OS GRAFEMAS S e Z

NOS SUFIXOS DA ORTOGRAFIA DO PORTUGUÊS

CONTRASTES E CONFRONTOS

Tadeu Luciano Siqueira Andrade (UNEB)

PERCURSO HISTÓRICO

A ortografia portuguesa nunca foi uniforme em todos os países lusófonos, passou do período fonético, em que as palavras eram escritas da forma como eram pronunciadas, para o período etimológico, neste, tentou - se regatar a origem das palavras. Já no século XX, a ortografia chegou ao período simplificado.

Tais períodos apresentaram peculiaridades que, em algumas circunstâncias, até hoje podem ser percebidas no sistema ortográfico:

Palavras escritas como são pronunciadas: do período fonético. Até essa época, não havia um padrão para a escrita. Num mesmo documento, um vocábulo podia aparecer grafado de formas diferentes;

O resgate da etimologia da palavra: como se percebe a preocupação de os gramáticos justificarem a grafia das palavras. Nesse período, o objetivo era recuperar a grafia original, ou seja, partir da origem do vocábulo. Esse sistema apresentou dificuldades, uma vez que o usuário da língua, desconhecendo a etimologia das palavras, não sabia como pronunciá-las nem escrevê-las.

O Período simplificado: a preocupação em resgatar a etimologia não conseguiu um padrão, pois alguns escritores buscavam a fonte latina, outros se reportavam ao grego.

Em 1904, Gonçalves Viana, entre outros princípios, estabeleceu a supressão dos sinais de origem grega (th, ph, y), consoantes sem valor fonético, e regularizou a acentuação gráfica. Tais princípios fundamentaram a Reforma, que em 1911, o governo português tornou-a oficial. Em 1943, foi oficializado no Brasil, o Acordo Ortográfico Luso - Brasileiro, entretanto adotado em Portugal apenas em 1945.

Em 1971, é oficializada a Lei 5765, considerada como Reforma Ortográfica. Em 1986, o Brasil e Portugal estudam um acordo ortográfico para os países lusófonos, visando à redação do Projeto de Ortografia Unificada. Esse acordo foi assinado em 1990 pelos Ministros da Educação e Cultura dos dois países. Em 1991, ratificado pelo Parlamento Português, e em 1994, obteve aprovação no Brasil pela Câmara. Entretanto ainda aguarda a votação no Senado.

Considerando esse percurso histórico, verificamos as contradições existentes na ortografia, uma vez que as reformas ficam apenas no processo burocrático, não alcançando a dinâmica do uso da língua. “A Constituição Brasileira de 1934 nos artigos 18 e 26, determina a volta da ortografia usada na Constituição de 1891, era a volta ao etimologismo.” (AGUIAR: 1984:72)

A ortografia, ao longo de sua história, procurou fundamentação para as famigeradas regras transmitidas pelas manuais gramaticais e depositadas na mente do usuário da língua. As regras, nem sempre, são eficazes e eficientes no conhecimento de um problema tão complexo como a ortografia.

Para analisar a complexibilidade da ortografia, o corpus deste trabalho está pautado no uso dos grafemas S e Z nas gramáticas do Português, comparado na visão de vários autores.

O estudo de tais grafemas parte de dois questionamentos:

Existem, no Português, os sufixos ZINHO, SINHO,INHO?

Existem, no Português, os dois sufixos verbais: ISAR, IZAR?

 

QUADRO TEÓRICO

As concepções em relação aos sufixos ZINHO e INHO apontam as controvérsias entre lingüistas e gramáticos.

Comparando -os, há um quadro composto de convergências e divergências:

1. J.J.NUNES (1945:377) traz o sufixo inho como oriundo do latim INU. Considera o Z como infixo[1], fazendo o estudo diacrônico de tal sufixo.[2]:

Evolucionou do sufixo INU;

Concorre com o sufixo INHO, com freqüência, o sufixo IN, talvez seja através da importação francesa;

É composto do sufixo INU + ELLUM,[3] possuía a língua arcaica o sufixo ELINHO que entra na formação dos diminutivos;

A origem do infixo Z provavelmente seja do sufixo CINUS que entrou por analogia com CELLUS, e de onde se separou.

