Parcela da LÍNGUA SERTANEZA
DE ELOMAR FIGUEIRA DE MELO

Simões, D.M.P. (UERJ)

 

0. Palavras iniciais

Estudar e dominar uma língua são ações que deveriam ser praticadas desde a mais tenra idade como um exercício de prazer . Logo nos primeiros contatos com a língua nacional — orientados pelos familiares — os falantes deveriam ser sensibilizados sobre a importância e a beleza do vernáculo . Pode parecer extravagante tal idéia , uma vez que os infantes não estariam — em tese — disponíveis e aptos para informações desta natureza , todavia , não estou falando de instruções sistemáticas ou sistematizadas ( pois se trata da fase de transmissão da língua ), mas de uma prática cotidiana estimulante do uso da língua observado como instrumento de realização pessoal . Isto porque , sobretudo na infância , as interações pré-verbais e verbais destinam-se, a princípio , ao suprimento de necessidades primárias. Entretanto , o prazer — independentemente de sua origem — ativa mecanismos cerebrais que se correlacionam com os produzidos na área produtora de linguagens . Assim sendo, é perfeitamente possível realizar interações verbais produtivas, proficientes e prazerosas desde a infância , com o objetivo de gerar o gosto pela aquisição da língua , em especial , como meio de realização pessoal .

Veja-se o excerto a seguir :

Tem sido contado muitas vezes ( até pela própria protagonista ) como Helen Keller - a famosa surda-muda e cega norte-americana - estabeleceu contato , aos sete anos , pela primeira vez , com a língua , uma língua de sinais que soletrava na palma da mão . Helen considerava esse dia como o de um autêntico renascimento . Lembrava a vida anterior a esse momento apenas de maneira muito vaga e incompleta . Tinha sido um simples organismo vegetativo. Graças à língua , adquiriu rapidamente o acesso a um mundo rico e passou a dispor da capacidade de recordar , sonhar , fantasiar . E adquiriu também , pela primeira vez , a capacidade de pensar e de organizar idéias (Malmberg,1976: 82-3).

Como partilho desta crença — língua como forma de apreensão do mundo e completude pessoal — atravesso, desbravo incansavelmente o território das metodologias de ensino para tentar descobrir / aperfeiçoar estratégias de estimulação dos potenciais lingüístico-gramaticais dos falantes no sentido de viabilizar-lhes o domínio efetivo do vernáculo , em sua variedade .

Nessa travessia , verifiquei que a variante sertânica presente em autores como Guimarães Rosa ( narrativa ) e Elomar Figueira Mello (poesia-musical) trazia uma contribuição lingüístico-cultural incomensurável e que , a despeito do volume de trabalhos de crítica literária realizados sobre a obra rosiana, a investigação vernacular não se mostra tão abundante . Avançando na pesquisa , verifiquei que a obra elomariana não tinha sido ainda objeto de estudo vernacular. Sua composição já fora estudada por historiadores, sociólogos e antropólogos , todavia , talvez por desconhecimento da obra , os lingüistas ainda não se haviam pronunciado a respeito da produção do virtuoso compositor baiano .

Na segunda metade de 1980, iniciei meus estudos de violão clássico e nesta oportunidade conheci, entre outros , Elomar Figueira Mello que , além de violonista virtuoso , é poeta . E dos melhores ! Elomar ( como é conhecido ) é um artista nacional que não teve ainda uma divulgação à altura de sua obra . Reconhecido internacionalmente (tem disco gravado na Alemanha, por exemplo ), não atravessa os espaços da “ intelectualidade referendada pelos títulos acadêmicos ” ( talvez em função da temática por ele eleita: o cantar de sua terra e sua gente in natura ).

Arquiteto por formação e músico erudito por talento e opção , Elomar nos tem brindado com um acervo poético-musical que precisa ser conhecido pelos apreciadores da poesia , da música e, principal , mente , da língua portuguesa.

Compositor , violeiro , dono de uma voz privilegiada, Elomar, mistura em suas músicas a tradição da música sertaneja à tradição lírica européia. (...)

Defensor ferrenho do combativo povo sertanejo , se alinha a uma tradição literária que remonta a João Guimarães Rosa e José Lins do Rego . Em sua postura purista se assemelha a Ariano Suassuna, ferrenho defensor da cultura de raiz . (Paula Chagas – Jornal da Tarde – Apud INTERNET )

Suas composições poéticas dão-nos mostras de amplo domínio vernáculo : do sertânico local e original ( ele é um criador de bodes do sertão baiano ) ao erudito e histórico português . (Elomar é um poliglota em sua própria língua (cf. Bechara, 1985). Seus textos , ora desenham cenários do sertão , da caatinga ; ora fazem renascer cenas medievais — ainda que retocadas pela experiência sincrônica imediata . Esta vertente nos leva a revisitar o bucolismo e a pureza romântico-religiosa de antanho .

A composição elomariana abarca cantorias sertanezas[1] (sic), cantigas à moda medieval , em meio a uma vastíssima produção lírica : óperas , antífonas , concertos , solos para violão , etc.

Nessa moldura artística , Elomar nos oferta um corpus lingüístico muito especial , recolhido diretamente ( por experiência vivencial — ele continua criando bodes nas barragens do Rio Gavião - BA) e construído artesanalmente (retomando formas dos clássicos portugueses e renovando a língua por meio da neologia, seja ela mórfica, semântica , fônica, etc).

