POLISSEMIA
VERSUS
HOMONÍMIA
A (IN)VALIDADE
DE
CONCEITOS
EM
QUESTÃO
Márcio
Ribeiro
dos
Santos
(UERJ)
Todos
nós
conhecemos a
vital
necessidade
de
interpretação
de
tudo
que
nos
cerca
em
todos
os
momentos
de
nossa
existência.
Para
que
se tenha uma
satisfatória
aquisição
dos
valores
socioculturais existentes no
mundo,
não
é
suficiente
somente
ter
acesso
às
informações
sobre
o
mundo.
Torna-se
imprescindível
também
saber
organizá-las e articulá-las, o
que
demanda
um
domínio
significativo
da
linguagem.
A
manifestação
da
linguagem
em
nosso
cotidiano
ocorre de diversas
formas,
como,
por
exemplo,
através
da
seleção
de
imagens
oriundas da
combinação
de
signos
verbais
e não-verbais. Essa
combinação
apresenta ao
indivíduo
interpretante
marcas
que
o levam a
identificar
idéias,
relações,
interpretações
e
características
mais
profundas dos
objetos
a
ele
apresentados.
No
universo
lingüístico,
tanto
a
forma
como
o
conteúdo
das
unidades
lexicais
presentes
na
investigação
de
qualquer
texto-objeto fazem
emergir
valores
de
naturezas
diversas,
como
a
semântica,
por
exemplo,
que
se detém a
estudar
a
existência
e a
construção
do
significado
de
um
sistema
lingüístico.
São
justamente
esses
valores
assumidos
por
determinadas lexias
que
eclodem
em
um
duelo
até
hoje
não
resolvido: a
identificação
da polissemia
versus
a
caracterização
da
homonímia.
Neste
texto,
não
se propõe
exaurir
o
tema
em
definitivo,
mas
sim
apontar
exemplos
de lexias encontradas
em
uma
determinada
crônica,
que
assumem
valores
semânticos
diversos
e
que
podem
ou
não
ser
enquadradas
em
casos
polissêmicos e/ou
homonímicos.
Analisar-se-ão as
ocorrências
textuais/situacionais
de
alguns
vocábulos
e de
qual(is)
forma(s)
podem
ser
interpretados adequadamente
para
que
haja o
efeito
cômico
proposto na
crônica.
A
partir
desse(s)
sentido(s)
obtido(s), questionar-se-á a (in)validade
dos
conceitos
de
homonímia
e polissemia
para
a
obtenção
de
tal
efeito
cômico.
Os
princípios
teóricos
da
lingüística
moderna
existentes dificilmente encontram
aplicação
no
estudo
das significações
devido
à
extrema
complexidade do
plano
do
significado.
Para
a
realização
desse
estudo,
há uma
busca
definida
de
uso
lingüístico
através
da
seleção
de
textos.
Isso
é
possível
porque
o
texto
limita o
campo
semântico
ao
colocar
escritor
e
leitor
em
constante
interação,
que
exige deles “crenças
e pressuposições
correntes
entre
os
membros
da
comunidade
lingüística
a
que
o
falante
e o
ouvinte
pertencem.” (Lyons, [s/d.]: 431)
Em
outras
palavras,
os
dois
pólos
do
eixo
de
comunicação
devem
partilhar
o
mínimo
de
experiências/conhecimentos
pertinentes
em
comum
para
que
se obtenha uma multiplicidade de
sentidos
naquilo
que
está sendo transmitido.
Assim,
pode-se
dizer
que
ambos
estão inseridos
em
um
contexto
de
um
enunciado
que,
para
ser
compreendido, sofre
intervenções.
Segundo
a
Revista
de
Cultura
Vozes
(1970):
No
ato
de
comunicação,
os
mecanismos
semasiológicos
intervêm
para
a
compreensão
de
um
enunciado:
o
ouvinte
se
encontra
quase
sempre
diante
de
seqüências
fônicas
que
admitem
mais
de uma
interpretação.
O
contexto
e a
situação
é
que
vão
precisar
a significação daquelas
seqüências.
(p. 523)
É
justamente
na
base
intuitiva de “contexto”
que
se pode
definir
a
expressão
“ter
significado”
para
os
enunciados
formados
por
essas
seqüências
fônicas.
Já
dizia Lyons (op. cit.) “Um
enunciado
só
tem
significado
se
sua
ocorrência
não
é
inteiramente
determinada
pelo
seu
contexto.
Essa
definição
repousa
sobre
o
princípio
largamente
aceito de
que
a ‘significação implica
escolha’.”
(p. 439) Essa
escolha
pode
ser
do
tipo
lexical,
por
exemplo,
e
que
será discutida neste
trabalho.
Na
confecção
de
qualquer
texto,
principalmente
os
literários,
além
da
noção
de
estilo
presente
em
toda
e
qualquer
composição,
a
seleção
de
expressões
e
vocábulos
para
se
chegar
ao
entendimento
de uma
mensagem
nunca
é
gratuita.