2. ISMAEL LIMA COUTINHO (1970:171), no que tange à origem, considera o mesmo processo de NUNES: INO > INHO, não questiona o Z. Para ele, o sufixo INHO “encerra idéia de diminuição, referência, relação, origem, servindo para formar substantivos e adjetivos.”

3. ROCHA LIMA (1994:86) considera a existência dos dois sufixos INHO e ZINHO. Aponta as possibilidades do uso do ZINHO. “quando o substantivo terminar em vogal tônica ou ditongo. Ex. PAI > PAIZINHO, CAFÉ > CAFEZINHO.”

4. PASCOAL CEGALLA (1993:106) mostra a seguinte forma (Z)INHO considera o Z como um elemento de ligação, ou seja, um elemento eufônico, apontando ainda a seguinte observação em relação aos elementos de ligação: “A esses elementos de ligação alguns gramáticos chamam de infixos.”

5. EVANILDO BECHARA (1999:362) aponta os sufixos INHO e ZINHO, concorda com Rocha Lima no que se refere ao uso, considera ZINHO como uma alomorfia.[4]

6. NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA (1994:127) elenca as formas INHO e ZINHO, aponta a consoante de ligação e ainda faz a distinção do uso: “INHO via erudita: papel - papelinho, ZINHO via popular: papel-papelzinho”. Em se tratando do Z,com elemento fônico, concorda com Cegalla.

7. CELSO CUNHA & CINTRA (1985:90) fazem o estudo filológico semelhante a NUNES, divergem de Napoleão Mendes no uso do sufixo: “ZINHO forma preferida pela linguagem culta e popular, simplificada por excelência, tende para a forma INHO.”

No que alude ao Z, consideram-no como uma parte do afixo, ou uma alomorfia.

8. FARACO & MOURA (1998: 171) apontam os dois sufixos INHO e ZINHO, mas, no que se refere a essa forma dupla, não tecem nenhuma consideração.

9. LUIZ ANTONIO SACCONI (1996:67) considera o sufixo INHO e o Z como um interfixo[5], divergindo de outros gramáticos que o vêem como infixo.

10. CELSO LUFT (1983: 149) diz que há os vocábulos terminados em SINHO ao lado de outros em ZINHO: “Nos dois casos tanto depois de S como de Z, trata-se do sufixo INHO. Este sufixo algumas vezes se liga diretamente ao radical da palavra anterior.”

Há também a ligação direta, desprovida de qualquer mediador, se o radical terminar com S. Ex. PIRES: PIRESINHO.

O autor considera que, em alguns casos, é impraticável a ligação imediata entre o radical e o infixo, daí ocorre a ligação entre os dois morfemas.em geral a letra Z.

Após a analise do quadro teórico, concluímos que os autores apresentam opiniões diversas no que se refere ao sufixo INHO: Os que defendem a corrente diacrônica da língua, considerando o sufixo latino INU, do qual proveio sufixo INHO, mediante a palatização[6] vêem o Z como um infixo[7], gerando uma contradição aos princípios da Língua Portuguesa.

(Para MACEDO (1979:14)) “Não há infixo na língua portuguesa (...) não é boa a orientação chamar o Z de cafezinho e cafezal de infixo.”

Dos autores citados, CUNHA & CINTRA (1983:81) observam na Lingüística moderna, a tendência generalizada de não isolar o Z na análise mórfica, preferem considerá-lo como parte inicial do radical ou do afixo.

Os lingüistas modernos consideram os elementos de ligação como elementos eufônicos da estrutura dos vocábulos, situados entre o radical e o sufixo das palavras derivadas que recebem tais elementos.

Nesta linha, podemos citar LUFT,CUNHA & CINTRA, e SACONNI que consideram apenas o sufixo INHO, levando em conta o elemento de ligação Z, conforme já foi exposto.

Nos demais, excetuando NUNES, e alguns gramáticos (apud. Cegalla) que consideram os elementos eufônicos[8] como infixo, não percebemos tal visão.