Veja o que diz o poeta-compositor baiano :

Há no sertão um enorme manancial cultural que deve ser cantado, tocado e escrito . Muitos como João Cabral de Melo Neto , João Guimarães Rosa e José Lins do Rego já fizeram isso na literatura . Eu sigo essa tradição com minha música e minhas óperas . (Entrevistado por Paula Chagas , especial para o JT Apud INTERNET )

Por isso , na busca de caminhos mais eficientes para o trabalho didático com a língua nacional , decidi enveredar pelos sertões medievalizantes de Elomar e analisar seus poemas musicais, para : a) demonstrar a capacidade artística do poeta roçaliano (sic) eleito; b) chamar a atenção de estudantes e pesquisadores para uma nova frente de trabalho no eixo da variação; c) apontar o dialeto sertânico como fonte de aquisição / ampliação do vernáculo ; d) demonstrar a riqueza da análise pancrônica formas da língua , exercitando conhecimentos de vários níveis : fônico, mórfico, sintático , semântico ; e) contribuir com o conhecimento da língua portuguesa e f) comprovar que há formas bastante interessantes e produtivas de conhecer / aprender nossa língua .

Para ilustrar , passarei à análise semântico-semiótica do 3º Canto de Fantasia leiga para um rio seco [2] intitulado Parcela . A página eleita para análise traz a público a fala do retirante (de entre as Gerais e o Rio de Contas ), cantando as mazelas do seu penar .

Nossa exposição será assim dividida: a) apresentação do texto-corpus; b) breve incursão no sistema gráfico do português ; c) considerações sobre o substantivo-título: Parcela e d) análise dos fatos lingüísticos apuráveis na superfície do texto .

 

1. Apresentação do texto-corpus:

PARCELA

 

 

 

 

 

05

Vomo intonce cunsiguino

pru conta da sorte qui Deus dá

prissiguino a vida

topo in cada corte

dos camin c’a foice armada

do Anjo da Morte

a me isperá

refrão

 

 

 

 

pru vai-num-torna vamo ritirano

e abaldonano as patra do sertão

té a chuva torna cum passá dos ano

mais do vai-num-torna num se volta não

 

10

 

 

 

 

15

já nem sei mais contas lũa

faix que baldonei nosso lugá

nada mais fregela

o ispirito errante da cavêra ritirante

dentro dos coro

a chucaiá

refrão

 

pru vai-num-torna vamo ritirano

e abaldonano as patra do sertão

té a chuva torna cum passá dos ano

mais do vai-num-torna num se volta não

 

20

 

 

 

 

25

 

 

 

 

30

 

 

 

 

35

a fome a peste a morte e a dô

tomem vem visita os outro irirmão

os qui dessa se iscapô

sucedeu só no sertão

os istei do céu istralô

já vem vino sem demora

c’as voiz dos truvão

o Rei da Guerra

o Rei da Glora

muitos mili anjo in grande preparação

nos alto céus

vêm vino sobre essa Terra

pra julgá os homes maus

qui ofendêro a Deus

oço o toco dos Rubin trombetêro

atraiz dos véus

refrão

 

 

 

pru vai-num-torna vamo ritirano

e abaldonano as patra do sertão

té a chuva torna cum passá dos ano

mais do vai-num-torna num se volta não

 

Como se pode ver , a página eleita para este estudo é um documento da fala sertaneja levado às últimas conseqüências pelo poeta , pois ele tentou registrá-la por meio de uma grafia — representação escrita de uma palavra ; escrita , transcrição (HOUAISS, 2001: s.v) — pretensamente fonética , o que nos faz recordar um estágio da grafia do português .

 

Breve incursão no sistema gráfico do português

A propósito de grafia , veja-se o que diz (COUTINHO, 1974: 72):

1. Período fonético . § 96. Coincide este período com a fase arcaica do idioma . O objetivo a que visavam os escritores ou copistas da época era facilitar a leitura , dando ao leitor uma impressão , tanto quanto possível exata , da língua falada . (...) Não havia um padrão uniforme na transcrição das palavras . às vezes , num documento , aparecem os mesmo vocábulos grafados de modo diferente . Para isso concorriam as diferenças regionais (...) O que , porém , não se pode negar é a tendência manifestamente fonética do sistema então em uso . Escrevia-se não para a vista , mas para o ouvido .

Observe-se que o excerto , informa de um estágio da escrita portuguesa em que havia grande preocupação com a variação dialetal ( ainda que cientificamente isto seja descoberta muito posterior ) e com a impressão auditiva resultante da leitura . Havia uma pretensão de representar iconicamente a fala .

Sabe-se que a convenção ortográfica teve origem numa observação de base política em relação à circulação da informação numa dada língua . A invenção da imprensa e a possibilidade de circulação documental do saber humano fortaleceram os argumentos que defendem a ortografia [3] — sistema convencionado de transcrição verbal . A convenção ortográfica — em princípio instituída para solucionar as dificuldades decorrentes da variação dialetal (cf. SILVA, 1991: 16) — afastou-se das bases da escrita alfabética e instituiu uma forma fixa para cada palavra . Congelada a palavra , deu-se a desvinculação entre o que se fala e o que se escreve, sobretudo no que tange à dialetação . Logo , não se pode esperar igual prosódia ou igual sotaque de falantes de regiões e/ ou classes sociais diferentes .