Essa
seleção
pode
ou
não
enriquecer
a
qualidade
do
texto
e, muitas
vezes,
torna-se
crucial
na
configuração
das
sentenças.
Conforme
Ilari e Geraldi (2000), há:
(...)
casos
em
que
uma
expressão,
sem
prejuízo
de
seu
sentido,
assume uma significação
real
resultante
da
exploração
de
informações
e
expectativas
dos
interlocutores
engajados numa
conversação
específica.
O
sentido
que
a
expressão
assume
então
no
contexto
de
fala
pouco
ou
nada
tem a
ver
com
o
sentido
que
se
poderia
esperar
para
a
expressão
a
partir
das
palavras
que
a compõem. (p. 75)
Com
a
perda
do
sentido
literal
e o
surgimento
de
um
novo
sentido
aplicado ao
contexto
situacional existente, chega-se ao
ponto
de
partida
para
a
interpretação.
Para
Chierchia (2003):
... o
ponto
de
partida
para
chegarmos à
interpretação
é uma
inadequação
do
significado
literal
na
situação
de
uso,
atribuída a
um
aparente
desvio
dos
padrões
da cooperatividade conversacional.
Tudo
isso
instaura
um
processo
inferencial
fundamentado
na
hipótese
de
que,
em
algum
nível,
o
falante
está se comportando de
modo
cooperativo,
por
um
processo
inferencial
que
nos
leva
tipicamente ao
significado
pretendido. (p. 260)
Alguns
vocábulos
encontrados na
crônica
servem de
exemplo
para
esse
raciocínio.
Todos
eles
baseados
nas
idéias
de
homonímia
e polissemia, a serem discutidas. Na
crônica,
a
palavra
“manga”
foi inserida no
mesmo
contexto
para
duas
idéias
distintas: a
fruta
comestível
e a
parte
do
camisa
que
cobre
o
braço.
A
repetição
do
nome
foi estilisticamente
proposital
para
a
obtenção
do
efeito
curioso/cômico
no
leitor.
Este
mesmo
propósito
ocorre
com
o
vocábulo
“barra”,
tomado denotativamente
como
instrumento/aparelho
utilizado
por
ginastas
em
torneios
esportivos
e
Jogos
Olímpicos
e conotativamente na
expressão
gírica “é
barra”
para
indicar
algo
trabalhoso
ou
difícil
para
alguém
fazer.
Outra
expressão
encontrada no
texto
é “cortar
o
baralho”,
na
qual
o
verbo
“cortar”
assume o
sentido
conotativo de “dividir”
o
baralho
em
“n”
partes
iguais.
A
concepção
denotativa
para
esse
verbo
encontra-se
um
pouco
antes
com
a
costureira
“rasgando”
seu
material
de
trabalho.
Enfim,
toda
essa
ampliação
de
significados
em
um
só
contexto
é
possível
graças
à
língua,
um
sistema
aberto,
no
qual
o
mesmo
vocábulo/nome
gera a
construção
de
novos
sentidos
de
acordo
com
a
sua
aplicação.
Contudo,
o
curioso
é
que
não
se pode
dizer
que
esses
três
nomes
mencionados
como
exemplo
são
homônimos.
De
acordo
com
o
Dicionário
Aurélio,
somente
os
significados
do
vocábulo
“manga”,
entre
os
três
estudados, é
homônimo.
Todavia,
não
há, à
primeira
vista,
nada
que
os diferencie: há
um
mesmo
nome
(grafematica e foneticamente) representado
com
seus
possíveis
significados
contextualmente
identificáveis.
Afinal,
etimologicamente, homo =
mesmo
e nymus =
nome.
Vê-se,
então,
um
impasse
de
ordem
conceitual.
Consoante
Lyons (op. cit.):
A
distinção
entre
homonímia
e polissemia é
indeterminada
e
arbitrária.
Depende,
em
última
análise,
do
juízo
do lexicógrafo
sobre
a plausibilidade da ‘extensão’
do
significado,
ou
de alguma
prova
histórica
de
ter
ocorrido
particular
extensão.
A
arbitrariedade
da
distinção
entre
homonímia
e polissemia se reflete nas
discrepâncias
entre
diferentes
dicionários
(...) (p. 431)
Daí
talvez
a
consideração
por
muitos
estudiosos
da polissemia
como
mais
uma “anomalia”
da
língua.
Perini (1996) se opõe a essa
idéia:
O
problema
vem de
que
a polissemia
não
é,
como
se
poderia
pensar,
um
defeito
das
línguas
(que
insistiram
em
dar
o
mesmo
nome
a
coisas
diferentes).
A polissemia é uma
propriedade
fundamental
das
línguas
humanas,
que
sem
ela
não
poderiam
funcionar
eficientemente.