Bechara, Rocha Lima e Napoleão, ao contrário dos outros, mostram quando e como se usam os sufixos INHO e ZINHO.

Sá de Nogueira (apud. COUTINHO 1970: 172) não considera o infixo e afirma que tais elementos não aparecem por razoes eufônicas, mas por analogia, contrastando-se com NUNES, que acredita no C do sufixo CELLUS que se transformou em Z.

Mattoso Câmara (1970: 15) considera o ZINHO como alomorfe de INHO. Nessa visão, temos um grande número de gramáticos. Parece ser, entre as obras analisadas, o maior número.

Por isso, encontramos as formas INHO (Z) INHO.

Portanto, se analisarmos tal sufixo tanto no plano diacrônico, como no plano sincrônico,[9] é preciso considerar as duas formas:

ZINHO - acreditando no processo de alomorfia do sufixo INHO, como faz a maioria dos gramáticos, (adeptos da corrente de Mattoso) e

INHO - fundamentando-se no processo diacrônico, considerando a história do sufixo INU, vendo o Z como um interfixo, e não como um infixo, uma vez que na, língua portuguesa, não há palavras que tenham infixo.

Assim, qual será o sufixo existente na língua portuguesa, INHO ou ZINHO? Ambos são existentes no uso da língua.

É necessária, sobretudo, uma explicação coerente para qualquer sufixo utilizado. O que não devemos fazer é impor regras sem que existam explicações lingüístico-filológicas para tais.

Também não podemos afirmar a existência do sufixo SINHO com S, como muitos gramáticos afirmam. Vale ressaltarmos que o grafema S a que eles se referem é o S já existente do radical. Não é, portanto, parte do radical nem elemento de ligação.

Se existem ZINHO e INHO e explicações para os dois sufixos, o que se deve dizer acerca dos sufixos verbais IZAR e ISAR?[10]

Fazendo um estudo histórico, observa-se que COUTINHO (1970:173) classifica o sufixo IZAR, oriundo do sufixo verbal latino IZARE > IZAR.

NUNES (1945: 316) concorda com COUTINHO, vendo o processo de apócope[11], acrescenta “o sufixo IZARE é de origem grega, entrou para o latim no tempo do Império.”

Há gramáticos que não apresentam o termo sufixo, e sim as terminações ISAR e IZAR. Encontramos tais terminações em Rocha Lima, Saconni, Cegala e Faraco & Moura, Luft e outros.

MAURO FERREIRA (1998: 18) apresenta os sufixos ISAR e IZAR e propõe um exercício para aplicar a regra: “Se a palavra primitiva apresentar a letra S no final do radical o verbo será escrito com a letra S, caso contrário, usa-se a letra Z.”

Qual a explicação para o uso do S e do Z nos verbos em Português?

Nos manuais de ortografia, estão as duas regras:

1ª - “Palavra primitiva com S, usa-se o sufixo ISAR”

2ª - “Palavra primitiva sem S, usa-se o sufixo IZAR”

Em princípio, percebemos que a primeira regra não justifica a coerência de ISAR, uma vez que, no Português, existe o sufixo verbal AR, oriundo do sufixo verbal latino ARE.

O sufixo ISA, no Português, é de natureza nominal, e não verbal.

Talvez a justificativa para a terminação ISAR como sufixo verbal seja por analogia como o sufixo ISA.

SAID ALLI (1971: 247) divide os verbos derivados através dos sufixos em dois grupos:

Verbos que em português se formam por derivação imediata seguem o modelo da 1ª conjugação: murar, casar, mesquinhar etc. Verbos que ainda seguem a mesma conjugação a maior parte de derivação mediata, isto é, aqueles que interpõem um elemento formativo entre o termo derivante ou vocábulo básico e o sufixo característico do verbo. Entre essas formações desta espécie avultam os verbos em IZAR, EAR , EJAR e FICAR.

A segunda regra é a que contempla a existência do sufixo IZAR. Esse sufixo já chegou ao Português com tal estrutura, conforme já vimos.

A primeira regra se mostra incoerente na sua própria redação, uma vez que já tem S no radical.