Elomar, mesmo sem conhecimento especializado em questões lingüístico-ortográficas, opta por representar a fala sertânica por uma grafia particular , em que tenta trazer-nos a realidade da fala local . É o sertanejo falando-cantando.

Vê-se no texto “ Parcela ” a representação icônica da fala sertaneza ( como quer o poeta ), que nos pode prestar um excelente serviço vernacular. É possível fazer um estudo fonomórfico dos vocábulos apuráveis na superfície do texto em análise , verificando os metaplasmos praticados quer pela fala local real (a sertânica) quer pelas invenções poéticas do artista . Verificam-se também construções neológicas de vária natureza . Umas correntes na fala local , outras, possivelmente inventadas pelo autor quer para suprir lacuna expressional quer para romper com o instituído ( marca freqüente nas produções artísticas).

Vejamos algumas mostras dessas particularidades .

 

2. Considerações sobre o substantivo-título: Parcela .

O texto-objeto deste estudo pareceu-me muito oportuno desde o título : Parcela . Pois , antes de identificar certo tipo de composição musical, indicar parte , porção , pedaço , etc. ( Não podemos nos esquecer de que cada manifestação dialetal é também parcela das possibilidades de uma língua .)

Observe-se o que dizem os dicionários :

parcela n substantivo feminino

1  pequena parte de alguma coisa ; fração , fragmento ; (...) 5 Rubrica : versificação. Regionalismo : Brasil. estrofe da poesia popular , típica dos desafios , que pode ter oito ou dez versos (parcela-de-oito e parcela-de-dez), ger. de cinco sílabas ( ditos carretilha ) {Houaiss, s.u.}

parcela [Do fr. parcelle < lat vulg. *particella, dim. de pars , partis, ' parte '.] S. f. 1. Pequena parte ; fração , fragmento . (...) 3. Bras. Liter. Pop. V. carretilha (4).

carretilha .               Liter. Pop. Bras. Décima de redondilhas menores rimadas na mesma disposição da décima clássica ; miudinha, parcela , parcela-de-dez.(AURÉLIO ELETRÔNICO SECÚLO XXI) {Aurélio, s.u.}

Um e outro dicionários apresentam parcela com a significação primeira de parte de alguma coisa ; fração , fragmento . Inclusive a noção voltada para a literatura ( um brasileirismo ) pode ser lida como parte do universo literário nacional . Contudo , elegi a letra por sua beleza lingüístico-poético-cultural e pela oportunidade de discutir um título constituído por um substantivo da língua portuguesa ( léxico geral ) que , sem adornos especiais , denota a malemolência semântica do vernáculo . Assim , Parcela serve como designativo da página musical em questão , serve como documento de uma parte específica (a sertaneza — sic) de Elomar e ainda serve como recolho de uma mostra significativa da riqueza da língua portuguesa.

 

3. Análise dos fatos lingüísticos apuráveis na superfície do texto “ Parcela ”

Como se sabe, a variação da língua é responsável por sua evolução , por sua transformação. Os falantes , distribuídos no tempo , no espaço físico , no espaço social , nas profissões e ofícios , enfim , divididos em grupos distintos , realizam o sistema lingüístico peculiarmente , por meio dos dialetos [4] ou falares . De suas particularidades de atualização vão resultando formas que se mostram estranhas, extravagantes , difíceis de entender , para falantes alheios àqueles usos . È patente que , entre os fatores de alteração fonética , destacam-se a imperfeição das imagens auditivas e a insuficiência ou dificuldade fisiológica para reproduzir o som ouvido , a acomodação da pronúncia , sob a ação das leis fonéticas , atua determinantemente na configuração do léxico (SIMÕES, 2002).

Levando-se em consideração que o texto de Elomar se enquadra nos usos lingüísticos especiais ( usos não-padrão), trago aos leitores um levantamento crítico dos fatos lingüísticos presentes em “ Parcela ”.

Focalizarei a seleção de unidades léxicas ( campos e domínios semânticos prestigiados no texto ), levando em conta não só sua estruturação mórfica, mas sobretudo seu valor icônico, por meio do qual o poeta sugere uma imagem do sertão nordestino. O suporte fonêmico pancrônico é uma pista da leitura a ser utilizada. E, como último objetivo , sublinharei a relevância do domínio lingüístico e do conhecimento enciclopédico na produção de um texto .

Tais fatos podem ser , em princípio , divididos em três grupos : a) históricos ; b) dialetais e c) criação poética . A partir desta classificação tento discutir conjuntos de formas da língua atualizadas no texto de Elomar, que propiciam um estudo bastante alargado de fatos da história do homem e da língua atinentes à dinâmica lexical .

 

3.1. Dos fatos históricos

3.1.1. No domínio enciclopédico

Como todo texto literário , o poema em estudo é estímulo para o enriquecimento do cabedal de informações enciclopédicas. Por isso , é mister que o estudante seja provocado a buscar a literatura como um dos caminhos produtivos da aquisição da língua e da cultura a ela referente . Ainda que a essência humana seja a mesma independentemente de raça ou nacionalidade , a sua produção cultural se constrói de modo diverso , e isto se reflete nas línguas que identificam cada nacionalidade ou cada grupo humano .

