dos itens lexicais no léxico central.

Antes de entrarmos em detalhes sobre as diferenças entre as duas línguas, as configurações dos experimentos e os resultados obtidos, é conveniente tecer considerações sobre os objetivos da teoria psicolingüística na área de processamento lexical, as noções de léxico central e léxicos de acesso bem como tipos de experimentos utilizados para testagem desses dados.

A Psicolingüística Experimental tem como objetivos estudar os processos mentais envolvidos na compreensão, produção e aquisição de língua. Esses estudos podem levar em conta a recepção/produção/aquisição do léxico, de estruturas sintáticas ou do texto.Tanto nosso experimento como o de Tyler et alii em que nos inspiramos levaram em consideração o aspecto da compreensão (recepção) de itens lexicais em falantes adultos. As conclusões são tiradas a partir dos resultados de experimentos.

No tocante aos experimentos psicolingüísticos na área de recepção de itens lexicais, podemos destacar dois objetivos principais:

verificar como o sinal captado por meio visual ou auditivo alcança as representações do léxico central (pesquisa sobre acesso lexical). Assim, procura entender as configurações do itens lexicais nos chamados léxicos de acesso (visual e auditivo);

verificar como estão organizadas as entradas lexicais no léxico central e que fatores contribuem para essa organização.

A teoria psicolingüística tem admitido a existência de três léxicos:

um léxico de entrada auditivo para os estímulos recepcionados pelo ouvido. Este léxico leva em conta aspectos relacionados às características fonológicas dos itens lexicais e/ou dos morfemas que os compõem;

um léxico de entrada visual para estímulos recepcionados pelos olhos. Este léxico leva em conta as questões ortográficas ligadas aos itens lexicais e/ou morfemas que os compõem;

Tanto o léxico de entrada auditivo, quanto o léxico de entrada visual dariam acesso ao léxico central, no qual estariam representados, principalmente, as propriedades sintáticas e aspectos da semântica dos itens lexicais. Seriam representações independentes da modalidade (auditiva ou visual) pela qual o item lexical foi recebido pelo indivíduo.

Não nos cabe, neste trabalho, uma discussão se as entradas lexicais estariam representadas integralmente em cada um dos léxicos acima ou através dos morfemas que as constituem. Essa é uma discussão que, embora seja feita no âmbito da teoria psicolingüística, não está diretamente relacionada aos objetivos deste trabalho. Cabe-nos, no entanto, dizer que a teoria psicolingüística na área de processamento lexical tem dado grande destaque às questões voltadas aos léxicos de entrada visual e auditivo (principalmente o visual), isto é, tem privilegiado o estudo do acesso lexical. No entanto, um número relativamente pequeno de experimentos relativos ao léxico central vêm sendo feito, mostrando que as questões relacionadas ao estudo do léxico central e da organização de suas representações vêm sendo relegado a segundo plano. Assim, muito poucos textos exploram as questões relativas à organização das representações centrais, bem como o estudo dos fatores que influenciam tal organização.

Os tipos de experimentos mais usados na área que estamos pesquisando são:

tarefas de decisão lexical monomodais: experimentos em que os estímulos (palavras ou não palavras) são apresentados visualmente ou auditivamente. Como são monomodais (auditivos ou visuais) têm como objetivo verificar questões relacionadas aos léxicos de entrada (auditivo ou visual). É pedido que o participante decida, no menor tempo possível, se o estímulo apresentado (no fone de ouvido para os experimentos monomodais auditivos e na tela do computador, para os visuais) é ou não uma palavra da língua. O tempo de resposta é medido. Quando apresentada uma não palavra[1], esta pode freqüentemente tomar forma fonológica possível na língua em que o experimento esteja sendo feito.

experimentos bimodais de priming morfológico com tarefa de decisão lexical: são bimodais porque apresentam pares de estímulos em que um é apresentado oralmente e o outro visualmente. Assim, obrigam o participante a utilizar as duas formas de recepção da língua. São de priming morfológico porque visam verificar se o reconhecimento do segundo estímulo do par (chamado de alvo) é facilitado ou não pela apresentação imediatamente antes de outro estímulo (chamado de prime). Além disso, está relacionado a aspectos ligados a questões morfológicas entre os dois estímulos, tais como transparência ou opacidade fonológica entre base e derivado, transparência ou opacidade semântica também entre base e derivado. Finalmente, é combinado com uma tarefa de decisão lexical, pois é pedido ao informante que decida no menor tempo possível se o segundo elemento do par, apresentado imediatamente após o primeiro, é ou não uma palavra da língua. O tempo de resposta é medido. Esse tipo de experimento,por seu caráter bimodal, é apropriado para verificar questões relativas às representações do léxico central, uma vez que estas não são dependentes nem de questões puramente fonológicas, nem de questões estritamente ortográficas dos itens lexicais.