Seria
impraticável
dar
um
nome
separado a
cada
‘coisa’,
incluindo aquelas
que
nunca
vimos. (p. 251)
Em
princípio,
diz-se
que
o
fator
marcante
da polissemia é a “extensão”
de
significados.
A
questão
a
ser
colocada é:
qual(is)
fator(es)
é(são)
levado(s)
em
consideração
para
a
ocorrência
da
extensão
de
significado(s)?
Esse
é
um
questionamento
atual,
mas
Lyons
já
o apontava há
tempos
atrás,
como
foi
exposto
em
um
fragmento
anterior.
Convém
esclarecer
que
a polissemia
não
é
um
defeito
da
língua.
O
próprio
Perini
complementa:
A polissemia confere às
línguas
humanas a flexibilidade de
que
elas
precisam
para
exprimirem
todos
os inúmeros
aspectos
da
realidade.
(...)
Conseqüentemente,
a
maioria
das
palavras
são
polissêmicas
em
algum
grau.
Palavras
não-polissêmicas
são
raras e
freqüentemente
são
criações
artificiais,
como
os
termos
técnicos
das
ciências:
fonema,
hidrogênio,
pâncreas,
etc. Nestes
casos,
a polissemia é
realmente
um
inconveniente;
mas
o
discurso
científico,
em
sua
procura
de univocidade
semântica,
difere
enormemente
da
fala
normal
das
pessoas.
Nesta, a polissemia é
indispensável.
(Idem,
p. 252)
Ainda
sim,
parece
difícil
admitir
que
“manga”
é
caso
de
homonímia,
visto
que
há
mais
de
um
significado
para
o
mesmo
lexema,
embora
possua a
mesma
pronúncia
e a
mesma
escrita
com
ambos
os
significados
encontrados.
Então,
como
sustentar
para
nossos
alunos
que
“cesta”
e “sexta”
são
homônimos,
já
que
não
são
o
mesmo
nome
nem
grafematica
nem
etimologicamente? Será
que
a
fonologia
é
realmente
base
para
justificar
um
traço
semântico
como
a
homonímia?
E
até
onde
podemos
estender
a “extensão”
da polissemia?
CRÔNICA
Cruzada
pós-moderna
sobre
paralelas
de
aço?
Séculos
se passaram. O
homem,
assim
como
a
maioria
das
sociedades,
evoluiu
radicalmente
durante
seu
processo
histórico.
Será
mesmo?
Às
vezes
me
deparo
com
certas
situações
tão
peculiares,
que
me
remetem a
episódios
marcantes
da
época
medieval
ou
antiga
em
pleno
cenário
carioca,
do
século
“dito”
vinte e
um!
É
evidente
que
há
sociedades
completamente
atrasadas no
mundo
atual,
mas
a
brasileira
ainda
apresenta
alguns
resquícios
pré-históricos, se
assim
podemos
forçadamente
caracterizá-los.
Um
exemplo
simples
e
recorrente
pode
ser
facilmente encontrado
nos
vagões
de
trem
às
seis
e
meia
da
manhã
de
segunda
à
sexta-feira.
Neste
horário,
podemos
dizer
que
as
composições
que
se dirigem à
Central
Station (é essa
mesma,
a do Oscar frustrado) estão repletas de
mortais
que
se posicionam da
forma
menos
espremida
possível
no “vaguinho”.
Ali
a
iluminação
é ≈ 0 e,
nos
dias
ardentes
de Fe(r)vereiro, a refrigeração,
ou
melhor,
a ventilação
interna
é –1.
Mesmo
assim,
os
humanos
sobrevivem
até
o
final
do percurso,
que,
de
tão
longo,
nos
lembra as
Cruzadas
religiosas da
Idade
Média.
A
diferença
para
a
nossa
Cruzada
dos
Trilhos
é
que
aquela buscava a salvação
através
da
fé
enquanto
esta
busca
o
pão
nosso
de
cada
dia
através
do
labor
sofrido.
Durante
essa costura
que
o
trem
faz de Japeri
ou
Santa
Cruz
até
o
Centro
ao
unir
pontos
tão
polares
de uma
só
cidade,
uma
senhora
de
meia
idade
se distrai tricotando uma
outra
meia
(sem
ser
a
que
veste)
ou
faz uma costura na
manga
de
seu
uniforme
de
trabalho.
Será
que
ela
é
costureira
mesmo?
Sei
lá.
Deixe
seus
cortes
e
remendos
pro
serviço.
Lá
ela
corta e une o
que
quiser.
No
entanto,
à
frente
dela tem
um
cara
cortando
outra
coisa:
o
baralho
que
é jogado
por
mais
três,
sendo
que
um
deles é a
mesa
por
deixar
a
mão
estendida
com
as
cartas
jogadas.
Próximo
à
porta
aberta,
um
outro
passageiro
acompanha a
partida
(de
baralho,
é
claro)
enquanto
se lambuza ao
chupar
uma
manga
com
a
mão
direita
e
limpar
a
boca
na
manga
esquerda
da
camisa