Este estudo , que se ocupa da variante sertânica documentada no texto de Elomar, visa não só a desenvolver uma análise pormenorizada das formas da língua (incluindo as diferenciações gráficas ) numa visão pancrônica ( com abonações históricas), mas também apontar o valor enciclopédico dos textos literários . Estes , além de mostrarem a língua como um acontecimento de beleza e de prazer , trazem em suas formas as informações de fatos e fenômenos que devem ser compor a moldura de formação do homem integral , para que este adquira referências para a compreensão de seu papel na sociedade , no mundo .

Elomar é um erudito . Sua formação leitora se fundou nos clássicos da literatura universal . Por isso sua produção poética traz um conjunto de informações sócio-históricas de alta relevância . Homem religioso , Elomar presentifica mitos judaico-cristãos por intermédio da seleção vocabular por ele praticada na elaboração de seus textos . O texto em análise apresenta-se eivado de fundamentos judaicos cristãos .

Em Parcela , vê-se a narração poética do desdouro do homem do sertão , obrigado pela seca a migrar em busca de condições de vida . Todavia , este homem sofrido se mostra regido por certo determinismo fatalista , entregando-se ao cumprimento de profecias religiosas. Ele parte de sua terra , sabendo que o seu destino é a morte . Contudo , por sua religiosidade, o seu sofrer é um verdadeiro corban (cf. Levítico, 27. In A Bíblia Sagrada .): o nordestino flagelado configura-se como um ser resignado que vê toda a desgraça em que vive como um sacrifício em oferta a Deus .

Ao narrar poeticamente a trajetória desgraçada do homem do sertão , o poeta retoma termos e expressões bíblicos que dão ao seu texto uma moldura informativa de alta relevância .

Observem-se as expressões :


Quadro 1 – Fatos históricos – Domínio enciclopédico

expressão textual comentário Abonações

c’a foice armada /do Anjo da Morte

A palavra foice (lat. falce) denomina instrumento curso para ceifar , segar . No sentido figurado , é símbolo do tempo . Seguido da expressão Anjo da Morte , faz uma remissão ao Apocalipse ( Novo testamento ), livro das Revelações Divinas feitas a João Evangelista (SÉGUIER, 1964: s.v.). Ali estaria traçado o destino dos homens e do mundo .

 

vai-num-torna =

 

 

a fome a peste a morte e a dô

Alusão aos quatro cavaleiros do Apocalipse : a guerra , a fome , a peste e a morte .

 

o Rei da Guerra / o Rei da Glora

expressões que designam o Senhor Deus Todo-poderoso

 

muitos mili anjo in grande preparação /

nos alto céus / vêm vino sobre essa Terra / pra julgá os homes maus / qui ofendêro a Deus

Trecho que alude ao capítulo d’Os anjos e os sete trovões . Vi outro anjo forte , que descia do céu , vestido de uma nuvem ; e, por cima de sua cabeça estava o arco celeste , e o seu rosto era como o sol , e os seus pés como colunas de fogo . (A BÍBLIA Sagrada . Apocalipse , 10, 1)
oço o toco dos Rubin trombetêro / atraiz dos véus Rubin é uma forma aferesada de Querubim [5] que , na hierarquia celeste (Pseo, 206-207), pertence à ordem superior dos anjos e sentam-se imediatamente abaixo dos serafins .

Seguindo a temática bíblica, o poeta alude então ao episódio da abertura do sétimo selo . Os sete anjos e as sete trombetas .

A expressão atraiz dos véus evoca vestido em uma nuvem que aparece no versículo transcrito em diálogo com o item anterior .

E vi os sete anjos , que estavam diante de Deus , e forma-lhes dadas sete trombetas . (A BÍBLIA Sagrada . Apocalipse , 8,2)

 

Que sae com trouão do cobre ardente . (Lus. X, 28) Apud Cunha , 1980, 215.

 


É interessante observar que o contato com a religião e suas práticas é a única forma de aquisição do padrão formal da língua , uma vez que o homem caipira dificilmente tem acesso à escola . Por isso , as formas mais distanciadas da fala regional são aquelas que representam a fala da Igreja , adquirida nas missas e cultos .

 

3.1.2. No domínio lexical

Ao lançar mão de formas dialetais , Elomar registra formas que contêm marcas da história da língua , de sua evolução . Vejam-se:

Quadro 2 – Fatos históricos – Domínio lexical

Fato lingüístico Exemplos textuais Comentários e abonações

Monotongação

 

 

A monotongação é resultado de uma tendência fonética histórica de apagamento da semivogal nos ditongos crescentes ou decrescentes. Tal tendência já era encontradiça no latim vulgar .

iscapô ( = escapou); istralô (= estalou); cavêra (= caveira ); coro (= couro ); trombetêro (= trombeteiro ); ôço (= ouço); contas (quantas)

A fala popular também faz uso sistemático da monotongação em formas como : dinheiro (dinhêro), cadeira (cadêra), queijo (quêjo), roupa (rôpa), etc.

ofendêro — as terminações verbais –one, -on e –unt , em português moderno se converteram em –ão, escrito –am, quando desinência átona .