Os experimentos que aqui serão analisados são do segundo tipo, portanto são experimentos de priming morfológico aliados a tarefas de decisões lexicais.

No experimento feito por Tyler et alii, o primeiro de um conjunto de três, são dados pares de estímulos em que a primeira palavra é apresentada oralmente pelo fone de ouvido e a segunda, visualmente, na tela do computador.

Os pares experimentais foram divididos em quatro condições:

primeira condição: a primeira palavra é derivada da segunda, que é primitiva. Há transparência fonológica total no derivado, isto é, é possível reconhecer a base intacta na palavra derivada. Além disso, a palavra derivada é semanticamente transparente, isto é, seu significado é a soma do significado de sua base com a de seu sufixo. Essa condição foi considerada + M/+F (relação morfo-semântica e transparência fonológica). Exemplo: friendly/friend.

segunda condição: a primeira palavra do par também é derivada da segunda. Há, porém, aqui, o que os autores chamam de uma opacidade fonológica parcial. No entanto, do ponto de vista semântico, a palavra derivada é transparente, pois seu significado é a soma do significado de sua base mais seu sufixo. Ela foi chamada de +M/-F (com relação morfo-semântica; sem transparência fonológica) Ex.: elusive/elude.

terceira condição: igualmente, a primeira palavra é derivada da segunda, que é primitiva. No entanto, os autores argumentam que, aqui, mais do que na segunda condição, a opacidade fonológica é total. Segundo eles, “não apenas a base possui uma forma fonética diferente isoladamente, mas também a representação subjacente da base não é idêntica à sua forma superficial.” (1993, p. 131) Há, entretanto, transparência semântica do derivado, isto é, seu significado é a soma do significado de sua base e seu sufixo. Condição: +M/-F. Exemplo: vanity/vain.

quarta condição: usado pares em que a segunda palavra, que era menor do que a segunda, estava contida nesta, sem que houvesse qualquer relação morfo-semântica entre as duas. No entanto, a transparência fonológica era total, uma vez que a parte da primeira palavra que continha a segunda era pronunciada como esta. Condição (-M/-F). Exemplo: tinsel/tin.

O resultado dos experimentos mostrou significativo efeito de facilitação morfológica quando a palavra-alvo era precedida de palavra com relação morfo-semântica transparente, houvesse ou não transparência fonológica. Isto quer dizer que efeitos de facilitação foram encontrados nas três primeiras condições, mas não na última.

A conclusão a que os autores chegam com os resultados é a de que a transparência fonológica do derivado em relação à base não é um fator significativo na configuração das representações no léxico central. O que parece relacionar essas representações é a relação morfo-semântica.

Passando para nosso experimento com dados do português, o primeiro ponto que destacamos foi nossa opção pelos chamados padrões sufixais, relações que existem entre determinadas palavras da língua que se caracterizam por uma produtividade praticamente plena[2].

Os padrões sufixais que adotamos foram as nominalizações deverbais (formação de substantivos abstratos a partir de verbos) e nominalizações deadjetivais (formação de substantivos abstratos a partir de adjetivos). Com isso, evitamos a mistura de relações sufixais extremamente produtivas, como as que citamos, com outras menos produtivas.