No entanto, é usado, para formar o verbo, apenas o sufixo AR.

Daí a, fundamentação para a controvérsia, como por exemplo AVISO > AVISAR.

Considerando as afirmações : palavra primitiva com S, usa-se o sufixo AR e palavra primitiva sem S, usa-se o sufixo IZAR, como explicarmos a formação dos verbos batizar e catequizar?

Nesta situação, relacionando-os com a primeira regra, encontraremos:

Batismo apresenta S. E a grafia de batizar?

Catequese apresenta S. E a grafia de catequizar?

Encontra -se a problemática do S e do Z nos verbos formados pelos sufixos AR e IZAR

No jornal A Tarde, circulado na Bahia, na edição de 19/07/1998, a professora Maria de Lourdes Siqueira [12] comenta:

Analisar e avisar são cognatos de palavras grafadas com S. avalizar e colonizar são grafados com Z porque foi acrescentado o sufixo IZAR para formar verbos (...)

Reconhece-se que se trata do sufixo, quando, suprimindo-se IZAR subsiste um vocábulo independente ideal (izar) autor (izar). Tal processo não tem, entretanto, aplicação em todos os casos. Haja vista batizar, catequizar, aqui ainda se poderia apelar para os cognatos com o sufixo ISMO: bat- ismo, catec-ismo.

SACONNI (1996: 33) mostra duas regras, não usadas por outros gramáticos no tocante ao problema:

Verbo cuja terminação correspondente traz IS + vogal, grafa-se com ISAR.

Ex. aviso = avisar - pesquisa = pesquisar.

Verbo cujo nome correspondente não traz IS + vogal grafa-se com IZAR.

Ex. Economia = economizar - batismo = batizar.

FARACO & MOURA (1998:95) apontam a regra do IZAR, fazem uma observação acerca da palavra catequese: catequese = catequizar, mas não comenta.

CEGALLA (1993:59) mostra batizar e catequizar, reportando-se ao processo etimológico, justifica que “tais verbos são derivados do grego e já vieram formados para o vernáculo.”

DORMELLES (1997: 97) afirma que quando houver o sufixo SMO em palavras cognatas, haverá o sufixo IZAR.

Ex. Catecismo > catequizar.

AURÉLIO (1986: 241 e 369) faz o estudo etimológico de tais palavras: catequese: do grego katechésis pelo latim.

catechese. Catequizar do grego katichizo pelo latim catequizare.

Batismo do grego bapitsmós pelo latim baptismu..

Batizar vem do grego baptizo pelo latim baptizare.

GISELDO CUNHA (1982: 166) analisa o processo de formação da palavra, considerando:

Catequ - ese - izar - ese. (sufixo formador de substantivo) de onde se justifica catequese.

IZAR sufixo formador de verbo de onde provém catequizar.

Batismo - radical: bat. Sufixo: ismo. Batismo no século XIII, oriundos deste mesmo radical, o filólogo aponta batista, batismal, batizador, batistério.

LUFT (1983: 147) afirma que “IZAR pospõe a nomes (substantivos e adjetivos)”.

Faz um estudo etimológico do sufixo IZAR, conclui que tal sufixo é o sufixo grego IZEIN, que chegou até o Português através do latim IZARE. Em relação à terminação ISAR, o referido gramático diz: “ISAR corresponde a palavras acabadas em IS, ISA,ISE, ISO.”

Cita como exemplo: a + lis (o) + ar = alisar

fris (o) + ar = frisar

pesquis (a) + ar = pesquisar

pis (o) + ar = pisar.

Considera ainda a correlação entre o sufixo IZAR e os sufixos ICO, ISMO, ISTA.

Ex. arnárqu (ico) = anarquismo - anarquizar - bati (smo) - batizar - batista - batizar - real (ismo) - realista - realizar.

LUFT mostra ainda que nos verbos derivados de nomes terminados em IZ, ocorre apenas o sufixo AR.

Ex. cicatriz = cicatrizar

matiz = matizar.

Em relação aos verbos cuja terminação é IZAR e IS (AR), concluímos que há várias regras, justificando tal grafia. No entanto, quando recorremos a elas, encontramos dúvidas para fundamentar as explicações ortográficas.