No português arcaico , havia a forma – om que corresponderia, na fala , à realização /aWN/; passando pela monotongação e desnasalação resulta em /o/, grafado –o-.

glora

Coexiste a forma guilora em que se dá a epêntese do /i/ junto com a monotongação do /Ja/ em /a/.

tomem (= também ) contr. de tão bem ; f.hist. sXIII tanben, sXIV tã be, sXV tambem, sXV tãobem. {Houaiss, s.u.}

 

Esta evolução sugere sua continuidade na fala caipira (e mesmo na var. popular ) para tomem, resultado da monotongação e desnasalação de –ão em –o e da síncope do –b-, motivados pela facilitação articulatória.

Conservação de forma de transição do latim ao português

 

 

 

Nos dialetos nacionais se entremeiam peculiaridades do português antigo que hoje , muito esporadicamente aparecem no uso lusitano ( SILVEIRA , 1983: 287, § 568).

lũa < luna; in > em ; intonce < entonces (do castelhano ) > enton (arc.)

Da Lũa os claros rayos rutilauão. I, 58); Da Lũa , trazem, ramos de Palmeira , (II, 93); Cinco vezes a Lũa se escondêra (III, 59); Os cornos ajuntou da ebúrnea lũa (IX, 48 )— Os Lusíadas ( CUNHA , 1980: 124)

mais (= mas ) — conjunção adversativa , do lat. magis;

Hoje se escreve mas , porém os brasileiros ainda a pronunciamos, na língua corrente , mais .(Sousa da Silveira ( id . ib.), 1983: 107,[21]).

mili — mais uma recuperação de forma antiga [6]: é originado por mille > mili > mil

 

homes — Documenta-se sobre a forma homem : lat. hòmo,ìnis ' homem , indivíduo , ser humano ', a partir do ac. homìne(m); ver homin(i)-; f.hist. 1152 omem, 1211 homem , 1258 e 1262 pl. omees, 1265 pl. homees, sXIV homees/homees/omeem. {Houaiss, s.u.}.

Vê-se na grafia homes uma retomada da forma de transição datada de 1265, contudo sem o alongamento da vogal –e- representada então por –ee-.

 

Forão por estes homẽs que passauão, (I, 78); Que do sepulchro os homẽs desenterra, (III, 118); e mais dez ocorrências em Os Lusíadas da forma homẽs. ( Cunha , 1980: 104)

fregela – denota tendência evolutiva da língua : o grupo consonantal fl- lat. evolui para ch- ou para fr; ainda que a forma padrão atual seja flagela , é possível encontrar no dialeto caipira muitos vestígios do estado arcaico do português .

A forma flagelar tem seu registro na língua datado de 1580, na Lírica . {Houaiss, s.u.}

 

múltipla grafia

 

 

Imprecisão de grafia decorrente da variação lingüística , já que quem escrevia tinha a intenção de  registrar a fala .

Vomo/ vamo; que / qui; faix / voiz / atraiz; abaldonano – baldonei; em / in;

Em faix, tem-se ainda uma marcação de pronúncia palatalizada do travador /S/; enquanto em voiz/ atraiz, tem-se a marcação de pronúncia sibilante sonora /S/, talvez por requinte estilístico, em decorrência da proximidade com formas da língua mais freqüentes no texto formal religioso .

epêntese

 

 

Metaplasmo de aumento que consiste na evolução de um fonema no interior do vocábulo .

faix / voiz / atraiz

Alargamos em ditongo , por meio da adjunção de –I, as vogais tônicas finais seguidas de –z ou –s: capaz (capais), pés (péis) (…), bem como a terminação –ãs (ãis), alemãs (alemãis), etc.(Sousa da Silveira : 1983, 281 §551).

 

istralô < estalou

Assim como em estrela (< stella, lat.) que teria sido motivada por analogia com a forma astro [7], ter-se-ia em istralô uma analogia com quebrou. Em ambos os casos , a resultante é o surgimento de grupo consonantal cujo segundo elemento é a vibrante representada por –r-. Atualmente tem-se justificado o aparecimento do –r- em formas como esta como um fenômeno fonético comum , depois de –st-: listra (< lista ), mastro (< mastro ), registro (< registo), etc.

Anaptixe ou suarabácti

 

 

Epêntese especial que consiste no desfazimento de uma dificuldade de pronúncia decorrente de grupo consonantal ou travamento silábico.

irirmão (< irmão ) — redobro da sílaba inicial [8], provavelmente por motivação articulatória derivada da tendência a apoiar a consoante numa base vocálica , desfazendo o travamento inicialmente : ir > iri( r).

 

No Brasil, ouve-se no dialeto caipira Silivério, Silivana, pronúncia ocorrente também na linguagem popular , inclusive em Portugal.(cf. Coutinho: 1974, 147, § 224)

Diz-se que o falante do tupi também acrescentava uma vogal para desfazer grupo consonantal . como em curuçá (neol. tupi curu'sa < port. cruz ) {Houaiss, s.u.}

Síncope

 

 

Supressão de fonema no interior do vocábulo ;

pro (= para o); pra (= para )

 

Áferese:

 

 

Supressão de fonema no início do vocábulo ;

Rubin > querubim ; te > até

 

metafonia

 

 

Influência da vogal tônica sobre a da sílaba anterior

vomo

 

elisão condicionada

 

 

Desaparecimento de vogal final quando o vocábulo seguinte começa por vogal .

num (< em um ) → elisão ou

 

Vocalização das palatais

 

 

Mutação fonética que consiste na aproximação articulatória entre um fonema consonantal e um vocálico . Via de regra , dá-se no contato com a vogal palatal /i/.

chucaiá ( < chocalhar ) palatização vocálica como recuperação de forma antiga

A forma de que derivaria chocalhar é chocalho [9] ( choca + -alho[10]). Por sua vez , o grupo lh- teria sido resultado da evolução do grupo ly- ( SILVEIRA , op. cit) /lJ/, conforme filyu > filho , palea > *palia > palha . Portanto , a forma chucaiá, denota a recuperação do /J/ da forma latina /lJ/.

falso aportuguesamento

 

 

Recusa de padrões aparentemente alheios ao do português .

toco [] > toque

A semelhança do tema em -e com galicismos , como nuance , vedete , etc.) motiva a recusa de vocábulos com este tema e promove a adaptação ao padrão geral ( temas em –a e –o) da fala popular .