Na montagem de nosso experimento, chegamos às seguintes conclusões:

não há possibilidade de se criar a condição com transparência fonológica total. Em inglês, é comum, quando se acrescenta um sufixo, que a base não sofra qualquer alteração fonológica e que não haja sequer deslocamento da sílaba tônica da base para o sufixo. É o caso de sufixos como -ness (formador de substantivos abstratos a partir de adjetivos, como em happy/happiness, lovely/loveliness) e –ly (formador de advérbios a partir de adjetivos como em friend/friendly). Em português, ao contrário, quando se acrescenta um sufixo, na maioria das vezes, desloca-se o acento tônico de sílaba da base para o sufixo. E, mesmo quando isso não ocorre, como nos casos dos sufixos –vel (formador de adjetivos a partir de verbos, como em suportar/suportável) e –agem/-gem (formador de substantivos abstratos a partir de verbos, como em lavar/lavagem), -ncia (formador de substantivos abstratos a partir de verbos, como em tolerar/tolerância) a forma infinitiva perde a desinência modo-temporal para o acréscimo do sufixo, que se faz a partir do tema verbal (radical + vogal temática) (adorar/adoração (sufixo –ção), sofrer/sofrimento (sufixo –mento), assinar/assinatura (sufixo –tura). Em inglês, por exemplo, a derivação sufixal a partir de verbos pode não produzir qualquer alteração na base, isso porque o infinitivo inglês não possui desinência modo-temporal (punish/punishment, govern/government); dessa forma, o sufixo derivacional é acrescentado diretamente à base verbal, até porque, os verbos em inglês também não possuem vogal temática. No caso da formação de substantivos abstratos a partir de adjetivos em português, o acréscimo de sufixos invariavelmente desloca a sílaba tônica da base para o sufixo. Além disso, para os adjetivos temáticos, a vogal temática, por ser átona, cai, quando se acrescenta o sufixo. (temáticos: louco/loucura (sufixo –ura), belo/beleza (sufixo –eza), monstruoso/monstruosidade (sufixo –dade/-idade); atemáticos: leal/lealdade (sufixo –dade/-idade), material/materialismo (sufixo –ismo)). Em inglês, os adjetivos são atemáticos, por isso, não podem perder a vogal temática quando do acréscimo de sufixos (ver acima os sufixos –ness e –ly, que são acrescentados a bases adjetivas).

Diante de tal panorama, chegamos à conclusão de que a condição 1 de nosso experimento não poderia ser igual à condição 1 do experimento de Tyler et alii. Observamos, no entanto, que as mudanças nas bases produzidas pelos sufixos em português são gerais. Assim, quando se acrescenta o sufixo cão, –mento ou –tura a um verbo para a formação de um substantivos abstrato, invariavelmente a desinência modo-temporal do verbo cai e a vogal tônica, que, no infinitivo, é a vogal temática, desloca-se para o sufixo. Se acrescentamos o sufixo –gem/-agem a um verbo para a formação de um substantivo abstrato, a vogal temática continua sendo tônica na palavra derivada, mas o infinitivo perde a desinência modo-temporal. Na nominalização deadjetival, as mudanças também são de caráter geral na nominalização deadjetival, como apresentamos no parágrafo anterior. Assim, entendemos que, se as alterações fônicas são de caráter geral, fazem parte da gramática internalizada pelo falante, razão pela qual consideramos esses casos como pertencentes à nossa condição 1.

Uma outra conclusão a que chegamos é que as mudanças previstas nas palavras derivadas nas condições 2 e 3 do experimento de Tyler et alii também são de caráter geral. Assim, elude/elusive tem o mesmo padrão derivacional e as mesmas mudanças fônicas de conclude/conclusive ou de illude/illusive ou de exclude/exclusive, e finalmente de preclude/preclusive, ou seja, /d/ → /s/. E o mesmo padrão de mudança fônica ocorre tanto em vain/vanity, como em sane/sanity, grave/gravity, isto é, /ey/ → /æ /.

Assim, o que chamamos, em nosso experimento, de transparência fonológica total (condição 1) corresponde ao que, no experimento de Tyler et alii, são as condições 2 e 3, que, para os autores, correspondem a condições de opacidade fonológica. Julgamos, no entanto, correto falar em transparência fonológica, uma vez que as mudanças fonológicas têm caráter geral e, portanto, são previsíveis pelos falantes nativos.

Na condição de relação morfo-semântica com opacidade fonológica (condição 3 de nosso experimento: +M/-F), escolhemos pares de base/derivado, em que não há previsibilidade nas mudanças fonológicas da palavra derivada,como nos casos de conter/contenção.