Em dois grupos, podemos separar os gramáticos no que se refere aos verbos que apresentam tal grafia:

No primeiro grupo, os gramáticos que adotam as regras: radical + S = ISAR, radical sem S = IZAR. Esses constituem um grande número.

No segundo grupo, os gramáticos que recorrem a estudos etimológicos e filológicos, apontando a correlação com os sufixos gregos e latinos, conforme foi percebido nos estudos de LUFT, Giseldo Cunha e Cegalla.

Todavia as dúvidas ainda persistem, uma vez que nem todo usuário conhece o processo diacrônico da língua.

Qualquer regra para explicar a formação de verbos com os sufixos IZAR e IS (AR) poderá ser aceita, desde que haja uma explicação lingüística coerente.

Não é concebível, nos estudos da ortografia portuguesa, a existência do sufixo verbal ISAR, como já foi visto no decorrer deste trabalho, já que, para tal sufixo, não há explicação lingüística nem filológica. Implicando assim, contradições internas no sistema da língua.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ortografia portuguesa, no seu arcabouço histórico, passou por processos, os quais marcaram a sua evolução. Iniciando-se com o Período Fonético até as últimas reformas que constituíram o Período Simplificado.

Entre esses períodos caracterizados por objetivos peculiares, ocorreram mudanças no sistema ortográfico que, quando questionadas, merecem explicações que as fundamentem melhor.

Existe um padrão na ortografia que leva em conta a fonética, a tradição e a etimologia.

Esse padrão graças ao processo evolutivo da língua e o desconhecimento das transformações e da etimologia, por grande parte dos usuários, às vezes, torna-se alterado, não do ponto de vista sistemático (Dicionários e Vocabulário Oficial) mas do ponto de vista do uso, a exemplo a palavra MIXTO, antigo particípio do verbo misturar, abolido há muito tempo conforme ALMEIDA (apud AGUIAR 1984:86), ainda permanece nas lanchonetes de quase todo o Brasil.

No entanto, tal grafia, em dado momento da história da língua, foi aceita.

Hoje o ensino da ortografia está voltado para as regras, associações e exceções que não explicam os mecanismos gráficos e, quando o fazem, é de forma incoerente, ficando dúvidas nos usuários da língua.

Intelectuais de todos os tempos manifestaram-se acerca da ortografia. Nota-se e o descontentamento com a maneira de escrever, uma vez que ela é muita confusa. Não corresponde à realidade lingüística do idioma. Há até mesmo contradições na etimologia.

Seria necessária uma simplificação. Os usuários visam a critérios mais lógicos.

Levando-se em conta o uso dos grafemas S e Z nas palavras destacadas neste trabalho, chegamos à conclusão sensata de que o sistema ortográfico português necessita de uma ortografia fonemática, tendo em vista as divergências na grafia das palavras do léxico, as contradições nos manuais gramaticais e a variedade de regras no uso dos grafemas.

O ideal seria uma escrita fonêmica, uma vez que toda evolução da língua se deu via oral, e não escrita. A escrita deve ser uma representação gráfica da oralidade estrutural e fonêmica da língua, o que resultaria em uma língua padrão correspondente a uma escrita padrão: Havendo uma ortografia fonêmica, tendo como princípio básico uma reforma criteriosa e científica, cujo objetivo: Um grafema para um fonema.

Nessa condição, o Português, possuindo 26 fonemas, teria 26 grafemas.

Assim, a ortografia deixaria de arrolar uma diversidade de regras, não recorreria, com tanta ênfase, à origem dos vocábulos, considerando que as transformações lingüísticas são constantes e nem sempre presentes na mente dos usuários, passaria a adotar métodos compatíveis com a língua corrente.

Concluindo, reportamos a Guimarães Rosa: “toda língua são rastros de velhos mistérios.”

Cumpre afastar a pedra no meio de caminho que torna tão desinteressante o estudo da ortografia portuguesa, que exige muito da memória, e levando muito pouco à reflexão sobre a língua.

 

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