Apócope

 

 

Supressão de fonema no final do vocábulo

istei (= esteios ) — documenta a prevalência do modelo paroxítono ( grave ) da língua portuguesa e o conseqüente apagamento da sílaba átona final .

 

Neste caso o apagamento é acentuado pela sistemática recusa da marcação redundante do plural em sintagmas nominais como os istei (< os esteios ).

Quadro 3 – Fatos dialetais

Fato lingüístico Exemplos textuais Comentário e abonações

Exclusão da marcação redundante [11] do plural :

 

 

O uso popular e o caipira tendem a reduzir a marcação do plural . Para tais falantes , basta marcar uma forma , geralmente o determinante .

dos ano ; dos camin (= dos caminhos ); as patra (= as pátrias ); contas lũa (= quantas luas ); dos coro (= dos couros ); os outro ; os istei (os esteios ); c’as voiz (= com as vozes ); dos truvão; muitos mili (= muitos mil ); nos alto céus

1. A marcação da flexão nos sintagmas segundo a norma padrão se faz redundante . Segundo a regra geral , em um SN, determinante (s) e determinado devem estar no mesmo gênero e número .

 

2. Há um uso específico para formas do plural de substantivos como trevas , céus , ares , cuja significação não é a de número (os nomes designam coisas incontáveis ), mas de amplitude . (cf. Câmara ( CÂMARA JR., 1973: 82.)

 

EXCEÇÕES : dos véus / nos alto céus / homes maus /

Nestes sintagmas o plural se realiza no modelo padrão ; é ícone da retomada da fala formal , imitando o texto bíblico, ouvido nos ofícios litúrgicos .

Redução do –ndo[12] do gerúndio

 

 

Síncope do /d/ por força da nasal que evolui da condição de travador para a de inicial de silaba complexa aberta , recuperando o padrão geral : cV ( consoante + vogal ).

prissiguino; ritirano; abaldonano; vino

Redução da marca morfêmica do gerúndio –nd para n- (escreveno por escrevendo); ( MATOS E SILVA, 1997: 57)

Opção pela variante –im

 

 

Coexistem historicamente no português as formas –inho e –im oriundas da forma latina –inu.

camin

Nos usos caipira e regional nordestino prevalece a forma –im.

Perda do travador consonantal vibrante velar /R/

 

 

A atuação da lei do menor esforço (cf. COUTINHO, 1974: 173,§ 191) promove a queda de fonema complicador da pronúncia .

dá - isperá – passá – chucaiá – julga → formas verbais

Os usos popular e caipira tendem a enfatizar a tonicidade da vogal , apagando o travador vibrante alveolar /r/.

dô (= dor ); lugá (= lugar ) → substantivos

Registro gráfico da neutralização das vogais média e alta

 

 

O uso não padrão apresenta a tendência à anulação da oposição fonológica entre /E/ e /i/ bem como entre // e /u/, em posição pretônica, realizando-se um arquifonema /I/ ou /u/, conforme o caso .

1. pru - cum – chucaiá - truvão

 

2. qui - isperá - ritirano – ritirante - ritirano – prissiguino

 

Lexicalização

 

 

Processo de produção involuntário de criação de unidades novas pela coalescência de palavras habitualmente reunidas no discurso , conforme ( ASSUNÇÃO JR., 1986: 129).

Tal processo pressupõe necessariamente uma construção sintática que lhe serve de base . A documentação do fenômeno se dá diante da coexistência no mesmo estágio da língua da forma nova com o sintagma que lhe dera origem .

vai-num-torna

A expressão vai-num-torna, presente no refrão do texto em estudo , demonstra uma lexicalização complexa onde formas verbais se combinam com o advérbio não — grafado num — e geram uma forma substantiva correspondente à noção de morte , fim .

Quadro 4 – Criação poética

Neologismo prosódico :

 

 

Alteração da posição do acento tônico , criando uma forma paralela para o vocábulo em benefício da rima .

ispirito

(= espírito )

Escrita sem acento gráfico para indicar mudança de prosódia por necessidade rítmica.

 

3.3. A propósito da iconicidade das formas

Observados o levantamento e o comentário das formas lingüísticas do texto , torna-se possível perceber que o estudo dos textos não se resume a uma classificação gramatical dos termos de cada enunciado . Ao texto subjazem conteúdos socioculturais vastíssimos que devem ser considerados durante e leitura , pois deles depende a construção do sentido textual .

Por isso , venho perseguindo um raciocínio mais amplo que o gramatical , o semiótico, focalizando os signos que se combinam na superfície dos textos como produto de escolhas pessoais orientadas por dados epistemológicos de alta relevância . Isto porque a produção sígnica — antes da textual — é resultado de operações mentais complexas que se fazem representar nos textos em níveis diversos . São ícones , índices e símbolos que se manifestam nas seleções lexicais , por exemplo .

Em se tratando de texto que traz à cena a representação particular de uma paisagem conhecida por estereótipos , cumpre que o autor eleja formas bastante significativas dos traços que deseja ressaltar , caso contrário , a imagem estereotipada abafará o quadro pretendido, e a interpretação do texto será empobrecida. Para que se construa um texto “ com cores fortes ” é preciso produzir iconicidade no mapeamento dos signos na superfície textual . Isto decorrerá da seleção e combinação estratégicas de unidades léxicas que funcionarão, em princípio , em três níveis : a) icônico – produzindo imagens no plano da captação; b) indicial — gerando pistas indutivas no plano da reflexão ; c) simbólico — produzindo generalizações metafóricas ou metonímicas, no plano da sistematização.

Na presente análise , apontarei apenas marcas lexicais icônicas, pois esta explnação já se mostra extensa em relação à sua natureza : uma comunicação acadêmica de 15 minutos . Então , as unidades lexicais consideradas ícones são :

a)      da religiosidade: Deus / Anjo da Morte / vai-num-torna / fregela / fome / peste / morte / dô / céu istralô / voiz dos truvão / Rei da Guerra / Rei da Glora / mili anjo / alto céus / Terra / Rubin trombetêro / véus

b)      da sertanidade: sorte / corte dos camin / ritirano / sertão / chuva / lũa / ispirito errante / cavêra ritirante / coro / fome / peste / morte / dô / irirmão

Observe-se que fome / peste / morte / dô são conjunto interseção entre os dois eixos temáticos , promovendo assim a coesão textual e garantindo a orientação do leitor até a mensagem básica do texto : o retirante e as mazelas do seu penar na direção da vida eterna .

A escolha dos textos de Elomar pela abundância de fatos lingüísticos depreensíveis na superfície textual ( para além das questões gráficas ), materializa fatos fônicos, mórficos, sintáticos , semânticos e estilísticos e propicia um passeio produtivo pelo vernáculo . Fatos que ficam restritos a comentários de natureza diacrônica vêm à tona num texto contemporâneo , demonstrando que a mutabilidade é um fato constante nas línguas vivas .

Veja-se o excerto :

Não há, afirma Rui Barbosa, língua definitiva e inalteravelmente formada. Todas se formam, reformam e transformam continuamente. Quem o não sabe? Que homem de medianas letras hoje o ignoraria? (In Barbosa, Rui, " Réplica ". Imprensa Nacional , Rio , 1904.)

Reações às mudanças lingüísticas que ocorrem quer por força da dialetação quer por entrada de novas formas ( neologismos , empréstimos , etc.) não têm cabimento , pois a língua é símbolo da trajetória humana pela vida e pela cultura . Logo , a língua retrata as mutações provocadas pelo espírito dos tempos .

Creio ser possível concluir este ensaio , asseverando a qualidade textual da página analisada, e supondo ter podido sugerir uma forma a um só tempo rica e compacta de estudarem-se pontos complexos da língua portuguesa, aliando sincrônico e diacrônico na tentativa de uma análise universalizante do fenômeno lingüístico . Ao lado disso, foi possível fazer algumas incursões históricas que demonstram a igual importância dos domínios lingüístico e enciclopédico para a produção textual .

 

BIBLIOGRAFIA

ASSUNÇÃO Jr. Antônio Pio de. Dinâmica léxica portuguesa. Rio de Janeiro : Presença , 1986.

BECHARA, Evanildo. Ensino da gramática . Opressão ? Liberdade ? São Paulo: Ática, 1985.

Bíblia Sagrada (A). Ed. rev. e corr.. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

CÂMARA Jr. J. M. da. Estrutura da língua portuguesa. 4ª ed. Petrópolis: Vozes .

COUTINHO, Ismael de Lima . Gramática histórica . 7ª ed. Rio de Janeiro : Livraria Acadêmica , 1974.

CUNHA , Antonio Geraldo da. Índice analítico do vocabulário de Os Lusíadas . 2a ed. Rio de Janeiro : Presença /INL-MEC, 1980 [p. 124].

HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Eletrônico Houaiss. Versão digital . Rio de Janeiro : Objetiva , 2001.

MALMBERG, Bertil. A língua e o homem . São Paulo: Nórdica ; Duas Cidades , 1976, [p. 82-3]

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Contradições no ensino do português . São Paulo: Contexto , 1997.

SÉGUIER, Jayme (dir.) Dicionário Prático Ilustrado. Porto , Lello & Irmãos , 1964.

SILVA, Ademar da. Alfabetização: a escrita espontânea . São Paulo: Contexto , 1991.

SIMÕES, Darcilia. Fonologia em nova chave . Texto-base para a Especialização em Língua Portuguesa do Instituto de Letras – UERJ, 2002.

SILVEIRA , Sousa da. Lições de Português , 9ª ed. Rio de Janeiro : Presença / Pró Memória /INL/UFF, 1983 [p. 287, § 568].



[1] Quanto ao termo sertaneza, recomendo a leitura de outro estudo — Elomar e a língua sertaneza — apresentado no V SENELP — Seminário Nacional de Língua Portuguesa — URI - Campus de Erechim/RS, ago/02.
[2] Gravado no Auditório do Centro de Convenções da Bahia em dez /1980– AFCD 700412 – Participação da Orquestra Sinfônica da Bahia e Regência de Lindebergue Cardoso. Edição : Fundação Cultural do Estado da Bahia.
[3]  substantivo feminino – 1. Rubrica : ortografia . - conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa que ensina a grafia correta das palavras , o uso de sinais gráficos que destacam vogais tônicas , abertas ou fechadas, processos fonológicos como a crase , os sinais de pontuação esclarecedores de funções sintáticas da língua e motivados por tais funções etc. {Houaiss, s.u.}
[4] dialeto . Rubrica: filologia, lingüística. Diacronismo: obsoleto. língua que, embora tenha literatura escrita, não é língua oficial de nenhum país (p.ex., o catalão, o basco, o galego etc.) 5.Rubrica: filologia, lingüística. Diacronismo: obsoleto. {Houaiss, s.u.}

variedade regional de uma língua cujas diferenças em relação à língua padrão são tão acentuadas que dificultam a intercomunicação dos seus falantes com os de outras regiões (p.ex., siciliano, calabrês)

[5] querubim - lat. cherùbim ou cherùbin ' espírito celeste de primeira hierarquia ', pl. de chèrub, do heb. kerúbim, pl. de kerúb; f.hist. sXIII cherubin, sXIV cherobim, sXIV cherubijs, sXIV cherubym, sXIV cherubyys. {Houaiss, s.u.}
[6] Sousa da Silveira , op. cit., p. 116. O –ll- representam o –l- palatizado, como em villa, stilla.
[7] Assim o –r- de estrela provém da analogia com astro . cf. Coutinho, op. cit. p. 154, § 248.
[8] (...) o redobro da sílaba inicial ou da sílaba tônica é fonte em português de expressividade afetiva : 1) na antroponímia ()...) formações essas que se podem referir a pessoas tanto do sexo masculino quanto do feminino ; a documentação literária é rica , iniciada no sXVI e em intensificação desde então , aparentemente mais fecunda no Brasil que em Portugal 2) paralelamente , o vocabulário comum acusa, em menor intensidade , o mesmo tipo de formação , já para a linguagem infantilizante e infantil , já para eufemismos ligados ao corpo e suas secreções ou excreções , já para afins tabuísticos em geral - cacá, cocô , quiqui, pipi , popô, pupu, babá , bebê , bebé, bubu , bumbum , dadá, mãmã, memé, pumpum, fiofó, gugu, lamelame, naná, papá, papaio, dandá, titi, titio , titia , venvém - quando ocorrem formas muito próximas, por vezes , de onomatopéias ou meros estímulos articulatórios. (HOUAISS, s.V.)
[9] -alho. terminação - de diversas form., não raro do lat. -aculu- ou -aliu-, ocorre com caráter sufixal: 1) em vocábulos de etim. ainda obscura ou não óbvia para o usuário sem senhorio metalingüístico: almalho, assoalho / soalho , bisalho, bugalho , camalho, caralho, carvalho , cigalho, frangalho , gastalho, mexoalho, negalho, orvalho , pacalho, paspalho , pirralho , sangalho, sarrabalho, tarangalho, tragalho, trangalho, trogalho, zangaralho; 2) em que o caráter sufixal é evidente , em função da evidência tb. do rad. de base , quando conota já diminutivos , já aumentativos (p.ex., ramalho ), já outra coisa , isto é, conexão com o derivante de tipo comparativo mas com indicação de outro referencial: bandalho , barbalho, borralho (soborralho), cabeçalho , cascalho ( cruzamento ), chocalho , cibalho, ciscalho, escovalho, escumalho, esfregalho/ esfregão ( troca de sufixos ), espantalho , mangalho, migalho ( migalha ), mimalho, miuçalho ( miuçalha ), parvoalho, pendericalho/penderucalho/ penduricalho /pendurucalho, podricalho, politicalho, ramalho , rebotalho , remoalho, rengalho, rimalho, vergalho , viscondalho; 3) como suf. eufêmico para evitar pal. tabu : dialho. (HOUAISS, s.v.)
[10] Para José Oiticica , o sufixo – alho é uma variante masculina de – alha , que indica, coleção , quantidade , grandeza ( muralha , limalha , batalha ) e tem, às vezes , sentido pejorativo : gentalha , parentalha. cf. Coutinho, op. cit. p. 167-8, § 290.
[11] É possível encontrar-se não só nas composições de Elomar, como na de outros sertanejos e na fala geral popular alguma oscilação entre a marcação /não-marcação redundante do plural . Um motivo já foi dado : a imitação da fala religiosa , ao repetir expressões típicas do texto bíblico, por exemplo . Outro motivo pode ser o desejo inconsciente de adquirir o modelo de prestígio , representado na fala dos professores , pastores , padres , pessoas de maior poder aquisitivo, etc.

[12] Esta tendência não se reduz ao gerúndio , ocorre também em outras classes . Vemos em outras letras do mesmo poeta : Foi cuano ia atravessano a rua (In “ Chula no terreiro ”); isso se deu cuano moço (In “ Cantiga do Estradar ”); Cuano a amada e esperada trovoada chega (In “ Campo Branco ”), etc.